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O Labirinto do Fauno e os monstros históricos de Guillermo del Toro

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vampiros de Cronos, Hellboy dos filmes epónimos, o fantasma de El Espinazo del diablo, o Fauno e o Homem Pálido de O Labirinto do Fauno. De acordo com Mary Douglas, a sensação de medo e repulsa criada pelos monstros humanoides deve-se ao facto de os mesmos questionarem o conceito de pureza que permite uma higienização constante da sociedade – os monstros representam um modelo existencial contrário ao entendimento social de todas as coisas normais. Ou seja: os monstros, mais os monstros humanoides, constituem uma violação das normas sociais e da estrutura cognitiva e epistemológica do homem: os monstros desafiam as fundações culturais e sociais de um modo de pensamento. Os monstros oferecem um recetáculo a todas as impurezas que a sociedade tem necessidade de expurgar. Os teóricos Peter Hutchings e Julia Kristeva consideram o abjeto como uma ameaça à identidade e, em simultâneo, uma forma de fascínio e sedução para os limites da humanidade da pessoa leitora e da pessoa espectadora. Os monstros podem ser ainda interpretados e definidos na sua relação com o espaço já que incorporam questões de etnia, classe e sexualidade. O monstro constitui um ser (ou não-ser) que existe (ou coexiste) num espaço marginal cuja ameaça de transposição para um espaço não marginal desestabiliza a ordem burguesa e/ou da sociedade de consumo. Judith Halberstam afirma que o monstro atribui um corpo ou uma forma física estável ao preconceito, pese, no entanto, a sua essência transformativa e sempre em movimento. Mais, a construção lógica da monstruosidade media o conhecimento e compreensão coletivos da História e o exercício da tortura e do medo como evidenciados pela personagem do capitão Vidal. Os monstros humanos e não-humanos servem no filme de del Toro como apresentação de figuras repressivas e militares às gerações do novo milénio: as personagens mais ou menos monstruosas coexistem no filme numa dimensão histórica. O duplo efeito do filme, resultante da mistura entre narrativa histórica e imaginário fantasioso, providencia à audiência a possibilidade de valorização dos textos em complementaridade com a realidade histórica. Interpretar O Labirinto do Fauno requer contextualização histórica: como referido, a ação do filme desenrola-se nos últimos anos da ditadura franquista e durante o período de transição para a democracia. Antes da morte de Francisco Franco a 20 de novembro de 1975, os líderes do regime propuseram uma transição pacífica da ditadura para a democracia, conhecido como el pacto del www.lusosofia.net

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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