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o homem do terno de vidro trĂŞs quase-novelas ou um quase-romance

um rimance de ClĂĄudio B. Carlos (CC)

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o homem do terno de vidro Cláudio B. Carlos (CC)

1ª edição Ano da des /////graça de 2013 [e-book]

A versão impressa está disponível no Clube de Autores:

http://www.clubedeautores.com.br/books/search?utf8=%E2%9C %93&what=cl%C3%A1udio+b.+carlos&sort=&commit=BUSCA

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Copyright © 2013 by (CC) Carlos, Cláudio B.

Capa: Cínthia Casagrande Projeto gráfico: PALAVRADURA Ilustração da capa: Ubiratan Carlos Gomes, Miséria I Dados para Catalogação: (CC) Carlos, Cláudio B. O homem do terno de vidro. Belo Horizonte, MG. PALAVRADURA, 2013. 114p. Literatura brasileira – Rimance. ® direitos reservados

Obra em conformidade com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

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o homem do terno de vidro

rimance

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E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca,

sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência,

seu ódio – e agora? Carlos Drummond de Andrade

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Este é um livro sobre a desilusão (ou sobre o que você quiser).

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Esta é uma obra de ficção.

Qualquer semelhança com a realidade deverá ser atribuída ao Mundo Cão.

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Este nĂŁo ĂŠ o livro de sua vida (por mais que possa parecer).

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livro um

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a cobardia trilha sonora recomendada:

My Friend Metatron – The Bad Plus

para Adair Zinn

»»» tenho pensado em me matar. mas não o farei. os que morrem assim, os que se matam, os que se morrem, não vão para o céu. tenho penado em viver. ¿o senhor acha que é fácil transformar tempestade em copo d’água?, pergunto. minha cobardia, muito mais que minha teimosia, é o que tem me mantido vivo. me mantido vivo é puro exagero. a vida pesa, eu

sei. mas precisamos dar valor aos sinais. se assim é, melhor mesmo que assim seja, me diria a senhora que viaja a meu lado 18


no omnibus de juiz de fora a belo horizonte. estamos indo para

belo horizonte, mas belo horizonte não é o que me espera (deveria ter um ponto final aqui, eu sei, mas deixo em aberto por medo de professar a falta de horizonte)

a ignorantia é um excelente remédio contra a dolore.

a solução para todos os problemas está no bilhete premiado. e tenho dito. tenho sido vela teimosamente acesa num corredor de janelas abertas. hoje fotografei um verso quase-perfeito. tenho ficado demais no fundo do poço: preciso ver a luz. minha existência é um rosário de vexames. ¡ah, se eu fosse desfiar o rosário! ¿você teria uma semana para me ouvir?, pergunto, enquanto a paisagem das minas geraes passa como num filme pela janela do omnibus.

¿o que terá dentro da palavra “coração”?

as vítimas do gládio são mais felizes do que as da fome...

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tenho puxado peso demais. ¿o senhor está vendo aquela cruz? é minha. é pesada, sim. da ninhada fui o indez. preciso pôr um sol no céu da minha boca, ¿o senhor não acha que seria bonito? ¿dentro da palavra “vida”, o que terá? tenho pensado em apertar o nó. tenho andado em círculos. moço, é muito caro, moço. para se fazer um estrago: pegue-se um néscio (comprovadamente néscio) e lhe dê um microfone, ou uma caneta. ou melhor (¿melhor?): um microfone & uma caneta. pronto. feito. ¡o

estrago! ¿perfeito, não? tenho pensado em puxar o gatilho. eu deveria ter sido pianista. eu não sei viver. para falquejar palavras pontudas: paciência. ¿haverá dor semelhante à minha

dor?

entre o nascer e o morrer: intervallu.

às vezes é como se eu vivesse preso dentro de um quadro. um quadro docemente melancólico...

primeira parada: santos dumont.

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não acredito em felicidade, mas desconfio que ela exista. ¿não é felicidade aquilo que aparece na propaganda do banco? o pirilampo é um ser iluminado. uma palavra que me dê sentido: “bússola”. parece que existiu um homem feliz. tenho vivido dias de escuridão. preciso soltar minhas palavras-borboletas. já me começam a voejar por dentro. eu deveria ter sido guitarrista. já domei palavras arredias. menina apanhou punhado de chão e jogou pra cima. chãozinho ao ar. mãozinha suja de terra no vestido, e no pirulito tantas e tantas vezes lambido. a coragem de um homem é do tamanho de sua conta bancária. repito: sou cobarde. não me dê importância: eu sou um bonifrate. minha cabeça dói, estou tonto. sinto gana de vomitar. o motorista se faz de leitão para mamar deitado. perguntaria-lhe se o

omnibus para em carandaí. talvez eu fique por lá. mas ele (o

motorista) não responderia. não acredito em felicidade, mas desconfio que ela exista. ¿não é felicidade aquilo que aparece na propaganda da margarina? vivo indo embora. não fosse o

praticamente e minha vida teria sido maravilhosa.

a vida é ávida. 21


falta-me animu. eu deveria ter sido quiropraxista. com dinheiro no bolso é muito fácil ser forte.

só não me mato porque não tenho coragem. a vida inteira tentando fincar raiz: sou tronco seco. a vida de quem espera é longa. não fosse a angústia a vida seria mais ou menos. queria tanto acabar com ela (a angústia). queria tanto acabar com a espera, com a dor, com o sofrimento, com a agonia, com a solidão, mas tenho medo. a solidão brota do convívio. tenho vivido dias nulos. moço, é muito caro, moço. eu coleciono adeuses e partidas (tenho de todos os tipos).

uma nuvem docinha está pronta para chover sobre sua plantação de sonhos. ¿para saber se a nuvem está docinha? só provando. tem outro jeito não. quero encontrar alguém. quero que alguém me encontre. cansei de ser peixe-fora-d'água: vou mergulhar. ¿o senhor está entendendo? carrego um peso tão grande em mim. desistir requer muita coragem. ¿qual o sentido da vida? meu corpo é casa cheia de fantasmas. tenho andado por caminhos pedregosos e cheios de abrolhos, ¿o Senhor não vê? … ¿e onde estás Senhor das terras e dos mares que 22


não me dá de agarrar a tua mão e por que plantaste em mim tal semente que não se cala?

em uma bodega à beira da estrada vejo um homem e seu cão

(¿ou seria um cão e seu homem?). o homem, em pé, escorado à

porta do pequeno comércio; o cão, sentado, levemente pendido, como a se escorar nas pernas do homem. o pequeno recorte, qual fotografia, passa num vu pela janela do omnibus - já foi. ¿o cão seria uma espécie de cérbero de uma só cabeça a

guardar tártaro? ¿receberia com abanos de rabo os pobres-diabos-bebedores-de-pinga, e depois os impediria de sair, condenando-os à bebedeira eterna?

vivo num infinito acarretar pedras. meu crime: pensar. meu castigo: vida longa. tenho feito o que melhor sei fazer: tenho titubeado. na vida, se dá bem aquele que sabe sofrer, como sugere a canção. mas eu acho que o bom mesmo (na vida) é saber

morrer. em meu corpo dores se acumulam sobre dores que se acumulam sobre dores que se acumulam...

olhai, Senhor, para a minha miséria... 23


às vezes eu sonho com janelas que permitem sol e vento... segunda parada: barbacena. o menino que passa vendendo sanduíches me olha bem nos olhos... digo-lhe sem falar que não tenho dinheiro. que quem tem pouco e não sabe quando terá mais aprende a enganar a

fome. dormir é um santo remédio. e pular algumas refeições faz o dinheiro se espichar. explico-lhe, em silêncio, a origem da

palavra “sanduíche”: digo-lhe que vem do inglês: sandwich, e

que teve origem em 1762, com john montagu, um aristocrata

inglês, que era conde de sandwich, e que tinha por hábito comer pedaços de carne entre duas fatias de pão durante suas

partidas de whist. digo também que quando james cook descobriu, em 1778, ilhas do oceano pacífico, deu a elas o nome de

sandwich, e que as ilhas, hoje, são chamadas de havaí. digo-lhe

ainda que no oceano atlântico, a sudeste da américa do sul, existem as ilhas sanduíches do sul. o menino me perguntaria o

que é whist. eu responderia, já com enfado, quase que arrepen-

dido de ter começado a falar sobre sanduíches, que whist é um jogo de cartas. ponto. o omnibus parte (mais uma vez) e o menino fica com sua cesta cheia. dou uma espiada pela janela e o

vejo: a cesta do menino pesa. ao lado dele eu vejo uma cruz. 24


sim, ele também carrega uma cruz. e é pesada a cruz do menino. ele ainda a carregará por muito tempo, quem sabe pela vida toda. agora penso que poderia ter-lhe falado sobre a origem da palavra “cesta”. mas não atinei sobre, agora já foi...

