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Tirei os sapatos dentro de um closet abastecido com muito mais roupas do que o necessário para um fim de semana. A maior parte das peças era branca. Gideon gostava de me ver de branco. Desconfiei que fosse porque ele me via como seu anjo. Mas será que ainda me via dessa forma naquele momento? Ou como um demônio? Uma vadia egoísta que o fez relembrar situações que ele preferiria esquecer? Escolhi um vestidinho de malha preto, que combinava com o meu estado de humor funesto. Parecia que algo havia morrido entre nós. Gideon e eu tivemos muitos momentos difíceis antes deste, mas ele jamais havia ficado assim tão distante, tão desconfortável e inquieto. Era o tipo da coisa que eu já tinha vivido com outros caras, pouco antes de me dizerem que não queriam mais nada comigo. O jantar chegou e foi lindamente servido na mesa do terraço, com vista para a praia particular. Vi uma cabana branca na areia e me lembrei do sonho de Gideon: nós dois em uma espreguiçadeira perto do mar, fazendo amor. Senti meu coração doer. Dei dois goles no vinho branco utado e comecei a comer, apesar de ter perdido o apetite. Gideon se sentou à minha ente vestindo uma calça larga de linho branco e nada mais, o que só piorou as coisas para mim. Ele era tão lindo e tão gostoso que era impossível não ficar de boca aberta, admirando. Mas sua cabeça estava a quilômetros dali. Ele era apenas uma presença silenciosa e marcante, que me fez desejá-lo com todas as forças do meu ser. Nosso distanciamento emocional estava se tornando cada vez maior. Para mim, já havia se tornado intransponível. Afastei meu prato quando terminei, e percebi que Gideon mal tinha tocado na comida. Ele havia dado umas poucas garfadas, mas me ajudou a acabar com a garrafa de vinho. Respirando fundo, eu falei: “Desculpa. Eu não devia... Eu não...” Engoli em seco. “Desculpa, amor”, eu sussurrei. Saí da mesa ruidosamente, arrastando a cadeira sobre o piso de cerâmica, e me afastei dali às pressas. “Eva! Espera.” Senti a areia morna sob os meus pés e saí correndo na direção do mar, tirando o vestido e entrando na água quente como a de uma banheira. A praia era rasa ao longo de vários metros, mas depois tinha uma queda súbita que me fez mergulhar, até a cabeça. Abracei os joelhos e comecei a afundar, agradecida por estar submersa e bem escondida quando comecei a chorar. A sensação de estar flutuando na água aplacou o peso que eu sentia no coração. Meus cabelos boiavam ao meu redor, e eu sentia os peixes roçarem minha pele de leve enquanto fugiam diante da invasão de seu mundo pacífico e silencioso. Meu corpo reagiu instintivamente ao ser puxado para fora d’água, tossindo e cuspindo água.

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Crossfire 3 para sempre sua  

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