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SENTIMENTO HIATO O NADA PROFUNDO & O NADA PROFUNDO

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Copyright © 2008 by (CC) Carlos, Cláudio B. Capa, projeto gráfico e fotografias do autor: Cínthia Casagrande

Dados para Catalogação: (CC) Carlos, Cláudio B. Sentimento Hiato – O NADA profundo & o nada profundo São Marcos, RS. feito em casa, 2008. 136p. Literatura brasileira – Poesias. Edição do autor ® direitos reservados

Proibido todo e qualquer uso comercial.

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SENTIMENTO HIATO O NADA PROFUNDO & O NADA PROFUNDO poesias

1ª edição 2008

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As promessas que fazemos a nós mesmos servem justamente para não serem cumpridas, pois, são feitas sempre à beira de abismos, e à beira de abismos promete-se qualquer coisa.

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SENTIMENTO HIATO

O ser é angustiante e o não ser... ah! o não ser quanta dor me causa...

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ELEGIA DO NEURÓTICO

Quis gostar não me bastou Precisei amar amei d e s m e d i d a m e n t e Quis ser posse sufoquei Quis possuir matei Lutei para ser livre perdi Fui condenado a viver até a morte dentro de minha própria cabeça

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TRISTE MEMÓRIA

O vento frio no descampado era tão forte que cortava produzindo ao bater nas orelhas entanguidas o triste som de uma coplita de uma nota só E ao longe – lá onde os olhos precisavam arregalar-se para não perder o foco – o amarelume alaranjado de uma queimada estalando o capim descolorido pela geada Quieto tudo muito quieto com ares de deserto Nem um boi a pastar no campo de vidrilhos nem uma perdiz em disparada Nada Só o amarelume alaranjado de uma queimada ao longe – lá onde os olhos precisavam arregalar-se para não perder o foco – Nada Só o triste som de uma coplita de uma nota só

Parecia que eu era a única alma viva naquele lugar esquecido por Deus

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Como é bom voar Que sensação de liberdade O vento nos cabelos Livre Plenamente livre Voar Mesmo que seja por breves instantes...

A calçada está se aproximando... Vou bater de frente com a conseqüência da minha liberdade: A MORTE

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PESSOAS

Pessoas pessoas vêm pessoas vão pessoas têm pessoas não pessoas amam pessoas odeiam pessoas são chatas pessoas me chateiam pessoas são ternas pessoas se enternecem pessoas são eternas pessoas me aborrecem pessoas rezam pessoas gozam pessoas sobem pessoas descem PARA O CÉU OU PARA O INFERNO 10


NUVENS

Tu vens Nu vens

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BREVE RETRATO DE FAMÍLIA EM ÓLEO SOBRE TELA

Para minha vida quero uma tela pintada a óleo, suor e lágrimas onde uma mãe encontre um filho onde um filho único e adotivo encontre muitos irmãos onde a sombra se transmute em luz e as caras todas se estampem com brancos sorrisos onde o sol não se ponha e a alegria nunca tenha

fim

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Preocupaçõesmedosangústiastensões sofrimentoraivasolidãoódiorancorcorações mentes

mecanicamente

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VIDINHA

Vidinha de chorar sábado à noite de pôr o vestido de sair e ficar em casa Brindar coca-cola com quem ama (?) contar cada centavo para pagar as contas no final do mês e jurar para si mesma “eu sou feliz” O que mais poderia querer a não ser um pouco de carinho? Ah! mas aí já seria pedir demais...

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Morte morte morte Etapa da existĂŞncia que terei que viver...

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POEMA DE MIM

Poema poema não estou te jogando aleatoriamente no papel Quero que fales por mim podes falar de amor de minha solidão meus medos Quero que fales por mim que fales sem medo de mim Não quero, poema, que tenhas começo meio ou fim Quero sim que sejas simples porque sendo simples já serás mesmo sem métrica ou rima um poema Um poema de mim...

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SERTÃO VERMELHO

Ardia e uma fumaça negra subia como que a querer provocar lágrimas nos olhos de Deus Ardia e o sertão parecia uma imensa brasa Eu menino – tolo – assistindo só queria ter uma moringa com água para dar de beber à terra seca

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NĂŁo durmas pois se assim o fizeres ao fechar os olhos esconderĂĄs as esmeraldas

que sĂŁo minhas

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Fテ。ULA

A noite postou-se feito gravura no globo ocular do gigante que naquele instante de monstro temido menino se fez e teve medo medo medo outra vez...

