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E-DIALOGUE

cConference m i s Mondiale Instituts Seculiers

Nr 8 ano 2011

SUMÁRIO Vida da Igreja . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 Mensagem do Santo Padre para o Dia mundial das vocações Mudanças na diretoria da CIVCSVA Vida da CMIS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 Notícias Carta do presidente Dos Institutos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 Agneau de Dieu Militantes de la Sainte Vierge Missionarie del Sacerdozio Regale di Cristo CNISF FECIS COMIS ACSI CIIS Testemunhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 O clamor dos pobres A mala sempre pronta O celibato na sequela Christi Viagem de conhecimento missionário Mártir da justiça e da fé Para refletir . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 No oásis de Rafidim «Confio-vos à Palavra...»


Vida da Igreja MENSAGEM PARA O XLVIII DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES 15 DE MAIO DE 2011 – 4º DOMINGO DE PÁSCOA Tema: «Propor as vocações na Igreja local»

Mudanças na diretoria da CIVCSVA O Santo Padre aceitou a renúncia apresentada, por limites de idade, pelo Eminentíssimo Senhor Cardeal Franc Rodé, ao cargo de Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, chamando a suceder-lhe neste mesmo encargo Sua Excelência D. João Braz de Aviz, até à presente data Arcebispo de Brasília. S. Ex.cia D. João Braz de Aviz S. Ex.cia D. João Braz de Aviz nasceu em Mafra, na Diocese de Joinville, SC (Brasil), no dia 24 de abril de 1947; depois de ter frequentado os estudos filosóficos no Seminário Maior «Rainha dos Apóstolos» em Curitiba e na Faculdade de Palmas, PR, completou os estudos teológicos em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, aí obtendo a Licenciatura, e na Pontifícia Universidade Lateranense onde, em 1992, se formou em teologia dogmática. Tendo sido ordenado Sacerdote no dia 26 de novembro de 1972, e incardinado na Diocese de Apucarana, PR, desempenhou o próprio ministério como Pároco em várias paróquias, como Reitor dos Seminários Maiores de Apucarana e de Londrina, e como Professor de teologia dogmática no Instituto teológico «Paulo VI» em Londrina. Foi também Membro do Conselho presbiteral e do Colégio dos Consultores, assim como Coordenador-Geral da pastoral diocesana de Apucarana. No dia 6 de abril de 1994 foi nomeado Bispo Titular de Flenucleta e Auxiliar da Arquidiocese de Vitória, ES, e recebeu a Ordenação episcopal em 31 de maio desse mesmo ano. Tendo sido transferido para a Sede residencial de Ponta Grossa, PR, a 12 de agosto de 1998, foi promovido ao Arcebispado de Maringá em 17 de julho de 2002 e, sucessivamente, nomeado Arcebispo de Brasília, a 28 de janeiro de 2004. No mês de maio de 2010 organizou o XVI Congresso Eucarístico Nacional, em coincidência com o 50º aniversário da Capital Federal. Esta nomeação teve lugar a seguir à nomeação do Secretário, ocorrida a 2 de agosto de 2010. O Santo Padre Bento XVI nomeou Secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, o Rev.do Padre Joseph William Tobin, C.SS.R., simultaneamente eleito Arcebispo Titular de Obba.

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Rev.do Pe. Joseph William Tobin, C.SS.R. O Rev.do Pe. Joseph William Tobin, C.SS.R., nasceu em Detroit, Wayne Country, Michigan, nos Estados Unidos da América, no dia 3 de maio de 1952. No final do caminho de formação, emitiu a Profissão temporária no dia 5 de agosto de 1972 e a perpétua em 21 de agosto de 1976, tendo recebido a Ordenação sacerdotal no dia 1º de junho de 1978. Em 1975 obteve o Bacharelado em Filosofia no Holy Redeemer College, em Waterford (Wisconsin); em 1977, o Master of Religious Education e, em 1979, o Master of Divinity (teologia pastoral) no Mount Saint Alphonsus Major Seminary (New York). De 1979 a 1984 foi Vigário paroquial da Holy Redeemer Parish, em Detroit. Nessa mesma Paróquia desempenhou, em seguida, o ministério de Pároco de 1984 a 1990. De 1990 a 1991 foi Pároco da Saint Alphonsus Parish, em Chicago (Illinois) e Vigário episcopal para a Arquidiocese de Detroit, de 1980 a 1986, tendo oferecido a sua colaboração também ao Tribunal diocesano. Foi nomeado Consultor-Geral dos Padres Redentoristas em 1991 e, a 9 de setembro de1997, Superior-Geral, depois reconfirmado neste cargo em 26 de setembro de 2003. Nesse mesmo ano tornou-se Vice-Presidente da União dos Superiores-Gerais. Além disso, de 2001 a 2009 foi membro do Conselho para as relações entre a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e as Uniões Internacionais dos Superiores-Gerais e das Superioras-Gerais. Conhece o inglês, o espanhol, o francês, o italiano e o português. a tudo isto acrescenta-se a nomeação do Bispo de Tarazona (Espanha). O Santo Padre nomeou Bispo de Tarazona (Espanha), o Rev.do Pe. Eusebio Hernández Sola, O.A.R., Chefe de Departamento da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.

Rev.do Pe. Eusebio Hernández Sola, O.A.R. O Rev.do Pe. Eusebio Hernández Sola, O.A.R., nasceu em Cárcar (Navarra, Espanha), na Arquidiocese de Pamplona y Tudela, a 29 de julho de 1944. Com 12 anos de idade entrou no Seminário dos Agostinianos Recoletos, em Lodosa (Navarra) e completou os estudos secundários e filosóficos no Colégio da mesma Ordem, em Fuenterrabía (Guipuzcoa). Fez o noviciado em Monteagudo (Navarra), e emitiu a profissão temporária no dia 30 de agosto de 1964, continuando os estudos teológicos em Marcilla (Navarra). Ainda em Marcilla, emitiu a profissão solene no dia 30 de agosto de 1967 e foi ordenado sacerdote em 7 de julho de 1968. Obteve a licenciatura em Direito Canônico na Pontifícia Universidade de Comillas (1971) e em Direito Civil na Universidade Complutense de Madrid (1974). Depois de ter desempenhado a função de professor de Direito Canônico durante um ano na Casa de Estudos Teológicos Agostinianos em Marcilla, desde 1974 até à presente data trabalhou ao serviço da Santa Sé, na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e a partir de 1995 com a qualificação de Chefe de Departamento.

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VIDA DA CMIS A presidência da CMIS reuniu-se no dia 15 de novembro de 2010. E sucessivamente a 22 de janeiro de 2011, fixando a próxima reunião para o dia 5 de março de 2011. Examinou questões urgentes, relativas: 1. à realização do próximo congresso; 2. à tentativa de substituir a secretária; 3. ao desejo de publicar uma revista de aprofundamento; 4. à revisão dos Estatutos, como tinha sido decidido durante a última assembleia. A propósito do congresso, definiu o tema, o programa e o método de trabalho para sua realização. Além disso, encontrou os relatores que serão envolvidos e dos quais estamos à espera de uma resposta. Assim que for possível, enviaremos o programa a todos. No que se refere à mudança de Secretária, apesar da numerosas perplexidades existentes, todavia o presidente decidiu proceder com a consulta do conselho executivo sobre a possível mudança de secretária, propondo uma candidatura que apresentava diversos requisitos exigidos. O conselho afirmou que é difícil realizar a mudança, considerando que já estamos muito próximos da realização da assembleia e do congresso, e sobretudo porque estamos na presença de uma sobrecarga de trabalho na presidência, devido aos múltiplos níveis de projetos em fase de execução. Pediu-se à atual secretária que prolongue sua disponibilidade e que adie a procura de uma nova secretária, para garantir um tempo côngruo de inserção para o conhecimento do trabalho. No que se refere à revista, decidiu-se diferir a questão e utilizar da melhor maneira os recursos atualmente disponíveis, como o boletim e-dialogue e o próprio site da web. Quanto à revisão dos Estatutos, a presidência pôde examinar uma primeira proposta da comissão ad hoc constituída e depois dar mandato para as possíveis integrações. Decidiu-se que assim que for possível será enviada uma cópia da mesma aos conselheiros, para que tenham a possibilidade de a avaliar e/ou integrar. Considerando que já chegamos à metade do mandato, a presidência decidiu apresentar ao conselho um relatório sobre a primeira metade do percurso até aqui feito e depois dar início a uma reflexão acerca do mandato recebido pela assembleia e sobre sua realização. O conselho executivo reunir-se-á nos próximos dias 8-10 de abril, na Casa La Salle em Roma. Tomamos conhecimento de que, no dia 22 DE FEVEREIRO DE 2011, o Santo Padre: - Nomeou o Bispo D. Gérald Cyprien Lacroix, I.S.P.X., Arcebispo Metropolitano de Québec (superfície: 35.180; população: 1.192.108; católicos: 1.027.166; sacerdotes: 737; religiosos: 3.515; diáconos permanentes: 91), no Canadá. O Arcebispo eleito, até agora Auxiliar de Québec (Canadá), nasceu em Saint-Hilaire de Dorset (Canadá), no ano de 1957, emitiu os votos perpétuos em 1982, foi ordenado sacerdote em 1988 e recebeu a ordenação episcopal em 2009. Atualmente, o novo Arcebispo é membro do conselho executivo da CMIS.

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CARTA DO PRESIDENTE Provavelmente quando este boletim chegar às vossas casas já teremos em Roma o novo Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Depois de sete anos passados como arcebispo de Brasília, D. João Braz de Aviz vem a Roma para assumir a presidência da Congregação, para cujo cargo foi designado pelo Papa Bento XVI no dia 4 de janeiro passado. D. João ocupará o cargo deixado pelo cardeal Franc Rodé, que apresentou a renúncia por limite de idade, como previsto pelo Código de Direito Canônico. D. João será o 22º prefeito do dicastério, fundado pelo Papa Sisto V no dia 27 de maio de 1586 com o título de «Sacra Congretatio Super Consultationibus Regularium». Em 1988, através da Constituição Apostólica «Pastor Bonus», o Papa João Paulo II instituiu o nome de Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Aproveito estas linhas para agradecer ao cardeal Rodé os anos de dedicação e de serviço à Congregação, e de modo especial aos Institutos Seculares. E, ao mesmo tempo, saudamos e damos as boas-vindas ao novo Prefeito. Do coração do mundo, que é o lugar em que vivemos a nossa vocação secular, desejamos-lhe o melhor e esperamos que esta seja também a ocasião para um renascimento esperançoso da vida consagrada. A vida consagrada é um dom de Deus para a Igreja e para o mundo. São muito expressivas e esclarecedoras as palavras de Bento XVI, na mensagem que será lida no Dia Mundial de Oração pelas Vocações: «A proposta, que Jesus faz às pessoas, ao dizer-lhes: “Segue-me!”, é exigente e exaltante: convida-as a entrar na sua amizade, a escutar de perto a sua Palavra e a viver com Ele; ensina-lhes a dedicação total a Deus e à propagação do seu Reino, segundo a lei do Evangelho: “Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24); convida-as a sair da sua vontade fechada, da sua ideia de auto-realização, para se inserir em outra vontade, a de Deus, deixando-se guiar por ela; faz-lhes viver em fraternidade, que nasce desta disponibilidade total a Deus (cf. Mt 12, 49-50) e se torna o sinal distintivo da comunidade de Jesus: “O sinal por que todos vos hão de reconhecer como meus discípulos é terdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35)». Contudo, também nos recorda que nunca nos esquecemos do essencial. A vocação é uma dádiva gratuita do Senhor. «As vocações ao ministério sacerdotal e à vida consagrada são fruto, primariamente, de um contato constante com o Deus vivo e de uma oração insistente que se eleva ao “Dono da messe”, quer nas comunidades paroquiais, quer nas famílias cristãs, quer nos cenáculos vocacionais». Peçamos, pois, ao Senhor que continue a dirigir seu apelo e que nos faça perseverar.

