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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade

O Orgulho de Jared MacKade (Nora Roberts) Título Original: The Pride Of Jared Mackade MACKADE 02

Savannah Morningstar passou dez anos tentando reconstruir sua vida e a de seu filho. Quando pensa que pode relaxar, Jared MacKade aparece para abalar suas estruturas. Irresistível e sexy, Jared é um advogado que chega com a notícia de que o pai de Savannah morreu e lhe deixou uma pequena herança, mas a surpresa interessa a ela. Sua relação com o pai nunca fora das melhores, e a herança não serviria como um pedido de desculpas póstumo. Porém, mesmo que queira abrir mão do legado, antes terá de lidar com a situação, e isso significa negociar com Jared. Ele se sente cada vez mais importunado pela presença de Savannah. Afinal, ela é tão teimosa... e tão atraente! Mesmo evitando de todas as maneiras possíveis se apaixonarem, os dois se descobrem completamente loucos

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade um pelo outro. Agora, precisam enfrentar dois grandes desafios para poderem ficar juntos: o passado de Savannah e o orgulho de Jared... Digitalização: Polyana Revisão: Cris Paiva

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES H B.V./S.á.r.l. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Copyright © 1995 by Nora Roberts Originalmente publicado em 1995 por Silhouette Special Edition Impressão: RR DONNELLEY MOORE Tel.:(55 11)2148-3500 www.rrdonnelley.com.br Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rio de Janeiro, RJ-20563-900 Tel.: (55 21) 3879-7766 Editora HRLtda. Rua Argentina, 171, 45 andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ— 20921-380 Correspondências para: Caixa Postal 8516 Rio de Janeiro, RJ — 20220-971 Aos cuidados de Virginia Rivera

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade virginia.rivera@hariequinbooks.com.br

Prólogo A floresta ecoava os brados da guerra e a correria dos pés. Totalmente concentrados na batalha, soldados lançavam bombas de quando em quando nos campos além das árvores. Reinavam os sons do choque das armas e dos gritos dos feridos. Dezenas de vidas já tinham se perdido, e os sobreviventes avançavam em busca de sangue. Ainda verdes do final de verão, as folhas formavam um toldo, deixando passar apenas alguns feixes de luz do sol. O ar úmido e espesso exalava um forte odor de terra sob um calor escaldante. Não havia lugar em que Jared MacKade fosse tão feliz quanto na floresta mal-assombrada. Era oficial da União, capitão. Tinha de sê-lo, porque, aos doze anos, era o mais velho dos quatro. Era seu esse direito. Suas tropas consistiam no irmão Devin, que, aos dez anos, devia contentar-se com a patente de cabo. Como a guerra era uma coisa séria, Jared traçara um plano. Escolhera Devin como tropa porque ele cumpria as ordens. E também porque era um bom estrategista, além de feroz combatente, que lutava corpo a corpo e não gostava de fazer prisioneiros. Os inimigos Rafe e Shane, os outros irmãos MacKade, também eram combatentes ferozes, porém impulsivos. Agora mesmo corriam a toda pela mata, aos berros e brados de guerra, enquanto o primogênito os esperava com paciência para uma emboscada. — Eles vão se separar, preste atenção! — resmungou Jared, ao se agachar na moita com Devin. — Rafe vai dar uma surra na gente. — Cuspiu porque, aos doze anos, achava que cuspir era legal. — Ele não tem uma mente militar. — Shane não tem sequer uma mente — rebateu Devin, com o esperado desdém de irmão por irmão. Os irmãos riram da idéia, dois jovens de cabelos pretos desgrenhados e belos rostos sujos de terra e suor. Os olhos verdes e frios de Jared vasculhavam a floresta. Conheciam cada pedra, cada toco, cada velha trilha. Ia muitas vezes sozinho ali, perambular ou apenas descansar um pouco. E ouvir com atenção. O vento nas árvores, o Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade tagarelar de esquilos e coelhos. O murmúrio dos fantasmas... Sabia que outros haviam combatido e morrido ali. Isso o fascinava. Fora criado onde ocorreu a Guerra da Secessão, em Antietam, no estado de Maryland, e conhecia os triunfos e as tragédias daquele fatídico dia de setembro de 1862. Uma das mais sangrentas da história, a batalha estava fadada a atrair a imaginação de um garoto: ele vasculhou cada metro do campo de batalha com os irmãos, fingiu-se de morto em Bloody Lane, a trilha do perigo, atravessou os milharais chamuscados de pólvora seca e tudo mais que podia fazer para reviver aqueles tempos. Ruminou várias noites sobre o assunto. Perguntava-se que papel teria desempenhado se houvesse nascido antes, naqueles heróicos e terríveis dias. O que mais o fascinava, porém, era o fato de homens darem a vida por uma idéia. Muitas vezes, quando se sentava tranquilamente em algum recanto da floresta, sonhou em lutar por uma coisa tão preciosa quanto uma idéia e morrer por ela orgulhosamente. A mãe vivia dizendo-lhe que um homem precisava de metas e crenças fortes, além de orgulho para persegui-las. Então ela dava uma risada, despenteava os cabelos do garoto, e falava que ter orgulho jamais seria o problema dele. Já o tinha em demasia. Ele queria ser o melhor, o mais rápido, o mais forte e inteligente. Mas não era algo fácil, com três irmãos igualmente determinados. Por isso se esforçava. Estudava com mais afinco, lutava com mais ferocidade, trabalhava mais duro. Perder não era uma opção para Jared MacKade. — Eles estão vindo — sussurrou. Devin assentiu. Havia percebido o estalo dos gravetos, a agitação das moitas. Esperava o momento certo. — Rafe está vindo por ali. Shane vem logo atrás. Jared não questionou Devin. O irmão tinha instinto de gato. — Vou pegar o Rafe. Fique aqui até a gente entrar na luta. Shane vai vir correndo. Então você acaba com ele. A expectativa iluminava os olhos de Jared. Os dois irmãos se cumprimentaram apertando as mãos: — Vitória ou morte! Jared captou o primeiro vislumbre da camisa azul desbotada, enquanto o inimigo passava de uma árvore à outra. Com a paciência de uma cobra, esperava e esperava. De repente, deu o bote, em um salto espetacular. Derrubou Rafe em um vôo que os fez rolar pela terra, de encontro aos espinhos das amoreiras-pretas

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade silvestres. Foi um belo ataque surpresa, mas Jared não era tolo de achar que seria o fim do combate. Rafe era um adversário feroz — como sabia qualquer guri na escola, em Antietam. Lutava com uma alegria diabólica que o irmão entendia perfeitamente. Não havia nada melhor que dar uns socos em alguém num dia quente de verão, quando estava quase na hora de ir para a escola e todos os afazeres da manhã tinham ficado para trás. Os espinhos rasgaram as roupas e arranharam a pele. Os dois meninos voltaram lutando pelo caminho, trocando socos e cotoveladas. Perto, uma segunda batalha achava-se em andamento, com xingamentos, grunhidos e corpos rolando sobre velhas folhas secas. Os irmãos MacKade estavam no paraíso. — Está morto, escumalha rebelde! — gritou Jared, quando conseguiu dar uma gravata em Rafe. — Vou levar você para o inferno comigo! — logo Rafe, aos gritos, devolveu. No final, consideraram-se simplesmente empatados, e rolaram para longe um do outro, imundos, ofegantes e rindo. Enxugando o sangue do lábio partido, Jared virou a cabeça para ver os "soldados". Devin estava com o olho roxo e Shane tinha um rasgão na calça jeans. Isso ia metê-los em apuros. — Vai interromper o combate? — perguntou Rafe, sem muito interesse. — Não! — Descontraído, Jared enxugou o sangue do queixo. — Estão quase liquidados. — Eu vou para a cidade — disse Rafe, ainda agitado, levantando-se rápido e esfregando as mãos nas calças para soltar a terra. — Vou comprar um refrigerante no restaurante da Ed. Devin parou a luta com Shane e olhou para o irmão. — Tem dinheiro? Com um sorriso malicioso, Rafe tilintou os trocados no bolso. — Talvez... Lançado o desafio, afastou os cabelos dos olhos e logo partiu em disparada. A deliciosa perspectiva de tirar moedas dos bolsos de Rafe era tudo de que Devin e Shane precisavam. De repente unidos, desengalfinharam-se um do outro e saíram correndo a toda atrás dele.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade

Ed.

— Vamos, Jared — gritou Shane, virando-se para o irmão. — Vamos lá na — Vão na frente. Eu alcanço vocês.

No entanto, ficou ali deitado de costas, contemplando o sol, que tremeluzia por entre o toldo de folhas. Quando não percebeu mais os passos dos irmãos, julgou ouvir os ruídos da antiga batalha — o estrondo violento dos morteiros, os gritos dos mortos e agonizantes... Mais próximo, a respiração fraca dos perdidos e apavorados. Fechou os olhos. Estava habituado demais com os fantasmas da floresta para ficar nervoso com a companhia deles. Desejava tê-los conhecido, perguntado como era arriscar a vida e a alma. Amar tanto uma coisa, um ideal, uma forma de vida que defendiam a qualquer custo. Achou que faria isso por sua família, pelos pais, os irmãos. Mas isso era diferente, era... a família. Um dia, prometeu a si mesmo, deixaria a marca dele. As pessoas o olhariam e saberiam que ali estava Jared MacKade, um homem de valor. Um homem que nunca dera as costas numa luta.

Capítulo 1 Queria uma cerveja gelada. Já sentia até o gosto daquele primeiro e longo gole que ajudaria a desprender os sedimentos de um sórdido dia no tribunal, com um juiz idiota e uma cliente que o vinha enlouquecendo aos poucos. Não importava que fosse culpada como o pecado, já que a mulher era cúmplice em uma série de arrombamentos no oeste de Hagerstown. Jared tinha o dever de defender os culpados. Fazia parte do seu trabalho. Mas começava a ficar cansado de ser cantado pela cliente. Ela possuía uma visão muito distorcida das relações entre advogado e cliente. Jared só esperava ter deixado bem claro que, se tornasse a fazer avanços libidinosos e agarrar seu traseiro, ia ter de se virar sozinha. Em outras circunstâncias, ele talvez considerasse isso apenas levemente ofensivo, ou até razoavelmente divertido. Mas tinha coisas demais na cabeça e na agenda para cair em joguinhos de sedução. Irritado, enfiou um CD no aparelho de som do carro e deixou Mozart juntar-se a ele na sinuosa estrada para casa. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Só uma parada, disse a si mesmo. Uma rápida parada, e depois uma cerveja gelada. Nem faria essa pausa se Savannah Morningstar houvesse, ao menos, retornado seus telefonemas. Girou os ombros para relaxar a tensão e meteu o pé na tábua numa curva, para satisfazer-se com um pouco de velocidade ilegal. Dirigia rápido ao longo da conhecida estrada, mal notando os primeiros indícios de primavera nas árvores, nem a suave névoa de cornisos silvestres prestes a desabrochar. Freou por causa de um coelho que atravessou como um raio, e passou por uma picape que rumava para Antietam. Esperava que não houvessem começado a preparar o jantar na fazenda. Furioso, lembrou com uma palavra que era a sua vez de cozinhar. A carranca combinava com o rosto, de linhas bem talhadas, a leve imperfeição do nariz duas vezes quebrado, o forte contorno do queixo. Por trás dos óculos escuros sob arqueadas sobrancelhas negras, os olhos eram de um verde penetrante. Embora contraísse os lábios numa linha de irritação, isso não depreciava a beleza deles. As mulheres muitas vezes olhavam para aquela boca e se maravilhavam... Quando Jared sorria, elas suspiravam e se perguntavam como a esposa o deixara. Tinha presença dominante em uma sala de tribunal. Os ombros largos e os quadris estreitos formavam uma constituição sólida e esguia, como se tivessem sido esculpidos para um terno sob medida, mas o elegante disfarce jamais lhe mascarava a força. Os cabelos negros tinham apenas ondas suficientes para ficarem encaracolados na altura da gola da camisa branca engomada. No tribunal, não era Jared MacKade, um dos irmãos MacKade, que espalhavam o terror em Antietam desde o dia em que nasceram. Era Jared MacKade, advogado. Olhou para a casa na colina logo na saída da cidade. Era a antiga Mansão Barlow, que o irmão Rafe voltara à cidade para comprar. Viu o carro dele, no alto da íngreme alameda, e hesitou. Sentiu-se tentado a encostar para esquecer os acontecimentos do dia e dividir uma cerveja com Rafe. Porém, sabia que se ele não estivesse trabalhando, martelando ou serrando, ou pintando alguma parte da casa que seria uma pousada no outono, estaria esperando a nova esposa voltar para casa. Ainda causava espanto a Jared que o pior dos bad boys fosse um homem casado.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Passou pela entrada e tomou a bifurcação à esquerda, em direção à fazenda MacKade e ao pequeno lote vizinho. Segundo constava, Savannah Morningstar comprara a casinha na borda da floresta apenas dois meses antes. Morava ali sozinha com o filho e, como a fábrica de mexericos não tinha produzido muitas insinuações sobre ela, obviamente cuidava da própria vida. Jared imaginou que a mulher fosse idiota ou algo do gênero. Em sua experiência, quando as pessoas recebiam uma mensagem de um advogado, respondiam logo. A voz na secretária eletrônica era de uma sensualidade incrível. Mas ele não andava à procura de "problemas". Sua missão — e chateação — era apenas um favor a um colega. Viu um pouco da casinha por entre as árvores. Era pouco mais que uma cabana, embora houvessem acrescentado um segundo andar tempos atrás. Virou na estreita estradinha de terra junto à caixa de correspondências dos Morningstar, reduziu a velocidade para fugir dos buracos e reexaminou a casa ao se aproximar. Era de toros de madeira, construída para ser um recanto de férias de um médico, pelo que lembrava. Ele não usou a casa por muito tempo. As pessoas da cidade muitas vezes achavam que queriam viver ao estilo rústico até conhecê-lo de verdade. O cenário sossegado, as árvores e o tranqüilo borbulhar do córrego cheio pela chuva da véspera realçavam o ambiente da casa, com suas linhas simples, madeira natural e portão da frente sempre aberto. A íngreme margem à frente era rochosa e escarpada, e Jared sabia que no verão tendia a ser coberta de altas e emaranhadas ervas. Alguém vinha trabalhando ali, reparou. A terra fora escavada e revirada, até se tornar marrom-escura. Ainda se viam pedras, mas elas eram usadas como decoração natural. Alguém plantara tufos de flores entre e atrás delas. Não, percebeu, alguém estava plantando flores. Notou a silhueta se mover, ao encostar o carro no fim da alameda, ao lado de uma picape. Jared ergueu a pasta, saltou e seguiu pela área de grama recém-plantada. Agradeceu aos céus pelos óculos escuros que estava usando quando Savannah Morningstar se levantou. Estava ajoelhada em meio a terra, ferramentas de jardim e bandejas de flores. Ao se deslocar, veio andando devagar. Era alta — um corpo curvilíneo de um metro e oitenta, metido em uma surrada camiseta amarela e uma calça jeans rasgada até o absoluto limite da lei. Pernas infindáveis. Estava descalça e com as mãos sujas de terra.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade O sol cintilava nos cabelos tão pretos quanto os dele. Também escondia os olhos atrás de óculos escuros, mas o que ele podia ver do rosto o fascinava. Se um homem conseguisse não perceber aquele corpo maravilhoso, certamente notaria o belo rosto, pensou Jared. Maçãs do rosto esculpidas projetavam-se altas sob a pele dourada. Os lábios carnudos e com expressão séria, o nariz reto e afilado, o queixo ligeiramente pontudo. — Savannah Morningstar? — Sim, eu mesma. Ele reconheceu a voz da secretária eletrônica. Jamais conhecera uma voz e um corpo que se harmonizassem tão bem. — Eu sou Jared MacKade. Ela entortou a cabeça e o sol se refletiu nas lentes cor de âmbar de seus óculos. — Bem, você parece um advogado. Eu não fiz nada... recentemente... para precisar de advogado. — Eu não ando de porta em porta caçando clientes. Deixei vários recados na sua secretária eletrônica. — Eu sei. — Ela se ajoelhou mais uma vez para terminar de plantar uma muda de flores. — O bom das secretárias eletrônicas é que a gente não precisa falar com as pessoas com quem não quer falar. — Com todo cuidado, bateu a terra em volta das raízes. — Então, conclui-se que eu não quero falar com você, dr. MacKade. — Você não é boba — ele falou. — Apenas grossa. Sorrindo, ela levantou o rosto. — Tem razão, sou mesmo. Mas como veio até aqui, bem que poderia me dizer o que está doido para dizer. — Um colega de Oklahoma entrou em contato comigo depois de descobrir seu paradeiro. A fisgada na barriga de Savannah veio e passou logo. De repente, ela pegou outra muda. Sem se apressar, enterrou-a e revolveu a terra com uma espátula. — Não piso em Oklahoma faz quase dez anos. Não me lembro de ter violado nenhuma lei antes de partir. — Seu pai contratou meu colega para localizar você. — Não estou interessada. — O ânimo para plantar flores se desfez. Como

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade não queria contagiar os inocentes botões com o veneno que a agitava por dentro, tornou a se levantar e esfregou as mãos na calça jeans. — Pode dizer a seu colega que não estou interessada. — Seu pai morreu. Não tinha a menor intenção de contar-lhe assim. Não falara do pai nem da morte ao telefone porque não tivera coragem de deixar uma notícia dessas em uma secretária eletrônica. Jared ainda se lembrava da dor da morte do seu próprio pai. E da mãe. Ela não deu nem um soluço. De pé, empertigada, Savannah absorveu o choque e recusou-se a sofrer. Antes havia amor. Antes havia carência. E agora, pensou, agora nada restara. — Quando? — Sete meses atrás. Foi necessário algum tempo para encontrarem você. Eu sinto muito... Ela o interrompeu. — Como? — Uma queda. Segundo me falaram, ele estava trabalhando no circuito de rodeios. Levou um tombo horrível, bateu com a cabeça. Não ficou inconsciente durante muito tempo, e se recusou a ir ao hospital fazer raios X. Nesse período, contratou meu colega e lhe deu instruções. Uma semana depois, seu pai teve um colapso. Uma embolia. Ela escutou sem dizer uma só palavra, sem fazer um movimento. Savannah lembrou do homem que amara, agarrado no lombo de um cavalo, uma das mãos erguida para o céu. Via-o rindo, via-o embriagado. Via-o murmurando palavras afetuosas para uma velha égua e ardendo de raiva e vergonha quando mandara a própria filha, a única filha, embora. No entanto, não conseguia vê-lo morto. — Bem, isso é tudo? Com isso, ela se voltou em direção à casa. — Sra. Morningstar... Se tivesse ouvido alguma dor na voz dela, haveria respeitado sua intimidade. Mas nada se revelara naquela voz. — Eu estou com sede — ela respondeu, rumando para a alameda que cortava o gramado, subindo o degrau de acesso à varanda e deixando a porta de tela bater. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Ah, é?, pensou Jared, fumegando. Ora, ele também estava. Ia terminar direitinho aquele maldito negócio e depois tomar uma gelada. Entrou na casa sem se dar ao trabalho de avisar. A pequena sala abrigava móveis confortáveis, poltronas de estofamento espesso, mesas baixas e resistentes ao peso dos pés. As paredes amarelas combinavam belamente com o pinho do piso. Vívidas interferências de cor ressaltavam os tons neutros — quadros, almofadas, uma variedade de brinquedos sobre tapetes vistosos que o fizeram lembrar que ela tinha um filho. Ele entrou na cozinha de bancada branca e com o mesmo piso de pinho luminoso. Ela parara diante da pia, esfregando a terra das mãos. Não se deu ao trabalho de falar, mas secou-as antes de pegar uma jarra de refresco na geladeira. — Eu gostaria de terminar logo com isso tanto quanto você — adiantou ele. Ela deu um suspiro, tirou os óculos escuros e jogou-os na bancada. Não era culpa dele, lembrou a si mesma. Não toda de qualquer modo. Quando; se analisava o problema a fundo e se juntavam todos os pedaços, não havia ninguém a quem culpar. — Você está com calor — disse Savannah, servindo um copo grande de refresco a Jared. Após dar-lhe uma rápida examinada com os olhos amendoados cor de chocolate derretido, ela virou-se para pegar outro copo. — Obrigado. — Vai me dizer que ele tinha dívidas e que eu sou obrigada a pagar? Se for, pode ter certeza que não tenho a menor intenção de fazer isso. As fisgadas no estômago quase já se haviam acalmado. Ela se encostou na bancada e cruzou os pés descalços nos tornozelos. — Tudo meu foi muito suado. Pretendo guardar o que puder de dinheiro. — Se pai lhe deixou sete mil, oitocentos e vinte e cinco dólares. E alguns centavos — informou o advogado, vendo-a parar o copo no meio do caminho, hesitar e continuar levando-o aos lábios. — Onde ele arranjou sete mil dólares? — perguntou, um tanto surpresa. — Não tenho a mínima idéia. Mas a quantia no momento está em uma poupança em Tulsa. — Jared abriu a pasta. — Só precisa me mostrar a identidade, assinar estes documentos e a herança será transferida para você. — Eu não quero. — O primeiro sinal de emoção dela foi bater o copo na mesa. — Eu não quero esse dinheiro!

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Jared pôs os documentos na mesa. — Mas o dinheiro é seu! — Eu disse que não quero. Pacientemente, Jared tirou os óculos escuros e enganchou-os no bolso do paletó. — Eu entendo que você devia ter desavenças com seu pai. — Você não entende nada — ela rebateu. — Só precisa saber que eu não quero esse maldito dinheiro. Portanto, ponha seus documentos de volta na pasta e dê o fora. Habituado a discussões, Jared manteve a calma. — As instruções do seu pai foram que se você não quisesse ou não pudesse reclamar a herança, ela devia ir para o seu filho. Os olhos dela ficaram em brasas. — Deixa o meu filho fora disso! — As decisões legais... — Aos diabos com as decisões legais! Ele é meu filho. Meu! Não queremos nem precisamos de esmola. — Sra. Morningstar, não pode recusar os termos do testamento de seu pai, o que significa o envolvimento de tribunais e a complicação de um assunto muito simples e direto. Droga, faça a si mesma um favor! Aceite o dinheiro, torre em um fim de semana em Reno, dê à caridade, enterre em uma lata no quintal... Ela tentou se acalmar, uma tarefa nada fácil quando tinha as emoções à flor da pele. — É muito simples e direto. Eu não vou aceitar o dinheiro dele. — Ela virou a cabeça em um movimento brusco ao ouvir a porta da frente batendo. — É meu filho — disse, disparando um olhar letal a Jared. — Não diga nada a ele sobre isso. — Ei, mãe! Connor e eu... O garoto hesitou. Era um menino alto, magro, com os olhos da mãe e cabelos pretos desgrenhados, amassados sob um boné de beisebol. Examinou Jared com um misto de desconfiança e curiosidade. As boas maneiras eram de família, pensou Jared. — Sou Jared MacKade, um vizinho. — Você é irmão do Shane, não? — O menino se aproximou, pegou o refresco oferecido pela mãe e tomou-o de um gole só. — Ele é legal. Era lá que nós estávamos — disse à mãe. — Na fazenda MacKade. A gata teve filhotes.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — De novo?! — resmungou Jared. — Desta vez, eu mesmo vou levá-la ao veterinário e mandar esterilizar. Você estava com Connor? Connor Dollin? — Isso — confirmou o menino, desconfiado, olhando-o de esguelha, — A mãe dele é minha amiga — explicou Jared. Savannah apoiou a mão carinhosamente no ombro do filho. — Bryan, vá lá para cima esfregar um pouco dessa sujeira. Vou começar a preparar o jantar. — Falou. — Prazer em conhecer você, Bryan — cumprimentou Jared. O menino olhou, surpreso, e então lhe deu um rápido sorriso. — Igualmente... Até logo. — Ele se parece com você — comentou Jared. — É, parece, sim — ela concordou, suavizando levemente a boca ao ruído de pés martelando na subida da escada. — Ando pensando em pôr um revestimento a prova de som. — Estou tentando imaginá-lo brincando por aí com Connor. O sorriso nos olhos dela transformou-se em mau humor tão rápido que o fascinou. — E tem algum problema com isso? — Não, só estou tentando imaginar aquele fio desencapado que acabou de subir a escada com Connor Dollin, tão calado e tão tímido. Meninos confiantes como o seu filho não costumam escolher Connor como amigos do peito. — Os dois simplesmente se deram bem um com o outro. Bryan não teve muita oportunidade de manter amigos. Nós vivíamos saindo de um lugar para outro. — Que foi que trouxe vocês para cá? — Eu estava... — Ela parou de falar e deu um sorrisinho. — Agora você está tentando fazer política de boa vizinhança, para me amolecer e se livrar do problema. Esqueça! Ela se virou de costas para pegar uma embalagem de peitos de frango na geladeira — Sete mil dólares é um bocado de dinheiro. Se puser em um fundo universitário agora, dará um bom futuro ao seu filho. — Quando Bryan estiver pronto para ir à faculdade, eu vou bancar sozinha.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Entendo muito de orgulho, sra. Morningstar. Por isso é fácil para mim ver quando ele aparece na hora errada. Savannah tornou a se virar para ele e jogou a trança atrás do ombro. — O senhor deve ser do tipo educado e certinho, sr. MacKade. O enorme sorriso que ele lhe deu quase a derrubou. Ela sabia que em alguns estados esse tipo de arma era ilegal. — Você não vai com muita freqüência à cidade, vai? — respondeu Jared. — Se fosse, ia ficar sabendo de uma história bem diferente. Pergunte um dia à mãe de Connor sobre os MacKade, sra. Morningstar. Vou deixar os documentos. — Tornou a pôr os óculos escuros. — Reflita um pouco mais a respeito e depois me devolva. Estou na lista telefônica. Segurando um pacote de frango congelado, Savannah fechou a cara, sem arredar o pé de onde estava. Continuou ali mesmo depois de ouvir o motor do carro. O filho chegou feito um raio na escada. Ela tratou de pegar os documentos e guardá-los na gaveta mais próxima. — O que ele veio fazer aqui? — quis saber Bryan. — Por que usava terno? — Muitos homens usam terno — ela respondeu. Ia se esquivar, mas não mentiria para Bryan. — E fique longe da geladeira. Com a mão já na porta da geladeira, o menino revirou os olhos. — Estou morrendo de fome, não vou agüentar esperar o jantar! Savannah pegou uma maçã na fruteira e lançou-a de costas para ele, sorrindo ao ouvir a sólida batida na treinada mão do filho. — Shane disse que estava tudo bem se a gente fosse lá amanhã depois da escola para ver os gatinhos um pouco mais. A fazenda é legal mesmo, mãe. Você tinha de conhecer. — Já vi fazendas antes. — Eu sei, mas esta é muito legal. Ele tem dois cachorros. Fred e Ethel. — Fred e... — ela deu uma risada. — Talvez eu tenha mesmo de ver isso. — E da parte de cima do sótão, dá para a gente ver a cidade. Connor me contou que parte da batalha foi travada bem ali nos campos da fazenda. Na certa, morreu um monte de gente. — Oh, isso parece mesmo muito interessante... — E eu imaginei... — Bryan mordeu a maçã, tentando parecer casual — ...que talvez você quisesse ir até lá ver a ninhada.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Será que eu vou querer? — Bem, sim. Connor disse que talvez Shane dê alguns, gatinhos depois que eles desmamarem. Você pode querer um. — Posso? — Claro, sim, para... fazer companhia enquanto eu passo o dia na escola. — Ele sorriu, vitorioso. — Assim não ia se sentir muito sozinha. Savannah deslocou o peso para os quadris e examinou-o como uma coruja. — Esta foi muito boa, Bryan. Muito bem bolada mesmo. Era com isso que ele vinha contando. — Então eu posso? Ela lhe teria dado o mundo, não apenas um gatinho. — Claro — acabou assentindo. Riu quando o filho correu para seus braços. Finda a refeição, a louça lavada, o assustador dever de casa concluído e Bryan enfiado na cama com o boné de beisebol, Savannah sentou-se no balanço da varanda da frente e ficou contemplando a noite da floresta. Gostava de ver como a noite escurecia ali antes de qualquer lugar, como se tivesse o direito de primazia. Em pouco tempo, talvez ouvisse o pio de uma coruja, ou o baixo mugir do gado de Shane. Às vezes, quando fazia muito silêncio, ou chovia, ela ouvia o rio correr sobre as pedras. Ainda era cedo demais na primavera para o bruxulear dos pirilampos. Ela aguardava com impaciência a chegada deles, e esperava que Bryan não tivesse passado da fase de caçá-los. Queria vê-lo correr em seu próprio terreno à luz das estrelas numa noite quente de verão, quando as flores desabrochavam, o ar ficava espesso com o seu perfume e as florestas formavam uma densa cortina isolando-os de todos e de tudo. Queria que ele tivesse um gatinho para brincar, companheiros que pudesse chamar de amigos, uma infância cheia de bons momentos. Uma infância que seria muito diferente da dela. Pondo o balanço em movimento, recostou e aproveitou-se do sossego de uma noite no campo. Haviam precisado de longos e difíceis anos para chegar ali, naquele balanço, naquela varanda, naquela casa. Não se arrependia por um momento sequer de todos os percalços. Nem do sacrifício, da dor, da preocupação, do risco. Porque se arrepender da primeira coisa era se arrepender de tudo. Arrepender-se da primeira era arrepender-se de Bryan. E isso era impossível.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Estava onde queria estar, era o que queria ser, e nenhum fantasma do passado lhe estragaria isso. amor?

Como ousava ele oferecer-lhe dinheiro, se tudo que dele quisera fora seu

De qualquer forma, Jim Morningstar estava morto. O filho-da-mãe cabeçadura e bebedor inveterado cavalgara seu último mustangue, enlaçara o último touro. Agora, esperava-se que Savannah lamentasse a perda. Esperava-se que se sentisse grata porque, no fim da vida, ele pensara nela. Pensara no neto que nunca quisera, nem nunca vira. Ele preferiu o orgulho à filha e à minúscula chama de vida que ela carregava dentro de si. Agora, depois de todo esse tempo, pensou em compensar as coisas com dinheiro! Ao diabo!, pensou Savannah, cansada, e fechou os olhos. Nem milhões a fariam vender o seu perdão. Nenhum advogado de terno elegante, olhos irresistíveis e língua de prata ia fazê-la mudar de idéia. Jared MacKade podia ir para o inferno junto com Jim Morningstar. Não tinha nada que entrar na terra dela como se fizesse parte dali, ficar em pé na cozinha tomando refresco, falando de fundos universitários, sorrindo tão meigo para Bryan... Não tinha direito algum de dirigir-lhe aquele sorriso tão perturbador e mexer com toda a seiva de dentro dela que, por vontade própria, deixara assentar e secar. Também não queria sentar-se ali naquela linda noite primaveril e pensar no longo tempo que fazia desde que abraçara um homem ou fora abraçada. Realmente não queria sequer pensar, mas ele atravessara o gramado e sacudira seu mundo, construído com tanto esforço, em menos tempo que um piscar de olhos. Seu pai estava morto, e ela muito viva. O dr. MacKade tornara esses dois fatos perfeitamente claros numa única visita. Por mais que quisesse evitá-lo, Savannah ia acabar tendo de enfrentar Jared mais uma vez. Tinha certeza de que, se não o procurasse, ele voltaria. Com aquele olhar de buldogue, terno bonito, gravata ou não. Daí, ela teria de decidir o que fazer. E teria de contar a Bryan. O menino tinha o direito de saber da herança. Porém, apenas aquela noite, não ia pensar, nem se preocupar. De repente, pegou-se com o rosto cheio de lágrimas. Os soluços rasgavamlhe a garganta. — Oh, papai...

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade

Capítulo 2 Jared não tinha nada contra o trabalho no campo. Não faria dele um meio de vida, como Shane, mas gostava de se dedicar a ele algumas horas de vez em quando. Desde que pusera a casa na cidade à venda e mudara-se de novo para a fazenda da família, dava sua contribuição sempre que sobrava um tempo. Era o tipo de trabalho de que os músculos nunca se esqueciam, os ritmos fáceis de recuperar. A vontade em uma velha calça jeans, ele retirava fardos de feno para o gado leiteiro. As vacas malhadas de preto e branco seguiam pesadamente para a manjedoura, corpos largos e robustos avançavam aos encontrões balançando os rabos. O cheiro delas era uma lembrança da juventude e, acima de tudo, do pai. Buck MacKade cuidava muito bem das vacas. Ensinara os filhos a vê-las como uma responsabilidade, além de uma fonte de sustento. Para ele, a fazenda era um meio de sustento muito simples, e Jared sabia que Shane também pensava assim. Perguntava-se agora, sempre que retomava a rotina de cuidar da propriedade, o que o pai teria pensado do filho mais velho, o advogado. Na certa teria ficado meio perplexo com o terno e a gravata, com as petições e os processos, com o comparecimento ao tribunal e os compromissos. No entanto, Jared esperava que se sentisse orgulhoso. Precisava acreditar nisso. Mas aquele não era um modo tão ruim de passar um sábado, pensava, depois de uma semana de tribunais e revisão de documentos. Perto, Shane assobiava descontraído uma melodia e arrebanhava as vacas para que se alimentassem. E, Jared percebeu, tinha urna aparência muito semelhante à do pai em ação — calça jeans empoeirada, camisa aberta, corpo musculoso, cabelo mal cortado e boné surrado. — O que você acha da nova vizinha? — gritou Jared. — Hein? — A nova vizinha! — ele repetiu, apontando o polegar em direção à casa de Savannah. — Ah, você quer dizer a deusa? — Shane afastou-se da manjedoura, os olhos sonhadores. — Eu preciso de um momento de silêncio — murmurou e cruzou as mãos no peito. Sorrindo, Jared correu a mão pelos cabelos. — Ela é impressionante, não? — Tem um corpo que... Não tenho palavras. — Shane deu um tapa afetuoso

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade na anca de uma das vacas. — Eu só a vi uma vez. Dei de cara com ela e o filho indo para o mercado. Falei com ela uns dois minutos, fiquei babando por uma hora. — Que impressão teve dela? — Uma gostosa, mano. — Será que você consegue parar de pensar nela de short por um instante? — Posso tentar. — Shane curvou-se para ajudar a partir o fardo. — Bom, ela parece ser uma mulher que sabe cuidar de si mesma e não está a fim de companhia — concluiu. — E boa com o menino. A gente vê pelo jeito como os dois ficam juntos. — Também notei isso. Shane ficou intrigado com o interesse do irmão. — Notou? — Estive lá uns dias atrás. Tinha um probleminha legal. — Ah, sim. — Shane arqueou a sobrancelha. — É segredo? — É. — Jared ergueu outro fardo e cortou a corda. — O que as pessoas falam dela por aí? — Quase nada. Pelo que percebi, morava em Frederick e viu o anúncio da casa no jornal de lá. Depois, chegou voando na cidade, comprou a propriedade, pôs o filho na escola e se isolou na pequena colina. Isso deve ter enlouquecido a sra. Metz. — Aposto que sim. Se a sra. Metz, que é a rainha da língua comprida, não consegue nenhuma fofoca sobre ela, ninguém consegue. — Se você está cuidando de algum negócio jurídico para ela, talvez consiga descobrir alguma coisa. — Não é cliente — disse Jared, deixando o assunto morrer por aí. — O menino aparece por aqui? — De vez em quando. Ele e Connor. — Uma dupla estranha. — É legal ver os dois juntos. Bry é uma espoleta. Tem um milhão de perguntas, opiniões, discussões. — Shane ergueu uma sobrancelha. — Me lembra alguém... — É mesmo? — Papai sempre dizia que se houvesse duas opiniões sobre um mesmo assunto, você teria as duas. O menino é assim. E ainda faz Connor rir. E gostoso

