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Ana Isabel Soares

do monstro (tão familiar que habita em nós); por outro lado, clarifica-se a ligação do monstruoso ao modo como o ser humano entende o espaço e se entende no espaço. Conforme sugere José Gil na obra citada, até ao século XVI o entendimento do ocidental sobre a terra que habita é muito diferente do que temos hoje: então, a terra é plana e a sua realidade entrosa na ideia da relação do homem com o divino; a terra onde se vive está associada a uma espécie de estado anterior ao além; este, por sua vez, pode ser, conforme o destino das almas, uma região superior para onde estas se alçam por fatalidade ou bondade de vida, ou uma região inferior, para onde escorregam aquelas que, por má sorte ou labor, escapam ou se desviam dessa bondade. O céu e o inferno, conceitos religiosos, articulam-se, por seu lado, com conceitos geográficos (o inferno é um mundo inferior, localiza-se por baixo do plano humano). O entendimento do ser humano funda-se, portanto, na ideia de espaço. Ora, se o lugar que se habita é limitado, plano, de contornos nítidos e finitos, sempre que algum elemento não integre tal lugar do humano e esteja, além disso, fora do espaço da criação divina, está do lado de fora (ou em baixo), ou num lugar que não se percebe qual é (e o contrário é verdadeiro: se está do lado de fora dos limites conhecidos, não é humano). Trata-se de um problema para o pensamento da época anterior ao século XVI: Santo Agostinho interroga-se precisamente sobre a natureza do monstro, sem chegar a qualquer conclusão. O autor, que viveu entre os séculos IV e V a.C., expressou três possibilidades para a compreensão do monstruoso, na sua principal obra, Cidade de Deus: a de que não existem aberrações/monstros; ou, existindo tais criaturas, o não partilharem elas connosco nenhuma humanidade; ou (terceira hipótese), partilhando as aberrações ou monstros de alguma humanidade, terem de ser entendidos, forçosamente como filhos de Adão – e, logo, como semelhantes aos humanos. Santo Agostinho revela que tal preocupação não tem solução, que permanece irresolvida. A literatura posterior, mas também as representações cartográficas, como a seguir proponho, haveriam de possibilitar uma interpretação segundo a qual monstruoso e humano são, de facto, equiparáveis, têm características comuns.

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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