preciso amadrinhar antônimos. pouco se me dá que coxeie o cláudio.

vida é cafarnaum. adormeço, nauseado pelo vazio do estômago e tomado pelo cansaço. e adormecendo sonho com peixinhos coloridos (dois) nadando dentro de um liquidificador. a dança (dos peixinhos), entre elétrica e sensual, meio que me entorpece. quando eu me preparo para apertar o pulsar, desperto.

pouco se me dá que claudique o coxu.

eu tenho sido o de menos, ¿o senhor compreende? estou perdendo a viveza das carnes. sou o que sempre espera. minha pu25


silanimidade é o que tem me mantido vivo. entre o nascer e o morrer: duru intervallu.

preciso definir artigos.

é preciso manter esticada a linha do pensamento _________ __________________.

quem não tem serventia nenhuma no mundo poderá muito bem ser poeta, penso em dizer, e calo.

uma senhora de cabelo lilás teve a visão obnubilada assim que me viu. ela tentou paliar, mas eu notei.

ó, ali ó, o cordeiro de deus, aquele que tira os pecados do mundo. vê como ele trabalha pesado, sem domingo e sem feriado.

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sinto vontade de gritar, mas minha necessidade de calar é maior. ¿de que adiantaria meu grito? ¿qual seria o préstimo de

minhas palavras? o timbre da minha voz..., ¿para quê? nada mudaria, e nada mudará o curso do rio que escorre lodoso. eu sou um engolidor de gritos.

é preciso saber interpretar as linhas. deixe-me ver sua mão.

vinheta incidental nº 69 ♪ ai ai ai ai

que se sente

uma sofreguidão

ver a linha do horizonte

sumir da palma da mão... ♫

(bebeto alves - “milonga de paus”)

no início existia certo desconforto, um melindre, mas hoje em dia eu aceito com muita naturalidade as poucas esmolas que me dão, me confessaria o mendigo sentado na guia da calçada. 27


depois, grave, me perguntaria se isso é normal, ou se beira o

preocupante. eu daria de ombros.

¿o moço já viu um taquaral em chamas?

a justiça é cega, e deus é surdo. ¿não é perfeito? alguns homens acreditam piamente que devem a vida e tudo o

mais a iesus.

¡vede, Senhor, a minha angústia!

é preciso manter o equilíbrio. armei uma arapuca para pegar palavras raras, do tipo “amizade”, “amor” & “compaixão”. preparei tudo com carinho. “carinho” também é palavra rara. usei um dedal de prata, como se pequeno copo fosse, e nele depositei sete lágrimas (choradas por recém-viúva) misturadas a sete gotas de orvalho de uma madrugada de lua cheia. às lágrimas e às gotas de orvalho adi28


cionei um fiozinho fino de mel de abelha. ¿o moço sabia que a abelha vem a ser um parente das vespas e das formigas? ¿o moço sabia que uma abelha visita dez flores por minuto em

busca de pólen e néctar? ¿e que as abelhas fazem mais ou menos quarenta voos por dia? ¿que a língua (ou lígula) da abelha se move num canal formado pelas maxilas e os palpos labiais, e termina num tufo de pelos que, à maneira de esponja, absorve o néctar da flor? ¿que a abelha tem cinco olhos?: são três pequenos no topo da cabeça e dois maiores, na frente. ¿o moço sabia que uma colmeia pode abrigar até oitenta mil abelhas? ¿e que na colmeia existe uma rainha, uns quatrocentos zangões, e milhares de operárias? ¿que a rainha pode viver cinco anos, e que as operárias vivem, no máximo, quarenta e oito dias? ¿que só as fêmeas trabalham? ¿e que os machos podem entrar em qualquer colmeia, ao contrário das fêmeas? ao macho cabe unicamente a tarefa de fecundar a rainha... é assim: a rainha voa, voa, voa, e no voo nupcial é fecundada pelo macho que conseguir alcançá-la. quando o macho fecunda a fêmea ele é expulso da colmeia. digo mais: a abelha, como qualquer inseto, tem três pares de patas: o primeiro serve para limpar as antenas, o segundo serve de apoio para o seu corpo, e o terceiro, chamado de patas coletoras, serve para mover pólen.

ora, xô-égua, ¿mas de onde me veio tal jorro sobre abelhas? arrimei o dedal à entrada da armadilha, e esperei. se deu certo 29


não sei. toscanejei, não vi. “amizade”, “amor” & “compaixão” a gente não dá conta de ver, não. são palavras de sentir. por isso re-afirmo que não sei. está no Al-Qur’án, ¿o moço sabia?: “e teu Senhor inspirou as abelhas: construí vossas colmeias nas montanhas, nas árvores e nas habitações dos homens...” em busca da mediocritate. às vezes sinto como se eu estivesse dentro de um filme. e tudo fosse cenário & ator & atriz. para manter viva uma rosa azul é encostar suas pétalas nos olhos umedecidos de saudade. saudade não de gente. tem mais valimento saudade de lugar, ou de bicho. permita-me que me apresente: eu sou o homem que conheceu

a dor... ♪

vinheta incidental nº 7

muito prazer, meu nome é otário

vindo de outros tempos mas sempre no horário peixe fora d'água, borboletas no aquário...

(humberto gessinger - “dom quixote”) 30


uma vaca bosteia em erebango, e sabe-se lá o que isso poderá

ocasionar em nuuk. ¿o amigo já ouviu falar na teoria do kháos? então...

vivo me retirando.

o balangar do omnibus, o matracar das gentes: dor de cabeça.

¡xô, uruuú!

às vezes sinto como se eu estivesse dentro de um poço, bem lá no fundo, com sua secura, sua escuridão, e com suas criaturas rastejantes. também eu rastejo quando no fundo do poço, e sedento me ponho a lamber suas paredes limosas, na esperança de qualquer arremedo de água.

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vinheta incidental nº 5555 ♪… ai, ai, ai, ai de mim, corpo de moço,

jeito de rio

ai, ai, ai, ai de mim, alma de poço, peito vazio... ♫

(tambo do bando - “alma de poço”)

sou o que espera sempre.

vida é turumbamba de adaga.

são todos iguais os dias de quem tem fome. eu sempre tive muita fome. não me dê importância: eu sou um boneco de engonço.

foi como se eu tivesse querido conhecer a dor, ¿o moço entende?

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quando, no granu do olho, criança sente o germinar de uma semente é sinal que chegou a hora. menino que não nota o abrolhar a embotar-lhe a visão não sabe do que estou falando. guri com vitiu de grelo no olhar voa. ¡ah, se voa!

a ignorantia é um bálsamon.

se o boi soubesse a força que tem não puxava o arado. e tenho dito.

sou ¿vivente? de lugar-nenhum. ¡oh, omnipotente das alturas!, ¡vê, aqui, minha mão erguida! ¡puxa! ¡pópuxar!, estou pronto para ir Contigo.

eu sou o que não entende a piada, e nem vê motivo nela. ¿o senhor compreende?

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a foedalitate serve para a arte.

o miserandu tem grande poder de invisibilidade.

onde há o pensar não pode haver felicidade. quem diz o

contrário, ou não pensa ou não é feliz.

¡alô, @omnipotente! milagre-me, please.

conheci um gnómon que vivia numa floresta de

couves-flores, em uma cidade chamada arvorezinha. dizem que os poETas vivem no limite. eu vivo no limite. ¿eu sou poETa? ¿se eu acredito no altissimu? eu acho que nem tudo o que Ele

twitta é verdade.

o silêncio que precedeu o verbo era aterrorizador. 34


dábliudábliudábliupontoqualosentidodavidapontocom

¿qual a direção do vento? preciso colocar minha malaiala

changâdam na água (ela é de pedra).

