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A VARREDOR DE CARCAÇAS A. D. FELDMAN

Créditos: Edição: A. D. Feldman Revisão: Geuid Dib JardimOswaldo Cogo Edição de arte, projeto gráfico, diagramação e capa: Kélia Cristina Botta FBN: 6513/00


A MÃO DIREITA (para J. D. Salinger)

A carne viva e cúmplice. Fiel e presente em todos os momentos. Até as mãos se cansam um dia. Se enrugam, perecem. Escravas de desejos controlados e que nos surpreendem. A mão direita sempre realizou mais que a esquerda. Ambas morrem juntas. A natureza não julga as justiças do fazer, somente do ser. Num ímpeto de cólera a mão direita pega uma faca e corta a sua gêmea sem piedade. A outra caída, mistura-se com o sangue que flui do braço como gotas de chuva. A direita atira a faca longe e tenta inutilmente aplaudir o que fez.

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A SUBIDA DE ELIAS Um dia todos se cansam. Não há mais ânimo e parece que os minutos são eternos. Facilmente chegamos a este dia. Todos as manhãs experimentamos um pouco deste estado. Hoje porém é o último de Elias. Elias acordou. Olhou à sua volta. Nada viu apesar da sala cheia de móveis e sonhos. Ergueu o corpo com dificuldade. Não que fosse velho. Tinha apenas trinta anos. Pensou em telefonar mas desistiu. Foi ao banheiro. Trancou a porta. Retornou calado. Sentou-se na cama. Admirou suas mãos. Foi à cozinha. Pegou uma faca e retornou para sua cama. Deitou-se novamente. Olhava o teto como quem imagina estrelas. Parou. Pegou a faca e num instante cortou um pedaço de sua coxa. Sem dor. Sem medo. Puxou os nervos para fora e jurou que não mais andaria naquele mundo. O sangue escorrendo pelo lençol refletia a luz quase-morta daquele quarto. Pensou novamente em telefonar. Desistiu.

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Cortou mais um pedaço de sua pele e começou a se devorar. A fome de si era muito grande. Mastigava suas fibras como um animal. Sem medo, sem dó tirou mais alguns nervos antes que desmaiasse. O telefone começou a tocar mas não mais haviam forças. O silêncio era sua última resposta. Quando a polícia chegou em seu apartamento o corpo já estava imóvel sobre a cama com apenas a perna esquerda e um sorriso de desdenho para com os que aqui continuam. Um jornal no dia seguinte misturou a reportagem sobre a morte de Elias com o lançamento de mais um ônibus espacial. “O morador do apartamento foi lançado em uma bola de fogo que pôde ser observada a quilômetros de distância do local.” A nota com a errata nunca foi publicada.

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AS NUVENS As nuvens eram as únicas que se moviam em toda a Avenida Paulista. Desafiando os prédios e as torres ousavam passar por entre eles com um ar de indiferença. Os policiais olhavam fixamente o trânsito. Uma senhora caída atraia olhares curiosos. Vendedores ambulantes gritavam as costumeiras frases sem sentido. Não tinham resposta. Continuavam gritando. As luzes dos carros estavam acesas, pois chovia. As águas nos pára-brisas eram o que de mais próximo tínhamos das nuvens. A imparcialidade devorava os pedestres. As poças d’água refletiam o céu cinzento e poluído. As luzes das ruas começavam a brilhar. Senhoras dentro dos apartamentos corriam para fechar as janelas. A chuva aumentava gradativamente. De repente um raio cortara os céus. Aquela claridade efêmera arrancava medo de dentro das lembranças mais íntimas. Os motoristas reclamavam que o rádio oscilava. Todos corriam. Inutilmente corriam. As nuvens eram as únicas que sempre voltariam mesmo que a Avenida não mais existisse, mesmo sem nada saber sobre todo o movimento daqui de baixo. 7