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TELA

Gostaria de ter os tons de misturar mil cores E inventar uma outra que nascesse da fusão de todas as raças Gostaria de ter os tons para poder pintar repintar a TELA e aí então iria assiná-la com uma gota grossa de minhas próprias lágrimas

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DA SINGULARIDADE

SINGULAR quando – no fundo – gostaria de ser PLURAL No entanto COMUM DE 2 GÊNEROS

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INDIZÍVEL

Ah! esta angústia este sentimento inexplicável indizível invisível aos olhos alheios Não sei ao certo talvez nem seja angústia... Esta inquietação esta coceira em meu peito como se nele estivesse aprisionado um falcão louco louco louco para voar loucamente Esta vontade de abrir os braços em uma estrada comprida poeirenta e solitária e gritar e girar em torno dos próprios calcanhares e girar e gritar gritar e girar... E esperar que o céu mande chuva Uma chuva pesada de pingos grossos 22


e gelados e esperar o vento... E esperar que me leve e como faz com o pólen que me plante em algum campo sagrado para que eu brote com uma força tão grande tão grande que rasgue o solo E que ele grite ao ser rasgado que grite como uma virgem ao ser violada E que sangre que sangre como uma virgem ao ser violada Ah! sentimento indizível Esta vontade que tenho (e acho que todos temos) de me jogar do alto da mais alta montanha O que vale é o gozo mesmo que frágil e breve (é o gozo que se espera) O gozo esse deus misterioso que nos arrebata e desfalece Ah! este medo de que os domingos sejam solitários sem filhos netos macarrão 23


Esta angústia não sei nem se é angústia não sei nem se sou ou se já fui Quem sabe se agora já não estou naquele campo sagrado todo verde Quem sabe se não sou aquela macieira (aquela que se vê da janela) onde os andantes apaixonados gravam juras sulcando seu tronco... Quem sabe se já não fui levado por um desses nortes que insistem em varrer tudo por aqui Ah! esses nortes me fazem lembrar vovó a limpar o terreiro d’eu guri... Quem sabe se já não passei por aqui por ti tão rápido rápido rápido que não viste que nem eu vi...

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É preciso dar passagem aos foliões – estão em toda parte – A propósito: — O que será que tanto festejam?

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As lágrimas deslizam são bailarinas exímias patinadoras a fazer evoluções em teu rosto alvo (de gelo) amada Invejo tais criaturas que te acariciam que saciam o cansaço morrendo em tua boca amada

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Ele num ímpeto de revolta gostaria de quebrar o copo (agora vazio) em que bebera cerveja Mas não podia... porque na melhor das hipóteses não teria dinheiro para comprar outro

Mas os patrões têm cristais e quebram copos e freqüentam restaurantes onde é permitido estilhaçar os pratos (que MARAVILHA!)

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VELHO RIO

Do velho rio só restou o leito desarrumado pela violência da estiagem Aonde foi o velho rio? Por que abandonou seu leito seco e rachado dando a impressão de ter saído às pressas deixando a cama desfeita e com os lençóis enrugados?

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Quero uma varanda para pendurar minha rede uma sala com um cabide perto da porta para pendurar o chapĂŠu ao chegar da rua e um gramado verde verdinho com algumas margaridas para “pendurar as botasâ€? quando findar a vida...

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O CHORAR DAS PORTAS

Ouvia-se da rua o chorar das portas mostrando que apesar dos anos as almas daquela casa n茫o estavam mortas Ouvia-se da rua a hist贸ria daquela casa contada pura nua e crua para quem ali passasse...

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O + FORTE AMOR

De todos os amores – poucos, mas fortes amores – tu, o + forte deles me visitas até hoje e bailas em meu pensar tão forte, tão forte que por alguns instantes volto a te amar...

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Ergueram-se do chão rumo ao céu os filhos de Maria Um cordão de anjinhos barrigudos os filhos de Maria Mamãe mamãe não vamos mais sentir fome não chora mamãe

as nuvens são feitas de miolo de pão

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PENSAMENTOS & VERSOS

Os tons Os sons Os versos Não são os mesmos As coisas Os lugares Tu Eu Também não Mas nada some assim sem deixar lembranças Os tons Os sons Os versos Não são os mesmos Apesar de não sermos também os mesmos ainda somos capazes de lembrá-los de vez em quando quando a retina pára em algum ponto qualquer e o pensamento voa voa voa... 33


Esta mania que tenho de falar sozinho de me aconselhar comigo mesmo... E digo tantas coisas... Ora! Se sei a resposta ent達o por que me pergunto?

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VOZES DA PAMPA

O sol da meia-tarde refletido no açude, o cachorro assoleado sob a ramada, perdizes alçando vôo em disparada, o canto da cigarra, as vozes rurais: — Encosta a marca Otaviano! — Não deixa fugir Deoclésio! O berro do boi, o cheiro do couro queimado... Sou eu, piazito, com o pé na terra e o cusco Coleira do meu lado Minha mãe chamando a peonada para o café É hora da parada É a pampa girando a roda da vida, sou eu, piazito, com o pé na terra assistindo...

