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Goya: «el sueño de la razón produce monstruos». . .

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el sueño de la razón produce monstruos. Daí a necessidade de um certo deslocamento: Nous assistons, en effet, à une sorte de polarisation entre la “ vue intérieure ” du rêveur, dont les yeux sont maintenant complètement occultés, et la thématisation, voire l’exaltation du regard “ extérieur ” du lynx [. . . ]. Dans le deuxième frontispice de Goya donc, tandis que l’“ auteur songe ”, sa vue intérieure travaille et la vue aiguë du “ bon entendeur ” – contre-figure du spectateur – veille. (Ibidem: 214)

A aguçada visão do “bom entendedor” é aqui alegorizada pela figura do lince. Stoichita e Coderch lembram-nos, com efeito, de que: “a vista do lince é um antigo motivo simbólico plenamente codificado já na Hieroglyphica de Valeriano Bolzani” e que, “em Gracián, faz integralmente parte do arsenal de que era dotado o ‘bom entendedor”’ (Ibidem). Ora, a que considerações nos poderiam conduzir estas notas? Dir-nos-ia Helmut C. Jacobs, falando-nos do processo de disseminação das ideias liberais, na Espanha da segunda metade do século XVIII: Todo este proceso culminó en el caos de la Guerra de la Independencia española contra las tropas francesas de Napoleón. Era una época de represivas premisas políticas, por las cuales numerosos artistas e intelectuales se vieron obligados a recluirse en sí mesmos y concentrarse en su propia subjetividad. Goya comprendió a la perfección esta compleja problemática y la visualizó en la postura resignada del hombre que duerme en el Capricho 43. (JACOBS, 2011: 11)

“Postura resignada”? Teria sido, então, verdadeiramente, essa a razão pela qual se teria anulado “o simbolismo leonino” do primeiro desenho? Com efeito, Stoichita e Coderch recordavam-nos já a observação de Diego de Saavedra Fajardo quando, nas suas Empresas Políticas, de 1640, escrevia: “o leão é unanimemente reconhecido como rei dos animais. Ele dorme pouco ou, se dorme, tem os olhos abertos. [. . . ] Isso faz parte das suas astúcias e das suas dissimulações” (Stoichita, 2016: 213; sublinhado meu). Por um efeito de deslocamento – sabe-se o quanto o “deslocamento” viria a ser, com Freud, uma das operações do “trabalho do sonho”. . . – é agora o lince que representa a acuidade e a perspicácia da sua visão: www.lusosofia.net

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

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