Dos Institutos: I Agneau de Dieu – pediu para aderir à CMIS e estamos felizes por acolher e compartilhar a experiência comum.

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I Militantes de la Sainte Vierge Prepara-se para celebrar os 50 anos de fundação, no dia 7 de julho de 2012, e envolve todos em orações e apoio. O Instituto nascido no Burundi em 1962, um dos poucos de origem africana, continua sua obra de compromisso e de missão no meio das populações; enquanto se preparam as celebrações, pedem para acompanhar sua festa com ações de graças, orações, súplicas, pedidos de perdão pelas faltas cometidas e um renovado pedido de fidelidade pelo Reino. I Missionarie del Sacerdozio Regale di Cristo Celebra o centenário do nascimento de Ezia Fiorentino, co-fundadora do Instituto, juntamente com o cardeal Schuster, e desenvolve uma série de eventos como memórias evocadoras que vão da apresentação do livro de Ezia Fiorentino «Bruciamo d’amore», no dia 12 de fevereiro de 2011, à celebração de uma santa missa no aniversário de falecimento, a 19 de março, à adoração eucarística no aniversário de fundação do Instituto, em 12 de junho, ao congresso sobre a figura, a obra e os âmbitos de compromisso da Doutora Ezia Fiorentino, a 3 de dezembro de 2011. Os eventos celebram-se sob o patrocínio da cúria arquiepiscopal de Milão.

CNISF – nos dias 16-17 de abril de 2011 terá lugar a assembleia geral dos Institutos Seculares da França.

FECIS – Realizou-se em Bogotá, na sede da Conferência Episcopal da Colômbia, de 30 de outubro a 1º de novembro de 2010, o primeiro encontro nacional dos Institutos Seculares da Colômbia. Estavam presentes 15 Institutos, representados por 35 pessoas. Na conclusão, eles enviaram uma mensagem às jurisdições eclesiásticas colombianas em que, prestando conta do trabalho por eles realizado, quiseram manifestar determinadas inquietações: – Os institutos seculares fazem parte dos institutos de vida consagrada, assim como dos institutos religiosos, do mesmo ordenamento canônico da Igreja (cf. câns. 710-730). – A consagração secular é uma vocação pouco conhecida, que tem necessidade de ser valorizada e divulgada. Não é correto denominá-la como «leigos comprometidos». – «Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. Tua palavra é a verdade» (Jo 17, 1517).

COMIS – De 13 a 15 de novembro de 2010 realizou-se a XXII assembleia geral dos Institutos Seculares do México, em Guadalajara (Jalisco).

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I ACSI (Asian Conference of Secular Institutes) – Realizou em Bangkok seu 10º encontro, de 27 a 30 de dezembro de 2010, em que o Prof. Tresalti participou como conselheiro permanente. Foi eleito novo presidente de tal Conferência Ivan Netto, do Instituto Secular Cristo-Rei. O conselho de presidência enviou uma carta de bons votos para essa importante ocasião, que vê o nascimento da Conferência Asiática dos Institutos Seculares, experiência que acompanha a outra já histórica da CISAL, para a América Latina. Também nós saudamos a despedida silenciosa de Caterina Caminati, responsável do Instituto Santa Catarina de Gênova e, nos últimos seis anos, presidente da Conferência italiana. A CIIS está de luto. Caterina Caminati, presidente nacional durante os últimos seis anos, deixou-nos nos dias passados, sem que nenhum de nós, no último momento, estivesse ao seu lado. E no entanto, todos nós lhe devíamos algo. A conta ficou aberta. Não consigo imaginar Caterina morta, porque a morte já tinha entrado havia muito tempo na sua vida, e dela fazia parte íntima e serenamente. Aquilo que afinal lhe interessava era a vida, embora a vida trouxesse dentro de si a morte. O limite. Há alguns anos, um mal difícil tinha manifestado seus primeiros sintomas. Para ela começava assim um calvário doloroso, que Caterina enfrentou com uma força de espírito exemplar, uma paciência infinita, uma confiança tenaz. Agora que ela já se foi, como a podemos recordar? Ela tinha paixão pela cultura e pelo social. Sua paixão e seu compromisso não se esgotavam na ação: iam mais além, na busca de um novo humanismo, que constituísse sua própria razão de ser. Sua exemplaridade consistia em uma soma de qualidades que lhe reconhecíamos sem reservas. Caterina Caminati era bondosa: era justa ao julgar os acontecimentos da vida, porque tinha acumulado uma grande experiência; era inteligente ao captar o cerne das questões, com uma intuição feminina; era hábil no seu estilo direto, ágil e espontâneo, em que sua cultura transparecia sem fazer pesar o discurso. Sentimos um certo embaraço ao escrever estas coisas, porque talvez ela não as aprovasse. Corrigiria algo e terminaria por dar-nos uma lição adequada. É a hora de aceitar o fim do nosso percurso de vida, que é a morte, reconhecidos ao Senhor pelos dias que nos concedeu viver: Ele fez isto para que O amássemos e O servíssemos nos irmãos. A esta atitude de aceitação não se chega com facilidade. A vida foi-nos concedida, e é com grande serenidade que nos devemos preparar para lhe restituir a mãos-cheias, repletas das obras levadas a cabo mediante a graça de Deus. O Senhor, que nos escolheu e nos desejou, está à nossa espera. Eis as palavras que ela dirigiu aos responsáveis dos Institutos seculares da região da Lombardia, em 2008. Vimo-la pela última vez em Sassone, na Assembleia de maio, no final do seu mandato. Estava cansada. Despediu-se de nós segundo seu estilo pessoal, silencioso e ao mesmo tempo eloquente. Verdadeiramente... a Deus! Até mais, Caterina! Neste momento de dor, a Redação da Revista e toda a CIIS estão próximas de Maria Luisa, dos seus familiares e de todo o seu Instituto. Tirado de: Encontro, n. 6, 2010. E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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TESTEMUNHOS O CLAMOR DOS POBRES NO HAITI Dez meses depois do terremoto, o Haiti continua seu calvário. Em luta pela sobrevivência, reconstrói-se apesar das numerosas dificuldades e dos grandes sofrimentos. Mas ao mesmo tempo, permanece determinada na fé, na esperança e na luta contra todos os problemas que deve enfrentar, tanto antigos como mais recentes. Neste momento, a cólera constitui uma forte ameaça para a população, que se encontra indefesa e sem recursos para enfrentar esta epidemia. As notícias difundidas pelos meios de comunicação fazem-nos participar um pouco nos grandes desafios do país e nós gostaríamos de mostrar o sopro da vida quotidiana de um povo pobre e humilde, o fogo do amor de alguns coirmãos que arrebataram nosso coração. Eles escolheram entregar inteiramente sua vida ao serviço de Cristo e do seu povo. Jean Lérius narranos como se dedica ao serviço da reconstrução e como orienta a população, depois dos furacões Hanna e Hyke. Além disso, Pe. Daniel Romulus, presbítero haitiano de nascença e incardinado em Guadalupe, acaba de chegar ao Haiti como sacerdote Fidei Donum; ele está comprometido, ao mesmo tempo, na formação e na animação do Prado do Haiti. Pe. Daniel descreve-nos sua chegada a Port-au-Prince como uma imersão surpreendente na pobreza e na miséria. Quanto a nós, conseguimos sentir claramente sua alegria extraordinária e a ação de graças que ele eleva ao Senhor, a quem agradece poder participar em tal situação e na sorte desta população. Durante seu caminho, ele compreendeu como a Palavra encarnada se humilhou a si mesma. Paulo fala-nos disto na sua carta aos Filipenses: Ele despojou-se, assumindo a condição de servo... Humilhou-se, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz (cf. Fl 2, 7-8). Eis seu bonito testemunho: Encontro-me no Haiti desde 30 de setembro, como previsto, e consegui aceder ao serviço da internet. Posso dizer que vivo sem uma morada fixa. Encontrei-me com o pároco e concordamos sobre o ministério que devo exercer na paróquia de Gressier. Empenhei-me igualmente em celebrar a missa em um hospital, onde são internadas as pessoas mais pobres, atingidas pela Aids e por outras enfermidades infecciosas. Realizamos nosso primeiro encontro de grupo no dia 8 de novembro de 2010, em Artibonite. Posso contar com um sacerdote, além de outros dois que ouvi por telefone, que desejam conhecer o Prado; vou encontrar-me com eles no dia 29 do corrente mês. Na diocese, todos lutam pela sobrevivência; com efeito, passo três dias por semana no presbitério e em outras ocasiões passo o tempo com minha sobrinha. Moro dentro de uma cisterna, onde eu recolhia a água da chuva antes do terremoto. Tenho a intenção de a arrumar um pouco, mas... Minha primeira noite no presbitério foi um autêntico pesadelo: a terra tremia e, ao mesmo tempo, estava chovendo. O jovem que me ajudava a montar a tenda disse-me que esta era boa para proteger do sol, mas não contra a chuva. E não passou muito tempo antes que eu pudesse viver pessoalmente esta experiência. Contudo, sinto-me feliz por estar no meio desta população e de poder experimentar aquilo que ela mesma vive. Uma tarde, tive que dobrar meus panos em oito

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partes para proteger minhas pernas contra a chuva, e dei graças ao Senhor, que me permitiu viver durante uma noite inteira aquilo que numerosos haitianos vivem todos os dias. Outra alegria profunda foi a primeira missa à qual presidi, tendo a mesma sido animada por um coral de crianças, que cantavam bem e forte! Escrevo esta missiva à luz de uma lâmpada de bolso, ou somente com a iluminação que provém do computador. Mas mantenho o moral alto. E eis que, ao dizer isto, a luz volta a acender-se! Portanto, vejo que o Senhor cuida de mim; não posso deixar de lhe dar graças por isto. Como o Senhor é bom! E sei que posso esperar ainda mais dele. Daniel ROMULUS Tirado de: Prêtres du Prado, n. 107.

A mala sempre pronta (com um livro humorístico)