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade de a gente ouvir. — O coitado não tem muito do que rir. Também, com um pai feito Joe Dollin... Shane grunhiu e juntou as cordas descartadas dos fardos. — Bem, Dollin está atrás das grades e fora de cena. — Shane recuou, inspecionando o rebanho e a terra adiante. — Não vai mais espancar Cassie, nem aterrorizar aquelas crianças. O divórcio vai ser concluído logo? — Devemos ter o veredicto em sessenta dias. — Quanto mais cedo, melhor. Preciso ir cuidar dos porcos. Dá para carregar mais um fardo? — Claro. O irmão de Jared se dirigiu ao cercado, pronto para misturar a ração. À visão dele, os porcos começaram a se agitar e grunhir. — E, papai chegou, meninos e meninas. — Ele fala com eles o tempo todo — explicou Bryan. — E eles respondem. — Sorrindo, Shane virou-se e viu que o menino não viera sozinho. Savannah estava com uma das mãos no ombro do filho e um ar simpático. Os cabelos soltos caíam como chuva negra pelos ombros da surrada jaqueta de brim. Shane pensou que os porcos podiam esperar e curvou-se sobre a cerca. — Bom dia! — Bom dia. — A moça avançou, olhando dentro do cercado. — Eles parecem famintos. — Vivem famintos. Por isso é que a gente os chama de porcos. Savannah riu e apoiou o pé na ripa da cerca. Era uma mulher habituada à visão, ao ruído e ao cheiro de animais. — Aquela ali, sem dúvida, está bem alimentada — comentou ela. — Está prenha. Vou ter de separá-la logo dos outros. — Rebentos da primavera... — ela murmurou. -Então, quem é o pai? — Aquele porco de ar presunçoso ali. — Ah, o que a está ignorando. Típico. — Ainda sorrindo, ela jogou os cabelos para trás. — Viemos em uma missão, sr. MacKade. — Shane.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Shane. Ouvi dizer que você tem gatinhos. Ele riu para Bryan. — Convenceu você com lábia, hein? Todo envergonhado, o garoto deu de ombros, mas o rápido e triunfante sorriso o traiu. — Mamãe precisa de companhia quando estou na escola. — Essa é muito boa. Eles estão no celeiro. Vou mostrar. — Não. — Para impedi-lo, Savannah pôs a mão no braço dele. Um brilho no olhar dela disse a Shane que ela sabia exatamente onde estavam seus pensamentos. — Não vamos interromper seu trabalho. Os porcos estão esperando e tenho certeza de que Bryan sabe onde estão os gatinhos. — Claro que sei. Venha, mãe. — O menino puxou-a pela mão, rebocando-a. — São muito legais. Shane tem todo tipo de bichos legais — Aham... — Com um olhar divertido, ela se deixou rebocar. — Animais magníficos! E, pensou, ao ver Jared sair do celeiro com um fardo no ombro, ali estava mais um. Os olhos dos dois se encontraram e logo ele parou, largando o fardo. O terno havia desaparecido. Embora parecesse mais magro de terno, ele era todo músculos. Se ela fosse uma mulherzinha qualquer, talvez ficasse babando por aquele homem. Em vez disso, inclinou a cabeça e falou friamente. — Sr. MacKade. —Sra. Morningstar. — O tom dele foi igualmente frio, mas exigiu-lhe um esforço concentrado para desfazer a tensão no ventre. — Oi, Bryan. —Eu não sabia que trabalhava aqui — começou o menino. — Nunca vi você trabalhando aqui. — Só de vez em quando. — Por que estava de terno naquele dia? Shane nunca usa terno. — Pois é, são os ossos do ofício! E o meu é usar aquela roupa. — Quando o menino riu, Jared notou uma lacuna nos dentes que não havia na véspera. — Perdeu alguma coisa? Orgulhosamente, Bryan encostou a língua na falha. — Caiu hoje. É bom para cuspir.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Eu era o dono do recorde de cuspe à distância aqui. Três metros e meio. Sem vento — gabou-se Jared. Impressionado, Bryan acumulou saliva na boca, concentrou-se e disparou-a. Jared franziu os lábios e assentiu com a cabeça. — Nada mal. — Posso fazer melhor que isso. — Você é um dos melhores da sua categoria, Bryan — disse Savannah impaciente. — Mas o sr. MacKade tem trabalho a fazer e a gente veio ver os gatinhos. — Ééé, eles estão bem ali. O menino foi entrando pelo celeiro. Savannah seguiu-o mais devagar. — Três metros? — ela murmurou, olhando para trás. — O senhor me surpreende sr. MacKade. Tinha um jeito de andar, ele pensou, que enchia os olhos dos homens. Após um rápido debate interno, ele desistiu e entrou atrás dela. — Não são o máximo? — perguntou Bryan, abaixando-se direto no feno ao lado da ninhada de gatinhos adormecidos e da mãe deles, que parecia estar muito entediada. — Têm de ficar com ela durante semanas e semanas, — Com toda delicadeza, ele afagou com a ponta de um dedo a penugem da cabeça de um filhote cinza. — Mas depois a gente pode levar um. Ela não pôde evitar. Ficou enternecida. — Oh, são tão pequeninos. —Agachando-se, cedeu à tentação, ergueu cuidadosamente um deles na mão. — Olha Bryan, cabe direitinho na minha palma. Não é um amor? — Murmurando, aninhou o rosto no pêlo. — Não é lindo? — Eu gosto mais deste. — Bryan continuava afagando a minúscula bola cinzenta. — Vou chamar de Cal. Como o craque de beisebol Cal Ripkin. — Oh. — A macia bóia laranja na mão dela se agitou e deu um fraco miado. O coração dela se partiu. — Tudo bem. O cinza. — Vocês podem levar dois. — Jared entrou no celeiro. A expressão dela, pensou, era um livro aberto. — É bom para eles terem companhia. — Dois? — A idéia explodiu feito mil watts no cérebro de Bryan. — E, mãe, a gente vai levar dois. Um só vai ficar solitário! — Bry... — E não seria mais nenhum problema. Temos um monte de espaço agora. Cal vai querer alguém com quem brincar, com quem passear.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Obrigada, MacKade — ela disse. — O prazer é meu. — E de qualquer modo — continuou Bryan, porque controlou a própria excitação em tempo para ver como a mãe aconchegava o gatinho laranja — assim levamos o que cada um mais gosta. É a maneira justa, certo? — Sorrindo, estendeu a mão para afagar o gatinho alaranjado. — Ele gosta de você, mãe. Olha, está tentando lamber a sua mão. — Está com fome — respondeu Savannah, sabendo ser impossível resistir àquela bolinha fofa em sua mão. — Acho que os dois vão fazer companhia um ao outro. — Falou, mãe. — Bryan espichou-se de um salto e deu-lhe um beijo sem um pingo da vergonha que muitos meninos de nove anos sentiam ao beijar a mãe. — Vou dizer a Shane quais são os nossos. Ele saiu a toda do celeiro. — Você queria isso — disse Jared. — Sou velha o bastante para saber que não posso ter tudo que quero. — Savannah suspirou, acomodando o gatinho para que ele se juntasse aos irmãos em uma mamada matinal. — Mas dois gatos não podem dar muito mais trabalho do que um. Ela começou a se levantar e olhou para cima quando ele pôs a mão em seu braço e a ajudou. — Obrigada. — Ela contornou-o e dirigiu-se para a luz. — Então, você é um rapaz de fazenda que faz bico como advogado ou um advogado que faz bico como rapaz de fazenda? — Tenho me sentido as duas coisas ultimamente. — Ele deu um passo largo para preencher o espaço ocioso entre eles. — Passei os últimos anos em Hagerstown. Quando me mudei para cá, dois meses atrás, tinha um monte de coisas para resolver na cidade. Por isso, não podia dar grande ajuda a Shane e Devin. — Devin? — Ela parou, do lado de fora, onde o sol era forte e esquentava rápido. — Ah, o xerife! Sim, Bryan falou nele. Também mora aqui. —Dorme aqui uma vez ou outra — explicou Jared. — Mas ele mora no escritório do xerife. — Ele combate o crime em uma cidade com dois sinais de trânsito? — Devin leva tudo muito a sério. — Ele olhou adiante, onde Bryan rondava Shane, que tocava as vacas de volta para o pasto. — Aliás, refletiu mais um pouco Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade sobre o patrimônio de seu pai? — Patrimônio. Ora, essa é uma palavra muito séria. Sim, pensei nisso. Conversei com Bryan. — Diante da sobrancelha arqueada de Jared, ela se explicou, com tranqüilidade. — Somos uma equipe, sr. MacKade. Ele tem um voto nisso. Mas temos um jogo da Liga Infantil de Beisebol esta tarde e não quero que se disperse. Terei a resposta na segunda-feira. — Ótimo. — Jared desviou os olhos e estreitou-os. O brilho de advertência nos olhos dele fez Savannah dar um sorrisinho. — Me deixe adivinhar. Seu irmão está olhando de novo para minha bunda. Intrigado, Jared voltou a olhar para ela. — Como sabe, de costas? Ela deu uma risada. — Meu bem, as mulheres sempre sabem. Às vezes deixamos passar. Só isso. — Virou-se rapidamente e deu um sorriso forçado e uma piscadela para Shane. — Bem, vamos, Bryan. Você tem deveres a fazer antes do jogo. Voltou pela floresta com o filho, ouvindo-o falar sem parar sobre os gatinhos, o jogo e os animais da fazenda MacKade. Pelo menos ele estava feliz. Era só o que importava. Savannah fizera um bom trabalho. Sozinha... Conseguiu evitar um suspiro, que alertaria o filho para os problemas que tinha na cabeça. Com freqüência, parecia não saber muito bem o que era certo. — Por que não vai correndo na frente, Bry? Acabe de fazer os deveres e vista o uniforme. Acho que vou me sentar aqui por algum tempo. Ele parou e chutou uma pedrinha. — Por que você fica tanto tempo aí sentada? — Porque gosto daqui. Bryan examinou o rosto da mãe, à procura de sinais. — Nós vamos ficar de verdade neste lugar? — perguntou. Com o coração enternecido, ela se curvou e o beijou. — Sim, vamos ficar de verdade neste lugar. O sorriso dele foi radiante. — Que bom! — disse, e saiu disparado, deixando-a parada em pé ali sozinha. Savannah se sentou em um tronco, fechou os olhos e esvaziou a cabeça. Tanta coisa tentava atrapalhar — lembranças, enganos, dúvidas. Forçou-se a

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade afastá-las e se concentrou no sossego e no lugar, em sua própria mente, isentos de preocupação. Era um truque que aprendera na infância, quando a confusão da vida havia sido grande demais para enfrentar. Longas viagens em uma picape caindo aos pedaços, horas infindáveis em cercados malcheirosos, vozes altas, fome, os gritos de bebes irritados, o frio de quartos sem aquecimento... Todas as lembranças podiam ser controladas, se ela conseguisse meditar durante alguns minutos. As decisões tornavam-se mais claras, e a confiança mais fácil de recuperar. Fascinado como se deparasse com uma deusa, Jared a observava. O rosto exótico estava com ar calmo, o corpo inteiramente imóvel. Não ficaria surpreso se visse uma borboleta ou um pássaro pousar no ombro dela. Aquelas matas sempre haviam sido dele. Era seu recanto, íntimo. Vê-la ali, contudo, não parecia uma intrusão. Era algo esperado, como se tivesse certeza de que iria encontrá-la ali e soubesse o exato momento de olhar. Percebeu que temia piscar os olhos, como se naquela fração de segundo ela pudesse desaparecer e nunca mais ser encontrada. Savannah abriu os olhos devagar e olhou direto nos olhos de Jared. Por um momento, nenhum dos dois foi capaz falar. A respiração de Savannah ficou presa na garganta. Habituara-se a ver homens olhando-a. Faziam isso desde que ela era criança. Podia ficar aborrecida, achar graça ou se interessar. Mas nunca ficara muda como agora, sob a influência daquele par de olhos verdes fixados sobre ela. Ele tomou a iniciativa, avançando para mais perto, E o mundo recomeçou mais uma vez. — Eu detesto declarar o óbvio — disse ele, com os joelhos um tanto bambos, sentando-se no tronco ao lado de Savannah, mas você é deslumbrante. Mais firme naquele instante, a musa morena de Jared inclinou a cabeça. — Não devia estar arando um campo ou algo do tipo? — Shane se apoderou do trator. E você não está indo a um jogo de beisebol? — É só daqui a duas horas. — Ela respirou fundo, aliviada ao sentir que o ar entrara e saíra sem dificuldade. — E afinal, quem está invadindo a propriedade de quem? — Tecnicamente, os dois. — Ele tirou um charuto fino e procurou um

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade fósforo. — As terras são do meu irmão. — Imaginei que a fazenda fosse de todos vocês. — E é. — Jared deu uma baforada e viu a fumaça se espalhar. — Toda esta faixa aqui é do Rafe. — Rafe? — a moça franziu as sobrancelhas. — Você tem outros irmãos? — Somos quatro ao todo. Ele tentou conter a surpresa quando ela lhe tomou o charuto dos dedos e deu um trago casual. — Quatro irmãos MacKade! É um milagre que a cidade tenha sobrevivido. E nenhuma das mulheres conseguiu laçar vocês? — Rafe é casado. Eu já fui. — Ah. — Savannah devolveu-lhe o charuto. — E agora está de volta à fazenda? — Isso mesmo. Na verdade, poderia estar morando na sua casa hoje. — É mesmo? — É. Minha casa na cidade está à venda. Ando à procura de algum lugar perto daqui. Mas você já tinha fechado contrato quando me interessei pelo lugar. — Ele pegou um graveto e começou a desenhar um mapa na terra. — A fazenda — disse ele, traçando linhas. — A casa de Rafe. A cabana. Savannah apertou os lábios ao ver o triângulo. — Hum... Os MacKade teriam sido donos de uma bela propriedade na montanha. Perdeu o lance, dr. MacKade. — É o que parece, sra. Morningstar. — Acho que pode me chamar de Savannah, já que somos vizinhos. — Tirando o graveto da mão dele, ela apontou um dos vértices do triângulo. — Esta aqui. É a de pedra, que se vê na colina do outro lado da estrada para a cidade? — Essa mesma. A antiga Mansão Barlow. — A mal-assombrada... — Já ouviu as histórias? — Não. Por quê? — Ela olhou-o, interessada. — Há histórias? Jared levou apenas um momento para ver que ela não estava brincando. — Por que disse que era mal-assombrada? — A gente sente — ela respondeu simplesmente. — É bem típico dessas

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade florestas. — Como ele não deixava de olhá-la intrigado, explicou. — Tenho sangue indígena. Sinto essas coisas. Parte de mim é apache. Meu pai gostava de dizer que era de sangue puro, mas... A moça deixou a frase solta. — Mas? — Tem italiano, mexicano e até um pouco de francês misturados. — Sua mãe era descendente de quem? — Inglês e mexicano. Disputava as provas dos três tambores em rodeios. Era campeã. Sofreu um acidente de carro quando eu tinha cinco anos. Não me lembro dela muito bem. — Os meus pais também se foram. — De camaradagem, ele ofereceu-lhe o charuto. — É duro. — Mais ou menos. Perdi meu pai há dez anos, quando ele me chutou para fora de casa. Eu tinha dezesseis anos e estava grávida de Bryan. — Sinto muito, Savannah... —Eu já superei... — Devolveu-lhe o charuto. Não sabia por que lhe contava aquelas coisas a não ser pelo fato de que ele era um bom ouvinte. — O negócio é o seguinte, Jared. Você não imagina o que oito mil dólares teriam significado para mim dez anos atrás. Droga, houve um tempo em que até oito dólares fariam diferença entre... Bem, isso não importa. Sem pensar, ele pegou na mão dela. — Claro que importa. Ela fechou a cara, afastou a mão devagar e se levantou. — Tenho de pensar em Bryan. Por isso, vou conversar mais sobre isso com ele. — Deixe-me dizer mais uma vez o óbvio. Você fez um trabalho maravilhoso criando seu filho. Savannah sorriu. — Nós criamos um ao outro. Mas obrigada. Vou entrar em contato. — Olha... — Ele se levantou e a encarou. — Esta é uma cidade boa, generosa. Ninguém precisa ficar sozinho aqui, a não ser que queira. — É mais uma coisa em que tenho de pensar. A gente se vê por aí, dr. MacKade. Jared não ia a um jogo da Liga Infantil de Beisebol havia anos. Quando

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade estacionou o carro no parque e tomou consciência dos aromas e ruídos, perguntou-se por quê tinha ido. A arquibancada de madeira estava lotada e barulhenta. As crianças que não se achavam no campo corriam ou lutavam sob a sombra das barraquinhas. Ele parou o carro em uma longa fila de outros veículos junto ao acostamento da estrada e foi andando pela grama esburacada. Procurava Savannah, mas foi o pequeno Connor Dollin que lhe atraiu a atenção. Cabisbaixo, o menino de cabelos claros esperava em silêncio na fila da comida, enquanto dois garotos parrudos, mais velhos, o atormentavam. Connor agüentava bravamente os empurrões e os tapas da dupla. A mulher na frente da fila falou algo para eles, mas não obteve sucesso algum. — Olá, Connor! — interveio Jared, disparando um olhar que fez os brigões saírem correndo. — Como tem passado? — Bem... — o menino se sentia tão humilhado que ficou vermelho e empapado de suor — Eu... eu tenho de comprar cachorros-quentes e umas outras coisas. — Sei... — A maneira dos machões, Jared sabia melhor das coisas. — Por que não está jogando? — Não sou bom nisso — respondeu o menino de forma trivial. Estava tão acostumado a ouvir que não era bom que não questionava mais isso. — Mas Bryan está jogando. Bryan Morningstar. É o melhor do time. — É mesmo? — Comovido pela repentina luz naqueles tímidos olhos azuis, Jared estendeu a mão e levantou o boné dele, para ver melhor o rosto do garoto. Connor levou um susto, ficou imóvel e lembrou a Jared que a vida não fora só jogos de beisebol e cachorros-quentes para aquele menino de nove anos. — Em que posição ele joga? Envergonhado por sua falta de coragem, Connor olhou para o chão. — Perto da segunda base. — É? Eu jogava perto da segunda base. — Sério?! — Isso mesmo. Devin jogava na terceira e... — O xerife MacKade jogava beisebol? — O espanto agora se transformava em veneração ao herói. — Aposto que ele era bom à beça! — Jogava direitinho — respondeu Jared, orgulhoso demais para admitir que jamais conseguira vencer Devin nas rebatidas. — Quantos cachorros-quentes você quer, Connor? Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Eu tenho dinheiro. Mamãe me deu dinheiro. A sra. Morningstar também. Jared lhe entregou o primeiro cachorro-quente e o viu espremer uma linha de mostarda no sanduíche. — Sua mãe e sua irmã estão aqui? — Não. Mamãe está trabalhando e Emma está com ela no restaurante. Mas mamãe disse que não tinha problema eu vir assistir ao jogo. O advogado acrescentou bebidas ao pedido e pôs tudo em uma caixa de papelão fino. — Pode segurar isto? — pediu a Connor. — Sim, claro. — Satisfeito por receber a tarefa, o menino foi para as arquibancadas, segurando a caixa cheio de cuidados. — Estamos ali em cima, porque a sra. Morningstar diz que se vê melhor do alto. Ao se aproximarem do local, Jared a viu sentada, segurando o queixo, compenetrada. E os olhos, embora protegidos por óculos escuros, fixados no campo. Errara nisso. Na verdade, ela o observava enquanto ele lançava um sorriso fatal para alguém ou fazia uma saudação rápida quando alguém o chamava. Aliás, pudera notar que várias mulheres empertigavam os ombros ou ajeitavam os cabelos à passagem de Jared por ali. Era o que um homem com uma aparência daquelas fazia às mulheres, imaginou Savannah. Tornava-as instintivamente conscientes de si em um nível físico. Como se fosse feromônio. O perfume do sexo. Andando arquibancada acima com o menino, ele cumprimentava uma ou outra pessoa. Savannah pegou a jaqueta que pusera no lugar de Connor e a enfiou no gradil. — Belo dia para um jogo, não? — disse Jared, sentando-se ao lado dela e pegando a caixa da mão do garoto. — Está lotado! — Agora está. Obrigada, Con — agradeceu Savannah. — Foi o sr. MacKade que comprou — informou o menino, devolvendo-lhe o dinheiro. A moça começou a dizer-lhe que ficasse com ele, mas sabia que era orgulho. — Obrigada, sr. MacKade. — Qual é o placar? — Estamos perdendo de um, no final da terceira entrada. — Ela deu uma

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade mordida no cachorro-quente. — Mas o craque dos nossos batedores vem aí. — Bryan bate a terceira. — Connor mastigou e engoliu, educadamente, antes de falar. — Ele tem a maioria dos runs. Jared viu o filho de Savannah aparecer com o vistoso uniforme laranja do time, patrocinado pelo Café da Ed. — Já conheceu Edwina Crump? — murmurou Jared perto do ouvido de Savannah. — Ainda não. É a dona do restaurante onde Cassie trabalha, não é? — É. Agradeça por seu filho não estar usando um uniforme rosa. Savannah ia comentar alguma coisa, mas preferiu dar um grito de torcida encorajador. A multidão berrou com ela quando o batedor correu para a primeira base. — Ele vai tentar um run, não é, Con? — Sim. Aquele é J. D. Bristol. E um bom corredor. Ela devorou o cachorro-quente, nervosa, quando o segundo batedor errou o lance e o juiz não marcou. Alguém xingou o homem e várias discussões irromperam nas arquibancadas. — Parece que esses jogos continuam a ser levados muito a sério — comentou Jared. — Beisebol é um jogo sério — resmungou Savannah, sentindo o estômago embrulhar quando Bryan avançou para o pequeno quadrilátero do batedor. A torcida incentivava: — Vai garoto! — gritou alguém. — Você tem o taco bom! — Do jeito que o lançador está arremessando, ele vai precisar de uma tocha. Ninguém está acertando aquela bola direito hoje. Savannah enfiou o joelho com força no homem à sua frente, que fizera o comentário. — Espere para ver. Meu filho vai pegar todas as bolas — avisou a orgulhosa mãe. Jared riu e recostou-se no alambrado. — É, beisebol é um negócio sério mesmo. Bryan deu um giro violento e só atingiu o ar com o taco. — Aposto um dólar como ele derruba o corredor. — Não gosto de apostar contra o seu filho, nem contra o time de casa, mas

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade os MacKade são homens de palavra. Aposto um dólar! — aceitou Jared. Bryan prosseguiu em sua atuação de batedor. Fez cera, chutou a terra com o pé esquerdo, depois com o direito, ajustou o capacete e ensaiou dois lances. — Olho na bola, Bry... — ela murmurou, já imaginando o filho saindo correndo do quadrado da base. — Não tire o olho da bola! Ele não tirou... A bola passou voando por ele e encaixou-se na luva. — Segundo ponto! — Que diabos de arbitragem é essa? — ela se indignou. — A bola foi baixa e fora. Todo mundo viu que foi baixa e fora! O sujeito da frente virou-se para trás e concordou com Savannah. — Com certeza, foi. O juiz é que deve ser cego, não é, dona? — Bem, alguém tem que pegar esse homem e dar um chute no... — Ela notou que Connor a olhava espantadíssimo —... na zona da rebatida — completou a frase. — Boa saída — disse Jared baixinho, vendo Bryan avançar mais uma vez para a base. O lançador rodopiou e mandou ver. Bryan deu uma tacada poderosa, que pegou a bola em cheio. Ela saiu voando, passando por cima das luvas. — Lá se foi! — gritou Savannah, com o resto da torcida. — É isso aí, Bry! Encenou uma dança de vitória mexendo os quadris de um jeito que distraiu Jared e o impediu de ver a corrida das bases. Continuou berrando, enquanto Bryan contornava as bases até pisar com força no quadrilátero do próprio time. boca.

Para terminar, ela agarrou o novo amigo à frente beijou-o em cheio na — Ele foi muito bom, não? O homem, uns trinta anos mais velho, corou feito um menino. — Sim, dona, com certeza, e como!

— Você não faz exatamente o gênero retraído e tímido, não é? — comentou Jared. — Pague a aposta — ela cobrou, estendendo a mão. Jared pegou a nota e entregou. — Foi merecida. — Você ainda não viu nada, dr. MacKade!

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade O advogado só pensava na promessa daquelas coxas curvilíneas e, sinceramente, esperou que não.

Capítulo 3 Na certa era um erro, pensou Savannah, ficar ali sentada com Jared MacKade, no restaurante da Ed, tomando sorvete. Mas ele havia sido muito persuasivo. Bryan e Connor adoraram quando o advogado resolveu presenteá-los com um sundae pela vitória dos Cannons de Antietam. E isso lhe deu a oportunidade de vê-lo perto de Cassandra Dollin. A mãe de Connor era uma coisinha frágil. Loura e bonita feito uma boneca de porcelana, com uns olhos tão assustados que deixavam qualquer um arrasado. Jared foi muito gentil com ela, muito carinhoso e a fazia sorrir... Evidentemente, fazia o tipo tímido, vulnerável — A praia dele. — Vamos, Cassie, tome sorvete com a gente. — Não posso. — Cassie parou junto à mesa o tempo suficiente para afagar os cabelos da filha, que devorava um sundae coberto de calda de chocolate. — Estamos muito ocupadas. Mas agradeço por você fazer um agrado às crianças, Jared. Era magra o bastante para ser lançada ao ar por uma brisa de primavera, pensou Jared, erguendo a colher cheia de sundae. — Ah, tome só um pouquinho! A mulher corou. Porém, abriu a boca, obediente como uma criança, quando ele levou a colher aos seus lábios. — Está uma delícia! — disse ela. — Ei, Cassie, os hambúrgueres estão prontos! — Já vou... Ela se apressou para pegar os pedidos no balcão, onde Edwina Crump reinava suprema. A dona do restaurante deu uma piscada maliciosa para Jared, O fato de ser vinte anos mais velha que ele não a impedia de apreciar um homem bonito. — Ei, bonitão, não tenho visto você aqui com muita freqüência — falou ela, Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade ajeitando o penteado cafona. — Quando vai me levar para dançar? — E só você me convidar, Ed. Ela deu uma risada, balançando o corpo ossudo. — Tem uma banda sensacional na Legião hoje à noite. Quem sabe não vamos lá? — sugeriu, voltando para a cozinha. Sorrindo, Savannah apoiou os cotovelos na mesa. — Aposto que essa Legião deve ser muito animada. — Você se surpreenderia. Quer ir? — Obrigada. Fica para a próxima. Bry, acha que pode pôr ainda mais que isso na boca de uma só vez? — perguntou ao filho. Ele encheu a boca de sorvete, calda de caramelo e castanha picada. — Está uma maravilha! — exultou o garoto. — Como é o gosto do seu, Con? — Para saber por si mesmo, estendeu a mão até o outro lado da mesa e mergulhou a colher no do amigo. — De morango é bom também. Mas ainda prefiro o de caramelo. Desejoso de estar enganado, lançou um olhar cobiçoso ao sundae com calda de chocolate de Emma. — Não... — disse Savannah com brandura, observando a menina de cinco anos proteger a tigela com a mão. Emma podia ser calada, mas não era boba. — Coma sossegada, meu bem — tranquilizou-a. — Aposto que você deixa esses dois meninos embaixo da mesa. — É que eu gosto muito de sorvete — disse Emma, com um de seus raros sorrisos. — Eu também. E o de calda de chocolate é o melhor, não é? — E — concordou a menina. — E o com chantilly. A srta. Ed dá um monte para gente. — Largou a colher com todo cuidado ao lado da tigela vazia. -Bom, agora já posso ir à loja da Reagan. — Quem é Reagan? — quis saber Bryan. — É uma amiga da mamãe — respondeu-lhe Connor. — Tem uma loja cheia de coisas legais logo ali na rua. — Vamos lá? — perguntou o amigo. Antes de ele sair, Savannah pôs a mão no seu braço. — Bryan... — Ah, sim, obrigado, sr. MacKade. O sorvete estava uma delícia! Vamos,

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Con. — Obrigado, sr. MacKade — agradeceu Connor. — Obrigada — disse Emma, segurando a mão do irmão. — De nada— respondeu Jared. — Cumprimentem Reagan por mim. — Pode deixar. Mãe! — gritou Connor — nós vamos lá na loja da Reagan! — Não mexam em nada — recomendou Cassie, equilibrando dois pratos em um braço e servindo com o outro. — E voltem logo, se ela estiver ocupada. — Tá bem, mãe. Bryan já cruzara a porta para a rua. Connor seguia devagar, atrapalhado pelo passo lento da irmã menor. — Eu diria que você conseguiu um feito e tanto — comentou Savannah, recostando-se no banco. — Você também. Foi uma das mais longas conversas que já tive com Emma. — Deve ser difícil ser tímida. Ela parece um anjo. Como a mãe. Anjos que já haviam passado pelo inferno, pensou Jared. — Cassie tem sido incrível com eles, sozinha. Você ia gostar de ver. — É, ia sim. — Savannah lançou um olhar para onde Cassie se ocupava limpando um compartimento. — Vocês são... íntimos? — Eu a conheço desde pequeno, mas não da maneira que você pensou. É uma grande amiga. — Satisfeito por vê-la interessada o suficiente para perguntar, ele pegou um charuto. — E cliente. Qualquer coisa além de amizade seria antiética. — E você é um homem muito ético, não, dr. MacKade? — Sou mesmo. Sabe, você nunca comentou sobre o que faz. — Em relação ao quê? — A ganhar a vida. — Tenho feito todo tipo de coisas... — Aposto que sim... — No momento, sou ilustradora. De livros infantis, a maioria. Não se encaixa muito na imagem, não é? — perguntou, rindo. — Não sei. Eu teria de ver alguns de seus desenhos. — Ele ergueu os olhos. — Ei! Dev! Savannah deslocou-se para ver o homem que acabara de entrar. Tinha a mesma beleza de Jared, era alto, corpo rígido e esculpido.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Devin varreu com os olhos a sala, inspecionando os detalhes, à procura de problemas. Ela percebeu que aquele era o irmão xerife. Sabia identificar um rira a um quilômetro de distância. — Vi seu carro — disse Devin ao irmão. Após uma rápida examinada no restaurante e um rápido sorriso para Cassie, sentou-se ao lado de Jared. — Savannah Morningstar, este é Devin MacKade. — Prazer em conhecê-la. — Devin percebeu seu olhar fixo. Depois, um calafrio percorreu sua espinha. — Você comprou a casa do médico, não? — Isso mesmo. E a minha casa, agora. — Deve ser seu filho o menino com quem topei na fazenda. Bryan, não? — Sim, Bryan é meu filho. Com licença, é melhor eu ir ver o que aquelas crianças estão aprontando. Devin a viu levantar-se da mesa e sair rapidamente. — Ei, que diabos há com essa moça? — perguntou. — Eu não sei. Mas vou descobrir — respondeu Jared, tirando o dinheiro do bolso. — Quer um palpite? — o xerife abriu espaço para o irmão sair do compartimento. — Ela teve algum problema com a lei. Droga, droga, droga. Na calçada, Savannah se esforçava para recuperar a compostura. Que coisa mais idiota, repreendeu a si mesma. O problema de se deixar relaxar era que todo tipo de coisa ruim acontecia. Percebeu também que não sabia onde ficava a tal loja da Reagan. Só queria pegar o filho e levá-lo para casa. — Quer me explicar o que acabou de acontecer? — perguntou Jared, chegando por trás e pondo a mão em seu.ombro. Savannah respirou fundo, antes de se virar. — Eu terminei meu sorvete, ora! — Então talvez devesse andar para gastá-lo. O advogado fechou os dedos em volta do braço dela e a viu desprendê-lo violentamente. — Pára de me segurar! — disse ela, irritada. Jared sentiu o mau gênio MacKade baixar. — Ótimo. Mas precisa ser tão grosseira?

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Eu sou grosseira muitas vezes — rebateu. — Principalmente com policiais. Odeio policiais! Eles ficam um grau abaixo dos advogados. Não estou interessada em confraternizar com nenhum dos dois. Para que lado foram as crianças? — Me parece que estávamos fazendo uma confraternização, não? — Agora não estamos mais. Volte e converse sobre lei e ordem com seu irmão. — Os antigos medos não haviam desaparecido. — Pode dizer para ele levantar minha ficha nos arquivos policiais. Não tenho nada. Tenho um emprego e dinheiro no banco. — Melhor para você — respondeu Jared, sem alterar a voz. — Por que Devin deveria desconfiar de você? — Porque os tiras e os advogados adoram meter o bedelho nos negócios das outras pessoas. E o que você tem feito comigo desde o início. O jeito de eu viver e como eu educo meu filho são assuntos meus e de mais ninguém. Por isso, dê o fora. Era fascinante. Mesmo com o próprio mau gênio borbulhando, era fascinante vê-la ferver de raiva. — Ainda não me meti no seu caminho, Savannah. Você saberá quando eu fizer. No momento, só estou pedindo unia explicação. Não entendia como ele fazia aquilo. Continuava falando daquela maneira controlada, racional. Detestava as pessoas que conseguiam isso. — Já lhe dei a explicação. Agora, cadê meu filho? Jared continuou olhando-a. — Na Past Times... a duas portas daqui. Quando ela começou a dar meiavolta, Jared tomou-lhe mais uma vez o braço. — Eu já disse que não... — Agora me escute. Você não vai chegar lá dentro feito um furacão. O fogo nos olhos dela podia queimar um homem na hora. — E melhor tirar a mão de mim, antes que eu machuque esse seu rosto bonitinho... Ele apenas apertou mais a mão. Em circunstâncias diferentes, talvez apreciasse vê-la tentar. — Há duas crianças maltratadas naquela loja — Jared começou. A expressão dela mudou da água para o vinho. — Connor e Emma... Eu devia ter percebido.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Aquelas crianças viram a mãe ser espancada pelo pai. E isso é mais violência do que qualquer um merece. Se fizer algo estúpido lá, vai... — Não tenho o hábito de assustar crianças — rebateu ela, irada. — Eu sou uma boa mãe, ouviu? Bryan jamais teria sobrevivido sem mim. Ele teve o melhor que eu pude dar e... Savannah fechou os olhos e conteve a raiva. — Solte meu braço — ela pediu, agora com calma. Jared acabou soltando o braço dela. Viu-a encaminhar-se para a loja de Reagan e suspirar antes de abrir a porta. Devin saiu do restaurante. Parou ao lado do irmão e coçou a cabeça. — Foi um espetáculo muito interessante. — Acho que isso é apenas o começo. — Intrigado, Jared enfiou as mãos nos bolsos. — Tem algo acontecendo mesmo. — Uma mulher como essa poderia fazer a gente esquecer o próprio nome. — Devin olhou para o irmão. — Você se lembra do seu? — Sim, vagamente. Ela deve ter mesmo problemas com a lei. Devin estreitou os olhos. A lei, a cidade e todos nela eram de sua responsabilidade. — Posso fazer um levantamento sobre ela nos arquivos da polícia. — Não, não faça isso. E exatamente o que ela espera. — Pensativo, Jared voltou-se em direção ao carro. — Vamos ver o que acontece primeiro. — Você é quem manda — respondeu Devin, assumindo o volante. Você é quem manda... Desde que a moça fique longe de encrencas. Bryan olhava para fora pela janela do carro, o rosto virado para a mãe. Não entendia por que Connor não podia passar a noite na sua casa. Era sábado, e faltavam ainda horas e horas para a segunda-feira chata chegar. Serviços de casa, pensou, rolando seus olhos escuros para cima. Dever de casa também. Seria melhor estar na prisão. — Seria melhor estar na prisão — falou em voz alta, encarando com olhar desafiador. — É claro, lá você joga bastante beisebol, toma muito sundae. — Eu não tenho nada para fazer em casa — ele se queixou... o desesperado lamento de todo menino de nove anos. — Eu vou lhe arranjar algo para fazer — rebateu Savannah, com a típica

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade resposta de toda mãe frustrada. — Desculpe, Bry, tenho muita coisa em que pensar. Realmente não é uma boa noite para receber um amigo. — Eu podia ter ficado na casa de Con. A mãe dele não ia se incomodar. Golpe baixo, pensou Savannah, tomando a subida da alameda. — Bem, a sua se incomoda. E pode começar a recolher o lixo e a limpar o quarto. Depois, vá estudar matemática para não ficar em recuperação. — Maravilha! — ironizou ò menino. Assim que ela parou o carro, Bryan saltou e bateu a porta com força. Resmungou outro comentário birrento. — Bryan Morningstar. — Ela açoitou-o ao chamá-lo pelos dois nomes. Quando ele se virou rápido, desafiaram-se com o olhar, a cor de fúria subindo pelas maças do rosto, os olhos quase pretos de rebeldia. — Por que diabos você ê tão parecido comigo? — ela exigiu saber. Lançou o rosto para o céu. — Eu bem que podia ter tido uma menina boazinha, calma, bem educada, se tivesse tentado pra valer. Por que achei que gostaria de ter um menino arrogante, de gênio ruim e pés grandes? Isso o fez apertar os lábios. — Para recolher o lixo da casa. Uma menina ia choramingar e dizer que era sujo demais. — Engraçadinho! Na verdade, acho que eu mesma vou jogar o lixo fora e pôr você dentro dele. Savannah fez menção de agarrá-lo, porém o filho recuou, rindo. — Você é velha demais para me pegar. — Ah, é? Ela disparou atrás do filho. O garoto ficou vaiando e debochando dela, o que foi seu erro. Savannah o pegou se aproveitando mais da experiência do que da velocidade, e caiu com o menino na relva. — Quem é velha, hein, seu bobinho? — Você! — ele se acabou de rir. — Já tem quase trinta anos! — Não sou. Retire o que disse. Retire, e faça os deveres de matemática, Einstein. Vinte e seis para trinta dá quanto? — Nada! Dá zero! — a mãe lhe fez cócegas e ele se rendeu. — Quatro, tudo bem? Quatro. — Lembre-se de que ainda posso derrubar você — puxou-o para junto de si, o abraçou forte. — Eu amo você, Bryan. Eu amo muito você. — Nossa, mãe — o garoto contorceu-se, surpreso. — Eu sei disso... Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Lamento ter falado irritada com você. Ele revirou os olhos, mas algumas lágrimas de remorso brotaram em meio ao constrangimento. — Acho que eu também. — Você e Connor podem passar a noite juntos na semana que vem. Prometo. — Valeu, que legal! Como ela não o soltou, o menino fez uma cara feia. Mas não era tão ruim assim deixar que o abraçasse... pois nenhum dos caras estava ali para ver. A mãe tinha um cheiro gostoso e os braços macios. Ela sempre estivera ao seu lado. Sempre estaria. Apoiou a cabeça no ombro de Savannah e deixou que ela afagasse seus cabelos. — A gente podia talvez cozinhar na grelha mais tarde. — Claro. Quer super-hambúrgueres? — Isso! E batata frita. — Que é um super-hambúrguer sem batata frita? — ela murmurou, dando um suspiro. — Bryan, Con lhe contou alguma coisa sobre o pai dele? Notou o filho ficar paralisado e deu um leve beijo nos cabelos dele. — É um segredo? — Mais ou menos. — Não quero violar uma confidência. Eu descobri hoje que o pai de Connor batia na mãe. Achei que se Con tivesse lhe contado, talvez você quisesse conversar sobre isso comigo. Ele queria, desde que Connor lhe contara. Mas Connor chorara um pouco... embora Bryan tivesse fingido não perceber. E simplesmente não se contava à mãe esse tipo de coisa. — Con me disse que o pai está na cadeia por bater nela. Disse que ele machucava a mãe de verdade e bebia de montão. Os dois estão se divorciando. — Entendo. — Savannah vira muitos homens como Joe Dollin em sua vida e os desprezava. — Ele batia também em Con? E em Emma? — Na Emma, não. Mas no Con, sim. Não quando a mãe estava perto e podia ver. Xingava Con de nomes feios e o sacudia. Dizia que Con era um mariquinhas por gostar de ler e escrever histórias. Con não tem nada de mariquinhas. — Claro que não. — Ele só é muito inteligente. Mal precisa estudar para a prova. — Ao

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade desviar o olhar para a floresta, seu rosto foi tomado pela raiva. — Alguns dos meninos aprontam com ele por causa de várias coisas. Do pai na cadeia... Dizem que ele é o bichinho de estimação da professora, que ele não sabe jogar beisebol. Mas fogem quando eu chego. Esses valentões são uns idiotas, né? — São mesmo. — Ela deu um suspiro. — Bryan, eu preciso conversar com você. Lembra aquele dia, quando você chegou e o sr. MacKade estava aqui? — Claro. — Ele é advogado e veio aqui a negócios. — A gente está correndo perigo? — Não. Não estamos. Ele veio... Meu pai morreu, Bryan. — Ah! — Ele sentiu apenas uma leve surpresa. Jamais conhecera o avô, só sabia da existência dele porque a mãe explicara que Jim Morningstar era peão de rodeio. — Imagino que era bem velho. — É. — Cinqüenta anos? Sessenta? Não tinha a mínima idéia. — Eu nunca expliquei as coisas direito a você. Seu avô e eu tivemos uma briga há muito tempo. Daí eu saí de casa, — Como poderia dizer a essa criança, essa linda criança, que ele fora a causa? — Nós dois meio que perdemos o contato. — Como o sr. MacKade soube que ele rinha morrido? Ele conhecia o meu avô? — Não, é coisa de advogados. Seu avô se machucou e acho que isso o fez começar a pensar. Contratou um advogado em Oklahoma para encontrar a gente. O tal advogado ligou para o sr, MacKade. Tudo isso levou algum tempo. Depois o sr. MacKade veio me contar. E me comunicou que o seu avô deixou um dinheiro. — Uau, é mesmo? — Uns sete mil e tanto. — Dólares? — Bryan terminou por ela, os olhos brilhando. Era todo o dinheiro do mundo. O bastante para comprar uma bicicleta, uma luva de beisebol nova... — Vamos ficar com a grana? — Eu tenho de assinar alguns documentos. Os cifrões de dólares desapareceram-lhe dos olhos tempo suficiente para ele ler a expressão da mãe. — Como é que pode você não querer? — Eu... Oh? Bryan... — Não sei como explicar isso a você. Fiquei tão danada com seu avô todos esses anos! Bryan afagou-lhe a cabeça e refletiu.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — É como se ele estivesse pedindo desculpas? E se você aceitar é como se quisesse dizer que você também pede desculpas? Ela deu uma risada da simplicidade do raciocínio dele. — Por que eu não consegui pensar nisso? Acha que devemos aceitar o dinheiro? — Acho que não precisamos aceitar. Quer dizer, você tem seu emprego e temos uma casa agora. — Não... Nós não precisamos. — Não precisavam e por isso mesmo aceitariam. — Vou procurar o sr. MacKade na segunda-feira e dizer a ele que transfira o dinheiro. — Legal! — Bryan pulou de alegria. — Eu vou ligar para o Con e contar que estamos ricos. — Não. Ele parou de repente. — Mas, mãe... — Não. Gabar-se de ter dinheiro não é nada legal. E é bom que eu lhe diga logo. Vou depositar o dinheiro em uma conta, para a sua faculdade. Ele abriu a boca até quase os pés. — Faculdade? Isso é para daqui a cem anos. Talvez eu nem taça uma. — A decisão vai caber a você, mas o dinheiro vai ficar lá. — Oh, meu Deus! — Aos nove anos, Bryan sentia a dor de uma fortuna recém-perdida. — Todo? — Todo... — a expressão desconsolada do filho mudou a decisão dela no meio caminho — menos um pouco. Você pode ganhar uma coisa. Será um presente do seu avô. A esperança voltou. — Qualquer coisa? — Qualquer coisa logicamente aceitável. Um carro, por exemplo, não daria... Ele soltou um grito de viva, e abraçou-a. — Vou ter de procurar alguma coisa no meu guia de preços de cartões de beisebol. Ela viu-o afastar-se, a pleno vapor, alcançar a varanda e entrar casa adentro em disparada, deixando a porta de tela bater.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Mais tarde, quando ela grelhava os hambúrgueres na varanda e Bryan estava enroscado com o guia de preços e sonhos de glória, Jared sentava-se no outro lado da floresta mal-assombrada e pensava em Savannah. Sentia-se tentado, muito tentado, a atravessar aquela floresta e terminar a discussão que ela começara naquela tarde em frente ao restaurante da Ed. As mulheres nervosinhas não faziam seu tipo. Mulheres com temperamento explosivo e passado sombrio menos ainda. Não que ela não fosse interessante. Mas sua vida seguia em um ritmo muito confortável no momento. Teria gostado da companhia dela — algo superficial, claro. Alguns encontros, talvez. Afinal, até um morto teria fantasias com uma mulher daquela. E ele não estava morto. Mas tampouco era idiota. A mulher que explodira com ele naquela tarde não passava de pura encrenca. A última coisa de que um temperamento quente precisava era colidir com outro. Por isso ele preferia mulheres calmas, comedidas e racionais. Como a ex-mulher, pensou com uma careta. Era tão calma que às vezes sentia vontade de pôr um espelho diante de sua boca para ver se ela ainda respirava. Porém, isso era outra história. Antes de qualquer coisa, na segunda-feira de manhã, redigiria uma carta aconselhando Savannah Morningstar sobre sua herança e os passos exigidos para aceitá-la ou recusá-la. Não se incomodava de sujar as mãos, suar ou até perder o sono por um cliente. Mas ela não era nem uma maldita cliente. Era só uma cortesia profissional para um colega! Ia cair fora. Diabos, a mulher tinha um filho. Um menino muito interessante... No entanto, isso transcendia a questão. Se quisesse ter um relacionamento com ela, sabia que também envolveria o filho. Não havia a menor possibilidade de isso acontecer, admitiu, nem deveria. Além disso, havia o fato de que, sob aquela beleza estonteante, havia um osso duro de roer. Sem a menor dúvida, circulara bastante, era esperta e, provavelmente, passara por poucas e boas. Uma mulher não adquiria isso passando o tempo todo em casa assando biscoitos. Jared tinha certeza de que ela podia engolir um homem, cuspi-lo, e fazê-lo voltar se arrastando pedindo mais. Bem, não ele. Sabia lidar com aquilo. Se quisesse... E, meu Deus, queria! Atordoado, Jared se levantou e se dirigiu rumo à floresta. Precisava Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade andar, e preferia a companhia de fantasmas à dos próprios pensamentos.

