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“Angústia” e a cena narrativa Há alguns anos, venho desenvolvendo uma investigação sobre a “cena narrativa”, o que, para mim, implica na feitura de espetáculos em que tudo o que se dá em cena se dá a partir das falas de narradores. Todos que estão em cena, são, essencialmente, narradores. Desta forma, nada que é apresentado ao público é feito sem a mediação de um sujeito que está lhe contando uma história. Por essa razão, os narradores tornam-se também uma espécie de construtores da encenação, de (por assim dizer) “encenadores-em-cena”, propositores de um jogo épico que vai construindo a encenação diante do público. Esse trabalho teve início com uma peça que escrevi em 2004, “Vigília”, e teve sequencia com outros trabalhos que surgiram, todos eles, a partir da adaptação de textos literários. “A Chuva Pasmada”, de Mia Couto, encenada pelo Matula Teatro (de Campinas) e pelo ator Eduardo Okamoto, “Os Amigos dos Amigos”, de Henry James, encenada pelo Filme Bê, grupo do qual faço parte e “A Sonata a Kreutzer”, de Tolstoi, encenada por Marcello Airoldi, em São Paulo. “Angústia”, a partir do conto homônimo de Tchekhov, é o mais recente desta série de trabalhos sobre a cena narrativa. Conto brevíssimo, “Angústia” trata da história de Iona, um velho cocheiro que, numa noite em São Petersburgo, procura alguém que possa ouvi-lo falar sobre a morte de seu filho. A angústia a que se refere o título é, em uma primeira leitura, a necessidade de poder falar, compartilhar com alguém a dor da perda. Ninguém, no entanto, parece disposto a ouvi-lo e, no fim, Iona descobrirá em seu cavalo o único ouvido disponível para escutá-lo. Tchekhov, em solução irônica, toca na ferida da indiferença dos homens pelos homens, retomando um tema que aparecerá em todas as suas conhecidas peças teatrais, como “As Três Irmãs” e “O Tio Vânia”: a incomunicabilidade como traço essencial da condição humana. Monologamos para surdos, ou para cavalos, enfim. Tanto pior será essa tragédia se o seu protagonista for pobre, como Iona. O cocheiro é fruto de um contexto social como o da Rússia do século XIX, onde os impositivos da sobrevivência lançam trabalhadores às mais degradantes condições não apenas de vida material, mas também de vida afetiva: figuras como Iona, em Tchekhov, são invariavelmente solitários que ocupam o mundo como sombras, percebidos apenas quando incomodam, quando precisam ser anulados ou destruídos. Em certo momento, tendo já finalizado seu dia de trabalho, Iona dirá: “Não ganhei nem para a aveia”(...) “Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício, que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma... talvez esteja até sempre feliz.” Há, em Tchekhov, essa percepção de que existem questões que são essencialmente humanas, mas que se agravam terrivelmente quando recaem sobre os miseráveis. Essa leitura do texto de Tchekhov me levou a uma escolha que orientou todo o trabalho de adaptação do texto. Pensei em uma narrativa cênica desta fábula que seria narrada não por Iona, mas exatamente pelos (im)possíveis interlocutores de Tchekhov. Assim, temos um narrador chamado “narrador-homens”, uma voz que sugere a totalidade da condição humana, e um outro, o “narrador-cavalo”, que implica numa tentativa de ampliação da ironia com que Tchekhov desfecha sua fábula. Assim, a história é contada ora pelo cavalo de Iona, ora pelos “homens” que não podem ouvi-lo, mas que, paradoxalmente, podem contar sua história. Cássio Pires - Dramaturgo


Anton Tchekhov Médico de profissão, Tchekhov começou sua carreira como escritor em 1880, com a publicação de alguns ensaios literários. A partir daí não demorou muito para que o então desconhecido escritor alcançasse uma extraordinária popularidade. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov foi o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão: o Realismo. Deixou obra extensa: centenas de contos, várias novelas, muitas cartas, uma imensa coleção de autênticas jóias literárias. E a sua obra como dramaturgo não é menos importante: muitas peças curtas, de um ato, a maioria cômicas e satíricas, e cinco obras-primas da dramaturgia ocidental: Ivanov, A gaivota,Tio Vânia, As três irmãs e O jardim das cerejeiras, verdadeiros “clássicos” constantemente representados no mundo inteiro.

