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A minha antologia de poemas Neste período, a minha antologia vai ser de Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Bocage e Vergílio Ferreira. Os Erros A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a partir da página em branco Como escrita de poema obstinado? Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

A Forma Justa Sei que seria possível construir o mundo justo As cidades poderiam ser claras e lavadas Pelo canto dos espaços e das fontes O céu o mar e a terra estão prontos A saciar a nossa fome do terrestre A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia Cada dia a cada um a liberdade e o reino — Na concha na flor no homem e no fruto Se nada adoecer a própria forma é justa E no todo se integra como palavra em verso Sei que seria possível construir a forma justa De uma cidade humana que fosse Fiel à perfeição do universo Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"


Se é Doce Se é doce no recente, ameno Estio Ver toucar-se a manhã de etéreas flores, E, lambendo as areias e os verdores, Mole e queixoso deslizar-se o rio; Se é doce no inocente desafio Ouvirem-se os voláteis amadores, Seus versos modulando e seus ardores Dentre os aromas de pomar sombrio; Se é doce mares, céus ver anilados Pela quadra gentil, de Amor querida, Que esperta os corações, floreia os prados, Mais doce é ver-te de meus ais vencida, Dar-me em teus brandos olhos desmaiados. Morte, morte de amor, melhor que a vida. Bocage, in 'Sonetos'

Nada se Pode Comparar Contigo O ledo passarinho, que gorjeia D'alma exprimindo a cândida ternura; O rio transparente, que murmura, E por entre pedrinhas serpenteia; O Sol, que o céu diáfano passeia, A Lua, que lhe deve a formosura, O sorriso da Aurora, alegre e pura, A rosa, que entre os Zéfiros ondeia; A serena, amorosa Primavera, O doce autor das glórias que consigo, A Deusa das paixões e de Citera; Quanto digo, meu bem, quanto não digo, Tudo em tua presença degenera. Nada se pode comparar contigo. Bocage, in 'Sonetos'


Cai a Chuva Abandonada Cai a chuva abandonada à minha melancolia, a melancolia do nada que é tudo o que em nós se cria. Memória estranha de outrora não a sei e está presente. Em mim por si se demora e nada em mim a consente do que me fala à razão. Mas a razão é limite do que tem ocasião de negar o que me fite de onde é a minha mansão que é mansão no sem-limite. Ao longe e ao alto é que estou e só daí é que sou. Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Só nos Pertence o Gesto que Fizemos Só nos pertence o gesto que fizemos não o fazê-lo como, iludida, a divindade que em nós já trouxemos supõe errada (e não) por convencida. Porque o traçado nosso em breve cessa, para que outro o recomece e não progrida; que um gesto em ser gesto real se meça, não está em nós fazê-lo, mas na Vida. Assim o nada a sagra quando finda porque o que é, só é o não ainda. Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'


A minha antologia de poemas - 2º Período