Capítulo 4 — Boa tarde, escritório jurídico MacKade. — Sissy Bleaker, a secretária de Jared, atendeu o telefone. Eram quinze para as cinco, a moça tinha um encontro dali a uma hora e o chefe agira como um urso com um dente dolorido o dia todo. — Oh, sim, como vai, sr. Brill? Não, o sr. MacKade está em reunião. Sentiu vontade de cuspir pregos quando a porta da frente se abriu. Como ela conseguiria ficar irresistivelmente sensual em apenas uma hora se não conseguia sair dali? — Terei o prazer de anotar o recado. Ao pegar o bloco, ergueu os olhos. E concluiu que, mesmo tendo uma semana à disposição, não conseguiria se produzir a ponto de ficar tão sensual quanto a mulher que acabara de entrar na ante-sala de Jared MacKade. Savannah detestou estar ali. Abominava se sentir forçada a trocar a calça jeans de sempre por calças pregueadas e jaqueta só para ir a um lugar "oficial". E aquele lugar, com certeza, parecia "oficial". Os bonitos vasos de plantas e os quadros com pinturas em suaves tons pastéis nas paredes brancas foscas não escondiam o fato de a lei ser a ordem ali. O tapete era um cinza de tom insípido e as poltronas, de cor mais forte na sala de espera, nada confortáveis. Não era necessário que as pessoas se sentissem à vontade ali, pensou com amargura. Jamais conhecera um reduto de autoridade — os serviços sociais, o escritório de um diretor, uma fila de desemprego — que oferecesse conforto. Mesmo, assim, achou que o sujeito teria mais estilo do que demonstrava a decoração fria e formal de seu escritório. A secretária de olhos brilhantes atrás da escrivaninha da recepção era jovem e, Savannah rinha certeza, eficiente. O rápido sorriso de saudação que lançou na direção dela foi cuidadosamente desprovido de curiosidade, no ponto entre a intimidade e um certo distanciamento. Não fazia idéia de que Sissy se azedava de inveja por dentro. — Sim, sr. Brill, providenciarei logo para que ele receba seu recado. Não há de quê. Até logo. — Perguntou-se onde a misteriosa visitante encontrara aquela jaqueta fantástica, feita com cortes geométricos de tecidos em cores ousadas. A

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade secretária desligou o telefone e lhe dirigiu o mais profissional sorriso. — Boa tarde. Posso ajudá-la? — Eu gostaria de ver o sr. MacKade. — Tem hora marcada? Sissy sabia muito bem que não. Tinha o horário de Jared arquivado na cabeça, junto com o seu. — Não, eu estava... — Droga, ela detestava isso. — Eu estava na cidade e achei que teria uma chance de ele ficar livre por um minuto. — Receio que esteja em uma reunião, sra.... — Morningstar. — Claro que estava conversando com alguém, pensou Savannah, desagradavelmente. Onde mais estaria um advogado no horário de trabalho, quando não estava jogando golfe? — Então eu gostaria de deixar um recado. O nome Morningstar bateu no cérebro de Sissy. Fora pronunciado por entre os dentes cerrados naquela manhã quando Jared ditara uma carta vivamente formal, entrecortada por murmúrios muito interessantes entre uma linha e outra. — Com certeza. Se for pessoal, pode deixar que eu... Oh. — Sissy deu um sorriso radiante para o telefone. — Vejo que o sr. MacKade acabou de terminar a ligação. Que tal eu apertar o botão do interfone e ver se ele pode atendê-la? Sissy pensou, ao dar uma geral em Savannah, que, se ganhasse doze centímetros de altura e recheasse os lugares certos, talvez conseguisse ficar mais interessante. — Sr. MacKade, a sra. Morningstar quer vê-lo. Sim, senhor, está aqui no escritório agora. Sim, senhor — desligou o telefone, segurando um sorriso. — Ele vai recebê-la, sra. Morningstar. É logo ali subindo a escada, à esquerda. Primeira porta. — Obrigada — agradeceu Savannah, virando em direção à escada com imaculado corrimão branco. Devia ter sido uma casa geminada em alguma época, decidiu. Ou um sobrado. Embora não descrevesse o lugar como aconchegante, admitia que tinha classe — se a pessoa gostasse de ambientes pretensiosos e impessoais. No curto corredor no topo da escada, viu um quadro com umas orquídeas brancas, tão sem alma e comum que seu senso artístico se sentiu ofendido. Havia duas portas, uma defronte à outra, e Savannah bateu na da Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade esquerda, abrindo-a em seguida. Ele estava fantástico de cinza carvão. Muito melhor que o escritório, com aqueles tons insípidos. Alguém devia lhe dizer que o trabalho ficava mais agradável em um ambiente com um pouco de cor e vida. Jared se levantou, elegante em um terno de três peças e gravata com o nó cuidadosamente dado. Uma gravata que acabara de encaixar de volta no lugar. Ela pensou, com certo espírito rebelde, que ele parecia mais advogado do que nunca. — Sra. Morningstar — ele a cumprimentou, inclinando a cabeça. Achou que a entrada dela na sala parecera um raio atingindo um plácido lago. — Sente-se. — Não vou me demorar muito — continuou de pé, obstinada. — Agradeço por você me receber. — Estou com tempo. — Para confirmar sua afirmação afastou uma pasta do centro da mesa. — Em que posso ajudá-la? Em resposta, ela retirou documentos da bolsa e lançou-os na escrivaninha. — Eu os assinei em três vias e mandei reconhecer a firma. — Sua carteira de motorista caiu em cima dos documentos. — Esta é a minha identidade. — Lançou também o cartão da seguridade social para continuar. — Não tenho certidão de nascimento. — Sei, sei... Sem pressa, ele retirou os óculos do bolso do paletó e os colocou para examinar a papelada. Savannah olhou-o nervosa. Parecia não adiantar ter dito a si mesma que era ridículo. O coração estava falhando. Ele era deslumbrante, intelectualmente sensual com aqueles malditos óculos. Ele a fazia se sentir uma idiota atrapalhada. — Está tudo em ordem — afirmou ela. — Acho que não. — Pensativo, ele ergueu a carteira de motorista e a leu. — E falsa. — Que absurdo! Acabei de renovar há dois meses! — Pode ser— ele continuou, agora a examinando. — A foto parece mesmo com você e é, de fato, lisonjeira. Mas essa carteira de motorista... Só pode ser uma fraude. Ela se mordeu de raiva. — Está de brincadeira comigo? Isso é permitido nas sacrossantas salas de tribunal? — Sente-se, Savannah. Por favor. Irritada, ela se sentou.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Já ouviu falar de cor? — perguntou. — Esse lugar é muito sem graça. Os quadros são horrendos, sem vida. — E verdade — ele concordou tranquilamente. — Minha ex-mulher decorou as salas. Era contadora da Receita Federal, tinha o escritório ali na porta defronte, no corredor. — Recostou-se e avaliou o ambiente em volta. — Eu me habituei a não ver o lugar, mas você tem razão. Precisa de alguma coisa. — Um obituário, talvez. — Furiosa por estar ali, ela correu a mão pelos cabelos. — Detestei esse lugar. — Deu para notar. — Ele tornou a pegar os documentos e deu uma lida superficial em todos. — Você está ciente de que concorda em aceitar o pagamento em cheque, correspondente ao saldo líquido total da propriedade de seu pai? — Sim. — E os bens? — Eu achei... achei que isso queria dizer o dinheiro. Que mais tem aí? — Parece que tem alguns bens, objetos pessoais. Posso conseguir uma lista discriminada se você quiser. O transporte seria deduzido da propriedade. Descartados, Savannah pensou. Como ela também fora. — Não, só mande trazer tudo. — Muito bem. — Metodicamente, ele tomou notas em um bloco de papel. — Vou mandar minha secretária escrever uma carta amanhã, confirmando que você receberá o total pago pela propriedade em quarenta e cinco dias. — Por que precisa de uma carta, se acabou de me dizer? Ele ergueu os olhos dos documentos, com uma expressão divertida por trás das lentes. — A lei adora uma papelada! Jared assinou os documentos como procurador do colega, devolvendo depois a carteira e o cartão de seguridade social. — Ê só isso, então? — Sentindo-se sem graça e aliviada, ela se levantou. — Não foi tão doloroso i quanto eu esperava. Acho que se algum dia estiver à procura de um advogado, lhe dou um telefonema. — Eu não aceitaria você como cliente, Savannah. Os olhos dele faiscavam quando tirou os óculos e levantou-se para contornar a mesa. — Isso é que é uma política de boa vizinhança da sua parte. — Eu não aceitaria você como cliente — ele repetiu, parando na frente dela Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — porque isso seria antiético. Pegou-a desprevenida. Não tinha a menor idéia de que algum homem ainda conseguisse pegá-la desprevenida. Mas lá estava ela nos braços dele, beijando Jared antes que tivesse uma chance de escapar. Se quisesse... Sentia calor, claro. Esperava por isso, na verdade. Mas foi o desejo forte que a surpreendeu. A sedosa e suntuosa propagação do desejo que desabrochava naquele encontro de lábios, tomando conta de seu corpo. Ele a segurou junto de si em um forte e confiante abraço. Deu-lhe espaço para resistir, mas quando, com mãos hábeis, subiu roçando de leve por suas costas, ela achou que só uma louca recusaria aquelas carícias. Ela também avançou, deslizando as mãos pelas costas dele acima até enganchá-las sobre os ombros. Ele se perguntara como seria beijá-la desde o momento em que a vira se levantar, deixando mudas de flores aos pés, e olhar na direção dele. Agora sabia que havia força naqueles braços longos e lindos, fogo naqueles lábios suaves e carnudos. Savannah abriu os lábios para ele como se a houvesse tocado centenas de vezes, o gosto gloriosamente familiar. A pressão daquele corpo no dela era uma erótica volta ao lar. Jared emaranhou os dedos nos cabelos dela, puxando devagar a cabeça para trás a fim de saboreá-la melhor. E, enquanto ela movia a boca quente na sua, ele descobriu que ela também o saboreava. Aos poucos, pensativo, ele se afastou para examinar o rosto da moça. Tinha os olhos firmes, caímos. Fosse o que fosse, Savannah mexera com ele. O que seria preciso para fazer aquela mulher tremer? Ele tinha de descobrir os segredos que ela mantinha escondidos por trás daqueles olhos sombrios e inescrutáveis. — Mas... Posso com certeza recomendar um advogado a você, se achar que precisa de um. Savannah ergueu as sobrancelhas. Oh, ele era frio! Preferiu continuar a conversa como se as vísceras não i estivessem chiando. Avaliando-o, sorriu. — Ora, obrigada...

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Um minuto, por favor — ele pediu, quando o telefone tocou. — Sim, Sissy. — Desprendeu o olhar de Savannah apenas o suficiente para conferir as horas no relógio de pulso. — É mesmo — murmurou, notando que acabava de passar das cinco. — Vá em frente. Eu tranco tudo. E, Sissy, aquela carta que eu ditei hoje de manhã. A primeira? É. Não mande por e-mail. Preciso fazer umas alterações. Começou a ficar desconfiada. Ele mandou a secretária embora. Os dois iam ficar sozinhos! Sabia o que acontecia quando um homem olhava para uma mulher do jeito que Jared a olhava. Sabia o que acontecia entre homens e mulheres depois de partilharem um beijo daqueles. Ao longo dos anos, aprendera a ser muito cuidadosa, muito... seletiva. A responsabilidade de criar um filho sozinha não era pequena. Os homens podiam ir e vir, mas o filho era para sempre. Não era uma mulher ingênua, do tipo que satisfazia o desejo de seus amantes sem ter conhecimento de suas intenções. Era realista. O homem que no momento liberava a secretária, o homem que folheava a agenda para coordenar o horário, estava prestes a tornar-se seu amante. — Minha secretária tem um compromisso — comentou Jared, ao desligar o telefone. — Por isso parece que vamos fechar o escritório hoje no horário. Me pediram para lhe perguntar, discretamente, onde comprou sua jaqueta. — Minha jaqueta? — sorrindo, Savannah baixou os olhos. — Eu mesma fiz. — Não brinca. Ela moveu o lábio inferior numa expressão entre um biquinho e um sorriso de desdém, e ergueu o queixo num gesto que ele agora reconhecia como indicador de temperamento genioso em fogo brando. — Não pareço o ripo que saberia costurar? Não me enquadro na imagem de uma feliz dona-de-casa? Intrigado, ele se apoiou na escrivaninha e estendeu a mão para pegar na jaqueta. — Belo trabalho. Que mais sabe fazer? — O que precisar. Savannah não se deu o trabalho de protestar quando ele a puxou para junto de si. Em vez disso, apoiou as mãos em seus ombros e se deixou beijar. — E cedo — ele murmurou. — Mais ou menos. — Onde está Bryan? Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Na casa da Cassie. — Levemente surpresa por ele se incomodar de perguntar, ela mudou o ângulo do beijo. — Vou pegá-lo às seis. Tenho meia hora. — Vai levar mais tempo. — Jared deslocou-se e tomou-a pelos quadris, puxando-a com intimidade para o meio de suas pernas. — Por que não liga para ela e vê se Bryan pode ficar até as sete? — Mordiscou o lindo lábio inferior dela: — Sete e meia... Ia adorar tirar aquela gravata dele, pensou Savannah. — Acho que sim. — Ótimo. Resolva isso e depois vamos atravessar a rua. — Atravessar a rua? — Para um jantar. Ela recuou, encarando-o. — Jantar? — Sim. — Sem estar certo de que suas pernas viriam sustentá-lo, Jared se levantou, antes de ceder ao violento desejo de rasgar-lhe as roupas, arrastá-la até o chão e possuí-la. — Eu gostaria de levar você para jantar. — Por quê? — Porque gostaria de passar uma ou duas horas com você. — Em cima de você, ele pensou. Dentro de você. Nossa!'Com toda a aparência de calma, contornou a mesa e folheou a agenda de telefones. — Aqui está o número de Cassie. — Eu sei o número da Cassie. — Era desmoralizante perceber que tivera de respirar fundo para manter a compostura, enquanto ele apenas ficava ali em pé, tão calmo e descontraído. — O que há, Jared? Nós dois sabemos que o jantar não é necessário. Ele sentia a barriga se revirar. Podia possuí-la ali mesmo. Muito simples. E algo fácil demais era algo suspeito. — Eu gostaria de jantar com você, Savannah. E conversar. — Pegando o telefone, ele teclou o telefone de Cassie e estendeu o fone. — Tudo bem? Cheia de desconfiança, ela hesitou. Depois aceitou. — Tudo bem... O restaurante era informal, o menu se compunha basicamente de grelhados. Savannah brincava com a bebida e esperava a jogada seguinte de Jared. — Então você também faz roupas?

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Às vezes. Sorrindo, ele se acomodou na cadeira. — Às vezes? — repetiu, olhando-a em expectativa. Queria puxar conversa, ela percebeu. — Aprendi porque, feitas em casa, elas saem mais baratas que compradas na loja. E eu não queria andar nua por aí. Agora faço alguma coisa de vez em quando porque gosto. — Mas você ganha a vida como ilustradora, não como costureira. — Gosto de trabalhar com cor e desenho. Tive sorte. — Sorte? Cautelosa com a sutil sondagem, ela foi direto ao ponto. — Você não quer ouvir a história da minha vida, Jared. — Quero sim. — O advogado sorriu para a garçonete que pôs as refeições diante deles. — Comece de onde quiser. Ela balançou a cabeça e cortou o frango coberto de especiarias que Jared recomendara. — Você viveu aqui toda a sua vida, não foi? — Isso mesmo. — Família grande, velhos amigos e vizinhos. Raízes... — É. — Eu vou dar raízes ao meu filho. Não apenas um teto, mas raízes. Ele ficou calado por um momento. Desprendia-se da voz dela uma ferocidade, uma determinação que ele tinha de admirar, embora se perguntasse o motivo. — Por que aqui? — Porque não é o Oeste. Eu queria me livrar da poeira e de todas aquelas cidadezinhas torradas pelo sol. Venho me mudando para o leste há dez anos. Aqui parece bem distante. — Como ele nada disse, Savannah relaxou um pouco. Era difícil lidar com aquele ar tranqüilo que ele tinha para ouvir. — Eu não queria uma cidade grande para Bryan. Mas queria dar a ele uma sensação de fazer parte de um lugar, de uma... — Comunidade? — É. Cidade pequena, garotada, pessoas que o conhecessem pelo nome. Mesmo assim, queria certa distância. Isso mais para mim. E...

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — E? — Fui atraída para cá — ela respondeu, afinal. -Talvez seja o meu sangue apache, sei lá, mas eu sentia... sabia que aqui seria minha casa. A terra, as colinas. A floresta. As florestas me chamavam. — Achando graça, ela sorriu. — Que tal isso como misterioso? — Elas têm me chamado a vida toda — disse Jared, com tanta simplicidade que o sorriso dela se desfez. — Eu nunca poderia ser feliz em nenhum outro lugar. Mudei-me pra cidade grande porque parecia prático. E as pequenas e longas caminhadas pela floresta não faziam o estilo de minha ex-mulher. Se Jared podia sondar, Savannah também podia. — Por que se casou com ela? — Porque parecia prático. — Agora, era a vez dele se contrair. — O que não diz muito de nenhum dos dois. Sentíamos uma razoável atração, respeitávamos um ao outro, e entramos em um contrato de casamento muito civilizado, inteligente e totalmente desapaixonado. Dois anos depois, tivemos um divórcio muito civilizado, inteligente e totalmente desapaixonado. Era difícil, quase impossível, desapaixonado por qualquer coisa.

visualizar

o

homem

que

a

beijara

— Sem derramamento de sangue? — Sim, absolutamente nenhum. Éramos racionais demais para brigar. Nem tivemos filhos. — Opção dela, Jared lembrou, com apenas um leve ressentimento. — Ela fez questão de manter o nome de solteira. — Um casamento moderno. — Você entendeu tudo. Dividimos tudo ao meio e tomamos novos rumos. Sem danos, sem deslealdade. Curiosa, Savannah inclinou a cabeça. — Você ficou chateado por ela não assumir seu nome? Ele ia corrigi-la, mas acabou encolhendo os ombros. — É, fiquei. Não muito moderno da minha parte. Apenas uma daquelas coisas que teriam tornado o compromisso emocional em vez de racionai. Isso é puro orgulho. — Em parte, sim — concordou Savannah. — Mas você queria dar a ela esse pedaço seu de que mais sentia orgulho, que lhe foi legado, e que queria legar aos seus futuros filhos. — Você é muito astuta...

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Os advogados não são os únicos que sabem entender as pessoas. E eu entendo a importância dos nomes. Quando Bryan nasceu, eu fiquei olhando o formulário que me deram. De nomes. E pensei: o que vou botar onde diz "Pai"? Se escrevesse o nome, ia dá-lo ao meu filho. Meu filho — ela repetiu, com tranqüilidade. — Que foi que escreveu? Ela se transportou àquele momento, quando mal fizera dezessete anos e estava completamente sozinha. — Desconhecido — respondeu. — Porque ele tinha deixado de ser importante. Meu nome bastava. — Ele nunca viu Bryan? — Não. Sumiu feito um foguete no dia em que eu disse que estava grávida. Não diga que sente muito — Savannah antecipou-se. — Ele me fez um favor. É fácil uma menina de dezesseis anos ficar gamada por um caubói bonito, mas não é fácil viver com um. — O que você contou a Bryan? — A verdade. Eu sempre conto a verdade... ou o mais próximo dela que posso sem magoá-lo. Não me envergonho de ter sido tola o bastante para me imaginar apaixonada. E sou grata porque às vezes a tolice é recompensada com uma coisa tão espetacular quanto Bryan. — Você é uma mulher admirável. Isso a comoveu e a deixou sem graça. — Que nada, sou é uma felizarda. — Não deve ter sido fácil. — Eu não preciso que as coisas sejam fáceis. Ele pensou um pouco, e achou que havia algo além do fato de ela não se importar com isso. — Que foi que você fez quando saiu de casa? — Quando fui chutada de casa — ela corrigiu. -Não precisa embelezar o fato. Meu pai me esbofeteou, me xingou de... todo tipo de coisas que é feio repetir para um homem usando um terno tão bonito... e me mostrou a porta da rua. Não era bem uma porta — Savannah lembrou, surpresa ao ver que Jared estendera a mão para entrelaçar os dedos nos seus. — Nós morávamos em um trailer na época. Jared ficou horrorizado. Na verdade, não deveria. Ouvia histórias tão ruins quanto, e piores que aquela, em seu próprio escritório. Porém, horrorizava-o a imagem de Savannah aos dezesseis anos, grávida e enfrentando sozinha o Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade mundo. — Você não tinha ninguém a quem procurar? — Não, ninguém. Não conhecia a família da minha mãe. Ele talvez tivesse mudado de idéia dali a um ou dois dias. Ele era assim. Mas as coisas de que me xingou tinham doído mais que o tapa, por isso pus a mochila nas costas e me mandei. Arranjei um emprego como garçonete em Oklahoma. — Ela pegou a bebida. — Talvez seja por isso que Cassie e eu nos demos bem. Sabemos o que é ficar em pé o dia inteiro e servir às pessoas. Mas ela faz um trabalho melhor. Oh, meu Deus!, pensou Jared. — Como deixou de servir mesas em Oklahoma e virou desenhista? — Tomando um monte de desvios pelo caminho — ela sorriu. — Você ficaria surpreso com algumas das coisas que eu fiz. — Alargou o sorriso para o olhar sem expressão dele. — Oh, sim, ficaria. — Diga algumas. — Servi drinques a bêbados em um inferninho em Wichita. — Vai ter de caprichar mais se quiser me chocar! — Trabalhei em uma espelunca de strip-tease em Abilene. Pronto. — Ela riu e lhe tomou dos dedos o fino charuto que o advogado acabara de tirar do bolso. — Agora pense. Decidido a não encará-la, surpreso, ele riscou um fósforo e o levou à ponta do charuto. — Era dançarina de boate! — Dançarina de strip-tease — Savannah soprou a fumaça e riu. — Você está chocado. — Estou... intrigado. — Ah... Para apimentar um pouco mais a fantasia, nunca chegava à nudez total. Você veria mulheres na praia com mais ou menos a roupa que eu ficava... só que eu era paga para isso. Não muito mal paga. — Casualmente, devolveu-lhe o charuto. — Ganhava mais dinheiro desenhando e costurando fantasias para as outras meninas do que me despindo. Assim, abandonei o palco. — Você não está falando sério, Savannah. — E verdade. Digamos que eu não gostava do horário. Trabalhei em um espetáculo com cachorros e pôneis durante algum tempo também. — Um espetáculo com cachorros e pôneis? — Um circo mambembe. Dei uma respirada em Nova Orleans vendendo Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade pinturas de córregos e cenas de rua, além de desenhos a carvão, a turistas. Eu gostava. Comida e música maravilhosas. — Mas não ficou lá — ele comentou. — Nunca fiquei muito tempo em um único lugar. Hábito. Na época em que comecei a ficar agoniada, tive sorte. Uma das turistas que posou para mim era escritora. De livros infantis. Tinha acabado de demitir o ilustrador. Diferenças criativas, segundo o que ela explicou. Gostou do meu trabalho e me fez uma proposta. Eu leria o manuscrito e faria algumas ilustrações. Se a editora aceitasse, o emprego era meu. Se não, ela me pagaria cem dólares pelo meu tempo. Como poderia perder a oportunidade? — Ganhou o emprego, não é? — Ganhei uma vida. Não ia ter de deixar Bryan com babás, nem me preocupar em como ia pagar o aluguel naquele mês, nem se os assistentes sociais iam aparecer batendo na porta para investigar se eu era uma boa mãe. Do tipo que os tiras não prendem para averiguar se estamos vendendo pinturas ou a nós mesmas. Depois de um tempo, consegui comprar uma casa para Bryan, pagar uma boa escola para meu filho. — Ela emborcou mais uma vez o copo. — E aqui estamos. — E aqui estamos — Jared repetiu. — Aonde imagina que vamos? — Esta é uma pergunta que terei de fazer a você. Por que estamos jantando e conversando, em vez de fazendo sexo? Para seu espanto, ele não se engasgou. Apenas soprou a fumaça suavemente. Que franqueza rude, hein? — Que rude franqueza... — Os advogados gostam de usar vinte palavras quando basta uma — ela se defendeu. — Eu não. — Então digamos apenas que você esperava sexo. Eu não gosto de ser previsível. Quando chegarmos ao sexo, Savannah, não será previsível. Você saberá exatamente com quem está e vai se lembrar. Naquele momento, ela não teve a menor dúvida. , Talvez fosse isso que a preocupava. — Todas as iniciativas são suas, dr. MacKade? No devido tempo e lugar? — Isso mesmo. — O olhar dele mudou, se iluminando com um humor surpreendente. — Eu sou o tipo do cara tradicional. Capítulo 5 O tipo do cara tradicional, ruminava Savannah. Um dia depois do jantar Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade improvisado com Jared, ela olhava o buquê do florista, em pé na cozinha, as mãos nos quadris. Ele lhe enviara uma dúzia de rosas vermelhas. Tradicionais, com certeza. Até previsíveis. A não ser que se incluísse aí o fato de que ninguém na sua vida jamais lhe enviara um buquê de rosas. Savannah tinha certeza de que ele sabia disso. E mandara o cartão também: Até seu jardim florescer. Como ele soubera que as flores eram uma de suas maiores fraquezas? Que ansiara por florescências perfumadas, coloridas, naqueles anos em que viveu em quartos apertados, mínimos, em cidades barulhentas abarrotadas de gente? Que prometera a si mesma um dia ter um jardim cuidado com as próprias mãos? Porque percebera coisas demais dela, decidiu, e rodeou o buquê com tanta cautela quanto um cachorro em torno de um estranho. Estava tão absorta nas flores que tomou um susto quando o telefone tocou. Pegou o fone com força. — Alo. — Pode falar? — perguntou Jared. Ela olhou com cara feia para o buquê. — Estou ocupada, se é o que quer dizer. — Então não vou tomar muito seu tempo. Achei que talvez você quisesse trazer Bryan até a fazenda para jantar hoje à noite. Ainda carrancuda, ela estendeu a mão e retirou uma única rosa. A flor não mordeu. — Por quê? — Por que não? — Para começar, já fiz o molho do espaguete. Imagino que espere que eu o convide a vir jantar aqui. — Na verdade, sim... Girando a rosa, ela tentou pensar em uma boa razão para não ir lá. — Tudo bem. Mas Bryan tem treino de beisebol depois da escola. Eu vou pegá-lo às seis, assim... — Eu pego. E no meu caminho. Até mais tarde, então. Alguma coisa parecia estar fugindo do controle.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Eu falei que nada disso era necessário — resmungou. — Ah, sim. As flores. — Você gostou? — Claro, são lindas. — Que bom que gostou. Então, chego aí logo J depois das seis. Aturdida, ela desligou. Após uma longa olhada nas rosas, resolveu que era melhor achar um vaso para pô-las. Às seis e quinze, ouviu o barulho de um carro subindo a alameda. Com todo cuidado, terminou um detalhe na ilustração da rainha má para um relançamento de contos de fada e se afastou da prancheta, Bryan já subia os degraus correndo. Savannah saiu do pequeno estúdio e entrou na cozinha. — ...então ele lançou, e aquele debilóide do Tommy não conseguiu pôr a luva embaixo da bola. A mãe teve um ataque ao ver a bola bater na cara dele. O sangue jorrava do nariz. Foi muito maneiro. Oi, mãe. — Bryan. — Ela franziu as sobrancelhas ao ver o estado da roupa do filho, cada centímetro coberto de terra vermelha. — Andou no escorrega hoje? — Andei. O garoto foi direto à geladeira pegar a jarra de suco. — Tommy Mardson ficou com o nariz sangrando — meteu-se Jared. — É o que acabo de saber. — A mãe dele gritava pra caramba. — Excitado com a lembrança, ele quase esqueceu do suco... até captar o olhar de aço da mãe. — Não foi quebrado, só esmagado pra burro. — Vamos melhorar esse vocabulário hoje à noite. Bryan revirou os olhos. — Ninguém fala com um livro. Bem, eu tirei B no teste de ortografia. — O refresco está esperando. E matemática? Bryan fugiu correndo da pergunta. — Ei, tenho de tomar banho — disfarçou, subindo às escadas rápido. Reconhecendo a evasiva, Savannah explicou. — Ele detesta contas de dividir com dízima — comentou. — Quem não detesta? — Jared pegou a garrafa de vinho. — Mas um B em ortografia não é nada mal. Tampouco era, ela pensou, o elegante vinho francês. — Isto vai humilhar meu espaguete — disse. Jared deu uma fungada Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade profunda, apreciadora, no ar. Era só tempero e molho de tomate. — Bom, pelo menos tire essa gravata. — Ela procurou um saca-rolha na gaveta. — É intimidante. Você sabe... Jared virou-a pelos ombros, baixou a cabeça devagar e cobriu-lhe os lábios com os seus. Ela ergueu a cabeça e afastou-a delicadamente. — ...beijar — ela concluiu suspirando com força. — Você sabe beijar como os diabos, hein? — Após pegar o saca-rolha que caíra com estardalhaço na bancada, abriu o vinho com os movimentos rápidos e competentes de uma veterana de bar. — Flores elegantes e vinho elegante, tudo em um único dia. Você vai virar minha cabeça. — A idéia é essa. Ela se esticou para pegar as taças de vinho na prateleira no alto. — Eu imaginava que, após a versão condensada de A vida de Savannah Morningstar, você tivesse percebido que eu não sou do tipo vinho e flores. mesa.

Jared passou a mão nas pétalas das rosas que ela pusera no centro da — Elas combinam com você.

Enquanto ele dobrava a gravata dentro do bolso e abria o colarinho da camisa, Savannah serviu o vinho. — Foi uma grossura da minha parte não lhe agradecer as rosas. Por isso... — entregou-lhe uma taça. — Obrigada. — E um prazer. — Bryan vai se esconder até achar que esqueci a matemática. Está enganado. Se você está com fome, posso mandá-lo descer. — Não se apresse. Tomando vinho, ele se encaminhou devagar até a sala da frente. Queria dar uma olhada melhor nos quadros. As cores eram ousadas, muitas vezes beirando o limite destoante. As pinceladas, fortes, temperamentais. O tema variava de naturezas-mortas de flores em pleno desabrochar, a retratos de rostos vívidos, de presença, além de paisagens com árvores frondosas, colinas e céus tempestuosos. Quadros bastante diferentes das peças tranqüilas da sala de estar, pensou. Pinturas que atraíam o olhar. Como a pintora, a obra causava uma tremenda impressão. — Não admira que você tenha torcido o nariz para o que tem pendurado no meu escritório — ele murmurou. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Nunca achei que a arte devia ser serena. — O que deveria ser, em sua opinião? — Viva. — Então você com certeza conseguiu. Ainda vende seus trabalhos? — Se o preço for justo... — Ando pensando em pedir a Reagan para fazer alguma coisa no meu escritório. Minha cunhada — lembrou. — Ela fez um trabalho incrível na pousada que vai inaugurar com meu irmão. Gostaria de cuidar dos quadros? Ela absorveu a proposta devagar, olhando-o e tomando vinho. A idéia desencadeara uma batalha há muito tempo acabada. A pintura era apenas um passatempo. Que mais podia ser para uma mulher sem qualquer estudo formal? — Eu já disse que dormiria com você. Ele conseguiria dar uma risada, se não tivesse ficado com a garganta de repente seca. — Sim, disse. Mas estamos falando de suas pinturas. Interessa vender algumas? — Quer pôr meus quadros em seu escritório? — Acho que já deixei isso claro. Um passo de cada vez. Não deixe que ele perceba o quanto isso seria importante. — Não se sentiria mais à vontade com umas telas em pastel? — Você tem um humor intragável, Savannah. Eu adoro. Ela riu. — Vamos ver o que sua cunhada sugere primeiro. Depois a gente conversa. Tornou a voltar à cozinha e pôs água na panela para a massa. — Muito justo. Por que não dá uma passada na pousada e vê o que ela e Rafe fizeram lá? — Eu adoraria dar uma olhada na casa. — Posso levá-la até lá depois do jantar. — Desculpe... — ela balançou a cabeça negativamente e com verdadeiro pesar. — Tenho que ajudar Bryan no dever de casa — Nesse caso... — ele pegou o vinho e encheu as duas taças — me deixe oferecer alguma coragem.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Savannah não esperava que ele ficasse depois de terminada a refeição. Certamente não se preparara para vê-lo envolver o filho com tanta lábia, a ponto de fazê-lo sentar-se ao seu lado à mesa da cozinha e estudar problemas no livro de matemática. Serviu-lhe café enquanto ele traduzia os problemas em estatísticas de beisebol. Por que não pensara nisso antes, se perguntou Savannah, quando o filho aceitou com entusiasmo a estratégia? Porque, admitiu, os números a apavoravam. A escola a apavorava. O fato de que o filho um dia ultrapassaria em conhecimento o que ela aprendera a emocionava e envergonhava. Nem Bryan sabia das noites em que ela ficava acordada até tarde, muito depois de o filho cair no sono, estudando os livros didáticos, decidida a poder ajudar sempre que ele pedisse. — Então, você divide o total pelo número de vezes do taco — sugeriu Jared, ajustando os óculos de uma maneira que pareceu muito sensual a Savannah. — E, é! — As luzes do conhecimento explodiam na cabeça do menino. — Que maneiro! — Exultante, ele escrevia os números cuidadosa e quase reverentemente. Afinal, eram jogadores de beisebol agora. — Veja este, mãe. O sorriso dela floresceu quando Bryan terminou laboriosamente os cálculos. — Bom trabalho. — Afagou os cabelos desgrenhados de Bryan. — Dos dois. — Então por que não ganhei um beijo? — quis saber Jared. Ela tentou contornar a situação, mas Bryan ainda assim fez ruídos imitando ânsia de vomito. — Cara, tem de fazer isso na mesa de jantar? — ele reclamou. — Feche os olhos — sugeriu Jared, beijando-a mais uma vez. — Vou dar o fora daqui — declarou Bryan, fechando o livro. — Fora daqui e dentro da banheira — ordenou a mãe. — Ai, dá um tempo! — reclamou Bryan, olhando para Jared. — Na verdade — ele começou — creio que meu cliente tem direito a um curto recesso. — Oh, é mesmo? Porém, o seco comentário de Savannah foi submerso pela alegria de Bryan. — Com a tolerância do tribunal, — Jared pôs a mão no ombro do menino. — Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade O que meu cliente quer dizer é que trinta minutos de televisão é correto, após cumprir a sentença anterior e dar passos rumo à reabilitação. Após o que ele irá, voluntariamente e sem incidente, aceitar a decisão do tribunal. Savannah soltou um suspiro por entre os dentes. — Luzes apagadas às nove e meia, hein? — resmungou. — Fechado! — Bryan socou o ar. — Devia ter proposto uma hora — disse a Jared. — Era o melhor acordo. Confie em mim, sou seu advogado. O menino abriu um sorriso de orelha a orelha. — Valeu. Obrigado, sr. MacKade. Boa noite, mãe. — Conversa rápida e elegante — respondeu Savannah, baixinho, ao ver o filho subir a escada rumo à pequena TV portátil no quarto dela. — Não pude evitar. — Sentindo-se meio encabulado, Jared enfiou as mãos nos bolsos. — Ele me lembrou o que era ser um menino de nove anos e ficar desesperado por mais uma hora. Vai continuar me tratando com desprezo? Ela suspirou, pegou as xícaras vazias e as levou para a pia. — Tudo bem, foi simpático você tomar a defesa dele. Além disso, ele teria brigado comigo por essa meia hora, de qualquer modo. — Ele mereceu. — Ele sorriu ao vê-la olhar para trás. — E eu também. Afinal, nós labutamos muito até o fim daquele dever de matemática. — Você quer trinta minutos de... televisão também? — ela perguntou. — Não. — Ele tirou os óculos e enfiou-os no bolso da camisa. — Quero que você passeie na floresta comigo. Ela franziu a testa e olhou em direção à escada, e ele tomou-lhe a mão. — Não vamos muito longe. Ei, Bry! — gritou. — Sua mãe e eu vamos dar um passeio. — Tá bom! — a resposta foi vaga, obviamente desinteressada. Jared pegou a jaqueta de brim dela em um gancho perto da porta da cozinha. Fazia frio depois do pôr-do-sol. — Só até a floresta, hein? — ela lembrou. Dali, ouviria Bryan se a chamasse. — Só até a floresta — Jared concordou, pegando na mão dela. — Não se sente solitária aqui durante o dia? — Não. Eu gosto de ficar sozinha. Saíram, e, do lado de fora, foram tomados como de surpresa pelo ar. O céu estava tão limpo que as estrelas quase machucavam os olhos. Desceram os Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade degraus irregulares que haviam sido embutidos na margem. Atravessaram a estreita alameda até onde começava o bosque. — Eu beijei minha primeira namorada aqui. As árvores abriam-se para recebê-los com seu novo verde. — Foi? — Foi. A prima Joanie. — Prima? — De terceiro grau — ele explicou. — Pelo lado materno. Tinha longos cachos dourados, olhos azuis lindos e meu coração. Eu tinha onze anos. A vontade com as sombras e a luz das estrelas, Savannah riu da lembrança ingênua dele. — Joanie tinha doze anos. — Então você gosta de mulheres mais velhas. — Já que falou nisso, talvez fosse parte da atração. Eu passei a conversa nela para darmos um passeio na floresta durante um anoitecer tépido, quando o sol caia vermelho atrás da montanha e os pássaros começavam a cantar. — Muito romântico. — Foi uma estratégia. Reuni toda a minha coragem e a beijei perto da primeira curva no riacho, com o ar tomado pelo crepúsculo do verão e o per fume de madressilvas. — Que coisa mais linda. — Teria sido — ele ruminou — se meus irmãos não tivessem nos seguido e se escondido para olhar. Gritaram feito uns idiotas e a Joanie saiu correndo de volta à fazenda. Claro que meus irmãos me zoaram durante várias semanas, por isso tive de me atracar com cada um deles para salvar a honra. Devin quebrou meu dedo. Daí eu perdi o interesse pela prima Joanie. — Isso também é lindo. Os ritos de passagem! — Desde aquela época, aprendi algumas coisinhas sobre beijar meninas bonitas na floresta. Quando ele a puxou para seus braços e aproximou a boca, Savannah teve de admitir que aprendera mesmo. — Onde está a prima Joanie agora? — Mora em uma bela casa, em um elegante bairro residencial na Virgínia, com três filhos e um emprego de meio expediente como corretora de imóveis. —

