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sicobela.com.br EDIÇÃO 13 >

ABRIL 2016

NA POLTRONA

Marcos Meier

AS REFLEXÕES DE NOSSOS COLUNISTAS

Educação para PAIS Erros e acertos na educação contemporânea


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ABRIL 2016


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ABRIL 2016

editorial Maria Marta Ferreira

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CRP 08/07401

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O tempo é hoje, mas as preocupações são de muito tempo. Filhos, como não nos preocuparmos? Mas não é sobre eles, pelo menos não diretamente que essa edição vai tratar. O foco dessa vez são os pais. Educação e reeducação para eles. Como são e como estão os pais e mães contemporâneos? As novas teorias educacionais, tecnologias, referências e experiências têm ajudado? São tantos os manuais, são tão boas as intenções, mas a quantas andam a prática, a realidade, os fatos? Dilemas, cobranças, dúvidas??? Provavelmente os pais desejem acertar. Mas como o equilíbrio, a medida certa para a melhor receita nem sempre é a tarefa mais fácil, podemos constatar pais tão ou mais perdidos que seus próprios rebentos. Crianças birrentas, frágeis demais, imaturas demais, exibidas demais, dependentes demais? Crianças e jovens cheios de direitos e poucos deveres, desrespeitosos, pouco generosos, com empatia escassa. Que cenário é esse? Quem são essas pessoinhas?

[expediente]

Onde erramos, no que estamos errando? Nesses tempos de transição em que modelos velhos não servem mais, mas que também não temos novos bem definidos e já

Direção geral: Psicóloga Maria Marta Ferreira [CRP 08/07401] Projeto editorial: Clecyo de Sousa [clecyo.com] 41 9986 3768 Sistema web: Projetual Rua Dom Alberto Gonçalves, 66 | Mercês - Curitiba/PR (41) 3015-8818 | (41) 9186-1464

comprovados, como os pais e mães podem se guiar nessa sociedade cheia de excessos? Mas, não nos assustemos, nem desesperemos, porque exitem modelos em ação que estão funcionando. Há jovens incríveis que nos enchem de orgulho e esperança. Então vamos compartilhar experiências, nos ajudarmos mutuamente para que colhamos melhores resultados e mais alegrias. Essa edição foi preparada para refletir sobre isso. Artigos primorosos de profissionais inseridos nessa realidade e na busca das mudanças que se fazem necessárias, desvendam essas questões e sugerem direcionamentos. Nossa poltrona recebe o educador Marcos Meier, o Marcão. Carismático, experiente e dedicado ao assunto há anos, nos conta o que tem na prática dado certo e aquilo que precisamos deixar para trás. Queridos leitores abram o coração e a mente, compartilhem as ideias e recebam com carinho nossa contribuição. Livre de julgamentos e carregada sim de boas intenções. Boas práticas!

www.psicobela.com.br

mariamarta@psicobela.com.br

psicobela.saudeemocional

@psicobelamm

Psicobela é marca registrada na República Federativa do Brasil, através do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e do Instituto Nacional da Propriedade Industrial - INPI. | ® 2013 > Todos os direitos são reservados.


nº 13

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edição

20 16

nesta

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relacionamento

7 Luciana Chemim Sem manual de instrução

profissional 11 Jeanine Rolim Cuide do essencial e o sucesso será consequência

Na Poltrona

15 Marcos Meier


espiritual 29 Roberte Metring Religião ou religiosidade?

emocional

32 Joice Rocha Permita que seu filho se frustre

fisica

35 Maria Marta Liberdade, beleza e bom senso

social

38 Michelli Duje Será que a criança precisa de regras de etiqueta?

financeiro

41 Simaia Sampaio O dinheiro na relação pais-filhos


Acompanhe nas redes sociais e no site www.anacamargo.com.br a programação mensal e conheça mais sobre nossos projetos.

Al. Dom Pedro II, 345. Sala 4. Batel. Curitiba-PR tudo@anacamargo.com.br (41) 3026-0241


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relacionamento

Luciana Chemin

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O que todo pai ou mãe desejam é encontrar a felicidade plena de compartilharem a felicidade de seus filhos, tenham eles a idade que tiverem. Há exceções, certamente. Há aqueles que apenas colocam crianças no mundo, sem efetivamente serem pais. Mas, falo daqueles que descobriram além de si mesmos um amor que os faz quererem ser melhores pelo reflexo que suas atitudes produzem no outro e no mundo do outro.

Sem manual de instrução Costumo dizer que aprendi a ser filha quando me tornei mãe. Porque na condição de apenas filhos, não temos a menor ideia de quantas angústias, culpas, inseguranças e noites sem dormir atormentaram nossos pais. Cada fase de nossas vidas enquanto filhos trazia uma caixinha de surpresa adicional, algo que não estava nos livros de autoajuda, algo diferente do que foi vivenciado pelo irmãozinho mais velho e que não se repetiria com o mais novo. Hoje olho para meus pais e penso: como eles conseguiram educar 4 pessoas de personalidades tão diferentes sem perder

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a sanidade? E olha que naquele tempo não havia ipad, iphone, ps3, dvd portátil no carro tocando a galinha pintadinha e toda essa parafernália tecnológica que distraem as crianças e adolescentes de hoje e dão uma “folga” aos pais. Penso que a resposta esteja aí. Com as fraldas descartáveis, a tv por assinatura e a busca desesperada por ascensão profissional e material, veio também a concretização de um desejo antigo, ainda que muitos possam não admitir: pais e mães conquistaram mais tempo para o “eu” ou para o “nós” e, com isso, diminuíram desmedidamente a dedicação ao “eles”, no caso, os filhos. Aprenderam a delegar uma função que antes lhes era privativa. Vivemos hoje a geração fast-food e isso não é novidade pra ninguém. Nossos filhos não aprendem a construir, aprendem a comprar. Não sabem ouvir um “não” sem que isso seja motivo de choro, esperneio, grito e cara feia. Não conseguem compreender seus próprios sentimentos, se irritam com facilidade e ficam ansiosos sem motivo. Têm dificuldades em fazer escolhas simples e se apavoram quando precisam elaborar um parágrafo sobre como foram suas férias. Com tanta informação ao alcance de um botão e sem precisar devorar dezenas de páginas de livros para fazer um trabalho de geografia parece-nos um contrassenso dizer que eles estão num processo de “imaturecimento”. Esta palavra não existe, eu sei, mas o fato é que ela traduz o que quero dizer.

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Vivemos hoje a geração fastfood e isso não é novidade pra ninguém. Nossos filhos não aprendem a construir, aprendem a comprar. Não sabem ouvir um “não” sem que isso seja motivo de choro, esperneio, grito e cara feia.

E a questão é que nós pais podemos abraçar uma parcela da “culpa” que nos é inerente e seguir adiante ou poderemos inverter a lista do tempo de qualidade. Nós, os pais de hoje, queremos o mesmo que os pais de ontem: filhos realizados, maduros, seguros, capazes de enfrentar as dores e pedras inevitáveis da vida. Queremos, acima de qualquer coisa, filhos felizes. E também queremos o bendito manual de instruções que nossos pais usaram. No mês passado meu pai completou 70 anos e eu e meus irmãos decidimos lhe presentear com uma festa surpresa e uma pequena homenagem descrevendo um pouco do muito que ele nos passou ao longo de nossa história. Foi um momento carregado de risos e lágrimas pela recordação das viagens inesquecíveis, as “aulas” de geografia e história cheias de imaginação e invenção, as broncas quando fazíamos alguma “arte”, as cantorias no engarrafamento, as orações durante o trajeto para a escola, as lições de moral quando, além do nosso lanche, fisgávamos o do irmão. Enfim, nos melhores e piores momentos, nossos pais estavam lá. Ora para nos dar apoio, para torcer


na arquibancada, para comemorar nossas conquistas, ora para chorar nossas decepções, para curar nossos machucados internos e externos, para aliviar nossa tensão pós-prova com uma história maluca da “farra ou pilha”.

Então, na ausência de um manual de instruções, creio que o melhor que podemos fazer aos nossos filhos é nos tornarmos melhores aos olhos deles, um pouco a cada dia.

O que mudou de lá pra cá? O que eles tinham e nós não temos?

Se tiver bolo caseiro, melhor. Se houver um café na cama vez ou outra, melhor ainda. Se sobrar abraços, ótimo. Se tiver beijo na testa antes de dormir, bom também. Se as conversas sobre a vida atravessarem a noite, fantástico. Se os momentos de diversão superarem as broncas e os encontros de risos forem maiores do que a distância das palavras, então, penso que só nos resta acreditar e rezar.

