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Demasiado humano – a familiaridade do monstro

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Espanha”. Ao lado do europeu. À semelhança do que More parece fazer em Utopia (mesmo descontadas as cautelas que, devido à muito volúvel situação religiosa e política do tempo, teve de tomar), Montaigne elabora uma defesa do estranho: a mensagem de ambos parece ser: vejam como estes povos vivem e tirem lições que deveríamos transportar para a Europa. A descrição do Outro, do “sauvage”, por Montaigne, corresponde a uma justificação da diferença. Com ela, por um lado, surge o apelo à racionalização e, por outro, apresenta-se o relativismo de um espelho em que a sociedade se deveria observar. O tom de Montaigne é irónico, quase sarcástico: il n’y a rien de barbare et de sauvage en cette nation [. . . ] sinon que chacun appelle barbarie, ce qui n’est pas de son usage. Comme de vray nous n’avons autre mire de la verité, et de la raison, que l’exemple et idée des opinions et usances du païs où nous sommes. [. . . ] Ils sont sauvages de mesmes, que nous appellons sauvages les fruicts, que nature de soy et de son progrez ordinaire a produicts: là où à la verité ce sont ceux que nous avons alterez par nostre artifice, et destournez de l’ordre commun, que nous devrions appeller plustost sauvages.

Este povo de “sauvages” tem entre as suas práticas o canibalismo, que dá título ao ensaio; trata-se de um dos mais monstruosos hábitos, naquele tempo e no nosso. Mas, na altura de o relatar, Montaigne volta a recorrer ao exemplo do “monstro selvagem” como contraponto positivo em relação ao “civilizado”. Os habitantes da ilha de Atlântida devoram os inimigos depois de os matarem “para levar a vingança ao último extremo.” Mais adiante, o autor considera haver mais barbárie em comer um homem vivo que morto, dilacerar com tormentos e martírios um corpo ainda cheio de vitalidade, assá-lo lentamente e arrojá-lo aos cães e aos porcos, que o mordem e martirizam (como vimos recentemente, e não lemos, entre vizinhos e concidadãos, e não entre antigos inimigos, e, o que é pior, sob pretexto de piedade e de religião) que em o assar e comer depois de morto. O Outro, nesse texto de Montaigne, é um exemplo daquilo que poderia ser melhor no Mesmo: há mais nobreza no canibalismo do que na verdadeira barbárie e guerra que o europeu perpetua e transporta para os solos que “descobre”. O monstro não só está mais próximo geograficamente como é um exemplo, um modelo a seguir: as suas práticas deveriam ser adotadas pelo colonizador europeu que, esse sim, pratica atos considerados monstruosos. De exemplo, o “selvagem” www.lusosofia.net

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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