A Companhia Uma companhia movida pelo exercício criativo e investigativo do teatro, pelas questões estéticas, ideológicas e sociais, que encontram no homem a inspiração maior para suas realizações. Criada pelo diretor Denílson Biguete em 1990, iniciou suas atividades como Cia Ciclo Teatro de Repertório. Em 2003 passou a ser denominada Mênades & Sátiros Cia de Teatro. Incorporou ao nome uma história de 23 anos de realizações, cerca de 30 espetáculos e dezenas de prêmios conquistados. A Mênades & Sátiros Cia. de Teatro é um coletivo de artistas e pesquisadores que desenvolvem um trabalho continuado de pesquisa e criação teatral. Neste percurso a companhia tem criado espetáculos que investiga aspectos da cena a partir do ator criador e processos compartilhados.Seus procedimentos artísticos incluem a pesquisa dramatúrgica, o corpo expressivo e ator-intérprete num jogo de espaços e configurações cênicas sempre focados numa relação verticalizada na formação do espectador. Principais montagens: Besame mucho (1992), Senhora dos Afogados (1993), Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão (1995), Crime Castigo (1996), Morte e Vida Severina (1998), Curto Circuito (2002), Dorotéia (2004), A Noite das Mal Dormidas (2206), Mal Secreto (2008), A Serpente (2009), Até que a Morte nos Separe (2011)


Figurino Tons terrosos e seus semelhantes formam a conjunção do figurino com o cenário. A estrutura inacabada, montada e remendada, sugere em cena a modificação das personas, IONA e seu CAVALO. A montagem artesanal do figurino compõe à cena com a proposta de favorecer a mobilidade e dar praticidade aos atores. A NEVE, personagem presente na obra, é elemento de suma importância e dá a direção para a composição do figurino, com materiais consolidados: a lã, o couro, o algodão, quais dão o peso e a sensação de frio propostos à cena e são refinados com um tom de leveza do musseline de seda. Fontes inspiradoras passam por vestimentas russas do Século XIX, bem como pelos instrumentos utilizados por cocheiros no trato com seus animais. Anilina, spray e barbante fazem parte dos últimos componentes para a expressão perene do duo apreciado. A pesquisa para a composição do figurino busca dar originalidade ao trabalho do coche sem descartar sua natureza, vista em consistência quando em cena. Relacionado com a ideia geral de um clima frio intenso, o figurino permite a visualização do estado mais íntimo de IONA, que em pedaços busca se aquecer não só da neve fria.

Iluminação

A iluminação manipulada pelos atores-personagens indica a procedência da cena e sua disseminação. A junção da iluminação com o cenário é permanente. Com base a ferro e luz, são utilizados seis suporte (postes) fixados no chão, com lampiões de luz em led que nos remete ao formato antigo à gás. Eles iluminam de forma suspensa o cenário, identificando-o com a penumbra da cidade pré luz elétrica, formas que iluminam com maior intensidade o solo e ainda aos indivíduos expostos. Os postes marcam pontos de encenação e lugares distantes, além da passagem do tempo. A densidade da luz é trabalhada de maneira sutil e não agressiva aos olhos.Não há luz elétrica e as ruas propostas pela iluminação transcendem para um lugar possível de uma cidade efervescente. Em meio à escuridão e à solidão, a luz modifica, a luz chama.