Alguns diriam, tempo! Mas a verdade é que eles elegiam melhor suas prioridades. Não há fórmula mágica para criarmos pessoas seguras de si e ao mesmo tempo cientes de que estarão ao longo da vida em contínuo aprendizado. Não há receita pronta para a afetividade, a solidariedade, a lealdade. Não há floral ou homeopatia que produza coragem ou promova autonomia. Não há ipad que abrace ou cure. Não há smartphones que afaguem os cabelos ou sequem as lágrimas. Não há história sem vivência. Não há aprendizado sem bons exemplos. Não há felicidade sem boas histórias. Pra lembrar, pra contar e pra viver.

Garantia mesmo, ninguém tem. {LUCIANA CHEMIM} Advogada e Professora luchemim@hotmail.com


Estante A psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão presta um serviço preciosos a pais e professores, ao tratar com firmeza e argúcia dos espinhosos temas contemporâneos que envolvem a educação e determinam a formação de cidadãos éticos voltados para construir um mundo melhor.

COMO EDUCAR MEU FILHO?

Convicta de que o ´Papel de pai e árduo e complexo´, a autora foge das regras fáceis e fórmulas preconcebidas para, em estilo vigoroso e questionador, mostrar aos pais que ´não é tão difícil compreender o universo do filho. Basta debruçarse sobre ele. De modo ativo, participativo e verdadeiramente interessado´.

Princípios e Desafios da Educação de Crianças e de Adolescentes Hoje Publifolha: 2003

Este livro reúne os artigos da autora publicados no caderno ´Equilíbrio´ da Folha de S.Paulo entre 2000 e 2002.

Dr. Içami Tiba constata que descobrir o limite entre a liberdade e o autoritarismo na relação familiar é muito mais difícil do que há alguns anos. Os pais ‘modernos’ não gostam de contrariar seus filhos, querem poupá-los, mas é nesse momento que se acha o erro. É muito importante estabelecer limites bem cedo e de maneira clara. Este livro pretende ajudar pais e professores a exercer sua autoridade educacional sem culpas, com segurança e bom senso. ‘Disciplina - Limite na medida certa’ traz os seguintes assuntos - Limites e disciplina na família; Como se criam folgados e responsáveis; A liberdade e os novos tempos; O quarto dos filhos; Hora de estudar; Limites e disciplina na escola; Sobre instituição escolar; Causas da indisciplina dos alunos; Delegar à escola a educação dos filhos; Pais sob o comando dos filhos; Disciplina; Disciplina para estudar; Disciplina treinada; Disciplina adquirida; Disciplina aprendida; Disciplina absorvida; Cada contexto, uma consequência; Cada perfil, um comportamento; Auto-estima regendo a disciplina; Estilos comportamentais.

DISCIPLINA - LIMITE NA MEDIDA CERTA Integrare: 2006


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foto: Estúdio Cafeína

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profissional

Jeanine Rolim

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{11 Embora tão discutida nos dias de hoje, a busca pelo reconhecimento não é assim tão atual. Claro, é bem verdade que o advento das tecnologias acabou por potencializála, a ponto da relevância social de alguém ser medida nessa tal nova moeda chamada “likes”. Mas inegável: o homem das pedras já tinha lá o seu glamour entre os integrantes do seu povoado, conforme seus atributos de caça e liderança. E assim, ao seu tempo e contexto, o homo sapiens segue sua corrida – por vezes insana - atrás dele, o famigerado sucesso.

Cuide do essencial e o sucesso será consequência Fazer algo para ser conhecido e receber aplausos parece ter se tornado mais importante que a relevância daquilo que se faz em si. Para complicar, muitos dos caminhos tomados para atingir o tal objetivo demandam um alto nível de sacrifício. E não estou falando daqueles sacrifícios que todos fazemos na vida para crescer, terminar um curso, comprar um imóvel ou pagar uma boa


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escola para os filhos. Não, esses merecem todo elogio! Refiro-me a sacrifícios da alma, de vida... de pessoas. Outro dia uma amiga comentava que a moda agora é fazer um plano de carreira o mais cedo possível para seu filho, então pais – na intenção de acertar, sem dúvidas - investem de forma desproporcional no tal “futuro brilhante” dos rebentos, que a essa altura do campeonato deveriam estar preocupados, no máximo, com a cor do lápis para pintar o desenho à sua frente. Maternidade e paternidade têm sido, infortunadamente,

Fazer com excelência aquilo que nos propusemos a fazer todos os dias, longe dos posts é o desafio. convertidas numa grande corrida de apostas, na qual todo treino e preparo são dados ao competidor visando o podium que, embora provedor de todas as louros que o combo do sucesso oferece, não tem valor algum se não for desejado pelo próprio “competidor”.

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Ligue a TV um dia desses e conte, por exemplo, quantos pequenos talentos você conseguiu achar em uma hora de programação. Crianças com uma superexposição que nem mesmo um adulto emocionalmente maduro daria conta de digerir, adolescentes pressionados a escolherem carreiras promissoras aos olhos

dos pais, mas que não lhes significam nada. Há até mesmo concursos de beleza para meninas de 2 anos de idade, um disparate! Onde foi que nos perdemos? Sacrifícios vãos, em busca da efêmera fama. Amemos nossos filhos de tal forma a ponto de respeitá-los. E isso pode requerer a renúncia daqueles nossos sonhos idealizados para eles que podem ser, na verdade, o que desejávamos pra nós, mas não aconteceu. Cada um tem sua história, respeite a sua com todos seus êxitos e derrotas. Compassivo, perdoe-se pelo não alcançou e vislumbre com mais acolhimento tudo que já realizou. Então será menos árduo dar ao seu filho o direito de ser respeitado em sua própria trajetória. Fazer com excelência aquilo que nos propusemos a fazer todos os dias, longe dos posts é o desafio. Seja um professor incrível para os seus alunos, a melhor secretária que seu chefe já teve, o médico mais comprometido possível, enfim, o ser humano mais belo que alcançar ser. Isso sim é sucesso! O outro talvez venha, talvez não. É uma daquelas visitas que aparece se quiser e fica o quanto quer. Um “conhecido” superficial demais para roubar o nosso maior bem: o amor – pela vida, pelas pessoas que a tornam melhor estando ao seu lado... por você mesmo. Visceral mesmo, é ter paz. {JEANINE ROLIM }

Palestrante e escritora www.meiererolim.com.br


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Caros amigos! Sobre a campanha contra o jeitinho brasileiro, relembro que a nossa crítica a essa prática, refere-se às categorias de pessoas que usam de estratégias para “dar pedaladas “ nas regras, leis e combinados coletivos para tirarem proveito pessoal e levar vantagem em relação aos que cumprem as regras , as leis e combinados. Nossa crítica não se refere ao “bom jeitinho brasileiro”, ou seja a capacidade criativa do brasileiro resolver os problemas do seu cotidiano. Não percam de vista que aquele jeitinho que tira vantagens em tudo, é a porta de entrada da corrupção.

http://www.gilbertognoato.com


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Marcos Meier


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Como são e como estão os pais e mães modernos? As novas teorias educacionais, tecnologias, referências e experiências têm ajudado? São tantos os manuais, são tão boas as intenções, mas a quantas andam a prática, o que nos contam os fatos? Provavelmente o que querem os pais é acertar. Mas como o equilíbrio, a medida certa para a melhor receita nem sempre é a mais fácil das tarefas, encontramos infelizmente muitos pais perdidos e filhos malconduzidos. Não basta lamentar, criticar, tampouco condenar. A educação é a melhor saída sempre. É preciso educar e isso se faz necessário em todas as direções e dimensões. E por que não educar os pais, ou reeducálos? Para que mais confiantes abracem a desafiadora tarefa de encaminhar os filhos na vida e desfrutar da vida na boa companhia deles. E como esse papo tem que ser sério, mas não precisa ser severo, nosso convidado dessa edição é nosso “querido mestre > Professor Marcos Meier, ou simplesmente Marcão”.

NA POLTRONA

POR

{CLECYO DE SOUSA}

Grande educador que é, podemos contar com sua bagagem repleta de ricas experiências trocadas nas tantas palestras realizadas em todo o Brasil, em livros publicados e nas colunas semanais que participa como comentarista em rádio e TV. Prezado leitor sente-se com confortavelmente na sua poltrona ao lado do competente e bemhumorado Marcão porque a conversa vai valer a pena. Professor Marcos, estamos ansiosos para ouvi-lo.