Giuseppe Boldon Zanetti

Quando me aconteceu pela primeira vez, os médicos avisaram-me que com muita probabilidade isto voltaria a verificar-se, sem pré-avisos particulares; não se podia dizer quando, nem como. E disse-me que eu não me devia preocupar, mas simplesmente pegar na minha malinha e ir ao hospital para os cuidados reservados para tal caso. Com efeito, foi assim que aconteceu. A mais de um ano de distância, repentinamente, em uma tarde (eu estava na igreja, la localidade de San Donato Milanese, para rezar), senti que algo não funcionava: o coração começou a bater forte e senti um grande cansaço. Toquei o pulso e, por mais ignorante que seja, entendi que o coração não batia segundo seu ritmo regular: pom, pom, pompom, pompom... Compreendi que a fibrilação atrial tinha chegado. Levantei, voltei para casa para medir minha pressão e as batidas cardíacas; mas a máquina não era capaz de me dar tais indicações, o que é um sinal evidente de que não conseguia reconhecer o ritmo. Melancolicamente peguei na minha malinha, dentro da qual coloquei poucas coisas necessárias que, como bom solteiro que sou, mantenho sempre ao meu alcance (especialmente depois do primeiro episódio) e, dado que me sentia forte, fui de carro até Novara onde mora meu irmão, que me acompanhou ao seu médico, o qual «confirmou meu diagnóstico», e em seguida acompanhoume ao pronto-socorro. Fizeram-me imediatamente os vários exames de rotina (eletrocardiograma, análise do sangue, radiografia etc.) e depois deram-me soro à base de cordarone, para normalizar o ritmo cardíaco. Entretanto, eu aguardava que o efeito passasse. Compartilhei meu quarto com um homem de setenta anos de idade, também ele em fibrilação (mas por causa de uma operação no coração, realizada pouco tempo antes). Trocamos algumas palavras, e até chegamos a brincar sobre nossa condição, mas não muito: na realidade nenhum de nós tinha vontade de falar. Fiz alguns telefonemas aos irmãos, para tranquilizá-los, e depois caiu a noite, o silêncio. Veio ao meu pensamento o Cura d’Ars que, quando viajava (a pé) rezava, e deste modo o tempo passava mais rapidamente, sem que ele se desse conta. E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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Minha oração era composta de poucas palavras, repetitivas (mas não era assim também a prece do próprio Jesus no horto?), uma parte do rosário e muitos olhares lançados ao Crucifixo pendurado sobre a porta (mas por que motivo o querem eliminar?): «Ele olha para mim, e eu fixo-o»: nisto consistia minha oração predominante. E foi consolador fixá-lo. No fundo, eu estava no meio de pessoas que cuidavam de mim, sabia que não estava em perigo de vida (os vários exames que tinha acabado de fazer – teste de esforço, ecocardiograma... – tinham indicado que não havia qualquer anomalia no coração. «É uma questão de eletrolitos», responderam os médicos ao meu desejo de conhecer as causas; ou seja: «Não sabemos, e de qualquer maneira você não iria entender!»); quanto a Ele, permanecia ali, na Cruz... De manhã cedo passou o capelão; e perguntou se podia deixar uma pequena imagem de Nossa Senhora com uma oração, ao que meu vizinho respondeu prontamente: «Sem dúvida, Padre, eu sou católico e praticante». Vi que a beijou e depois de colocar os óculos, começou a recitar a oração. Passei também o dia seguinte na cama, à espera que o ritmo do coração voltasse à normalidade. Passei o dia inteiro à espera, enquanto ouvia o vaivém da ambulância, o movimento dos médicos e enfermeiros, seu trabalho sempre calmo e atento em benefício dos pacientes, as visitas dos médicos, de meu irmão, alguns telefonemas (abençoado seja aquele que inventou o telefone celular!), sempre com a esperança de que fibrilação enfim passasse. Porém, voltou ao meu pensamento aquele livrinho magnífico – conheci-o graças a Robin – de D. Van Thuan, bispo vietnamita que, sem um processo, passou na prisão treze anos (dos quais nove em isolamento), porque sua nomeação a bispo era considerada fruto de «uma conspiração imperialista dos Estados Unidos e do Vaticano», e que decidiu viver o período de prisão sem esperar a libertação, mas passando aqueles anos sempre diante de Deus, amando-o e procurando sua intimidade: «Escolhi Deus, e não o trabalho para Deus», esta foi a revelação que ele teve em uma daqueles noites terríveis; e por conseguinte, devo viver este período como um momento de graça, permanecendo na sua presença. Por isso, pensei comigo mesmo que também eu devia viver essencialmente aquele dia como uma espera (embora, obviamente, eu esperasse logo poder voltar para casa), mas como um momento de presença diante do Crucifixo. Dado que na manhã do terceiro dia o ritmo ainda era anormal – na primeira vez, a fibrilação tinha durado quatorze horas, e desta vez, depois de quase dois dias, ainda estava em curso – já tinham preparado tudo para levar-me à sala operatória e proceder com a cardioversão elétrica, um pequeno choque que faz parar o coração, fazendo-o voltar ao seu ritmo normal. Portanto, tudo estava pronto quando – talvez por medo – meu coração voltou à normalidade do seu ritmo. Eu já me tinha dado conta disto, mas um pouco por superstição, um pouco para não me iludir, esperei que fossem os médicos a dizerem isto. E vi a satisfação dos médicos e enfermeiros, quando da tela e da auscultação era possível compreender que tudo tinha voltado à normalidade, sem a necessidade do «choque elétrico». «Mas que brincadeira é esta? Já tínhamos tudo pronto», disse-me rindo uma jovem médica. E assim terminou esta minha segunda fibrilação, à espera da próxima. No dia seguinte fui atendido pelo médico que me acompanha, para dele obter a receita dos novos comprimidos. Encontrei um meu ex-colega (que há mais de vinte anos deixou a advocacia, para dedicar-se a viajar de barco; chegou mesmo a realizar a travessia do Atlântico, seguindo a rota de Colombo!) que, com grande cordialidade e alegria, me disse que saíra do hospital havia dois dias: tinha passado por uma operação porque, depois de sete fibrilações que teve de enfrentar E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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em muitas regiões do mundo (uma delas, até na ilha de Cabo Verde!) e um igual número de hospitalizações, sentia-se cansado de «estar sempre com a mala pronta, ao seu alcance!», para correr ao hospital. E deste modo decidira fazer a operação (daquilo que entendi, trata-se de uma pequena queimadura dos canais que impelem o sangue e o oxigênio para o coração), que deveria impedir (embora o resultado não seja garantido) a repetição das fibrilações. No meu caso, pelo menos enquanto as fibrilações não forem mais frequentes, terei que estar sempre com a mala pronta, ao meu alcance, para ir ao hospital onde quer que me encontre, interrompendo as atividades em curso e cancelando os propósitos feitos. Trata-se de um pequeno exercício de desapego das coisas e de «estar preparado», como me acostumei a dizer e, particularmente agora, também a viver. Dado que me recordava da primeira vez, sabia que deveria permanecer longas horas à espera de um leito, e então coloquei dentro da minha malinha – e conservo-o até agora – um livro humorístico, da autoria de um escritor inglês do final de Oitocentos, Jerome Klapka Jerome, «Three Men in a Boat» (Três homens em um barco). Ele narra as aventuras de três amigos que tinham decidido partir de férias, de barco, ao longo do rio Tâmisa. Por acaso, li o capítulo em que eles preparam a viagem, e começam a preencher uma lista daquilo que deviam levar consigo. Depois de ter compilado o elenco, deram-se conta de que teriam necessidade de um transatlântico, devido à quantidade de coisas que desejavam levar consigo, e que consideravam irrenunciáveis. Portanto, tiveram que voltar a fazer a lista, concentrando-se unicamente naquilo que era essencial. Permitam-me reler com vocês as considerações que o Autor faz nesta altura da sua obra: «Quantas pessoas, no curso da viagem que todos nós realizamos ao longo do rio da vida, carregam o barco a ponto de o colocar em risco de naufragar, com uma quantidade de objetos supérfluos, considerados essenciais para tornar o caminho confortável e agradável, mas que na realidade são simplesmente um peso inútil. Assim, amontoam no pobre e pequeno barco, até ao topo do mastro, roupas lindas e grandes mansões; empregados domésticos desnecessários e um exército de amigos elegantes que não dariam um tostão por eles, e pelos quais eles mesmos não dariam dois vinténs; enchem-no de passatempos onerosos, com os quais ninguém se diverte, de formalidades e de modas, de pretensiosismos e de ostentações, mas também – e esta é a carga mais pesada e insensata que todas as outras! – do receio da opinião dos outros, dos luxos que se limitam a cansar, dos prazeres dos quais deriva unicamente o tédio das exibições vazias; tudo isto, de modo semelhante à coroa de ferro do criminoso de outrora, faz sangrar e desnortear a cabeça que a sustém! Trata-se de um peso, meu jovem... apenas de um peso inútil! Lance-o na água. Isto torna o barco tão pesado de impelir, que quase desmaiamos de tanto remar. Torna-o tão incômodo e perigoso de manobrar, que não sentimos sequer um momento de alívio da ansiedade das preocupações, não conseguimos encontrar um só instante de descanso, pela indolência sonhadora... não temos tempo para contemplar as sombras, quando elas tocam levemente a água rasa, nem os fúlgidos raios de sol que palpitam, aparecendo e desaparecendo entre as ondas, ou então as árvores frondosas às margens, enquanto contemplamos nossa própria imagem refletida, ou os bosques inteiramente verdes e dourados, os lírios brancos e amarelos, os juncos que balançam melancolicamente, as ervas palustres, as ortigas ou as flores miosótis (não-te-esqueças-de-mim) azuis. Liberte-se deste peso, amigo! Deixe que o barco da sua vida seja aliviado, carregado apenas daquilo que lhe serve… uma casa modesta e prazeres simples, um ou dois amigos dignos deste nome, alguém para amar e alguém que o ame, um gato, um cão, um ou dois cachimbos, o que é suficiente para comer, o que basta para se vestir e um pouco mais do que é suficiente para beber, porque a sede é E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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algo perigoso. Assim, verás que será mais fácil impelir o barco, que não ele terá mais a tendência a virar sobre si mesmo, e já não terá sequer demasiada importância, se o mesmo tivesse que virar: a mercadoria boa e simples resiste à água. Você terá tempo para refletir, e não apenas para trabalhar. Terá tempo para saciar sua sede ao sol da vida… tempo para ouvir melodias eólicas, que o sopro de Deus consegue haurir das cordas dos corações humanos». Foi simplesmente um caso o fato de que, naquele instante, com a malinha hoje companheira da minha vida – e que em virtude da situação deve conter apenas o indispensável para uns dois dias – eu me tenha deparado com este trecho? irado de: Comunicare, condividere, n. 375.

O CELIBATO NO SEGUIMENTO DE CRISTO Quando, por ocasião de uma partilha, de uma carta, recebemos o testemunho de vocação de diversos membros do nosso Instituto secular feminino, é a diversidade das nossas narrações que, primeiramente e em toda sua discrição, consegue surpreender-nos. Um apelo com múltiplas tonalidades Para algumas, o encontro do Senhor teve lugar como um acontecimento, gratuitamente e sem uma razão específica. Deus simplesmente fez irrupção na sua vida: «No final dos meus estudos foi Ele, Cristo, quem me chamou, não somente a seguir seus passos, na imitação da sua pobreza, mas chegou a propor-se como o Único, Aquele que podia cumular meu coração… para sempre!». A experiência pode ser forte, transtornando os projetos da juventude ou cancelando todos os outros sonhos de amor: «Quanto a mim, eu sonhava ter uma família numerosa. No entanto, os acontecimentos levaram-me ao encontro de Cristo em uma abadia, onde vivi uma experiência muito marcante, como se o Senhor me pedisse para ir habitar com Ele». Para outras, trata-se de um apelo interior sentido ainda na infância, que em seguida amadureceu, às vezes eclipsando-se para depois se definir, quando o Senhor renovou e confirmou seu chamamento: «Quando eu tinha oito anos de idade, imergi-me na vida de Teresa e ouvi o chamado do Senhor por ocasião da recepção de uma Eucaristia». «Desde a idade mais tenra, minha busca de Deus levou-me a ter uma certeza: Ele é a fonte do amor e convida a humanidade inteira, e também eu, a uma aliança eterna. Minha resposta ao seu amor louco não pode ser senão o dom total, sem retorno!». Para um certo número delas, tal desejo nasceu progressivamente: «Eu queria doar-me inteiramente ao Senhor, de corpo e alma; pertencer-lhe sem condicionamentos, em razão de um apelo discreto mas persistente, que se me impunha com uma força cada vez maior. “Vós seduzistes-me, e eu deixei-me seduzir por Vós!”». Ou então: «A partir desse momento, algo aconteceu no meu coração; tive a impressão de encontrar Aquele que eu procurava havia muito tempo». Em todas, sem dúvida, a razão de ser da sua opção de vida é Deus, e unicamente Ele. A decisão de escolher o celibato deriva de um encontro privilegiado entre elas e o Senhor. Entretanto, sentimos uma certa polifonia nas diversas narrações das vocações das quais, sem a pretensão de sermos exaustivas, podemos ressaltar três particularidades principais e uma característica geral.