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Suspirando, ele encostou os lábios na testa de Savannah. -Ainda tem aqueles cachos dourados e olhos lindos. — Mais um fantasma na floresta dos MacKade. — Ela olhou para trás por entre as árvores. Ainda via as luzes que deixara acesas em casa. O filho parecia seguro ali. — Me fale dos outros. — Os dois soldados são os mais famosos. Um usava azul, o outro cinza. Durante a batalha em Antietam, se separaram de suas tropas. — Ele passou os braços pelos ombros dela, para os dois caminharem juntos no mesmo compasso. — Deram de cara um com o outro, aqui na floresta, dois meninos, mal tinham barba. Por medo, dever, ou as duas coisas, atacaram um ao outro. Cada um ficou gravemente ferido e se arrastaram para lados diferentes. Um foi para a fazenda. — A sua fazenda? — É. Um soldado da União, rasgado pela baioneta do inimigo. Meu bisavó, nada amigo do Norte, foi quem o encontrou. A história é que viu o próprio filho, que perdera em Buli Run, naquele menino agonizante, e por isso o levou para casa. Todos da família fizeram tudo que podiam por ele, mas era tarde demais. O rapaz morreu no dia seguinte e, temendo represálias, eles o enterraram em um dos campos, em uma sepultura sem identificação. — Então está perdido — sugeriu Savannah. — Ele assombra a floresta porque não consegue encontrar o caminho de casa. — Isso seria muito próximo da realidade. — E o outro soldado? — Conseguiu chegar à Mansão Barlow. Uma criada o levou para dentro. A dona da casa já estava pronta para cuidar dele, porém o marido o fuzilou. Ela não se abalou. Estava acostumada a crueldades, pequenas e grandes. — Porque ele não viu um menino, mas o uniforme errado. — Isso mesmo. Por causa disso, Abigail Barlow se afastou para sempre do marido e entrou em reclusão. Morreu dois anos depois. — Uma história triste. As mortes inúteis geram fantasmas inquietos. Aliás... — Ela fechou os olhos e deixou o ar dançar pelo seu rosto. — Quer mostrar onde os dois lutaram? Alguma coisa no tom da voz dela o levou a baixar o olhar. — Por quê? Ela fechou outra vez os olhos, pensativa, e abriu logo depois, agora mais misteriosos do que a noite. — Pouco mais de quarenta e cinco metros a oeste, perto de um monte de Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade pedras e uma árvore de tronco nodoso. Jared sentiu dedos frios lhe roçarem a nuca. No entanto, as mãos dela estavam segurando as suas... — Sim. Eu me sentei nas pedras ali e ouvi as baionetas se chocarem. — Eu também. Mas fiquei me perguntando de quem eram. E por quê? — Isso é comum para você? Ele estava meio rouco. Talvez fosse o que diziam na floresta à noite. Ou talvez os olhos dela, tão escuros, tão enigmáticos, nos quais ele sabia que qualquer homem poderia alegremente se afogar. — Seu bisavô era um fazendeiro que viu um menino morrendo e tentou salvá-lo. O meu era um xamã que via coisas no fogo e tentava entendê-las. Você continua tentando salvar as pessoas, não é Jared? E eu tentando entender as visões. — Você é... — Médium? — Ela riu. — Não. Eu sinto coisas. Todos nós sentimos. A parte mais forte de minha herança aceita esse dom, com respeito e honra por ele. Sigo minhas intuições desde quando parti de Okhaloma. Sabia que ia encontrar meu lugar. E bastou uma olhada naquela casa, naquelas pedras, nesta floresta, e eu soube que era ali. Vi-o atravessar o gramado naquela primeira vez, e soube que ia acabar tendo algo com você. — A moça curvou-se para a frente e colou os lábios nos dele. — E, agora, sei que tenho de voltar e pôr meu filho na cama, antes que ele ataque a geladeira. — Savannah... — Jared pegou mais uma vez na sua mão, antes que ela pudesse afastar-se. Tinha um olhar intenso no rosto, quase abrasador. — O que sente você sobre o rumo que estamos tomando? Ela sentiu ondas de calafrios. Porém, manteve a voz calma. — Acho que quando se tenta olhar muito à frente se acaba tropeçando no presente. Vamos nos preocupar apenas com o agora, Jared. Quando o advogado beijou a mão dela, Savannah percebeu que o agora seria muito problemático. Esperou até o fim da semana para levar adiante a sugestão de Jared e conhecer a Mansão Barlow. A casa dos MacKade, corrigiu-se achando graça por ter pensado em primeiro lugar no nome antigo da casa de pedra na colina. Os Barlow não viviam ali fazia mais de cinqüenta anos. A última família, um casal do norte do município, comprara a casa e nela morara brevemente. Depois a abandonara, vinte anos antes. Durante esse tempo, ninguém mais residira ali.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Até Rafe MacKade chegar. Savannah pensava nisso, ao se afastar da estrada e subir a íngreme alameda. Alguém, imaginou, ia precisar de muita garra. A casa em si eram três andares de lindas pedras. Janelas altas, janelas em arco e janelas de sacada reluziam. A maioria voltara a ser encaixilhada apenas meses antes, de acordo com a informação que Savannah recebera da sra. Metz ao ser imprensada por ela em um canto do supermercado. Havia varandas duplas. A que ornava o segundo andar estava em fase de demolição. Tinha de estar, calculou Savannah, vendo-a tão podre e vergada. No entanto, a inferior era obviamente nova, ainda sem pintura. Um andaime se estendia pela ala esquerda acima e pilhas de materiais sob lonas se espalhavam pelo jardim invadido pela vegetação. Ela encostou o carro ao lado de uma picape carregada de entulho e desligou o motor. Quando bateu na porta, ouviu um grito de resposta, com um tom de leve irritação. Entrou e logo parou, chocada e inundada por um dilúvio de sensações. Risos, lágrimas, horror e felicidade. As emoções envolveram-na e depois recuaram, como uma onda após quebrar-se na beira do mar. Viu o homem no alto da escada, sorriu e avançou. — Jared, eu não esperava ver você... Oh! Percebeu de imediato seu engano. Não era Jared. Os olhos eram de um verde mais escuro e os cabelos um pouco mais longos, porém bem menos cuidados. O rosto de Jared era apenas um pouco mais magro, as sobrancelhas mais arqueadas. O sorriso dos MacKade, porém, era idêntico, tão perfurante e letal quanto uma flecha dispara do arco de um mestre. — Eu sou mais bonito — disse Rafe, descendo a escada. — Difícil dizer. A semelhança da família é impressionante. — Ela estendeu a mão. — Você deve ser Rafe MacKade. — Isso. — Eu sou... — Savannah Morningstar. — Ele não apertava a mão, apenas a segurava enquanto examinava Savannah com um olhar longo e experiente. — Reagan acertou na mosca. — Como? — Você conheceu minha mulher no último fim de semana, na loja dela. Ela me mandou pensar em Isis. Não foi de grande ajuda para mim, então sugeriu que eu imaginasse uma mulher que pararia o coração de um homem a dez passos de Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade distância, e o faria se ajoelhar a cinco. — Mas é uma propaganda e tanto. — E foi na mosca — ele repetiu. — Jared disse que talvez você aparecesse — continuou, enfiando os polegares no cinturão de ferramentas. — Eu não quero interromper seu trabalho. — Por favor, interrompa meu trabalho. — O homem disparou mais uma vez um sorriso. — Só estava matando tempo até Reagan chegar da loja. Estamos morando aqui temporariamente. Quer uma cerveja? Aquele era o tipo de homem que ela entendia e com quem se sentia à vontade. — Já que falou nisso... Mas não dera dois passos atrás dele, quando de repente parou atônita e fitou a escada. Intrigado, Rafe a observava. — Problema? — Ali. Foi ali, na escada. — Pelo que vejo, Jared lhe falou dos nossos fantasmas. Savannah sentiu-se fraca por dentro, com os nervos à flor da pele. — Ele me contou que Barlow fuzilou um jovem soldado confederado, depois que uma empregada o trouxe para dentro da casa. Porém não me disse... não me disse onde. As pernas ficavam pesadas ao se aproximar da escada, como se seguisse a compulsão de subir. O frio parecia uma lâmina atravessando o coração e embranquecendo os dedos no corrimão. — Aqui... — mal conseguia falar. — Aqui na escada. Ele sentia cheiro de rosas, esperança... só queria ir a para casa. — A moça tremeu, recuou um passo e se virou. — Acho que me faria bem aquela cerveja. — É. — Rafe deu um longo suspiro. — A mim também. Você, ah, esse tipo de coisa acontece muitas vezes? — perguntou Rafe, abrindo as garrafas na cozinha. — Não — respondeu Savannah. — Alguns lugares nesta área... esta casa, a floresta lá fora... — A voz sumiu quando olhou pela janela. — Um lugar perto da minha casa sendo campo de batalha é de cortar o coração. — Com esforço, afugentou o estado de espírito e aceitou a cerveja oferecida por Rafe. — E muita emoção junta. As mais fortes, às vezes, duram séculos. — Eu tive um sonho. — Ele só contara a Reagan, mas agora parecia adequado. — Venho correndo pela floresta, o uniforme cinza salpicado de sangue.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Só quero voltar para casa. Sinto vergonha, mas também pavor. Então vejo o outro soldado, o inimigo. A gente se encara durante uns dez segundos e ataca. A luta é terrível. Depois venho para cá, me arrasto até aqui. Acho que estou em casa. Quando a vejo, quando ela fala comigo e me diz que vai ficar tudo bem, acredito. De repente, alguém me carrega escada acima. Sinto o perfume dela, as rosas. Então ela grita, olha para alguém que desce a escada em nossa direção. Ao erguer os olhos, eu o vejo apontando a arma. Aí termina. — Rafe tomou um longo gole. — O que permaneceu em mim por mais tempo depois que o sonho acabou é que eu só queria ir para casa. E isso nunca mais aconteceu até uns dois meses atrás. — Talvez porque esteja em casa. — E o que parece. — De repente, ele sorriu e bateu a sua garrafa na dela. — Bem, está a fim de conhecer a casa? — Sim, sim. Você fez um belo trabalho aqui. — É. — Ainda faltava muito a fazer na cozinha, ruminou Rafe, mas as bancadas em ardósia já estavam prontas, realçando o marfim dos novos aparelhos elétricos e os armários de pinho. — Reagan bateu o pé — explicou. — Com uma cozinha viável e um banheiro acabado, ela toparia morar em um locai em construção por algum tempo. — Parece uma mulher prática. — E é mesmo. Venha. Vou acompanhar você pela casa. Tomou-lhe o braço e começou, voltando pelo corredor. — Eu gostaria de começar lá em cima — disse ela, antes de Rafe abrir a porta à direita. — Claro. — A maioria das pessoas gostava de começar pelo salão ou a biblioteca, mas ele era flexível. Mal haviam subido os primeiros degraus da escada, sentiu-a hesitar, com calafrios. — Ninguém sente mais isso — comentou. — Faz semanas que não. — Que sorte a deles — Savannah conseguiu dizer ao chegarem ao topo da casa. Olhou além das lonas, os baldes e as ferramentas. Notou as paredes maciças, que haviam sido construídas para durar. — Terminamos... — ele interrompeu-se, ao vê-la afastar-se do quarto que dividia com Reagan. Um quarto que fora da dona da casa e lindamente reformado, redecorado e mobiliado. Sem nada dizer, seguiu-a até a ala oposta. A porta fora retirada daquele aposento, com janelas compridas que davam

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade para as imediações da cidade. As paredes pintadas de verde-escuro, o acabamento largo, esculpido, marfim para combinar com o mármore da lareira. Os pisos eram recém-lixados. Ela percebeu o cheiro de pó de serra. O pequeno quarto do antigo dono da casa fora transformado em um banheiro. — Era o aposento do senhor? — ela perguntou. — É bem provável. Fascinado, Rafe a viu avançar da porta à janela, da janela até a lareira. Oh, esse fora dele, do sr. Barlow, Savannah teve certeza. Dali, ele observava a cidade e ruminava seus pensamentos. Levava uma ou outra das jovens criadas para a cama, que iam ou não de bom grado, e depois dormia o sono sem sonhos dos desalmados. — Era um canalha — disse Savannah. — Bem, não deixou muito para contar — deu um sorriso e virou-se para Rafe. — Você tem feito um trabalho maravilhoso. Ele coçou o queixo. — Obrigado. Você é uma mulher bastante misteriosa, Savannah. — De vez em quando. Fiz leitura de mãos em um parque de diversão durante algum tempo. Um trabalho bastante chato, na verdade. Este é muito mais interessante. — Savannah passou por ele, voltando para o corredor e indo direto para o quarto da senhora, — Este é lindo — murmurou. — Demos mais vida e beleza a ele. — Do vão da porta, Rafe examinou o quarto. Sentia perfume de rosas, e também o de Reagan. — Vai ser nossa suíte de lua-de-mel. — E perfeita. Ela quis dizer exatamente isso. Em todas as suas viagens, ela jamais vira nada tão adorável. O papel de parede com desenhos de botões de rosa era um primor de delicadeza. Lindas janelas em arco adornadas por cortinas de renda completavam o ambiente, que também possuía um lindo piso brilhante. Uma cama de dossel dominava o espaço. As velas, finos círios brancos, ardiam na prateleira da lareira em castiçais de prata. E ainda havia uma elegante escrivaninha, poltronas de petit-point, mesas de bordas curvas... Um vaso rosaclaro cheio de narcisos ensolarados. Não, jamais vira nada tão adorável. Sua vida fora em trailers abafados, quartos abarrotados e motéis de estrada. Savannah sentiu a inveja soltando seu veneno. — Jared disse que foi sua mulher quem fez a decoração. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — A maior parte. Como seria ter um gosto tão refinado assim? Saber exatamente o que devia ficar em cada lugar? — É lindo! — repetiu. — Quando vai ser inaugurada a pousada? — A previsão é setembro. É um pouco otimista, mas talvez dê para abrir as portas. — Ele virou a cabeça, os olhos mudaram de expressão ao ruído da porta se abrindo no andar de baixo. — É Reagan! Savannah percebeu logo que aquele MacKade estava muito apaixonado. Outra cobra venenosa enroscou-se dentro dela. — Aqui em cima, querida! — ele gritou. — Estou no quarto com uma mulher maravilhosa. — Isso era para me surpreender? — Reagan entrou no quarto. — Como vai, Savannah? — Foi só o que conseguiu dizer, antes de o marido puxá-la para um longo beijo de boas-vindas. — Olá, Rafe. — Oi. Os dois sorriram radiantes um para o outro. Savannah não conseguiu pensar em outra palavra. A não ser perfeita. Reagan MacKade, os brilhantes cabelos castanhos, o elegante rosto com uma charmosa pintinha ao lado da boca, os belos olhos azuis, parecia absolutamente perfeita ao abraçar o marido. As roupas eram bem cortadas — blazer azul-escuro, calça pregueada, blusa branca com um broche. E um perfume sensual se desprendia dela. Simplesmente fantástica. Savannah se sentia uma amazona louca e porca que topara com uma princesa. — Eu estava mostrando a casa a Savannah — explicou Rafe. — Ótimo — aprovou Reagan, balançando os cabelos para trás, os anéis brilhando nos dedos. — Que achou até agora? — É maravilhosa — respondeu ela, lembrando-se da cerveja na mão e tomando um pouco da bebida. — Não vamos parar por aqui. — Reagan foi na frente. — Jared ligou para a loja hoje de manhã e disse que gostaria que nós trabalhássemos na reforma dos escritórios dele. — Já era hora mesmo — comentou Rafe. — O lugar parece um mausoléu. Branco e cinza! — Nós duas vamos dar um jeito nisso — declarou Reagan.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Com infinita confiança e entusiasmo, mostrou o resto da casa. Cada aposento, completo ou em andamento, arranhava a confiança de Savannah. Ela nada sabia de antiguidades, tapetes caros ou tratamento de janelas. Nem queria saber... — Jared ficou realmente impressionado com suas pinturas — continuou Reagan, ao contornarem o patamar e tomarem a escada para o primeiro andar. — É óbvio que o inspirou a fazer alguma coisa naquele espaço de trabalho dele. Eu adoraria ver o que você tem feito. — Não é nada de mais. Eu não tenho nenhuma formação específica. Savannah deu uma longa olhada para o sofá curvo do salão da frente, para as mesinhas elegantes, e enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans. Uma lareira de mármore estalava de nova, equipada com o melhor de ferramentas e suportes para lenha. Tudo, até o último toco de vela, era perfeito para uma foto de revista. — Nada meu ficaria bem aqui. Nem em um escritório de advogado. Obrigada por me mostrar a casa. E pela cerveja — acrescentou Savannah, entregando a garrafa vazia a Rafe. — Tenho de ir pegar meu filho na escola. — Olha, se você tiver algum tempo livre no fim de semana, posso encaixar na minha agenda. Poderíamos trabalhar juntas. — Tenho um monte de trabalho a fazer — respondeu Savannah, empurrando a porta semi-aberta, de repente desesperada para fugir. — E melhor cuidar disso sozinha. Até a próxima. — Tudo bem, mas... — Reagan interrompeu-se com uma exclamação zangada ao ver a porta batendo. Fora, decididamente, sem a mínima sutileza, descartada. — E o que será que foi tudo isso? — perguntou, virando-se para Rafe. — Não me pergunte. — Pensativo, ele correu a mão pelos cabelos da mulher. — Que moça mais misteriosa, querida! Vamos nos sentar que eu conto tudo.

Capítulo 6 Quando Jared encostou o carro diante da casa, viu-se desnorteado, levemente aborrecido e muito intrigado. Não demorara muito a chegar-lhe a notícia de que Savannah batera em retirada da casa do irmão, recusando o trabalho que ele lhe oferecera.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Pretendia obter uma explicação. Localizando Bryan e Connor no jardim, acenou para eles. Eles responderam com um grito e retornaram à importante atividade de arremessar a bola de beisebol. A batida na porta não foi atendida, por isso ele entrou sem ser convidado. Duvidava que alguém a houvesse ouvido, com o rock and roll tocando em alto volume. Seguiu pela cozinha e entrou em uma sala ao lado. Encontrou-a curvada sobre uma prancheta. Ela usava uma imensa camiseta masculina. Tinha os cabelos presos em uma trança, a calça jeans cheia de buracos e os pés descalços. Jared ficou com água na boca. — Ei! Savannah não ergueu os olhos. Continuou com um olhar de feroz concentração, enquanto trabalhava delicadamente com um pincel fino mergulhado em vermelho brilhante. Ele olhou o pequeno cômodo entulhado em volta. Na certa, o quartinho fora planejado como uma entrada de serviço, para se tirar sapatos, botas e roupas molhados. Era óbvio que ela não precisava ou não tivera tempo, imaginou, de criar um ambiente em seu espaço de trabalho. A luz intensa que entrava pelas janelas mostrava cada partícula de poeira. O piso de linóleo tinha sido decorado, e começava a ficar gasto, cheio de pingos de tinta. As telas não emolduradas estavam apoiadas sem cuidado nas paredes inacabadas de toras de madeira, as prateleiras de aço transbordavam de potes, tubos e latas. Ele sentiu cheiro de terebintina ou algo assim. E, com alívio, viu o velho som portátil que ameaçava explodir seus tímpanos. Foi devagar até lá e o desligou, quase estremecendo com o repentino e estranho silêncio. — Tire a mão daí! — Ela o destratou, enraivecida. — Você não me viu entrar... — Estou trabalhando. — Savannah jogou o pincel em um frasco de solvente e escolheu outro. — Vá embora! Mesmo com o sangue fervendo, ele falou com calculada delicadeza. — Sim, creio que aceito uma cerveja, obrigado. Posso pegar uma para você também? — Eu estou trabalhando — ela repetiu. — E o que vejo. — Ignorando o xingamento que lhe foi dirigido, ele se Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade curvou sobre a mesa de trabalho. A rainha má estava quase concluída e tinha um rosto de uma beleza terrível. O corpo esguio, elegante, envolto em um manto púrpura; a coroa de ouro brilhava com jóias de aspecto malévolo. As mãos esquálidas seguravam uma vívida maçã vermelha. — Maravilhosa — murmurou Jared. — Má até a medula. É da Branca de Neve. — Não, é dos Três Porquinho. Você está tapando a luz — respondeu malhumorada. — Desculpe — disse Jared, deslocando-se um pouco. — Não sei trabalhar com gente olhando — falou ela por entre os dentes. — Achei que você pintava nas esquinas de ruas movimentadas. — Isso é diferente. — Savannah. — Paciente, ele limpou uma manchinha vermelha do rosto dela. — Rafe ou Reagan disseram alguma coisa que a incomodou? — Por quê? Deveriam? — É o que eu quero saber. — Eles foram perfeitamente educados. Perfeitamente... — Como ele apenas arqueou a sobrancelha, ela suspirou alto. — Gosto do seu irmão, adorei ver a casa. Foi fascinante. E sua cunhada é adorável. Era coisa de mulher, ele notou, e recuou um passo. — Teve algum problema com Reagan? — Quem poderia ter algum problema com Reagan? Apenas não daria certo trabalharmos juntas. E, além disso, não quero meu trabalho no seu escritório. — Oh!... Por que isso? — Porque não quero. Tive tempo para pensar no assunto e vi que não me interessa. — Ela disparou-lhe um olhar frio, inflexível. — Não me interessa de forma alguma, Jared. Portanto, pode ir embora. Jared avançou rápido. Apesar do terno de advogado, Savannah devia ter esperado que avançasse rápido. Levantou-a do banco e segurou seu braço com firmeza, antes que ela pudesse piscar os olhos, O que não significava que ela não pudesse falar. — Já disse mais de uma vez para não me segurar, a não ser que eu peça.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Sim — ele ironizou — você me disse, disse um monte de coisas. — Só para provocá-la, segurou também o outro braço. Notou os olhos dela em chamas. — Agora, por que não me diz o que está acontecendo aqui? — Não tenho de dar explicações a você. Acha que só porque me beijou duas vezes eu sou sua? Muitos homens já me beijaram. Eu não sou de ninguém. Ela tinha mirado a flecha muito bem. Ele fora atingido bem no alvo, e ficou surpreso ao perceber como a ponta era aguda. — Você me deve a cortesia de uma explicação. — Cortesia não me interessa. — Ótimo — ele rebateu, decidindo que isso não ia detê-lo. Puxou-a para perto e deu um beijo furioso em Savannah. Ela não resistiu. Pressentiu que seria pior se resistisse. Em vez disso, ficou parada, sem fraquejar, A fria rejeição era mais eficaz que o protesto. Porém, o corpo e a mente a traíram. Então, ela estremeceu. Aquele rápido tremor, aquele gemido baixo e impotente emocionaram Jared. Mas a indignação ainda faiscava por ele quando se afastou de repente. Savannah tinha o rosto vermelho, a respiração acelerada. O advogado soube pelo olhar que ela desejava tanto quanto ele. Isso o enfureceu. — Eu lhe devia isso — disse, implacável. — Agora pode me dizer à vontade que não está interessada. Ela estava. Interessada em ter um homem que a olhasse, só uma vez, como viu Rafe fazer com Reagan. Era humilhante perceber que tinha essa necessidade dentro de si. — Quer uma rapidinha básica, Jared? — Com um deliberado gesto de insulto, ela passou os dedos pela face dele. — Claro, amorzinho, quando eu tiver tempo. — Vá plantar batatas, Savannah. — Está vendo? — Ela suspirou, balançando a cabeça. — Sabia que você ia levar a coisa para o lado pessoal. É a sua atitude típica. E, como eu disse, você não faz meu tipo. Você é uma beleza de se olhar, mas... — ela ergueu a mão e puxou a gravata dele — certinho demais. Agora, dr. MacKade, sabe tudo sobre as leis de invasão de propriedade, a inviolabilidade do lar de alguém. Vou lhe pedir com toda a delicadeza, já que gosta de tudo muito bonitinho, que saia. Não quero ligar para seu irmão, o grande combatente do crime.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Que diabo deu em você? — Uma dose de realidade. Agora vá embora, Jared, antes que eu perca a paciência. Maldito fosse ele se implorasse. Maldito fosse se ia deixá-la ver que o ferira onde jamais esperara ser ferido. O orgulho de ferro de Jared MacKade congelou em seus olhos. Ele se virou e saiu sem uma palavra. Ao ouvir o motor dar a partida, e o carro descer a alameda, ela afundou de volta no banco e fechou os olhos. Deu permissão a Bryan para receber o amigo e gostou de ouvir o barulho dos meninos noite adentro. Estava nas arquibancadas no sábado, torcendo pelo filho e seu time. E, embora olhasse em volta de vez em quando, à procura de um homem alto de cabelos escuros e olhos verdes, não o viu. Por insistência de Cassie, no dia seguinte à tarde deixou os dois meninos na casa de Connor. De volta ao lar, Savannah andou de um lado para outro sozinha, irrequieta com o silêncio, e acabou voltando ao trabalho. A rainha já estava pronta, mas ela ainda precisava desenhar o príncipe. Nada de um boboca sentimental, de olhinhos meigos, pensou Savannah, começando a riscar com o lápis o grosso bloco branco. Sua Branca de Neve merecia um homem com o fogo da paixão, uma real promessa de "felizes para sempre". Não foi surpresa que o primeiro esboço se assemelhasse a um MacKade. Matadores de dragão, pensou, com um sorriso implacável. Desordeiros. Quem disse que um príncipe tinha de ser cortês? A maioria não conquistara o trono primeiro na batalha? Sim, via Jared como um príncipe de contos de fada. O seu tipo de conto de fada. O tipo de história que inspirara as lendas transmitidas através dos séculos, antes de se tornar mais apropriada para embalar que assustar as crianças. Guerreiro, vingador, aventureiro. Sim, esse era o príncipe que ela queria criar. Começou a se divertir. O familiar processo de dar vida a um desenho pelo coração, pela mente e pela mão era sempre fascinante, mesmo que nem sempre tranqüilo. Se tudo houvesse sido diferente, não ganharia a vida com encomendas, mas com o coração e a mente. Pintar o que via, sentia e queria, apenas por prazer. Era uma felizarda, na verdade, porque seu trabalho e o pagamento por ele lhe permitiam ter tempo para criar outras coisas. Instigada, começou a acrescentar rapidamente detalhes ao esboço — a

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade covinha sensual no canto da boca, a arrogância de uma sobrancelha levantada, um pouco de músculos, um ar de perigo nos olhos que ela sem dúvida teria de pintar com tinta verde... Puxa, pensou, Jared MacKade acabou lhe dando o perfeito modelo para a encomenda! A ilustração ficaria ótima. Não podia ser melhor. Jamais deveria ter aceito a oferta de pintar quadros para ele, muito menos vender as obras que fizera para si. O ruído de um carro a levou a concentrar energias e se esforçar para conter uma leve agitação de esperança. Porém, quando chegou à porta, viu Reagan MacKade. As duas examinaram uma à outra friamente. Após um longo silêncio, Savannah abriu a porta e recuou. — Não sei o que há entre você e Jared — disse Reagan, sem preâmbulos. — E se acha que não é da minha conta, engana-se. Ele é da família. Mas eu gostaria de saber por que resolveu que não pode me suportar a ponto de sequer aceitar um trabalho potencialmente lucrativo. — Eu não quero o trabalho. — Mentira. Os olhos de Savannah encheram-se de raiva. — Agora, escute aqui, irmã de caridade... — Não, escute você. — Reagan a interrompeu com um toque no ombro de Savannah. — Não precisamos ser amigas. Eu já tenho minhas amigas. Embora me espante como nós duas conseguimos ser amigas de alguém tão doce quanto Cassie Dollin. Ela a acha admirável. E você está sendo simplesmente grossa. Ficou interessada no trabalho quando Jared sugeriu. Interessada o bastante para ir ver a casa. E, segundo Rafe, tudo corria às mil maravilhas até eu entrar. Então, qual é o problema... irmã? Savannah sentiu o mau gênio baixar. Teria Reagan percebido que ela era grande o bastante para quebrá-la em dois pedaços? — Acho que já percebeu, não? — Acho que não — rebateu Reagan. — Bem, não gosto do jeito como você é. Está satisfeita agora? — Você... o quê?! — Nem do seu jeito de falar. — Satisfeita, Savannah sorriu. — Hum... Deixe-me adivinhar... escola particular, bailes no clube campestre, festa de quinze anos? — Nunca fui debutante. — Reagan se sentiu quase insultada. — E que tem Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade isso a ver com qualquer coisa? — Você parece ter saído de uma daquelas revistas femininas classudas. Reagan revirou os olhos. — Então, é isso? — Sim, é isso aí. — E você parece uma daquelas estátuas de deusas gregas. Porém, eu não tenho nada contra você por causa disso. Armaram carrancas uma para a outra durante um minuto. Então Savannah suspirou e encolheu os ombros. — Tenho chá gelado. Quer um pouco? — Eu adoraria. Depois de acabar de tomar o segundo copo, Reagan levantou-se e se pôs a vagar pela sala da frente. Parou perto de um quadro. Era uma paisagem com montanhas e árvores frondosas. — Este aqui — escolheu. — Ele precisa colocar este onde está pendurada aquela orquídea branca horrível. — Achei que você gostava das orquídeas. Quando Reagan se virou, com os olhos desafiadores, Savannah sorriu de verdade pela primeira vez. — E, vejo que me enganei. — E aquelas cadeiras da ante-sala também têm de sair. Tenho duas poltronas de biblioteca em mente. Estofamento fundo, encosto alto. De couro... Vai ficar ótimo. Sim, claro. Savannah já percebera. Reagan MacKade era obviamente uma mulher que sabia o queria. — Escute, não sou uma pessoa submissa, mas você consegue mesmo ver minhas pinturas combinando com seu gosto... ou o de Jared? — Sim. E acho, levando-se tudo em conta que você e eu faremos um bom trabalho juntas. Bem, vamos tirar Jared daquele túmulo? — Sim. — Savannah aceitou o cumprimento daquela bela mão estendida, cheia de anéis cintilantes. — Por que não? Mais tarde, ela foi andando até a floresta. Tinha de admitir que fizera algo que detestava nos outros. Olhara as coisas superficialmente e tirara conclusões apressadas. Tudo que vira, ou talvez tudo que tivesse desejado ver quando olhara para Reagan MacKade, tinha sido elegância, privilégio e classe.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Mas quem poderia ter imaginado que havia tanta coragem sob todo aquele verniz? Ela devia ter imaginado, percebeu. E quando viu Jared sentado numa pedra fumando tranquilamente, também percebeu que sabia que ia encontrá-lo ali. O advogado nada disse quando ela sentou ao seu lado e lhe tomou o charuto. A calma do lugar era maravilhosa. Os pássaros cantavam, a brisa soprava. — Eu lhe devo desculpas. Eu estava... Você me pegou em um mau dia. — Sério? — Francamente, dr. MacKade! — ironizou ela, devolvendo o charuto. — Não fui completamente sincera com você. Porém, mentiras não combinam comigo. Eu queria o trabalho. Preciso. Mas me senti... intimidada — resmungou. — Intimidada? — Era a última desculpa que esperava dela. — Pelo quê? — Por sua cunhada, para começar. — Reagan? Ah, dá um tempo! Foi a desdenhosa risada de Jared que acendeu o pavio curto dela. Furiosa, Savannah se levantou de um salto da pedra e se virou feito um raio para o advogado. — Tenho o direito de me sentir como eu quiser. Não ria de mim, ouviu? — Desculpe. — Jared pigarreou e ergueu os olhos para ela. — Por que Reagan a intimidaria? — Porque ela... ela é elegante, bonita, inteligente e bem-sucedida. que não sou. Eu me sinto bem com o que sou, mas quando se topa com assim, é como um chute na bunda, é um lembrete do que nunca vou Odiando-se, Savannah enterrou as mãos nos bolsos. — E não esperava tanto dela.

E tudo alguém ser. — gostar

— Achei que fosse gostar. Ela enfrenta tudo de peito aberto. Aliás, peça a ela para lhe contar sobre a noite em que entrou na taberna do Duff com uma minissaia justíssima e fez Rafe roer o taco de sinuca até virar palito de dente. Fascinada pela imagem, Savannah quase riu do comentário. — Bem, Jared, eu gostaria de cuidar da decoração do seu escritório, se ainda estiver interessado. — Estou. Ele ofereceu o charuto a Savannah. Como ela fez que não com a cabeça, o Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade advogado deu uma última baforada e, com todo cuidado, esmagou-o na pedra. — Também não fui completamente sincera com você sobre outras coisas. — Como a situação era inédita, ela não sabia bem frasear as coisas. — Eu tenho sentimentos por você, Jared. Eles meio que surgiram de repente. E me assustaram. Jared a encarou, os olhos absortos e serenos. Ela se perguntou quantas testemunhas haviam se desmilingüido com aquele olhar forte. — E muito mais fácil lidar com os homens quando não há sentimentos envolvidos — ela continuou. — Posso ter entendido errado, mas fiquei com a idéia de que você pretendia uma espécie de relacionamento, e eu sou péssima com relacionamentos. Então comecei a pensar nisso e decidi que era melhor pular fora. — Como Jared nada disse, Savannah desistiu e chutou a terra na trilha. — Vai ficar simplesmente sentado aí? — Estou ouvindo — ele respondeu, a voz branda. — Tudo bem, escute. Tenho um filho com quem me preocupar. Não posso me dar ao luxo de me envolver com um homem. Sei como manter as coisas na linha. Ele se levantou, sem desprender os olhos da moça. — Vai me manter na linha, Savannah? Se ele a tocasse, ela sentia muito medo de disparar como um foguete. — Acho que não. O negócio é que tenho esses sentimentos por você. — Interessante. — Ele não percebera que podia parecer tão vulnerável. — Eu também tenho uns sentimentos por você. — Tem? — Ela mantinha as mãos fechadas dentro do bolso. -Então... — Então... — Jared repetiu, avançando para dar um beijo nela. Savannah não estava habituada a ser beijada assim, como se ela fosse tudo... que importava. A sensação a deixou fraca e tonta. Subitamente os dedos tensos se afrouxaram, o coração se rendeu. — Estamos acertados agora? — ele perguntou. Ela fez que sim com a cabeça e descobriu que aquela sensação de prazer era ótima. Simplesmente era maravilhoso ter o ombro de um homem para embalar a cabeça. — Detesto me sentir idiota. — Você já disse isso. — Não quero ser idiota com relação a isso. Jared passou os lábios pelos Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade cabelos dela. — Nem eu. — Vamos fazer um pacto. Aconteça o que acontecer, nenhum dos dois vai fazer o outro de imbecil. — Tudo bem. — O advogado lhe deu outro beijo. — Que tal eu acompanhar você até sua casa? — Tudo bem. Não pôde evitar. Sentiu-se uma romântica imbecil seguindo de mãos dadas com ele pela floresta, consciente de cada feixe de luz, cheiro e ruído. Seria capaz de jurar que ouvia as folhas desabrochando nas copas das árvores e as flores silvestres se espichando com esforço em direção ao sol. — Tenho de pegar Bryan daqui a pouco — disse. — Posso ligar para Cassie e recombinar tudo. Jared percebeu que ela estava se oferecendo. Notou o sangue correr forte sob as veias. Quando levou as mãos enlaçadas aos seus lábios, viu o clarão de surpresa nos olhos dela. Ainda não, disse a si mesmo. Ainda não é a hora certa... — Vamos os dois pegá-lo. Que tal um filme na matinée e uma pizza depois? Ela não pôde olhá-lo, sua garganta estava fechada, pois tinha entendido a mensagem dele. — Perfeito — acabou respondendo. — Obrigada pelo convite. — Jared é legal — comentou Bryan, pulando para a cama de cima do beliche do quarto, a mente cheia de cenas do filme de ação, a barriga empanturrada de pizza de calabresa. — Quer dizer, cara, ele sabe tudo sobre beisebol, as coisas da fazenda e o campo de batalha. E até mais inteligente do que Connor. — Você não é nada bobo — disse Savannah, acarinhando os cabelos do menino. — Jared falou que todo mundo tem um talento especial. Interessada, ela se apoiou na borda da cama para nivelar a cabeça com a do filho. — Falou? — É, quando a gente foi comprar pipoca. Disse que toda pessoa tem algo que faz ela ser diferente. Jared sabe bem disso porque tem três irmãos e eles são muito parecidos, mas também diferentes. Ele disse que eu sou um talento...