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Psicobela Digital > Professor, uma das principais preocupações dos pais, pouco tempo após o nascimento dos filhos, alguns até mesmo antes de nascerem, é em qual escola eles vão ou deverão estudar. Há a melhor escola ou o que há é a melhor escola para o seu filho? Marcos Meier > A melhor pré-escola é aquela que ao buscar seu filho você percebe que ele está cansado, sujo, ralado, suado, melado, colorido e cheio de risos e histórias para contar. Isso significa que ele desenvolveu os sentidos, a expressão corporal, a oralidade, o senso artístico, os movimentos do corpo etc o tempo todo. Escola ideal é aquela em que a criança é desenvolvida por completo. E depois, nas outras séries, a melhor escola é aquela que ensina muito bem as matérias específicas do currículo tanto quanto ensina os valores humanos fundamentais. Corra da escola que se diz “boa, puxada, séria”, mas que desconsidera totalmente seu pedido para que se combata o bullying, por exemplo, já que o bullying faz muito mal para as crianças. Escolas desse tipo dizem “isso não é nada, é fase” e se esquivam do trabalho com valores. Hipervalorizam os estudos.

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A vida não é só escola! Não é só “cadernos e livros”. A vida é relação, choro, riso, dança e música e brincar. Viver é relacionar-se, é ter amigos para compartilhar as dores e somar as alegrias. Se a escola não entende isso, vai ensinar apenas matemática, português, artes, geografia, etc... como se fosse uma

simples obrigação legal. Algumas escolas são mais rígidas quanto às regras e outras são muito mais flexíveis. A personalidade do seu filho vai indicar a melhor, portanto não há “A” melhor escola, mas a melhor escola para seu filho. PD > Ouvi numa ocasião uma expressão de um filho jovem que chamou minha atenção: “meus pais se acham perfeitos, querem passar a todos a impressão de que são perfeitos e que eu sou perfeito porque a educação deles é perfeita. Isso me irrita, eles parecem até pais profissionais”! Há mesmo pais que tratam a educação dos filhos como um projeto profissional. Tipo da gravidez à faculdade que caminhos trilhar sem desviar-se para êxito total? MM > A maior delícia de ser pai ou mãe, é poder ser a gente mesmo, ser humano. A gente erra querendo acertar, erra sem querer, erra por algum estouro de raiva, erra porque não somos perfeitos. Deus é, a gente não!! Então, para um jovem reclamar da perfeição dos pais é porque a situação está pesada para ele. Quando um dos pais é perfeccionista, a criança pensa: “uau, a mãe brigou com ela mesma por ter errado! É melhor eu não errar.” E passa a viver com medo de não atender às


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expectativas da mãe (ou do pai , se for o caso). Esse medo fará com que a criança se retraia nas relações com as outras, chore por mais tempo que as outras na semana de adaptação na escolinha, não responda às perguntas da professora e não quer brincar de coisas novas. Tudo isso por medo de errar. Portanto a melhor coisa para as crianças é ver os pais errando e rindo dos próprios erros. Ela vai pensar: “ela riu de si mesma! Se eu errar, ela vai rir também...” e vai tentar novos caminhos. PD > Há referências de que vivemos numa sociedade perfeccionista, idealizada, competitiva. Isso pode gerar nos pais uma pressão para que desenvolvam seu papel de forma idealizada? MM > Na verdade, um pesquisa sobre perfis paternos conduzida pela UFPR

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mostra uma realidade diferente. Somente 33% das crianças têm pais adequados, participativos. E uma porcentagem menor ainda é a de pais excessivamente presentes, idealizando a relação pai-filho. A maioria das crianças tem pais que não equilibram corretamente o afeto com os limites, ou são superprotetores ou autoritários demais. Entretanto, é fato que a sociedade, a mídia, o consumismo acaba pressionando os pais para que sejam exemplos perfeitos idealizados estilo “café da manhã com margarina tchãm” em que todos sorriem e servem-se mutuamente. Aí, quando lembramos dos nossos filhos de “burro amarrado” e se arrastando até a mesa, pensamos: “onde foi que errei?” e não nos atentamos para o fato de que a vida é assim mesma, que os adolescentes não são supermegahiperblaster bem humorados de manhã. Mas são os filhos que amamos e, do jeito deles, nos amam. PD > Como e pai e professor você já sentiu sobre os ombros o peso de ter que acertar? O medo de errar? A correção do erro cometido. Como lidou com isso? MM > Tive uma herança religiosa muito forte e vim de uma família de descendentes de alemães. Ouvia muito minha mãe

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dizer: “Se vai fazer, faça certo na primeira vez”. Meu avô dizendo: “Faça direito ou nem faça” e outras frases do tipo. Nesse clima cresci sabendo que eu tinha que me esforçar ao máximo, tinha que acertar, que ser perfeito. E isso me trouxe um peso grande demais para ser carregado. Só recentemente pude aceitar-me sendo imperfeito, sendo humano. E como foi bom saber que posso errar!!! Claro que teve seu lado bom, aprendi a me esforçar e a persistir, herança maravilhosa que me ajuda a conquistar novos desafios.

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Quanto a um erro cometido como professor, lembro-me de certo dia ter parado minha aula, tirado um caderno das mãos de um aluno e o arremessei do outro lado da sala caindo exatamente dentro da lata de lixo. Falei: “se você veio aqui para desenhar em vez de aprender matemática, de nada serve esse caderno!” O aluno só vinha às aulas drogado, só dormia e quando acordava, desenhava, pois nunca aprendia nada dos conceitos que eu ensinava no quadro negro. Fui aplaudido pela turma. Mas eu não me senti bem. Humilhei um aluno e por pior que fosse seu comportamento ou caráter, eu não poderia ter feito aquilo. No outro dia pedi perdão a ele publicamente, já que minha agressão foi pública. Eu disse: “Fulano, agi sem respeito com você ontem e minha atitude não foi legal. Me perdoe”. E continuei a aula. No recreio o adolescente me disse: “Falô bróther, tâmo numa legal” e o coitado ainda tentou prestar atenção nas outras aulas,

mas a ajuda que ele precisava de verdade (tratamento sério e desintoxicação) não vinha. Muito mais tarde pesquisei a respeito da influência que a construção de vínculo professor-aluno tem na aprendizagem. As descobertas corroboraram para a valorização do respeito mútuo, do afeto, do exercício da autoridade com vínculo afetivo. Esse tipo de relação faz com que a aprendizagem se torne mais fácil, ou seja, confirmei o que eu já desconfiava: afeto é importante para aprendizagem. PD > Você tem contato direta e constantemente com educadores e pais de vários estados do país com suas diferentes expressões culturais. O que percebe como sendo ponto comum na preocupação de pais e professores na condução da educação no Brasil? MM > Creio que há uma dificuldade crescente tanto para pais quanto para professores: o exercício da autoridade de uma forma adequada, construtiva e assertiva. Os pais estão sem tempo para relacionar-se com os filhos e com medo de exercer a autoridade, pois acham que os filhos não vão gostar deles. É um erro comum. Crianças e adolescentes precisam ser orientados com firmeza e esperam isso dos pais. Certa vez uma menina me falou: “Eu queria que minha mão me proibisse de ir à festa, mas ela não me proibiu. Me ferrei” Claro que reagi: “Ok, mas por que


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você foi se sabia que não seria bom pra você?” Ela retrucou: “É que eu precisava ficar estudando, mas eu não poderia falar isso pros meus amigos, eles não iam achar legal, iam me gelar. Mas se minha mãe não me deixasse, aí tudo bem, a galera ia aceitar. Fui mal na prova por culpa da minha mãe.” Ou seja, a menina queria o limite que ela precisava e que não conseguiria colocar em si mesma, pois ainda não tinha autonomia pra isso. Limites, “nãos”, broncas e orientações “chatas” não são

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mal vistas pelos filhos, são apenas motivos para discussões, muitas vezes eles querem perder, mas não querem mostrar isso aos pais. Claro que a menina está muito imatura, mas eles não são assim mesmo? A maturidade leva tempo! PD > Nesses anos como educador, viveu alguma experiência, conheceu uma história que te tocou em alegria ou tristeza de forma especial. Daquelas que faz a gente agradecer de estar onde está. Pode compartilhar?

Tive uma herança religiosa muito forte e vim de uma família de descendentes de alemães. Ouvia muito minha mãe dizer: “Se vai fazer, faça certo na primeira vez”.