O CHEIRO DA GRAMA MOLHADA Fazia tempo que não chovia. O céu escuro durante o temporal trazia lembranças que passavam vagarosas. As gotas de chuva salpicavam na janela querendo entrar naquele mundo privado. Inutilmente escorriam. Os pensamentos se alternavam entre o medo dos raios e o estrondo do trovão. Quando garoto perguntava aos mais velhos de onde vinham as águas da chuva e por que os raios nervosos e cheios de ódio tinham de rasgar o céu daquele modo. Nada ouvia. Tremia no canto do quarto e rezava. A chuva pararia sempre dez minutos após seu pedido. Seu controle da natureza era perfeito. Uma comunicação infantil capaz de alterar fenômenos. Hoje tudo é diferente. Deus morreu. Um cientista de universidade conseguiu enterrá-lo definitivamente. Sem dúvidas e sem mais questionamentos. O enterro teve ar de cerimônia. Mas como era de se esperar, poucos compareceram. Ele não teve direito a nada. Apenas chuva.

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Ninguém trouxe outra coisa para substituir o que o cientista havia matado. Apenas a chuva. A chuva insistia em cair. Chovia todos os anos. Chovia sempre. O poder infantil deu lugar ao silêncio que hoje observa as gotas frenéticas pularem no vidro. Só as águas falam enquanto os olhos fixos no vazio esperam a chuva passar para sentir o cheiro da grama molhada que exala de todos os jardins.

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O CRUZAMENTO A ambulância pedia passagem com gritos que eram ouvidos a cem metros de distância. Os motoristas nervosos suavam tentando achar uma brecha naquela inundação de veículos. Os motores rosnavam sem parar. As pessoas se acumulavam nas ruas para ver o que acontecia mais adiante. Um policial tentava desesperadamente controlar o trânsito. Uma mulher que vinha da feira fazia o sinal-da-cruz. O rapaz do bar dizia limpando o balcão que aquilo já era normal. A ambulância berrava e o motorista gesticulava com as mãos para que o caminho se abrisse. O céu nublado não se manifestava. O sinal trocava de verde para amarelo e de amarelo para vermelho e vice-versa sem que os carros andassem. Alguns motoristas curiosos saíram dos carros para ver o carteiro que fora atropelado. As cartas manchadas de sangue espalhadas no asfalto eram o testemunho da barbárie. Um celular tocou perto do incidente e a mulher que o atendera descrevia a cena para uma vizinha do outro lado da cidade que naquele momento fazia um bolo. Os mendigos aproveitavam o espíri10


to de caridade e reforçavam suas esmolas com aquelas pobres almas que doíam pelo carteiro. O carro que o jogou tinha desaparecido. A senhora que vinha da feira disse que parecia um importado verde, enquanto o jornaleiro achava que era um jipe azul. As informações daltônicas pulavam de boca em boca sem que se chegasse a uma conclusão. A ambulância abriu caminho raspando o pára-lama do carro de um executivo que jurava que ia processar o estado. Os atendentes imobilizaram o quase-morto e o levaram para dentro do furgão. Enquanto confirmavam qual hospital poderia atendê-lo, um ônibus na rua transversal retirava vários espectadores e os levava embora. A confirmação veio. A sirene voltou a gritar por passagem. As portas da ambulância se fecharam. Um cachorro vagabundo que lambera o saco de cartas corria atrás dela. O bolo seria servido naquela mesma tarde. Os legumes e as frutas da feira estavam frescos. O velho pão com manteiga na chapa ainda era a melhor sugestão.

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O DESENHO DO PRATO A cozinha agitada indicava que havia gente naquela casa. Os meninos no terreno baldio ao lado ouviam o barulho das panelas enquanto corriam atrás de uma lagartixa. A filha sonhava enquanto a mãe enxugava as mãos no avental. O cheiro de comida impregnava os pensamentos. A menina lentamente era atirada ao passado. Lá brincava de realidade. Via o pai chegando cansado após mais um dia de trabalho árduo e repleto de desesperanças. Corria em sua direção para ganhar um abraço. Aquele abraço era uma fotografia na imaginação. O pai ajeitava o cabelo que caía sobre os olhos e agachava para receber o conforto. A justificativa para a existência se realizava ali. Três dias depois deste abraço o pai havia partido. Segundo sua mãe, um ser que ela não conseguia explicar o havia levado para muito longe. A única lembrança daquele dia foram as flores que enchiam a casa.