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Um amor preferencial Esta característica raramente se manifesta como tal nas partilhas. Não obstante, a tonalidade de determinados testemunhos deixa intuir a realidade de uma comunhão com Jesus Cristo, procurado ou aproximado como na busca do esposo, descrita pelo Cântico dos Cânticos: «Eis que finalmente O encontrei, Aquele que meu coração ama», ou então perseguido, como Aquele que polariza todo o ser, apresentando-se como «o mais formoso de entre os filhos dos homens..., o Incomparável» (Vita Consecrata, 15). Deus faz-se reconhecer como o manancial de todo o amor. É como se a própria nascente do amor se manifestasse diretamente como Aquele que ama, como Aquele que é necessário amar. O que levou as pessoas a decidirem é o fato de que Deus manifestou pessoalmente tal amor, ao qual elas não podiam deixar de dizer «sim», dizendo contemporaneamente «não» ao amor conjugal. O recurso à imagem da aliança bíblica, em referência à Igreja como esposa de Cristo, permite-nos descrever uma realidade sentida na profundidade destas pessoas. Este chamamento exige uma resposta. Não se trata do serviço da Igreja ou do mundo que, deste modo, é evocado em primeiro lugar, não obstante esta motivação lhe esteja associada. O que é sublinhado, antes de mais nada, é o amor preferencial por Jesus Cristo: viver o apelo incondicional ao Senhor, como nos diz São Paulo (cf. 1 Cor 7, 35), pertencendo-lhe de corpo e alma, e colocando à disposição do amor de Deus toda a própria capacidade de amar. Cada uma daquelas que se sente assim chamada compreende que se trata de um amor que deseja arrebatar todo o seu ser. E, por isso, reconhece-se na expressão contida na Vita Consecrata: «A experiência deste amor gratuito de Deus é tão íntimo e forte, que a pessoa compreende que deve responder mediante um dom incondicional da sua própria vida, depositando tudo, tanto nesse preciso momento como no porvir, nas Suas mãos» (VC, 17). Um amor universal Neste chamamento particular a seguir Cristo no celibato, algumas são mais sensíveis em uma outra dimensão: elas experimentaram a disponibilidade ao amor universal de Deus. Este amor universal de Deus tocou-as de maneira pessoal. No sopro do Espírito, ele mantém abertos todos os seus relacionamentos humanos, abrindo-lhes progressivamente o coração para as dimensões do seu ser, para amar e para serem amadas. Ele liberta seu desejo e suas expectativas, para a alegria de existir com outras pessoas na Sua presença. «Vivendo o celibato com Deus, experimento este amor absoluto, que doa, recebe e perdoa, um amor vigoroso e dócil [...] Sim, meu celibato simplifica, facilita e liberta meus relacionamentos com o próximo. Ele abre-me os caminhos da disponibilidade. Da disponibilidade do meu tempo e do meu coração». A liberdade do coração, que pode conferir o celibato assim vivido, revela efetivamente imensas perspectivas e caminhos que abrem outros homens e outras mulheres para a vida. «Missionária e contemplativa, procuro sê-lo de uma única maneira, na comunhão permanente com o Senhor e com os homens meus irmãos, no contexto da multinacional onde trabalho». Um modo de ser pelos outros, no meio do mundo, o que exige uma assiduidade na frequência do Senhor, sem negligências nem distrações. Uma maneira de se identificar com Cristo Permanecer com Cristo, ser como Ele: esta insistência pode denotar o desejo de identificação E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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com Cristo, com Aquele que escolheu o celibato e uma disponibilidade total ao Pai e à humanidade. «Meu desejo de identificação com Cristo é primário, e é este apelo que me abre ao desejo de disponibilidade total». Ou ainda: «Experimentei uma conversão brusca, quando tinha por volta de trinta anos de idade, e o celibato impôs-se sobre mim nesse preciso momento. Desejava dedicar-me inteiramente a Deus, totalmente ao seu serviço». Tudo como que se condensou neste desejo explícito de ser configurado inteiramente com Ele, a ponto de ser um só com Jesus Cristo (cf. ISFCJ, n. 15) e de participar de maneira singular da sua própria forma de vida (cf. VC, 18, b-c). Desde que Jesus Cristo abriu o caminho do celibato pelo Reino, esta opção passou a ser vivida como uma graça de união e até mesmo de assimilação a Cristo, de disponibilidade total a Ele, ao serviço dos outros e de toda a humanidade: «Para mim, o celibato é uma escolha, no seguimento de Cristo, de viver com Ele e como Ele, em uma disponibilidade total a esta dádiva». Na maioria das vezes, o desejo de identificação constitui um processo de unificação: esta opção é vivida como uma espécie de pacto de amor com o Senhor, que deve ser renovado incessantemente e tende a impregnar de maneira progressiva toda a profundidade da existência. Como no amor conjugal, passa-se da partilha de vida com o outro, ao dom (viver pelo outro), para se aproximar da identificação (viver no outro). Um caminho exigente Tudo isto não deve fazer-nos esquecer aquilo que a maior parte das narrações sublinha, ou dá a entender: este caminho de vida é exigente. Empreendido com humildade e confiança em Deus, às vezes após muitas deliberações, ele comporta escolhas concretas que têm necessidade de vigilância e de renúncia, que são as consequências de qualquer opção preferencial. Vigilância. Segundo algumas modalidades já evocadas, Cristo chamou estas celibatárias a relativizarem tudo aquilo que não é Ele mesmo, contudo permitindo-lhes – nesta perspectiva – acolher as demais pessoas e realidades do mundo. Eis por que motivo, como na parábola das dez jovens convidadas para as bodas, também elas querem permanecer inteiramente atentas Àquele que há de vir, tanto no silêncio da oração como no encontro com seus irmãos em humanidade. Trata-se de uma vigilância que, no presente, permite também aprofundar a relação de intimidade com o Senhor e manifestar a fraternidade: «Meu celibato é uma solidão povoada». Trata-se de uma vigilância que inclusive orienta de modo resoluto para o termo da existência, quando todas e todos nos havemos de encontrar na comunhão do amor infinito de Deus. Renúncia. Dado que uma outra comunhão prevaleceu, estas celibatárias no seguimento de Jesus Cristo renunciam ao amor humano sob sua forma conjugal, ou a outros laços de tipo amoroso. Elas querem pôr à disposição do amor de Deus toda sua capacidade de amar, contando de maneira fundamental com a graça do Espírito Santo. E não sem uma luta interior. O celibato no seguimento de Cristo situa-se no dinamismo do Mistério pascal. De igual modo, as celibatárias renunciam ao estatuto de mãe: «Dou-me conta de que assim um ramo da família se extingue». Entretanto, elas não renunciam ao desejo de dar vida. Assim, elas permitem a produção de frutos em Cristo de outra maneira, descobrindo que não podem dar vida, nem a podem oferecer a si mesmas, a não ser como um dom recebido. «Recebemos esta dádiva (do celibato) para podermos amar». Também aqui nos situamos decididamente na fé no Ressuscitado.

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Um projeto de vida global Estas poucas características evidenciadas nas narrações das vocações não podem ocultar as demais dimensões do seguimento de Cristo: a opção do celibato não constitui uma escolha isolada. Referindo-se aos dinamismos fundamentais do ser, ela inscreve-se em um estilo de vida, em um projeto de vida global, cuja profunda motivação é o desejo de ser inteiramente configurado com Cristo. Ela adquire todo seu sentido, unindo-se em um sistema com outros elementos e conferindo-se as condições da fidelidade. Como no-lo recorda o Livro de vida: «O dom do celibato não pode ser isolado de outros aspectos da nossa vida no meio dos homens: disponibilidade, vida fraterna, oração, pobreza e compromisso» (LV, n. 43). Então, trata-se de um modo radical de dar testemunho da Ressurreição. Marie-Thérèse VANLERENBERGHE ISF – Arras Tirado de: Cor unum, n. 1, 2011. Sacerdote e celibatário Quando comecei a pensar em tornar-me sacerdote, há quase cinquenta anos, a questão do celibato nem se me apresentou. Eu queria ser sacerdote para me tornar testemunha do amor de Deus por todos. Ser celibatário era algo que se apresentava automaticamente. Para mim, sacerdócio e celibato faziam parte do mesmo pacote, como hoje se diria. Mas poderia também ter sido diversamente. Quando eu era um jovem sacerdote estudante, meus amigos decidiram que eu não dançaria mais nos bailes. E quando eu era professor, usava modos de tratamento formais para falar com os alunos do ginásio e informais com os alunos do colégio. Mas três anos mais tarde, minhas estudantes colegiais passaram para o ginásio, e então comecei a tratar todos e todas sem formalidades! Também na paróquia prefiro recorrer a modos de tratamento formais para falar com as mulheres e assim manter um pouco de distância. Timidez, prudência, reserva, respeito? Um pouco de cada um destes elementos juntos. Quando volto para casa à noite, em Denain, há sempre um grupo de jovens magrebinos que tomam um pouco de ar fresco, sentados em um banco. Eles são os guardiães da casa. Divertem-se comigo a propósito dos sacerdotes pedófilos e perguntamme se não tenho uma mulher na minha via. «Nem sequer pagando!». Para eles, o celibato é inconcebível. À noite, também os mendigos batem à porta. E quando lhes ofereço uma lata de conserva, um pouco de pão e uma garrafa de água fresca, eles vão embora dizendo: «Agradeça à sua senhora!». Visito também as prisões. Recentemente Robert, encarcerado e impedido, distante das suas mulheres e dos seus numerosos filhos, perguntou-me se jamais tive uma mulher na minha vida. Nem sequer uma vez? Depois, sorriu deixando-me entender que eu decerto tivera a oportunidade! Meu irmão e minha irmã são casados, são pais e agora avós. Cada um tem suas alegrias e preocupações, e ninguém pode invejar ou queixar-se em relação a eles. Também eu não me queixo. Quando desligo tarde o computador, ou quando volto de uma reunião à meia-noite, minha esposa não me repreende! Demonstro uma grande disponibilidade, mas com o risco de prejudicar minha própria saúde e meu equilíbrio. Daqui, a importância da oração, da missa quotidiana (e nisto Cor Unum e os movimentos de adultos ajudam-me muito). Os amigos e a família ocupam um lugar deveras importante; visitas, correspondências, telefonemas; faço o que posso, mas eu E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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deveria reconsiderar, reavaliar este equilíbrio de vida de modo mais frequente. Meu bispo acaba de me confiar uma nova paróquia. E, no final da carta de nomeação, acrescentou de próprio punho: «Cuide de sua saúde!» (Ele chama-se Garnier, como na publicidade!). Mas para mim foi a separação imprevista e difícil de uma comunidade cativante, sobretudo porque ignoro o objetivo desta nova missão. Pode ser que ele tivesse um buraco para tapar. Tudo isto me faz viver o despojamento, o desapego. Separar-se, manter respeitosamente à distância as pessoas e sua autonomia, o dinheiro como meio para servir e ser útil, a situação e o reconhecimento que entretanto eu tinha adquirido em uma cidade. E recomeçar praticamente do zero. Quando fui ordenado presbítero, em dezembro de 1968, seis meses depois dos «acontecimentos», o bispo de então formulou-me a pergunta de rito: «Promete, a mim e aos meus sucessores, respeito e obediência?». E quanto eu disse «sim», ele desligou o microfone e, levantando seu dedo indicador, disse-me privadamente: «Seja fiel, tá bom!». Jean-Marie TELLE PCJ – CAMBRAI Tirado de: Cor unum, n. 1, 2011.