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MM > Uma das mais marcantes foi com uma turma de alunos de oitava série (hoje nono ano). Alunos de 14 ou 15 anos de idade. Era uma escola na periferia da cidade de Campinas, SP. Violência, tráfico, gravidez precoce, falta de expectativas positivas na vida era o clima do entorno. Seria o último ano deles naquela escola, pois a escola era de ensino fundamental e logo teriam que ir para colégios ainda mais longes e possivelmente com mais problemas. Muitos iriam desistir, nem tentariam fazer o Ensino Médio (antigo segundo grau, ou mais antigo ainda, “ginásio”). Então me disseram que o sonho deles seria fazer uma formatura bem legal, mas não tinham dinheiro e os pais eram muito pobres, não poderiam pagar nada.

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Lembrei de Paulo Freire falando da importância de construirmos a própria história em vez de sermos levados pelas circunstâncias ou pelo sistema que os excluía. Chamei os líderes da turma e propus: “todo fim de semana vocês fazem festas, saem com a galera e comem pizza... Por que não organizam uma festa aqui na escola e cobram entrada? Por que não fazemos uma “noite da pizza” em que a gente mesmo monta e assa nos fornos da cozinha da escola? Logo toparam e se animaram. Resumindo, as festas e a noite da pizza foram enormes sucessos. Conseguiram grana suficiente para uma formatura com som, iluminação, coquetel para os pais que se esbaldavam de chorar e foi tudo um sucesso. No meio de tudo isso, algo aconteceu.

Choro de emoção só de lembrar. Os alunos pediram a palavra na hora do coquetel e passaram o microfone para uma aluna com voz celestial que cantou “Ao mestre com carinho” olhando para mim e o coro dos alunos me cercou. Então ficaram de pé nas cadeiras lembrando a famosa cena do filme “Sociedade dos poetas mortos”. Deram-me um presente e fizeram um discurso de agradecimento. Não lembro do presente nem do discurso, mas os olhares de carinho vindos de cima das cadeiras e a música ao fundo jamais vou esquecer. Há alguns anos, uma daquelas aluninhas de 14 anos me mandou um convite, havia se formado como professora de matemática e estava terminando seu mestrado. Vou lembrar pra sempre dessa turma. Muitos de nós, professores, carregamos cenas assim. É o que nos alimenta, o que nos faz continuar apesar das dificuldades, apesar de todas as forças contrárias que nos dizem: “vai fazer outra coisa e ganhar algum dinheiro”... Nosso ganho é outro. É a realização de vermos nossos alunos sendo bem sucedidos na vida. PD > Temos atualmente uma imagem muito negativa da educação no Brasil. Ano passado vivemos o trágico episódio em Curitiba da guerra do estado contra os professores. Estando você tão submerso nesse tema e convivendo tão intimamente com teorias e experiências em diferentes estados e escolas, você tem uma visão mais otimista. Como diria o grande escritor


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Ariano Suassuna, você é um realista esperançoso? Tem um acalento a nos ofertar? MM > Quando colocamos tudo no mesmo pacote, podemos dizer que sim, a educação no Brasil está muito mal. Entretanto o que pouca gente sabe é que nas olimpíadas internacionais de Matemática, de Física ou de Astronomia, é comum trazermos medalhas de ouro, prata ou bronze, ou seja, temos alunos que fazem parte dos melhores do mundo, vencendo inclusive japoneses, americanos ou chineses. Um dos principais centros mundiais de pesquisa sobre ensino e aprendizagem de conceitos matemáticos fica em Rio Claro, interior de São Paulo. Temos doutorados e pós-doutorados em educação que são avançadíssimos e em nada devem para outros centros de pesquisa internacionais. Temos escolas de primeiro mundo. Temos professores que podem ensinar para qualquer tipo de aluno, de qualquer classe social, de níveis heterogêneos de domínio de conceitos, ou seja, temos professores que podem ensinar como dar uma boa aula para qualquer professor de qualquer país. Então estamos bem? Não! Os resultados das pesquisas não chegam às salas de aula. As descobertas sobre educação não se tornam disponíveis aos professores. Os livros de qualidade sobre ensino e aprendizagem não são acessíveis para a maioria dos professores cujos salários mal pagam aluguel, vestuário e alimentação.

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Os cursos e palestras de atualização dos professores são oferecidos por uma pequena porcentagem de cidades, ou seja, a maioria permanece sem nada, sem cursos, sem palestras, sem livros, sem tecnologias de acesso às informações e sem motivação por causa da desvalorização social que a profissão tem. Os currículos estão desatualizados, desmotivando os alunos. E não ficam aí as dificuldades que são muito mais complexas. Existem exceções, mas são poucas. Se analisarmos a educação no Brasil num único pacote, é tudo desesperador. Se soubermos enxergar além do visível, podemos acreditar e esperar um futuro melhor. O Brasil está aprendendo pouco a pouco que só estará entre os mais desenvolvidos do mundo se investir de verdade em Educação. E Educação de qualidade.

Temos escolas de primeiro mundo. Temos professores que podem ensinar para qualquer tipo de aluno, de qualquer classe social, de níveis heterogêneos de domínio de conceitos, ou seja, temos professores que podem ensinar como dar uma boa aula para qualquer professor de qualquer país.

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PD > Uma questão sublinhada com força e que já lemos registrada de diferentes maneiras, inclusive nas redes sociais é que a educação cabe a família e o ensino a escola. Pode nos elucidar de maneira descomplicada essa questão? MM > Esse é um dos erros mais comuns transmitidos por postagens bonitinhas nas redes sociais. Mas é falsa! À família cabe educar valores, princípios, formas adequadas de se relacionar, enfim, cabe o ensino dos antigos “bons modos”. Por favor, com licença, obrigado e desculpe-me eu errei, já vinham prontos nas crianças

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que chegavam à escola e somente precisavam aprender o currículo escolar. Mas a realidade não é mais essa! As famílias não estão dando conta de educar tais valores e não sabem mais como colocar limites adequados ou como relacionar-se nas redes sociais e assim por diante. As crianças entram na escola sem saber resolver conflitos pela palavra, resolvem pela violência ou pelo grito. Então a escola não vai fazer nada, justificando-se que seu papel é o ensino do currículo escolar e nada mais? Se essas crianças não aprenderem os mecanismos básicos de socialização e não aprenderem a respeitar o outro, logo terão problemas com a polícia! A última chance dessas crianças aprenderem a “educação de berço”, os valores fundamentais, é a escola. Portanto é papel da escola educar. Somo educadores. Somos especialistas em educação e hoje toda escola está aberta à parceria com as famílias. Estamos dispostos a ensinar aos pais como educar nos dias de hoje, pois se não o fizermos, nosso trabalho


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será prejudicado e as crianças sofrerão consequências no futuro. PD > Atualmente você é uma das maiores autoridades brasileiras na teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva de Reuven Feuerstein, a teoria da Mediação da Aprendizagem. Conte-nos um pouco sobre essa teoria, seu encontro com ela e como a mesma tem ajudado na educação dos brasileiros? MM > Quando eu era estudante de Matemática, eu perguntava aos professores: “Por que tem aluno que ama matemática e outros odeiam?” E eu ouvia: “Amor e ódio é da psicologia, não da matemática”. Fiz psicologia. E lá me disseram: “Amar matemática é da Educação” Então soube da teoria do Feuerstein e que em Curitiba havia um curso dado pelo Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná. Fiz todos os cursos oferecidos por esse centro (www.cdcp.com.br) . Aprendi sobre Feuerstein e fui para Israel beber direto da fonte onde pude ouvi-lo nas aulas e conferências que ele ministrava. Quando falei da minha pesquisa, ele me disse: “Você tem muito a contribuir no seu país. Ensine mediação aos professores e eles poderão transformar vidas”. Feuerstein foi um dos maiores educadores do mundo. Sua teoria intitulada “Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva” é chamada de teoria da mediação da aprendizagem. Numa

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síntese bem superficial e imediata, a teoria mostra que a qualidade da interação professor-aluno pode potencializar a aprendizagem deste e desenvolver seu cérebro. Fiquei ainda mais encantado! Então fiz meu mestrado na UFPR pesquisando o quanto os professores do ensino médio realmente agem de acordo com a teoria de Feuerstein, ou seja, eu quis confirmar que os bons professores são aqueles que mais se aproximam da figura do mediador proposta pelo educador israelense. Isso tudo me fez perceber que a melhor forma de ajudar os professores em nosso país era formando-os como mediadores da aprendizagem e sigo fazendo isso com cursos e palestras pelo Brasil. A teoria mostra que os alunos aprendem melhor e se desenvolvem melhor quanto mais “mediadores” seus professores forem. Então assumi essa missão: divulgar a teoria o máximo possível para que nossas crianças e adolescentes possam ser beneficiados pela interação cada vez mais especial com seus professores. PD > Recentemente você abriu um novo diálogo com a educação, criando o personagem professor Pancada. “Ele pega pesado, mas dá o recado”. Qual o desejo que você tem para esse novo educador no cenário atual, que mensagem você deseja que ele transmita?

