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Pedro Emanuel Quintino de Sousa

dos intervenientes na História. A sequência fílmica de Vidal a coser o próprio rosto cria um distanciamento que permite ao espectador reforçar um retrato monstruoso dos tabus sociais e temas reprimidos na Espanha pós-guerra, politicamente indisponível para expurgar os monstros do passado traumático. A personagem de Vidal representa, ainda, a recusa racional da imposição da ficção sobre a História ao negar de forma constante a emancipação e/ou fixação da imaginação subversiva de Ofelia. A presença de Vidal na dimensão real do filme converte o espaço no qual se movem as personagens num ambiente asfixiante, dramático e violento. O relógio do bolso do capitão, elemento recorrente durante todo o filme, aparece pela primeira vez para marcar a rigidez obsessiva do capitão insatisfeito pela falta de pontualidade da sua mulher e enteada. O relógio, ainda, contém uma carga simbólica significativa: no filme, o relógio pertencia ao pai do capitão e tinha marcada a hora da sua morte, permitindo ao espectador antecipar o que irá acontecer à personagem. Podemos, assim, afirmar que os monstros mais perigosos existem no plano histórico e, consequentemente, encontram o seu homólogo na realidade interior de Ofelia. Os monstros históricos não apresentam transformações ou deformações físicas, exibem um perfil político e militar autoritário. Guillermo del Toro oferece n’O Labirinto do Fauno uma construção do monstruoso dependente de quem observa: o olhar inocente de uma criança ou os olhos ameaçadores e controladores do Estado ditatorial. A criança representa, neste contexto, uma importante figura de dissidência e resistência ao autoritarismo. Enfraquecida e privada da própria inocência, Ofelia personifica um tipo de monstruosidade. Tal como os Maquis, Ofelia ameaça o status quo e merece o reconhecimento de perigosa. A crença de Ofelia em fadas, monstros e labirintos é visto por Vidal e Carmen, sua mãe, como um reforço do mundo e do universo infantis. Mas o filme de del Toro oferece a Ofelia e ao mundo fantasioso a possibilidade de reconstituir a verdadeira identidade principesca da criança. O filme termina com a superação da última prova apresentada pelo Fauno na qual Ofelia se sacrifica para salvar o irmão recém-nascido. Mas, no seguimento das teorias de Todorov, Guillermo del Toro opta por revelar a realidade subjacente à fantasia. O realizador nega a Ofelia a concretização da fantasia no mundo da História: em última instância, o mundo mágico de Ofelia revela-se inexistente ou falacioso com uma imposição do mundo histórico. O reawww.clepul.eu

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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