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De repente a mĂŁe ao seu lado colocava comida no prato e aos poucos tampava o desenho de rosas azuis. Novamente era possĂ­vel ouvir as vozes dos meninos. Pelos gritos a lagartixa jĂĄ deveria estar no mesmo jardim que o seu pai.

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O FILHO DE MÍRIAM Ela era jovem. Bonita. Quando ele a conheceu ela já carregava a vida em seu ventre. Apaixonada com o amor que só uma jovem sente. Havia se entregado ao que naquele instante tinha sido a eternidade. Ele nunca soube se era uma vida vinda do amor pelo inimigo invasor ou de dentro da comunidade. Não quis saber. Nunca soube. Ele quis Míriam. Ela o aceitou. O menino nasceu. O chamou de pai até os sete anos e depois nunca mais. Havia um desejo de preenchimento na palavra pai. O menino já rapaz e mais tarde homem sempre quis o pai. O pai era o amor de sua mãe. O pai era qualquer um na rua e ninguém no mundo. A solidão devorou sua alma corroendo seus sentimentos. O grito abalou a todos. A dor despertou os inimigos e a consciência. Hoje o filho de Miriam é conhecido em todas as esquinas: filho do amor que viveu no vazio da procura. Morreu injustamente. Não virou rei nem fez milagres. Pendurado com outros dois homens sem nomes deixou Míriam sem nada. Sua última frase foi dirigida ao pai

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que nunca experimentara. A mãe nunca dissera o nome. O não-pai estava esquecido. Ele era a única realidade. Três dias depois da execução a mãe localizou o corpo indo para o incinerador... As fábricas de morte da Europa funcionaram por vários anos durante a guerra. Hoje: o mundo respira o filho junto com o vento a procura do pai.

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O IRMÃO Noite quente de verão: quarto abafado. Suor. O tempo gruda nas paredes e passa tão lentamente que chega a ser percebido. Calado um homem pensa. Pensa se teria brincado com o irmão. Se teriam ido a algum parque juntos. Se teriam se gostado. Sido amigos ou rivais. O quanto teriam rido ou chorado. Ou teriam apenas um e não outro. Pensa e imagina o tempo escorrendo pelas paredes trazendo a figura de seu pai para junto dele no quarto. Conversando imaginativamente com um morto. O delírio da perda subia lentamente por suas veias já entristecidas com a cerimônia de sétimo dia. A partir daquele momento o mundo e o ambiente daquele quarto não mais seriam compartilhados e divididos por pai e filho. Sozinho. Pensava. A imagem do irmão era uma incógnita sem fim. Um labirinto sem entrada e um mar sem água. Há momentos que somos enganados por nossos desejos e devemos apenas dormir. O tempo se encarregará de nos trazer à superfície da existência mesmo que não desejemos. Ele pensava. Pen-

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sava no irmão. Imaginava repetidamente a mesma coisa: se teriam ido juntos a algum parque, se teriam sido rivais ou amigos, se teriam se odiado como somente irmãos se odeiam, se teriam divido com choros e lágrimas o mesmo pai, o mesmo quarto. Enquanto isso, o tempo escorria lentamente para o fundo do relógio que gritava com sons frenéticos que era hora de qualquer pessoa normal estar dormindo. Obedecendo às ordens, trocou rapidamente de roupa e se deitou. Chorou por dezoito minutos e adormeceu. A dor ficaria como ele, adormecida. Sonhou sonhos já sonhados e repetitivos. Quando acordou na manhã seguinte abriu os olhos com mais tranqüilidade. Ele nunca teve um irmão. Seu pai havia solicitado que a mãe abortasse devido ao risco que ela correra para ele estar ali. Tomou um copo de café requentado e foi trabalhar.