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MM > O Pan Cada veio de uma necessidade. Em minhas palestras eu criticava posturas retrógradas de alguns professores e isso sempre afetava alguém. Sempre aparecia algum professor ofendido por minhas críticas, como se eu estivesse desprezando a história deles. Isso não era correto, mas eu tinha sempre que gastar um tempão explicando e justificando minhas críticas. Então pensei que um professor personagem retrógrado, durão, grosso, desatualizado em algumas coisas e bem antenado em outras pudesse ter voz. Assim eu o criticaria pessoalmente, sem magoar ninguém especificamente, pois eu criticaria esse personagem maluco. Assim surgiu o professor Pan Cada, um cara legal, que ama a educação e tem raiva de aluno folgado, aluno que não se esforça para crescer na vida. Ela quer que a palmatória volte e tem saudades dos tempos antigos onde o professor era respeitado e ninguém ousava discutir com ele. Meu objetivo é criticar o Pan Cada e suas posturas. Tenho feito isso em algumas palestras e o que mais me surpreendeu é que as pessoas adoraram o Pan Cada, pois se identificaram com ele! Bom para ativar novas reflexões sobre o certo e errado nas salas de aula desse país. PD > Antes da questão final uma pergunta especial: Qual seu sonho para a educação no Brasil e para os pais e mães brasileiros?

24} MM > Sonho com professores valorizados, bem pagos e bem formados. Isso afetará a

Educação em todo o país fazendo com que nossas crianças e adolescentes tenham o melhor. Para isso precisamos investir em formação continuada dos professores, atualizar o currículo de todas as disciplinas e segmentos da educação, fazer uma reforma grande nos cursos de licenciaturas e principalmente mudar a forma como os alunos veem a educação. Não dá para dizer que “mesmo sem educação dá para ser presidente”. Precisamos de alunos críticos que não engulam formadores de “cabeça” e saibam pensar por eles próprios. Precisamos de jovens atuantes na sociedade e críticos de forma construtiva, diferentemente daqueles que só evidenciam os erros, mas nada propõe, nada fazem e em nada acreditam. Sonho com escolas que ensinem os pais a educar. Que mostrem que o melhor caminho é afeto e autoridade. Pais que criam vínculos afetivos com seus filhos e exercem sua autoridade com sabedoria. Esses filhos crescerão e transformarão nosso país, pois sabem o que é certo e o que é errado e lutam para conquistar o melhor.

Precisamos de alunos críticos que não engulam formadores de “cabeça” e saibam pensar por eles próprios.


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PD > E para terminar sabemos que não há uma receita que funcione para todos, mas que há diretrizes que ajudam e muito a nortear, a iluminar caminhos e com a educação de filhos não é diferente. Pode nos dar um pequeno manual, elencar alguns passos fundamentais para uma educação de filhos emocionalmente saudáveis? MM - 1 > Espere! Esse princípio está relacionado à capacidade que toda criança precisa desenvolver de adiar a satisfação do prazer. Crianças que sabem esperar a sobremesa, o presente de aniversário, o prato no restaurante e tantas outras delícias da vida, são crianças que aprenderam a adiar a satisfação do prazer. De que forma um candidato ao vestibular conseguiria estudar sozinho, além da escola, 4 ou 5 horas por dia se não soubesse desligar o celular, o videogame e a TV para separar esse período exclusivamente aos livros? Aprender a esperar faz parte do sucesso de qualquer pessoa. E isso se ensina em casa. Nada de dar tudo o que a criança quer, na hora em que ela deseja. Espere! Quando for a hora certa, você vai ganhar. 2 > Não! Essa palavrinha dolorida e aparentemente triste de ouvir é chave para a maturidade emocional. A resistência à frustração só se desenvolve tendo ouvido muitos “nãos” na vida. O vendedor de um grande projeto ouve quantos “nãos” até que consiga vender seu primeiro? Thomas

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Edison falhou muitas vezes até descobrir o melhor material para fazer a primeira lâmpada realmente útil. Se ele tivesse tentado umas dez vezes e desistido, a iluminação elétrica teria demorado muito mais para ser descoberta e, com certeza, não teria sido por ele. Seu filho precisará ouvir muitos nãos até que aprenda que a dor sentida nesse momento pode ser suportada. Ele aprenderá que a vida adulta está repleta de coisas que ele simplesmente não vai poder ter e isso não o diminuirá em nada. Crianças que não aprendem isso, acabam fazendo birras insuportáveis para conseguir o que querem e se tornam manipuladoras, afastando as pessoas. 3 > Esforço. Empenhar-se nas tarefas, esforçar-se até conseguir vencer um desafio e fazer tudo da melhor forma possível é um princípio necessário para a qualidade futura do trabalho. Atualmente uma das maiores reclamações das grandes empresas é a dificuldade de encontrar funcionários com autonomia e que levem a sério o que fazem. Uma boa parte dos novos trabalhadores quer salário, benefícios, mas não quer ser pontual, precisa, cuidadosa ou sequer esforçada. Reclamam do chefe se este exigir pontualidade. Portando alguém que se esforce para fazer as tarefas da melhor forma possível é altamente valorizado nas empresas ou na vida profissional autônoma. Essa característica se desenvolve

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desde cedo. As tarefas que seu filho precisa fazer em casa precisam ser bem feitas. Não tem negociação. E lavar a louça, arrumar o quarto, alimentar o cachorro ou outras tarefas domésticas não precisam e nem devem ser pagas. É responsabilidade dele e pronto. Se seu filho não aprender que ele faz parte de uma família e, portanto, deve contribuir com seus trabalhinhos, vai querer recompensas sempre que tiver algo a fazer. Péssimo na carreira profissional que exige muitas vezes esforço e dedicação para somente muito mais tarde receber as compensações financeiras. 4 > Elogie seu filho. Quando você elogia seu filho dizendo-lhe que é inteligente ou bonito, você está enviando uma mensagem de que ele não precisa se esforçar para conseguir evoluir na vida, já que a inteligência ele já tem e a beleza o acompanha. Ao elogiar, prefira falar o quanto você admira a forma cuidadosa com que lida com as coisas, o esforço demonstrado ao realizar uma tarefa, a solidariedade ao ajudar alguém e assim por diante. Elogie valores que você quer que seu filho continue desenvolvendo. Claro que pode elogiar a beleza e a inteligência, mas procure focalizar e enfatizar os princípios e valores relacionados ao “ser cada vez melhor”. 5 > Critique os erros de seu filho. Houve

26} um tempo que a criticar uma criança era algo grosseiro, pois as crianças devem

ter o direito de errar ou de não fazer as atividades com qualidade. Hoje sabemos que essa postura é errada. Se o seu filho errar ou fizer algo de forma displicente, mande-o fazer de novo. Não aceite a preguiça e o desleixo como característica do comportamento infantil. Obviamente não precisamos ser excessivamente criteriosos, não podemos ser exigentes demais, mas aceitar tudo de qualquer jeito é reforçar a mediocridade. Entretanto há uma forma mais adequada de fazer isso. Nunca o chame de preguiçoso, relaxado, irresponsável ou qualquer outro vocativo negativo. Você deve evitar sempre criticar a pessoa de seu filho, mas deve criticar as coisas erradas que ele faz. Por exemplo, não o chame de relaxado se o quarto dele estiver bagunçado, mas diga-lhe que o quarto está uma bagunça e que ele deve arrumar. Percebeu a diferença? Ataque o problema, não seu filho! 6 > Equilibre afeto com autoridade. A educação de uma criança precisa ser permeada por essas duas características. Afeto é tudo aquilo que estiver relacionado ao carinho, conversas, brincar juntos, ouvir as histórias de seu filho, abraçar, acolher, ou seja, construção de vínculo afetivo saudável. Autoridade é a colocação de limites, regras, é fazer seu filho perceber que o mundo precisa estar organizado por meio de regras de convivência e que os prazeres precisam estar limitados no tempo e na qualidade. Mais tarde seu filho saberá


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organizar-se, cumprir a palavra, obedecer prazos, respeitar a hierarquia numa empresa, enfim, saberá ser coerente com uma sociedade organizada. E por fim, quero dizer que adorei ser entrevistado pela Psicobela Digital e pela oportunidade de falar sobre educação para

Se seu filho não aprender que ele faz parte de uma família e, portanto, deve contribuir com seus trabalhinhos, vai querer recompensas sempre que tiver algo a fazer. Péssimo na carreira profissional que exige muitas vezes esforço e dedicação para somente muito mais tarde receber as compensações financeiras.