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ALMA IMPREGNADA DE POEMAS

Por ter a alma impregnada de poemas sonhava em demasia e falava ao sonhar... O que aos ouvidos dos outros bobagem parecia era pura poesia que de tĂŁo pura daria para beber Mas ninguĂŠm entendia preferiam de sede morrer a ter que entender...

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FLOR

Olhos fechados Lábios entreabertos Faces ruborizadas Pernas bambas Roçar de pêlos pelas mãos Toque de dedos Sussurros Juras Juras? Que teu amor será só meu meu amor? E tu feito botão aberto em flor Toque de dedos Em pétalas macias De uma rosada rosa

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FLOR 2 (MARIA INÊS)

Eu menino ... O cheiro úmido dos pêlos ... Eu menino te sentindo tu sentindo por entre os dedos entre os dedos pêlos ... Tu sentindo o endurecer do talo (tenro) ... E o falo este talo de que falo enrijecendo por entre teus dedos (pela primeira vez) ... Eu menino te sentindo por entre os dedos e tu por entre os dedos sentindo os pêlos ... Os pêlos pelos vãos dos dedos...

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POR UM TRIZ

Feliz? Não! Não sou feliz e quem o é? Será possível ser feliz em plenitude? Às vezes tenho vontade de sair na chuva gritando outras vezes quero me trancar no quarto noutras, quero que me deixes sinto vontade de rasgar teu retrato logo em seguida te cubro de beijos Vida vida vida minha Ah! vida minha, da avenida comprida, deserta Ah! como andei vida vida vida minha Feliz? Não! Não sou feliz mas tudo bem resta um consolo não sou por um triz...

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FRAGMENTOS DE UM POEMA TRISTE

Pra sorrir faltavam dentes Pra chorar sobravam lรกgrimas Sentado no chรฃo com a cabeรงa enfiada entre as pernas...

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A SOMBRA GRANDE DO ESPÍRITO

Eu caminhava a estrada estreita de terra vermelha O sol ardia e à minha frente caminhava com meus passos uma sombra esguia preta Era meu espírito que se esticava tentando sair de mim...

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FRUTA MADURA

Beijar tua boca com a fome de quem come uma fruta madura tirada do pé

Feito criança Feito bicho no cio feito bicho do mato com a fome de quem tira uma fruta madura do pé e come no ato

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SINGELO

Ela lavava a roupa no aรงude e batia na tรกbua Ele a amava e amava Os dois juntos juravam fidelidade e amor eterno Simples? Seria

se alguma coisa nessa vida fosse eterna...

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Tive a ilus達o de ter tido uma ilus達o Mas n達o Eram mesmo, teus olhos na noite escura a brilhar pra mim

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MONÓLOGO ANTES DA MORTE

Sinto meus olhos pesados... A luz da cidade... a lua, velha parceira das madrugadas agora está minguando a luz da cidade está se apagando Sinto meus olhos pesados... Coração velho companheiro bate agora preguiçoso Coração velho companheiro maltratado pobre coração tu sempre foste um fraco Sinto meus olhos pesados... Garçom! Mais uma... Este amargo gole da cerveja nunca foi tão doce ou este doce nunca foi tão amargo? Quantas coisas por fazer... Mas o que fazer? Quantos poemas inacabados 45


em minha gaveta trancados... Quantas coisas por fazer meu filho meu neto que não verei crescer que não ouvirei dizer: — Vem brincar vovô! Minha amada seu sorriso seu olhar pequeno... Quantas coisas por fazer quantos sonhos plantados e agora a vida me poda e não me dá tempo de colhê-los Sinto meus olhos pesados... Companheiro coração guerreiro coração bate um pouco mais... Quero olhar este lugar pela última vez afinal que ambiente melhor pra se morrer do que este... Ah! uma mesa de bar uma cerveja pela metade uma vida no final... E quantas coisas por fazer... Sinto meus olhos pesados... Mas afinal ao final da vida o que fazer? Amigos meus amigos bons outros nem tanto família 46


cão gato papagaio Quanta coisa deixo ao velho mundo e amanhã... Minha amada chorando posso ver sobre meu caixão no meio da sala posto e pra partir nem sapato novo tenho (nunca gostei de sapatos novos) Sinto meus olhos pesados... Meus discos meu violão que não mais tocarei... (nem mesmo aprendi a tocá-lo direito) Minha cidade... (a que adotei pra ser minha ou será que foi ela quem me adotou?) Minha cidade e suas ruas que não mais pisarei... Quantas coisas por fazer... Meu filho meu neto que não verei crescer ninguém pra herdar meu nome... Morro simplesmente desapareço serei esquecido morro resta o consolo morrerei aqui nesta mesa de bar... Deixo como herança à minha amante a madrugada esta cerveja pela metade e... 47


