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“Vou almoçar e pegar um cinema com Tatiana. Eu precisava sair de casa um pouco.” “Desculpa por obrigar você a ser o meu telefonista.” “Não tem problema”, ele falou, no melhor estilo Cary. “Mas eu fiquei preocupado. Você anda sumida ultimamente. Não sei onde nem com quem você está. É o tipo de coisa que não combina com você.” O tom de acusação em sua voz só fez crescer meu sentimento de culpa, mas eu não podia dizer nada. “Sinto muito.” Ele esperou por uma explicação que não veio, e murmurou algo consigo mesmo antes de dizer: “Chego em casa daqui a umas duas horas”. “Certo. A gente se vê lá.” Depois de desligar, telefonei para o meu padrasto. “Eva.” “Oi, Richard.” Fui direto ao assunto. “O meu pai ligou pra minha mãe?” “Só um momento.” Houve um silêncio do outro lado da linha por um minuto ou dois, e então ouvi o som de uma porta se fechando. “Ele ligou, sim. Foi... bem desagradável para a sua mãe. Este fim de semana está sendo bem difícil para ela. Monica não está nada bem, e eu estou preocupado.” “Não está sendo fácil pra nenhum de nós”, eu respondi. “Liguei pra avisar que meu pai está vindo pra Nova York e que vou precisar de um tempo a sós com ele pra conversar.” “Você precisa dizer para Victor ser um pouco mais compreensivo com sua mãe, por tudo o que ela passou. Ela estava sozinha no mundo, com uma filha traumatizada.” “E você precisa entender que ele precisa de um tempo pra absorver tudo o que aconteceu”, rebati. Meu tom de voz saiu um pouco mais áspero do que eu desejava, mas refletia com precisão os meus sentimentos. Eu não ia aceitar que me obrigassem a tomar partido entre um dos meus pais. “E preciso que você peça pra minha mãe parar de ficar ligando pra mim e pro Cary o tempo todo. Fale com o dr. Petersen, se for preciso”, eu sugeri, mencionando o nome do terapeuta da minha mãe. “Monica está ao telefone agora. Vou conversar com ela quando desligar.” “Não se limite a conversar. Faça alguma coisa a respeito. Esconda os telefones, se for preciso.” “Isso seria uma medida extrema. E desnecessária.” “Não se ela não parar com isso!” Comecei a batucar com os dedos na mesa. “Você e eu, nós mimamos demais a minha mãe — Oh, não vamos incomodar a Monica! — porque fazemos de tudo pra evitar os chiliques dela. Isso se chama chantagem emocional, Richard, e nós estamos pagando bem caro por isso.” Depois de um instante em silêncio, ele falou: “Você está sob muita tensão neste momento. E...”. “Não me diga!” Tive a impressão de que estava gritando. “Eu amo a minha mãe, e ligo quando puder. Diga isso pra ela. Só que não vai ser hoje.”

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Crossfire 3 para sempre sua  

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