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O JARDINEIRO A morte é a melhor maneira de se conhecer um ser humano. O silêncio de um morto é a vingança pela indiferença. As faces de um velório retratam as pessoas de um modo tão explícito que seria inadmissível a eternidade. Um homem que gosta de ir a velórios não é necessariamente um necrófilo. Ele pode ser qualquer um. Imaginar o próprio corpo apodrecendo não é nada mais do que uma consciência extrema. Na esquina de uma praça com uma avenida que leva a um bairro classificado como nobre há um canteiro central. No canteiro há árvores e grama. Na grama objetos espalhados: latas, papelão e sacos pretos. O cheiro que exala das plantas é intimidado pelo odor de um homem que ali apodrece vivo. Carcomido pelo tempo cada instante é uma ausência. O mundo ao seu redor passa a oitenta quilômetros por hora e pára no farol a cem metros. A indiferença do sol e das pessoas queima suas entranhas já quase que totalmente debilitadas. Não há suor. Não há lágrimas. Só buzina quando o farol abre e alguém

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tem a ousadia de se distrair. Não consegue mais se levantar. As pernas já não o respeitam. Arrasta-se para perto de uma das árvores quando é obrigado a urinar. Os tornozelos feridos, ressecados e com vermes que saltam da pele raspam na grama gelada dando um instante de alívio. Dor. Alívio e dor se alternam como o passar dos segundos. Pesado para si próprio rasteja para voltar e sentar num colchão abandonado. Deita. Nunca mais acorda. Aquela foi a última vez que ele viu o sol. Três dias depois um jardineiro, desconfiado de um cão que corria para o canteiro central e voltava com sangue nos pêlos, encontrou o resto daquele ser. Após a remoção o jardineiro o acompanhou até ser enterrado. O canteiro foi limpo. Horrorizado, o jardineiro passou a roubar flores de túmulos e salas de velório para dar a qualquer um que ainda tivesse vida.

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O ÔNIBUS Era um dia quente. O ônibus abria caminho no meio do trânsito sem nenhuma piedade. Solavancos jogavam os sonhos dos passageiros para mais tarde. Naquele recinto ambulante cada um vivia um instante pessoal e distante. Estar lá era como não existir. O som de buzinas e a fumaça ficavam para fora da janela. A senhora bem idosa observava suas veias saltadas na mão enquanto lamentava a morte do marido. O cobrador escorregava em sua poltrona e contava o dinheiro das passagens como se fosse seu. Imaginara fugir com tudo, porém a imagem de uma santa ao lado do motorista continha sua idéia. Um senhor engravatado tentava ler um jornal. As letras frenéticas pulavam para dentro de seus olhos ao mesmo tempo que arrumava o bigode. Lá dentro ninguém tem nome. A cada minuto mais alguns metros são conquistados. Mais pensamentos são consumidos. Ao lado da porta traseira um rapaz murmurava numa língua indecifrável uma música bem animada. O ônibus pára de repente.

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Três senhoras sobem e cumprimentam o motorista, enquanto um garoto pergunta sobre o trajeto do ônibus. Uma moça sobe silenciosamente e senta atrás do motorista. Cada um experimenta no ônibus uma imagem insólita de si mesmo. Todos autônomos num transporte coletivo. Cada um indo para um destino diferente; todos no mesmo lugar. Somente o motorista está sozinho. Conduz em silêncio. Solitário. Olhando o mundo lá fora: um relógio no pulso de um pedestre, três moças atravessam a rua fora da faixa, um senhor passeia com o cachorro. Outro ônibus no sentido contrário refletia a insolubilidade da alma deste homem. O ônibus pára definitivamente. É o ponto final. Os passageiros descem. O cobrador fala com o fiscal. O motorista lança os documentos pessoais para fora da janela. Rasga o bolso da camisa. Pega uma arma. Aponta. Atira. O sangue escorre pelo vidro e cai na sua própria fotografia do lado de fora do ônibus.