¡sai pra lá, vulture! eu ainda não morri, pô.

eu estou de mãos atadas.

¡vida jaguara!

eu deveria ter sido violinista.

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sonhei com um menino louro, que no meu sonho sonhava que matava seu próprio genitore. ¿o que será que isso significa?

nem forte nem fraco: eu sou o do meio.

só não me mato porque não tenho coragem.

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livro dois

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a teimosia trilha sonora recomendada:

Snowball – The Bad Plus

para Ádlei Duarte de Carvalho

»»» tenho pensado em puxar o gatilho. ¿e se após a curva um Belo Horizonte? o “bom” da vida talvez seja mesmo a gente não saber o que vem depois da curva, diria a senhora que fala sobre deus e seus sinais. poltrona nº 5, perto da janela. meu lugar.

omnibus. sempre em movimento (aqui também teria um ponto final, mas deixo assim, por medo de adivinhar o resto da vida)

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a solução para todos os problemas está na novela da televisão. e tenho dito. tenho nadado contra a maré. ¿morrer é ficar livre? com a boca no trombone sou só. com dinheiro no bolso tenho muitos amigos. uma boa vida após a morte: talvez seja o

prêmio, ¿o senhor entende? tenho sido ninguém. desde sempre. e acho que tenho desempenhado bem meu papel, ¿o senhor não acha? repare direitinho: veja como eu titubeio bem, até com certa elegância, ¿o senhor percebe?

eu sou um bonifrate.

minha vida tem sido chimarrão de erva-caúna. um mundinho perfeito que coubesse num copo acho que seria bom, ¿o senhor não concorda?

eu: habitante do não-lugar.

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¡vá!, ¡navegue!, deve ter me dito o deus. e aqui estou: à deriva. sublimar: sublimei. sublimei demais. parece que as moscas são outras, mas a merda é a mesma de sempre, ¿dá para entender? tem chovido demais, ¿o senhor não acha? em mim tem. tem chovido demais em mim. já fui invisível: por quatro anos e meio. ¿a madama não acredita?

¿é por tanto querer raiz que não me fixo? ¿será? carrego a casa nas costas, feito caracol. mas caracol é bicho feliz, penso eu. minha casa, que carrego nas costas, pesa muito. são muitos baús com suas/minhas palavras. e as palavras (as minhas) são esquisitas: andam sempre em bandos, em tomos. ¡e tome palavra! a maioria delas (das palavras) eu calo. penso muito muito muito muito, e pouco falo, o moço já reparou, ¿não já? tenho pensado em me matar. a ignorantia é um excelente remédio contra o sofrimento.

para se azeitar a palavra “engrenagem” basta re-citar um poema ininteligível. três vezes. para se obter melhor resultado é

bom que tal magia simpática seja feita antes do primeiro clarinar do galo, ou após o último corujar da coruja. 42


para melhor matutar:

ilex paraguariensis.

tenho pensado em apertar o nó. sou grilo que dói no silêncio da noite. sou grilo na cuca, ¿mora? eu deveria ter sido violonista. eu não sei viver. para engolir palavras do tipo “sapo”: saco.

entre o nascer e o morrer: crônico intervallu.

tenho vivido abichornado.

tudo é muito complicado para mim, ¿o senhor está me entendendo? sou uma espécie de machina de rube goldberg. não é que eu queira enlear as coisas, não. não é por gosto, não. mas é assim que sucede comigo, ¿o senhor está me entendendo?

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terceira parada: carandaí. tenho vivido meses de escuridão. você, indivíduo da espécie hu-

mana, vale nada. o dinheiro é o deus. pela janela do omnibus eu vejo a vida disfarçada de bonita. usa um de seus disfarces de maior poder de sedução: o de famiglia.

só não me mato porque não tenho coragem. meu cavalo coitado: pangaré. montaria maneada. masca o freio e coleia as moscas. cavalo coitado, de lombo ferido. vivo em trânsito. não fosse

o se e minha vida teria sido maravilhosa. os olhinhos azuis do menino que passa são duas bolitas tristes. eu deveria ter sido

flautista. minha solidão é tão grande que dói. um homem sem dinheiro não tem força para nada. ser humano dói. o ser humano me dói. a solidão vem logo após o nascimento. só não me

mato porque não tenho coragem. minha senhora, deus está do lado do vencedor. explico: se o archeiro xis pede proteção divina antes de enfrentar o archeiro hy psilón, e se o archeiro hy psilón pede proteção divina antes de enfrentar o archeiro xis, sabendo-se que somente um deles sairá vivo da contenda, então deus está do lado do vencedor, ¿certo?

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passei a vida (¿vida?) inteira tentando conquistar minha musa de duas cabeças, e nada. não acredito em felicidade, mas desconfio que ela exista. ¿não é felicidade aquilo que aparece na propaganda da pasta de dente? a existência de quem precisa é longa.

só não me mato porque não tenho coragem.

¿por que tudo tem que ser tão dolorido?

vida é boco de bêbedo.

a insatisfação brota do pensar. tenho vivido meses nulos. deixei de existir no momento em que nasci. tenho vivido em completa

escuridão: tenebras. tenho lidado com palavras duras, do tipo

“preconceito”, “judiaria” e “fome”. a palavra “fome” dói. ¿o senhor está vendo aquela cruz? é minha. uma palavra de conforto: “casa”. uma nuvem amarga é nuvem que pouco chove. ideal para sua plantação de lágrimas-de-nossa-senhora. tenho feito 45


de tudo para não desistir. quero encontrar alguém. quero que alguém me encontre.

não fosse a espera a vida seria mais ou menos.

cansei de ser peixe-fora-d'água: vou mergulhar. ¿o senhor está entendendo? pra quem não tem raiz é tão difícil decidir onde tentar se plantar... serei seu cicerone quando Ele voltar , dizia o

homem. não percebo as segundas intenções, prosseguia. blablablá... palavras em meio a buzinas, sirenes, britadeiras... só quem carrega o corte sabe o tamanho da dor, ¿né não? que

apresentação mais capenga, a minha vida. ¿alguém paga pra ver? é tudo tão pesado. tenho vivido dias longuíssimos, anos intermináveis, ciclos sucessivos da mais profunda escuridão. o Amargo dos amargos, o meu viver. dulcia non meruit, qui non

gustavit amara. ¿qual o sentido da vida? meu corpo é casa em ruínas. nesta vida errante ninguém para me consolar. nestes

dias de males e vida errante...

quarta parada: conselheiro lafaiete.

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minha pusilanimidade é o que tem me mantido vivo.

com um suave meneio de cabeça cumprimento o homem que passa montado em um burrico. o burro é um ser abençoado, penso eu. ¿o burro não carregou a “sagrada família” no lombo? ¿não está lá no Livro? então... ¿iesus não entrou em jerusalém montado num burro? ¿não está lá no Livro? então... tenho andado por caminhos pedregosos e cheios de abrolhos, ¿o Senhor não vê? eu tenho medo de me acostumar com os vexames, e de me “animalizar”. e tenho medo que me “animalizando” eu comece a me sentar nos calcanhares, a me deitar nas calçadas, a juntar migalhas e restos de comida, tenho medo de começar a revirar o lixo, que comece a defecar nos becos, ¿dá para entender? é uma linha muito fina que separa o “humanizado” do “animalizado”, ¿dá para entender?

o burrico é nosso irmão...

só não me mato porque não tenho coragem.

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do outro lado do corredor (na poltrona nº 8) um rapazote de cabeça rapada, brinco na orelha e pírcingue no nariz ouve alguma coisa no seu emepêquatro. alguma coisa boa, penso eu, que o faz balançar a cabeça enquanto masca chiclete. a seu lado uma freirinha lê um livro sobre a vida de giovanni di pietro di bernardone, a quem dante alighieri chamou de luz que brilhou

sobre o mundo. isso me faz lembrar do discurso da humildade,

e d'a verdadeira alegria. a freirinha, notando meu interesse pela publicação, me sorri docemente, o que, desenxabido, tento retribuir.

a vida (¿vida?) é uma grande sala de espera. espero o que não vem. espero o que não acontece. a vida é um grande desacontecer. desacontecer ad aeternum.

