Page 119

Eu e o monstro – olhares sobre um velho tema

115

do movimento modernista, deram conta da dilaceração do sujeito moderno em confronto com o mundo e consigo próprio, recorrendo, para esse fim, à figuração do monstro. Na primeira geração modernista é possível, desde logo, destacar o caso de Mário de Sá-Carneiro, uma vez que, na verdade, a autorrepresentação do sujeito em crise ocupa o centro da sua obra, tendo sido glosada em diversas tipologias genológicas e discursivas. Assim, na poesia, já desde Dispersão, de 1913, é manifesta a reflexão em torno da problemática da identidade. Assumindo a sua condição fragmentada, o sujeito procura encontrar-se, perdido como está, e dizer-se numa linguagem que espelha essa mesma condição. Deste modo, se, por um lado, poemas como “Álcool”22 ou “Dispersão”23 acentuam a perda de si próprio, outros dão conta da tentativa de se fixar em atributos ou nomes que, no entanto, e paradoxalmente, mais não fazem do que aprofundar a ferida do eu, mostrando-o com frequência numa face monstruosa. Deve-se, portanto, sublinhar como a atomização do sujeito se encontra consumada em textos como o primeiro referido, permitindo-lhe constatar: “Respiro-me no ar que ao longe vem / Da luz que me ilumina participo; / Quero reunir-me, e todo me dissipo — / Luto, estrebucho. . . Em vão! Silvo pra além. . . ”24 . Algo de semelhante acontece em “Dispersão”, trabalhando-se, desde o início do poema, a importante temática do labirinto: “Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim.”; e, mais à frente, afirma ainda o eu: “Não sinto o espaço que encerro / Nem as linhas que projecto: / Se me olho a um espelho, erro — / Não me acho no que projecto.”25 . Esta forma de autorrepresentação enfatiza a figura do eu sujeita a um processo de espacialização que converge, como se referiu, numa multiplicidade de imagens e atributos de caráter animalesco ou monstruoso, com particular destaque para a figuração simbólica e mítica da esfinge. Observem-se, a este respeito, os primeiros versos da estrofe inicial do poema “Estátua falsa”, 22

Cf. Mário de Sá-Carneiro, Poemas Completos, edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996, pp. 33-34. 23 Cf. Mário de Sá-Carneiro, op. cit., pp. 36-40. 24 Cf. Mário de Sá-Carneiro, op. cit., p. 33. 25 Cf. Mário de Sá-Carneiro, op. cit., pp. 36-37.

www.lusosofia.net

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

Profile for clepul
Advertisement