Sinto meus olhos pesados... A luz da cidade está se apagando Bate coração mais um pouco... Deixo como herança à minha amante a madrugada esta cerveja pela metade e levo dela o agridoce do último gole Morro só somente morro... Que lugar melhor pra se morrer do que uma mesa de bar... Pra quem viveu a vida na boemia pra quem contou a vida em versos as alegrias e tristezas da vida em versos Mas afinal que lugar melhor pra se chegar ao final de tudo do que este... Do que esta mesa de bar do que este ambiente cheio de boêmios... Responda garçom! Que lugar melhor pra se morrer do que uma mesa de bar? Morro somente morro serei esquecido... Morro... Resta o consolo 48


Morrerei aqui nesta mesa de bar... Neste santuรกrio de poemas desencantos tantos tantos tantos tan tos...

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OLHOS ABSTRATOS

Vejo teus olhos na vidraรงa esbugalhados enormes buracos negros estampados em minha janela e confesso tenho medo de me perder.

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O vento balançava as folhas das bananeiras que despenteadas e loucas choravam na lâmina do meu canivete criança não entendia de cortes apenas brincava de ser Dom Diego de La Vega, o Zorro

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PAMPEIRO

O milharal prostrou-se naquela manhã em reverência ao Minuano que assobiava imponente como um grão-vizir que passa a tropa em revista Os pássaros naquela manhã bateram asas em revoada frenética E eu precavido resolvi ficar no rancho porque coisa boa sei que não traz esse vento correntino de apelido Pampeiro.

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ALÉM DE MIM

Há tanta frase solta tanta coisa suspensa como uma nuvem densa tantos pensamentos confusos obtusos Há tanta coisa hoje suspensa no ar tanta coisa hoje ainda por falar antes que comece eu a chorar Talvez de tristeza talvez por angústia Há tanta coisa suspensa tanta coisa além de mim também suspenso aqui no 4º andar... Tanta coisa além de mim tanta coisa sobre 53


tanta coisa sob Tanta coisa hoje ainda por falar sobre mim antes que comece eu a chorar... A imundície das ruas o estrago do vendaval a mudança abrupta da paisagem Tanta coisa hoje penso eu Num frágil intervalo de tempo num singular encontro da minha mão trêmula e de dedos amarelados de nicotina com o copo redondo redoma de vidro onde mergulho afogando tantos pensamentos meus Há tanta coisa solta suspensa tanta coisa além de mim também suspenso aqui no 4º andar O vôo solitário de meus pensamentos no céu amarelecido 54


Sorria! Faça pose! O flash de uma foto onde me eternizo sorrindo me eternizo fingindo mentindo para quem? Se por dentro estou chorando por tanta coisa hoje alÊm de mim que não compreendo...

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SOBRE UMA SUPOSTA FUGA

Fuga? Tracei um plano D ao longe longe que nem posso ver Resta entรฃo somente um risco imaginรกrio (?) no horizonte.

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PRETÉRITO MAIS-QUE-PERFEITO

Sonhara Ver a paz chegando abrindo a porta de nossas casas assim com ares de dona bebendo de nossos poços e comendo com a gente ali na mesma mesa...

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AGONIA

A gilete que me cortava o pulso abria uma fenda ardida que em seguida avermelhava-se de sangue Interpretar o que se traz escrito na palma da mão não é assim tão fácil Entender e aceitar o epílogo mesmo quando nos imaginamos longe do fim (longe demais pra mim) Meu peito dói eu me contorço É como se esticar sem alcançar o que se espera Como sentir o corpo ardendo em brasa sem se queimar Sentir a boca cheia de palavras se debater e não conseguir falar E de repente acordar com o próprio grito

aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiii Não entendi o sonho que tive: Havia um rato enorme, com um homem tatuado em uma das patas, e ele bebia o sangue que de mim fugia...

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VIDRAÇA EMBAÇADA

Minha visão agora é turva como uma vidraça embaçada E sei que a cada ano que passa as marcas de expressão que circundam meus lábios se acentuam São como valas causadas pela erosão Minha pele feito areia do deserto se ondula a cada ano que passa (ou seria se enruga?) E meu sorriso agora não tem o amarelume da culpa porque agora já não finjo estou velho demais para conveniências agora rio porque quero e pronto...

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PROCISSÃO

Caminhei caminhamos neste caminho duro nesta eterna procissão nesta procissão nossa Senhora de Aparecida Nos dê sossego e uns dias a mais de vida e uns dias a mais de vida para pisarmos este chão e seguirmos serpenteando o sertão...