¿a razão de meu abatimento?, me perguntaria a mocinha que acaba de entrar no omnibus. a vida me abate, responderia.

o ciclo em breve se fechará: do álpha ao ômega, do pó ao kháos, da insignificância à miséria. apoliom me esperará às portas da

escuridão. demônios sairão do abismo, ¿o senhor não percebe? 48


o motorista está parando em tudo quanto é lugar para arrebanhar gente. tenho feito o que melhor sei fazer: tenho mancado.

uma velhusca gorda e suarenta embarca. puxa pela mão uma

menina de cabelo revolto e olhar de médousa. a menina-medusa passa por mim, me petrificando. ¿teria fugido da

terrível planície de cistene? ¿onde está perseu? olhando para a pequena górgona, meio que de esguelha, percebo que píndaro de cinoscefale tinha razão: a medusa tem belas bochechas.

em meu corpo dores se acumulam sobre dores que se acumulam sobre dores que se acumulam...

agora um homem alto e forte, com uma argola dourada em

cada orelha, embarca no omnibus. ele usa uma guia com as cores de xangô, o pai do fogo, dos raios e das tempestades.

quando passa por mim, em direção ao fundo do veículo, parece

que sente algo, e eu me arrepio. o homem carrega nas mãos uma espécie de gamela. ¿será que com amalá?

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o inimigo se ensoberbece. tenho sido vela teimosamente acesa num corredor de janelas abertas.

sinto imenso fastio pela vida. meu estômago dói pelo vazio de alimentos. tenho gana de vomitar. falta-me animu.

entre o nascer e o morrer: grave intervallu.

há em mim uma praga que me devora lentamente. dizem que eu falo cantado. se eu cantasse falado isso seria rép.

adormeço, nauseado pelo vazio do estômago e tomado pelo cansaço. e adormecendo sonho com bois dentro de uma grande mangueira que se afunila em um brete. os bois, um a um, entram no estreito corredor onde são mortos a golpe de marreta, na cabeça. um golpe apenas é suficiente para matar um boi. 50


golpe seco, certeiro. somos todos bois rumando ao matadoiro, penso eu. ¿e quem está com o malho na mão? as carneadeiras afiadas esperam ansiosas por nossas carnes... vinheta incidental nº 666

... o gado coitado nasceu foi marcado

aí vai condenado direito à charqueada

mas manda a poeira pro rumo de deus berrando pra Ele dizendo pra deus

deus, deus, deus, deus, deus, você fez... ♫

(grupo caverá - “os homens de preto”)

amigo, permita-me dizer, disse sem falar, o homem velho que

cheira a cigarros de palha: o mundo é uma imensa machina que mói carne e estraçalha sonhos. carnage...

preciso costurar sinônimos. pouco se me dá que coxeie o cláudio. eu tenho sido o de menos, ¿o senhor compreende? pouco se me dá que claudique o coxu. estou perdendo a viveza das

carnes. olho pela janela do omnibus e tenho a impressão de ver um cavalo alado, camaleônico, por entre as nuvens diáfanas. 51


¿será que mais alguém viu? ¿será que mais alguém vê? ¿será

pégaso? ¿e onde está o filho adotivo de meu filho? ¿onde está belerofonte? é assim: num espanto, num espasmo clônico,

num grito de dor, num ¡oh! de contentamento, num ¡ah! de alívio, ou até mesmo num bocejo. assim mesmo: escancaramos as

maxilas e alguma coisa nos escapa, nos foge boca afora. ¿o amigo já reparou? pois repare. bote tento.

sou o que sempre espera.

entre o nascer e o morrer: agônico intervallu.

a maior dor do ser humano não é a dor do parto, nem a dor de amor, nem mesmo a dor do nervo trigêmeo, como pregam alguns. a maior dor do ser humano é a dor de viver.

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tem uma mosca zoombeezando dentro da minha cabeça. ¿o senhor poderia matá-la?

… ¿o moço já teve uma casinha à beira de um taquaral?

alguns homens acreditam piamente que devem a vida e tudo o

mais ao pai do iesus.

… porque não cessam meus gemidos, e está doente meu coração.

estou em velocíssima queda. mayday, mayday, ¿alguém me ouve?

o cão só é o melhor amigo do homem porque não conhece la

plata. e tenho dito.

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uma fada me disse que eu serei é feliz. eu perguntei foi quando. ela desconversou. ¿você acreditaria nisso? eu não. não acredito

em fadas: elas mentem demais da conta, sô. eu nem garrei coragem de dizer pra coitada que eu não acredito em felicidade...

¡é iberê! ¡o artista é iberê camargo! é de iberê camargo o meu

quadro-cella. sou, no meu quadro-cella, um menino nu, suavemente azulado, deitado sobre terra seca enegrecida. um menino na mais profunda solidão. um menino nu, um grande menino nu. sou desproporcional. sou do tamanho exactu para comportar minha dor. faço parte do realismo grotesco de iberê. vivo (¿vivo?) preso “no vento e na terra”. sou um menino velho, que deixa de lado a bicicleta para ouvir os rumores de dentro (os seus, e os da terra). nem tudo é o que parece, ser.

a margarida sempre acaba no mal-me-quer. e tenho dito.

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sou sempre a última peça a cair, no chamado efeito dominó. ¿o senhor está compreendendo o que eu quero dizer? exactu: sobre mim recai todo o peso.

um chupa-flor rufla as asas em pintos negreiros, e sabe-se lá o

que isso poderá ocasionar em budapest. ¿o amigo já ouviu falar na teoria do kháos? então...

o rapaz fitou-me, ao tomar o omnibus, e eu senti que ele pensou em dizer alguma coisa sobre a escuridão que me acompanha. fiz que não entendi.

tenho sobrevivido ridiculamente.

se a vida é breve brevemente saberemos.

o balangar do omnibus, o matracar das gentes: dor de cabeça.

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não me pergunte como, mas o fato é que nas ocasiões de

profunditate, quando eu estou nos dentros do oco, eu posso ver o poço com sua negra bocarra. o vejo de cima, num imenso

campo, nos fundos de uma casa velha e tapera. vejo o poço perto de bergamoteiras e laranjeiras carregadas. vejo as frutas se desprendendo das árvores de galhos aduncos, aduncos pelo peso de sua madureza. madureza que guri nenhum provará. quando, nessas ocasiões de autoscopia, eu percebo o inútil do grito. ninguém para me tirar do poço...

uma puta velha e sebenta, com sinais de avançada decrepitude, se oferece à beira da estrada (¿ou seria à beira do abismo?). sua cruz é pesadíssima.

às vezes eu sonho com roupas bailando no varal. são roupas brancas, todas, e se ondulam às lambidas do vento morno do quintal de minha infância. e o cheiro da limpeza das roupas me dói saudade pelo nariz.

56


busco urgentemente a mediocritate.

tenho para mim que se eu tivesse mamado nas tetas de uma cadela seria sabedor desse amor que tanto falam por aí, ¿o senhor está me entendendo? amor de mãe, ¿não é?

… ¿porventura teme jó a deus debalde?

sou o que nunca alcança.

vida é turumbamba de foice.

são todos iguais os dias de quem tem fome. eu sempre tive muita fome. desde menino sou assim. já comi muita terra, engoli botões e moedas. e li muito. sempre li muito. li para além dos livros, para além do mundo. para além da vida. eu sempre tive muita fome. desde menino sou assim.

57


eu sou um boneco de engonço.

a verdade nua me come cru. aos poucos.

não se preocupe: há uma luz no fim do túnel, me diria a senhora elegante (a que fala sobre deus e seus sinais). eu sei: é a morte, eu responderia. ¿não é assim que os que quase-morrem descrevem a indesejada das gentes? eu vi uma luz no

fim de um túnel, dizem. ¿não é? e agora me ocorre que talvez essa seja a correta interpretação para há uma luz no fim do

túnel. ¡claro que há uma luz! a morte é o terminu, ¿não é? sem-

pre haverá a tal luz no fim do tal túnel. ¡óbvio! e antes que a donairosa dama me censurasse por aquilo que ela chamaria de

pessimismo eu tomaria de bandeira as palavras, e declamaria “consoada”.

depois, com redobrado fastidiu diria-lhe, em papiamento: mi qué drumi. ponto. e, virando-me para a janela lhe daria as costas. se eu tivesse a força que a senhorita supõe eu não sofria assim. e tenho dito. 58


¿onde está o portal? deve existir um portal, uma passagem secreta, uma fenda (por estreitíssima que seja) que me permita sair daqui. deve existir, sô.

quando eu era menino, quase só couro e osso, numa tarde de

primavera (¿ou seria verão?), fui soerguido por um panãpanã de borboletas da família das nymphalidae. a maioria delas com aqueles azuis & vermelhos, ¿o senhor sabe? agrias claudina

sardanapalus, com as asas anteriores avermelhadas, e posteriores em azul-safira brilhante...

