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João Minhoto Marques

cissões”18 que, em certa medida, seria possível sintetizar-se19 na esmagadora enumeração da penúltima estrofe do poema: “Tísicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina! Etnas de carne! Jobs! Flores! Lázaros! Cristos! Mártires! Cães! Dálias de pus! Olhos-fechados! Reumáticos! Anões! Deliriums-tremens! Quistos! Monstros, fenómenos, aflitos, aleijados, Talvez lá dentro com perfeitos corações: Todos, à uma, mugem roucas ladainhas, Trágicos, uivam ‘uma esmola p’las alminhas Das suas obrigações!’ Pelo nariz corre-lhes pus, gangrena, ranho! E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrasar. . . ”20

Como se pode constatar, “Monstros, fenómenos, aflitos, aleijados” constituem o corpo de um país em crise, “estranho” a que também o eu pertence, participando dessa “condição agónica”21 . Também neste sentido, aliás, não se podem ignorar as heranças finisseculares no modo como se deve equacionar a representação da crise ontológica que marca inequivocamente o Modernismo português. Observem-se, a título de exemplo, obras de dois autores que, protagonizando diferentes momentos 18

Cf. António Nobre, op. cit., p. 42. Antecedem a referida estrofe outras imagens que a antecipam — apesar de precedidas pelo ambiente festivo que com elas contrasta: “Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas! / Pão-de-ló de Margaride! / Aguinha fresca de Moirama! / Vinho verde a escorrer da vide! // À porta dum casal, um tísico na cama, / Olha tudo isto com seus olhos de Outro Mundo, / E uma netinha com um ramo de loireiro / Enxota as moscas, do moribundo. // (. . . ) // Clama um ceguinho: / ‘Não há maior desgraça nesta vida, / Que ser ceguinho!’ / Outro, moreno, mostra uma perna partida! / Mas fede tanto, coitadinho. . . / Este, sem braços, diz ‘que os deixou na pedreira. . . ’ / E esse, acolá, todo o corpinho numa chaga, / Labareda de cancros em fogueira, / Que o Sol atiça e que a gangrena apaga, / Ó Georges, vê! que excepcional cravina. . . // Que lindos cravos para pôr na botoeira!” (cf. António Nobre, op. cit., pp. 44-45). 20 Cf. António Nobre, op. cit., p. 45. 21 Como recorda José Carlos Seabra Pereira, o “Só consegue que (. . . ) o desfecho desastroso ou a evocação magoada das digressões neogarrettianas revertam em factores intensificantes da frustração e do derrotismo decadentista — podendo então ser lidos como escape vão ou margem lábil da condição agónica do sujeito lírico” (cf. António Nobre — Projecto e Destino, Porto, Edições Caixotim, 2000, p. 89). 19

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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