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O Labirinto do Fauno e os monstros históricos de Guillermo del Toro

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labirinto, a presença intemporal da Natureza e constitui uma figuração carnavalesca do tempo histórico: esta figura monstruosa é retratada a comer carne crua, facto que lhe atribui uma condição existencial para além – ou aquém – de qualquer intelectualidade. A ambiguidade do Fauno prolonga-se para uma possível identificação com os Maquis como forças habitantes do monte. Um ser que não existe simplesmente no tempo, mas em todos os tempos. Guillermo del Toro esclarece que o monstro gótico que o Fauno de facto é representa tanto a memória histórica como a mentira, sendo que a figura do monstro se adapta à sua existência narrativa num mundo definido e marcado por acontecimentos históricos como a Guerra Civil. Mais, o Fauno provoca em Ofelia um misto de medo, desconfiança e proteção, ao atribuir-lhe o passado majestoso como princesa Moana. A personagem monstruosa e maravilhosa permite à criança superar ou recuperar da suposta amnésia em que se encontra e reclamar o seu reino subterrâneo se superar três provas antes da próxima lua cheia. Para se orientar, Ofelia recebe do Fauno um livro aparentemente em branco: o Livro das Encruzilhadas, que mostrará o futuro de Moana e o que deve fazer para superar as provas e regressar ao seu reino. Ofelia – ou princesa Moana – escreve a sua própria narrativa cuja influência no plano real pode determinar, de certo modo, a reescrita da sua própria história. O espectador d’O Labirinto do Fauno é, então, confrontado com um jogo de escrita e reescrita, realidades fílmicas e fantasias, dentro do contexto histórico do pós-guerra: del Toro apresenta, por isso, ao espectador a possibilidade de reescrever a narrativa coletiva e pessoal, a infra-história dos vencidos. Para superar a segunda prova, Ofelia, qual Alice no País das Maravilhas, é advertida no Livro das Encruzilhadas e pelo Fauno que, assim que atravesse o umbral criado pelo giz mágico, deve girar a ampulheta e, mais importante, deve resistir a provar qualquer alimento do manjar disposto na mesa. Durante a cena, Ofelia – ou Moana – segue o seu instinto e recupera, de facto, a adaga (ou punhal), num ambiente tenso porque na presença inquietante do Homem-Pálido. A imobilidade do Homem-Pálido quebra-se quando Ofelia prova uma das uvas na mesa. A referida tensão dramática aumenta quando a figura albina e sinistra começa a movimentar-se e insere os próprios olhos nas mãos, fazendo justiça à máxima de Guillermo del Toro segundo quem os olhos são o início de tudo. A decisão e ação de Ofelia restitui ao monstro a capacidade de ver: aqui, os olhos funcionam como metáfora www.lusosofia.net

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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