¿o senhor sabia que a belbellita é um inseto que pertence à ordem dos lepidópteros? ¿e o senhor sabia que a psicanálise moderna tem a borboleta como um símbolo de renascimento? é, pois é. ¿e que existem mais ou menos vinte e quatro mil espécies de borboletas no mundo, o senhor sabia? o fato é que naquela tarde de verão (¿ou seria primavera?) eu tive, de cima, a visão que não tinha ao rés do chão. ¿o senhor me entende? 59


a vida não é assim, amigo.

amigo, a vida é bem pior.

eu já rapei o coco. várias vezes. sempre em meio a crises, ¿sabe? jó também rapou. está no Livro: … jó então se levantou,

rasgou o manto e rapou a cabeça...

vinheta incidental nº 8 ♪… no final de longa crise depressiva

ele raspou completamente a cabeça... ♫ (vitor ramil - “joquim”)

preciso ocultar sujeitos.

60


o miserandu tem grande poder de invisibilidade. ¿o senhor dá

bom-dia ao mendigo? ¿o senhor nota o mendigo?

um menino chuta a bola velha e sebosa, e o tempo para. (silêncio) a pelota fica suspensa sobre o campinho mixuruca de terra batida. a paisagem gira 360 graus mostrando a totalidade de sua secura: casinhas de madeira carcomida que teimam em ficar em pé, cães magérrimos dormitando à escassa sombra, roupas puídas num improvisado varal... (silêncio) as traves, no campinho, são de taquaras secas. (ainda o silêncio)

a bulla cai (o silentiu é quebrado), a vida segue cruel.

os meninos gritam, e riem, e ignoram o peso do que virá. (a vida segue indiferente e apoucada)

¿o senhor duvida da minha dor? vista minha pele e tente a so-

brevivência. tente. eu gostaria de ver.

61


acabo de botar um ovo.

ele acredita piamente que é incréu.

¡alô, @ubiquu! milagre-me, please.

o dicionário ficou aberto sobre a mesa: algumas palavras fugiram. outras, que ainda não tinham sido in-ventadas, entraram.

dábliudábliudábliupontopraqueservetudoissopontocom

em noite de lua crescente: descosture o peito, desatarraxe o coração, e feito pedra jogue-o ao alto fazendo três pedidos. ponha-o de volta no lugar: atarraxe-o bem, e re-costure o peito usando como linha teia finíssima de aranha-marrom. e espere... 62


espere... espere... (a aranha-marrom é a aranha brasileira com veneno mais poderoso, e é a única aranha peçonhenta que faz teia.) (mas a aranha-armadeira é mais bonita.) (em portugal a aranha-marrom é conhecida como aranha-violino.) (a lagartixa come a aranha-marrom.)

caçaram-me como a um pardal os que, sem razão, me odeiam.

eu gostaria de abreviar minha existência.

não fosse o dolorosu enfado eu escreveria um estudo sobre a

humanidade, seus sentimentos, vícios e virtudes, desde os primórdios até o hodiernu.

63


(se bem que o índice de virtudes é ínfimo, mas que seja) concluiria: as pessoas são ruins.

addendu: o índice de virtudes não chega a ser suficiente para que as pessoas não sejam ruins.

eu: joãozinho-do-passo-certo.

é preciso acabar com o sonho tão logo ele nasça. do contrário ele pode se transformar em frustração. e tenho dito.

que eu preciso encontrar o meu eu-lírico, disse-me, certa feita, um litteratu. ¿mas como,

se só encontro o meu eu-ridículo?

às vezes parece que vou desenlouquecer, mas logo em seguida passa. eu estou de pés atados. 64


nem certo nem errado: eu sou o do meio.

eu tenho um pesadelo recorrente: um velho, de olhos claros e pele vincada, em avançado estado de sujidade, grita com um menino (que sou eu). o menino (que sou eu) chora muito, e tenta (em vão) falar. o menino (que sou eu) se afoga em soluços e lágrimas. ¿o que será que significa isso?

a vida me deserta. sou um amontoado de falhas.

vivo me submetendo.

eu deveria ter sido saxofonista.

entre o nascer e o morrer: surdu intervallu. 65


eu sou ridículo como um “cu” com acento.

errar faz parte da vida, eu sei, mas... acertar, ¿não?

só não me mato porque não tenho coragem.

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livro trĂŞs

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o terninho de vidro trilha sonora recomendada:

Prehensile Dream – The Bad Plus

para Cleber Pacheco

»»» tenho pensado em apertar o nó. é de vidro o meu terninho e são pedras o que me atiram. minha roupinha de vidro me oprime, ao mesmo tempo em que me põe à mostra. com minha roupinha de vidro sou quase-nu. eu sou tão verdadeiro que

meu dia nublado não tem sol. não fosse o quase e minha vida teria sido maravilhosa. ¿por que não me cai um raio na cabeça?, pergunto. aquele senhor curvado, que passa apoiado em sua bengala me responderia: porque um raio não cai duas 70


vezes no mesmo lugar. concluo então que o raio já me atingiu: quando nasci. tudo na vida é uma questão de estrela, digo sem

falar. ¿o senhor está vendo aqui na minha testa, a estrela?, pergunto sem dizer palavra. o senhor curvado, que passa apoiado

em sua bengala não vê a estrela, mas me diria que sente alguma coisa em mim. quando penso em perguntar que coisa é, ele já está longe.

não me dê ligança: eu sou um bonifrate. eu tenho enfado de viver. a vida é o que é: phoda. o terno de vidro deixa minhas carnes flácidas e fracas à mostra. não tenho parada, não tenho porto: ¿inseguro? não tenho casa, não uso relógio: ¿isso é ser livre?

precisamos dar valor aos sinais. se assim é, melhor mesmo que assim seja. ¿quem disse isso? ¿deus? ¡ora, por zeus! tenho sido areia no vendaval. moço, é muito caro, moço. não quero me repetir, mas viver é mesmo phoda. e tenho dito.

a ignorantia é um excelente remédio contra a angústia.

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aquela senhora que viajava a meu lado no omnibus de jotaefe a

beagá era muito elegante. acho que ela não reparou minha es-

trela. tem chovido muito em minha vida (aqui, novamente, deveria ter um ponto final, mas deixo sem, por medo de anunciar a enchente)

entre o nascer e o morrer: meru intervallu.

minha pusilanimidade é o que tem me mantido vivo. tenho enxugado gelo. minha cor preferida é o azul. “azul” em inglês é

blue. blue também significa triste. ¿será por isso? a cor favorita

da menina ruiva que brinca na praça com o balão amarelo deve ser o vermelho. tenra, tem nos olhos a alegria de quem ainda

não vive. ela (a ruivinha) ainda está no portal do antes. ¿dá

para entender? se bem que o meu antes acabou cedo demais, ¿dá para entender? explico: acredito que exista um estágio anterior à vida, após o nascimento. nesse estágio vive-se numa

espécie de felicidade ou alienação. ¿dá para entender? tenho

construído castelos de espuma. tenho chovido demais. no molhado. tenho andado para trás. preciso descosturar as palavras. preciso costurar as orações.

