Issuu on Google+

Saída de campo com destino a Moda Prestes a terminar uma coleção de roupas, seu TCC em Geografia, Simone está disposta a mudar-se para a capital paulista e encarar a produção brasileira de moda

Foi de pequena que Simone Lazzaretti começou a se interessar por moda. “Criava roupas e histórias de desfiles com a Barbie”, relembra a garota de Chapecó. A princípio, a característica é comum na maioria das meninas. Uma ou algumas bonecas, o arrumar dos cenários para o mundo em miniatura e o disparar do relógio no fim de tarde, só percebido quando o pai pega a filha na casa da amiguinha. Mas para Simone, 25 anos, a brincadeira não perdeu o sentido. Bem que ela tentou se desvincular do universo de tira e põe de roupas, criação de peças e desfiles pelo mundo afora. Hoje, prestes a se formar em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina, a sua rotina se divide entre as aulas preparadas aos alunos de ensino médio e o Trabalho de Conclusão de Curso: uma coleção de roupas totalmente pensada por ela. Foi a solução que Simone encontrou para unir a paixão pela moda e os anos dedicados à faculdade em outra área.

Quem vê Simone na rua pode apostar que ela trabalha com o segmento de moda. As raízes de seu cabelo são pretas, mas o comprimento é bem loiro, quase branco. No rosto fino, os óculos redondos de aro vermelho chamam a atenção. “Tenho 1,5 graus de Astigmatismo e 0,5 de Miopia”. Desde janeiro, quando começou a pôr no papel os croquis que fazem parte do TCC, o acessório tem sido ainda mais usado. Foram horas pesquisando os materiais que usaria nas peças de roupa que está criando, e ainda serão várias outras dedicadas à monografia que acompanha a parte prática do trabalho final de curso. “As minhas roupas vão substituir o uso de imagens ou vídeos apresentados no computador, ferramentas que outros formandos de Geografia costumam utilizar”, explica Simone.

Se falta memória para definir o ano certo de cada situação em sua vida, não lhe falta memória para os vários nomes que figuram na moda. “Não sei mais o que achar dos desfiles. A Acquastudio, por exemplo, está me surpreendendo”, fala com naturalidade. Quando se lembra de um momento especial do passado, ele vem associado à série escolar que cursava. Foi lá pela sétima ou oitava, por exemplo, que Simone começou a assistir aos desfiles de moda no canal GNT. Não em sua casa, em Chapecó. Lá não tinha computador nem assinatura de TV a cabo. Mas quando uma amiga passou a receber o sinal fechado, a programação de moda se tornava digna de uma reunião. “Avisava meu pai que ia dormir na casa da minha amiga, porque de noite iríamos assistir ao desfile da Glória Coelho”.


Desde aquela época, o pai de Simone, Dério Lazzaretti, não gostava dessa história de moda. “Já aconteceu de eu sentar em frente à televisão, sintonizá-la no canal GNT Fashion, e ele apertar o botão „mute‟ do controle”. De acordo com a filha, seu Dério acredita que esse caminho não tem futuro; é ilusão. Talvez o pensamento do pai tenha influenciado Simone a prestar vestibular para Geografia, além de Moda, a partir do terceiro ano do ensino médio. “Tinha aquela imagem de que professor de cursinho ganhava uma grana”. Não só por isso. Ela sempre teve mais facilidade com disciplinas como História e Geografia e os professores dessas matérias tinham sido muito bons. Fora a ligação da graduação com as viagens, outra atividade que a catarinense gosta até hoje.

Era quarta-feira, 26 de maio, e Simone chegava ao curso “Jornalismo de moda” com uma camiseta amarelo-vibrante, estampada com o rosto de uma onça. Por cima, um blazer branco. Faltavam alguns minutos para as 19h e o salto nos seus pés fazia um barulho no chão desde as 6h50. Aquele era o último dia que daria aulas no estágio obrigatório. “Amei sua blusa”, comenta a jornalista responsável pelo curso. A resposta de Simone traduz exatamente o que ela pensa de sua vida. “Essa blusa tem história”.