VIAGEM DE «CONHECIMENTO MISSIONÁRIO» Viagem à Costa Rica «O percurso prevê um contato direto com a realidade de missão, através de uma viagem de conhecimento, durante o verão...». Esta é a frase escrita no opúsculo que apresenta a finalidade do percurso de formação missionária, que neste último ano teve lugar em Ragusa e Messina. E foi precisamente destas duas cidades italianas que partiram as cinco participantes – três de Messina e duas de Ragusa – para a «viagem de missão» à Costa Rica, realizada de 22 de agosto a 10 de setembro... Participar na viagem pressupõe dispor de uma boa motivação, o desejo de conhecer a missão de perto e de encontrar os «outros», uma grande capacidade de adaptação, uma certa disponibilidade financeira, tempo, etc. Colocando tudo isto junto, na semana após a Páscoa formou-se o grupo dos pais e ali tiveram início os preparativos. Com efeito, além das temáticas do percurso, realizaram-se também alguns encontros de conhecimento interpessoal, de preparação inerente à viagem e de conhecimento da realidade da Costa Rica. Ma há uma preparação não «muito visível», que exige uma igual disponibilidade de energias e de tempo. Recordo-me da busca atenta de uma passagem aérea que fosse acessível, porque a Costa Rica é um país de turismo e os preços eram bastante elevados; depois, com um pouco de sorte, encontramos uma possibilidade com um preço conveniente. Com Teresina teve início um intercâmbio de propostas e contrapropostas, com mudanças de iniciativas e de atividades, para definir o programa e fazer com que a viagem pudesse corresponder às finalidades propostas; depois, sobretudo, confiamo-nos a Deus, com a certeza de que Ele nos teria surpreendido com suas novidades e sua generosidade. Foi com estes pressupostos que, na manhã de 23 de agosto, chegamos ao aeroporto de São José, onde encontramos Teresina que estava à nossa espera. Juntamente com ela começamos a viagem rumo à nossa casa – que nos teria hospedado nos dias transcorridos em São José – e depois continuamos durante os dezoito dias seguintes.

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Repensando naquilo que vivemos, afloram em mim muitas imagens, encontros e pessoas que enriqueceram de maneira particular nossa viagem; o conhecimento da cidade de São José, o centro com sua população atarefada e seus contrastes, o teatro, os museus... e depois a visita a alguns barrios, bairros marginalizados da periferia: «A Sagrada Família», onde as postuladoras combonianas nos compartilharam seu caminho de formação e a presença na realidade muito problemática do mesmo bairro em que estão inseridas, não obstante sua jovem idade; a visita a «La Carpio», com o projeto do «Centro San Martin de Porres», que o campo de trabalho deste ano ajudou e onde, entre os numerosos problemas do bairro, vimos também sinais de esperança. Recordo-me do encontro com as missionárias da Célula, agora presentes na Costa Rica: Ana Bertha, Guiselle e Jeannette, que nos apresentaram como vivem a vocação de missionárias seculares combonianas na sua realidade nacional; a rápida excursão a Limon, para conhecer a realidade do litoral caribenho, e a visita à família de Ina, que atualmente se encontra na Colômbia, e finalmente a viagem à província de Guanacaste, na Diocese de Tllarán-Liberia, no norte da Costa Rica, que tem como bispo D. Vittorino Girardi, comboniano. Dali dividimo-nos em dois grupos, duas jovens foram com Teresina a uma paróquia da província, e outras três comigo, a uma paróquia na periferia da cidade de Liberia. Nessa paróquia estava começando a «grande missão continental» (a missão proposta para todo o continente americano, pela Conferência de Aparecida, em 2007, e assumida como compromisso no Congresso Americano Missionário, realizado em Quito em 2008), e também nós fomos envolvidas em tal missão. O pároco enviou-nos a «Martina Bustos», um bairro muito pobre onde, juntamente com certos missionários leigos e alguns líderes locais, partimos de dois em dois, para visitar casa por casa. A visita consistia em propor um simples questionário, para conhecer as problemáticas da família, e apresentar o convite a participar na assembleia cristã semanal, para refletir sobre sua situação à luz da Palavra de Deus. Foi uma profunda imersão em uma realidade muito difícil...; a maioria da população era formada por imigrantes da Nicarágua, sem título de propriedade do terreno onde dispunham de uma «casa» (portanto, com o perigo de serem mandados embora de um momento para outro), sem água nem eletricidade, muitos com as dificuldades derivadas da falta de um trabalho... Ouvimos numerosas histórias de vida levada no meio de precariedades, com grandes sofrimentos, e experimentamos nossa debilidade e incapacidade de poder oferecer uma resposta a quanto pudemos ver e compartilhar. E no entanto, inclusive ali recebemos um forte testemunho da parte de muitas pessoas que comprometeram sua própria vida para tornar presente o Reino de Deus, mesmo naquelas situações. A começar por Pe. Ronal, o pároco empenhado na pastoral social, que deu graças ao Senhor pelos frutos da missão que já começavam a manifestar-se; por Fátima e outros dois jovens missionários leigos da Venezuela que, com sua dedicação, nos levaram a saborear a beleza da vida doada pelos mais pobres; pelas «senhoras» do bairro com as quais compartilhamos a visita às famílias: na sua simplicidade, fizeram-nos compreender quanta força a fé no Senhor nos pode conferir. Pessoalmente, quero recordar a visita a uma família, onde uma menina que participava na Infância Missionária recitou uma oração pelos «missionários que deixam sua família e o próprio país, partindo para terras distantes, em ordem a anunciar Jesus». Surpreendeu-me o fato de que, daquele lugar onde a pobreza era evidente, se recitasse uma oração pelos missionários... interroguei-me sobre minha oração e comovi-me. Pensei comigo mesmo que, certamente, aquela oração devia sensibilizar o Coração de Deus, e muitos missionários serão beneficiados... Desejo recordar também o bispo D. Vittorino Girardi, que nos recebeu permitindo-nos E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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manter um contato significativo com a realidade da sua diocese. No diálogo que tivemos com ele, confessou-nos suas solicitudes pastorais e também a preocupação econômica, mas não obstante tudo manifestou uma grande confiança no auxílio da Providência e nas pessoas que trabalham na sua diocese. Pareceu-me uma atitude muito comboniana. Concluo dizendo que «a viagem de conhecimento de uma realidade missionária» – esta era a finalidade da viagem, permitiu-nos conhecer deveras uma realidade muito diversificada, como pode ser aquela da Costa Rica: com paisagens estupendas e praias maravilhosas, mas ao mesmo tempo com situações de marginalização e com as contradições do nosso mundo contemporâneo, onde o bem-estar é reservado apenas a poucas pessoas. E permitiu-nos conhecer o estilo missionário de muitas pessoas que, apesar da diferença entre as modalidades, anunciam a mensagem do único Jesus. Quero acrescentar que, quando decidimos realizar a viagem à Costa Rica, fizemo-lo para conhecer uma realidade e um país em que nós, M.S.C., estamos presentes, com a consciência de que isto podia facilitar a organização da viagem, mas também para favorecer um contato direto conosco e, no meio das numerosas experiências que pudemos conhecer, para que houvesse inclusive o nosso modo de estar presentes no campo da missão. Sinto necessidade de dizer que os jovens entenderam isto e nos agradeceram. Houve dificuldades, em primeiro lugar a nível de comunicação com a população local (não se pode pensar em aprender uma língua com um curso de alguns meses, com poucas lições esporádicas), mas isto levou-nos a experimentar num certo sentido nossa própria incapacidade e debilidade e permitiu, talvez, pôr em ação também outros tipos de comunicação. Quanto a mim, agradeço a quantos colaboraram de várias maneiras para a realização desta viagem (com a oração, o interesse e assim por diante), mas sobretudo dou graças ao Senhor pelo modo como, através das situações e das pessoas que pudemos encontrar, «tocou» o coração daqueles que participaram nesta viagem. Estou convicta de que o Senhor saberá fazer frutificar, como e quando quiser, aquilo que foi semeado. Maria Pia Dal Zovo Tirado de: Dialogo, n. 6, 2010.

MÁRTIR DA JUSTIÇA E DA FÉ Apresentamos o testemunho significativo de Rosario Livatino, o jovem juiz ferozmente assassinado pela máfia há vinte anos, a atualidade extraordinária do seu pensamento do que significa ser magistrado na sociedade contemporânea, o testemunho límpido de vida cristã levada com heroísmo, rigor, fidelidade e discrição. Rosario Livatino é talvez a mais bonita figura cristã entre as vítimas da máfia siciliana: magistrado em Agrigento, foi assassinado enquanto voltava para casa de Canicattì, na tarde de 21 de setembro de 1990. Tinha 38 anos, estava sem a escolta e sem um carro blindado: nunca os queria. Sabia-se que era um magistrado corajoso e descobriu-se que era um cristão sério. Será em referência a ele que o Papa João Paulo II, no dia 9 de maio de 1993, depois de se ter encontrado em Agrigento com os pais do jovem juiz, dirá a respeito das pessoas assassinadas pela máfia: «São mártires da justiça e, indiretamente, da fé». No vale estreito ao lado da rodovia, onde tinha precipitado em agonia, para escapar dos seus