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um público tão heterogêneo e especial. Tentei resumir e responder de forma clara, direta. Portanto, se você conhece com mais profundidade a educação e percebeu que faltou eu dizer isto ou aquilo, me perdoe, meu objetivo não foi ser completo, mas útil. Um grande abraço a todos!

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Ă s vezes, fala-se muito e nĂŁo se diz o essencial.

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9986.3768


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espiritual

Roberte Metring

Religião ou religiosidade? Olá leitores e leitoras do Psicobela Digital. Já tem um tempinho que não nos encontramos, mas aqui estamos novamente, agora para falar sobre o tema espiritualidade e religiosidade. É um tema difícil para um não rabino, não padre, não pastor, não teólogo. Sou simplesmente um psicólogo, então vou abordar o tema sob o ponto de vista existencial.

Deus existe? Quem é ele? E onde está? Bem, a crença diz que sim. E você o que diz? Se você acredita, acredita porque? Eu acredito porque posso ver a mágica do nascimento, posso acompanhar a evolução dos seres e das plantas, posso presenciar a potência e imensidão do mar, vejo que os planetas não se chocam, que tudo tem sua razão de ser, que todos temos livre arbítrio, e que todos temos que arcar com as responsabilidades de nossos atos. Isso tudo só pode ser de uma ordem muito superior àquilo que conhecemos nesse planeta. Deve ser de uma ordem divina, portanto, Deus “tem” que existir, seja ele quem for e onde estiver. Quando uma criança é levada a refletir desde muito cedo sobre a sua existência e suas relações com outros e a natureza, quando é levada a ter livre arbítrio, e quando entende


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que deve ter responsabilidades pessoais e comunitárias, ela pode entender a existência de Deus. Quando ela vê os exemplos de civilidade, maturidade, responsabilidade e congruência naqueles que a ajudam a evoluir, então ela entende que Deus é esse tipo de Ser. Enfim, uma criança vai entender primeiro o Deus que ela “vê” em seus amados superiores, e somente muito mais tarde será capaz de entender o Deus das religiões. O primeiro sentimento sempre será de religiosidade, de conexão, e esta religiosidade ocorre na conexão com seus amados, para a criança, modelos de um Deus em que ela vai acreditar em toda a sua vida. Uma criança não precisa de templos ou igrejas (e aliás, acredito que nem os adultos que tem religiosidade). Seu templo é o lar, local onde tudo acontece. Um lar de amor, um Deus amoroso, um lar de rancor, um Deus rancoroso. Um lar de mentiras, um Deus mentiroso, um lar desregrado, um Deus libertino. O Deus que a criança entende, é o mesmo que lhe é apresentado na vida que vive. Uma criança necessita sim de uma inserção no mundo da religiosidade desde muito cedo, pela garantia de um desenvolvimento saudável, psíquico e físico que isto lhe confere. E certamente, no futuro, ela saberá porque acredita no seu Deus, e isto será bom, e isto lhe completará. Ela não precisará mais do que atos para justificar-se. As muitas citações de

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Uma criança ocupada com a religiosidade será um adulto certamente feliz, mesmo com muitas dificuldades mundanas.

versiculos e capítulos norteadores não serão necessários e não farão sentido, pois ela terá o amor como norteador, e se ela nunca souber nada das escrituras, ainda assim será um ser superior, um ser do bem. Será uma pessoa capaz de amar, respeitar e produzir o bem, e não aceitará menos que isso dos outros, porém, será capaz de entender e compreender o outro, mesmo que não comungue de suas ideias, ou não concorde com seus atos. Será capaz de exercer seu livre arbítrio, e de deixar que os outros o exerçam também. E ao final da história, saberá ela, que a cada um caberá a responsabilidade dos seus atos. Uma criança ocupada com a religiosidade será um adulto certamente feliz, mesmo com muitas dificuldades mundanas. Uma criança com religião, nem sempre, e as provas estão ai na nossa frente todos os dias. Uma criança é norteada por sentimentos. Ela não necessita de religião, necessita do sentimento de religiosidade, de união, de pertencimento. Por isso, não exijam que seus filhos sejam incorporados à determinada denominação religiosa, antes de praticarem a religiosidade em seus próprios lares, pois de nada valerá.


Se são pais com religiões diferentes, lembrem-se: todas as religiões procuram um único denominador. Ensinem seus filhos a respeitarem as preferências religiosas, convidem-nos a visitarem os locais que frequentam para suas práticas ou cultos, deem-lhes a oportunidade de escolherem, segundo suas preferências, onde pretendem assentar, e se pretendem. Ensinem, mostrem, deem o exemplo. Lembrem-se, para um desenvolvimento sadio, uma personalidade segura, uma vida mais feliz, e sucesso nas empreitadas da vida, primeiro Lar (não casa) com religiosidade,

depois tempos e igrejas com religião. E Deus, certamente não precisa de nada disso. Creio que seu único desejo é que seus filhos sejam felizes e procurem a evolução a cada dia. Pensemos nisso!! Saúde e paz! {ROBERTE METRING } CRP-Ba 03/12.745 Psicologoroberte@ig.com.br Psicologoroberte.com.br Blog.psicologoroberte.com.br facebook.com/BlogRoberteMetring

Agora é hora de unirmos nossos esforços. ElesPorElas (HeForShe) é um movimento de solidariedade pela igualdade de gênero, que une metade da humanidade em apoio a outra metade da humanidade para o benefício de todos.

Acesse http://www.heforshe.org/pt e faça parte deste movimento. Emma Watson, embaixadora da Boa Vontade da ONU


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É preciso entender que esta emoção, a frustração, mesmo muito desagradável fará parte da vida e é responsabilidade dos pais e cuidadores ensinar as crianças a perseverar apesar dos sentimentos desconfortáveis.

emocional

Joice Goveia

Permita que seu filho se frustre É preciso entender que esta emoção, a frustração, mesmo muito desagradável fará parte da vida e é responsabilidade dos pais e cuidadores ensinar as crianças a perseverar apesar dos sentimentos desconfortáveis. Ensinar sobre a frustração exige que cada adulto se observe e entenda como faz quando está dominado por esta emoção (aliás, esta lógica vale para qualquer emoção). Pessoas com pouca resistência à frustração, que rapidamente desistem quando não atingem um resultado esperado ou mesmo esbravejam e perdem o controle ensinam estas reações a seus filhos.

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Papai, mamãe e todos os cuidadores são modelos vivos e interativos de como agir e as crianças estão sempre atentas absorvendo e copiando para sobreviver e interagir no mundo. As pequenas frustradas situações do dia-a-dia permitem aos adultos ensinar

as crianças como lidar com decepções e como aprender a buscar soluções para algum problema que se apresente. Como você reage quando se atrasa e perde uma consulta médica, ou leva uma cortada no trânsito, ou ainda esquece uma panela no fogo que derrama, quando derruba e quebra algo de valor? O que acontece com você quando precisa resolver uma questão burocrática, mas faltou um documento que ninguém avisou que era necessário e com isso você perdeu tempo, trabalho e esforço à toa? Cuidar das reações à decepções cotidianas auxilia o treino para lidar com as frustrações realmente dolorosas ao longo da vida como


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perda de emprego, não passar no vestibular, o fim de um relacionamento, decepção com um amigo e assim por diante. As crianças não sabem expressar seus sentimentos ou pensamentos. Muitos adultos não o sabem, imagina uma criança pequena! Quando frustrada a criança chora, faz birra, joga brinquedos no chão e até bate em quem está por perto. A ansiedade em acalmar a criança frequentemente cala o limite que precisava ser imposto. Aquele “não” vira “sim”, o “depois” vira “agora” ou o “agora” vira “depois”. Assim, crianças pequenas comandam parte do território de responsabilidades dos pais, que por vezes confundem esta resistência da criança em obedecer uma ordem com temperamento ou personalidade forte.

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Parece estranho pensar que a necessidade em obedecer regras {33 básicas de convivência possa repercutir em frustração, mas este sentimento aparece quando encaramos um “não” da vida desde bem cedo.

“não” da vida desde bem cedo. O medo de frustrar os filhos pode fazer com que os pais abdiquem de sua responsabilidade e poder em impor limites necessários.