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os meninos riem do meu terninho de vidro. já fui menino, e quando menino fui tive uma fatiotinha de brim, mas eu não achava graça.

não tenho sabido viver. a faca é cega; a fé amolada. moço, é muito caro, moço. minha fé é cega, e deus é surdo. ¿não é perfeito? é brabo, mas é queijo, dizia a velha comendo sabão. ¿a mocinha conhece a história da velha que comia sabão? pois então... dentro do joão-de-barro a palavra “arquiteto”. ¿e dentro da palavra “arquiteto”? tenho caído do cavalo. o cavalo coitado: pangaré. ¿o moço acha que eu anoiteço muito as palavras? ¿e as coisas? ¿também anoiteço as coisas? ¿será? revolvi o chão e plantei palavras num canteiro de ideias murchas. agora falo uma língua inaudível in-ventada por mim.

não acredito em felicidade, mas um contentamentozinho seria bom, ¿a senhorita não acha? ¿será pecado ser contente? 73


uma criança nasce na república federal democrática da ethiopia toda vez que a palavra “deus” é proferida em vão no brasil. é bom que se diga que na república federal democrática da ethiopia não existe aquele estágio anterior à vida, após o nascimento. na ethiopia não. tenho dado murros demais. em pontas de faca. tenho pensado em me matar. é bem provável que o

homo sapiens tenha se originado na ethiopia. adão & eva viveram na ethiopia, ¿a senhora sabia? está lá, no Livro dos livros.

moço, é muito caro, moço.

tenho pensado em puxar o gatilho. viver não é uma ciência. parece que sou desassisado, mas não. ¿o que terá dentro da palavra “amor”? .ɹɐ o ɐɹɐd sɐuɹǝd ǝp áʇsǝ opnʇ ˙oɥɔɐ nǝ ¿ɐɥɔɐ oãu

ɹoɥuǝs o? ˙oxıɐq ɐɹɐd ɐçǝqɐɔ ǝp ɹɐʇsǝ ǝɔǝɹɐd opunɯ o ¿tudo aquilo que é pensado deve ser re-pensado? existia uma saudade em mim que hoje sei que era de minas. minhas lembranças não são povoadas. ¿quanto vazio dentro da palavra “saudade”? eu deveria ter sido quiromancista. eu não sei viver. dizem que o homem feliz viveu na cochinchina. 74


tenho vivido anos de escuridão.

sinto imensa raiva do homem que tenho sido. deixei que todos

se aproveitassem de mim, e agora que decido dar um basta não tenho mais forças. ontem eu era moço, e cheguei a ter ilusões

(frágeis, mas ainda assim ilusões). hoje, num vu, sou velho, alquebrado: homem-cavalo puxando grande carroça carregada

de tristezas. todos, invariavelmente, um dia erguerão a voz contra você. quando não a mão. uma palavra que me dê firmeza: “âncora”. nunca na vida eu me matei: sempre fui cobarde.

¿uma palavra que nunca tive? só um pouquinho que vou pegar o caderninho de anotações. tenho uma lista delas. a lista começa com “infância”. ¿o senhor quer só uma? ¿só uma palavra? ¿o senhor tem uma semana para me ouvir? ¿não? tendi... então é “infância”. a palavra é “infância”. dentre todas as palavras que nunca tive a “infância” me esvazia mais, eu acho. agora, assim, de supetão, acho que é “infância”.

75


sinto grande peso sobre minhas costas, eu puxaria conversa. ¡são as asas!, me diria a senhora elegante que fala sobre deus e seus sinais. ¡é o mundo!, responderia o indivíduo realista que mora em mim. só não me mato porque não tenho coragem. eu deveria ter sido contrabaixista. trem difícil é viver. eu não sei viver. sinto como se eu quase não ocupasse lugar no mundo. deixei de me apaixonar: vivo desenganado. ¿o cidadão já reparou que o forte (o que

tem dinheiro) adora dar conselhos ao fraco (o que não tem dinheiro)? tenho feito um esforço tão grande para não desabar.

me chamo mors, me diria a elegante dama (a que viajava a meu lado). eu responderia: sísypho. na vida passarei sem viver. uma pena... eu cheguei a ter tantos planos... ¿o que haverá dentro da palavra “justiça”? não sei nominar o que sinto. ¿que nome se dá a um arado rasgando a carne? a vida de quem sofre é longa. não fosse a dor a vida seria mais ou menos.

queria tanto ir embora para casa, mas casa já não há. tenho vivido anos nulos. ¿o senhor tem dez minutos para iesus?, me perguntaria o homem com O Livro na mão. ¡mas eu tenho vivido para christo!, responderia. ¿será que o que empunha O Li-

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vro viu minha estrela?, penso. sou tenebrosu ser. ¿e o motorista do omnibus, quem é? ¿é caronte? ¿o filho da puta é caronte?

¿o senhor está vendo aquela cruz? é minha. é como se eu vives-

se em um intervalo de tempo onde tudo se repete ad infinitum, e nada acontece. eu já tive um intervallu lucidu. foi em 1900 e...

intervallu lucidu... sim, já tive. um. tem chovido demais, demais...

pegue uma nuvem carregada de “se deus quiser” e sopre-a até sua plantação de desejos. com uma pena de cauda de pavão faça cócegas na nuvem para que ela chova sobre os desejos. importante: a pena deverá ser retirada da cauda do fasianídeo apenas um minuto antes de ser usada. ¿para saber se a nuvem está carregada de “se deus quiser”? tem outro jeito não: só apalpando. ¿como as nuvens se enchem de “se deus quiser”? com a ladainha das beatas. as nuvens são ótimas receptoras de carolices. todas as vozes chorosas das novenas, dos terços e dos rosários ficam nas nuvens.

quero encontrar alguém. quero que alguém me encontre. 77


cansei de ser peixe-fora-d'água: vou mergulhar. ¿o senhor está entendendo? arrasto correntes. ¿você sente falta de intreccio

neste meu “romance”? minha história é em linha reta. é a história de um só homem, de um homem só. é a história de um homem que fica o tempo todo andando dentro de um labirinto, ¿você compreende? ¿o “homem” encontrará a saída? ¿será? ¿o que você acha? ¡faça sua aposta! ¡arrisque um palpite! ¿o que custa?

¿qual o sentido da vida? ¡sempre ao norte!, me diria o galhofeiro.

meu corpo é tapera. tenho andado por caminhos pedregosos e cheios de abrolhos, ¿o Senhor não vê? ¿quantas vezes deverei

perdoar? hebdomekontákis heptá é a resposta. só não me mato porque não tenho coragem.

¡vede, Senhor, o aviltamento a que cheguei!

78


numa calçada esburacada, do outro lado da estrada, um homem em desabalada corrida. penso se não seria psiquê fugindo

de cérbero. ¿e onde estariam orfeu, enéias e héracles? a dama elegante (a da poltrona nº 6) me diz com o olhar sereno, e sem

pronunciar palavra, que está indo a uma exposição de orchídeas. diria a ela, sem falar, que sei algumas coisinhas sobre as orchídeas. por exemplo: diria que orchídeas são todas as plan-

tas que compõem a família orchidaceae (uma das maiores famílias de plantas existentes), pertencente à ordem asparagales.

diria que as orchídeas apresentam muitíssimas e variadas formas, cores e tamanhos, e que existem em todos os continentes, exceto na antártida, e que predominam nas áreas tropicais. diria que a maioria das orchídeas cresce sobre as árvores, usando-as como apoio para buscar luz. diria que as orchídeas

não são parasitas, e que se nutrem apenas de material em decomposição que cai das árvores. diria que são poucos os casos

de utilidade comercial das orchídeas, além do uso para ornamentos, apesar da enorme variedade de espécies existentes.

diria que com os frutos de algumas espécies do gênero vanilla se produz baunilha (e abriria parêntese para dizer que eu adoro

baunilha). também diria que sai bem mais barato se produzir baunilha através de um composto artificial. diria que mesmo para ornamento são poucas as espécies utilizadas: a maioria das orchídeas apresenta flores pequenas demais, e suas fo79


lhagens não são muito atrativas. diria que orchidaceae talvez seja a maior família botânica. diria que existem perto de vinte

e cinco mil espécies de orchídeas. que a família orchidaceae foi registrada em 1789, por antoine laurent de jussieu. e, por fim,

eu olharia bem nos olhos da elegante dama, que estaria im-

pressionadíssima com a eloquentia de minha oratória, e arremataria com chave de ouro: o nome “orchídea” vem do grego

όρχις (órkhis), que significa testículo, e ειδος (eidos), que signi-

fica aspecto, forma (em referência ao formato dos dois pequenos tubérculos que as espécies do gênero orchis apresentam).

como orchis foi o primeiro gênero de orchídeas a ser oficialmente descrito, dele vem o nome da família inteira. diria, mas... xá pra lá. se eu dissesse ela talvez perguntasse como sei

tanto sobre orchídeas. se eu dissesse, e se ela perguntasse, eu responderia, mas...

eu tenho medo de me acostumar com os vexames, e de me “animalizar”. e tenho medo que me “animalizando” eu comece a disputar migalhas com os pombos, que comece a disputar carniça com os urubus. ¿e se eu achar “normal” essa disputa com pombos e urubus? se isso acontecer, se eu achar “normal”, passarei a ser intocável, inominável: serei invisível novamente.