Doze horas antes do curso, a formanda estava no Instituto Federal de Santa Catarina, onde deu aulas de geografia para adolescentes entre 16 e 17 anos. A atividade faz parte do estágio obrigatório que Simone começou em abril. Durante um mês, uma vez por semana a estudante apresentava o conteúdo produzido aos meninos e meninas do ensino médio. Não foi tarefa fácil. Explicar um assunto por três horas sem perder a atenção dos alunos exigia muitos slides de Power Point animados e traduções de linguagens rebuscadas que ela retirava dos livros da graduação. “Quase chorei no primeiro dia”. Se ela já soubesse, naquele momento, que a professora da disciplina tinha feito uma lista dos erros que supostamente cometera, o choro poderia ter saído da ficção. Agora, passadas as suas aulas, ela acredita que fez um bom trabalho. “Procurava dar o conteúdo de acordo com o que eu gostava de ter enquanto aluna”. O resultado deu certo. No último dia, a quase-professora escutou da turma um “aaaah” em coro, assim que anunciou o fim de suas aulas e o início das aulas de sua colega.

Com o término do estágio, o tempo que era dedicado à preparação das aulas dá lugar à produção do TCC, que Simone pretende entregar até o final do ano. Às vezes, as pesquisas são feitas madrugada afora, até 4h. Simone acorda mais tarde, dá uma organizada no apartamento que divide com a irmã, Cristina Lazzaretti, principalmente por que tem um cachorro em casa: Lola, uma Pincher de três anos. Depois, entre os compromissos corriqueiros de qualquer universitário, ela continua as obrigações do trabalho final de curso. Uma parte está pronta há três meses, sobre cada uma das dez espécies vegetais e animais que tratará na apresentação do trabalho. O que une essas espécies é o ecossistema do qual fazem parte: o Parque da Joaquina. A irmã Cristina, três anos mais nova, confirma que a agitação de Simone é normal. “Ela nunca sossega. Está sempre inventando alguma reforma de roupa, sapato, ou bolsa. Esse trânsito de tecidos e aviamentos pela casa é frequente”.

A idéia inicial do TCC foi outra. Foram outras. A primeira que lhe ocorreu tratava da valorização imobiliária da região oeste do estado, com a construção da Universidade Federal da Fronteira Sul. O tema foi trabalhado e surgiu a segunda idéia: a valorização


imobiliária devido ao novo centro da Udesc em Chapecó. Nesse período de escolhas de tema, Simone desejava estar terminando um curso de Moda. “Se eu fizesse Moda seria tão bom, só teria que desenvolver uma coleção de roupas”, lembra. Foi aí que ela deu início ao projeto atual, com uma ajudinha da revista Casa Claudia. Enquanto folheava uma publicação antiga, um dos anúncios lhe chamou a atenção. O ganhador do Prêmio Planeta Casa 2008, oferecido pela Editora Abril, tinha sido o seu “querido Ronaldo Fraga”. A partir de uma coleção de roupas, o estilista havia criticado a transposição do rio São Francisco. As peças continham desenhos das casas dos ribeirinhos e vegetação do local. “No release sobre a coleção dele tinha até a palavra „sedimentos‟, que é bem utilizada na Geografia”.

A descoberta foi o suficiente para Simone dar partida ao seu trabalho de conclusão. “Se ele pode, eu também posso”. Ao invés do rio São Francisco, o objeto de estudo seria o Parque da Joaquina, que ela tinha conhecido durante uma aula de Biogeografia. “Tinha uma idéia de que o parque era só „deserto‟. As pessoas só veem dunas, mas existe todo um ecossistema naquela região”. A orientadora Ângela Beltrame, também chefe de departamento do curso de Geografia, viu as fotos do desfile de Fraga, ouviu a ligação entre elas e o trabalho de Simone e, por fim, aprovou a ideia. Juntas, as duas foram até o parque e tiraram várias fotos. Essa e uma segunda visita ao local renderam a Simone as estampas das roupas de sua coleção. São árvores, folhas, flores e até uma “Lagartixa da praia” que ilustram os dez vestidos de cetim futuramente apresentados na banca. “Acho que farei um desfile”, analisa a estudante.

