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O Labirinto do Fauno e os monstros históricos de Guillermo del Toro

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como representados por Vidal ou, até, pelo Fauno, comprovam o seu estatuo de heroína ativa e não-conformista. A maturidade de Ofelia não advém da passividade nem do silêncio, como comanda a tradicional representação da figura feminina nos contos de fadas. A sua condição, ao contrário, por exemplo, da Bela Adormecida, não é comatosa nem dependente de um Príncipe Encantado. Ofelia não confia verdadeiramente em nenhuma das criaturas ao seu redor: a sua capacidade de sacrifício representa simbolicamente o seu renascer para o reino subterrâneo onde é conhecida como princesa Moana. De acordo com Jeffrey Jerome Cohen e a sua obra Monster Theory, os monstros de Guillermo del Toro representam o Outro dialético, o marginal (outsider), embora sempre criados dentro do universo particular do filme e do contexto histórico da Guerra Civil. Deste modo, qualquer personagem dissidente e não-conformista pode ser considerada como antagonista às forças militares de Franco, personificadas na personagem diabólica de Vidal. A figura dissidente dever-se-á manter em silêncio ou em constante medo ao expressar as suas preferências na presença do Capitão. Para além da monstruosidade de Ofelia, podemos ainda invocar os exemplos do médico Ferreira e da governanta e irmã de um dos Maquis, Mercedes, e os próprios Maquis. O Labirinto do Fauno apresenta as vozes dissidentes como o Outro radical perante os Franquistas e perante as forças políticas daquele tempo. No entanto, a personagem do Capitão Vidal é, talvez, o monstro maior do filme cujo corpo é deformado já na parte final do filme quando Mercedes inflige um corte no rosto da personagem. A figura do capitão representa um monstro calculista que detalha minuciosamente todas as ações repressivas do corpo militar. A figura do capitão reforça a existência das duas tipologias monstruosas de O Labirinto do Fauno: por um lado, o monstro de facto – representado pelas fadas, o Fauno, a mandrágora e o Homem-Pálido – que pode, no entanto, ser o monstro metafórico que permite ao espectador uma representação desfigurada da realidade histórica cujos objetivos serão a evasão da realidade ou a catarse do medo real através do medo ficcional; por outro lado, o monstro simbólico representado, primeiro, pela opressão, medo, guerra e ditadura e, depois, pela personagem do Capitão Vidal que se apresenta como produto brutal de um sistema particular numa História particular e num passado particular. Vidal, à imagem de Frankenstein, revela as consequências abjetas e perigosas do Fascismo, permitindo ao espectador um exercício de simulação www.lusosofia.net

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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