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A fuligem corrosiva daquele dia cinza pousou sobre minha cabeรงa deixando incรณlume somente o melhor de mim: O arcabouรงo cor marfim envolto nos frangalhos da minha t-shirt

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Esta minha predileção pela tristeza faz-me ficar sempre à beira do mundo à beira de tudo cauteloso só observando como uma criança que come mingau rodeando evitando a quentura efervescente do bojo.

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ZOOLÓGICO ILÓGICO

Caminhava eu tranqüilo pelas alamedas daquele zoológico diferente lá todos os animais tinham nome de sentimentos Amor Ódio Ternura todos enfileirados cada qual atrás de suas grades Quando me deparei com um espécime medíocre dum sorriso de meia-boca uns olhos de um brilho melancólico... coitado fadado à fome eterna pois na tabuleta ao lado de sua jaula estava escrito:

Não alimente o bicho chamado e s p e r a n ç a...

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Hรก tempos perdi minha cavalgadura e a minha espada nem cheguei a encontrar Onde mesmo disseram-me que ela estava?

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FOLHAS DE ABRIL

Lembrarei de ti quando as folhas de abril cobrirem a calçada Quando o frio do inverno branquear a serra Quando as acácias florescerem E lembrarei de ti quando as rápidas chuvas de verão vierem me pegar desprevenido numa dessas esquinas por onde vagueio noite adentro à procura de um bar qualquer

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LĂ GRIMAS

Olhando assim atravĂŠs delas vendo-as escorrer em teu rosto mais me parecem lupas a aumentar os poros

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PEDAÇOS

De minha infância deixei um pedaço enterrado num campo cheio de eucaliptos no alto duma estrada poeirenta De minha adolescência deixei pedaços com uma moça de olhos verdes numa casinha simples rodeada de árvores e ramadas Agora no auge de minha maturidade (?) insisto em deixar pedaços de mim pela casa pelos bares e nos lugares onde encontro alguém que acho que vale a pena

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PEDAÇOS 2

Logo no início quando – só – nasci comecei a perder pedaços de mim e sei que assim será... Continuarei perdendo perdendo perdendo... – ontem mesmo perdi um – Perderei pedaços até o fim... E depois quando estiver velho e cansado e sentir que a vida – na verdade – me foi imposta como castigo quando não tiver mais nada a perder – nem um pedacinho sequer – morrerei – só – como nasci...

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OUTONO Para Bebeto Alves

Os paralelepípedos amanheceram umedecidos pela chuva da noite passada os cinamomos estão com as copas amareladas pois que chega o outono desbotando tudo E não muito distante daqui presos se rebelam As folhas secas caídas na calçada me servem de rascunho: Agora é a polícia que esconde o rosto Num porto perto daqui (dizem) as pegadas das botas do poeta Bebeto Alves estão desenhadas e por mais que o vento se esforce não consegue apagá-las Alguém pede com paixão em alguma esquina O frio do sul me deixa triste e as violetas sabem disso nenhuma a sorrir pra mim do canteiro aliás ninguém me sorriu ainda hoje pois que chega o outono desbotando tudo... 69


O CORCEL E O VIRA-LATA

No início o amor é como um corcel selvagem Depois é como o vira-lata a lamber-nos o calcanhar no portão (a gente acostuma)

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ALGO MÁTRIO Para Luís Fernando Ferreira

Senhoras baforando neblina varrem as calçadas Do outro lado da rua um velhinho bem magrinho fraquinho bem magrinho adunco bem magrinho passeia com um cão O chafariz NÃO PISE NA GRAMA As camélias no parque (há tempos não via camélias) me remetem à casa materna NÃO PISE NA GRAMA 71


Um breve fechar de olhos dura uma eternidade parece que ando sonâmbulo tenho sede I’m tired... Olho para o céu Tenho a impressão de que os deuses não estão lá

Mas não faz diferença também não estou sentindo minha alma em mim (deve ter saído para descansar – de mim) Vem vindo vindo vindo mais um breve fechar de olhos E este bem mais breve Tenho um gosto ruim na boca seca dos líquidos de ontem I’m tired I’m tired... E o velhinho 72


aquele bem magrinho fraquinho bem magrinho adunco bem magrinho ficou para trás tão longe longe que agora só o vejo entre um e outro roçar de pálpebras com o olhar da lembrança...

