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João Minhoto Marques

de verosimilhança decorrente da estética da sinceridade e da autenticidade, típicas da poética romântica. Tal como os pintores, o narrador “desenha”, segundo uma lógica mimética, não na tela, mas no papel a imagem fiel, rigorosa e, portanto, verdadeira da sua interioridade em crise (“rien n’est beau que le vrai”, defenderá um outro narrador das Viagens9 ). Deve, deste modo, sublinhar-se que a figura monstruosa é inerente ao desvelamento da interioridade, dada a ver em espetáculo. Não se trata apenas de uma revelação de caráter pessoal; está em causa a exibição da ferida, da excecionalidade do próprio sujeito que, pela sua condição, suscita nos outros sentimentos e reações adversos. É neste sentido que o narrador pode concluir: “Tenho espanto e horror de mim mesmo.”. Este pathos romântico, decorrente da hipertrofia e da centralidade do sujeito, e que é possível surpreender em outros lugares da obra de Almeida Garrett, prepara, em certa medida, o olhar doloroso que alguma poética finissecular trabalha, anunciando já os alvores do Modernismo. O sujeito em crise reconhecerá no mundo que o rodeia e em que se inscreve a presença de um mal que pode ser du siècle, mas que não deixa, por isso, de se fazer notado e de impressionar ao ponto de suscitar a necessidade da imagem — “Qu’é dos Pintores do meu país estranho, / Onde estão eles que não vêm pintar?”, perguntará o sujeito de “Lusitânia no Bairro Latino”, no Só, de António Nobre10 . Na verdade, o tédio que elanguesce a vontade não oblitera nem a capacidade de diagnóstico dessa desconformidade entre o eu e o mundo, nem, por vezes, a sua representação (a do eu e a do mundo). Na obra de Cesário Verde, por exemplo, é possível reconhecer quer o sujeito em asfixia, frágil11 , deambulando pela cidade e dela desejando sair (em 9

Recorde-se que, perante o problema com que o narrador-autor se confronta no Capítulo III (nomeadamente, como descrever uma estalagem em tempo romântico, nas “eras de romantismo, século das fortes sensações, das descrições, a traços largos e incisivos que se entalham na alma e entram com sangue no coração” – cf. op. cit., p. 95), acaba por afirmar: “É como eu devia fazer a descrição: bem o sei. Mas há um impedimento fatal, invencível — igual ao daquela famosa salva (. . . ) que se não deu. . . é que nada disso lá havia. // E eu não quero caluniar a boa gente da Azambuja. Que me não leiam os tais, porque eu hei-de viver e morrer na fé de Boileau: // Rien n’est beau que le vrai.” (cf. Almeida Garrett, op. cit., p. 98). 10 Cf. António Nobre, Só, Introdução de Agustina Bessa-Luís, Porto, Livraria Civilização Editora, 1983, p. 45. 11 Acerca do “sujeito frágil” finissecular, veja-se, de Helena Carvalhão Buescu, “Motivos do sujeito frágil na lírica portuguesa (entre Simbolismo e Modernismo” (in Chiaroscuro. Moderni-

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O monstruoso na literatura e outras artes  

Entre 20 de outubro de 2017 e 9 de fevereiro de 2018 realizou-se um Ciclo de Conferências, dedicado à temática da representação do monstruos...

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