Sonoplastia Silêncio e gaita. Respiração e corpo. Sons são criados constantemente, o masco do cavalo, um relincho, o trote. O som da gaita é entoado sem compor uma música pronta e sim identificando à cidade de São Petersburgo do final do século XIX, uma cidade em modernização, da confusão das ruas, cada vez mais barulhentas. Mãos e pés produzem o som do tempo e dos deslocamentos. Uma única composição musical surge na entrada e saída do público. Vindo de um rádio antigo, afastado do espaço cênico, o chiado constante.

Cenário

Em um espaço de 24m² é estabelecida a relação entre os atores. São materiais utilizados, o ferro, a madeira e a lona. O cenário pode ser visto como provisório ou inacabado, porém assim sua função transforma a cada instante o espaço alternativo. Faz-se notável a posição em que os objetos cênicos se encontram,distanciados. A lona estendida no chão. Uma roda. A roda de ferro com madeira, capaz de suportar o peso é o principal elemento de interação do cenário com os atores. A roda, o coche. Seu movimento expressa o tempo, o espaço e a pessoa. O principal elemento de interação entre público e cenário é a NEVE que o compõe e é representada por almofadas de 30x30cm e 15x5cm, pretas, com a espessura de 7cm e o escrito NEVE. Seis postes sustentam a iluminação de cena. No cenário, lampiões de cabeça para baixo iluminam o espaço cênico, os quais permitem a manipulação pelos atores. As direções em giz, o risco, o rabisco, aqui IONA, aqui CAVALO, aqui HOMENS, completam o espaço cênico.


Maquiagem

Sobre sombras e manchas se instauram a maquiagem. De forma escura e inerte deixa-se confundir IONA com seu animal. Com um princípio de unidade e transformação constante, a maquiagem é composta pela mistura de tonalidades formadas basicamente por cinza, marrom e suas efusões. Mesclam-se as cores para uma deformidade aos atores e fazer lembrar o passado e o árduo trabalho a ser cumprido pelas personagens. Os tons escuros causam a distonia em relação à neve natural, tão branca e clara, que em cena é representada pelas cores assim como a maquiagem, o que permite ao fenômeno natural exercer sua função prioritária no espetáculo. Traços fortes vindos da parte superior da cabeça até a ponta do queixo registram a horizontalidade da relação de IONA como o CAVALO. Os traços são complementados com o uso de pó compacto, o batom marrom e delineador, os quais cumprem o papel de ressaltar olhos e lábios para a valorização dos sentidos, assim como, o realce pelos da barba e sobrancelhas com o rímel e o lápis preto.


LUZ E SOM

MAPA DE PALCO,

Poste com iluminação Poste com iluminação

Poste com iluminação

Poste com iluminação

Plateia

Poste com iluminação

Poste com iluminação

Plateia

Plateia

Necessidades Técnicas: Área medindo mínimo de 24 m2 para encenação. É necessário, que o espaço tenha uma abrangência maior para acomodação da Plateia (cerca de 80 pessoas) acomodadas em semi-arena, arquibancadas ou cadeiras. A iluminação é feita por lampiões com luz de led, de responsabilidade da Companhia. Não há necessidade de equipamento de som, pois a trilha é executada ao vivo.


Ficha Técnica

Direção: Denilson Biguete Dramaturgia: Cássio Pires A partir do conto “Angústia”, de Anton Tchekhov Encenação: Mênades & Sátiros Cia. de Teatro Elenco: Marcus Andrade e Thiago Cardoso Iluminação: Denilson Biguete Cenário: Thiago Cardoso e Rogério Quintanilha Maquiagem: Junior Benites Figurino e adereço: Victor Botelho Orientação Projeto Ademar Guerra: Cássio Pires Workshop teatro épico: Eduardo Herculano Workshop partitura cênica: Marilyn Nunes Produção: Cida Camargo | Olho Nu Promoções e Eventos Ltda