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assassinos, foi encontrada ao seu lado sua agenda de trabalho. Na primeira página da mesma sobressaía a sigla «S t D»: «Sub tutela Dei» (Sob a proteção de Deus). Aquela sigla encontra-se em todas as suas agendas e recorda – explicou o professor Giovanni Tranchina, que foi professor universitário de Livatino – «as invocações mediante as quais, na idade média, se impetrava a assistência divina para o cumprimento de certos ofícios públicos». Seu bispo descreveu-o como «comprometido na Ação Católica, assíduo à Eucaristia dominical e discípulo fiel do Crucificado». É conhecido seu compromisso a fim de que, na sala das audiências no tribunal, houvesse um crucifixo. Todas as manhãs, antes de entrar na sala do tribunal, ia rezar na vizinha igreja de São José. Mas tudo isto com a máxima discrição. À missa dominical ia em companhia dos pais. O próprio pároco da igreja de São José ignorava quem era «aquele jovem profundamente recolhido», que frequentava sua igreja havia muitos anos. Poucos na cidade sabiam que era um juiz de primeira linha e quase ninguém sabia que era um cristão militante. Na agenda de 1978 há uma invocação sobre sua profissão de magistrado, com data de 18 de julho, que ressoa como a consagração de uma vida: «Hoje prestei juramento: a partir de hoje estou na magistratura. Que Deus me acompanhe e me ajude a respeitar o juramento e a comportar-me do modo como exige a educação, que meus pais me incutiram». Nas agendas de 1984 a 1986 há menções dramáticas de uma crise de consciência, devida – parece – a ameaças e condicionamentos: «Vejo meu futuro obscurecido. Que Deus me perdoe» (19 de junho de 1984); «Algo chegou a fragmentar-se. Deus terá piedade de mim, indicandome o caminho?» (31 de dezembro de 1984). Até chegar a uma solução de fé e de aceitação da perspectiva do martírio: «Hoje, dois anos depois, recebi a Comunhão. Que o Senhor me proteja e evite que algo de mal venha a acontecer comigo e com meus pais» (27 de maio de 1986). Da conferência sobre o papel do juiz, será suficiente citar estas palavras, que adquirem grandeza e ardor a partir do seu próprio sangue: «O juiz de todos os tempos deve ser e parecer independente, e pode sê-lo e aparecer onde ele mesmo o quiser, e deve desejá-lo, para ser digno da sua função e não atraiçoar seu mandato». Ele morrerá precisamente pela decisão de dar continuidade a um inquérito sobre a máfia, subtraindo-se a qualquer condicionamento do ambiente mafioso em que era obrigado a mover-se e que rejeitava radicalmente. Da conferência a respeito da fé e do direito, cito um trecho de profundidade extraordinária, que descreve o cumprimento da justiça como um ato de oração: «A tarefa do magistrado consiste em decidir. Pois bem, decidir significa escolher e, às vezes, entre numerosas realidades ou caminhos e soluções. E escolher é uma das coisas mais difíceis que o homem é chamado a fazer. E é precisamente neste escolher para decidir, decidir para ordenar, que o magistrado crente pode encontrar uma relação com Deus. Uma relação direta, porque o cumprimento da justiça é a realização de si mesmo, oração e dedicação de si próprio a Deus. Uma relação direta, através do amor pela pessoa julgada». Essa conferência termina com uma página que afirma a coincidência final, para o cristão, entre justiça e caridade: «Os não-cristãos acreditam no primado absoluto da justiça como fato que abarca toda a problemática da normativa dos relacionamentos interpessoais, enquanto os cristãos podem aceitar este postulado, com a condição de que se aceite o princípio da superação da justiça através da caridade». Se vivêssemos nos primeiros séculos da Igreja, Rosario Livatino já seria venerado como mártir e doutor. Luigi Accattoli – Nuovi Martiri, Ed. San Paolo. E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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PARA REFLETIR Tirado de um discurso dirigido aos membros do seu Instituto, por ocasião da festa dos votos: Giorgio Mario Mazzola «O Senhor está ou não no meio de nós?» (Êx 17, 7). É assim que, no livro do Êxodo, se interrogam as tribos de Israel no oásis de Rafidim, e depois em Massá e Meribá («prova» e «contestação»). É mesmo verdade que o Senhor deseja libertar-nos, ou é uma nossa invenção? É mesmo verdade que somos orientados pelo Senhor, ou estamos equivocados? É realmente verdade – para referir-nos ao significado da celebração desta noite, em que o Senhor nos chama a entregar-lhe toda nossa vida, ou então não é tão necessário e, pensando bem, não foi Ele quem no-lo pediu? Naquela situação em que veio a encontrar-se o povo de Deus no meio do deserto, depois da sua partida do Egito, podemos reconhecer a condição espiritual daqueles que, colocandose no seguimento imediato do Senhor, encontram muitas dificuldades e cansaços, que parecem contradizer o trecho inicial e levam a duvidar daquela mesma passagem. No Instituto, este ano, não temos emissões de primeiros votos, mas alguns irmãos emitirão os votos perpétuos na Itália, na Polônia e na República Democrática do Congo. Isto oferece-nos a oportunidade para dedicar nossa reflexão desta tarde precisamente a este tema: com efeito, tendese a considerar que os votos perpétuos, ou contudo de incorporação definitiva, que têm lugar depois de dez anos dos primeiros votos, constituem de certa maneira uma consequência natural e necessária daquele primeiro passo, e que por conseguinte não há muito a dizer, a não ser que se trata da decisão de uma definitividade, que no entanto já estava contudo na opção por detrás dos primeiros votos. Portanto, em última análise, seria uma passagem óbvia, a propósito da qual não haveria muito a dizer. Mas não é bem assim. A decisão dos nossos candidatos aos votos perpétuos, e a decisão à qual todos nós somos chamados esta tarde, de renovar diante do Senhor a entrega do nosso coração, da nossa mente e das nossas forças, é corroborada por muitas outras certezas e por uma condição espiritual deveras diferente em relação aos primeiros dias! Rafidim significa mãos debilitadas, braços fracos. O povo reunido no oásis de Rafidim é diferente do povo que saíra do Egito. Ali, os braços estavam armados (cf. Êx 13, 18), e aqui estão cansados. Ali, o Senhor marchava à frente do povo (cf. Êx 13, 21), e aqui Deus não se faz ouvir. E não há água para matar a sede. Trata-se de dois momentos diferentes da mesma obra de salvação: a libertação, com a saída do Egito, é um acontecimento único, central; o tempo do caminho e da pausa no deserto é, ao contrário, o momento prolongado da Aliança. Justamente, estas duas fases da salvação foram comparadas com os dois sacramentos do Batismo e da Confirmação. A Aliança, que será estabelecida precisamente a seguir ao novo início a partir de Rafidim (pouco mais adiante, no livro do Êxodo, no capítulo 20), introduz mais um acontecimento surpreendente: Deus quer entrar na nossa vida. Nas dez Palavras confiadas no monte Sinai, Deus não nos pede que edifiquemos um altar para Ele. Ao contrário, considerando bem, Deus parece pedir-nos que prestemos grande atenção a não construir nada que possa torná-lo mais fruível ou visível. Ao contrário, Deus quer entrar nos E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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meandros da nossa vida, e é ali que Ele quer ser reconhecido e glorificado. Deus não se encontra nas iniciativas tomadas em seu nome. Não está sequer, considerando bem, nas orações que se lhes dirigem. Deus não é governável, não está à nossa disposição. Superar a prova de Rafidim significa aprender, por assim dizer, a permanecer com Deus, sem O possuir. A viver para Ele, sem ter sua percepção direta. A viver por Ele, aprendendo a levar a vida que Ele mesmo nos concedeu. Em Rafidim há um outro personagem, que se apresenta na cena. Trata-se de Amalec. É o nome de uma população do deserto, mas com Amalec alude-se ao poder do demônio, que ataca Israel no momento da debilidade e das dúvidas, na hora em que o povo se sente tentado pela saudade daquilo que deixou atrás de si. Aqui vêm à mente as palavras de um escrito memorável do professor Lazzati,1 redigido nos campos de prisão: o demônio meridiano, que o Professor define precisamente assim: «É a tentação que surge como nostalgia daquilo ao que renunciamos por amor a Deus». O tempo da Aliança, o momento da confirmação, é o período em que temos que enfrentar tentações muito sérias. Não apenas começa a constatar que a própria escolha de consagração não produz muitos frutos visíveis – o que cada encarregado de aspirantes recorda no período da formação, como característica em parte peculiar de uma vocação como a nossa, que não dispõe de obras para assegurar um retorno, nem um reconhecimento adequados. Surgem tentações também mais radicais, das quais nosso Adversário se aproveita, apoiando-se nas nossas dúvidas. E a tentação mais radical é precisamente esta: o Senhor está conosco ou não? O Senhor está conosco ou não, neste caminho vocacional um pouco «raro»? A guerra contra Amalec, que o livro do Êxodo anuncia como perene, «de geração em geração» (Êx 17, 16), é vencida por Moisés, que permanece com os braços erguidos. Mas aquelas mãos não conseguem segurar o peso, e têm necessidade de ser sustentadas. Como já dissemos outras vezes, nós, chamados consagrados, não somos melhores que os outros. No entanto, na nossa vida temos que fazer com maior frequência as contas precisamente com esta interrogação: «O Senhor está ou não no meio de nós?». Porque se o Senhor não está conosco, então tudo é inútil. Poderíamos realizar as coisas mais extraordinárias, mas se o Senhor não estivesse conosco, tudo perderia seu sentido. Na aliança que nós renovamos esta noite, como um de nós houve por bem dizer por ocasião da Festa celebrada no ano passado, reconhecemos no chamamento do Senhor através do Instituto um contrato extremamente bonito, embora quando o assinamos não tenhamos prestado atenção àquelas cláusulas anexas e escritas com caracteres muito pequenos! Uma destas cláusulas são os irmãos do Instituto, porque lá estava escrito que os irmãos erram, como eu, como cada um de nós. Estava escrito que, precisamente por este motivo, é necessário que cada um se preocupe com o caminho do outro. Para que não nos aconteça que venhamos a ser como aqueles que, «porque não sabem amar os homens, pensam que amam a Deus».2 Os irmãos são um dom, certamente, mas também neste caso é bom ter em consideração a luta. Em uma outra destas cláusulas estava escrito que o compromisso secular que exigiu de nós tanta energia e tanto entusiasmo, pode também Giuseppe Lazzati, por Deblin Irena, dezembro de 1943, in il Regno di Dio è in mezzo a voi, vol. 1. Charles Péguy: «Puisqu’ils n’ont pas la force d’être de la nature , ils croient être de la grâce. Puisqu’ils n’ont pas le courage d’être d’un des partis de l’homme, ils croient être du parti de Dieu. Puisqu’ils ne sont pas de l’homme, ils croient être de Dieu. Puisqu’ils n’aiment personne, ils croient aimer Dieu». 1  2 

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tornar-se difícil, complicado, e pode encontrar-nos confusos, incertos. Se quiséssemos utilizar uma metáfora esportiva, poderíamos dizer que estávamos habituados a jogar em um campo amigo, onde a preparação e as regras eram claras. Agora temos que jogar, por assim dizer, fora de casa, e o campo de jogo é desconhecido, traiçoeiro, e faltam os pontos de referência com os quais estávamos acostumados. Estava também escrito que, ao longo dos anos, teríamos a obrigação de aprender a reler o significado dos nossos votos, para compreendermos que eles querem indicar um pedido muito mais profundo e exigente. Com efeito, pensávamos que devíamos renunciar a alguns bens materiais, mas agora entendemos que temos de aprender a não nos considerarmos a nós mesmos como um bem absoluto mas, ao contrário – recorrendo às palavras de Santo Inácio – a ceder a Deus nossa própria liberdade, memória, intelecto e vontade. Pensávamos que devíamos renunciar ao amor e ao conforto de uma família, e agora entendemos que se trata de renunciar a decidir de que modo o Senhor nos guiará para a plenitude do amor. Que certamente o Senhor nos concederá! Pensávamos que devíamos obedecer a alguns pedidos do Responsável, durante algumas fases da nossa vida, e agora damo-nos conta de que o Senhor nos pede sobretudo, com a ajuda dos irmãos, que aprendamos a obedecer à vida, à vita inteira. O tempo dos votos perpétuos é o período em que aceitamos estabelecer uma Aliança que toca cada parte da nossa vida, especialmente aquelas que, para nós e – pelo menos assim nos parece – para o Senhor, se apresentam de maneira mais modesta. Deus quer ser encontrado nas sinuosidades da vida: no inesperado, no gratuito. No cansaço, na dor. Na engenhosidade, na dedicação. Na compreensão, na amizade. Na vontade, no entusiasmo.3 É isto que Deus deseja, e é também isto que nossa vocação quer significar. Mostrar Deus que se apresenta e se encontra nos meandros da vida. Justamente, estamos preocupados em ajudar os homens a reconhecer o infinito, e não nos damos conta de que o Infinito está contido na sintaxe da vida. Por exemplo, o que há de maior e de mais ilimitado do que a dor pela perda de uma pessoa amada? É acaso comensurável um sofrimento como este? E o que existe de maior e de mais ilimitado do que o amor por aqueles que são frágeis, que sofrem inocentemente, pelos abandonados? É porventura comensurável um amor como este? O amor pode ser medido? Não é acaso uma escola de infinito? Enfim, e sobretudo, Deus pede-nos que O reconheçamos onde há uma derrota que já se está delineando, onde existe uma prevaricação que se vai perpetrando. Pois ali, o Senhor está abrindo um caminho; ali o Senhor está avançando, reconquistando espaço. Lá onde há derrota e morte, renasce a vida. Porque a lei inscrita nesta vida é a seguinte: é preciso estar disposto a morrer, para poder dar vida — as mães sabem bem do que se trata. Por isso, façamos votos: para confessar que esta é a lei que governa nossa existência e o mundo inteiro: somente conseguiremos gerar a vida, se estivermos dispostos a cedê-la. Tirado de: Comunicare, condividere, n. 375. 3  «Somente no entusiasmo o ser humano vê o mundo com clareza. Deus criou o mundo com entusiasmo», Marina Tsvetaeva.