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O PREGO O prego caiu de um caminhão. Pulou duas vezes antes de parar na pista central com a cabeça no sentido oposto ao tráfego. Conforme os carros iam passando o prego girava. Refletia a luz do sol. Brilhava com uma naturalidade perversa. Girava. Dançava no asfalto. Ônibus, caminhões, carros e motos desprezavam sua luminosidade. Silêncio. Veículos. Silêncio. Veículos. Estouro: um carro de passeio teve o seu pneu perfurado pelo prego. O homem que o guiava voltava para casa um dia antes do previsto para fazer uma surpresa para sua mulher e seu filho após semanas de trabalho. Tinha estado na frente do caminhão nos quilômetros iniciais, porém havia resolvido parar num posto para tomar um refresco. O prego tinha sido fabricado há semanas numa cidade vizinha e utilizado numa obra. No final fora colocado no caminhão para ser levado a outra localidade. O caminhoneiro estava guiando por todo o trajeto com a habilitação vencida. Além de ter tomado o suco, o homem também havia urinado. Comprara al-

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gumas flores. Entrara no carro, voltando à estrada para em vinte minutos ser abatido pelo prego. No acidente perdeu o controle da direção. Atravessou o canteiro central e bateu de frente em um caminhão com um container que vinha do exterior com materiais elétricos que seriam vendidos pela metade do preço dos materiais nacionais. Os veículos de emergência chegaram minutos após o desastre. Socorreram o motorista do caminhão que teve um corte na testa. O homem e as flores ficaram no canteiro oposto. Os curiosos observavam o corpo rasgado pelos estilhaços e ferragens enquanto outro prego caia daquele mesmo caminhão 30 quilômetros adiante.

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O PROFESSOR No intervalo entre dois pensamentos os desejos fluem sem medo. O planeta gira indiferente. Anoitece. As luzes das estrelas alcançam a retina trazendo um passado geometricamente morto. As estrelas nem mais existem, porém continuam a invadir os olhos. O silêncio noturno é rasgado por doses de barulhos que os carros e motocicletas fazem. Lentidão. A noite passa vagarosamente. Uma luz acesa no terceiro andar de um prédio residencial revela a insônia do professor. Sozinho. Calado. Fumando um cachimbo, observa o passar do tempo. Morosidade. Pedagogicamente analisa-se. Mãos, braços, expectativas, juntas. Pêlos, unhas, sonhos, pernas, dentes, paixões e ossos. Tudo é revisto como num teste. Passa outra motocicleta e o raio das rodas refletem a luz da rua. Gradualmente o planeta vai devorando o céu. Em instantes o sol aparecerá. Demoradamente preguiçoso. Ele vai até a cozinha, prepara o café. Bebe. Escova os dentes sem se olhar no espelho. Joga água nos olhos que brilham sem motivo. Veste

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uma camisa com bolso. A calça e o sapato de sempre. Pega uma caneta no pote ao lado da estante e parte para mais um dia. Se ele agüentar o tédio orbital cotidiano, conseguirá se aposentar em três semanas com honra e estrelas no currículo.

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O SACRIFÍCIO DE ISAAC O menino voltava para casa de mãos dadas com o pai. Chorando com tanta dor que a mãe até se assustou ao vê-lo. Ela nem sabia que os dois tinham saído. Ela agiu durante aquele período como se o mundo transcorresse normalmente. Foram as lágrimas que caíram em seus pés descalços que a deixaram sem compreensão. O pai calado nada disse. O silêncio só era quebrado por soluços que o menino dava nos intervalos entre um grito de medo e outro de desespero. Sarah pegou seu filho e foi até o canteiro olhar flores e pássaros enquanto o pai calado permaneceu em casa fitando o teto. O menino aos poucos ia se distraindo e o sal de suas lágrimas grudado na volta de seus olhos ainda refletia a luz do sol que se punha no horizonte. Ele poderia não estar mais lá. Poderia deixar de ser. Nunca mais ter visto o pôrdo-sol. Não ter mais sonhos. Ele poderia não mais sentir o vento em sua face. Não ver as flores nem paisagens. Nem nunca mais regar sua planta preferida no jardim. Contudo, o menino voltara para casa com

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uma ferida que seus filhos já não teriam de carregar: o vazio. Vazio que nos teria tragado para tão longe que hoje não estaríamos julgando a atitude do pai que já havia adormecido quando a mãe e o filho retornaram do jardim.