Essa não é a primeira vez que Simone idealiza uma criação de roupas, ainda que seja, de fato, a primeira que concluirá. Em 2006, ela se dedicava a algumas matérias da faculdade e a um curso técnico do Senac, focado em estilismo e coordenação de moda. “Sempre que surgem oportunidades de especialização em moda, as faço”. Uma pena que o curso de 1480 horas, quase um ano e oito meses, deixou a desejar. Primeiro pela diferença de idade entre os participantes, que distanciava os objetivos de cada um. Segundo, porque faltava nos inscritos um conhecimento básico da cultura de moda. “Tinha meninas que pediam sugestões de revistas”, fala, abismada, para brincar em seguida. “O foco das senhoras era a confecção de vestidos de festa”. Entretanto, foi no curso que Simone pensou e colocou no papel uma coleção inspirada na China. Elementos naturais do país, como os vales, misturavam-se aos animais. Resultado: uma jaqueta de couro sintético com estampa de panda, copiada e colada seguidas vezes por toda a peça (ela se pergunta se isso é possível), uma calça de cetim com elastano, e a lista segue com mais oito roupas que compõe o projeto. Até o jogo americano da tia não escapou das apropriações de Simone. “As idéias vão se sedimentando”. Geografia e Moda caminham juntas até nas explicações.

Entre goles de água em uma garrafinha azul, que leva consigo na bolsa, Simone comenta cada um dos croquis do TCC. É como se estivesse retribuindo com sua atenção o bem que eles fazem a ela. “Tá vendo essa folha? Ela tem uma cera que protege contra a perda de sais minerais. Fiz o molde dela em um tecido de Neoprene, porque ele também evita uma perda, a do calor”. E assim é com todas as peças que está produzindo; há um porquê das escolhas feitas. Tagarela, a concentração de Simone é invejável para o tanto de informações que passa. À medida que comenta uma das críticas do trabalho, sobre a disseminação de Pinus no Parque da Joaquina, sua desatenção pode a trair. “Nossa, você conhece aquele cara ali atrás?”. Curiosa, sua expressão muda, ensaiando uma risada.


Ao longo dos seis meses dedicados ao trabalho, alguns imprevistos aconteceram. No início, Simone pretendia fazer vários modelos de roupa, nem todas com o mesmo tecido. Casaquinho, saia e vestidos faziam parte da idéia original. Mas a fábrica de tecidos só encomenda um rolo com dez metros, todo feito do mesmo material. O jeito foi adaptar o trabalho às circunstâncias. A estudante preferiu o cetim, mais barato, e modificou a modelagem das peças; elas seriam vestidos iguais. Assim, a costureira só cobraria por um molde. “Só a estamparia me custou R$580. Já gastei meses de economias com o TCC”. Ainda que feitos a partir de um único modelo, a diferença dos vestidos é perceptível nos desenhos. Cada peça tem aplicações de cordões, que ela mesma tingiu com ajuda de pó de café, e de tecidos em formato de plantas, reproduzidos a partir das espécies originais. Aquelas que não possuem aplicações diferenciam-se pelas fotos estampadas através da impressão digital.

Depois que os tecidos estampados chegaram de São Paulo, na segunda semana de maio, Simone desabafa que foi bom ela não ter passado para o curso de Moda da Udesc. Há alguns anos, quando prestou duas vezes o vestibular para a universidade estadual, seu pensamento era outro. Na primeira tentativa, o desenho exigido na fase específica pesou no resultado final. A questão pedia que o candidato desenhasse um rosto humano com luz e sombra, mas Simone não sabia desenhar nos padrões solicitados. “Não acho necessário saber desenhar. Muitos estilistas famosos não sabem”. Até hoje, ela não se pune pela falta de técnica nos desenhos. Enquanto mostra seus croquis feitos em folha sulfite e de caderno, deixa claro que o importante é o papel ter espaço para as anotações sobre os tecidos, cortes e detalhes da peça desenhada. “Não precisa ser um papel Canson” - referência direta aos estudantes de Moda.

As experiências com a moda não garantem que Simone tenha decidido sua profissão. Quando o trabalho final for apresentado, três alternativas lhe ocorrem. Ou ela tenta ingressar no mestrado em Geografia, ou tenta mandar o trabalho final a uma indústria têxtil e torce para fazer parte da equipe de criação, ou se muda para São Paulo com o intuito de fazer parte de uma redação de moda. A última opção ela conhece um pouco. Duas vezes já foi contratada pela revista Criativa para fazer a seção “Certo x Errado” nas ruas de Florianópolis, além de ser contribuinte de um editorial em São Paulo para a mesma publicação. As tatuagens recém-feitas - um espelho no braço direito e um cabide no punho esquerdo - marcam essa fase de decisões pela qual Simone passa. Uma coisa é certa: aonde quer que trabalhe, o salto alto vai junto.


Saída de campo com destino a Moda