Page 1

Cláudio B. Carlos (CC)

O Espelho de Narciso poesias

edição invendável 1


© 2009 by (CC) Carlos, Cláudio B.

Dados para Catalogação: (CC) Carlos, Cláudio B. O Espelho de Narciso. 2ª ed. Santa Cruz do Sul, RS. feito em casa, 2009. 20p. Literatura brasileira – Poesias. Edição do autor

Os direitos autorais da presente obra estão liberados para sua difusão, desde que sem fins comerciais e se citada a fonte.

2


a tal da mosca azul que pica os polĂ­ticos ĂŠ a mesma varejeira que deposita ovos no meu pouco espesso e raro bife

3


esmagar-te-ia como quem pisa em uma lesma se fosses reles e despicienda pegajosa és tal e qual um molusco que não me larga insistente que se agranda em minha morada e em meus parcos teres como posso desprezar-te se com teu convívio já estou quase acostumado como posso querer eu criatura franzina viver entre os bons o que me dói não é a falta de são teus próprios afagos tens mãos ásperas que me machucam as faces amiga posso chamar-te assim de amiga não posso? conhecemo-nos bem 4


acho que sou pra ti assim como uma espécie de razão de existir e tu amiga MISÉRIA já és quase minha vida esmagar-te-ia como quem pisa em uma lesma se pudesse agora já não posso tenho pernas cambaleantes e mesmo que fossem rijas com nojo não te pisotearia pois as solas dos meus sapatos bem sabes têm furos grandes como patacas quisera ter sido rápido o suficiente para não me dar a conhecer por ti...

e agora essa... por que diabos afeiçoa-te a mim?

5


CATARRO

TENHO PÉS SUJOS PRA TUA IMACULADA MORADA PALAVRÕES PRA TUA ILIBADA REPUTAÇÃO CATARRO PRA TUA SALIVA PROS TEUS AMORES-IMPERFEITOS

MINHAS SEMPRE-VIVAS

6


Elogios demais me incomodam tenho a estranha sensação de que estou sendo preparado

para uma espĂŠcie de foie gras

7


JUS ESPERNEANDIS

VIVER é jogar um jogo inventado por um demente a quem ninguém conhece e a quem todos chamam Deus O PIOR é que Ele manipula as peças vicia os dados e marca as cartas NINGUÉM o vence nunca e todos somos obrigados a jogar é como se estar no corredor da morte pouco importa o mover-se ou o ficar parado VIVER é um eterno jus esperneandis 8


O ESPELHO DE NARCISO

Espelho espelho meu como ousas apontar as marcas em meu rosto como me dizes velho e feio se sem mim – teu amo supremo – não terias utilidade alguma se sem minha imagem tua existência não faria sentido como criatura infernal ousas mostrar-me as rugas que trago se sem meu rosto refletido em ti serias nada serias vazio como moldura sem tela

Lajeado, RS.

9


SUI GENERIS

VENTO verdugo dos pinheirais QUE ENVERGAM BRAÇOS que balançam doidas forcas DOÍDAS QUIMERAS contornando compridas estradas RABISCANDO A TERRA mero esboço DE UM PEQUENO MUNDO PERFEITO sonhado por demiurgo cansado ARTISTA DESISTENTE de nós SUICIDAS sui generis que assistimos com olhar ultrapassado A TUDO O QUE PODERIA TER SIDO

10


BOSTA

AS PALAVRAS SE CONTRAPÕEM SOBRE A MESA o diálogo corre solto ALGUÉM AOS PRANTOS corre pro quarto TILINTAR DE ADJETIVOS NO PRATO DE SOPA prato cheio PRA QUEM GOSTA PENA QUE NÃO FOTOGRAFAMOS a bosta do almoço em família

11


MERDA 9/ 9/ 1999 Santa Cruz do Sul, RS.

HÁ QUE SE PÔR UM POUCO DE SAL G R O S S O PRECISAMOS IR AO FUNDO PRA SAIRMOS DO POÇO SOMOS TÃO INSIGNIFICANTES DIANTE DE TUA PORTA SOMOS TÃO NADA DIANTE DA VIDA DA MORTE HÁ QUE SE PÔR NA BOCA UMA PITADA DE UM SABOR QUALQUER UM SORRISO AINDA QUE MORNO NOS LÁBIOS CRISPADOS CANSADOS AH! COMO ESTOU CANSADO QUE QUEIMEM AS VELAS QUE SE ACENDAM OS INCENSOS QUALQUER COISA QUE ME TIRE ESTE PESO 12


QUE TRAGO QUE LEVO QUE HERDO (QUE MERDA!) QUE CARREGO SEI LÁ QUALQUER COISA QUE ME TIRE ESTE PESO

13


Onde à noite ratos refestelam-se guinchando é nosso descanso em espreguiçadeiras no mormaço da tarde o podre e o são eis a vida arame retesado sob o céu: Tem o pouso do bom tem o esfregar do nojento

14


Vida é cigana que lê o destino das gentes nas contas de um rosário só que as contas são todas a pagar e quase sempre já vencidas

15


PICHORRA

Para que servem teus ombros homem Sen達o para suportar o andor do deus que criaste para teu Senhor e para teu cristo pichorra para teus fracassos...

14/ 06/ 2002.

16


a gente passa a vida juntando coisas uma montoeira de cacarecos: um arame um fio desencapado jornais amarelos e empoeirados que ficaram pra depois e que nunca lemos parafusos porcas arruelas pregos enferrujados uma lata vazia um pedaço de cano um folheto antigo com as promoções da Benoit – que nunca compramos – a finada mãe dizia: “quem guarda o que não presta tem o que precisa” imperceptivelmente guardando coisas só nos damos conta do volume das quinquilharias acumuladas na hora da mudança já não cabem no caminhãozinho do Godofredo

17


quando quero sou deus e quando o sou sou mau uma seca aqui uma enchente acolĂĄ como num tabuleiro brinco que se danem os que nĂŁo sabem morrer...

18


Cláudio B. Carlos (CC) é poeta e prosador, nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS.

www.balaiodeletras.blogspot.com

19


feito em casa by CC

20

O ESPELHO DE NARCISO  

Cláudio B. Carlos (CC) - edição invendável.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you