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DAS ALMAS

Um dia quem sabe possamos nos amar sem ser pecado Já que as almas não têm sexo então

quem sabe não seja errado

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ASAS

Deixe de veleidades homem e voe voe voe Voe o mais alto que puder Rogo-lhe que deixe a mim como uma larva que sai do casulo Rogo-lhe que pense em mim com carinho como quem recorda uma morada antiga Mas peço-lhe também que jamais pense em voltar pois será triste vê-lo novamente habitante de mim depois de ter tomado gosto pela liberdade

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Dá-me vinho que na caserna me é proibido Dá-me a chave do melhor quarto e manda-me a mais formosa dama Hoje quero embriagar-me amar e depois como há tempos não faço adormecer em uma cama arrebatando deste meu corpo o cansaço dos campos de batalha

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DEUS (A CHEGADA DE PABLO SOLEDAD AO CÉU)

B

— om dia. — Bom dia. — Quero falar com o dono da casa. — ELE está ocupado no momento. Quer deixar algum recado? — Pergunte-lhe onde estava no dia 16 de agosto de 1982. — Pois não. Qual o seu nome? — Meu nome é... Ora, ELE sabe. Ou não?

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TEMPORAIS

Nunca abro portas e janelas para que a tempestade n達o me pegue desprevenido Foram tantos os temporais que aprendi a ver o mundo por frinchas

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Estamos todos esperando a chuva que não vem e que quando raramente cai é em gotas escassas como em doses homeopáticas que não curam nossa seca que não matam nossa sede

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DO DIĂ RIO DE UM PRISIONEIRO

Hoje, 27 de janeiro de 1996, tenho algo de muito importante a dizer para o meu batalhĂŁo de fugas proteladas: direi que debandaremos ao anoitecer.

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PAISAGEM

São cinco e pouco da manhã hora em que a pampa amanhece com a mesma calmaria de ontem, anteontem... Hora em que a lua depois de passar a noite em claro se deita atrás do monte e o sol desponta novamente no horizonte... O campeiro ceva o primeiro mate senta na soleira e sente que envelhece um pouco mais a cada dia O cusco faz festa lambendo-lhe os pés como se quisesse acariciar suas cicatrizes... A paisagem se repete como antes com a mesma calmaria de ontem, anteontem... O campeiro ceva o primeiro mate senta na soleira e sente que envelhece um pouco mais a cada dia Envelhece... Com a mesma calmaria de ontem, anteontem... 81


PROFANO

Nas costas o peso do nome que carrego e um olhar vazado dèjá vu me escorre sob as lentes Sou profano vil e covarde Ando sem rumo apoiado em meu terceiro tentáculo Piso agora com pés cansados em ti Por minha demência fui expulso do presépio e esta presbiopsia me desatina

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A chuva vinha lavar os telhados e os corpos suados e do solo sulcado fazia brotar imensos prédios e dos prédios nasciam parabólicas e das parabólicas eram emitidos raios aos céus e os raios voltavam ao chão em forma de chuva e a chuva vinha lavar os telhados e os corpos suados e do solo sulcado fazia brotar imensos prédios e dos prédios nasciam parabólicas e das parabólicas eram emitidos raios aos céus...

(ad infinitum)

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SANTA-FÉ

Aqui os pássaros gorjeiam indiferentes à minha grelação e os dias me dão a nítida sensação de eternidade Ouve-se aqui a ladainha costumeira das velhas nos finais de tarde sem esforço como um sussurro roubado As ruas são desertas e a solidão dos paralelepípedos que refletem ao sol seus vidrilhos me dói nos olhos Aqui se vê cães gatos e cavalgaduras arcadas sob homens gordos de tez umedecida Aqui se vê tão pouco vê-se de tudo Aqui todos têm uma história aos olhos indiscretos e língua sem papas de uma castelhana octogenária chamada Soledad que se não fosse o vício de espiar já teria morrido de tédio 84


Aqui a um canto um ventilador de pás lentas sopra um ar quente sobre meu corpo de poros gotejantes Aqui o cu do mundo começa ou termina Aqui se vê tão pouco vê-se de tudo Um menino em seu cavalo-de-pau habla alguna cosa como: era uma vez um gato xadrez... Ah! viva o ócio dos poetas! Quer que eu te conte outra vez?

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Ainda lembro de quando naquelas tardes domingueiras avolumava-me em tuas m達os

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Solidão às portas as janelas cerradas do manicômio nas ranhuras das portas nas portas internas os rabiscos lucidez anseios dos dementes internos do hospício

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Casa → trabalho Trabalho → casa Casa → trabalho Trabalho → casa

És tão previsível que jamais serás abduzido

O que irão querer contigo?

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Vivo me preparando para os clicks e claps mas quando alguma coisa se quebra insisto em ficar sorumbรกtico

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Ainda lembro de quando criança que sobre o tapete verde da pampa erguia minha mão e tapava o sol... Hoje fecho os olhos e por mais que queira não consigo tapar o sol com a peneira Percebo então que a alegria que sinto agora não chega nem à beira da que senti outrora...

