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E parecia mesmo. Seus cabelos loiros, normalmente bagunçados, estavam ótimos — um dos talentos de Cary. Seus olhos castanhos brilhavam, e ele tinha um sorriso radiante logo abaixo do nariz que um dia claramente já tinha sido quebrado. “Que bom ver você de novo por aqui”, eu falei. “Eu dei uma reorganizada na minha agenda.” Ele me ofereceu um copo com leite, que recusei sacudindo a cabeça. “E você, como vai?” “Fugindo de jornalistas, torcendo pro casamento do meu chefe sair, tentando acertar os ponteiros com a minha mãe, precisando ligar pro meu pai e ansiosa pra sair hoje à noite com as amigas.” “Você é demais.” “Isso é você que está dizendo”, eu falei com um sorriso. “E as aulas, como vão? E o trabalho?” Eu sabia que Trey estava estudando para ser veterinário, e que precisava ter mais de um emprego para pagar a faculdade. Um deles era o de assistente de fotógrafo, e foi assim que conheceu Cary. Ele fez uma careta. “Não está nada fácil, mas um dia essa correria toda ainda vai valer a pena.” “A gente devia ver uns filmes e comer uma pizza aqui de novo um dia desses.” Eu inevitavelmente torcia para Trey em sua disputa com Tatiana por Cary. Podia ser impressão minha, mas ela não parecia ter a menor simpatia por mim. E eu não tinha gostado nada da atitude dela quando foi apresentada a Gideon. “Claro. Vou ver como está a agenda de Cary.” Eu me arrependi de ter falado com Trey antes de Cary, porque o brilho de seus olhos aos poucos foi se apagando. Aquilo na certa o fez lembrar que estava dividindo a atenção de Cary com Tatiana. “Bom, se ele não estiver muito disponível, podemos fazer isso só nós dois.” Ele abriu um meio-sorriso. “Por mim estamos combinados.”

* Faltando dez para a uma, saí do prédio e encontrei Clancy à minha espera. Ele acenou para o porteiro e abriu a porta do carro para mim, mas sua aparência deixava bem claro que sua função não se limitava à de um simples motorista. Ele se comportava como a máquina de guerra que na verdade era — desde que o vi pela primeira vez, não me lembrava de tê-lo visto sorrindo. Uma vez atrás do volante, ele desligou o rádio, que em geral ficava sintonizado na equência da polícia, tirou os óculos escuros e me olhou pelo retrovisor. “Como você está?” “Melhor que a minha mãe, imagino.” Profissional experiente que era, ele jamais permitiria que sua expressão indicasse o que estava passando por sua cabeça. Em vez disso, ele recolocou os óculos escuros e sintonizou o som do carro com o meu celular via Bluetooth para tocar as minhas músicas. Só depois disso Clancy pôs o carro em movimento.

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Crossfire 3 para sempre sua  

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