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade inato. Ela riu. — Inato como? — perguntou. — O, mãe! — Revirando os olhos, Bryan sentou na cama. — No beisebol! E sabe o que mais ele disse? — Não. Que mais ele falou? — Que mesmo se eu decidir não ser um jogador famoso, posso usar tudo que sei em outras coisas. Claro que vou ser um jogador famoso, mas talvez também gostasse de ser advogado. — Advogado? Era só o que faltava. O filho se apaixonava tão rápido quanto ela! — E, porque a gente pode ir ao tribunal, discutir com as pessoas e pôr os criminosos na cadeia. Mas tem de freqüentar a escola para sempre, quer dizer até ficar grande. Jared foi para a universidade, para a escola de direito e tudo mais. — E você também pode ir, se quiser — respondeu a mãe. — Bem, eu vou pensar nisso. Bryan se deitou e se enroscou no travesseiro de um jeito que a reconfortava. Era um gesto de criança. Ele continuava sendo seu menininho. — Boa noite, mamãe. — Boa noite, Bry. Ela deu um beijinho na testa do garoto e demorou-se por um ou dois minutos a mais que o habitual. Tempo suficiente para fazê-lo adormecer. Savannah se levantou, apagou as luzes e fechou a porta, pois gostava de privacidade. O filho advogado! Veja só! Com uma mãe que nem havia concluído o ensino médio. Logo depois, o pânico deu lugar a uma certa empolgação de orgulho pelo que o filho poderia ser um dia. Por isso, ela sorriu. Seguiu tranquilamente para seu quarto e foi até a janela olhar a floresta. Por entre as árvores, viu as luzes da fazenda dos MacKade. E ali, pensou, estava o homem por quem se apaixonara. Sorriu mais uma vez e apoiou a mão no frio vidro da janela. Afinal de contas, fora muito inteligente de sua parte esperar até encontrar Jared MacKade.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade

Capítulo 7 Jared lhe enviou tulipas amarelas. Ela ficou embasbacada durante uma hora, tempo suficiente de pô-las uma por uma em inúmeras garrafas velhas. Levou Savannah e Bryan a um jogo de beisebol de uma liga menor no município vizinho, onde as arquibancadas eram duras como ferro e o público desordeiro, e conquistou o coração do menino ao pegar uma bola arremessada para fora do campo. Comeram pizza em um lugar com bancos de madeira gasta, jukebox de música estridente e um fliperama. Os três comeram à vontade, cantaram aos berros e competiram feito demônios no fliperama. Ele a levou para jantar em um restaurante com luz de velas e champanhe borbulhando em longas taças de cristal fino, segurando a mão de Savannah sobre a toalha branca como a neve. Depois, lhe trouxe um caminhão de palha para proteger as mudas recémplantadas no jardim... e Savannah estava perdida. — Você está sendo cortejada — disse Cassie, na cozinha de Savannah. — Como? — Cortejada — repetiu Cassie. A infelicidade dos anos com Joe Dollin não tinha reprimido a natureza romântica da mulher. — Não está, Reagan? — No mais alto nível. Tulipas amarelas — ela acrescentou, erguendo os olhos das amostras para as flores que se enfileiravam no centro da mesa. — É uma revelação involuntária e letal. — A gente está começando um relacionamento. — falando com um tom casual, Savannah esfregou as mãos, de repente úmidas, na calça jeans. — Só isso. — Ele trouxe palha para você e ajudou no jardim, não é? — observou Cassie, raciocinando. — É. A lembrança fez Savannah sorrir tolamente. Recordou-se de como ele a beijara, sem pensar em nada, os dois sujos de terra, suor e lascas de casca de árvore. — Jared está de quatro — comentou Reagan. — Talvez eu também. — Escondendo um sorriso, Savannah pegou mais refresco na geladeira. — E daí?

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Daí, nada. Que acha desse tom? — Amarelo demais. Reagan deu um suspiro. — Tem razão. Cheia de admiração, Cassie observava a maneira das duas escolherem e descartarem cores. Esperava que, quando tivesse um pouco mais de dinheiro, Reagan a ajudasse a escolher uma nova tonalidade para sua sala. Limpava as paredes brancas várias vezes, esfregava-as até os ombros doerem, mas não conseguia deixá-las claras de novo. Depois, se Savannah a ajudasse a escolher o material certo, ela podia comprar cortinas novas para o quarto de Emma. Uma coisa mais alegre para uma menina. Era difícil, mais difícil do que admitiria qualquer pessoa, aceitar esses pequenos desafios. Realizar coisas que eram apenas atividades cotidianas para muitas mulheres. Como poderia explicar que, pela primeira vez na vida, não tinha ninguém para lhe dizer sim ou não? Ninguém para se queixar, criticá-la ou humilhá-la? Tinha de se lembrar constantemente que estava no comando e que, se tentasse, se avançasse passo a passo, poderia transformar a pequena casa alugada em um lar. Um verdadeiro lar, onde os filhos não se lembrassem mais da gritaria, das surras e do cheiro de cerveja choca. Devaneando, observou a casa de Savannah. Embora não fosse maior que o lugar onde morava com os filhos, era muito mais viva. Cores berrantes, almofadas jogadas. Poeira. Ainda atacava a poeira como uma maníaca, temendo que Joe cruzasse a porta e a espancasse pelo esquecimento. Apesar de saber que ele estava na cadeia, Cassie ainda acordava à noite, tremendo a cada ranger. E acordava toda manhã aliviada. E envergonhada. Os ouvidos se antenaram. — As crianças estão voltando — anunciou, afastando todos os velhos temores. — Posso tomar mais refresco? Savannah apenas grunhiu e examinou as cores que Reagan escolhera para a biblioteca jurídica de Jared. Então as crianças irromperam casa a dentro feito foguetes. — Só mais três semanas! — gritou Bryan, sacudindo os punhos fechados em triunfo. — Os gatinhos podem vir daqui a três semanas. — Dias felizes — murmurou Savannah, logo sorrindo quando Emma enlaçou Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade um braço na coxa de Cassie. — Oi, meu anjo. — Oi. Bryan deixou eu fazer carinho nos gatinhos dele. São muito fofos. — Emma quer um. — A timidez nunca fora problema para Bryan. Meteu a mão no pote de biscoitos e arrebanhou um bocado. — Ela pode ficar com um, sra. Dollin? — Como? Ele enfiou um biscoito na boca e lançou um olho comprido ao refresco que Cassie preparava. — Emma pode ficar com um dos gatinhos? Shane tem de sobra. — Um gatinho. — Automaticamente, Cassie pôs a protetora mão na cabeça da filha. — Não podemos ter animais em casa, porque... Interrompeu-se, lançando o olhar para Connor, no momento em que o filho baixou a cabeça e olhou para os pés. Porque Joe não gosta deles. Ela quase disse, tão arraigado era o hábito. Um hábito, percebeu, que a impedira de ver o desejo com que o filho falava dos filhotinhos que Bryan esperava receber. Ver como a filha gostava de brincar com o cachorrinho marrom do vizinho. — Não vejo por que não. Sua recompensa foi um brilhante e grato olhar do filho. — Verdade? — A esperança na voz dele quase a fez cair em prantos. — Nós podemos de verdade? — Claro que sim. — Ela envolveu Emma nos braços e a aninhou. — Você quer um dos gatinhos de Shane, Emma? — São muito fofos — repetiu a menina. — Você também é. — Já era hora de fazer isso, disse Cassie a si mesma. Tomar decisões simples sem se preocupar com o que Joe faria. — Diga a Shane que você quer um, Connor. — Legal! -Alheio ao drama, Bryan devorou outro biscoito. — Aí você pode trazer ele às vezes para brincar com os irmãos. Vamos trabalhar no seu braço de lançador, Con. — Combinado! — Connor saiu correndo atrás do amigo e parou, derrapando. — Obrigado, mãe. — Opa! — Na porta, Rafe evitou um encontrão de frente com Connor. Fingiu não ver como o menino empalideceu, dando-lhe um tapinha no ombro, muito Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade descontraído. —Vocês caras são rápidos, hein? Jared e eu nem conseguimos alcançá-los na floresta. — Desculpe. — No ano que vem terá de treinar para correr as bases com essa rapidez. — Rafe entrou e sorriu para as mulheres. — Isso valeu a longa caminhada pela floresta. beijo.

— Nós já quase terminamos — disse Reagan, erguendo o rosto para um _ Não tem pressa. Ei, bonitona.

— Oi bonitão — respondeu Savannah, pegando um dos biscoitos esquecidos pelo filho e oferecendo a Rafe. — Obrigado. Cassie... simplesmente a mulher que precisava ver. — Oh? Algum problema? — Tenho um problema. — Para arrancar com um suborno um sorriso de Emma, ele estendeu o biscoito. — Você me daria um beijo por isto? — perguntou. De olho no biscoito, Emma se curvou e tocou os lábios franzidos no nariz dele. — Um problema? — repetiu Cassie. Com os nervos à flor da pele, largou Emma e a mandou ver os meninos jogarem. — Qual é o problema? — Bem, vou dizer. — Ele se recostou na bancada. — Reagan e eu encontramos uma casinha um pouco mais afastada da cidade, na Quarry Road. Precisa de alguma obra. — Riu para a mulher. — Estamos pensando em nos mudar daqui a uns dois meses. Provavelmente, em junho. — Que legal. — O negócio é o seguinte, Cassie: precisamos de alguém na pousada. Uma... como foi que você chamou, querida? — Chatelaine. — Palavra chique para gerente, se quer a minha opinião. Alguém para cuidar da pensão — explicou Rafe. — E dos hóspedes, assim que os tivermos. Alguém que saiba preparar um café da manha, supervisionar a arrumação da casa. Alguém que não se incomode de morar lá e cuidar dos afazeres. — Ah! — Já calma, Cassie sorriu. — Você quer que eu procure por aí? A gente pode colocar um anúncio no restaurante também. — Não, já temos alguém em mente. — Com olhos de águia, Rafe pegou um biscoito do pote e comeu.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Queremos alguém que conhecemos, em quem confiamos. — Parou para emborcar o copo cheio de refresco que Cassie lhe dera. — Então, o que acha? — O que acho? — ela repetiu. — Não é assim que se oferece um emprego, Rafe — disse Reagan com um sorriso. — Cassie, gostaríamos que você se mudasse para lá e administrasse a pousada por nós. Simplesmente não temos como fazer isso, com a minha loja e o trabalho de Rafe. — Vocês me querem? — O copo teria se estilhaçado no chão se ainda estivesse em suas mãos. — Não sei nada de administração de pousadas. Vocês precisam de uma pessoa com experiência e... — Você administra uma casa e dois filhos — salientou Rafe. — Cozinha bem. Sabe como lidar com todos os fregueses no restaurante da Ed, além de assumir a cozinha quando necessário. E é uma pessoa calma. Essas são as qualificações em meu manual. — Mas... — Talvez queira pensar na proposta. — A interrupção de Reagan foi suave como seda. — Sei que é um grande favor, Cassie, e você trabalha no restaurante da Ed há muito tempo e que seria uma importante decisão trocar de emprego. Mas Rafe está montando um belo apartamento no terceiro andar... com uma cozinha independente... que seria parte de seu salário. Teria privacidade total. Talvez você e as crianças pudessem passar por lá e dar uma olhada. Nós íamos ia ficar muito gratos. Um apartamento, privacidade. Sem pagamento de aluguel. Aquela bela casa na montanha. Gerente. Tudo rodopiava na cabeça de Cassie. Parecia um sonho. — Eu gostaria de ajudar, mas... — Maravilha! — Lançando um sorriso a Reagan, Rafe apertou de leve o ombro de Cassie. — Vá até a casa apenas dar uma olhada geral. Depois conversamos mais sobre o trabalho. — Tudo bem. — Ainda tonta, ela pôs Emma no colo. — Vou dar um pulo lá. Agora tenho de ir. Prometi a Connor e Bryan fazer cachorros-quentes. — Vá lá fora e junte os meninos — sugeriu Savannah. — Vou pegar a mochila de Bryan lá em cima. Esperou Cassie sair e disse antes de subir. — Vocês formam uma ótima dupla — murmurou, olhando para Reagan e Rafe. — E são amigos excelentes. Já quase chegava aos degraus quando viu Devin na varanda, conversando

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade com Cassie. Empertigou logo as costas. — Posso fazer alguma coisa por você, xerife? Apenas brandamente aborrecido com a interrupção, ele olhou para Savannah. — Não — respondeu. — Acabei de dar uma volta por aí com Jared e Rafe. Você fez um belo trabalho na margem. — Ah, sim. Que bom... Quando Emma estendeu o precioso biscoito para dividir com ele, Savannah franziu a testa. Viu-o curvar-se para a frente e dar uma mordida. — Que gostoso! — brincou ele, fazendo Emma rir e aninhando seu nariz na delicada curva do pescoço da menina. — Pode me pôr no colo? — perguntou a menina, atirando os braços e envolvendo o pescoço dele. — Claro, madame. — Ele a pegou e a acomodou no colo. Ao ver Cassie sair correndo para chamar os garotos, tornou a olhar pela porta de tela, Emma nos braços. — Algumas mulheres gostam de mim... — É o que parece — Savannah respondeu friamente. — Não estou perseguindo criminosos, sra. Morningstar. — O letal sorriso dos Mackade lampejou, cheio de poder e charme. — Só aproveitando uma tarde primaveril com a minha afilhada... — Está usando o distintivo — salientou Savannah. — Por hábito. Não tenho nenhum problema com você. — Entendo... Ela olhou para o outro lado do terreno, onde Jared lançava bolas para os meninos rebaterem. — Também não tenho nenhum problema com isso — disse Devin em voz baixa, atraindo o olhar dela para o seu. — Tudo bem. Savannah assentiu com a cabeça e subiu, enfim, para pegar a mochila do filho. Segurando Emma, Devin se afastou da varanda. Conseguiu envolver Cassie em uma breve conversa, arrancou com sua sedução um hesitante sorriso dela e lhe devolveu a menina. Depois viu os meninos e elas rumarem para o carro. Não a achou tão magra como naqueles últimos meses antes de ele conseguir afinal pôr Joe na cadeia. Mesmo assim, ainda dava a impressão de que um grito descuidado a derrubaria. Um homem tinha de ser cuidadoso com ela. As sombras Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade se haviam dissipado do rosto, mas os olhos continuavam com um ar amedrontado. Devin se preocupava com ela, pensava nela. Quando o carro se foi, afastou os pensamentos e caminhou até Jared. — Sua senhora não gosta de mim — ironizou. Jared deu uma tacada com o taco de beisebol. — Ela não gosta do distintivo. — Como eu disse... Savannah não gosta de mim. O advogado olhou para a varanda, onde a moça os observava, e sentiu a batida do coração perder o ritmo. — Ela percorreu uma longa estrada. — Não duvido. — Devin já havia percebido alguns quilômetros da estrada nos olhos dela. — Ela é o que você quer, mano? — Parece. — Bem, então... — o xerife coçou o queixo, pensativo, ainda com os olhos pregados nos de Savannah. Seria necessário muito mais do que um grito para derrubar aquela ali. — Tenho de dizer que seu gosto por mulheres melhorou muitíssimo desde o divórcio. Surpreso, Jared apoiou o taco no chão. — Achei que você gostava de Bárbara. Devin riu. — É, é... — Nunca disse o contrário. — Você nunca me perguntou! — Devin pegou a bola na grama, jogou para o alto e a agarrou na mão de um jeito que faria Bryan aplaudir. — Eu gosto dessa. Jared ficou confuso. — Você acabou de dizer que não! — Eu disse que ela não gosta de mim — corrigiu Devin com um sorriso manhoso. — Acho-a uma mulher muito interessante. De repente o irmão o prendeu em uma gravata. Devin se desequilibrou e os dois se estatelaram no chão. Com uma levíssima carranca, Savannah viu os homens brincarem de luta. Pareciam Bryan e Connor! Reagan e o marido saíram da casa. Ora, eles começaram sem mim!, pensou Rafe.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Vamos indo, não? — disse Reagan, apertando o braço de Rafe. — Você prometeu me levar para jantar fora, lembra. — Mas, querida... — Pode brincar com eles amanhã. Tchau, Savannah. — Aham!... Ao grito de Rafe, Devin rolou para o lado, evitando por um triz a mão que serpenteou para agarrá-lo. Após esfregar as mãos na calça jeans, deu uma corridinha ao encontro de Rafe e Reagan. Acenou rapidamente para Savannah e desapareceu pela floresta. — Que foi aquilo? — perguntou ela a Jared. Meio zonzo, o advogado subiu até a varanda. Se contraiu um pouco e esfregou as costelas. — Ele me deu dois socos dos bons. — Estavam brincando ou lutando? — Qual a diferença? Ela teve de rir. — Por que estavam brincando e ou lutando? — Por sua causa. Tem alguma coisa gelada? — Por minha causa? — Entrou na casa atrás dele feito foguete. — Que quer dizer? — Ele disse... — Jared deixou as palavras sem terminar e suspirou olhando a cerveja gelada que pegara na geladeira. — Ele disse que a achava atraente. Por isso, tive de socá-lo um pouco. — Seu irmão, o xerife MacKade, me acha atraente? — É. — Ele curvou-se para jogar água fria no rosto. — Ele gosta de você. — Ele gosta de mim? — repetiu Savannah, aturdida. — Por quê? — Em parte porque você não gosta dele. Às vezes, Devin é masoquista. E em parte porque eu gosto, e ele é leal. — Enxugou o rosto pingando com um pano de prato. — E em parte porque tem bons instintos e é justo. — Está tentando me deixar envergonhada? — Não, estou lhe falando do meu irmão Devin. Rafe é convencido e impulsivo. Shane tem bom coração e é relaxado. Devin é justo. — Pensativo, largou a toalha ao lado. — Me chateia o fato de você não ver isso. — É difícil se livrar dos velhos hábitos. — Mas ela também já havia percebido as mesmas coisas em Devin. — Mas ele foi amoroso com Emma. Satisfeito por ter encontrado uma brecha, ele riu.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Todos os irmãos têm um jeitinho especial com as mulheres! — Foi o que notei. — Ela tirou a cerveja dele e tomou. — Quer ficar para jantar? — Achei que você gostaria de sair. — Não. — Savannah sorriu para as tulipas amarelas na mesa ao lado dele. — Gostaria de ficar em casa... Big Mae, que dirigia a montanha-russa no parque de diversões onde Savannah trabalhara, sempre dizia que, se ela algum dia encontrasse um homem que soubesse cozinhar e não lhe revirasse o estômago à mesa do café da manhã, abandonaria aquela vida agitada e se estabeleceria. Após ser contemplada com um frango e arroz à moda Jared MacKade, Savannah achou que a Big Mae estava certa. Tomou o vinho que ele havia colocado em sua geladeira e o examinou por cima das velas na mesa da sala de jantar. — Onde aprendeu a cozinhar? — perguntou ela. — Com minha santa mãe. — Jared riu. — Ela fez os quatro filhos aprenderem. E, como tinha a colher mais ágil da cidade, aprendemos bem. — Família unida, hein? — É. Tivemos sorte nesse aspecto. Meus pais tornavam a convivência fácil... natural, acho que ê uma palavra melhor. Quando se é criado em uma fazenda, todos têm de se esforçar, depender uns dos outros. — O olhar de Jared mudou e focou-se em outro ponto. — Ainda sinto falta deles. Uma pontadinha de inveja a lembrou de que não conhecera nenhum dos pais bem o bastante para sentir saudade. — Fizeram um bom trabalho com você. Com todos os quatro. — Algumas pessoas na cidade teriam dito outra coisa tempos atrás. Algumas ainda diriam. — Seus olhos voltaram a sorrir. — Conquistamos nossas famas à moda antiga... Nós a merecemos. — Oh, eu tenho ouvido histórias sobre esses perversos irmãos MacKade! — Achando graça de uma certa lembrança, ela apoiou o queixo no pulso. — "Pavoneando-se arrogantes pela cidade." É como descreve a sra. Metz. O sorriso dele agora beirava a arrogância. — Ela é doida por nós. — Pensei a mesma coisa. Eu estava abastecendo o carro no posto. Aí ela chegou e ficou conversando com Sharilyn perto da bomba sobre o passado. E fofocando, pensou Savannah.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Sharilyn? — É, que, aliás, tinha uma lembrança muito amorosa de você... e de um Dodge 1964. Para sua surpresa, ele não se abalou. — Grande carro. Como tem passado a velha Sharilyn? — Oh, está ótima e elegante. — Sorrindo, ela mudou de assunto. — Então, qual de vocês, os perversos irmãos MacKade, enfiou a batata no cano de descarga da radiopatrulha do xerife? Jared correu a língua pelos dentes. — Rafe levou a culpa por isso. — Ele bebeu um pouco de vinho. — Mas fui eu. Sempre nos mancomunávamos com qualquer coisa que um de nós fazia, por isso quem levava a culpa a merecia. — Muito democrático. — Savannah se levantou para pôr os pratos na pia. — Alguns irmãos no circuito de rodeio bem que teriam ajudado. Não tinha ninguém a quem passar a culpa. — Seu pai era violento com você? — Não, não exatamente. Ele era... — Como poderia descrever Jim Morningstar? — Maior do que seria natural, e duro feito um tijolo. Gostava de um bom cavalo e de uma garrafa de uísque barato. Dava conta do primeiro, mas não se saía muito bem com a segunda. Não sabia o que fazer comigo, por isso tentou fazer o melhor. Só que não era o melhor para nenhum dos dois. Ela reclinou-se para encostar-se em Jared, quando ele levou as mãos aos seus ombros e perguntou: — Você aprendeu a cavalgar? — Tão cedo que nem me lembro do aprendizado. Sabia também laçar e amarrar um bezerro. Ganhei alguns prêmios — ela riu e virou-se para colocar as mãos nos quadris dele. — Meu bem, eu aprendi a fazer todo tipo de coisas loucas, enquanto você se ocupava em embaçar as janelas de um Dodge 1964 e enfiar batatas em canos de descarga. — Ah, é? — rebateu Jared, erguendo o queixo dela para os dois ficarem olhos nos olhos. — Ah, é. Eu sabia pegar um cavalo xucro e domá-lo. Gostava dos bem selvagens — disse ela, a voz arrastada, esfregando as mãos pelas costas dele. — Os com fogo nos olhos e coração um pouco mau. Fazia virem em minha direção. Direto para mim. Depois eu os cavalgava... — De olhos abertos, ela mordiscou os lábios dele. — Cavalgava feroz e por um longo tempo... E quando terminava, ele

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade estava estragado para qualquer pessoa. O sangue dele começou a ferver na hora. — Está tentando me seduzir? — perguntou. — Alguém tem de fazer isso, não? De um só fôlego, ela o beijou até o calor que a consumia por dentro engolilo feito fogo. Por trás de Savannah, Jared agarrava a borda da pia com mãos que pareciam tornos, pressionando o corpo no dela. E de repente a mulher se remexia junto a ele, deslizando, balançando, transformando-o em ferro e sorvendo os lábios famintos. — Jared, me acaricie. — Desesperada, ela puxou a mão dele e a fechou em seu seio — Me acaricie, me acaricie — repetia, enquanto ele deslizava as mãos sob sua blusa. Savannah parecia um sonho proibido, os membros quentes tensos contra ele, deslizando, em prazeroso atrito. Os seios nas mãos ávidas dele eram firmes, cheios, cálidos. Ele colou a boca no pescoço dela, sentindo vontade de enterrar os dentes ali, tão grande era a repentina e atroz fome. Sabia que, se não a possuísse naquela noite, estaria louco na manhã seguinte. Quando se desprendeu, cheio de desejo, ela gemeu. — Pelo amor de Deus, está tentando me enlouquecer? Jared continuou a encará-la, se esforçando para respirar, enquanto ela fazia o mesmo. — Essa era a primeira parte do plano — ele respondeu, dando um longo suspiro, e acrescentou. — Terminei a primeira parte. — Aleluia! — Savannah exclamou. Ele riu. — Bryan vai passar a noite na casa de Connor? — Vai. — Nervosa, a mulher agarrou-lhe as mãos. — Vamos lá para cima. — Não. A moça deu um pequeno sorriso. — Tudo bem. Mas quando ela levantou os braços, feliz por possuí-lo exatamente onde estavam, ele agarrou suas mãos — Não.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade O sorriso dela veio lento e cheio de desejo. — Jared, não me obrigue a machucá-lo. Ele riu. — Espero que faça isso. Pegue uma manta. — Uma manta? — Eu quero você na floresta. — Jared agarrou o pulso dela. — Sempre quis você na floresta. — Vou pegar lá no quarto — ela conseguiu dizer, quase tropeçando nos próprios pés ao sair correndo. Ela se sentia mais uma vez sob controle quando seguiram juntos sob o tenro arco de folhas das árvores da primavera, sob as estrelas deslumbrantes e o brilho da lua crescente. Tinha planejado seduzi-lo nessa noite, atraí-lo devagar, com astúcia, para si. Desejara surpreendê-lo. Não tinha a intenção de comê-lo vivo. Jared parou onde o terreno era macio e estendeu a manta. E ela sentiu muito medo de não conseguir conter-se. — Gostaria de saber uma coisa, dr. MacKade. Ele a viu em sua postura ereta, o queixo inclinado, os olhos cheios de poder e sexo. Ele teria roído uma vidraça para possuí-la. — O quê? — Seu plano de saúde está em dia? Ele deu um sorriso. — Você não me assusta. — Meu bem, não vai conseguir dizer o próprio nome quando eu terminar com você. Ela pulou no colo dele, ágil como um pônei arisco, cruzou as pernas em volta da cintura dele e segurou seus cabelos. Ele ajeitou seu corpo ao dela, e os dois caíram rindo na manta. De repente ele sentiu as mãos dela em toda parte, puxando a camisa, soltando o fecho do jeans, devorando-o com a boca. — Espere. — Num impulso de autodefesa, ele rolou para cima dela. — Continue assim, e isso vai durar apenas vinte segundos. — Manteve-a presa até a libido lembrar-lhe que não tinha mais dezesseis anos. — Tenho me guardado para você, Savannah. Baixou a cabeça e deu-lhe um beijo profundo. Ela ronronava como um animal selvagem. Enquanto devorava os lábios dela com os seus, explorava com as mãos seu corpo firme e macio. Savannah bailava sob seu toque, convidando-o a demorar-se. Tinha o Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade perfume da floresta — sombria, misteriosa, cheia de segredos e prazeres ocultos. Acariciava as costas de Jared, deixando os músculos tensos, enfiando as unhas na carne, provocando-o para abraçá-la cada vez mais forte. Ela emitia gemidos baixos, guturais, tão eróticos que ele tornaria a ouvi-los em sonhos. Quando Jared recuou o peito, ela arqueou o corpo para frente e cruzou os braços nas costas dele. Com os olhos fixos nele, ela arrancou a própria blusa pela cabeça e jogou-a para o lado. Deleitou-se ao ver disparar dos olhos dele o desejo renovado e ensandecido. Na juventude, seu corpo fora uma maldição — até mesmo sua ruína. Mas agora, ver o homem que amava olhá-la pela primeira vez dava-lhe uma sensação de elevado orgulho. — Deve ser ilegal — ele disse, a voz rouca e mole. — Ser como você é. Não a tocou. Fascinado, abriu a calça jeans dela, puxou-a para baixo e tirou-a. Sua declaração foi reverente. Depois subiu as mãos do tornozelo ao joelho, da coxa ao quadril, sobre o ventre rijo que tremeu inesperadamente. — Você é a mulher mais linda que já vi. Ela deu-lhe um sorriso vagaroso e confiante. Sentou-se, segurou seu pescoço e trouxe a boca dele até a dela. Murmurou, aprovando o gosto, enquanto ele a explorava, lento, centímetro por delicioso centímetro, apenas com leve força. Ela fechou os olhos, como se sonhasse, quando ele acariciou o bico de seu seio com o polegar. Podia pulverizar-se sob o efeito da deliciosa sensação de pele sobre pele, de brisa sussurrando, da manta quente. Corujas piavam nas árvores, fantasmas caminhavam no ar. Nunca na vida ela conhecera a magia e a generosidade do amor. Sabia apenas que seria dele por inteiro naquele momento. Daria tudo que Jared pedisse. Tudo que ele quisesse. Jared pegou os longos cabelos de Savannah, torceu-os em volta do pulso e puxou a cabeça dela para trás. Savannah estava preparada para qualquer coisa. Mas ele apenas pousou os lábios sobre seus ombros, deslizando-os delicadamente sobre a curva de seu pescoço. E ela tremeu como uma pomba assustada. — Surpresa? — Sadicamente satisfeito, ele ergueu a cabeça e fitou os olhos confusos dela. — Você tem ombros lindos. — Desta vez, lambeu-os. Centímetro por centímetro. Savannah tremeu. — Ombros sensíveis. Parecem Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade esculpidos em mármore, mas são macios. Mordiscou de leve a clavícula e teria jurado que J Savannah se derretera. Maravilhado com a descoberta, posicionou-a em seu colo. Quando ela ficou toda amolecida, quando a viu sem defesas nem ataques, com habilidade e rapidez acariciou-a até que ela alcançasse o mais alto nível de prazer. Ela gritou, ela se contorceu, ela se entregou em suas mãos. O amor e o prazer ardiam através do corpo de Savannah. Um calor insuportável, um louco frenesi de mãos e lábios. Mais tarde, ele acharia que os dois haviam perdido a razão. Mas, por enquanto, o que faziam um para o outro era tudo que importava. Quando, sob sua boca, o coração dele martelou como trovão, Savannah soube que era por ela, e apenas por ela. Jared ergueu-a como se ela nada pesasse. Ela se abriu, se arqueou e recebeu-o fundo, tão fundo que estendeu as mãos para agarrar as dele, simplesmente pela pura alegria da entrega. Embora só chorasse quando ninguém podia vê-la, nem ouvi-la, desta vez deixou as lágrimas rolarem. Balançava, acompanhando o ritmo dele, acompanhando a selvagem pulsação. Sem começo, sem fim, com as estrelas caindo sobre os dois e o luar penetrando pelas folhas novas, possuíram-se. Ele ficou quase cego com a beleza do rosto dela. Julgou sentir alguma coisa partir-se dentro de si, em torno do coração. Então, como uma antiga deusa invocando o poder dos céus, ela ergueu as mãos bem alto. Cintilando sob a luz das estrelas, seu corpo se retesou e enrijeceu em volta dele como uma faixa de veludo, e lançou-o para o mais profundo abismo.

Capítulo 8 Savannah acordara com um gemido. Lançou o braço aos olhos para protegêlos da explosão de luz. Sentia o corpo como se houvesse montado um cavalo selvagem sobre um chão de terra batida. E então lembrou que fizera quase isso. Sorriu ao lembrar da noite anterior. Achou que sabia agora o que era querer — um lar, uma vida e um homem. Sentiu todo tipo de fome — de comida, de abrigo e de amor. Mas nada do que sentira antes se igualava ao que sentia com Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Jared MacKade. Tivera homens antes na vida — alguns haviam passado para sempre, outros esquentado seu sangue. Mas jamais precisara de nenhum. E isso, compreendeu, era ao mesmo tempo o risco e a maravilha do que sentia agora. Porém, Jared era o primeiro, e seria o último, a lhe roubar o coração. Com a mente e o corpo despertando, ouviu o gorjeio de pássaros, o distante latido dos cachorros de Shane. Viu a força do sol brilhando por entre as folhas da primavera, e sentiu o frio da primeira brisa matinal. Com os olhos ainda fechados, espreguiçou-se feito uma gata à espera de ser acariciada. — Você tem uma tatuagem — ele observou. Savannah deu um longo e satisfeito gemido e, finalmente, abriu os olhos. Ele estava sentado a seu lado, os cabelos desgrenhados, os olhos pesados e concentrados na sua coxa direita. A moça se perguntou se outra mulher no mundo seria felizarda o bastante para acordar diante de uma visão daquelas. — Você fica bonito de manhã — murmurou. — Nu e descabelado. Jared não sabia quanto tempo a vira dormir. Mas sabia que quando afastara a manta para se deleitar com aquele corpo à luz do sol, descobrira o colorido passarinho tatuado na coxa. — Você tem uma tatuagem — repetiu. — Eu sei. — Com uma risadinha, ela apoiou-se nos cotovelos. Os olhos cor de chocolate pareciam pesados e cheios de humor. — É uma fênix — explicou, sorrindo do jeito como ele juntava as sobrancelhas; concentrado na tatuagem. — Você já conhece a lenda do pássaro que renasce das cinzas. Fiz essa tatuagem em Nova Orleans, quando percebi que não ia ser pobre para o resto da vida. — Uma tatuagem! — Alguns homens acham sensuais. — Claro que não a fizera por um homem, mas por si mesma. Uma marca para lembrá-la que poderia refazer-se, erguer-se tal como a fênix. — E você? — Ainda não sei. Não saberia dizer por que ficara tão fascinado pela tatuagem. E tão perturbado. Que outros segredos teria Savannah? Voltou a olhar para o rosto dela, e sentiu-se perturbado outra vez. O sorriso sonolento dela... O desenho dos lábios... — Como se sente? — perguntou Jared. — Como se tivesse passado a noite fazendo sexo loucamente no mato. — Rindo, a moça se aproximou para enlaçar o pescoço dele. — Eu me sinto maravi-

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade lhosa. — Procurou os lábios dele com os seus e deixou-os ali, macios e quentes. — E você? — Exatamente a mesma coisa. Ela esperava mesmo que sim. E ficaria em êxtase pelo resto da vida se ele sentisse por ela só uma fração do que ela sentia por ele. O advogado a abraçou mais junto a si e a segurou como ninguém mais a segurara: como se fosse importante. — Bom, não se pode ficar aqui fora para sempre — ela murmurou. — E verdade. — Ele precisava pensar, e não conseguia enquanto ela estava em seus braços. Vinha negligenciando responsabilidades na fazenda, se lembrou. — Tenho de ir. — Porém, enterrou o rosto nos cabelos dela e continuou a abraçála. — As fazendas não tiram domingos de folga. — Eu tenho de pegar Bryan cedo. Mas ela continuou com a cabeça aninhada no ombro dele. — Por que não o traz para cá e... simplesmente o traz para cá? — Tudo bem. — Savannah. — Sim? Jared tomou-lhe os cabelos na mão e levou sua cabeça para trás. Esfregou a boca, desesperado, na dela. — Só mais uma vez... — disse ele, ao deitá-la de volta na manta. Quando voltou a pé para a fazenda, só lembrava dela. Jamais conhecera uma mulher que conseguisse deixá-lo tão abalado, com os joelhos tão fracos. Passou pelo chiqueiro, onde os porcos captaram o cheiro de homem e grunhiram esperançosos. No poleiro as galinhas cacarejavam. Distraído, Jared quase tropeçou em um dos gatos do celeiro, que saíra para se espreguiçar ao sol. Passando a mão no rosto, seguiu para a porta dos fundos. Os aromas do café-da-manhã o atingiram com força. Percebeu que estava esfomeado. Podia comer as salsichas que Devin grelhava com a chapa e tudo. — Quer café? Jared quase gemeu ao ouvir essas palavras. Devin lançou-lhe um olhar, depois a Shane, que sorvia goela abaixo a segunda xícara. Os dois se entreolharam com uma expressão de divertimento. Sua camisa está pelo avesso — disse Devin. Jared provou o café, xingou e desabou cansado na mesa da cozinha.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Rindo, Shane se encostou na bancada perto do fogão, onde Devin fritava as salsichas e outras coisas. — Jared está meio selvagem esta manhã. Parece que passou a noite rastejando na floresta. — Acho que eu devia ter enviado aquele grupo de busca. — Devin quebrava ovos na frigideira. — É perigoso um homem passar a noite sozinho na floresta mal-assombrada. — Me sinto muito mal mesmo vendo você assim — disse Shane. — Deixa eu pegar mais café para você, Jared. — Solícito, levou o bule para a mesa. — Aí pode nos contar tudo que aconteceu. Jared pegou o café que o irmão caçula acabara de servir e emborcou a xícara. tudo.

— Eu me apaixonei por uma ex-dançarina de boate, com uma tatuagem e — Dançarina de strip-tease? — perguntou Devin.

