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Pedro Emanuel Quintino de Sousa

opressão fascista, transformando estes mesmo locais em símbolos de contestação e memória. Ofelia surge como agente histórico dotado da capacidade de contestar o peso histórico da ditadura através do recurso ao mundo de fantasia. No fundo, del Toro defende a fantasia e a representação gótica como forma legítima de compreender e lidar com o passado traumático da Guerra Civil e da ditadura. O mundo de Ofelia, pleno de paralelos entre o universo do maravilho e o fascismo violento de Franco, usa de forma eficaz a figura do monstro e a deformação física. Margarita Cuellar defende que o terror como género cinematográfico usa o monstro como reflexo das ansiedades sociais de forma a confrontar a ameaça constituída pela sua presença e introdução dos mesmos na dimensão histórica. Simon Hay, Chris Baldick e Robert Mighall escrevem que as ruturas históricas se manifestam de modo eficaz na figura do monstro para revelar a irracionalidade e fragmentação das conceções modernas de tempo e memória. O Labirinto do Fauno usa duplamente a figura monstruosa: primeiro, através da introdução de criaturas do universo maravilhoso e, depois, através da deformação física do corpo humano vítima de tortura e violência. O monstro em Guillermo del Toro confunde e/ou problematiza a linha entre história racional e ficção irracional, de novo com a função primordial de contestar a autoridade política sobre o discurso histórico. Os corpos grotescos – humanos e não humanos – no filme de del Toro questionam a história oficial de Espanha e a representação do seu passado. O Labirinto do Fauno apresenta quatro monstros não-humanos: as fadas, a mandrágora, o Fauno e o Homem-Pálido. O corpo do monstro transforma-se no filme no corpo de medo e do fascínio ou proibição. As fadas representam a primeira oscilação do filme entre real e fantasia; o Fauno introduz a mandrágora ao oferecê-la a Ofélia para que a coloque sob a cama da sua mãe e permita a sua total recuperação de uma gravidez difícil. A conotação religiosa sagrada e mágica da planta permite incluir na narrativa elementos sobrenaturais e/ou miraculosos. A condição inexplicável da recuperação de Carmen – a mãe de Ofelia – dinamiza a hesitação entre o racional e o irracional, ancorando-se num meio termo para criticar as idiossincrasias do catolicismo Espanhol; o Fauno – monstro que lidera o elemento fantasioso do enredo – mora no centro do labirinto e, em simultâneo, na entrada em ruínas do palácio subterrâneo de onde desapareceu Ofelia (ou princesa Moana). O Fauno simboliza, tal como o www.clepul.eu

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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