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«CONFIO-VOS à PALAVRA...» «Somos verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que ela é o alimento de que vivemos, mais de que o são o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamola? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma nosso pensamento?»: assim diz o Papa Bento XVI em um trecho da carta de proclamação do Ano sacerdotal. Os presbíteros – afirma o Santo Padre – na sua vida e obra, devem distinguir-se por um forte testemunho evangélico, que cresce e se confronta em contato contínuo com a Palavra. Pe. Ernesto della Corte, nosso amigo e biblista, guia-nos na descoberta do modo como é decisivo e vital para nós, sacerdotes, deixar-nos habitar pela Palavra, a fim de que ela ainda possa chegar aos confins da terra e do homem todo. a PaLAVRA DE DEUS NA VIDA DO presbÍtero Um tema constitutivo da espiritualidade do presbítero é sua relação com a Palavra de Deus. Ouvinte da Palavra, seu servo, o presbítero deixa-se alcançar, imbuir e medir por ela, em uma relação vital que é acima de tudo acolhedora e obediente. Para que a sementeira da Palavra possa dar fruto dele, é necessário que ele lute com as armas da oração e da assiduidade na escuta, conservando como ponto de referência quotidiano a Palavra de Jesus Cristo: «Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus». Falarei a fim de que a espada da Palavra de Deus, também por meu intermédio, consiga trespassar o coração do próximo. Falarei para que a Palavra de Deus ressoe também contra mim, por meu intermédio. (Gregório Magno, Homilias sobre Ezequiel 1, 11, 5) Introdução A reflexão sobre a Palavra de Deus na vida do presbítero começa a partir destas duas convicções: O presbítero é em primeiro lugar um discípulo do Senhor, chamado a assumir um ministério específico em relação à Palavra de Deus, que nos Atos dos Apóstolos é definido como diakonía toû lógou (At 6, 4). Além disso, a espiritualidade do presbítero nasce do seu ser, do seu falar e do seu agir como sacerdote no seio da Igreja de Deus. Ele compartilha o seguimento do Senhor com todos mas, ao mesmo tempo, haure sua vida espiritual também através de tudo aquilo que leva a cabo como presbítero. Meditemos sobre estas duas certezas evangélicas: em primeiro lugar, o presbítero é um homem «confiado à Palavra»; depois, é também um «ministro da Palavra». O presbítero é um homem «confiado à Palavra» A expressão «confiado à Palavra» encontra-se nos Atos dos Apóstolos, e foi proferida por São Paulo no discurso de adeus que, em Mileto, o Apóstolo dirigiu aos presbíteros-bispos (cf. At 20, 17.28): «E agora confio-vos (paratíthemai) a Deus e à Palavra da sua graça, Àquele tem o poder de edificar e de conceder a herança com todos os santificados» (At 20, 32). Os «ministros da Palavra», hypērétai toû lógou: Lc 1, 2), são confiados à Palavra de Deus. Eles mesmos são confiados à Palavra, que constitui uma realidade «viva, eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes» (Hb 4, 12), que tem o poder de salvar a vida (cf. Tg 1, 21), que é o «poder de Deus» (dynamis theoû: Rm 1, 16). Mas como é que os presbíteros são confiados à Palavra? Através da escuta assídua da Palavra e, como consequência lógica, mediante a realização, a prática da própria Palavra. E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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A escuta da Palavra Cada crente, também o presbítero, é antes de tudo um ouvinte da Palavra, porque «a fé nasce da escuta» (fides ex auditu: Rm 10, 17). Na fé judaica e, por conseguinte, na fé cristã, a escuta é o primeiro passo para entrar em comunhão com Deus. Deus fala, e se o homem aceita sua Palavra, ou seja, se a ouve e lhe obedece (em hebraico, o mesmo verbo, šüma’, designa ambas estas realidades), então ele torna-se um crente, alguém que responde a Deus pondo em prática sua Palavra. Se para Deus, «no princípio era a Palavra» (Jo 1, 1), para o homem, «no princípio é a escuta». Jeremias afirmou o primado da escuta em relação a todos os atos de culto: «Na verdade, não falei aos vossos pais e nada lhes prescrevi a respeito de holocaustos e sacrifícios, quando os fiz sair da terra do Egito. Esta foi a única ordem que lhes dei: “Ouvi minha voz!”» (Jr 7, 22-23; cf. também Am 5, 21-25). «A obediência é melhor que o sacrifício» (1 Sm 15, 22), afirma o profeta Samuel. Nós podemos procurar Deus, indagar sobre Ele, mas somente se Ele se nos revelar e nos falar, conseguiremos conhecê-lo; caso contrário, correremos o risco de O conhecer falsamente, segundo nossos desejos, nossas projeções, ou simplesmente «por ouvir falar», como diz Jó, o grande sábio (cf. Jó 42, 5). Vejamos a dinâmica inscrita no šüma’ yiSrä´ël (Dt 6, 4-5): · · · ·

«Ouve, Israel»: a escuta é a fonte e o princípio de toda a experiência religiosa. «O Senhor é nosso Deus»: é da escuta que nasce a fé. «O Senhor é um só»: a fede determina o conhecimento. «Tu amarás o Senhor teu Deus»: este itinerário leva ao amor.

Esta escuta para o presbítero, que dela deve haurir o anúncio, a proclamação, torna-se primordial. A figura do Servo do Senhor em Isaías, o ’(eved Adonai descrito nos quatro «cânticos» (cf. Is 42, 1-9; 49, 1-7; 50, 4-11; 52, 13-53, 12) é de enorme ajuda para nossa compreensão. O Servo é a figura profética do pregador da Palavra de Deus: é um «eleito» (Is 42, 1; Mt 12, 18), um «servo da Palavra» (cf. Lc 1, 2), chamado a proclamar a Palavra (cf. Is 42, 3-4; 61, 1-2; Lc 4, 18-19) e, por isso, figura exemplar de Cristo e de cada anunciador da Palavra. O Servo tem uma missão específica: «levar a doutrina aos povos» (cf. Is 42, 1), «levar a salvação às extremidades da terra» (cf. Is 49, 6), «dirigir a palavra aos oprimidos» (cf. Is 50, 4): «O Senhor Deus deu-me a língua de um discípulo para que eu saiba reconfortar pela palavra aquele que está abatido. Cada manhã Ele desperta meus ouvidos para que eu ouça como discípulo; (o Senhor Deus abriu-me os ouvidos) e eu não relutei, nem me esquivei» (Is 50, 4-5). O dever primário do presbítero consiste em acolher, conservar e realizar a Palavra: somente assim ele pode tornar-se capaz de a comunicar àqueles para junto dos quais é enviado pelo Senhor. Ai dele, se acolhesse a Palavra não para si, sem se sentisse ele mesmo discípulo, mas pensasse exclusivamente nos outros: seria como se ele «negligenciasse a Palavra de Deus» (cf. 1 Sm 3, 19), deixando-a cair perto, mas não no seu coração. Podemos dizer até que seria uma instrumentalização da Palavra, em ordem à pregação, precisamente da parte de quem não se sente mais sob o primado da própria Palavra (a Palavra é derramada sobre mim: é a expressão dos profetas: cf. Jr 1, 2; Ez 1, 3; Lc 3, 2). Uma admoestação é elevada pelo Papa Gregório Magno, grande estudioso da Bíblia, a propósito da leitura da Escritura para os outros, e com os outros: «Muitos aspectos da Sagrada Escritura, que sozinho eu não conseguia compreender, comecei a entender quando me pus diante dos meus irmãos (coram fratribus meis positus intellexi)... Dei-me conta de que a compreensão me foi concedida por

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meio deles... Graças a vós aprendo quanto vos ensino; com efeito, convosco, ouço aquilo que vos digo»�. O presbítero tem o dever de viver o compromisso de assiduidade com as Sagradas Escrituras (cf. Dei Verbum, 24): uma assiduidade feita de leitura (lectio), de aprofundamento meditativo do texto (meditatio), de oração (oratio) e de experiência quotidiana sob o juízo da Palavra de Deus (contemplatio). Só assim o presbítero faz seu o pensamento de Jesus Cristo, de modo a poder dizer com o Apóstolo: «Nós temos o mesmo pensamento de Cristo» (1 Cor 2, 16). Já o Papa João Paulo II escrevia: «O sacerdote deve ser o primeiro “crente” na Palavra, com plena consciência de que as palavras do seu ministério não são “suas”, mas d’Aquele que o enviou. Desta Palavra, ele não é dono: é servo. Desta Palavra, ele não é o único possuidor: é devedor relativamente ao Povo de Deus. Precisamente porque evangeliza e para que possa evangelizar, o sacerdote, como a Igreja, deve crescer na consciência da sua permanente necessidade de ser evangelizado… Elemento essencial da formação espiritual é a leitura meditada e orante da Palavra de Deus (lectio divina), é a escuta humilde e cheia de amor d’Aquele que fala».4 São Paulo exigia da parte de Timóteo: «Dedicate à leitura, à exortação e ao ensino» (1 Tm 4, 13): é da assiduidade à lectio que o presbítero haure a capacidade de exortar e de ensinar com autoridade. A realização da Palavra Em Mc 4, Jesus indica todo o processo da Palavra. Se não houver a realização, não haverá sequer a escuta, e o coração permanecerá incircuncidado (cf. Jr 6, 10; Ez 44, 9): é a dureza de coração (esclerocardia: cf. Mc 10, 5; 16, 14). Quando se começa a viver como se pensa, e não como a Palavra de Deus exige, pouco a pouco termina-se também por pensar como se vive, e não se ouve mais a Palavra de Deus. «Bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 28), porque ela conduz ao conhecimento de Deus (da(at Elohîm: Os 4, 1; 6, 6), que os profetas exigiam dos sacerdotes (cf. Os 4, 4-6), aquele conhecimento de Deus que é tão essencial para o Apóstolo (cf. Rm 11, 34; 1 Cor 2, 10-12): a falta de tal conhecimento torna o presbítero incapaz de exercer a função que lhe é própria. O presbítero deve criar unidade de vida entre o anunciar e o realizar. Como esquecer que Jesus pronunciou um claro «Ai de vós!» diante daqueles que, «sentados à cátedra... dizem mas não fazem», que «atam fardos pesados, impondo-os sobre os ombros dos outros, mas eles mesmos não querem movê-los sequer com um dedo» (cf. Mt 23, 2-4)? E como esquecer as palavras do Apóstolo: «Tu, que conheces a sua vontade; tu, instruído pela lei… tu, que te ufanas de ser guia dos cegos, luzeiro daqueles que se encontram nas trevas; ... tu, que ensinas aos outros... não te ensinas a ti mesmo! ... Porque assim fala a Escritura: “Por vossa causa, o nome de Deus é blasfemado entre os pagãos” (Is 52, 5 LXX)» (cf. Rm 2, 18-19.21.24)? No n. 13, a Presbyterorum ordinis resume esta temática da seguinte maneira: «Sendo eles [os presbíteros] os ministros da palavra, todos os dias leem e ouvem a palavra do Senhor que devem ensinar aos outros. Esforçando-se por a receberem em si mesmos, cada vez se tornam mais perfeitos discípulos do Senhor, segundo a palavra do Apóstolo Paulo a Timóteo: “Medita estas coisas, permanece nelas, para que o teu aproveitamento seja manifesto a todos. Atende a ti e à doutrina. Persevera nestas coisas. Fazendo isto, não só te salvas a ti, mas também aos que te ouvem” (1 Tm 4, 15-16)». 4 

João Paulo II, Pastores dabo vobis, nn. 26 e 47 (1992).