— Onde é a tatuagem? — Quis saber Shane. A pergunta lhe rendeu um pequeno soco de Jared. — Tudo bem, só me fale por alto. — Estou apaixonado por ela — disse o irmão, pesando cada palavra. — Ora, diabos, você já se apaixonou antes. — Shane foi pegar os biscoitos no forno. — Pelo menos, escolheu uma que é interessante desta vez. — Feche a matraca — resmungou Devin. Amontoou comida em um prato, sentou-se à mesa e examinou o rosto de Jared. Um longo momento depois, recostou-se na cadeira e deu um suspiro. — Perdidamente apaixonado? — Acho que sim. Shane balançou a cabeça e despejou os biscoitos em uma vasilha. — Cara, a gente está se acabando. Primeiro Rafe, agora você. — Levou os biscoitos para a mesa, sentou e apoiou a cabeça nas mãos. — A coisa está ficando assustadora. — Você disse a ela? — perguntou Devin. — Preciso analisar melhor o que está acontecendo. — Quando menos esperar, teremos mais uma vez que nos enfiar em um terno e ir a um casório. Resmungando, Shane se pôs a encher o prato. — Eu não falei nada de casamento — Jared se apressou a dizer em pânico. — Já fui casado uma vez e basta. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Você não se casou, foi contratado. —Animando-se, Shane botou para dentro um bocado enorme de ovos. Um farto café-da-manhã sempre melhorava seu humor. — Era melhor ter dormido com um relatório de contabilidade, — Que diabos sabe você sobre isso? Shane mandou os ovos goela abaixo com café. — Porque eu nunca vi você antes do jeito que está agora, mano. Devin comia devagar e assentia com a cabeça. — É o guri que o incomoda? — Não, Bryan é o máximo. Armando uma carranca, Jared se serviu do que restou na travessa. Gostava do menino, gostava de passar o tempo e conversar com ele. A verdade era que um dos motivos do casamento anterior ter sido fadado à ruma era que ele queria filhos e a mulher não. Não, o menino não o incomodava. Era o pai biológico dele que lhe causava ressentimento. E, compreendeu com clareza, todos os homens que tinham passado pela vida de Savannah desde então. Simplesmente não conseguia racionalizar e afastá-los da mente. E não gostava de si mesmo por isso. Captou o olhar de Devin, aquele olhar tranqüilo, sabedor das coisas, e sacudiu os ombros, agitado. Devin pôs sal nos ovos. — O problema dos advogados é que gostam de reunir todos os pequenos fatos. Então podem argumentar dos dois lados. Você sempre foi bom nisso, Jared. Talvez esta seja a hora de aceitar as coisas como elas são. Jared queria. E esperava poder fazê-lo. Ele não se mudou para a casa dela, de modo formal. No entanto, passava a maioria das noites lá. Algumas de suas roupas estavam também guardadas no armário e alguns livros nas estantes dela. Adquirira o hábito de sair do trabalho e pegar Bryan nas noites de treino. Com mais freqüência, os dois se demoravam no campo lançando bolas. Se algo o mantinha até tarde no escritório, ligava para ela. Às vezes ligava apenas para ouvir sua voz. Com regularidade, levava flores, e acessórios de beisebol ou algum outro presente para Bryan. Formavam um trio nas saídas a passeios, e davam à cidade muito pano para manga em mexericos. Bryan o aceitou sem pestanejar — um fato que, ao mesmo tempo, agradava e perturbava Jared. Queria acreditar que era porque o menino gostava dele, o Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade considerava da família. Porém se perguntava se Bryan simplesmente se habituara a ter um homem sempre a postos. Quando essa sórdida idéia lhe saltava à cabeça, fazia o que podia para afastá-la. Era, afinal, o agora que importava. O jeito como ela o olhava. O jeito como ria quando o via lutar com Bryan no gramado. O jeito com que cuidava das flores, ou a total concentração em que mergulhava ao trabalhar no estúdio. Era o cheiro dela que importava, quando saía de um banho fumegante. O jeito de se colar nele noite após noite, como se nunca fosse o bastante. E o jeito de estender a mão em busca da sua ao se sentarem juntos no balanço da varanda à noite. O tribunal o prendera até tarde. A tensão do dia se recusava a deixá-lo. Levara trabalho para casa, e sabia que a dor de cabeça que vinha martelando ficaria ainda mais violenta. Parou na cidade para comprar remédio, vasculhando as prateleiras da farmácia à procura de alguma coisa que prometesse acabar logo com aquilo. — Como vai, Jared? — a sra. Metz o encurralou, atracada com um xarope e um pacote de pastilhas. Era a rainha das fofocas da cidade. — Olá, sra. Metz. —As raízes dele estavam ali. Não podia se afastar rápido e continuar em frente. Além disso, gostava da velha senhora, e tinha afetuosas lembranças dos seus biscoitos feitos em casa. — Como tem passado? — De bem a médio. Precisamos de um pouco de chuva, com certeza. A primavera tem sido seca demais. — Shane anda meio preocupado com isso, — Vamos ter alguma chuva esta noite — ela vaticinou. — Uma tempestade vem se armando. Aliás, eu soube que o menino Morningstar fez um belo jogo no sábado. — Três rum em cheio, iniciados com jogadas duplas. Ela soltou uma gargalhada que sacudiu suas papadas. — Você fala feito um pai orgulhoso. — Antes que Jared pudesse fazer qualquer comentário, ela se apressou em acrescentar: — Tenho visto você, o menino é a mãe aqui e ali. Savannah é o que meu filho Pete chamaria de estonteante. — Sim, é mesmo. Jared escolheu um analgésico ao acaso. — Mas é difícil — continuou a sra. Metz, bloqueando a passagem com a Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade pança — criar um filho sozinha. Quer dizer... Não que muitas mulheres não se vejam nesse tipo de situação hoje. Ela é do Oeste, não e? Acho que o pai do menino continua lá. — Eu não saberia dizer. Como era a mais pura verdade literal, o martelamento na cabeça aumentou. — E de imaginar que o pai vá querer ver o filho de vez em quando, não? Eles já moram aqui há quase quatro meses. O pai vai querer aparecer e visitar o filho bonito que tem. — E, sim — respondeu Jared, agora cuidadoso. — Claro, alguns homens são negligentes com os filhos. Como Joe Dollin. — O rosto dela fez uma careta de nojo ao dizer o nome. — Fiquei muito feliz em saber que você está cuidando do divórcio de Cassie e tornando tudo mais fácil para ela. A maioria não é nada fácil... Voaram penas na separação do segundo filho da minha irmã. Apostaria que o divórcio de Savannah Morningstar foi um dos complicados. Ah, não, você perderia, ele pensou. Não ia dar trela dizendo que nunca houvera divórcio, pois nunca houvera casamento. — Ela nunca comentou nada sobre isso. — Você era mais curioso, Jared. — Antes que pudesse rosnar para ela, a sra. Metz disparou um sorriso. — E olhe só para você agora. Um advogado! Fui vêlo no tribunal uma ou duas vezes, sabia? A raiva dele se esvaziara. — Sim, eu sei. Lá estava a sra. Metz, com o grande vestido floral e sapatos práticos. Como líder do seu fã-clube. — Melhor do que assistir a Perry Mason, foi o que eu disse ao meu marido. Aquele Jared MacKade é melhor do que o Perry Mason. Seus pais sentiriam um grande orgulho de você. E nós aqui achando que você jamais ia ficar no lado certo da lei. — Ela achou isso tão engraçado que quase se dobrou de rir. — Deus do céu, você era um capeta, menino! Não pense que esqueci quem deixou o olho do meu Pete roxo depois do baile da primavera no ensino médio. A lembrança era muito boa. — Ele tentou se engraçar com minha namorada. — Sharilyn badalava muito naquela época, não é? — Ficamos juntos por um breve período.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — De qualquer modo, ela deu a volta por cima, e você também, pelo que me lembro. As meninas, sempre esvoaçando à sua volta e de seus irmãos. A mãe do jovem Bryan deve estar muito satisfeita por ter laçado um MacKade e, verdade seja dita, vocês três ficam muito bonitos juntos. Tenho a sensação de que sua mãe se afeiçoaria àquela moça. — É. Jared sentiu uma pontada no coração. Que diria a sua mãe de uma mulher como Savannah? Pensou nisso no caminho para casa. A dor de J cabeça só piorava. Se a mãe estivesse viva, como ele explicaria Savannah? Mãe solteira, dançarina de boate, funcionária de casas suspeitas, laçadora de bezerros, pintora de rua? O problema era que ele podia imaginar tudo isso, vê-la em cada estágio de sua evolução. E era fácil demais ver que cada camada fazia parte do todo que correspondia à mulher que o esperava. Ficou tentado a parar na casa de Rafe, ou ir direto para a fazenda. Porém, virou na alameda dela... O som estava a todo volume de novo. Em geral, isso o divertia, a maneira como ela ligava aquele aparelho velho e ouvia rock. Agora, ali sentado no carro, massageava a têmpora. Encaminhou-se até a varanda, a pasta vergando-o com o peso. Pela porta de tela, a viu de costas na cozinha, lavando pratos, cantando sozinha com uma voz sensual que fazia o sangue de um homem ferver. Requebrava os quadris ao ritmo da música. Com certeza sabia gingar, ele pensou, o ciúme e o temperamento explosivo varando-o ao mesmo tempo em que o primeiro clarão de relâmpago rasgava o céu a oeste. Antes que se pudesse deter, fechou a porta. Ela percebeu que Jared havia chegado e deu meia-volta, os cabelos soltos acompanhando a ondulação do movimento, — Quer desligar essa maldita coisa? — gritou. — Claro. — Ainda se requebrando, Savannah foi até o aparelho e o desligou. — Desculpe, não ouvi seu carro subir. — Não ouviria nem um trem de carga subir. Ela apenas ergueu uma sobrancelha à irritação na voz dele e enxugou as mãos molhadas na calça jeans justa. — Dia difícil?

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Jared largou a pasta na mesa, onde as margaridas que comprara uns dias antes ainda se mantinham firmes e fortes. — E assim que dançava por dinheiro? O golpe foi tão violento que ela sequer conseguiu esboçar uma reação. Foi algo perverso, que a fez estremecer de dor. Depois, se recompôs e deu uma resposta sua. — Não. Se dançasse assim, não ganharia muito. — Foi até a geladeira para pegar uma cerveja para se acalmar. — Quer uma? — Não. Não a incomodava ser olhada por caras que babavam por você? — Normalmente não. Ela tomou um gole de cerveja. — Então gostava, não é? — Ele a incitava, de modo muito semelhante ao que incitaria uma testemunha que jurara dizer apenas a verdade. — Curtia a dança, os olhares e a baba? — Pagavam o aluguel. Os homens gostavam de olhar para o meu corpo, e imagino que podiam pagar para isso. — E se pagavam para olhar, pagariam para... Ela permaneceu calma. Já esperava por isso. Ele se interrompeu, abalado peio que quase saiu da boca. Não sabia que tinha isso dentro de si. — Bom, já que trouxe isso à tona... pensei nisso, sim. Houve uma época que era tudo o que eu tinha para barganhar, por isso pensei em vender meu corpo. Jared ficou branco. — E vendeu? Ela o encarou, os olhos frios e sem expressão. — Vou dar boa-noite ao meu filho. — Os olhos passaram de frios a ameaçadores quando Jared lhe agarrou o braço. — Não me provoque, MacKade. Ficar ou ir embora é com você, mas não me provoque. Savannah se soltou e subiu correndo a escada. A vontade dele era de quebrar tudo em volta e depois se apunhalar. Em vez disso, rasgou a caixa das aspirinas, lutou para abrir a tampa e engoliu três com o que restou da cerveja dela. No andar de cima, Savannah acomodou Bryan para dormir. Depois de

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade fechar a porta do quarto, se trancou no banheiro, onde podia lavar o rosto várias vezes com água fria. Como fora idiota, pensou, se repreendendo. Que cega, por não ter visto que ele vinha ocultando a verdade. Que descuidada, por não ter erguido uma muralha de defesa contra o que ele pensava dela por trás de tudo aquilo. Ia erguer uma agora, prometeu a si mesma. Não ia deixar-se ferir com as perguntas que ele fazia. Não ia permitir que a fizesse sentir vergonha das respostas. Tinha se esforçado por muito tempo e com muita garra para deixar alguém fazê-la se sentir inferior. E Jared estava querendo colocá-la para baixo. Metodicamente, enxugou o rosto e secou a pia. Ouvia o estrondo de raios, o resmungo de trovões e os sussurros dos velhos fantasmas. E também esperava ouvir o motor do carro dele a qualquer momento. Ao descer, encontrou Jared à mesa da cozinha, com os papéis espalhados. Ela lhe deu as costas e foi para fora esperar a tempestade. O vento fustigava e fazia as árvores balançarem. O estrondo correu sobre as colinas da floresta e explodiu, enfim. O cheiro de chuva se espalhou pelo ar, Savannah jogou a cabeça para trás e o aspirou. Suas boas-vindas à tempestade. Jared largou o trabalho e saiu ao encontro dela. Viu-a encharcada, os cabelos pingando, a blusa grudada no corpo. Fazia frio. — Mais alguma coisa em mente? Ele tirara a gravata e arregaçara as mangas, mas ainda se sentia muito "advogado". — A pergunta foi muito malfeita — começou, desprezando o tom calculado da própria voz. — Peço desculpas por isso, mas estou lhe perguntando se você se prostituiu. — Isso é que vocês chamam de reformular a pergunta, sr. MacKade? — Eu tenho o direito de saber. — Por quê? — Droga, estou dormindo com você. Estou quase vivendo com você. O estômago de Savannah se revirava. — Eu lhe cobrei alguma coisa? Não me toque agora. Você tem o descaramento de entrar aqui como se tudo lhe pertencesse, jogando meu passado na minha cara como se fizesse parte dele. Ele se aproximou mais, até ficar bem perto dela.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Sim ou não? Quando ela começou a afastá-lo, Jared pegou no queixo de Savannah e o ergueu. Ela arreganhou os dentes e lhe disparou punhais dos olhos. — Acha que eu quero saber? Tenho de saber, e estou pronto para lidar com qualquer que seja a resposta. Porque me apaixonei por você, querida. Ela se encheu de ódio, deixando-o ressabiado. — É assim que me diz isso? — berrou. — Foi uma prostituta, Savannah, eu amo você? Vá para o inferno, Jared. Não vou tolerar isso. Eu amo tanto você que aceitaria qualquer coisa que me desse. — De repente, se sentiu exausta, derrotada pelo próprio coração. — Eu nunca me vendi — respondeu, calma, a voz cuidadosamente destituída de emoção. — Nem quando tive de passar fome. Podia ter me vendido. Houve inúmeras oportunidades, e muitas pessoas imaginaram que fiz isso. Mas não fiz. Não por mim, mas por Bryan, porque ele não merecia uma mãe que se vendesse por comida ou o aluguel de uma noite. Suspirou longamente. — Está satisfeito, Jared? Ele gostaria de retirar tudo que disse, se pudesse. Porém, sabia que, se não tivesse posto para fora, aquilo teria envenenado tudo o que tinham conseguido. Assim como sabia que mais ainda precisava ser dito e perguntado. Mas não naquela noite. — Dá para entender que detesto saber que teve de fazer isso de dançar? Que estava sozinha, e em dificuldades? — Não posso mudar nada do que aconteceu nos últimos dez anos. Ele avançou para perto de Savannah, devagar, — Dá para entender que eu amo você como jamais amei nenhuma outra mulher? Que você tem me enlouquecido? — Ergueu a mão, tocou as pontas dos cabelos molhados. — Deixe-me abraçar você, Savannah. Só abraçar. Tomou-a delicadamente, a pegou nos braços e ninou. O alívio a percorreu por completo. — Eu magoei você. Perdoe-me, nunca imaginei que seria capaz de fazer isso. Achei que se tratava só de mim. Foi ficando tão imenso que não achei que alguém mais pudesse se sentir assim. Desculpe... — Não tem importância. — Ela pensou que teria rastejado para dentro dele se pudesse. — Não tem importância agora. — Deixe-me repetir de novo. — Jared inclinou a cabeça dela para trás e olhou fundo os olhos escuros v úmidos. — Eu amo você, Savannah. Estou Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade desesperadamente apaixonado por você. — Levou os lábios nos dela. — Perdidamente apaixonado por você. Fico sem ar toda vez que a vejo. Aquelas eram as palavras com que sonhava. Lançou os braços em volta do pescoço dele e se agarrou para salvar a própria vida. — Você está tremendo de frio — ele murmurou. — Não, não... — Bem, a tempestade está passando. Agora, quero fazer amor com você. Foi tão gentil que lhe rasgou o coração. Ao levá-la para o quarto que partilhavam, beijou-lhe a face. Quando fechou a porta, atravessou as sombras e a deitou. Savannah ouviu o riscar de um fósforo e, logo depois, o bruxuleio da luz de uma vela. Jared tirou as roupas molhadas dela, acariciou-lhe a pele com a mão. E de repente ela se sentiu frágil e nervosa. Ajoelhou-se na cama para desabotoar a camisa dele, os dedos muito desajeitados. Ele os tomou e levou um por um aos lábios. Primeiro, Savannah notou o cheiro de chuva, de terra molhada, o ceder do colchão. Depois, apenas ele. Murmúrios e suspiros vagavam em meio à chuva fraca. Era tão carinhoso com ela! Toda vez que se beijavam tudo era mais profundo e verdadeiro. Tontos de amor, se olhavam ouvindo o bater acelerado dos corações. Ele a penetrou delicadamente, fundindo o corpo dos dois em perfeito ritmo, os lábios se encontrando ardorosos em cada movimento.

Capítulo 9 Bryan adorava passar o tempo na fazenda. Os animais, os homens, o ar livre. Ainda se lembrava da confusão e do confinamento das cidades — os lugares para onde se mudavam, os pequenos quartos, com as janelas que sempre pareciam trepidar com o barulho, e as paredes tão finas que se ouvia cada risada ou xingamento dos vizinhos. Na verdade, não desgostava da cidade. Sempre havia alguma coisa para fazer. E a mãe o levava a jardins públicos e parques de diversões — sempre que não estava trabalhando. Tinha vagas lembranças de épocas em que ela trabalhava até tarde da

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade noite... ou até de manhã. Épocas em que vivia muito cansada e triste, também, embora ele não entendesse realmente o porquê. Ele se lembrava de Nova Orleans, com a música pulsante e as pessoas de fala arrastada. E também do vaso de flores vermelhas que a mãe mantinha no parapeito. Às vezes ficava aos pés dela, jogando RPG sozinho ou vendo livros de ilustrações, enquanto ela pintava coisas, ou pessoas que se aproximavam e se sentavam em uma cadeirinha dobrável para que a artista desenhasse seus rostos em grandes folhas de papel. Fora nessa época que tudo mudara. Tudo melhorara. Ela parara de trabalhar à noite, e aquele olhar triste e cansado desaparecera do rosto. E agora era a melhor época de todas! Ter uma casa, do jeito que a mãe sempre prometera, um quintal e amigos. Amigos como Connor, que era muito legal, embora alguns dos guris da escola o provocassem e dissessem coisas ruins sobre seu pai. Talvez, Bryan às vezes pensava, fosse porque não sabiam o que era não ter pai, como ele sabia. Mas a mãe bastava. Savannah sempre fizera tudo dar certo, sempre deixara claro que os dois formavam um time. Em matéria de mãe, a sua era a mais legal de todas. Veja o jeito como lhe perguntara se queria morar na casa na floresta. Não comunicara simplesmente que iam viver lá, como ele sabia que alguns pais faziam. Depois, quando já moravam lá — em sua opinião o melhor lugar do mundo — deixara-o escolher a decoração do seu quarto. O beliche, os cartazes nas paredes, a enorme arca para os brinquedos. Agora, ele passara a visitar a fazenda sempre que queria. Quase sempre. Shane era o máximo. Não se importava que ele quisesse ficar ali perguntando sobre tudo. Devin era legal, também, embora fosse o xerife. Ele gostava de Rafe, e do jeito como às vezes se jogava no chão e brincava com os cachorros. Jared era meio assustador, porque fazia Bryan pensar em como seria tê-lo em casa o tempo todo. Como pai. Um cara com quem jogar bola. Um homem que chegava em casa todo dia depois do trabalho e ouvia o que ele queria dizer. Que beijava a mãe na cozinha, como se não fosse nada demais. Queria Jared mais que tudo, e por causa disso desejava tê-lo ali, toda noite. De algum modo, qualquer coisa que desejasse com muita força quase sempre se tornava realidade.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Na fazenda, o sol brilhante aquecia o terreno molhado pela chuva da noite anterior. O nevoeiro do início da manhã se dissipara. Ele se sentia feliz sentado na terra com os cachorros e Connor. Eram convidados para o jantar de domingo na casa da fazenda dos MacKade. Os homens cozinhavam, o que Bryan achava meio esquisito, mas interessante. — Acha que Fred e Ethel vão ter bebês? — perguntou ao amigo. Connor continuou afagando o pêlo dourado de um dos cachorros, pensando na pergunta. — Na certa vão ter. É o que acontece quando as pessoas se casam. Acho que deve ser a mesma coisa com os cachorros. Bryan deu um soco no ombro de Connor. — As pessoas não precisam ser casadas para ter filho. Só têm de ficar grudadas uma na outra. Se alguém mais houvesse feito o comentário, Connor teria enrubescido. Mas como era Bryan, apenas assentiu com a cabeça. outro.

— Então Fred e Ethel podem ter filhotes, porque vivem grudados um no

Bryan olhou para a casa da fazenda. Pela janela da cozinha, percebia-se pessoas rindo. — Acho que Jared está grudado na minha mãe. Connor arregalou os olhos. — Vão ter um bebe? — Não. — Bryan enganchou o braço no pescoço de Ethel. — Mas seria legal se tivessem. Quer dizer, você gosta de ter Emma por perto, né? — Claro. — Um irmão seria mais legal, mas até uma irmã seria legal. Acho que se tivesse um... você sabe, um bebê... Jared não ia sair de perto da gente. Tipo morar em nossa casa. — Às vezes é ruim — disse Connor, tranquilamente. — Às vezes, quando um homem mora com a gente, é ruim. Eles discutem e brigam, ficam bêbados e... essas coisas. A idéia fez Connor armar uma carranca. — Não todos. — Imagino que não. — Porém, Connor estava longe de saber ao certo. — Eu não quero que um homem more de novo com a gente. Nunca mais! Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade

amigo.

Compreensivo, Bryan transferiu o braço do pescoço de Ethel para o do

— Se seu pai tentar voltar para casa depois que sair da prisão, você pode contar comigo. Nós partimos para cima dele — acrescentou com um sorriso encorajador. — Você e eu, Côn. — É! Você e eu! — Parece que os dois estão tendo uma conversa séria — comentou Savannah da janela da cozinha. — Connor nunca teve um amigo. Nunca conseguiu ter, pensou Cassie, com aquela maneira de Joe criar caso com todo mundo que aparecia na casa deles. — Nem Bryan — concordou Savannah. — Eles são ótimos um para o outro. Ela riu ao ver os meninos começarem a lutar! entre si e com os cachorros. Estariam imundos na hora do jantar. — Parece uma cena muito familiar. — Devin se aproximou por trás das mulheres. Savannah se esforçou para não ficar tensa. — Nós passávamos muitas tardes de domingo rolando na terra. — Passávamos quase todas as tardes de domingo rolando na terra — corrigiu Rafe. — Lembra aquele dia em que a mamãe nos deu um banho de mangueira? — Suspirando, Shane enfiou um rabanete na boca. — Foram grandes dias. Ela ficou muito chateada, porque vovó e vovô vinham jantar, e nós nos embolamos em uma briga usando as nossas melhores roupas. — Foi você quem começou — lembrou Jared. — Zuniu minha bola de beisebol no campo de milho. — Peguei emprestada a sua bola de beisebol — falou Shane. — E foi Devin que a zuniu no campo de milho. — Foi Rafe — disse Devin, brandamente. — Devia ter agarrado. — Você arremessou muito longe — explicou Rafe. — Nunca media a força. Antes que Devin prolongasse mais a discussão, Reagan interrompeu a conversa. — Vamos parar, crianças. Creio, com o óbvio exemplo de solidariedade familiar, que é um ótimo momento para fazer um comunicado. — Sorriu para Rafe. — Não acha? — Acho. — Rafe tomou-lhe a mão, levou-a aos lábios e a puxou para junto

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade de si. — Vamos ter um bebê. Fez-se um instante de total silêncio antes da explosão de alegria. Shane tratou de erguer Reagan nos braços, lhe dando beijos. — Devolva a minha mulher! — exigiu Rafe. — Em um minuto. — Shane a beijou mais uma vez e depois parou a brincadeira. Jared lhe deu um abraço. Reagan continuava rindo quando se viu nos braços de Devin. — Devolvam minha mulher! Devolvam minha mulher! Enquanto lutavam e discutiam sobre a futura mamãe, Savannah se encostou na bancada. — Os MacKade... a nova geração — murmurou Cassie. — Pensamento assustador! — Ela vai dar conta. — Cassie reprimiu as lágrimas. — Consegue dar conta de qualquer coisa — declarou, e como todos os demais estavam ocupados, foi inspecionar o assado na panela. Savannah avançou e se curvou para beijar Jared na face. — Parabéns, tio Jared. Ele não parava de rir. — Rafe vai ser papai! Savannah olhou adiante, onde Reagan continuava sendo passada de irmão a irmão. — E essa, deduzo, é a maneira de vocês comemorarem... lançar as mulheres de um lado a outro. — Ora! É o nosso primeiro bebe! Quando Jared passou o braço em volta de seus ombros, Savannah percebeu que ele dissera tudo. Seria um bebe MacKade, e de todos eles. Foi, algo em que ela pensou bastante enquanto a comemoração continuava durante todo o jantar com constantes, e muitas vezes ridículas, sugestões para o cuidado da criança, nomes de bebê e deveres paternos. Para Savannah, era estranho compreender aquilo agora, porque Bryan tinha o melhor que lhe poderia dar, mas não pudera lhe dar uma família. Os dois tinham um ao outro, e era isso que importava. Ele era uma criança feliz e bem ajustada. Via-o ali sentado ao seu lado, comendo com vontade, rindo da idéia de Shane de dar o nome de Lulu-belle MacKade se o bebe fosse menina. Não tinha dúvida alguma de que o filho era exatamente como devia ser.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade No entanto, ele nunca sentira a alegria, nem os problemas, de ter tios, tias, avós. Irmãos. Desejava apenas ela sentisse essas faltas. Não ele. — Tem se sentido bem, Reagan? — A voz de Cassie saiu tranqüila, em meio ao caos da conversa dominada pelos homens. — Às mil maravilhas. Acho que nunca me senti melhor. Sem enjôos, cansaço, nenhuma das coisas sobre as quais nos advertem os livros. — Eu senti todas elas. — Passando a mão pelos cachos de Emma, Cassie sorriu. — Não muito fortes, na verdade, apenas o suficiente para saber o que esperar quando engravidei a segunda vez. E você, Savannah? — Enjoada durante três meses. Mas quase tudo valeu a pena. — Piscou o olho para o filho. — Três meses? — perguntou Reagan, aflita. — Todo dia? — Todo dia — respondeu Savannah, alegre. — Bry, se abrisse a boca um pouco mais, poderia encaixar três batatas de uma só vez. Ele conseguiu dar um sorriso torto com a boca cheia. — E que está gostosa. — Igual à que mamãe fazia — intrometeu-se Devin, pondo outra porção no prato de Bryan. — Fazíamos torneios para ver quem conseguia comer mais. Jared em geral ganhava... não é, mano? — É. Mas parara de comer, e olhava estranhamente para Savannah. — O rapazinho vai quebrar seu recorde. — Shane atirou um biscoito que Jared foi rápido o bastante para agarrar. Intrigado com a manobra, Bryan pegou um e lançou para Connor, que o fisgou antes que caísse no chão. — Boa agarrada — comentou Rafe. — Inscreva ele. Vai jogar beisebol no ano que vem, Con? — Não sei. — Connor partiu o biscoito e disparou um olhar à mãe. — Con é um lançador melhor do que qualquer um dos nossos iniciantes. — Bryan se serviu sorridente de outro biscoito e o cobriu com uma generosa porção de manteiga. — Connor, você nunca disse que queria jogar beisebol. Assim que lhe saíram as palavras da boca, Cassie se arrependeu. Claro que nunca dissera. Jamais tivera alguém com quem jogar. E seus feitos na escola eram coisa de maricas, na opinião do pai, Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Não acerto quase nada — murmurou Connor, enrubescendo. — Só sei jogar um pouco desde que Bryan me ensinou como é que faz. — Vamos ter de treinar — disse Devin. — Depois do jantar, poderíamos começar, que tal? Connor deu um pequeno sorriso, e isso foi mais que uma resposta. Pouco tempo depois, os gritos chegaram do quintal pela janela da cozinha. Com as mãos cheias de pratos, Cassie olhou para fora. Devin se agachara atrás de Connor, e as mãos dos dois se misturavam em um taco de madeira, enquanto Jared fazia arremessos baixos. — Muito legal da parte deles jogar assim com os meninos. — E nos deixar atoladas com a louça — comentou Savannah. — Quem cozinha não lava. — Reagan encheu a pia com água quente. — Uma das regras dos MacKade. — Muito justa — concedeu Savannah. Mas ao olhar a cozinha bagunçada e entulhada em volta, com pilhas de panelas e montanhas de pratos, não soube quem saía ganhando com o acordo. — Você se incomoda se eu perguntar... — Reagan se deteve e riu, nervosamente. — É uma bobagem. Savannah pegou um pano de prato e preparou-se para meter mãos à obra. — O quê? — Bem... — Reagan atacou primeiro os pratos. — Eu só estava querendo saber, já que vocês duas passaram por isso, como é. O principal, quer dizer. Savannah olhou para Cassie e riu. — Trabalho de parto é um horror. — Oh, não é tão ruim assim. Não a apavore. — Solícita, Cassie largou os pratos empilhados para massagear os ombros de Reagan. — Não é mesmo. — Quer dizer a ela que é moleza? — perguntou Savannah. — E uma parte natural da vida — insistiu Cassie dando depois um risinho abafado. — Dói como os diabos. — Por que fui perguntar? — Reagan suspirou. — Então, quanto tempo levou? — O parto de Connor só doze horas, o de Emma menos de dez. — Em outras palavras — contribuiu Savannah utilmente — a vida toda. — Eu mandaria você fechar o bico, mas quero saber quanto levou o seu. — Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Reagan falou. — Dez minutos, certo? Savannah pegou um prato. — Trinta e duas horas cheias de diversão. — Trinta e duas? — Estupefata, Reagan quase deixou cair a louça no chão. — Isso é desumano. — A sorte na loteria — disse Savannah, despreocupada. — E a enfermaria da maternidade onde eu estava não era exatamente de primeira classe. Mas isso não teria importância. — Descartou o problema com um encolher de ombros. — Os bebês vêm quando querem. Você vai tirar de letra e chegar ao fim de tudo isso muito bem, Reagan. Rafe vai estar lá ao seu lado. Ah, sim, e todos os MacKade. — Você estava sozinha? — Perguntou Reagan. — Foi assim que aconteceu — Savannah percebeu Jared na porta de tela. — Acabou o jogo? — Não. — Ele fixou os olhos nos dela. — Perdi a aposta e vim pegar a cerveja. coisa?

— Eu pego. — Cassie já corria à geladeira. — Os meninos querem alguma — O que tiver para eles.

Ele pegou as caixas de suco que Cassie lhe entregou e saiu sem mais uma palavra. — Não tem forma mais rápida de se livrar de um homem do que as mulheres falarem de parto. A voz de Savannah saiu descontraída, mas havia um nó de preocupação no fundo da garganta. Vira alguma coisa naqueles olhos, pensou, que ele não queria que visse. — Eu falei do curso de parto sem dor, do método Lamaze, a Rafe, e ele ficou branco. — Sorrindo, Reagan pôs um prato no escorredor. — Ele vai se sair bem. — Com uma última olhada à porta de tela, Savannah pegou outro prato. — Rafe ama você. É o que interessa. — É. — Com um sorrisinho sonhador, Reagan mergulhou mais uma vez a mão na água. — É o que interessa. A caminho de casa, Savannah viu o primeiro brilho de vaga-lumes na floresta. O verão se aproximava, Bryan disparava na frente, a atacar inimigos invisíveis. Queria que a nova estação chegasse logo. Queria o calor.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Pensando em alguma coisa? — ela perguntou calmamente. — Em muitas. — Jared desejava que os dois ficassem na floresta algum tempo, onde pudessem sentir o sofrimento e a necessidade de pessoas que haviam morrido muito antes de eles terem nascido. — Dois casos andam me enlouquecendo. Os pintores atravancam o escritório. O divórcio de Cassie ainda não foi concluído... — Está sendo advogado, MacKade, usando as palavras para obscurecer o essencial. — Eu sou advogado. — Certo, a gente começa daí. Espere um minuto. Bry, já para o chuveiro — ela gritou. — Ai, mãe... — Agora! Estou bem atrás de você. Ele saiu correndo, e da floresta Savannah viu as luzes se acenderem, uma por uma, enquanto Bryan varava a casa. Ouviu-o cantar, lamentavelmente desafinado, e ficou satisfeita com a alegria do garoto. — Por que você é advogado? — ela perguntou. A pergunta o atrapalhou, sobretudo porque sua mente estava muito longe. — E tente responder em vinte mil palavras ou menos. — Porque eu gosto. — A primeira resposta foi a mais simples. — Gosto de encontrar os melhores argumentos, avançar e estudar os dois lados até encontrar as defesas certas. Gosto de vencer. E porque a justiça é importante. O sistema judicial, por mais defeituoso que seja, é vital. Nada somos sem ele. — Então acredita na justiça, gosta de argumentar e vencer... Vê como é fácil pôr tudo isso em uma única frase? — Que quer provar? — Quero provar que você gosta de complicar as coisas. — Savannah tocou o rosto dele. — Que está complicando agora, Jared? — Nada. — Sem poder evitar, tomou-lhe o pulso e apertou os lábios na palma de sua mão. — Não estou complicando nada. Gostei de tê-la na fazenda, você e Bryan. De estarmos amontoados em volta da mesa da cozinha, todos falando ao mesmo tempo. — E atirando biscoitos. — E atirando biscoitos. Gostei de ouvir você, Reagan e Cassie fazendo barulho na cozinha enquanto jogávamos bola lá fora. — Bem típico. — Ela sorriu. — Digamos os tradicionais posicionamentos Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade masculino feminino. — Então me processe. — Jared a puxou mais parai junto de si. E ali, no silêncio, achou que ouvia o: combate. — Sente isso? — Sim. — Medo, ela pensou, fechando os olhos. Desespero. E a constante esperança. -Algum dia já se perguntou por que eles continuam aqui? O que talvez teriam deixado de dizer ou fazer? — A luta ainda não acabou. Nunca acaba. Ela fez que não com a cabeça. — A necessidade não acabou. A necessidade de encontrar o lar. Encontrar a paz, eu imagino. Quando Savannah começou a desprender a mão, ele a apertou. — Escutei vocês três conversando na cozinha. Fiquei agoniado ao saber que estava sozinha no nascimento de Bryan, Me agoniou imaginar também que sentiu enjôo durante a gravidez. — O enjôo é muito comum nas grávidas. — Aos dezesseis anos, sozinha, enjoada e grávida, não é uma boa combinação. — Sentir pena de mim é uma perda de tempo. Foi há muitos anos. — Agora ela conseguira se desprender dele, e via seu rosto. — Mas não é exatamente isso que você está sentindo. — Eu não sei o que estou sentindo. — Nada o frustrava mais do que não encontrar dentro de si mesmo as respostas. — Tenho perguntas que ainda não sei como fazer. E, sim, sinto pena de você, da menina que foi deixada sozinha. — Eu não era nenhuma criança. — De repente ela ficou eriçada. — Era velha o bastante para engravidar, logo era velha o bastante para enfrentar as conseqüências. E a escolha que fiz era apenas minha. Ninguém podia ter feito por mim. Ter Bryan foi uma das poucas decisões certas que tomei. — Eu não quis dizer isso. Não quis dizer Bryan. Quis dizer aonde ir, o que fazer, como viver. Meu Deus, você era uma criança! Merecia uma coisa melhor do que teve. — Eu tive Bryan — disse ela apenas. Ele não conseguia se fazer entender. Para variar, não achava as palavras. Talvez fossem simples demais. — Eu me pergunto o que é criar alguém como aquele menino, e amar sem restrição.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Ela conseguiu rir, então. — Maravilhoso. Simplesmente maravilhoso. Você vai para casa comigo? — Sim. — Ele tornou-lhe a mão. — Vou para casa com você. Jared pensava nesse tipo de amor, e no tipo de vida de Savannah, enquanto a moça dormia ao seu lado. Jamais sairia à procura de uma mulher como ela. Incomodava muito admiti-lo, até para si mesmo. Ela não era educada, culta, nem tinha o menor verniz de sofisticação que, em geral, buscava em uma mulher. Que buscava antes, se lembrou. E, com certeza, fora um ledo engano. Mas havia trechos na vida de Savannah que ele não entendia nem conhecia. Grandes trechos dessa vida que eram isolados dele, afastados nas lembranças dela. Uma menina, grávida e sozinha, abandonada por todos. Ele sentia pena dessa garota, além de... uma vaga desconfiança. Aonde ela fora, o que fizera, quem fora? Por mais que se controlasse, seu orgulho o mantinha atado. Ela carregara o filho de outro homem, fora as fantasias de outro homem. Esse pensamento se recusava a ir embora. Quantos outros homens ela amara? Quantos se haviam deitado a seu lado, cada um desejando ser o único? Mas, mesmo pensando nisso, Jared estendeu a mão para segurá-la, possuíla. Savannah enroscou o corpo quente no dele, e ele sentiu o cheiro de sua pele, aquela fragrância sensual, natural dela. Ele conhecia sua rotina agora. De manhã, Savannah acordava cedo, mas devagar. Fazia carinho nele, nas costas e nos braços. E assim que ele começava a se excitar, ela se levantava da cama. Espreguiçava-se com um movimento lânguido. Erguia os longos e bastos cabelos pretos para cima e os deixava cair. Então, como se não houvesse diferença alguma entre uma sereia sonolenta e uma mãe sonolenta, se enfiava em um roupão de algodão azul desbotado, saía e ia acordar Bryan para a escola. E, com grande freqüência, Jared continuava deitado na cama, por longos e longos momentos, depois que a ouvia atravessar o corredor. Doído. Quase desejava acreditar que ela o enredara em algum tipo de feitiço com aqueles olhos de cigana, aquele sorriso. Savannah o conhecia melhor que ele a ela. Conhecia seus fantasmas, os reconhecia e os sentia. Fora a primeira mulher a entrar no que ele considerava sua floresta e ouvir os murmúrios dos condenados. Isso ia além de atração física, até mesmo emocional. Alcançava o nível espiritual, ia além daquilo contra o qual ele poderia lutar, mesmo se quisesse.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Fosse o que fosse que o prendia a ela, não lhe dava outra opção senão continuar seguindo em sua direção. Assim, adormeceu com o braço enganchado em volta da cintura dela, segurando-a junto a si. E mergulhou em queda livre nos sonhos. Não sentia dor alguma na coxa quando uma explosão de morteiro o enviara pelos ares e o lançara mais uma vez ao chão. A cabeça doía, os olhos o torturavam. Era tão difícil focá-los, obrigar-se a pôr um pé diante do outro. Não se lembrava de haver entrado na floresta. Teria rastejado até as árvores, ou corrido para lá? Sabia apenas que estava terrivelmente perdido. O menino de Connecticut, com quem partilhara o jantar da noite anterior, com quem sussurrara por um longo tempo depois que os fogos se haviam extinguido, jazia despedaçado em uma vala rasa onde o combate fora tão brutal que o inferno teria sido um alívio. Agora se via sozinho. Sabia que tinha de encontrar algum lugar para descansar. Apenas um pouco. Sua casa não ficava muito longe dali. Logo no caminho para a Pensilvânia ao norte. As florestas de Maryland não eram tão diferentes das próximas à sua fazenda. Talvez pudesse ficar são e salvo ali até conseguir mais uma vez encontrar o caminho de casa. Até aquela guerra, que fora supostamente uma aventura, terminar. Ele fizera dezessete anos no mês anterior, e nunca provara os lábios de uma mulher. Insuportavelmente exausto, parou para encostar em uma árvore e descansar. Como podiam as florestas ser tão lindas, tão cheias de cores e dos cheiros de outono? Como podia aquele horrível barulho continuar incessante? Por que os canhões não paravam de explodir, os homens de gritar? Quando iriam deixá-lo voltar para casa? Com um trêmulo suspiro, afastou-se da árvore. Contornou uma pedra e, já aliviado, localizou uma trilha. Assim que avançou para ali, viu o uniforme cinza do confederado. Hesitou um instante, mas mundos inteiros revolveram-se dentro de si. Aquele era o inimigo. A morte. O obstáculo no caminho que o levaria para onde mais queria ir. Apoiou o fuzil no ombro mesmo quando o menino diante de si copiou o movimento. Atiraram mal, porém ele ouviu o barulho do projétil perto demais, isso fez o seu coração bater acelerado. Então atacara ao ver sua imagem refletida atacando.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Os aterrorizantes gritos de guerra ecoaram. As baionetas se chocaram. Os olhos do inimigo eram azuis, como o céu. Esse pensamento surgiu ao sentir a dor na carne. O olhar do inimigo era jovem e cheio de medo. Lutaram como cães selvagens. Mesmo no curto tempo que lhe restava, se lembraria pouco disso. Lembrava-se do cheiro do próprio sangue, da sensação dele jorrando das feridas. Lembrava-se do despertar sozinho, sozinho naquela floresta. E de depois tombar na trilha. Rastejando, chorando. Lembraria, por todas as horas que lhe restassem, da visão da fazenda logo adiante da clareira. A cor e o brilho da casa, a inclinação do telhado, o cheiro dos animais. Pensou no pai, tentou falar, mas a dor ao se levantar foi pior que a morte. Mulheres de repente à sua volta, gritos, suspiros. Mãos macias e luz de fogueira. Roupas frias e a dor renitente. Cada palavra que dizia era uma dilacerante chama em sua garganta. Porém, tinha muito a dizer. E alguém o escutava. Alguém que cheirava a rosas e segurava sua mão. Precisava dizer a esse alguém que sentia orgulho de ser soldado, orgulho por servir e lutar. Tentava sentir orgulho por morrer, embora o desejo de voltar para casa fosse mais forte. Quando morreu, Jared acordou, o coração falhando. Savannah se mexeu a seu lado. E, desta vez, se voltou para ele, abraçando-o. Por esta noite, bastava.