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Os poetas estรฃo nas fรกbricas trabalhando os poetas necessitam da seguranรงa que as fรกbricas oferecem.

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O milharal na beira do asfalto... Estamos chegando em casa Tua boca é uma teia onde minha língua se prende sem conseguir articular palavra alguma As andorinhas tagarelam segredos alheios roubados dos fios telefônicos – repouso da inquietude dos vôos – Teu feminino me espera sempre que furtamo-nos dos compromissos desvairados/diários Amanhã na volta do trabalho roubarei uma rosa para te dar...

92


Partiste. E agora sinto saudade de mim.

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DA CRIAÇÃO

E então o homem criou Deus para livrar-se das responsabilidades do mundo.

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GÊNESE DA ANGÚSTIA

Malditos humanos e suas vidinhas planejadas... Eu os vejo Estou nu Sentado Encolhido a um canto no banheiro Os azulejos encardidos Sinto enjôo Malditos humanos e suas vidinhas planejadas... Eu grito Não me ouvem Mas eu os vejo Através da porta cerrada

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ELEGIA DO TRISTE FIM

Há tanta gente conversando dentro de mim Diálogos

Virgínias Cacildas

de e Há também dentro de mim uma tapera

ratos baratas

com

e um

triste fim

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Sテグ PAULO

Tu nテ」o adivinharias o que penso agora te observando tu com teus olhos acesos me vendo eu te observando e tu nテ」o me entendendo

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Fumo (muito) Bebo (um pouco) Andamos todos demasiadamente rápido nesta cidade Os insanos andarilhos Os enforcados Os corpos caídos jogados não chocam: Não temos tempo de temer a morte Come-se qualquer coisa por aí encostado em algum balcão

E a vida continua entre uma mordida e outra em um pão com manteiga...

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HADES

O céu hoje está completamente claro Céu de domingo Descanso do Homo Faber As nuvens em formas Renascentistas perfeitas Será que vamos para o céu quando morremos? Tenho vontade de morrer só para saber É tão bonito o páramo Existência terrena: Sapiência e humildade é o que busco buscas buscamos

A vida é um sopro

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Miséria. Miserável. Misericórdia. Perdão. Piedade. Concórdia. Misantropia. Claustrofobia. Clemência. Demissão. Remissão. Permissão. Deterioração.

F r a g i l i d a d e. Excelência & demência. Amor & ódio. Bem & mal. Sim & não. Limiar & ocaso.

Vida & MORTE.

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DO PAI E DO FILHO

Fui meu próprio progenitor Neto de minha mãe Amei a Deus e a quem mais me ensinaram a amar E a quem mais? Hoje sou sozinho mais do que imaginam sou um exército inteiro de medos, dúvidas, neuroses, rancores... Sou pálido, esquálido Sou pai, sou filho (de quem?) e Espírito Santo também Sendo assim sou o que não sei Eis quem sou...

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DA DOR E DO SOFRIMENTO

A dor é sentida na carne – e na alma – A dor circula na mente e vaza pelos olhares cansados em forma de sofrimento

Oh Me! Morir Mi Sento

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MAR E MONTANHA Para Jorge Salomão

Entre mar e montanha a vida passeia turística/nativa O joelho machucado da menina que anda pelas ruas de Copacabana como se fosse um anjo de cabelos cacheados Os sonhos marginais acalentados levados ↔ trazidos do morro A mistura O corpo suado O Dedo de Deus em riste – na cidade de Teresa – aponta o caminho aos perdidos (e estamos todos perdidos) O encontro (no elevador) com Jorge Salomão que elétrico me diz: (e elétricos estamos todos sob o sol de fevereiro) “Viva a poesia!” Entre mar e montanha a vida passeia Os versos que penso se espalham no asfalto – e não há mais jeito – Só resta esperar o quebrar das ondas do mar no Rio de Janeiro. 103


ONÍRICO

Um menino mijando com as calças abaixadas aos joelhos apagava um incêndio à beira da estrada Tinha os olhinhos brilhantes e o sorriso maroto de quem acabara de descobrir a grande utilidade da pequena mangueira que empunhava

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PAI: Não tive o prazer MÃE: Dela trago os olhos negros cravados no horizonte à espera de notícias

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Só uma coisa me anima na escuridão fria destas veredas urbanas: O teu olhar calmo qual luz no fim de um túnel qual remanso de cacimba

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GENUFLEXÓRIO

Generais em semicúpio GENUFLEXÃO A plebe erguendo-se do genuflexório: REVOLUÇÃO Reformatório Cuidemos da terra irmãos pois o porvir é o chão é o chão É o sagrado PÚTRIDO mal-amado chão.

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Outra crianรงa nasceu coitada

Comeรงou a morrer...

