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Eu e o monstro – olhares sobre um velho tema

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tro de mim.”32 ) o outro, imagem fantasmática, é representado como sendo “belo”, “todo doutra cor” e constitui o elemento punitivo do eu: “A sua companhia tortura-me”33 . Por isso, a única solução para o dissídio é a anunciada no final do texto: o assassinato do outro. Já em outro lugar nos ocupámos com algum detalhe dos nexos intertextuais34 que este texto de Mário de Sá-Carneiro estabelece com a peça de José Régio “Mário ou eu próprio-o outro”, incluída no volume Três Peças em um Acto35 . Trata-se, nesta obra, de literalmente dramatizar o fim de Mário, entidade cindida e em crise profunda, sinalizada, entre outras formas, pela ação trituradora que Outro36 exerce sobre Mário. Não é este, porém, o único texto de José Régio em que há lugar à figuração monstruosa da crise ontológica moderna. Considerando-se agora a poesia, pode facilmente verificar-se que essa linha de sentido ocupa um significativo lugar na poética do autor (como, aliás, na de outros poetas que, de modo mais ou menos explícito, estabeleceram ligações à geração presencista ou com ela manifestaram afinidades). Sem qualquer pretensão de exaustividade, poder-se-á recordar: a importância do motivo circense — nomeadamente em textos como “A terra é redonda”, de Biografia: “Pela curva infindável e poeirenta / (. . . ) / Uma carroça antiga e sonolenta. // Sustenta bobos e aleijões. . . (. . . ) / E um jovem clown azul, contra a vidraça, / Paira, sonhando (. . . ) // Lá das librés dos monstros e bufões. . . / Ai, pobre, ingénuo e belo clown jovem!”37 ; a representação narcísica, em situação especular, descobrindo o eu a face monstruosa de si — o que se verifica em poemas como “Lirismo”, igualmente incluído em Biografia (“Aquele monstro imenso e proteiforme / Que a par de mim se deita, se 32 Cf. Mário de Sá-Carneiro, “Eu-próprio o outro”, in Céu em Fogo. Novelas, 4.a edição, Lisboa, Edições Ática, 1993, p. 197. 33 Cf. Mário de Sá-Carneiro, “Eu-próprio o outro”, in Céu em Fogo. Novelas, 4.a edição, Lisboa, Edições Ática, 1993, pp. 198-199. 34 Sobre a relação entre “Mário de Sá-Carneiro e José Régio”, veja-se, de Fernando J. B. Martinho, Mário de Sá-Carneiro e o(s) Outro(s), Lisboa, Hiena Editora, 1990, pp. 17-28. 35 Cf. José Régio, “Mário ou eu próprio-o outro”, in Três Peças em um Acto, 3.a edição, Porto, Brasília Editora, 1980, pp. 121-155. 36 A representação do Outro estabelece igualmente a figuração monstruosa através do recurso simbólico à imagem vampírica, como chamou a atenção Duarte Faria (cf. Metamorfoses do Fantástico na Obra de José Régio, Prefácio de Eduardo Lourenço, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português, 1977). 37 Cf. José Régio, Biografia, 6.a edição, Porto, Brasília Editora, 1978, pp. 17-18.

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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