Crianças aprendem explorando o mundo que as cercam, vasculhando a casa toda e espalhando objetos, abrindo portas e mexendo no que nem (sempre) sabem que não devem. A criança não sabe o que deve comer, não cumpre horários e dificilmente apresentará espontaneamente um gosto por tomar banho na hora e com a duração certa. É responsabilidade do adulto saber quando permitir que a criança explore e aprenda pela experiência e quando regular esta vivência, mesmo que lhe provoque irritação e descontentamento. Assim, a criança desenvolve os comportamentos sociais, apreendendo regras, direitos e deveres.

Quando crianças pequenas se frustram frequentemente exibem comportamentos de raiva ou agressão. É bastante comum que crianças de pré-escola tenham problemas de divisão de brinquedos “resolvidos” com mordidas ou empurrões. Entre irmãos de diferentes idades também é comum que a dificuldade em compartilhar o espaço ou a atenção passe por disputas físicas ou em crianças maiores, discussões acaloradas. Isto ocorre porque as crianças ainda não tem linguagem e repertório de comportamento suficientes para resolver a situação e reagem mais impulsivamente. A birra aparece frente as obrigações que a criança não quer cumprir por não ser algo natural a ela.

Parece estranho pensar que a necessidade em obedecer regras básicas de convivência possa repercutir em frustração, mas este sentimento aparece quando encaramos um

Esta é a importância de falar sobre a frustração e comunicar à criança que o comportamento dela está sendo influenciado por este sentimento. É isto


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se faz de modo simples como dizer “Filho, você parece frustrado e com raiva”. O adulto precisa descrever para a criança como ela parece estar se sentindo para que ela aprenda a reconhecer que comportamentos podem estar ligados à que sentimentos, como bater pode ser uma consequência da raiva ou chorar uma consequência da tristeza. É preciso explicar de modo bem simples, breve e de acordo com a idade o que está acontecendo e como a criança deve agir futuramente. “Filho, você parece com raiva porque seu amigo pegou seu brinquedo. Ao invés de bater nele, você pode pedir para brincar junto”. Muitas vezes, por amor, os pais organizam a vida para que as crianças não passem pelas mesmas dificuldades que passaram. Como sentir qualquer frustração é algo

MOTIVAÇAO é o que faz 34}

você começar. hábito é o que faz você continuar.

extremamente desagradável, papai e mamãe correm para atender ou compreender as crises dos filhos e remediá-la rapidamente. O amor pelos filhos é tão grandioso, a necessidade de prover e proteger tão intensa que frequentemente os adultos buscam compensar as tristezas e frustrações dos filhos e solucionar seus problemas por eles. Pais, não temam a frustração de seus filhos. Ela faz parte de crescer e compreender que o mundo exterior não se adapta à nossa existência.

{JOICE ROCHA} Psicóloga [CRP 08/1141] psic.joicerocha@gmail.com Contatos: [41] 3023-9372 [41] 9925-8561


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Crianças vaidosas e cheias de charme estão por toda parte. São bebês na moda, menininhas vestidas como as mamães, meninos cheios de estilo copiando seus ídolos. Verdadeiras fofuras! A moda revela tendências, comportamentos e delatam momentos sociais. Está tudo certo.

física

Maria Marta

Liberdade, beleza e bom senso Mas haveria excesso? Crianças com cabelos tingidos, programas de exercícios físicos que deixam adultos boquiabertos, horas sem fim de salão de beleza, crianças mergulhadas desde cedo em universos adultos. Isso é diferente de conviver com adultos. Isso significa viver como adultos. Quais fronteiras podem preservar as crianças dessa antecipação na entrada ao mundo dos adultos? Crianças são curiosas, criativas e carregam uma enorme vontade de crescer, são naturalmente ansiosas, idealizam o mundo dos adultos como fontes de liberdade e possibilidades, mas naturalmente não têm a maturidade necessária para compreender inteiramente a vida adulta.


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Essa criançada cheia de vontade própria, boa desenvoltura, são admiráveis, mas são apenas crianças.

É inquestionável, as crianças contemporâneas são muito desenvolvidas, já nascem tecnológicas frutos de uma evolução veloz e plena em possibilidades. E isso tem confundido muitos adultos que são pai e mãe. Essa criançada cheia de vontade própria, boa desenvoltura, são admiráveis, mas são apenas crianças. Podem e devem ter suas opiniões ouvidas e respeitadas, mas não deveriam decidir plenamente o que querem fazer. Afinal toda criança é instintiva e deseja ter suas vontades atendidas. Porém nem tudo o que querem lhes convêm. Num universo com tantas informações, visibilidade pelas redes sociais, superficialidade, é preciso que os pais fiquem atentos as ciladas que demandas modernas podem promover. Excesso de autonomia, precocidade podem produzir uma falsa sensação de maturidade que a criança na verdade não tem. Essas lacunas podem afetar significativamente a construção da autoestima da criança, podendo mais tarde dificultar sua diferenciação entre seus potenciais reais e imaginários.

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Recentemente uma mãe me procurou para falar sobre suas preocupações com a filha de 10 anos, ela está preocupada com a saúde da criança. Considerando que a filha está com sobrepeso, incomodada com a circunferência abdominal, essa mãe receia que essa criança fique com obesidade e sofra bulling. Ao conhecer essa criança, observei que não há motivos para tamanha preocupação, pois a percepção narrada pela mãe não é a mesma da criança que está com peso dentro do esperado e especialmente porque os cuidados necessários já estão em andamento. Alimentação saudável e esporte na rotina da criança. Esse é um ponto que demonstra a delicada fronteira entre o cuidado e o excesso de cuidado. A posição da mãe revela uma preocupação a ser bem observada pois pode delatar seus próprios receios projetados sobra a criança, mas revela também cuidados profiláticos. Basta escolher e conduzir na direção certa. Nossa sociedade é rigorosa e exigente quanto a padrões de beleza em que a magreza é preponderante. Cuidados excessivos precoces podem gerar cobranças e ansiedade desnecessárias gerando pressão que afetará a autoimagem futura, podendo desembocar em transtornos. Efeito sanfona iniciados precocemente, bulimia, anorexia, dismorfismo, são riscos. A polêmica dos rappers mirins é outra condição que demonstra essa delicada questão, em que a medida, as fronteiras e os motivos para uma exposição precoce podem


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levar a situações difíceis de controlar e perigosas de arcar, como a erotização precoce por exemplo. Em que meninos e meninas usam roupas e executam danças sensualizadas que as expõe e podem acelerar sua imersão no contexto sexual. Toda criança que está exposta a quaisquer situações que possam comprometer esse período tão delicado e influenciável que é a infância precisa ser cuidadosamente assistida. Outro exemplo recente no consultório, foi de uma mãe que demonstrava sua preocupação com a filha de apenas 12 anos, que segundo ela apresentava excesso de interesse em meninos, em “ficar”, ir a festas. Agindo como uma garota mais velha. Orientada a monitorar e conduzir suas próprias e naturais inquietações, essa mãe foi descobrindo no cotidiano como lidar com a questão, porque não há manuais. Numa ocasião deixou a filha ir a uma festa e ao busca-la se deparou com uma festa imprópria para a idade da filha e da amiga dela, com a presença de rapazes mais velhos, bebidas e etc. Condições omitidas pela filha. Situação arriscada, afinal curiosidades não podem ser confundidas com experimentações prematuras. Essa mãe precisou revisar os limites. Os pais desejam realizar suas funções da melhor maneira possível, muitas vezes sentem-se inseguros no processo o que é natural. O importante é estar atento, investir em diálogo, monitorar e

estabelecer limites claros e coerentes com cada etapa do desenvolvimento da criança. Crianças e adolescentes embora inteligentes, articulados, antenados são crianças e jovens imaturos, inexperientes, em desenvolvimento. Desconhecem os caminhos. Cabe aos pais com paciência, confiança, insistência, respeito, firmeza estabelecerem os limites, monitorálos e auxiliar seus filhos a travessia dessas fases. Proibições excessivas, comportamentos autoritários ou permissivos pouco favorecem. Essa tarefa não é simples, não é fácil. Ao contrário é trabalhosa, desafiadora e carregada de muita responsabilidade. Então queridos pais não se cobrem a receita certa e rejeitem a tentação de serem “pais perfeitos”, temerosos em errar. Integridade e responsabilidade apontam o caminho. Sejam amorosos, coerentes, por vezes, várias não populares e dispostos continuamente a ajustarem a receita de acordo com a situação. Assim, abraçaremos o desafio de também crescermos enquanto ajudamos nossos filhos a fazerem o mesmo. {MARIA MARTA}

Psicóloga [CRP 08/07401] mariamarta@psicobela.com.br

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social

Michelli Duje

É fundamental para a criança assumir responsabilidades e aprender como deve se comportar desde cedo. Ela precisa saber se portar quando estiver na casa dos outros ou quando ela for a restaurantes, festas, teatro, .... Se ela não treinar e desenvolver essa habilidade social, poderá ter dificuldade de tolerância e empatia, de entender como seus comportamentos podem repercutir negativamente ou positivamente nos outros.

