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Demasiado humano – a familiaridade do monstro

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Já no começo do século XIX, surge um dos mais famosos textos que articulam a existência do monstruoso: Frankenstein: The Modern Prometheus10 (a 1.a edição é de 1818). Trata-se do momento literário em que, mais do que em Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886), o monstro é completamente incorporado na ideia do humano. De tal modo que, na história da receção da obra, o nome do protagonista que lhe dá título se confunde com o nome do monstro. O “Prometeu moderno” do subtítulo não é senão o criador do monstro; a monstruosa criatura propriamente dita não chega a ser nomeada. A jovem Mary Shelley escreveu o texto aos 16 anos e publicou-o dois anos depois: o seu propósito era criar um relato fantástico e a inspiração achou-a, entre outras fontes, nos frequentes debates do seu círculo de intelectuais sobre fenómenos científicos que eram grande novidade na altura, como a eletricidade (em 1781, no laboratório do italiano Luigi Galvani, os membros de uma rã morta reagem com movimento ao contacto casual com material elétrico). O relato de Frankenstein toma a forma epistolar e o ser criado e animado pelo Dr. Frankenstein é descrito pela primeira vez na quarta carta de Robert Walton: We perceived a low carriage, fixed on a sledge and drawn by dogs, pass on towards the north, at the distance of half a mile; a being which had the shape of a man, but apparently of gigantic stature, sat in the sledge and guided the dogs.

Mais adiante, o autor da carta conta à irmã, Mrs. Saville, a conversa que teve com Victor Frankenstein, o jovem cientista que a expedição de Walton encontra perdido e apavorado, e em perseguição à criatura que gerara. Depois de uns dias a recuperar os sentidos, a frase com que Frankenstein responde a Walton sobre o que foi fazer àquelas longínquas paragens do Pólo Norte é: “To seek one who fled from me.” O verbo, aqui conjugado no passado irregular, é “to flee”, que significa “fugir, escapar, desandar” – mas a forma da palavra é comum ao verbo inglês “voar” (“to fly”), assim como a “fluir” (“to flow”). Ou seja, quando, no relato epistolar, o jovem cientista Victor Frankenstein se refere pela primeira vez à sua criatura, diz claramente 10 Refiro-me, aqui, à edição do texto online, que pode ser consultada a partir de http://www .idph.com.br/conteudos/ebooks/frankenstein.pdf (a consulta mais recente fi-la em 10 de abril de 2018).

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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