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Estranhas e admiráveis singularidades da natureza – alguns exemplos (séculos XVI-XVIII)

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namente mais bem conhecido e experienciado por um número crescente de exploradores, viajantes, aventureiros, religiosos e gente de saber e ciência. Ao longo dos tempos, a matéria teratológica foi sendo compilada, tratada, interpretada por diversos especialistas (recorde-se, a título ilustrativo, Conrad Gesner, Ambroise Paré, Conrad Lycosthenes, Pierre Boaistuau, Forunio Liceti, Domingos Vandelli; as numerosas publicações naturalistas e médicas patrocinadas quer pela Royal Society of London quer pela Académie des Sciences de Paris). O século XX, por seu turno, deu continuidade a esse trabalho de estudo dos monstros e prodígios, como o testemunha a obra Monstres, Démons et Merveilles à la Fin du Moyen Âge de Claude Kappler (1980)6 ou a obra coletiva Monstres et Prodiges au temps de la Renaissance, dirigida por M. T. Jones-Davies (1980)7 . Na referida obra de Claude Kappler, surge uma muito sistemática e completa tipologia de monstros definida em onze parâmetros [como lugar do antitético; como lugar de falta/falha; como lugar de modificação orgânica; como lugar de grandeza/pequenez do corpo ou longevidade/brevidade da vida; como lugar de substituição do habitual pelo insólito; como lugar de mistura dos reinos naturais (animal/mineral/vegetal); como lugar de mistura ou dissociação de sexo; como lugar de hibridação; como lugar da animalidade; como agente de destruição; como lugar de monstruosidade não morfológica (cor; isolamento; linguagem)] e uma tipologia de prodígios definida em três parâmetros (caráter excecional dos elementos naturais; fenómenos que interrompem o curso normal da natureza; como lugar da metamorfose). Claro que as fronteiras entre o monstruoso e o prodigioso não são estanques, antes bastantes permeáveis, ao ponto de se confundirem ou identificarem. Passemos agora para o lado da literatura e cultura portuguesas, começando nomeadamente com alguns exemplos da construção do monstruoso no âmbito da literatura de viagens da época dos Descobrimentos portugueses. É preciso dizer, antes de mais, que, neste corpus, o mitológico/fabuloso da Antiguidade ou o monstruoso do imaginário medieval são francamente mi6 Cf. Claude Kappler, Monstres, Démons et Merveilles à la Fin du Moyen Age, coll. “Le regard de l’Histoire”, Paris, Payot, 1980. 7 Cf. M. T. Jones Davies (dir.), Monstres et Prodiges au temps de la Renaissance, Centre de Recherches sur da Renaissance, Institut de Recherches sur les Civilisations de l’Occident Moderne, Université de Paris – Sorbonne, Paris, diff. Jean Touzot Libraire – Editeur, 1980.

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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