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ESTRELAS SUICIDAS

As estrelas cadentes s達o estrelas suicidas: Elas n達o ag端entam a lua que 辿

C H E I A

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Fecho os olhos para ter as imagens concretas dos poemas que traço às vezes abstratos e tenho dos cegos a visão onírica do mundo real

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LEGADO

Deixaste uma última fotografia que tiramos juntos família reunida Deixaste o legado do vinho no almoço E a promessa de passar uma semana em nossa casa...

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Esperava que chegasses mas n達o imaginava que viesses vestida de

flor...

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VERSOS DE FIM DE JUNHO

A aragem do fim de junho traz a noite mais cedo pra rodear o pago E a solid達o de carancho no meu rancho faz paragem O pito o mate o trago sou eu solito com o passado e a melancolia deste peito vago Quisera que o Patr達o-Velho nunca mais mandasse o inverno e que eu n達o mais sentisse o frio da aus棚ncia tua...

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Tudo o que se quer da vida ĂŠ dignidade na morte...

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A FLOR DA MELANCOLIA

Comprei uma flor de beleza sombria — Seu nome é melancolia disse-me o florista plantei-a no canteiro com as violetas os amores-perfeitos as onze-horas e todas murcharam Então a joguei fora tentando salvar as outras mas não adiantou...

TARDE SE FAZIA...

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Mormaรงo A terra bebe as poรงas em pequenos sorvos como quem chimarreia despacito

A VIDA CONTINUA...

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O VINHO O LINHO O VIDRO E A VIDA

A taça de vinho tinto de sangue vira tingindo a brancura da toalha de linho As mãos apoiadas sobre a mesa de vidro gravam em “M” (de mãe) as linhas – as que se traz nas palmas – A maior (?) de todas é a da

VIDA

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Quando a vida não nos dá ela não nos nega nos oportuniza

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GRAN FINALE

SOU um ator buf達o que na vida real ensaia a morte toda noite ao dormir SEI que um dia serei chamado para VIVER o papel principal: o de MORRER em grande estilo no gran finale

E QUERO ESTAR PRONTO!

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POEMA DE CORPO MORENO

Toco-me cerro os olhos excito o falo burilando a fala casa da palavra Deslizo sequioso com mãos ávidas por lábios seios coxas pernas

outros lábios... Vislumbro formas todas de um corpo que é meu e moreno O gozo em línguas de fogo sobe lambendo-me por entre as pernas jorra quente e calmo no poema que ora acabo e que tem

orgasmo o nome teu... 120


Numa feira de robótica tentavam apresentar um protótipo com características as mais próximas possíveis das humanas: O PRIMEIRO SORRIA Mas segundo o júri nem todos os homens sorriem O SEGUNDO CHORAVA Mas nem todos os homens choram O TERCEIRO – o vencedor –

SONHAVA

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A e s c u r i d ã o do quarto o p r i m e meu corpo que jaz sobre o leito

LEVANTA-TE Ó INFELIZ CASCA

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A poltrona vazia onde assistias televisão: a certeza de que meu filho não conhecerá o avô...

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Peço-te desculpa se meu sexo te fere Às vezes fere a mim mesmo – este sexo –

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ELEGIA DO COVARDE

NÃO ESTOU SUPORTANDO MAIS TENHO PENSADO EM SUICÍDIO MAS COMO SE TENHO MEDO DA MORTE SOU UM COVARDE ESTOU PRESO À VIDA

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NÃO AGÜENTO MAIS cortar minhas asas Quero arremessar-me para além de mim Se não era para voar ENTÃO

POR QUE ME DESTE IMAGINAÇÃO?

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Nasceste pequena como nasces no coração dos homens E porque nasceste do ventre de minha amada és minha filha ESPERANÇA

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...

É preciso, além dos punhos, cerrar o coração...

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HOJE EM DIA

Nรฃo se tem tempo nem pra dois dedos de prosa que dirรก pra poesia...

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POEMA TEMPORAL

Ah! Esta ânSia de ponteiros em círculo dando pulinhos miúdos como crianças numa ciranda silenciosa...

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POEMA TEMPORAL 2

Vida ĂŠ essa senhora que com a agulha do tempo nos borda linhas no rosto...

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SĂŠMEN

A semente se planta na estrada torta (sementeira) A semente mente finge-se de pedra medra O que quer ĂŠ ser sombra frondosa dar flor fruto folha...

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E

... o vendaval insiste em transformar nossa paisagem...

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Este livro foi escrito de novembro de 1994 a dezembro de 1998, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul.

Dedicado Ă  CĂ­nthia.

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Cláudio B. Carlos (CC) é poeta e prosador, nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS.

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Sentimento hiato