Capítulo 10 Equilibrando três quadros nos braços, Savannah abriu com o pé a porta do escritório de Jared. A chuva pingava da viseira de um dos bonés de beisebol de Bryan, que ela enfiara na cabeça antes de fazer o trajeto até Hagerstown. Sissy ergueu o olhar e se levantou, largando o teclado do computador. — Deixe eu lhe ajudar. — Obrigada. Grata, Savannah passou adiante os três quadros embrulhados. — Vou só largar ali e ajudar você a buscar os outros. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Não. Não faz o menor sentido as duas se molharem — disse Savannah. Fez uma rápida vistoria nas paredes recém-pintadas, o sofá vermelho-escuro e as poltronas de couro. — Ficou bonito. — E precisa me dizer? Eu me sentia como se trabalhasse em uma caixa e alguém de vez em quando abrisse a tampa para arejar. — Sissy largou os quadros na mesa de centro. — Espere. Vou pegar um guarda-chuva. — Eu não teria como segurar. Além disso, já estou molhada. Volto já. Savannah foi para a rua e percorreu apressadamente a quadra até o carro. Caía uma chuva forte, constante, mas pelo menos fazia calor. O tempo, por mais inconveniente que fosse no momento, vinha fazendo as flores de Savannah desabrocharem. Quando voltou com as últimas pinturas, estava molhada até a alma. — O chefe está? — Savannah largou os quadros e tirou o boné para correr os dedos pelos cabelos molhados. — Talvez ele queira dar uma olhada antes de eu pendurar estes. — Com um cliente. — Sissy sorriu-lhe. — Mas estou morrendo de vontade de dar uma olhada. — Pegou uma tesoura na escrivaninha. — Tudo bem? — Claro. Vai ter de conviver com elas também. — É incrível a rapidez com que tudo isso mudou — comentou a secretária. Logo cortou o barbante do primeiro pacote. — Adorei esta! Era uma cena de rua, em que pessoas pareciam manchas de vívida cor e movimento. Os prédios se misturavam de modo informalmente alegre, e eram inundados de sacadas cheias de flores. A uma olhada mais atenta, Sissy identificou um violinista, uma mulher negra de vestido vermelho e três meninos correndo atrás de um cachorro amarelo. Quase ouvia os gritos e a música. — É maravilhoso. Diga que este vai ficar aqui fora. — A idéia era essa. — Surpresa e lisonjeada com a reação, Savannah correu mais uma vez a mão pelos cabelos. — É Nova Orleans. Achei que ia avivar um pouco o ambiente aqui na sala de espera. — Você não sabe o quanto eu estava farta de olhar aquelas flores cor-derosa em um vaso cinza. Vivia com a esperança de chegar aqui uma manha e descobrir que haviam morrido durante a noite. — Sissy riu baixinho. — Agora este eu poderia olhar para sempre. Cursou belas-artes? A inocente pergunta deixou Savannah sem graça. — Não. Não, eu não fiz nenhuma faculdade. — Eu fiz um semestre de belas-artes — continuou Sissy, sorrindo. — E me Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade disseram que eu não tinha o menor senso de perspectiva. Passei raspando com um cinco. Quando o telefone tocou, ela se aborreceu um pouco, encostou o quadro na mesa e retornou à escrivaninha para atender. Que tolice, que tolice, repetiu Savannah a si mesma, sentir-se incompetente. Não, não freqüentara a faculdade, mas sabia pintar. A reação de Sissy não acabara de provar isso? Era estranho, pensou, que continuasse nervosa depois de seu trabalho ser visto e apreciado. Durante a maior parte da vida, tivera de se convencer de que a pintura era apenas um passatempo. Uma indulgência pessoal, naqueles dias em que tivera de escolher entre comprar tintas e almoçar. As tintas em geral venciam. Aqueles dias acabaram. Havia muito tempo. Ela tivera uma incrível sorte com as ilustrações, além de gostar de fazê-las, e pretendia continuar. Mas as pinturas eram Savannah Morningstar. Vender cenas típicas locais e esboços de carvão a turistas ficava a uma grande distância de vender representações de figuras, formas que haviam significado alguma coisa quando as vira e quando as pintara. Sorrindo e com as palmas das mãos úmidas, remexeu na caixa que trouxera junto consigo, onde guardava o martelo, a fita métrica e ferramentas de trabalho. Já medira a parede em uma ida anterior ao escritório. Agora, após medir o centro e marcar de leve com lápis o local, esperava Sissy desligar o telefone. — Acha que devo esperar, ou já posso pendurar este aqui? — perguntou, erguendo um gancho. Sissy.

— Pendure já. Estou curiosa para ver o efeito na parede — incentivou

Com ágil eficiência, ela martelou o prego. A moldura era simples, de cerejeira natural — escolha de Reagan. Savannah teve de admitir, ajustando o quadro na parede, que fora uma boa escolha. — Levante o canto esquerdo apenas um tiquinho... Isso, bom. — Com as mãos na cintura, Sissy assentiu com a cabeça. — Perfeito. Já era hora de este lugar começar a parecer mais com o chefe e menos com... — A ex-mulher dele? — concluiu Savannah. Sissy franziu o nariz. — Digamos apenas que em termos de pintura ela era muito monocromática. Quanto ao resto, o tipo de mulher que nunca exibiu um fio de cabelo fora do lugar, nunca elevou a voz, nem nunca roeu unhas. — Devia ter alguma coisa para atrair Jared. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Cautelosa, Sissy lançou um olhar à escada. — Era linda, naquele jeito "não me toque, acabei de ser polida". Muito clássica, tipo Grace Kelly, mas sem o calor e o humor. E brilhante. Verdade. Não apenas na profissão. Falava um francês perfeito e tocava belamente piano, além de ler Kafka. — Oh! Savannah se esforçou para não fazer uma careta. Não tinha muita certeza se sabia quem ou o que era Kafka, mas sabia que jamais o lera. — A sua maneira, ela era admirável. Mas tão divertida quanto um enterro. — Sissy lhe deu um sorriso radiante. — Ninguém pode acusar você disso — disse, atendendo o telefone que tocava. Não, pensou Savannah. Ninguém podia acusá-la disso. Nem de ser polida, brilhante e ler Kafka. Sabia falar um pouco de francês — pelo menos o da Louisiana. Recusando-se a se deixar intimidar pela imagem da mulher que Jared escolhera um dia como esposa, ela desembrulhou o quadro seguinte. Pendurou um trio de pequenas naturezas-mortas na entrada. Sissy retornou ao trabalho. Com a chuva caindo forte lá fora e a secretária tamborilando no teclado, começou a desfrutar o simples prazer de decorar, de escolher um espaço e dar-lhe vida. Ao chegar ao segundo piso, começou a cantarolar baixinho. Sem querer martelar ali enquanto Jared estivesse com um cliente, encostou os quadros nas paredes que escolhera para pendurá-los, atravessou em seguida o corredor e acabou chegando ao escritório defronte ao dele. O ex-escritório, ela pensou, da ex-sra. MacKade. Não, lembrou. Sm. MacKade, não. Jared dissera que Bárbara não adotara o nome dele. As paredes ali eram de um rosa-escuro, as sancas e os rodapés quase jade. Reagan o transformara em uma aconchegante e eficiente sala de reunião. Uma escrivaninha, poltronas confortáveis, mesas e livros. Quando ela bisbilhotou o interior de um armário, viu uma cafeteira e xícaras. Ali, imaginou, Jared podia receber clientes em um clima menos formal. Ou talvez usá-la para relaxar, alongar. Ou talvez andasse pensando em ter um sócio. Ocorreu-lhe que sabia muito pouco do trabalho dele, ou dos planos, ou de como era seu cotidiano profissional. Também nunca perguntara, lembrou a si mesma — e por que ele ia discutir casos com ela? Nada sabia de lei, exceto os problemas que tivera com ela, ao lutar para se manter um passo adiante do sistema e continuar com a guarda do filho.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Ele os teria discutido com a esposa, imaginou, logo se amaldiçoando por cair naquele típico e patético pensamento. Canalizando mais uma vez os pensamentos para seu trabalho imediato, saiu para o corredor assim que a porta do escritório de Jared se abriu. — Vou providenciar para que lhe seja enviado em dois dias um rascunho do contrato — ele dizia. Então parou e sorriu. — Olá Savannah. — Olá. Desculpe. Estava distribuindo os quadros nos lugares que vão ficar. — Vai me apresentar essa linda jovem» Jared, ou tenho de tomar eu mesmo a iniciativa? — Savannah Morningstar, Howard Beels. — Savannah Morningstar. É um nome que combina com você. — O homem enorme de gordo, de uns cinqüenta anos, disparou a mão do tamanho de um pequeno presunto e apertou a dela. Os olhos azuis cintilantes, engastados em bolsas e em dobras de pele franzida, acenderam-se em viril admiração. — Trabalha para este cidadão? — Por assim dizer. — Savannah avaliou o olhar, o aperto de mão. Após um tempo considerou Howard Beels inofensivo. Deu-lhe um sorriso cordial. — Contrata este cidadão, Howard? Ele irrompeu em uma risada de sacudir as entranhas. — Todo mundo precisa de um advogado inteligente neste mundo velho e sujo — respondeu. — O Jared aqui tem sido o meu há, faz quanto tempo? Cinco anos? — Mais ou menos — murmurou Jared, intrigado com o jeito fácil de Savannah lidar, e entreter, um dos seus mais importantes clientes. — Que é que você faz, Howard? — Ah, um pouco disso, um pouco daquilo. — Ainda não soltara a mão dela. E piscou o olho. — Sou um cara que mexe com um pouco de tudo. E você? — Eu também mexo com um pouco de tudo — disse Savannah, fazendo-o mais uma vez rir. — Savannah é artista plástica — intrometeu-se Jared. — Da próxima vez que vier aqui, verá as obras dela nas paredes. — É mesmo? — Howard dirigiu o olhar ao quadro encostado na parede atrás dela. — E sua obra ali? — É. Ele soltou-lhe a mão e entrou no outro escritório. Apesar do tamanho,

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade agachou-se agilmente para examinar a pintura. — É bem bonita. — Elogiou, gostando de como fluíam as cores e as formas. — Quanto vale uma coisa dessas? — O máximo que eu conseguir — respondeu ela, secamente. Howard bateu nos joelhos, animado, e se levantou. — Gostei dessa menina, Jared. Vou lhe dar meu cartão, querida. — Enfiou a mão no bolso e retirou-o. — Ligue para mim, ouviu? Acho que poderíamos fazer uma negociação sobre um ou dois quadros. — Farei isso. — Ela lançou uma olhada no cartão, que não lhe deu nenhuma pista da profissão. — Não vou esquecer de ligar. — Também não perca muito tempo e aproveite logo a oportunidade. — Deulhe uma piscada e voltou-se. para Jared. — Vou esperar os documentos. Savannah sorriu ao vê-lo batendo em retirada. — Que figura! — Você soube lidar muito bem com ele — observou Jared. — Estou habituada a lidar com esse tipo de sujeito. — Enfiou o cartão no bolso. — Já terminei no primeiro andar. Se não atrapalhar você, eu poderia terminar aqui. — Claro. — Ele se encostou no vão da porta e a viu erguer o quadro. — Um pouquinho mais para a direita — sugeriu. — Howard sabe apreciar as mulheres. — E, eu percebi. — Satisfeita, Savannah largou o quadro no chão e se preparou para martelar o prego. — E arriscaria dizer que é fiel à esposa há... oh, vinte e cinco anos. — Vinte e seis em maio. Três filhos, quatro netos. Sabe apreciar as mulheres — repetiu. — E é um dos mais astuciosos empresários que conheço. De imóveis, principalmente. Compra e vende. Constrói. Tem dois hotéis pequenos e é sócio de um restaurante de cinco estrelas. — Verdade? — Ah... Também faz parte do Conselho de Artes e trabalha com o Museu de West Maryland. Savannah quase martelou o dedo. — Interessante... — Com cuidado, largou o martelo. — Parece que eu estava no lugar certo na hora certa.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Howard não teria pedido que você ligasse se não falasse sério. Não sei como uma artista plástica se sentiria tendo sua obra exposta em hotéis, restaurantes e escritórios jurídicos. Ela fechou os olhos por um momento. — Eu me sentiria ótima. — Pendurou o quadro e recuou para examiná-lo. — Simplesmente ótima. — Não tem temperamento artístico? — ele perguntou. — Nunca pude me dar ao luxo de ter temperamento artístico. — E se pudesse? — Continuaria me sentindo ótima. Por que não deveria me sentir? — Acho que eu gostaria de saber por que você não poderia querer nem pedir mais. Ela não soube dizer se era apenas de arte que Jared falava agora, mas a resposta tinha de continuar sendo a mesma. — Porque estou satisfeita com o que tenho. O advogado curvou os lábios devagar e estendeu a mão para tocar o rosto dela. — Você é uma mulher complicada e, ao mesmo tempo, surpreendentemente simples. Acho uma mistura fascinante. Que tal eu levar você para almoçar? — E uma oferta simpática, mas quero terminar isso. E se você sair, eu posso pendurar as peças em seu escritório enquanto estiver fora. — Que tal eu ficar e pedir que entreguem aqui? Assim, vejo você pendurar as peças no meu escritório. — Aí daria certo... Na verdade, quero lhe mostrar uma coisa. Você não escolheu, mas achei que se gostasse talvez quisesse pendurar no escritório. Curioso, Jared viu nervosismo nos olhos dela. — Vamos dar uma olhada. — Ótimo. — Savannah atravessou o corredor até o lugar onde deixara o quadro ainda embrulhado. — Se não gostar, não é nada importante. — Desviou-se dele para pôr ela mesma a peça no escritório. — De qualquer forma, é um presente. Não custa nada. — Um presente? — Ele acariciou o braço dela e foi à escrivaninha pegar uma tesoura para cortar o barbante. A idéia de um presente o maravilhava. Porém, quando abriu o papel

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade protetor e o viu, o rápido sorriso se desfez. E o coração de Savannah afundou. A floresta era profunda e densa, cheia de mistério e luar. Dos troncos pretos, nodosos, erguiam-se galhos retorcidos que sustentavam folhas recémnascidas da primavera. Azaléias silvestres brilhavam por ali. O chão rochoso era atapetado de folhas caídas do último outono, um sinal da contínua vazante e enchente do fluxo da vida. Viu o trio de pedras onde muitas vezes se sentava, o tronco onde uma vez conversara com ela. E ao longe, apenas uma sugestão das sombras, um brilho de luz que representava sua casa na fazenda. Por um momento, não soube o que dizer. — Quando você fez isto? — Terminei há poucos dias. — Um engano, ela pensou, se amaldiçoando. Um sentimental e tolo engano. — Pintei no meu tempo de folga. Como eu disse, não é nada importante. Se não gostou... Antes que ela pudesse terminar, Jared ergueu a cabeça e buscou os olhos dela, rodopiando de emoção. — Não consigo pensar em nada mais significativo e importante. A imagem da floresta é igual à noite em que fizemos amor pela primeira vez. Igual às inúmeras vezes em que estive lá sozinho. O coração dela subiu a garganta. — Eu ia pintar do jeito que seria no outono, durante a batalha. Mas quis fazer assim primeiro. Não sabia se você ia... Que bom que gostou. Jared acariciou o rosto dela. — Eu amo você, Savannah. Ele se aproximou mais e a beijou. Entrelaçou os dedos nos cabelos ainda molhados da chuva, provocando-lhe uma excitação lenta e deliciosa. — Vou pendurar o quadro para você. — Hum... — de repente, ele teve uma idéia muito melhor. Com o braço em volta dela, para mantê-la segura, estendeu a mão sobre a escrivaninha e pegou o interfone. — Sissy? Que tal sair para almoçar agora? É, e não se apresse. Savannah acompanhou com o olhar a mão que desligava o aparelho. Então desviou os olhos meigamente para o rosto. — Se acha que vai me seduzir aqui no seu escritório, me fazer rolar nesse elegante tapete novo, enquanto sua secretária sai para almoçar... Jared a interrompeu, dirigiu-se à porta e a fechou. Trancou-a e arqueou

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade uma sobrancelha. — Sim? — ele perguntou. — Está absolutamente certo. Ele tirou o paletó e o pendurou no gancho junto à porta. Depois a gravata e a camisa. Encarou-a, começou a desabotoar-lhe a blusa. — Suas roupas estão molhadas... — Da chuva. Muito devagar, Jared despiu a roupa de algodão colorido. Sem desprender os olhos dela, enfiou o dedo sob o fecho do sutiã. E continuou mantendo-o preso ali ao sentir o rápido tremor na pele e ouvir a pequena falha na respiração. — Eu quero você toda vez que a vejo. Quero até quando não vejo. — Soltou o sutiã. — Quero mesmo depois que acabo de ter você. — Com as pontas dos dedos, desenhou levemente a curva dos seios. — Você me obceca, Savannah, de um jeito que nada nem ninguém jamais fez. — Agora, esfregava-lhe os mamilos. — Perco a cabeça quando toco você murmurou. — Desta vez, quero que você perca a sua. Mãos a percorriam toda. Primeiro violentas, depois gentis, suaves e mais uma vez exigentes, como se ele se recusasse a deixar que qualquer sensação as governasse. Desejosa, ela tentava puxá-lo mais para perto. Toda vez, porém, que o fazia, Jared a detinha, baixando-lhe pacientemente os braços até Savannah não ter outra opção, senão se agarrar à borda da escrivaninha e deixá-lo fazer o que quisesse. Ninguém jamais fizera amor com ela assim, como se fosse tudo que existia e tudo que precisava existir. Como se seu prazer fosse o mais importante. As sensações corriam por sua pele, perseguidas por outras suaves, depois por mais outras que se entranhavam pelo corpo. Arqueou-se para trás, gemendo, sentindo-o cravar os dentes por toda ela, levando-a para um terreno na fronteira entre o prazer e a dor. — Vem... — Savannah pediu, lançando os braços em volta dele, retesando o corpo pulsante. Mas ele tornou-lhe as mãos e as prendeu nas suas, beijando-a e levando-a ao delírio. A língua a provocava, a respiração ofegante. — Deixe-me tocá-lo — ela insistiu. — Ainda não. — Ele prendeu-lhe mais uma vez as mãos na borda da escrivaninha, enquanto descia os lábios para o pescoço. — Mas vou tomar você toda, Savannah. Vou tomar você centímetro por centímetro. De um jeito que

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade ninguém jamais fez. Para o prazer dela, disse a si mesmo. Porém, sabia que parte disso era seu próprio orgulho. Queria lhe mostrar que nenhum homem antes, e nenhum homem depois, podia fazê-la sentir o que ele faria. Assim, mostrou a carne, agora molhada não da chuva, mas da paixão. Savannah se entregou a ele como nunca fizera com homem algum. Completamente entregue, se apoiava na escrivaninha e o deixava devastá-la, corpo e mente. Jared tirou os sapatos dela, que deixou a cabeça cair para trás e se permitiu emitir profundos gemidos quando ele baixou a calça jeans até as coxas e acariciou com os lábios aquela carne exposta. Ela estremecia, quase soluçava, sentindo-o apertá-la ardorosamente com as mãos. Era assustador. Maravilhoso. Ele não parava, e enquanto o prazer a açoitava e impelia implacavelmente cada vez mais para cima, rezou para que nunca parasse. Nua, despida das roupas e de todas as defesas, apenas se entregava. Ele jamais sentira aquele tipo de desejo indomável, sabendo que a enchia de indizível prazer. O sangue fluía em sua cabeça cada vez que a sentia mais uma vez atingir o clímax, ouvia o grito de prazer. Os músculos das pernas dela tremiam. Jared correu a língua pelas coxas, demorando-se na tatuagem, antes de trilhar o caminho, pelo resto do corpo. Savannah fechou os olhos. Ele usou a boca apenas para mantê-la pronta para recebê-lo. Tirou a camisa, os sapatos e a calça, afastando-os. E arrastou-a para o chão. O animal que vinha se agitando nervoso por dentro libertou-se. Ele se impeliu dentro dela, desenfreado, tremendo de emoção quando ela gritou seu nome, sibilando excitada e arranhando-lhe as costas com as unhas. Tudo era calor, velocidade e corpos mergulhando, carne contra carne. O sangue corria rápido pela cabeça, o coração e o membro. Ela se arqueava para Jared, louca de desejo. Com a visão turva, ele se esvaziou nela. Savannah achou que, se realmente tentasse, talvez conseguisse rastejar até onde se achavam empilhadas suas roupas. E tentaria, disse a si mesma, em apenas um ou dois minutos. Naquele momento, era constrangedor continuar ali deitada no antigo tapete do elegante escritório de Jared com o pesado corpo dele sobre o seu. Ela fora, percebeu, total e entorpecidamente arrebatada. Por mais

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade excitante e emocionante que fora fazer amor com ele antes, sentia-se diferente. — Eu tenho de me levantar — ela murmurou. — Por quê? — Para ter certeza de que não estou paralisada. — Machuquei você? Ela continuou de olhos fechados, os lábios curvos. — Mais quinze minutos, você teria me matado. — Fazendo esforço, encontrou energia para acariciar os cabelos dele. — Obrigada. — Disponha. — Ele soltou um longo e sincero suspiro e a beijou no pescoço. — Claro, não sei nem se vou conseguir mais trabalhar aqui de novo. — Gemendo um pouco, rolou para fora dela. — Terei um cliente sentado na cadeira, e serei tomado pela visão de você, deitada nua junto à escrivaninha. Savannah riu e descobriu que tinha mesmo de rastejar. As pernas talvez nunca mais tornassem a erguê-la. rosto.

— Ele vai ficar desconfiado quando você ficar com um sorriso idiota no

— E começar a babar. — Extenuado, Jared estendeu a mão para pegar a camisa. — Que maneira infernal de inaugurar a nova decoração. — Nunca inaugurou a antiga? Ele teve de se concentrar para lembrar como abotoar a camisa, por isso levou um minuto. A risada irrompeu primeiro. — Quer dizer, eu e Bárbara? Não lembro de ela algum dia desabotoar o blazer aqui. Não fazia seu estilo. De calcinha, Savannah se virou para observá-lo. — Você foi casado com ela, certo? — Acho que tínhamos muito em comum. Queríamos nos estabelecer em nossas respectivas carreiras conhecíamos muitas pessoas em comum, cumpria mos várias das mesmas funções. — Perturbava ainda ver como parecia vazio quando ele separava todas as coisas e as examinava isoladas. — Era um mulher sensata, racional e sofisticada. Era isso o que eu queria... ou achava que queria. Uma espécie de troféu para alguém que sempre fora visto como desordeiro quando mais jovem. — Você queria dignidade — disse Savannah, ainda sentada no chão, abotoando a blusa. — Isso parecia importante naquela época. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Ainda é, sempre é. — Embora ela percebesse soai; meio tolo, ao vestir a calça jeans, disse-o mesmo assim. — Eu também sempre quis. Não um blazer. Não faz meu estilo. Mas apenas ser olhada com dignidade. — Calçou um pé de sapato. — Por isso gosto de morar aqui. Posso começar do zero. — Todos pensamos no passado. — Ele foi pegar a gravata e passou-a no pescoço. — Faz parte da natureza humana. — Eu não! — Savannah disse isso de modo quase feroz, calçando o segundo pé de sapato. — Não mais. Ele se concentrou no nó da gravata — Não teve ninguém? De todas as pessoas que você conheceu? Ela ia responder tranquilamente, mas então percebeu tudo. Jared não queria dizer pessoas. Queria dizer homens. E lembrou do que ele dissera enquanto fazia amor, enquanto a fazia tremer e suspirar. De uma forma que ninguém fizera. — Quer dizer, amantes? — Foi você quem disse amantes. Eu disse pessoas. — Sei o que você disse, Jared. Não, ninguém foi importante o bastante para me fazer olhar para trás. O pai de Bryan. Ele quase disse, quase perguntou, mas as palavras entalaram na garganta. — Você está com raiva? — perguntou, notando o brilho nos olhos dela. — Estou começando a entender que o que aconteceu aqui foi uma espécie de demonstração. Um tipo de coisa machista, de bater no peito, para provar que você é melhor do que qualquer um que talvez eu tenha tido antes. Agora eram os olhos dele que faiscavam. — Foi uma observação admiravelmente idiota. — Não me chame de idiota! — rebateu ela, enfurecida, conseguindo se recompor depois. — Pode relaxar, Jared, você provou o que queria. É um amante extraordinário. O maior de todos. — Aproximou-se dele e passou a mão em seu rosto tenso. — Adorei cada minuto. Mas agora não tenho mais tempo para pendurar os seus quadros. Preciso resolver algumas coisas antes de voltar para casa. Jared pôs a mão no braço dela. Ele a compreendia o bastante para saber que aquela desinteressada arrogância era um dos meios de disfarçar a raiva. — Acho que temos de conversar sobre uma coisa.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Terá de esperar. — Esgueirando-se por trás dele, Savannah destrancou a porta. — Consumimos sua hora do almoço, e imagino que a qualquer minuto Sissy vai estar de volta. Deu-lhe um beijo de leve, desinteressado, e desprendeu o braço. — Temos de conversar sobre uma coisa — ele repetiu. — Ótimo. Elabore tudo bem direitinho na cabeça e falamos sobre isso hoje à noite. — Sabendo que o irritava, deu um sorriso pretensioso. — Obrigada pela demonstração, MacKade. Foi memorável. Não deu dois passos, Sissy entrou esbaforida na recepção. — Ei, Savannah — ela gritou, animada. — Do jeito que está desabando a chuva lá fora, talvez seja melhor manobrar seu carro e pôr em um lugar mais seguro. — Então é melhor eu ir andando — disse Savannah, descendo a escada sem olhar para trás.

Capítulo 11 Jared comprou flores. Não sabia se era um pedido de desculpas, ou se simplesmente adquirira o hábito de escolhê-las uma ou duas vezes por semana porque Savannah sempre ficava muito satisfeita quando ele entrava com um buquê. Não lhe agradava pensar que as flores de fim de primavera eram uma desculpa, pois não se julgava inteiramente equivocado. Em termos técnicos, não fizera, apenas insinuara uma pergunta. E por que diabo não devia perguntar? Queria saber mais sobre ela: quem, o que e o porquê do seu passado. Não apenas os trechos que ela soltava ao léu, de vez em quando, mas a história completa. Claro, o momento que escolheu havia sido errado. Admitia isso. Admitia até que o tirara do sério o fato de ela ter visto profundamente o íntimo dele com tanta facilidade. No entanto, o desfecho era o seguinte: ele tinha o direito de saber. Os dois iam ter uma conversa calma e racional sobre simplesmente isso. Talvez por ser tão inquisidor, tão repentino, ficou nervoso quando subiu a alameda e viu que o carro dela não estava lá. Onde estava? Já passava das seis. Ficou dentro do seu carro, de cara feia, olhando o terreno adiante. A chuva deixara as flores bonitas. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Ele lembrou o primeiro dia em que a vira, escavando a terra, com vasos de plantas. Savannah fizera alguma coisa ali, pensou. As raízes de que falara continuavam rasas, embora as tivesse enfiado fundo. Jared precisava acreditar que ela aceitara aquele compromisso, e encontrou conforto no verde da grama que ela preferia cortar sozinha, no colorido dos viços religiosamente cuidados, na floresta que os dois compartilhavam com tanta cumplicidade, intensidade e intimidade. Viu a bicicleta de Bryan parada junto à alameda, um disco de plástico laranja no meio do gramado inclinado, um carrinho de mão cheio de adubo parado ao lado da varanda. Detalhes, ele ruminava, pequenos detalhes que formavam um lar. De repente, ocorreu-lhe que queria e precisava que aquele fosse seu lar. Não apenas um lugar onde ele deixava algumas coisas a fim de torná-lo conveniente para passar a noite. Não queria que Savannah fosse apenas a mulher que ele amava e com quem queria fazer amor. Tivera um casamento desfeito antes, mas sabia, sem sombra de dúvida, que jamais se colocaria mais uma vez em uma situação ruim no amor. No entanto, vinha mentindo a si mesmo quase desde o início, porque não se sentia satisfeito e não queria apenas se deixar levar. Então a provocou, de forma sutil e não tão sutil, em relação àquelas perguntas sobre quem era ela, onde estivera. Enquanto parte dele, a do orgulho e do coração, se feria toda a vez que ela simplesmente não respondia as suas perguntas de bom grado. Queria que confiasse nele, partilhasse tudo que ela fora, era e seria. Precisava que recorresse a ele sempre que se visse diante de algum problema, triste ou feliz. Queria que ela se casasse, tivesse filhos e envelhecesse com ele. Pôs-se a subir a alameda, parando para pôr a mão na bicicleta de Bryan. Queria o menino. Isso também era uma notícia nova e reveladora. Não queria que Bryan fosse filho de Savannah, mas dos dois. Ajudá-lo com seu dever de casa, treiná-lo no beisebol, aplaudi-lo das arquibancadas em um jogo. Jared compreendeu que se habituara a essas coisas, ansiava por elas. Ansiava por aquele sorriso rápido e a saudação gritada. Mas isso não bastava. Não os tornava uma família. O amor tornaria. Passara a amar o menino em muito pouco tempo, sem sequer perceber. O casamento tornaria. Não apenas o contrato legal, refletiu. A promessa. Ele e Bárbara haviam quebrado a promessa de seguir em frente sem a menor hesitação. Tudo muito limpo, muito certo, muito civilizado. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Não fora essa a essência do relacionamento deles? Nada havia de civilizado na maneira como se sentia em relação a Savannah ou Bryan. Sentia-se protetor, possessivo. Eram emoções difíceis. Desordenadas. Maravilhosas. Mais calmo agora que elucidara o problema até o fim, e vendo a solução, entrou na casa. Reparou que os sapatos estavam onde não deviam estar, livros, copos e brinquedos espalhados, em vez de guardados no lugar certo. Um par de brincos jogado em uma mesa, um rastro de lama no tapete. O lar. Mas onde diabos eles haviam se metido? Habituara-se a encontrá-los ali. Bryan no quintal, ou lendo a coleção de cartões de beisebol no quarto. O rádio e a TV ligados em alto e bom som. Ela na cozinha, ou no pequeno estúdio nos fundos, ou tirando um cochilo no sofá. Jared foi até a cozinha, largou as flores na mesa. Nenhum bilhete. Nem qualquer explicação escrita às pressas presa na geladeira. Franzindo a testa, largou a pasta ao lado das flores. O mínimo que ela poderia ter feito era deixar um bilhete. Haviam combinado que iam conversar, não? Examinou o estúdio e viu meio copo de refresco aguado na mesa de trabalho, ao lado de um hábil desenho de um sapo voador com ar astuto. Em outras circunstâncias, isso o teria feito sorrir. Com o humor cada vez pior, subiu a escada. Tirou a gravata e entrou no quarto. O quarto dela, pensou, chiando. Por Deus, isso ia mudar. Jogou a gravata na cama, e depois o paletó. Iam ter uma longa e séria conversa. E Savannah iria escutá-lo. Resmungou consigo mesmo ao trocar a calça por um jeans e pendurou o terno no meio das roupas dela. Tinha os dentes cerrados. Uma das primeiras coisas que precisava fazer era comprar outro armário. Puxa, todo homem merecia seu próprio armário. Precisava de fato de construir outro quarto, grande o bastante para caberem as coisas dos dois. E um banheiro, enquanto morassem ali, porque teriam mais filhos. E um escritório. Ela não era a única que precisava de espaço de trabalho. Depois ele ia construir para Bryan uma casa na árvore. O menino também devia ter sua casa na árvore. Precisavam de um pequeno galpão para as ferramentas dela. E a alameda Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade precisava de ser remodelada. Bem, ia providenciar tudo isso. Ia providenciar para eles porque... ia enlouquecer, admitiu, sentando na beira da cama. Ainda nem lhe dissera que iam se casar, e ele já pensava em ampliar a casa. Por que andava tão estressado? Ficava tão furioso com Savannah e consigo mesmo? Pânico, ele imaginou. Receio de que, quando falasse em casamento, ela risse e dissesse que não era o tipo de coisa que a interessava. sim.

Passando as mãos pelos cabelos, levantou-se. Ela ia ter de se interessar

Bem poderia ter-se acalmado, talvez descido e começado a preparar o jantar para eles. Poderia ter feito isso, tinha a idéia em mente, mas notou a caixa na cômoda de Savannah. Observou o brilho dos cinturões. Fivelas grandes e vistosas. De rodeio. Ergueu uma e examinou o cavalo e o peão esculpidos em relevo. As coisas do pai dela. Recebera os bens dele e não lhe contara. Não era muito. Eram apenas prêmios que Jim Morningstar ganhara anos antes, objetos avulsos de um homem que obviamente viajava despreocupado e sem muito sentimento. Ele notou uma caixa maior ao lado da cômoda. Botas velhas e gastas, um chapéu surrado, algumas roupas ainda dobradas. Viu a carta do colega de Oklahoma, o formulário-padrão para a entrega dos bens, a lista detalhada, a oferta de ajuda se houvesse qualquer dúvida. Jared o afastou para o lado. E encontrou as fotografias. A maioria amarrotada, como se houvessem sido jogadas descuidadamente e mal empacotadas. Viu Jim Morningstar pela primeira vez. Um homem de rosto forte e concentrado, acomodando um cavalo em uma baia alta e estreita. A pele morena, as salientes maçãs do rosto. O ar brigão... Jared curvou os lábios ao examiná-la. Talvez ali Savannah tivesse uns treze, catorze anos. Alta, o corpo metido em uma calça jeans e em uma camisa pregueada, já curvilínea, os cabelos lisos debaixo de Um chapéu de caubói. Ela olhava fixo para a câmera, os lábios já insinuando o sorriso de mulher que sabe das coisas. A postura transmitia certa arrogância. Apoiava a mão de leve no ombro do pai. Jim Morningstar, de braços cruzados, não a tocava. Outra foto de Savannah, ainda mais jovem, montada em um cavalo. Uma pose clássica, o animal meio empinado, a amazona com o chapéu erguido alto em uma das mãos. Mais fotos do pai com outros homens metidos em chapéus, botas e brim. Como cenários, currais, estábulos e cavalos. Sempre cavalos.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Passou-lhe pela cabeça que poderiam abrir espaço para um cercado, usar o celeiro na fazenda e comprar um ou dois cavalos. Todas as idéias se esvaíram da cabeça ao ver a última foto. Sim, ela teria uns dezesseis anos, embora o corpo fosse o de uma mulher madura, vestindo uma camiseta colada no corpo e jeans justo. Porém, desprendiase do rosto uma suavidade, uma leve forma rechonchuda, anunciando que a mocinha ainda não terminara de desabrochar em mulher. Ria com vontade. A câmera imobilizara aquele momento da gargalhada. Ele quase a ouvia. Abraçava um homem, os rostos sorridentes. O sujeito tinha cachos louros despenteados. Bronzeado, esguio e alto, possuía olhos azuis, ou talvez verdes. Era difícil saber pela foto. O sorriso petulante era igual ao de Bryan. Era o pai dele! Jared sentiu a raiva começar a pulsar. Era aquele o homem. Um homem, repetiu na cabeça, não um garoto. Um rosto inegavelmente bonito, mas não de adolescente. O homem que seduzira uma menina de dezesseis anos e depois a abandonara. E Morningstar ainda guardara a foto! Savannah o observava do vão da porta. Suas emoções haviam passeado em uma montanha-russa o dia todo. E agora era a hora de uma nova descida. Queria esquecer a irritação e a raiva que sentiu ao sair do escritório dele. Esperava chegar em casa, encontrá-lo ali e partilhar com ele o pequeno triunfo da venda de três quadros a Howard Beels. Com muito boa possibilidade de outros. Ela e Bryan conversaram sobre isso até chegar em casa. Sobre Howard e a maneira como falara, hesitante, do que considerava um preço muito inflacionado, e como acabara acertando um valor bem mais alto do que ela previra. Chegou a parar e comprar uma garrafa de champanhe para ela e Jared comemorarem. Afinal, seu sonho de ser pintora tornara-se realidade. No entanto, ela via agora que não haveria comemoração alguma. Não com ele olhando daquele jeito as coisas que o pai lhe deixara. Não sabia de onde vinha a raiva dele, mas tinha a sensação de que logo descobriria. Ao diabo com isso, ela pensou, afastando-se do vão da porta. Vamos acabar logo com o problema. — Não é lá um patrimônio muito grande, hein? — Esperou-o erguer a cabeça e desviar os olhos furiosos para os dela. Ele sabia como conduzir um interrogatório, um passo de cada vez, começar

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade num determinado ponto e chegar à essência. — Quando recebeu os pertences de seu pai? — Uma ou duas semanas atrás. — Ela deu de ombros e foi até a janela olhar para baixo. — Bryan está no quintal. Pegamos os gatinhos. Ele está muito feliz. Jared MacKade ficou intrigadíssimo. — Uma ou duas semanas? Você não me disse nada! — Que tinha para dizer? Recebi o cheque e entreguei ao corretor que você recomendou. Não tive ânimo para cuidar do resto, por isso larguei de lado até hoje de manha. Acho que vou guardar as fivelas para Bryan. Ele talvez queira um dia. E as roupas darei para uma instituição de caridade. — Por que não me contou? — Por que deveria? — Savannah tornou a se virar para ele, vagamente aborrecida e curiosa. — Não tem nada de tão importante assim. Nada de bilhetes de loteria esquecidos, nem saquinhos de ouro em pó. Apenas algumas roupas velhas, botas ainda mais velhas e papéis. — E fotografias. — E, algumas. Tem uma dele na porteira que eu gosto. Mostra bem quem era, sempre se equipando para a cavalgada seguinte. Imagino que Bryan talvez também queira guardar essa. — E esta? — Jared ergueu o instantâneo de Savannah e o caubói de sorriso petulante. Ela ergueu a sobrancelha. — Não sei como entrei nessa calça jeans. Escute, vou pôr alguns hambúrgueres na grelha. Quando ele se interpôs em seu caminho, ela ficou genuinamente surpresa. — Mostrou esta a Bryan? -Não. — Pretende mostrar? — Não. Não creio que ele se interesse em saber como era a aparência da mãe aos dezesseis anos. — Talvez se interesse em saber como era a do pai. Ela levou um baque. — Bryan não tem pai. — Sem essa, Savannah, vai me dizer que esse não é o pai de Bryan?