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O presbítero, «ministro da Palavra»5 Além disso, o presbítero é «ministro da Palavra», que deve anunciar à comunidade do Senhor mediante sua vida e pregação (Audiência geral Munus docendi: cf. a maravilhosa catequese do Papa Bento XVI, do dia 14.4.2010). Anunciando o Evangelho, o sacerdote exorta à «obediência da fé» (Rm 1, 5), conduzindo os fiéis a um conhecimento e a uma comunhão cada vez mais profundos do mistério de Deus, revelado e comunicado a nós em Cristo.6 A pregação do Evangelho é o ministério principal de cada presbítero. O texto da Carta aos Romanos (cf. Rm 1, 1-5), resume aquilo que é essencial para a pregação cristã: «1Paulo, servo de Jesus Cristo (é serviço de Deus), escolhido para ser apóstolo (ninguém se gera a si mesmo como anunciador), eleito (é do agrado de Deus, chamar e enviar) para anunciar o Evangelho de Deus (revelado em mim, afirma Paulo em Gl 1, 16); 2 este Evangelho, Deus prometera outrora por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras (trata-se da tradição), 3 acerca de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, descendente de Davi no que se refere à carne 4 que, segundo o Espírito de santidade, foi estabelecido Filho de Deus, em virtude da sua ressurreição dos mortos; 5 e do qual recebemos a graça e o apostolado (este é o dom da vocação), a fim de levar em seu nome todas as nações pagãs (os destinatários) à obediência da fé (a finalidade)». Mediante o serviço da pregação, o presbítero deve esforçar-se a fim de que das Escrituras venha a jorrar a Palavra de Deus nelas contida; trata-se de uma obra de Deus e do homem (o leitor, ho anaghinōskōn, em Ap 1, 3). O ministério da Palavra de Deus é confiado a pobres homens, e no entanto é dotado de autoridade, de exousía, por graça de Deus. Jesus prometeu e concedeu aos Doze poder e autoridade para anunciar o Evangelho com eficácia (cf. Lc 9, 1; 24, 49). Lutero escreveu: «Onde quer que o Evangelho seja anunciado de modo autêntico e com sinceridade, ali está o Reino de Cristo. Onde estiver a Palavra, ali está o Espírito Santo, tanto naquele que anunciar como em quantos se puserem à escuta».7 É a descida do Espírito Santo que suscita nos Apóstolos a capacidade de falar na manhã de Pentecostes (cf. At 2, 1-12), mas é também a pregação de Pedro, o apóstolo investido pelo Espírito Santo, que causa a descida do mesmo Espírito sobre os fiéis que se põem à escuta da Palavra (cf. At 10, 36-44). O pregador é «embaixador de Cristo» (cf. 2 Cor 5, 20); é a pessoa através da qual Cristo age (cf. Rm 15, 18), Deus exorta e ainda hoje fala; é «administrador dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1). Os fiéis recebem dos presbíteros «não uma palavra humana, mas sim a Palavra de Deus que age naqueles que creem» (cf. 1 Ts 2, 13). As palavras que saem da boca do pregador devem ser sempre «palavras de graça» (Lc 4, 22), «palavras acompanhadas pela graça» (cf. Cl 4, 6), palavras portadoras da Palavra de Deus, que é a espada do Espírito (cf. Ef 6, 17), espada afiada (cf. Is 49, 2; Os 6, 5; Hb 4, 12). Mas o que é que o presbítero deve anunciar? E como é que ele deve pregar?

Leia o documento da Congregação para o Clero O presbítero, mestre da Palavra, ministro dos sacramentos e guia da comunidade (1999), de modo particular o capítulo II. 6  João Paulo II, Pastores dabo vobis, n. 26 (1992). «O ensinamento que o sacerdote é chamado a oferecer, as verdades da fé, devem ser interiorizadas e vividas num intenso caminho espiritual pessoal, de forma que realmente o sacerdote entre numa profunda comunhão interior com o próprio Cristo. O sacerdote crê, acolhe e procura viver, antes de tudo como próprio, quanto o Senhor ensinou e a Igreja transmitiu» (Papa Bento XVI, Audiência geral Munus docendi, 14.4.2010). 7  Citado em K. Barth, La proclamazione del Vangelo, Borla, Turim 1964, pág. 59. 5 

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Anunciar Cristo hoje O presbítero deve pregar somente a Palavra de Deus, e não outras palavras:8 «Não nos pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor» (2 Cor 4, 5). O pregador não deve confiar nos seus próprios meios, na sua inteligência, mas deve invocar sempre o Espírito Santo e o poder do mesmo (cf. Proposição 5 do Sínodo sobre a Palavra). Ele é chamado a ser, mediante suas palavras e com toda sua vida, uma testemunha do Evangelho no meio dos homens. Sua comunicação de Deus e de Jesus Cristo depende também da sua credibilidade como anunciador: «Quem vos ouve, ouve a mim» (Lc 10, 16). A própria homilia é uma ação profética, interiorizada e transmitida para orientar a fé e a oração da comunidade. A Palavra tem o poder de edificar a comunidade (cf. At 20, 32), fazendo da homilia uma «manifestação da verdade» (2 Cor 4, 2), que é o próprio Cristo. «Cristo está presente na sua Igreja, de modo especial nos gestos litúrgicos... Está presente na sua Palavra, uma vez que é Ele quem fala, quando na Igreja são lidas as Sagradas Escrituras».9 Afirma novamente o Papa Bento XVI: «Na preparação atenta da pregação festiva, sem excluir a dos dias úteis, no esforço de formação catequética, nas escolas, nas instituições acadêmicas e, de modo especial, através daquele livro não escrito que é a própria vida, o sacerdote é sempre “professor”, ensina» (Audiência geral Munus docendi, 14.4.2010). Pregar de forma sapiencial para reacender a Fé, o Amor e a Esperança As palavras do pregador devem nascer absolutamente de uma fé sólida (cf. Sl 115 [114], 10: «Conservei a confiança, mesmo quando eu dizia: “Na verdade, sou extremamente infeliz!”»). Se o presbítero não tiver primeiro a fé na Palavra de Deus, como poderá transmiti-la aos demais? A própria «preparação da homilia» não começa a partir desta pergunta: «O que devo dizer à assembleia?», mas deve proceder sobretudo da escuta da Palavra contida nas Escrituras e, por conseguinte, desta interrogação: «O que é que me diz esta Palavra?». Se o pregador não sentir em si mesmo o fogo devorador, de que fala o profeta Jeremias (cf. Jr 20, 9), se não tiver paixão pela comunidade e não saborear o ministério que lhe foi confiado, então terminará por continuar a exercer o ministério apenas em ordem ao lucro, ao sucesso e à conservação da sua função. Conclusão Pode ser indicativa a expressão do diácono Estêvão protomártir quando, durante um seu discurso, afirma: «Obstinados e incircuncidados no coração e nos ouvidos, vós opondes sempre resistência ao Espírito Santo. Como eram os vossos pais, assim sois também vós». Ou seja, o risco é de não nos deixarmos imbuir pelo Espírito Santo, deste modo resistindo à graça. Maria de Nazaré, ao contrário, não apenas sempre ofereceu a Deus seu desejo de viver a obediência com alegria, mas viveu também no rumo contínuo que o Espírito Santo lhe indicava. Em síntese, ter fé significa continuar a caminhar no rumo apontado por Deus, nas Sagradas Escrituras e nos acontecimentos quotidianos que a Providência nos concede. Aprendamos a ter a confiança evangélica das crianças, Cf. Presbyterorum ordinis, n. 4: «Sua [dos presbíteros] tarefa não consiste em ensinar uma sabedoria própria, mas em ensinar a Palavra de Deus». «O sacerdote não ensina as próprias ideias, uma filosofia que ele mesmo inventou, encontrou ou da qual ele gosta; o sacerdote não fala de si mesmo, não fala por si mesmo, talvez para criar admiradores ou um partido próprio; não diz coisas próprias, invenções suas mas, na confusão de todas as filosofias, o sacerdote ensina em nome de Cristo presente, propõe a verdade que é o próprio Cristo, a sua palavra, o seu modo de viver e de ir em frente» (Papa Bento XVI, Audiência geral Munus docendi,14.4.2010). 9  Concílio Ecumênico Vaticano II, Sacrosanctum concilium, n. 7. 8 

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confiando-nos a Deus, a exemplo de São Paulo: «Tudo posso naquele que me fortalece» (Fl 4, 13). Finalmente, desejo citar um famoso texto de São Gregório Magno, porque ele contém em si de modo resumido e admirável um manifesto da nossa identidade presbiteral: «Ouçamos o que o Senhor diz, ao enviar os pregadores: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos! Pedi, pois, ao Senhor da messe, que envie trabalhadores para sua messe!” (Mt 9, 37-38). Para uma grande messe, os trabalhadores são poucos; não podemos falar desta escassez sem uma profunda amargura, porque existem pessoas que ouviriam a boa palavra, mas faltam pregadores para anunciá-la. Eis que o mundo está repleto de sacerdotes, e todavia é raro encontrar alguém que trabalhe na messe do Senhor; nós assumimos a função sacerdotal, mas não cumprimos as obras que nosso ofício comporta. Caríssimos irmãos, ponderai atentamente sobre aquilo que está escrito: “Pedi, pois, ao Senhor da messe, que envie trabalhadores para sua messe!”. Pedi por nós, a fim de que sejamos capazes de trabalhar por vós como é oportuno, para que a língua não fique paralisada ao exortar, e para que nosso silêncio não nos condene diante do justo Juiz, a nós que assumimos a função de pregadores. Com efeito, muitas vezes a língua dos pregadores perde sua espontaneidade, por causa das suas culpas; e muitas vezes aqueles que são chefes se encontram desprovidos da possibilidade de pregação, por culpa dos fiéis. A língua dos pregadores é impedida pela sua malícia, em conformidade com aquilo que recita o salmista: “Ao pecador, porém, Deus diz: por que recitas meus mandamentos?” (Sl 49 [48],16). Outras vezes, a voz dos pregadores é impedida culpavelmente pelos fiéis, como o Senhor diz a Ezequiel: “Prenderei tua língua ao teu paladar, de modo que teu mutismo te impeça de repreendêlos, pois é uma raça de recalcitrantes” (Ez 3, 26). Come se dissesse: Ser-te-á tirada a palavra da pregação, porque o povo não é digno de ouvir a exortação da verdade, dado que tal povo é rebelde nas suas ações. Contudo, nem sempre é fácil saber de quem é a culpa, quando o pregador fica desprovido da palavra. Mas sabe-se com toda certeza que o silêncio do pastor às vezes prejudica a si mesmo, e sempre os fiéis que lhe estão submetidos. Caríssimos irmãos, existem outras situações que me entristecem profundamente sobre o modo de viver dos pastores. E para que não pareça ofensivo para alguém, aquilo que estou para dizer, acuso-me ao mesmo tempo a mim mesmo, embora me encontre neste lugar não decerto por minha livre escolha, mas sobretudo obrigado pelos tempos calamitosos em que vivemos. Estamos atolados em questões terrenas, e uma coisa é o que assumimos com o ofício sacerdotal, e outra é aquela que mostramos com os fatos. Nós abandonamos o ministério da pregação e somos chamados bispos, mas talvez para nossa própria condenação, dado que possuímos o título honorífico, mas não as qualidades. Aqueles que nos foram confiados abandonam a Deus e nós permanecemos em silêncio. Jazem nos seus pecados e nós não lhes estendemos a mão para corrigi-los. Mas como será possível para nós emendar a vida do próximo, se nós mesmos descuidamos a nossa? Totalmente ocupados com afazeres terrenos, tornamo-nos tanto mais insensíveis interiormente, quanto mais parecemos atentos aos problemas exteriores. Precisamente por este motivo a santa Igreja diz o seguinte dos seus membros doentes: “Puseram-me como guardiã das vinhas, mas não guardei minha própria vinha” (Ct 1, 6). Destinados a ser guardiães das vinhas, não conservamos de modo algum a vinha porque, implicados em obras alheias, descuidamos o ministério que deveríamos levar a cabo». (Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos, 17, 3.14; PL 76, 1139-1140.1146; ofício das leituras de sábado; 27º domingo do tempo comum) Tirado de: Ut unum sint, n. 6, 2010. E-DIALOGUE • Nr 8 ano 2011

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Na biblioteca Título: In questo mondo benedetto La consacrazione secolare nella luce di Maria di Nazaret Autor: Giuseppe Forlai Editora: san Paolo Preço: e 9,00 Maria de Nazaré, como exemplificação da vocação a unir o amor pela história e a participação radical no projeto de Jesus, a fidelidade às vicissitudes humanas e a consagração total à realização do Reino, torna-se um modelo para os consagrados no mundo. Título: Tutti santi tutti fratelli Autor: Guglielmo Giaquinta Editora: Pro Sanctitate Preço: e 8,00 Uma colectânea de meditações do Servo de Deus, monsenhor Guglielmo Giaquinta, fundador do movimento «pro sanctitate» e do relativo Instituto secular, sobre a santidade e a fraternidade, propostas precisamente quando parece diminuir o espaço para Deus e quando se dilaceram os próprios relacionamentos entre os homens. Um serviço à esperança cristã.

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