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Pedro Emanuel Quintino de Sousa

talismo kitsch. A nostalgia kitsch rejeitou o potencial da estética do Gótico e do Grotesco para libertar o cinema da retórica dogmática da política. O cinema histórico e memorial adotou uma agenda liberal e não-radical para representar uma classe média apática e socialmente inapta. O Labirinto do Fauno surge neste contexto histórico e político onde as feridas do passado estão reabertas no espaço público de uma nação ainda dividida entre memória e esquecimento. Em 2006, ano de lançamento do filme, a reabilitação dos homens e mulheres reprimidos por Franco, a exumação das vítimas da violência fascista, bem como a produção cinematográfica, literária e intelectual começam a refletir de forma consistente a recuperação da memória histórica como imperativo ético e moral. Escreve Labanyi que as vítimas de repressão política deviam ter a oportunidade de partilhar as suas experiências para um reconhecimento público da dor. Mais, o filme agora em discussão mediatiza e reconstrói o recordar coletivo da Espanha do pós-guerra: Ofelia como reflexo da memória traumatizada e protagonista feminina e criança realça a importância d’O Labirinto do Fauno para a transmissão da atrocidade a gerações futuras. Em entrevista, Guillermo del Toro afirmou que – a tradução é nossa – os contos de fadas exteriorizam ou manifestam conflitos e questões intrinsecamente interiores. O realizador invoca, ainda que de modo indireto, as teorias de Bruno Bettelheim nas obras Psicanálise dos Contos de Fadas e The Uses of Enchantment, para declarar que a função de monstros e bruxas nos contos infantis serve como representação ou metáfora para a morte, a orfandade e o abandono para facilitar o processo de maturidade e crescimento emocional, podendo, assim, superar todos os medos simbólicos. A opção fílmica em incluir o olhar subjetivo de uma criança facilita a coexistência dos planos narrativos histórico e fantasioso. A presença de crianças num filme permite, também, a criação de mundos nos quais a perspetiva da criança é orquestrada através da representação de temporalidades míticas alternativas, em particular o “Era uma vez” dos contos de fadas. A dimensão da fantasia liberta o recontar do passado já que o foco da criança não se encontra restrito aos usos convencionais de tempo e de espaço. Guillermo del Toro apresenta n’O Labirinto do Fauno uma tensão óbvia entre a atitude liberal característica da memória histórica mais dogmática com a representação dos heróis e vítimas da República e uma abordagem mais crítica ao passado através das estéticas gótica e grotesca, de grande eficácia na representação do trauma e do www.clepul.eu

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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