80


que eu devo crer em deus, dizem. ¿mas como? ¡eu sou noham de deus! ¿não está lá no Livro? está, sim, no Livro: disse o

Senhor: farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o

homem e o animal, os répteis, e as aves dos céus; porque me

arrependo de os haver feito. eu sou culpado, eu carrego a culpa,

e carrego também aquela cruz ali, ó, ¿a madama vê? ¿se é pesada, a cruz? sim, é. e eu penso: perdi minha força, e minha esperança no Senhor. digo que não existe esperança: vivemos do pó ao kháos. ¿é impressão minha ou o omnibus só está parando

para embarque? ¿ninguém mais está desembarcando? ¿é isso?, penso em perguntar, mas ninguém responderia...

tenho feito o que melhor sei fazer: tenho claudicado.

botando melhor reparo no rapazote do pírcingue noto que ele usa uma ti chãrt com a fotografia de ozzy osbourne. não fosse meu grande aborrecimento, acharia engraçado a “esposa de xispêtêó” sentada ao lado de um fã do roqueiro “comedor de morcegos”. em meu corpo dores se acumulam sobre dores que se acumulam sobre dores que se acumulam... 81


ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta...

eu deveria ter sido malabarista (mas isso, de certa forma, eu já sou). preciso burilar femininos. moço, é muito caro, moço. falta-me animu. pouco se me dá que coxeie o cláudio.

entre o nascer e o morrer: acutu intervallu.

quinta parada: congonhas.

na fila de embarque eu vejo um homem de chapéu azul. ele

fuma. antes de entrar no omnibus ele dá uma longuíssima tragada e lança longe a bituca do cigarro que exala um fumu men-

tolado. ¿será de satolep? ao passar por mim noto que o homem tem a cabeça completamente raspada. ¡sim!, ¡é “o homem de satolep”! é joquim... 82


vinheta incidental nº 3 ♪… louco, joquim louco

o louco do chapéu azul... ♫ (vitor ramil - “joquim”)

mesmo chacais dão a mama a fim de aleitar suas crias... eu tenho sido o de menos, ¿o senhor compreende? estou perdendo a viveza das carnes.

um menino negro, negríssimo, de olhos azuis, azulíssimos, cata uma borboleta na chuva, e a põe para secar no varal. os olhos

do menino causam-me uma espécie de alucinação. azulcina-

ção, como diria ferreira gullar, naquele poema sobre a pintura

de siron franco. ¿o moço não lembra? “… o azul é negro ardendo aceso no seu carvão. ver pode ser azulcinação.”

pouco se me dá que claudique o coxu. 83


a menina-medusa passa por mim em direção à saída do

omnibus. ela é puxada por uma das mãos pela senhora suarenta. logo atrás delas segue um homem carregando uma espécie

de bandeja (¿ou seria um escudo?). não me lembro de tê-lo visto entrar no omnibus. ao passar por mim o homem me lança

uma piscadela. ¡é perseu! ¡sim, é perseu! e deve ter entrado no

omnibus sob a forma de finíssima chuva de ouro, quase imperceptível.

estou perdendo a viveza das carnes.

o antônimo de “antônimo” é “sinônimo”.

só não me mato porque não tenho coragem. é, eu sei, seria minha resposta ao homem velho que cheira a cigarros de palha. e lhe mostraria minhas carnes moídas, e meus sonhos estraçalhados.

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adormeço, nauseado pelo vazio do estômago e tomado pelo cansaço. e adormecendo sonho que estou na cidadezinha seca de minha infância. eu ando por sua avenida principal, e os paralelepípedos brilham seus vidrilhos ao sol escaldante da restinga. agora, no sonho, eu não devo ter mais que dezasseis anos. me sei pelo comprido dos cabelos. de repente o calçamento não é mais o calçamento, e sim o dorsu de um gigantesco crocodilo, que corcoveia, enquanto eu tento inútil o equilíbrio. oiço, ao longe, o estrondo de um trovão. vai chover, penso eu, lutando em permanecer no lombo do bicho que brame apavorante. sinto pingos grossos em meu rosto. acordo com a chuva fria entrando pela janela do omnibus. sou o que sempre espera. agora penso que a maior dor do ser humano seja a dor do nascimento. pedir perdão para o deus, e seguir pecando, essa é a ordem natural do que chamamos vita.

… então, não me venha falar de dor...

85


a carta XIII, a da morte, saiu setenta vezes sete vezes para mim. ¿o que será que isso significa?

o senhor não imagina a habilidade que eu tenho em fechar portas, e abrir distâncias. eu cavo distâncias abíssicas com incrível desenvoltura. sim, eu sou um cavador de abismos.

a amargura está me rondando...

86


o menino iberê, sentado no chão, sob a mesa, passava horas a desenhar, aos cuidados da egalantina e da bua. o menino iberê se escarranchava ao pescoço do ipo, armava arapucas, e brincava com chata, sua irmã... nunca na vida lá dele, no tempo lá da caixa-d'água, o menino iberê imaginou que um dia, num quadro, aprisionaria e desmediria alguém. nunca.

um bêbedo peida em pintópolis, e sabe-se lá o que isso poderá ocasionar em maputo. ¿o amigo já ouviu falar na teoria do

kháos? então...

o balangar do omnibus, o matracar das gentes: dor de cabeça.

mas lá dentro, no fundo do puteu, sedento e rastejante, sem saber que flutuo e que percebo a solidão do ambiente, eu grito.

grito um grito absurdamente mudo e ensurdecedor. grito que ser algum ouve. e fico lá, bem lá no fundo do poço.

sou o que vive em constante vigília. 87


vida é turumbamba. e tenho dito.

eu sempre tive muita fome. desde menino sou assim. já comi muita terra, engoli botões e moedas. não me dê ligança: eu sou um boneco de engonço.

meu dedo coça no gatilho.

só não sou um perfectu idiota porque se fosse perfectu não seria idiota. e tenho dito.

¡vai, covarde!, ¡puxa essa poha de gatilho!

o senhor tem razão: não me disseram que seria fácil, mas também não disseram que seria impossível.

88


vida tantas vezes remendada. vinheta incidental nº 9520 ♪… com o remendo da esperança

remendei a minha vida.

mas um dia a vida cansa

de ser rasgada e cerzida... ♫ (leopoldo rassier - “canto e lamento de um velho semeador”)

lex parsimoniae. é o que vale para mim. pode até não parecer

pelo emaranhado que é a minha vida (¿vida?), mas sou adepto da filosofia reducionista, navalha de ockham, ¿a senhorita já ouviu falar? a navalha de ockham é um “princípio lógico”, atribuído a william de ockham, frade franciscano inglês, do século XIV. segundo william de ockham a explicação para qualquer fenômeno deve levar em conta apenas o rigorosamente necessário para sua explicação. se em tudo o mais forem idênticas as

várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor.

89


o miserandu tem grande poder de invisibilidade. ¿o senhor dá

bom-dia ao mendigo? ¿o senhor nota o mendigo? então... ¿eu não disse?: invisível.

¡ah, os puteoritas iriam adorar o meu poço!, penso eu. adorariam, literalmente.

dizem que a fome acaba depois que fazemos a passagem. ¿será

verdade?

vem chegando a palavra

“fim”.

entendam: deus não faz milagres.

meu erro: ter vivido caninamente. 90


¡alô, @onisciente! milagre-me, please.

meu amigo, as crianças não nascem de repolhos. de repolhos nascem os duendes. e tenho dito.

aquele rapaz estrambótico que acabou de entrar no omnibus me perguntaria se eu acredito em extraterrestres. diria-lhe que

sim, que conheci um ser extratelúrico muito extraneu, e que ele (o extraneu) vivia com a cabeça nas nuvens. diria-lhe que o extraterreno era solitário, da specie dos p.o.ET.@s.

dábliudábliudábliupontoaondeissovaipararpontocom

ali naquela jaula temos o mito, o insatiabile mito. Ele retesou o arco e me tomou para alvo de suas setas.

