Page 88

Amolecida por sua gentileza, que aliás era algo constante, eu falei: “Ei. Me desculpa por tudo o que eu falei. Você estava fazendo seu trabalho, e não merecia ficar aguentando encheção de saco por isso.” “Eu não cuido da sua segurança só por obrigação, srta. Tramell.” Fiquei em silêncio por um tempo, tentando entender o que ele quis dizer com aquilo. Minha relação com Clancy era distante e puramente profissional. Nós costumávamos nos ver com equência porque ele era o responsável por me levar e me buscar na academia do krav maga, que ficava no Brooklyn. Porém, eu jamais imaginei que ele poderia ter algum tipo de motivação pessoal para cuidar da minha segurança. Clancy era o tipo de cara que tinha muito orgulho de seu trabalho. “É que não foi só aquilo”, eu esclareci. “Já tinha acontecido um monte de coisas antes de você e Stanton entrarem em cena.” “Desculpas aceitas.” Aquela resposta brusca e impessoal combinava tanto com ele que até dei risada. Eu me ajeitei melhor no assento e olhei pela janela, para a cidade que eu havia adotado e aprendido a amar. Na calçada ao meu lado, estranhos se aglomeravam ombro a ombro em torno de um pequeno balcão, comendo fatias de pizza. Por mais que estivessem próximos, a distância entre eles era enorme, revelando a habilidade única dos nova-iorquinos de ser uma ilha em meio a um mar de pessoas. Os pedestres caminhavam apressados em todas as direções, ignorando um homem que entregava panfletos religiosos e o cachorrinho postado a seus pés. O ritmo enético da cidade injetava nas pessoas tamanha vitalidade que os pedestres ali pareciam andar mais depressa que em qualquer outro lugar. Era um tremendo contraste com a velocidade indolente e sensual do Sul da Califórnia, onde eu havia feito a faculdade e onde meu pai ainda morava. Nova York era uma dominatrix no auge da forma, estalando o seu chicote e torturando seus súditos sem um pingo de dó. Minha bolsa vibrou ao meu lado no assento, e eu peguei o celular. Dei uma olhada rápida na tela e vi que era o meu pai. Sábado era o dia dos nossos papos semanais, uma ocasião que eu aguardava ansiosamente, mas quase pensei em deixar a ligação cair na caixa postal e conversar com ele quando estivesse me sentindo melhor. Eu estava irritada com a minha mãe, e meu pai andava preocupado demais desde que veio me visitar em Nova York. Ele estava comigo quando a polícia apareceu no meu apartamento para me dizer que Nathan estava na cidade. Os detetives despejaram essa notícia bombástica antes de revelar que ele havia sido assassinado, e eu não consegui esconder meu pavor com a ideia de tê-lo por perto. Meu pai ficou bem desconfiado depois de ver minha reação. “Oi”, eu atendi, para não ficar mal com ambos os meus pais ao mesmo tempo. “Como você está?” “Com saudade de você”, ele respondeu com a voz profunda e confiante de que eu tanto gostava. Meu pai era o homem mais perfeito que eu conhecia — um

Profile for Cláudia Tressoldi

Crossfire 3 para sempre sua  

Crossfire 3 para sempre sua  

Advertisement