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Ana Isabel Soares

afirma que este “tem ódio aos estágios que ficaram mais próximos da animalidade: de onde se pode explicar o antigo desprezo pelo escravo, como sendo um não-humano, uma coisa.” Trata-se de um dos momentos em que parece definir-se um “monstro” por oposição à humanidade. No parágrafo 138 (integrado no capítulo dedicado à vida religiosa), diz-se que “é no afeto que [o homem] é mais moral” e que tal se deve porventura “à vizinhança de tudo o que é grande e que excita fortemente; levado a uma tensão extraordinária, [. . . ] ele quer de todo modo o que é grande, poderoso, monstruoso”. Mais adiante, no capítulo que dedica aos “Sinais de cultura superior e inferior”, Nietzsche escreve, no parágrafo 260, que “as pessoas superestimam tudo o que é grande e eminente”, o que resulta “da perceção, consciente ou inconsciente, de que acham bastante útil alguém lançar toda a energia numa só área e fazer de si como que um órgão monstruoso” – ou seja, gigantesco, desmesurado, que se excede. O apelo que Nietzsche aqui identifica pela enormidade ajuda-o a descrever os “espíritos livres”, a quem dedica o livro “melancólico-brioso”; mas a existência desses espíritos, afinal, ainda é apenas fruto da confabulação do filósofo para encontrar na sua companhia “de valentes confrades fantasmas” uma forma de compensar “os amigos que faltam”. Na imaginação de Nietzsche, estas formas antecipadas de existência ultrapassam o humano até ali conhecido. Mas, apesar de as qualificar como “monstruosas”, não as considera “monstros” (a adjetivação é prévia à nominalização, que consubstancia o ser). O meu interesse no texto de Nietzsche passa, além da ideia contida no título, pela explicação da génese espiritual da desmesura, da desmedida. Quando em 1799 o pintor espanhol Francisco de Goya gravou, num dos seus “Caprichos” (o que leva o número 43), a legenda “El sueño de la razón produce monstruos”3 , literalmente inscrevia o sentido ilustrado na figura: um escritor debruça-se sentado a uma mesa (veem-se folhas de papel e o que parece uma caneta), o rosto escondido entre os braços, o corpo torcido, e parece dormir, ou querer proteger-se da nuvem de seres que sobre si volteiam. Estes podem ter-se gerado a partir de um gato que, do lado direito da gravura, vigia o sono do escritor: ganham, à medida que se 3

Uma reprodução amplificada desta gravura pode ser vista a partir da página web do Museu do Prado, em Madrid, através do endereço https://www.museodelprado.es/coleccion/ob ra-de-arte/el-sueo-de-la-razon-produce-monstruos/e4845219-9365-4b36-8c89-3146dc34f28 0 (consultado em 10 de abril de 2018).

www.clepul.eu

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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