91


dizem que os poETas vivem no limbu. eu vivo no limbu. ¿eu sou poETa?

¿por que a passagem tem que ser tão apertada?

só não me mato porque não tenho coragem.

eu estou amordaçado. moço, é muito caro, moço.

eu deveria ter sido percussionista.

professora competentíssima é a derrota.

92


por não saber brigar sempre faço acordos: entro com a cara, e

os outros com os punhos. ¿perfectu, não?

“perdoar”, na primeira pessoa do singular, no aqui-agora do indicativo, é extremamente difícil.

meninazinha ruiva pega gafanhoto verdinho e morto, e o coloca dentro de uma casca de amendoim (que faz as vezes de caixão). (silêncio)

o pequeno feretru é posto bem no centro do terreiro. (silêncio)

formigas pretas, em fila, se aproximam do minúsculo cadáver. (¡para o velório!, pensa a menininha) (ainda o silêncio) a correição cerca o pequenino ataúde, e começa a devorar o morto. (o silêncio é quebrado pelo choro da menina) (¡para o banquete!, grita a vida)

93


deusenhista atrás de mim vem apagando a estrada: impossível é o voltar.

preciso conjugar verbos.

nem bom nem mau: eu sou o que fica entre.

entre o nascer e o morrer: tensu intervallu.

sempre fui sem rumo: ¿desnorteado?

soluço não é solução, pensaria em me dizer aquele velho (que

imagino um tanto caducu) sentado na poltrona imediatamente

atrás da minha, como que adivinhando minha intenção de chorar.

¿o senhor acha que a vida é curta? diga isso para quem tem fome. 94


eu deveria ter sido taxidermista, ou taxista (é, eu deveria ter sido taxista).

última parada: estação rodoviária de bh. fim de tarde, começo de noite. chove. chove dentro de mim também. não dá para saber como será o horizonte. mundão de gente. moço, é muito

caro, moço. viver custa muito caro. misturado, sou mais um. só. me jogo no mar. atravesso a praça rio branco onde um mágico ordinário, próximo ao monumento liberdade em equilí-

brio, é cercado por curiosos. me enfio na avenida afonso pena

na esperança de encontrar alguém. me perco. ando sem rumo. me espanto com os edifícios e com as gentes todas que passam por mim. sigo arrastando minha cruz. sumo (evito o ponto final na esperança que alguém me encontre)

The end. 95


Anexo

96


97


LABIRINTO trilha sonora recomendada:

Apenas um rapaz Latino-Americano – Belchior

Eu caminho no meio do povo As calçadas repletas de gente Gente que vai Gente que vem Gente que olha Que para Que passa Gente sem graça Gente assim Cabelos compridos 98


Cabeças raspadas (skinheads) Cabelos coloridos Brincos em orelhas Narizes Pessoas assim Pessoas tristes Felizes Sinal verde Sinal vermelho Siga Pare STOP A moça do outdoor sorri pra mim Placas luminosas Anúncios tentadores Beba isto Coma aquilo Fume Símbolos de uma geração pichadora rabiscados nos muros Grades que protegem casas E separam seus donos dos demais mortais Eu me fundo no povo 99


É tanta gente Eu me confundo Stop Don’t walk Walk É gente que vai Gente que vem É tanta gente que eu nem sei E a moça do outdoor insiste em sorrir pra mim O que será que se passa naquela mente interiorana aqui nas ruas da Capital? E a moça do outdoor insiste em sorrir pra mim Será que dá tempo para um café expresso Antes do Expresso 170 passar repleto de gente? Não sei Acho que não sei viver assim Eu me fundo no povo É tanta gente Eu me confundo de novo Por que aquele sujeito me olha esquisito no ônibus? Eu não sei A moça do outdoor tinha um sorriso tão bonito “Eu sou apenas um rapaz latino-americano” Diz a canção que ouço 100


Vinda não sei de onde E Que me faz lembrar De tudo o que sou E do muito que ainda falta pra conquistar Aqui no meio do povo Não sei Acho que não sei viver assim Acho que me perdi Vou chorar Aqui no meio do povo São tantas imagens refletidas nas vitrines Sou eu a passar Diante do olhar triste Do tetraplégico que vende bilhetes de loteria Ah! Como seria bom se comprasse um premiado São as prostitutas da Rua 28 Sou eu Feito cão vira-lata Sem saber direito aonde ir É gente que vai Gente que vem É tanta gente que eu nem sei 101


É a saudade de casa a apertar (e pensar que deixei minha mãe chorando no portão) É a fumaça negra dos canos de descarga suspensa no ar É gente que vai Gente que vem É tanta gente que eu nem sei Não sei Acho que não sei viver assim Acho que me perdi Vou chorar de novo Aqui no meio do povo Vou chorar de novo Aqui no meio do povo Vou ligar amanhã bem cedo Vou avisar minha mãe que estou voltando Que estou indo pra casa Vou dizer que depois de tantas partidas Tantas noites mal dormidas Seu filho está regressando Cansado de sofrer Cansado de chorar em bancos de bonde Cansado de chorar no meio do povo Cansado de procurar aqui nas ruas desta cidade grande O que tem aí de sobra 102


Mãe E a gente nem sabe FELICIDADE : o pior labirinto é o de dentro (ponto)

Agora sim, cabô.

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Com a chave na mão

quer abrir a porta, não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora?

Carlos Drummond de Andrade

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Esta obra poderá servir de complemento (ou de introdução) ao livro Lírica

fedentina, publicado em 2008, e disponível gratuitamente na internet (http://issuu.com/claudiobcarlos).

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VIAGE(m) (ns)

Cleber Pacheco*

Uma viagem ao nada, uma viagem ao inferno (existencial), rumo ao caos. Confissão sem esperança de uma via redentora. Memória ou diário da desordem. Indo de nada para lugar nenhum. Grito. Espasmo. Pedido de socorro. O HOMEM DO TERNO DE VIDRO é tudo isso. E muito mais. Uma tentativa (vã, provavelmente) de organizar o caos. Todavia, um caos que tem um sentido. Trajetória pessoal e universal, contemporânea e atemporal. Prosa, poesia, música, insight. Flashes de uma memória, flashes do instante, do presente, vislumbres de realidades que se cruzam. Estética a serviço da inteligência. Rasgos de sentimento. Êxtase da angústia sem resposta. 110


Um livro inquietante, original, ousado, que nos desafia desde a primeira linha. Um livro que nos incita do início ao fim. Desassossego. Busca. Uso primoroso da linguagem, às vezes quase delirante, utilizando os conceitos e a lógica para desafiar estes mesmos conceitos e a dita lógica. Obra original que reverbera em nossa mente e fica ali, com seu inquietante rumor ecoando em nossos neurônios, em nosso coração, palpitante, viva. Um livro com uma força incomum. Literatura que vibra. Talento. Nenhum leitor pode sair incólume. Impossível não recomendar este livro.

____________________ * Mestre em Literatura Brasileira e Especialista em Filosofia. Poeta, contista, romancista, dramaturgo, crítico literário e artista plástico.

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Cara, eu estava pensando sobre o seu livro: é deveras perturbador, porque o seu personagem carrega um pensamento/sentimento paradoxal muito interessante, que seria um bom motivo de dissertação de mestrado. Em minha opinião, você conseguiu construir um diálogo entre o ego e o alterego de um homem muito maior e mais profundo do que qualquer outro personagem com que já me deparei nas leituras da vida. Machado de Assis – com Bentinho – e Dostoiévski – com Ródia e Aliócha – também fazem isso. Mas em nenhum deles, esse exercício do pensamento/sentimento surge tão profundo... Você é genial!

Ádlei Duarte de Carvalho* ____________________ * Poeta e romancista.

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Projeto grรกfico:

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o homem do terno de vidro