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João Minhoto Marques

me deito, / E enche de insónia e febres o meu leito, / Velando até quando o meu corpo dorme;”38 ), ou em “O papão”, pertencente a As Encruzilhadas de Deus: “Atrás da porta, erecto e rígido, presente, / Ele espera-me. (. . . ) // O seu olhar, então, fuzila como um facho. / Suas asas sem fim vibram no ar como um açoite. . . // (. . . ) // Quando uma súbita viragem / Me faz ver (truque já velho!. . . ) / Que estou em frente do espelho, / Diante da minha imagem.”39 ; a reflexão acerca da própria condição humana, por exemplo em “Geografia humana”, de A Chaga do Lado: “Todo peludo e tosco, exemplar digno de se ver, / — O belo monstro! — ei-lo exposto / (. . . ) Seus braços guedelhudos e pendentes, / Suas pernas truncadas e cambadas. // (. . . ) O monstro cuja forma é quase humana. (. . . )”40 . Por fim, é importante sublinhar o destaque concedido à problemática do monstruoso em alguns dos textos da série coligida no volume Fado, e dos quais o intitulado “Fado dos ferros” constitui porventura o mais significativo exemplo da representação do monstro mais humano que fera, em quem não é possível deixar de se reconhecer o apelo da nossa própria face, o desafio de um gesto de fraterna descoberta41 : Entre os ferros das cadeias, Aos postigos das prisões, Assassinos e ladrões Estendem as mãos patudas. Faces anómalas, mudas, Com pupilas desfocadas Em testas amarfanhadas 38 39

Cf. José Régio, Biografia, 6.a edição, Porto, Brasília Editora, 1978, p. 129. Cf. José Régio, As Encruzilhadas de Deus, 7.a edição, Porto, Brasília Editora, 1981, pp. 89;

91. 40 Cf. José Régio, A Chaga do Lado. Sátiras e Epigramas, 4.a edição, Porto, Brasília Editora, 1983, pp. 29-30. 41 No contexto da poética de José Régio — mas não só; como recorda Juliana Ciambra Rahe Bertin, “Levando em conta que a alteridade que constituiu o monstruoso nada mais é do que uma construção, um discurso, é possível entender que o monstro não é de fato tão ‘outro’ assim” (cf. “O monstro invisível: o abalo das fronteiras entre monstruosidade e humanidade”, Outra Travessia, n.o 22, 2016, p. 52) —, a figura do monstro tem frequentemente um caráter instrumental, uma vez que permite atribuir ao eu uma condição que o transcende. Neste sentido, o eu regiano constitui o homem, por antonomásia, representando a própria condição humana.

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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