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Ana Isabel Soares

More7 . Não descrevendo monstros, descreve o diferente, que está, significativamente, distante, localizado num não-lugar (sentido literal da palavra que dá título à obra e nome à ilha). Na ilha de Utopia vive uma sociedade muito diferente da europeia. Na carta que More escreve a Peter Gilles, explicando o encontro que terá tido com Raphael Hitlodeo, o português que lhe relatou a viagem até àquela ilha, diz: “não nos ocorreu perguntar-lhe, e ele também não lembrou de dizer, em que região do Novo Mundo está Utopia”. Apesar do extremo cuidado em descrevê-la tal e qual foi relatado pelo português, e da preocupação em traçar com verosimilhança e autenticidade todo o relato, afirma-se o absurdo de nem sequer se perguntar onde se situa aquela maravilha. No livro II da obra de More, a ilha é descrita com grande pormenor topográfico e geográfico: quanto mede de um extremo ao outro, quais os ventos predominantes, tudo o que diz respeito ao (não) lugar como se nada mais houvesse além dele. Aliás, o que vem de fora da ilha é perigoso, e há rochas que impedem os estrangeiros de ali entrar. A ilha de Utopia é uma espécie de reduto do diferente que, não tendo nenhum monstro assim descrito, cria uma distância entre o conhecido e o absolutamente desconhecido (porque nem sequer localizável), o não existente. Utopia mostra o oposto daquilo que, em 1595 (em edição póstuma), surge num texto em que Michel de Montaigne apresenta um povo com práticas canibais. Quando escreve “Les Canibales”, Michel de Montaigne localiza o espaço do estranho (onde se encontram os ditos canibais) muito mais próximo da Europa: no capítulo XXX do Livro 1 dos Ensaios8 , o autor enaltece o povo de “um lugar onde Villegaignon tocou terra, que denominou a França Antártica . . . um país infinito. . . ” e afirma que “não é muito provável que essa ilha fosse o mundo novo que acabamos de descobrir; tocava quase com a Espanha”. De uma situação em que não se sabe onde fica nem se recorda quem ouve o relato de fazer a pergunta sobre a localização (More), passa-se à designação de um lugar com nome de país europeu e que “tocava quase a 7 Thomas More publicou em 1516 o texto, cuja redação inicial é em latim. Uma das mais completas edições online encontra-se em Open Utopia, http://theopenutopia.org/fulltext/introduction-open-utopia/ (a consulta mais recente que fiz foi em 10 de abril de 2018), e foi a partir desta que citei (e traduzi) para o presente artigo. 8 Refiro-me à edição online que pode ser encontrada aqui (consulta mais recente em 10 de abril de 2018): http://www.bmlettres.net/IMG/pdf/MONTAIGNE_Essais-Chapitre-XXX_Descannibales.pdf

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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