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Vou dizer, sim, que não é o pai de Bryan. Transar duas vezes no feno não torna um homem um pai. — Não faça jogo de palavras comigo. — Pare com isso, dr. MacKade. E como isso parece ser um interrogatório, vou responder com clareza e facilidade. Fiz sexo com o homem dessa foto na sua mão. Engravidei. Fim da história. — Ao diabo que é. — Furioso, ele jogou com força a foto na cômoda. — Seu pai sabia. Do contrário, não teria guardado a foto. — E. Isso me ocorreu quando a encontrei. — E a dor que sentira com a constatação, mas que fora logo e tranquilamente despachada. — E daí? — Então por que não se fez nada? Não estamos falando de um garoto. Ele deveria ter pelo menos vinte e um anos. — Acho que tinha vinte e quatro. Talvez vinte e cinco. E difícil lembrar. — E você era menor de idade. Ele devia ter sido processado... depois de seu pai quebrar o pescoço dele. Savannah inspirou fundo. — Em primeiro lugar, meu pai me conhecia. Sabia que, se eu tinha dormido com alguém, era minha opção. Eu era menor, em termos jurídicos, mas sabia exatamente o que estava fazendo. Não foi erro, nem acidente. Não fui forçada. E não gosto nada de você lançar a culpa nos outros. — Claro que alguém é culpado — ele rebateu. — Aquele filho-da-mãe não tinha o direito de tocar em uma menina da sua idade e depois se mandar quan do vieram as conseqüências. Os olhos dela faiscaram — Bryan não é uma conseqüência. — Você sabe bem que eu não quis dizer isso. — Correndo as mãos pelos cabelos, ele se afastou. — Não há como voltar ao passado e consertar os erros a esta altura. Quero saber o que você pretende fazer agora. — Pretendo apenas grelhar hambúrgueres. Você pode ficar ou ir embora. A escolha é sua. — Não tome essa atitude comigo. — E a única que tenho para tomar. — Ela suspirou. -Jared, por que está remoendo essa coisa? Eu dormi com um homem há dez anos. Já esqueci. Ele me esqueceu. — Para tranqüilizá-lo, pegou a foto e jogou despreocupadamente na cesta de lixo. — Pronto.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — É tão simples assim? — Era isso, percebeu, exatamente o que o remoia por dentro. — Esse cara não significou nada para você? — Isso mesmo. — Você concebeu um filho com ele, Savannah. Aquele menino lá embaixo no quintal, brincando com os gatinhos. Como pode simplesmente descartar isso? Ela foi tomada pelo mau humor. — Você preferia uma história diferente, não é, Jared? Uma história diferente, com a qual pudesse viver. Sobre a coitada, inocente e negligenciada menina em busca de amor, seduzida por um cara mais velho, traída e abandonada. — Não foi o que aconteceu? — Você não sabe quem eu era, nem o que eu queria. Não quer saber, na verdade. Porque quando souber vai ficar infeliz e ressentido. Com quantos homens ela esteve? Posso acreditar quando ela diz que não se vendeu? Nem o pai dela ficou a seu lado, então, que isso me diz? Agora que revejo o que aconteceu, lembro que ela estava pronta para se deitar comigo desde o início. Com que espécie de mulher eu fui me envolver? Não é isso que você anda se perguntando, Jared? — Ando me perguntando por que você não me conta tantas coisas. Por que descartou dez anos de sua vida e como a afetaram. E, sim, ando me perguntando que espécie de mulher é você. Savannah jogou a cabeça para trás. — Adivinhe. Ah, saia do meu caminho! — Estou no seu caminho e você no meu. E tem um longo passado para resolver. Você diz que me ama, mas se esconde toda vez que toco em um ponto sensível, toda vez que quero uma imagem clara do que trouxe você a este momento de sua vida. — Eu me trouxe aqui. E tudo o que você precisa saber. — As coisas não são assim. Não se pode construir um futuro sem se basear no passado. — Eu posso. Construí. Se você não pode, Jared, o problema é seu. Sabe o que está fazendo? Se mortificando pelo rosto de uma fotografia. Sendo insultado e ameaçado por ele. — Isso é ridículo! — É? Tudo bem para você que tenha sido casado antes, tido outras mulheres na vida. Eu não lhe perguntei quantas foram, nem quem, nem por quê, perguntei? Tudo bem para você que tenha sido desordeiro, rebelde, perambulado à solta pela cidade com seus irmãos, procurando ou criando confusões. Isso é

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade simplesmente ótimo. Mas comigo é outra história. O problema é que você se envolveu comigo antes de pensar bem a fundo. Agora quer embaralhar as peças, ver se pode me transformar no que parece mais adequado ao homem que é hoje. — Está pondo palavras na minha boca, e está errada. — Eu digo que estou certa. Quer uma vítima, que pareça a pessoa certa para um evento profissional ou beneficente. Veio ao lugar errado. Eu não leio Kafka. — De que diabo está falando? — Da realidade. A realidade é que não preciso suportar esse tipo de sofrimento. Ele estreitou os olhos. — Não se trata simplesmente do que você precisa. Não mais. Esta é a realidade, Savannah. Eu não tenho de me justificar por querer saber como pôde jogar fora aquela fotografia, ou descartar as coisas de seu pai e nem me contar que recebeu. Não tenho de me justificar por perguntar o que você quer de si mesma, de mim. De nós. Nem lhe dizer o que eu quero, o que espero e pretendo ter. Só isso. Tudo ou nada. — Chegamos aos finalmente, não? — Parece que sim. Pense nisso — ele sugeriu, saindo furioso. Fumegando, Savannah ficou onde estava. Ouviu a porta bater embaixo. Precisou de cada miligrama de força de vontade para não correr até a janela e vê-lo. Talvez chamá-lo de volta. Minutos depois, ouviu o barulho do carro. Então era isso, pensou. Tudo ou nada. Que descaramento o dele, exigir que lhe desse tudo, deixá-la sem nada em que se apoiar. Nada para amortecer a queda. Já caíra uma vez, e os ferimentos a haviam atormentado durante anos. Por Deus, não ia cair de novo. Acalmando-se, desceu. Ignorou as flores na mesa, o champanhe gelando no refrigerador. Talvez o bebesse sozinha mais tarde, com os hambúrgueres. Talvez bebesse toda a maldita garrafa e ficasse de pileque. Seria melhor do que pensar, melhor do que se ressentir. Melhor até do que aquela raiva borbulhando no sangue. Mas a porta bateu e ela se detestou pela punhalada de decepção quando percebeu que era o filho. — Jared está danado com você? — Por quê? — Deu para perceber. — Inquieto, Bryan sentou à mesa. — Ele parou para Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade ver os gatinhos e tudo, mas não prestou atenção. Disse que não ia passar a noite aqui. — Acho que está mesmo danado comigo. — E você também está com ele? — Sim. — Bater os hambúrgueres para achatá-los era uma ótima maneira de liberar um pouco de violência. — Muito danada. — Isso quer dizer que não vai ficar mais com ele? Savannah o olhou e seu próprio mau humor se desanuviou o suficiente para ver a preocupação nos olhos do filho. — Que está querendo dizer, Bry? Ele deu de ombros. — Bem, você nunca ficou com ninguém antes. Jared está quase sempre aqui, traz flores para você e sai comigo. E vocês se beijam toda hora e essas coisas. — É verdade. — Bem, Con e eu achamos que talvez vocês fossem se casar. Uma rápida flecha varou certeira o coração dela. — Ah... — Achei que ia ser legal, porque Jared é legal. Ela deixou os hambúrgueres de lado. Para se dar tempo, abriu a torneira e enxaguou demoradamente as mãos. Enquanto isso, só pensava no que fizera ao filhinho. — Bry, você sabe que as pessoas se beijam o tempo todo sem se casar. É bastante inteligente para saber que os adultos também têm relacionamentos íntimos, sem se casar. — E, mas se eles se grudam mesmo um no outro, se casam, certo? — Às vezes. — Ela contornou a mesa e pôs a mão no ombro do filho. — Mas nem sempre isso basta para amar alguém. — Por quê? — Porque... — Onde estava a resposta? — Porque as pessoas são complicadas. De qualquer modo, Jared está danado comigo, não com você. Vocês vão continuar sendo amigos. — Tomara. — É melhor ir lá fora e cuidar para que os gatinhos não se metam em confusão. Eu vou acender a grelha. — Legal! — Ele se demorou um pouco ao dirigir-se para a porta. — Eu

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade estava pensando que, se você se casasse, ele seria meio uma espécie de... — Meio uma espécie de quê? — ela perguntou. — Meio uma espécie de pai. Eu acho que seria muito legal.

Capítulo 12 A declaração de Bryan se arrastou pela mente e pelo ânimo dela a noite toda. Para compensá-lo por uma decepção que se sentia incapaz de controlar, transformou a refeição informal na comemoração particular dos dois. Tomaram todos os refrigerantes que ele agüentaria beber, comeram quilos de batatas fritas, falaram sobre os loucos, mirabolantes e ridículos planos sobre como gastariam a fortuna ganha com a venda dos quadros dela. As viagens à Disneylândia bastavam, decidiram. Comprariam toda a Disneylândia. Camarotes nos jogos de beisebol? Coisa de pobre. Iam comprar o Baltimore Orioles! Savannah continuou com a brincadeira até ter razoável segurança de que os dois haviam esquecido que o que Bryan realmente queria era Jared. Depois ela passou a noite fitando o teto, pensando em todas as maravilhosas e odiosas maneiras de se vingar de Jared por deixar um buraco no coração de Bryan. No dela, não tinha tanta importância. Sabia como contornar. O tempo, o trabalho e o lar que continuaria a cultivar ajudariam tudo. Não precisava de um homem para fazê-la se sentir íntegra. Nunca precisara. Cuidaria para que o filho jamais sentisse falta de um pai. No entanto, puniria Jared por deixar Bryan esperançoso. O patife se tornara parte da vida dos dois. Flores, maldito seja. Jogar beisebol no quintal, levar Bryan à fazenda, acordá-la na cama de um jeito que ninguém, maldito seja mais uma vez, jamais fizera. Depois olhá-la com aquela altiva superioridade de advogado. Questionar sua moral, ações e motivações. Fazê-la se sentir mais, depois menos do que já fora. Fazê-la questionar a si mesma. Ele não ia ficar impune. Jared não podia se insinuar assim na vida dos dois, conquistar a confiança e depois começar a fazer exigências. Quem era ela, onde estivera e o que queria? Não lhe devia qualquer resposta, e ia provar isso.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Ele se insinuara e conquistara os dois, tudo bem, pensou, resmungando. Ele a fizera de idiota. Agora achava que podia se intrometer mais uma vez porque ela não era exatamente o que o mocinho gostava em uma... Sorriu com desdém da palavra. Em uma esposa. Detestava-o por isso, por fazê-la começar a pensar no assunto. Até Bryan suscitar a questão, ela não percebera que vinha sonhando, ainda que apenas um pouco, com um "felizes para sempre". Como os contos de fada que ilustrava, com seus príncipes fortes e apaixonados. Era constrangedor. Humilhante. Uma mulher feito ela, uma mulher que conseguira com pura garra sarar as feridas que a vida causara, ser levada ao fundo do poço assim por um homem. Sobrevivera sozinha. Passara fome, trabalhara até sentir vertigem de fadiga, aceitara empregos que lhe arranharam o orgulho. Fora abandonada pelo próprio pai quando mais precisara dele. E nada disso, nenhuma das experiências dolorosas ou difíceis na vida, jamais a deixara tão por baixo assim. Respirou fundo. Mostraria a Jared MacKade que espécie de mulher era. A espécie de mulher que não precisava dele. O advogado resolveu que ruminar na varanda da frente com uma cerveja não era algo tão ruim em uma tarde de sábado. Quase gostava. Fazia um lindo dia, e ele se sentia cansado do trabalho da manhã. Os irmãos o acompanhavam. Era uma sensação agradável ter todos ali em volta. Ver a relva crescer e os cachorros correrem para todo lado. Talvez, apenas talvez, dali a um pouco mais, iria caminhando até a cabana. Imaginava que já lhe concedera tempo suficiente para pensar. Também se dera tempo. Estava quase disposto, não inteiramente, mas quase, a admitir que fora um tanto opressor. Talvez um pouquinho irracional. Mesmo assim, ela fora ridícula. Acusá-lo de se sentir ameaçado por uma fotografia, de querer uma espécie diferente de mulher. De não estar satisfeito com ela porque não lia Kafka. Sabe Deus de onde tirara isso! Não gostou da comparação de sua vida com a dele. Ficou parecendo um machista completo. O que, sem a menor dúvida, não era. Era outra coisa, só isso. — Falando sozinho? — perguntou Devin, aparando um pedaço de madeira. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Anda fazendo isso desde que.chegou ontem -disse Shane, bocejando e chutando a cadeira de Jared. — Se quer minha opinião, Savannah deu um chute na bunda dele. Isso e a risada de Rafe interromperam a concentração de Jared. — Não deu. Eu fui lá apenas para dar um recado. — Ah! Sim. — Rafe piscou para Devin. — Qual era o recado? Jared agarrava a cerveja. — Que é melhor ela ver as coisas do jeito que são. A declaração foi mal recebida. — Do jeito dele — salientou Rafe. — Sempre tem de ser do jeito dele ou de nenhum outro. No degrau de cima, Devin se deslocou e encostou no pilar. — Então, afinal, o que ela estava fazendo de errado? — Omite coisas — respondeu Jared. — Recebi um telefonema esta manha de Howard Beels, me agradecendo por apresentar os dois. Parece que Savannah apareceu lá ontem e ele comprou três quadros. — Só de pensar nisso ficou mais uma vez fumegando. — E me contou? Não. Que tipo de relacionamento é esse? Divertido, Shane esticou os braços. — E aposto que você também já chega cheio de perguntas. Que aconteceu então? Que fez você? Que série de fatos levou a isso? E onde estava na noite em questão? O soco de Jared teria sido mais forte se Shane não fosse mais rápido. — Eu não a interrogo. Pergunto. Quero saber dela. Tenho o direito de conhecer a mulher com quem vou casar. Rafe se engasgou com um gole de cerveja. — O quê? — Eu já sabia. — Suspirando, Shane tirou uma cerveja da caixa térmica. — Simplesmente sabia. Com os olhos brandos, Devin examinava Jared. — Você pediu Savannah em casamento? — Não. Não tive chance de dizer a ela... — Diga, então — encorajou Devin. — Talvez queira ver o meu lado da história — grunhiu o irmão. — Percebi que isso é o que eu quero. Vinha pensando, repassando a idéia na cabeça, e aí Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade chego lá e vejo que Savannah tinha recebido os objetos do pai. Não me contou que haviam chegado. E encontrei uma fotografia dela com o pai de Bryan. — Hum... — comentou Rafe por todos eles. — Quando perguntei sobre a foto, ela se pôs na defensiva. — Testemunha hostil — murmurou Shane, o que lhe rendeu um olhar furioso. — E jogou fora — continuou Jared. — Como se nada significasse. — Talvez fosse exatamente o que significava — intrometeu-se Devin. — Escute, o canalha engravida a menina e depois abandona. O pai a chuta para fora de casa. Aos dezesseis anos, tenha paciência! Claro que significa alguma coisa. Mas ela não se abre comigo. Não me conta como se sentiu. Só faz me acusar de coisas idiotas. Depois diz que estava tudo bem eu fazer minhas estripulias, ou coisas assim na juventude, procurar encrenca e confusões. E que eu espero que ela seja uma pobre coitada. É insultante. Rafe olhava para a garrafa de cerveja. — E a verdade. — O diabo que é! — protestou Jared. — Sinto muito, mano. Você se forma em direito, compra alguns ternos de advogado... — Quer que eu quebre seu nariz de novo? — rebateu Jared, interrompendo Rafe. — Espere só um minuto. De qualquer modo, se depois de algum tempo você decidir que é hora de se casar, escolha alguém sem nenhuma bagagem, segredos nem defeitos visíveis. Sabe por quê? Jared o encarou mal-humorado. — Por que não me diz? — Ora! Savannah é uma mulher real com erros e acertos como todo mundo. Aceitar o modo de ser do outro é fundamental; Ele quis discutir, mas descobriu que não podia. Xingou, em vez disso. Kafka!

— Kafka — resmungou, quando lhe caiu a ficha na mente. — Bárbara lia

— Não me surpreende — disse Rafe rindo. Tentando ver tudo de um novo ângulo, Jared pegou um charuto. — Continua sendo válida a afirmação de que, se duas pessoas querem construir um futuro juntas, precisam confiar o suficiente uma na outra para partilhar o passado. Eu também quero o menino — afirmou, dando uma baforada.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Vai deixar uma fotografia deter você? — perguntou Devin, tranqüilo. — Não. Não vou deixar nada me deter. — Dois nocauteados — reclamou Shane. — Vocês sabem, as mulheres começam a ter idéias quando dois irmãos se casam. — Problema seu — resmungou Jared. Os quatro olharam à frente, percebendo o ruído de um carro subindo a alameda, rápido. Então ela recobrou o juízo, Jared pensou, orgulhoso. Agora estava ali, arrependida por ter perdido as estribeiras, imaginou. Disposta a sentar e discutir sensatamente tudo. Levantou e foi se encostar no pilar do outro lado de Devin. Também seria suficientemente sensata para se desculpar. E se explicar com mais coerência. Sabia que dali a alguns anos os dois ririam de toda aquela tola confusão. Levou o charuto aos lábios, pronto para recebê-la, quando Savannah parou com os pneus cantando no fim da alameda. A mulher que saltou do carro não parecia conciliatória. Parecia ensandecida, em chamas. — Oh, oh — foi tudo que Shane disse, sorrindo para Rafe. Ela não falou, porém ficou ali parada com as mãos nos quadris, olhando os quatro. Uma platéia, pensou. Ainda melhor. Não pareciam todos vaidosos apenas por serem homens? Foi requebrando até a mala e a destrancou. A caixa surgiu primeiro. Os cachorros saltavam e corriam em volta, alegres. Com um largo sorriso, ela a virou de cabeça para baixo. Várias peças de roupa caíram. Ternos, gravatas, camisas e meias. Ainda sorrindo, deu dois bons chutes para espalhar tudo. Maravilhados, os deles pisavam em cima das roupas, farejando e latindo. Na varanda, os homens olhavam em silêncio, quase sem acreditar. Ah, a gravata preferida de Jared se prendera no pé dela! Encarando-o, ela a esmagou com o salto. Rafe ria feito um doido. Shane soltou uma gargalhada. Devin olhava cheio de fascinação. Jared apenas observava. Ela não terminara. Nem de longe. De volta à mala, tirou um livro de endereços com capa de couro que ele deixara na mesinha-de-cabeceira. Sorrindo, indiferente, abriu-o como para demonstrar. Depois, arrancou as páginas e as deixou esvoaçar até a pilha de roupas, agora sujas e cheias de pêlos de cachorro. Tirou os sapatos dele. Primeiro, o de couro italiano. Estendendo-os para Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Ethel farejar, atirou um pé depois do outro. Os cachorros adoraram morder. Os tênis vieram em seguida. Dois pares, um dos quais, maravilhou-a notar, comprado duas semanas antes. Esperava que os cães os estraçalhassem. Ainda faltava cuidar do aparelho de barba. Ela atirou uma peça aqui, outra ali, prolongando o numero até Shane simplesmente rolar da cadeira no ê piso da varanda, cansado de tanto rir. No entanto, poupara o tiro de misericórdia. Os vinhos. Só havia uma garrafa aberta, mas ela a jogara fora antes de sair de casa. Retirou a rolha de todas as três, de excelente safra de caro vinho francês. Com o queixo erguido, os olhos desafiadores, voltou ao que restara das roupas dele. Primeiro inclinou a cabeça, malevolamente satisfeita por ver que os olhos dele haviam se tornado dois punhais. Habilmente, despejou-as rodas de uma só vez no melhor terno. Feito isso, deixou as garrafas caírem na relva. Ainda sem proferir uma palavra, voltou para o carro e se pôs atrás do volante. Com um sorriso final, uma arrogante saudação, deu ré, fez a volta e desceu a alameda. Além do ataque de riso de Shane, não se ouvia um único ruído até Devin afinal pigarrear. Examinou cuidadosamente a bagunça no gramado e chegou a afagar a cabeça de Fred quando o cachorro lhe trouxe um dos sapatos de Jared. — Bem... Acho que ela também deixou seu recado. — A mulher é um espanto — conseguiu dizer Shane, exausto de tanto rir. — Acho que estou apaixonado por ela. Como sabia o que era ficar à mercê do próprio coração, Rafe se levantou e consolou o irmão com um tapinha no ombro. — Sabe, Jared, você tem duas opções. — Quais? — perguntou ele, tremendo de ódio. — Fugir ou ir atrás dela. Eu sei qual escolheria. Jared não fez nada durante duas horas. Conhecia-se bem o suficiente para entender que seu temperamento explosivo podia ser perigoso. Deixou passar um pouco da raiva, descarregou-a suando no celeiro, e depois tomou um banho. Ao sair, continuava com raiva, mas refreada. Ela imaginou que o jogara fora, pensou, como jogara as coisas dele. Mas ia dar o troco. — Ei, Jared! — Do quintal, onde brincava com os cachorros em volta de um dos sapatos do irmão, Shane gritou um recado: — Diga a Savannah que realmente Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade adoramos o show, está bem? — E me lembre de dar um chute no seu traseiro depois. Ela o humilhara. Na frente dos irmãos! Procurando se controlar, enfiou as mãos nos bolsos e rumou em direção à floresta. Sem falar que arruinara uma boa parte de seu guarda-roupa. Julgava-se muito inteligente. Não? Imaginou-a acordada metade da noite planejando tudo aquilo. Se não houvesse sofrido o pior, teria admirado sua destreza. A ousadia do ato. Mas fora ele quem sofrera o pior. Embora a floresta se fechasse em volta, não sentiu a habitual sensação de paz e companheirismo. Tinha a mente em outra coisa, em Savannah. E, pensou com regozijo, na vingança. Vamos ver, o que ela acharia de eu ir até o armário dela e... Deteve-se, e mais uma vez respirou fundo. Veja a que ponto o levaria essa mulher. Pensava, na verdade, na possibilidade de destruir os pertences dela, em uma espécie de retaliação. Isso não ia acontecer. Jared ia desforrar-se mostrando a ela que ele era um homem racional. Para ter certeza de que assim agiria, desviou do caminho e sentou nas pedras. Não os sentia — os espíritos que assombravam aquele lugar com dores, esperanças e medos. Talvez, pensou, porque pela primeira vez em muito tempo sentia-se atormentado pelos seus próprios fantasmas. Conheceu a perda. A chocante e devastadora perda dos pais. Viveu com ela, porque não tinha opção e porque, pensou, tinha muitas lembranças boas às quais recorrer como reconforto. E, claro, sempre teve os irmãos. Conheceu o sofrimento, que o atingiu em cheio quando acabou admitindo que seu casamento fora um erro. Não um desastre, o que de algum modo teria sido melhor, menos inexpressivo, que um erro simples e facilmente retificável. Sua vida, porém, fora cheia de esperança, uma dádiva dos pais, de suas raízes. Sempre que havia esperança, havia o medo, o preço a pagar pela doçura. Conheceu todas essas emoções e as usou ou superou. Mas até Savannah aparecer, jamais conhecera nada tão incisivo e tão vital. Tão assustador. O vento mudou enquanto ele permaneceu ali sentado, e se intensificou, onde antes predominava a calma. Fazia balançarem as árvores e sussurrava por entre as folhas que deixavam entrar a luz do sol. Eles haviam chegado até ali. Os dois garotos de farda chegaram até ali.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Cada um querendo mais uma vez encontrar o lar. Escapar da loucura. O familiar. Encontrar mais uma vez a sensação e o sentido do lar. A continuidade da família, das pessoas que os conheciam e amavam. Talvez, de uma estranha maneira, por isso haviam lutado. Pelo lar. Que idiota fora ele, percebeu, e fechou os olhos. O vento se pôs a envolver folhas mortas e fazê-las rodopiar em volta. Os dois meninos jamais haviam tido uma chance, assim que escolheram seus caminhos. Mas ele tinha. O mesmo destino que condenara aqueles dois soldados tanto tempo atrás pusera Savannah e Bryan em sua vida. Em vez de aceitar isso, ele questionava. Em vez de regozijar-se, duvidava. Porque o que mais o assustava era aquele amor cegante. Um amor que lhe exigia proteger, defender, valorizar. E não pôde proteger a menina que Savannah fora, defendê-la contra os cruéis e insensatos golpes da vida quando ninguém mais ajudaria. Ela teve de enfrentá-los sozinha, sem ele. E, se necessário, continuaria enfrentando. Isso feriu seu orgulho. Portanto, era um idiota. Savannah, porém, não ia se livrar dele assim tão fácil. Ouviu uma agitação de folhas e, quando abriu os olhos, não teria se surpreendido se visse um jovem, soldado confederado, baioneta apontada, sair da h trilha. Em vez disso, viu Bryan, cabisbaixo, esmagando folhas com os pés. Teria rido dessa imaginação hiperativa se a pose do menino não fosse de horrível abatimento. — Ei, rapaz, que é que há? Bry ergueu a cabeça. O sorriso, um pouco mais cauteloso do que aquele a que Jared se habituara, esvoaçou pela boca. — Oi. Só saí para andar. Mamãe está atacada. — Eu sei. Está furiosa comigo. — Ela disse que você também estava furioso com ela. — Acho que sim. — Instintivamente, ele passou o braço em volta dos ombros do garoto. — Já superei. Quase, na verdade. — Ela não. — Pronto para um papo "de homem para homem" ele suspirou. — Me chutou para fora de casa. — Não brinca. Ela também me chutou! A idéia fez Bryan rir baixinho. Não acreditava que a mãe tivesse mandado Jared brincar do lado de fora. Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — A gente podia ir morar na fazenda até ela se acalmar. — Podia — disse Jared, pensando. — Ou eu podia ir até lá e tentar conciliar tudo. — Você consegue? Jared baixou os olhos e, pela primeira vez, viu preocupação no menino. — Na realidade, ela não está danada de verdade com você, Bry, está danada comigo. — É, eu sei. Consegue fazer com que ela deixe de ficar danada? — Espero. Quando você a aborrece, ela fica assim muito tempo? — Não. Não pode, porque... — o menino não sabia como explicar. — Simplesmente não pode. Mas ela nunca deixou um cara ficar assim junto como você, e por isso talvez fique danada durante muito tempo. — Ela nunca... — Ele se deteve. Era errado perguntar a uma criança. — Talvez seja melhor você me dar alguns indicadores. — Bem. — Bryan franziu os lábios pensando. — Ela realmente fica toda boba e não pára de mexer nas flores que você traz. Ninguém nunca fez isso antes, a não ser uma vez que eu trouxe umas no aniversário dela. Ficou toda prosa por causa disso. — Ninguém nunca trouxe flores para ela... — murmurou Jared. Ele não era apenas idiota. Era o campeão dos idiotas. — Nãão — continuou Bryan, ficando animado. — Ninguém nunca levou a gente aos jogos de beisebol nem para comer pizza, e ela também gosta disso. Desta vez, podia perguntar, porque era ao menino. — Ninguém nunca levou vocês aos jogos de beisebol nem para comer pizza? — Não. Quer dizer, eu ia com a mamãe, claro, mas não com um cara. — Bryan pensava no quanto gostava daquilo. — Ah, sim! E quando você a leva para jantar fora, ela canta no chuveiro. Ela era convidada e saía antes, mas nunca cantava quando estava se arrumando. Então talvez seja uma boa você convidá-la para sair. As meninas gostam dessas coisas. Jared pensou que haveria muitos jogos de beisebol, muitas pizzas, muitas saídas para jantar fora e muitas flores no futuro de Bryan e Savannah. — É, gostam. — Você sabe dizer algumas palavras de amor? — Como?

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Como no cinema — explicou Bryan. — Sabe como as mulheres ficam todas bobas com isso. Só que o cara também tem de ficar meio bobo para dar certo. Talvez ela goste disso. — Talvez. Bryan suspirou com a idéia. — Na certa, você vai pagar o maior mico. — Não quando a gente diz o que sente, O negócio é o seguinte, Bryan. — Jared afastou-se apenas o suficiente para olhá-lo de frente. — Imagino que eu devo dizer isto a você, pois tem sido o homem da casa há mais tempo. Eu estou apaixonado por sua mãe. Envergonhado, Bryan baixou o olhar. — Eu percebi que você estava a fim dela. — Não, estou apaixonado por ela. Vou pedi-la em casamento. — Sério? 275 — Muito sério. Que acha disso? Ele não estava pronto para se comprometer. Embora gostasse do forte abraço de Jared, se sentia meio sem graça. — Você ia morar com a gente? — Eu moraria com vocês e vocês morariam comigo. Mas tem uma condição. Era isso que ele temia. — É? Qual? — Vou pedir a você que use meu nome, Bryan. E me aceite como pai. Não quero apenas a sua mãe, entende? Quero vocês dois, por isso os dois têm de me querer. Bryan ficou um pouco nervoso com a declaração. — Você quer ser meu pai? — Sim, quero muito. Sei que tem se virado muito bem sem um até agora, e talvez eu precise de você mais que você de mim, mas acho que vou ser bom nisso. Os olhos do menino se esbugalharam. — Você precisa ser meu pai? — Preciso... ��� murmurou Jared, percebendo que raras vezes dissera palavras tão verdadeiras. — Preciso mesmo.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Eu ia ser Bryan MacKade? — Esse é o trato. Enquanto o menino hesitava, a cabeça de Jared rodava. Sabia que, se ele o rejeitasse, seria uma punhalada certeira no coração. Bryan, porém, não sabia bem como se faziam as coisas entre os homens. No entanto, sonhara muito, muito mesmo, com tudo isso. Assim, acabou acontecendo: abraçou o novo pai. Jared suspirou aliviado. Fume um charuto, pensou ainda tonto, você acabou de ganhar um filho. — É muito legal — disse Bryan, a voz abafada no peito de Jared. — Eu achei que você talvez não quisesse o filho de outra pessoa. Afetuosamente, Jared ergueu o queixo do menino. — Você não será o filho de outra pessoa. Vamos fazer tudo legalmente, mas é apenas um papel. O que realmente conta é o que existe entre mim e você. — Vou ser Bryan MacKade. Você vai convencer mamãe a topar, não vai? Vai conversar com ela e fazer que aceite? — Conversar é o meu trabalho. Furiosa consigo mesma por ter falado irritada com Bryan, Savannah destruiu duas ilustrações antes de admitir que eram mesmo imprestáveis. Ficou satisfeitíssima de ver a cara de ódio de Jared na fazenda. Agora se sentia desgraçada. Desgraçadamente furiosa, desgraçadamente frustrada. Desgraçada. Queria chutar alguma coisa, porém não tanto que descontasse nos dois gatinhos cochilando no canto da cozinha. Queria quebrar algo, mas, após uma frustrada busca na sala de estar, descobriu que não tinha nada valioso o bastante para satisfazê-la. Queria gritar. No entanto, não tinha ninguém com quem gritar. Até Jared cruzar a porta. — Não restou nem uma abotoadura sua aqui, MacKade! Está tudo no seu quintal! — Eu notei. Foi um espetáculo e tanto, Savannah. — Eu adorei. — Ela cruzou os braços e levantou o queixo. — Me processe. — Talvez ainda processe. Que tal nos sentarmos? — Por que não vai para o inferno? — Sente-se — disse ele, em um tom quase tranqüilo.

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade — Não me diga o que fazer em minha própria casa! — Savannah gritou. — Não me diga o que fazer, ponto final. Estou farta de você me tratar como uma garota de programa retardada. Não sou elegante... droga, não tenho diploma nem do ensino médio... mas não sou burra. Me saí muito bem na vida antes de você aparecer. E me sairei igualmente muito bem depois que for embora. — Eu sei. — Ele reconheceu. — É isso que me preocupa. E não acho você burra, Savannah. Ao contrário, acho que jamais conheci mulher mais inteligente. — Não me venha com essa lengalenga. Sei o que pensa de mim, e posso viver à altura do que pensa. — Sei que sim — ele concordou tranquilamente. — Acho que pode viver à altura de tudo que eu acho de você. Se você se sentar, eu direi o que é. — Eu digo o que tenho a dizer — ela rebateu. — Quer saber de mim, Jared. Vou falar de mim. Um presente de separação pelos bons momentos. Mas sente-se você — ela exigiu. — Tudo bem. No entanto, não é por isso que estou aqui. Eu não preciso saber... — Você pediu — disse ela, interrompendo. — Agora agüenta. Minha mãe morreu jovem, mas primeiro abandonou meu pai e eu. Não foi muito longe, apenas até o outro lado do curral, por assim dizer. Mais um caubói de fala mansa. Meu pai nunca superou, nunca perdoou. Também nunca me amou do jeito que eu queria que amasse. Não podia. Mesmo que tentasse, não podia. Eu não era uma menininha simpática e educada. Fui criada com dureza e gostava disso. Entende? — Savannah, por favor, se sente. Não precisa fazer isso. Enfurecida, ela avançou para cima de Jared. — Escute. Eu nem cheguei a começar, por isso simplesmente feche a matraca e ouça. Não tínhamos muito dinheiro. Mas também muita gente não tinha e se virava. Nós também. Ele gostava de correr riscos e quebrou um monte de ossos. Tem mais que esterco nos rodeios, mais que suor. Também tem desespero. Mas nos viramos. Tudo ficou um pouco mais interessante quando me brotaram seios. Os homens gostavam de olhar, ou dar uma apalpada. A maioria dos caras dos rodeios me conhecia desde criança, por isso não tinha muito problema. Eu sabia quando sorrir e quando usar o cotovelo. Nunca fui inocente. Do jeito como vivíamos, era melhor crescer sabendo das coisas. Jared não a interrompeu, porém continuou ali sentado em silêncio, os olhos inescrutáveis. As mãos dela estavam geladas. — Eu tinha dezesseis anos quando fiz sexo no feno. Não era inocente, mas virgem. Eu sabia, mas me permiti esquecer, porque... Porque ele era bonito,

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade charmoso e, claro, disse que ia cuidar de tudo. Ninguém tinha... — Ninguém tinha cuidado de você antes... — ele murmurou. — Isso mesmo, e eu era simplesmente jovem e idiota o bastante para acreditar nele. Mas sabia o que fazia, sabia o risco que corria. Assim, engravidei. Ele não me quis nem o bebê. E meu pai tampouco. Eu era como minha mãe, barata e fácil. Ele me pôs para fora de casa. Talvez tivesse mudado de idéia no dia seguinte. Tinha um temperamento explosivo. Mas eu não era barata, nem fácil, e queria o bebê. Ninguém ia tirar ele de mim. Ninguém ia me dizer que eu devia ter vergonha. Tentaram. Assistentes sociais, xerifes, policiais. Sempre que eles conseguiam me pegar, tentavam. Queriam me dizer como agir, como criar meu filho. — Não. O sistema é deficiente, Savannah. Porém, tenta fazer o melhor. — Eu não precisei disso. — Ela o açoitou com as palavras. — Arranjei trabalho e dei muito duro. Servi mesas, servi bebidas, limpei chão. Não tinha importância o tipo de trabalho, desde que pagassem. Bryan nunca passou fome. Meu filho nunca passou fome e sempre teve um teto. Sempre teve a mim. Sempre soube que eu o amava e que isso vinha em primeiro lugar. — Algo que você nunca teve. — Algo que eu nunca tive. Custasse o que custasse, eu ia dar uma vida decente a ele. Se isso significasse tirar quase toda a roupa e dançar para um bando de idiotas aos gritos, que diferença fazia? Não tive educação formal. Não tinha estudo. Se tivesse tido condições de cursar uma escola de arte... — Era isso que você queria? — Ele manteve a voz neutra, como faria com uma testemunha frágil ou muito tensa. — Cursar uma escola de arte? — Não importa. — Importa, sim, Savannah. — Eu queria Bryan. Tudo mais era secundário. Você queria saber sobre os homens. Houve alguns. Menos do que imaginou, tenho certeza. Eu não estava morta. Nunca recebi dinheiro deles, mas isso não faz muita diferença. O único motivo de não ter roubado foi porque, se fosse pega, podiam levar Bryan. Mas teria roubado se tivesse certeza de que ia me safar. Não sabia que podia vender minhas pinturas nas ruas até uma das meninas na boate me perguntar se eu faria uma dela para o namorado e me oferecer uma nota de vinte dólares. Foi quando tive a idéia de levar Bryan para Nova Orleans. Ela andava de um lado para outro na sala enquanto punha tudo para fora. De repente, parou, e falou mais devagar. — É só isso. Pelo menos, qualquer outro detalhe me escapa no momento. —

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade Voltou-se para ele, o rosto mais calmo e frio, agora. — Perguntas, advogado? — Você podia tomar outros rumos. — Claro. — Mais seguros — ele acrescentou. — Mais fáceis, para você. — Talvez. Eu não quis os mais seguros, nem os mais fáceis. — O que você queria, Savannah? O que você quer? — Não importa. — Importa. — Jared se levantou, mas não se aproximou dela. — Importa muitíssimo para mim. — Eu quero um lar. Um lugar onde as pessoas não olhem para mim como se eu fosse suja. — Tem um aqui. — E o tenho mantido. Embora tivesse de sacrificar o orgulho para perguntar, ele descobriu que não era tão difícil. — Você me quer? Tomada de surpresa, Savannah apenas o encarou por um momento. — Não se trata disso. — Então talvez eu deva perguntar de outro jeito. — Ele enfiou a mão no bolso e retirou uma caixinha que pusera ali antes de sair da fazenda. Após abrir a tampa, estendeu-a. — Vim aqui para lhe dar isto. O anel era um diamante simples, tradicional, com uma linda base de ouro. Hipnotizada, Savannah quase não acreditou no que viu. — Era da minha mãe — disse Jared, a voz embargada. — Passou para mim porque sou o mais velho. Estou pedindo que se case comigo, Savannah. Ela não conseguia respirar. — Não entendeu nada do que acabei de contar? — Entendi, sim, e sou grato por ter me contado, mesmo nessas circunstâncias. Assim, posso lhe dizer que amo o que você foi, é e será. Você é a única mulher que já amei, e é impressionante descobrir que admiramos muito uma pessoa quando a amamos. Savannah ainda estava ressabiada. — Eu não entendo você. Não entendo mesmo. Isso é algum tipo de vingança

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade porque arruinei suas roupas? — Savannah... — A voz dele era paciente agora. — Olhe para mim. Ela colocou o anel. As lágrimas caíam de seus olhos. — Oh, meu Deus. Você está falando sério! — Claro que sim. — Ele quase estremeceu de alívio. — Graças a Deus. Achei que ia atirar a aliança na minha cara. — Eu achei... que não me julgava boa o suficiente para você. O sorriso que iluminara o rosto dele se imobilizou. — Eu mereço isso? — murmurou. — Bondoso Deus, espero que não. Para mim, é difícil admitir. Sou um MacKade, e por isso não deveria ter medo de nada. Sou o MacKade mais velho, e espera-se que eu saiba lidar com qualquer coisa. Mas não soube lidar com o sentimento que tenho por você. Temia o que existia no seu passado, o que não me dizia. Achei que podia arruinar o que queria construir com você e Bryan. E parte de mim sentia medo... pavor, na verdade... de que você me jogasse fora como fez com aquela fotografia. — Bryan... Você quer Bryan? — Vou ter de me ajoelhar agora? — Não, não faça isso. — Ela enxugou as lágrimas, impaciente. — Eu não sei como lidar com essas coisas. Temia que... Parecia que... — Que eu não ia querê-lo, porque não fui eu que rolei no feno com você há dez anos? Não era isso. Talvez fosse isso por algum tempo. O orgulho atrapalha. O que mais me incomodava era pensar em você sendo machucada. Não dá para evitar querer voltar ao passado e salvar você, proteger você e Bryan. Entenda, eu queria tomar conta de você, dos dois, mas você simplesmente se saiu muito bem sem mim. — Teríamos nos saído muito melhor com você. estremeceram. Avançando, enxugou o rosto molhado dela.

As

emoções

o

— Esta é a melhor coisa que já me disse. A segunda coisa mais incrível que aconteceu comigo hoje. Ela conseguiu dar um sorriso. — Teve outra? — Quando conversei com Bryan na floresta, sentados ali nas pedras, onde os dois meninos se encontraram, tentando encontrar o caminho de volta ao lar. — É um lugar forte. — É. Não tão triste depois de hoje como era antes. Bryan me aconselhou Projeto Revisora

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Rainhas do Romance 07 – Nora Roberts – O Orgulho de Jared MacKade sobre como convencer você com afagos a não ficar danada comigo. Eu devia lhe trazer flores, o que farei, e convidá-la a sair, para que cantasse no chuveiro enquanto se aprontasse. Savannah deu uma pequena risada. — Ele é um falastrão. — Depois devia me aproximar com algumas palavras de amor, como no cinema. As meninas gostam disso, fiquei sabendo. — Acho que vou ter de passar a ficar de olho nessas meninas. Que bom que conversou com ele, Jared. — Não foi a melhor parte. Eu disse que ia pedir você em casamento e queria ser pai dele. Bryan me abraçou... — murmurou, comovido mais uma vez, por tudo. — Tinha muita fé em que eu convenceria você a aceitar. Espero não ter de decepcioná-lo. Ela se encostou nele, apoiando a cabeça em seu ombro. — Antes de responder à pergunta, é melhor eu avisá-lo logo. Não acredito em divórcios tranqüilos e civilizados. Se tentar se escafeder desse casamento, vou ter simplesmente de matá-lo. — Parece justo, desde que se aplique aos dois lados. — Jared enfiou a cabeça nos cabelos dela, e soube que voltava ao lar. — Ah, enjôo pela manhã e trinta e duas horas de parto talvez a façam desistir de tentar de novo. Ele lhe oferecia mais filhos. Oferecia um futuro! — Não seja bobo, MacKade. Sou mais durona do que você pensa. E, desta vez, vou ter alguém a quem xingar na sala de parto. — Quero estar lá a seu lado, por você, durante tudo, até o fim. Vai ter de aprender a precisar de mim. — Tarde demais... — ela murmurou. — Já sei tudo. — Use meu nome, Savannah, me aceite. — Savannah MacKade. — Fechando os olhos, ela o abraçou bem forte. — Acho que combina perfeitamente comigo.

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Nora roberts [mackade 2] o orgulho de jared mackade