CURRÍCULOS DENILSON BIGUETE (Diretor) DRT: 012316 Diretor, ator, professor de teatro, pedagogo especialista em Arte educação e gestor cultural. Dirigiu desde 1990 cerca de 30 espetáculos, dentre os quais: Crime e Castigo de Dostoiévski, Dorotéia de Nelson Rodrigues, Um Beijo, Um Abraço e Um Aperto de Mão de Naum Alves de Souza, Dom Casmurro de Machado de Assis, Senhora dos Afogados de Nelson Rodrigues, Besame Mucho de Mário Prata, Fica Comigo esta Noite de Flavio de Souza, Curto Circuito de Timochenco Wehbi, A Noite das Mal Dormidas de Neils Petersen. Atua no monólogo Memórias Póstumas de Brás Cubas, em cartaz desde 1999. Professor de Técnica de teatro e dança e fundamentos da artes cênicas na Unoeste - Universidade do Oeste Paulista desde 2007. Ministra oficinas de teatro na Oficina Cultural Regional Timochenco Wehbi desde 2002. É funcionário público Municipal desde 1992 e atualmente ocupa o cargo de Produtor Cultural do Centro Cultural Matarazzo. Diretor da Olho Nu Promoções e Eventos Ltda THIAGO CARDOSO (Ator) DRT: 20.686 Ator formado pelo Curso Técnico Senac desde 2003. Monitor de lazer e recreação formado pelo Senac desde 2001. Professor de Artes com especialização em arte educação formado pela Unoeste e Unesp. Professor de artes da rede particular de ensino. Dirigiu desde 2003 cerca de 35 espetáculos, dentre os quais: Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, Só eles o sabem de Jean Tardieu, Essa Propriedade está Condenada de Tenesse Williams, A intrusa de Maurice Maeterlinck, Bonecos Chineses de Caio F. Abreu, Luisianas de Lygia F. Telles. Atuou nos espetáculos Juiz de Paz na roça (2002), Mal Secreto (2002), Curto-circuito (2003), Dom Casmurro (desde 2004), Um Beijo, um abraço e um aperto de mão (2004), Dorotéia (2004), A noite das Mal Dormidas (desde 2006), Mal Secreto (2008) e Até que a Morte nos Separe (2011) MARCUS ANDRADE (Ator) DRT 0031881 Professor de teatro da secretaria municipal de Educação de Osvaldo Cruz Principais peças como ator: Romeu e Julieta, Uma Rosa para Hitller, A Intrusa , A Terceira Margem , Vereda da Salvação, A invasão, Curto-circuito e Angústia Principais peças como diretor Chapeuzinho vermelho na contra mão, A pequena imperatriz 2009-Rosas, Curto-circuito e Esta propriedade\ esta condenada CIDA CAMARGO (Produtora) DRT: 8286/SP Atriz e professora de artes especialista em arte educação. Atuou nos espetáculos O Homem do princípio ao fim, de Millôr Fernandes; A mais forte, de August Strindberg; Mitos, de Maria Farrar; Um Bonde chamado desejo e Memórias de minhas putas tristes e Mal Secreto. Dirigiu os espetáculos Vereda da Salvação, Solidão e cia, entre outras. Atualmente é professora do Curso livre de teatro da Secretaria Municipal de Cultura. EDUARDO HERCULANO DA SILVA (Consultor Técnico e Dramatúrgico) Graduado em Letras: Português, Inglês e Respectivas Literaturas; pela FAPEPE - Faculdade de Presidente Prudente. Participou dos espetáculos como dramaturgo: Cidade dos Mortos (adaptação). O Anel de Magalão. Produção técnica. Processo de Criação Textual: O Dramaturgo Como Leitor de Sua Própria Obra. Organizou os eventos: VIII Mostra de Teatro - Territórios da Apreciação. Olho nu Produções. 2012. (Festival). I Ciclo de Debates Sobre a Prática Docente do Curso de Letras da FAPEPE - UNIESP. 2008. (Exposição).


Contato: Tel: (18) 9601.2042 | 9601.5820 lugardasartes@gmail.com Presidente Prudente - SP


Projeto Angústia