Será que a criança precisa de regras de etiqueta? Opequeno pode se divertir sem esquecer da “boa educação” Crianças não pensam e agem como um adulto, é necessário tomar cuidado para não exigir uma postura que ela não é capaz de corresponder. É preciso aprender a se comportar educadamente diante dos outros, e para isso deve-se levar em consideração a idade dela. Quanto mais novinha, mais orientações precisarão ser repetidas, exigindo paciência de quem estiver corrigindo a criança.

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De forma firme, mas sem perder o controle, os pais e adultos que convivem com ela devem estabelecer alguns limites “dentro e fora de casa”, ensinando a criança se relacionar de forma saudável e positiva com amiguinhos e com o “mundo”. Quando a programação for dormir na casa do amigo, ela deverá saber que será responsável por suas coisas, e também entender que


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mesmo sendo visita, é importante ajudar na organização da casa, principalmente naquilo que desarrumou. Esse compromisso precisa ser introduzido em casa, por meio de pequenos acordos que desenvolvem o bom senso da criança. Por exemplo: guardar os seus brinquedos depois de usar, colocar a sua roupa suja no cesto, .... se ela tiver esse hábito, fazendo isso em casa, será mais fácil e natural ter esses comportamentos quando for a casa de um amiguinho. Nos primeiros passeios em família, pode ser que a criança tenha um pouco mais de dificuldade em compreender e seguir as regras e combinados, mas com a calma e as instruções dos pais, ela poderá treinar o seu autocontrole e sua habilidade social. Antes de sair de casa, o adulto precisa falar de forma clara para a criança quais serão as normas, e caso ela não as cumpra, quais serão as conseqüências (não pode aterrorizar ou criar medos na criança, como por exemplo, dizer a ela que a polícia ou bicho papão vai pegá-la). A consequência deve ser baseada em aprendizagem, para permitir que ela reorganize os pensamentos e aprenda com a situação. A disciplina deve vir com equilíbrio, existindo liberdade para as crianças serem

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crianças, podendo brincar e se divertirem, mas também que elas possam se comportar de forma adequada nos ambientes. Por exemplo, criança gritando e correndo em um restaurante pode ser muito inconveniente e desagradável para quem está almoçando, então os pais precisam educar para que isso não aconteça, o que dá trabalho, não é fácil. É necessário persistência! Os pequenos poderão contestar quando o adulto tentar fazer valer as normas. Nesse momento, um dos pais pode levar a criança num ambiente mais calmo, como no banheiro ou sair do restaurante para conversar com ela, e assim retomar os combinados e regras com o filho. É importante persistir nos ensinamentos, isso será bom não só para a criança, mas também para o adulto, pois ambos poderão sair e ter suas relações sociais sem inconvenientes. Todo esse ensinamento ajudará a criança a se tornar uma cidadã consciente, que poderá administrar os seus compromissos de forma pertinente no futuro. Ela entenderá que será responsável por seus atos e por isso precisa assumir uma postura apropriada diante da vida e da sociedade. A criança terá ferramentas para se relacionar com a vida e com os outros de forma adequada. {MICHELLI DUJE }

Esse compromisso precisa ser introduzido em casa, por meio de pequenos acordos que desenvolvem o bom senso da criança.

Psicóloga formada pela PUC-PR. Pós-graduada em Psicopedagogia. Formação em Psicoterapia de casal.

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financeiro

Simaia Sampaio

Odinheiro na relação pais-filhos

Nosso tema diz respeito a como lidar com o dinheiro na relação pais-filhos. Esta é uma tarefa difícil para todos os pais, porque envolve controle, responsabilidade, educação financeira. Contudo, envolve também componentes emocionais próprios das supostas necessidades imediatistas típicas de toda criança, que é desejar ter tudo que vê na televisão ou aquilo que os amigos possuem. E é nesse ponto que os pais se enroscam.

A imaturidade neurológica da criança não permite que ela tenha discernimento do que é caro ou barato, do que pode ou não pode comprar, tampouco consegue analisar se o objeto é necessário ou se se trata apenas de um capricho. Com efeito, a criança necessita ser orientada pelos pais a respeito destas questões, mas a depender da idade, ela não será capaz de compreender os argumentos utilizados pelos pais para dissuadi-la da ideia da aquisição do objeto de desejo. Então, o que fazer? O primeiro passo é se auto-observar. Se a criança tem pais consumistas, que trocam de aparelhos o tempo todo ou compram outros


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sem necessidade, que compram pilhas de bolsas, sapatos e roupas de maneira descontrolada, a criança pode passar a reproduzir este modelo fazendo exigências, mesmo sem ter noção de valor. O segundo passo é ensinar desde cedo que tudo tem valor. Se a criança ganha um brinquedo não se deve permitir que a criança brinque apenas no primeiro dia e depois largue no chão espalhado. É importante ensiná-la a ter cuidado, a valorizar e ensinar que deve sempre guardar os brinquedos quando terminar de brincar. Deve-se também ensinar a criança a poupar, combinar um valor por semana de algumas moedas para que a criança junte e, ao ir à loja, observe o valor que ainda não é suficiente, que precisa economizar mais. Assim, poderão perceber como é alto o valor que os pais pagam pelos brinquedos. O terceiro passo é, definitivamente, não dar tudo que a criança pede. Muitos pais que passam o dia todo trabalhando, presenteiam a criança como forma de compensar sua ausência e chegam em casa praticamente todos os dias com um presente. Esta atitude deixa a criança mal acostumada e cada vez mais exigente. Ao ir ao shopping, devese explicar o que está indo fazer antes de sair de casa, para que a criança não faça birras em público quando lhe for negado algo. A conversa precisa acontecer antes mesmo de sair de casa. É importante limitar os presentes a dias especiais como aniversário, dias das crianças, natal e se os pais desejarem comprar algo fora de época

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Uma criança ocupada com a religiosidade será um adulto certamente feliz, mesmo com muitas dificuldades mundanas.

que seja um brinquedo pedagógico que sirva para desenvolver algumas habilidades motoras ou cognitivas. É preciso ensinar desde cedo que nada na vida é de graça, que existem outras prioridades e que nem sempre é possível atender às necessidades da criança. Desde cedo é necessário ensinar aos filhos a importância de esperar. A criança que pede um presente e ganha de imediato não dá o mesmo valor daquela que passa meses esperando chegar seu aniversário para ganhar. Certamente este presente demorado será muito mais valorizado. Temos presenciado pais que compram brinquedos e eletrônicos indiscriminadamente, rendendo-se a argumentos como: “Todo mundo na minha sala tem, só eu que não tenho”. Aí toca na ferida. Alguns pais possuem dificuldade em dizer: “Mas você não é todo mundo e vai ter quando eu achar que merece ou quando eu puder comprar”. Acabam confundindo situações acreditando que o filho pode sofrer discriminação entre os colegas e desta forma


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A solução está na dieta

ou está na pessoa que faz a dieta?

será excluído do grupo. Os pais estão cada vez mais tirando das crianças a possibilidade de lidar com frustrações, de lidar com a falta, de se sentirem merecedores, de serem responsáveis por suas conquistas. Famílias abastadas devem ter cuidado redobrado neste sentido porque esta situação pode afetar outros setores da vida dos filhos. A ideia que se passa em tais atitudes é: “Não preciso me esforçar para nada tenho tudo que quero”, “Pra que estudar? Meu pai vai me dar tudo que preciso, é só pedir”. “Se eu não me formar meu pai coloca um comércio pra mim e pronto”. Os filhos tornam-se desmotivados em relação aos estudos, principalmente porque acabam distribuindo seu precioso

tempo com wathsapp, facebook, instagram, e outras redes sociais que cabem tudo no celular de última geração. Muitos pais procuram ajuda profissional para os filhos melhorarem o desempenho na escola, mas não tem coragem de tirar o celular das mãos e de deixar sem computador. Pais conscientes ensinam desde cedo tais valores por acreditar que a criança, apesar de ter conforto material, precisam ser preparadas para uma vida autônoma. {SIMAIA SAMPAIO } Psicopedagoga, Especialista em Neuropsicologia da Aprendizagem, Pedagoga. www.psicopedagogiabrasil.com.br


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Psicobela Digital 13 – Educação  

Como são e como estão os pais e mães contemporâneos? As novas teorias educacionais, tecnologias, referências e experiências têm ajuda...

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