Page 145

O Labirinto do Fauno e os monstros históricos de Guillermo del Toro

141

passado. Tal como El Espiritu de la Colmena (1973) de Victor Erice, o filme de del Toro responde ao silenciamento do passado que pautou a presidência do Partido Popular (PP) de José María Aznar entre 1996 e 2004. O uso da fantasia para representar o pós-Guerra Civil permite ao público transgredir as fronteiras da censura institucional e coletiva. A abordagem cinematográfica pelo maravilhoso do realizador mexicano confunde realidade e ficção, optando pela figura do monstro como revelação do espaço traumático da memória espanhola. O rescaldo da Guerra Civil pautou-se por um ambiente repressivo onde a legitimação do poder franquista se refletiu na detenção, tortura, assassinato e deportação da oposição política. O filme abre com um plano de Ofelia, a protagonista, inconsciente e com sangue no nariz. No entanto, o plano é apresentado em reverso onde o sangue entra no nariz de Ofelia: a cena é interpretada como uma tentativa de del Toro em apresentar a priori o filme como tentativa nostálgica de reverter o passado e anular os efeitos trágicos da repressão e da Guerra Civil. Ofelia representa o arquétipo da nação como feminina e inocente e, tal como Espanha, a personagem principal do filme procede a exercícios variados de recuperação da memória: Ofelia procura a memória do reino mágico e Espanha procura a memória expurgatória da ditadura. A tensão entre as narrativas histórica e maravilhosa estabelece a imaginação implícita em ambas as versões do passado, mas, principalmente, permite o questionamento das versões oficiais de um passado estático. O Labirinto do Fauno dialoga com o trauma coletivo da Guerra Civil e a ditadura através da criação de espaço Góticos onde imaginação, espírito e monstros representam subversões às narrativas históricas e invocam a memória como forma de justiça. O labirinto onde Ofelia encontra o Fauno constitui o espaço primordial da memória. Emma McEvoy e Benjamin Hervey sugerem o labirinto como recurso Gótico para sugerir a inacessibilidade e proibição à realidade histórica. O labirinto desloca o pensamento linear e racional, substituindo-o por multiplicidade, fragmentação e desorientação. O labirinto, tal como a casa de Ofelia, apresentam uma qualidade obscura onde elementos do maravilhoso – como o Fauno, o Homem-Pálido e as fadas – e históricos – como o Capitão Vidal – agem de forma opressiva perante os desejos de Ofelia e da sua mãe. Todos os lugares onde Ofelia executa as tarefas apresentadas pelo Fauno estabelecem um paralelo com a realidade histórica e a www.lusosofia.net

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

Profile for clepul
Advertisement