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O SONHO Terminou de escrever a última linha. Dobrou o papel. Jogou o restante dos papeis no lixo. Pegou um pincel reservado para as ocasiões especiais e assinou seu nome: Isaías. Fechou a porta que dava para um vestíbulo anexo. Tirou as roupas pesadas e adormeceu. Sonhou sonhos e memórias tão profundos que numa fração de segundos já era outro dia. Rezou. Foi até a porta certificar-se de que tudo estava bem como sempre. Rezou. Lavou as mãos e o rosto acariciando a face com uma tranqüilidade angustiante. Sentou-se à mesa. Rezou. Bebeu e comeu e rezou. Instantes passados no silêncio da mais íntima satisfação. Aguardou o mensageiro que chegou rasgando a porta, vindo do outro canto da casa. Pegou os escritos e correu para o seu ofício enquanto a irmã permaneceria em casa. Os escritos debaixo do braço não sabiam que só muitos anos mais tarde alguém desconfiaria de que houve dois escritores. Hanna sonhava com o futuro... inatingível... longe...

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O VARREDOR DE CARCAÇA Era segunda-feira, ninguém havia comparecido para preencher aquela vaga. O selecionador municipal aguardava sem nenhuma pressa. Arrumava o jornal sobre a mesa, tirava o pó do telefone que quando não berrava por horas era atendido como se um doutor estivesse sendo interrompido no meio de uma cirurgia. A fumaça do cigarro se misturava ao ar grosseiro do departamento e tornavase nítida com o filete de luz que trazia vida àquela sala morta. As poeiras dançavam ritmadas no vazio do ambiente, enquanto o selecionador coçava os fios do bigode pensando no almoço que sua mulher teria colocado na marmita. O tempo passava lento com o nada que acontecia. Os pensamentos daquele homem eram tão vagarosos quanto sua vida centrada na carreira pública, no deus comum e no futuro óbvio. A mediocridade era parte da alma deste ser moldado nas mais frias armas do século XX.

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Dois minutos após a seção ter sido aberta, um senhor magro com os olhos inseguros e com a pele retorcida pelo tempo entra calmamente na repartição. O jeito acanhado e medroso, submisso e brasileiro de um pobre que ainda tem respeito pelo significado da repartição é tão evidente quanto o descaso que ambos representam. O velhote pediu licença e perguntou sobre a vaga. O selecionador municipal o devorou com os olhos treinados para avaliar o maltrapilho perfeito para o cargo. Parecia ser esta a chance de promoção. Contratase um para ficar de joelhos para outro levantar o pescoço. Um ar de felicidade se ergueu sobre o setor. Explicou que o trabalho consistiria em pegar os sacos plásticos pretos e caminhar pelas rodovias, que são as artérias da cidade, retirando as carcaças dos cachorros abandonados e atropelados pelo destino. Assinou a ficha. Mas nunca registrou uma só carcaça e o uso de algum dos sacos. Com a reforma feita anos mais tarde, descobriram que o homem magro catalogado como revisor da limpeza urbana se alimentava do fruto de seu trabalho para sobreviver... 30


EU Quando esquecemos de nosso nome é que a liberdade se faz presente. Cansado da inação, levantei. Recusei-me a abrir a janela, pois a presença do sol se fazia indiferente à minha. Não troquei de roupa, apenas me despi. Abri a porta do quarto que já não era mais meu. Aquele ambiente seria lembrado pelos outros como um lugar estranho. Não me importava. Atravessei a sala cheia de móveis e sem vida. A televisão ligada fora do ar era a prova de que havia estado lá durante a noite. Não desliguei. Agarrei as chaves como um guerreiro segura sua arma. Abri a porta com consciência e força. Saí. Vi o hall do elevador vazio e gelado. Resolvi utilizar as escadas. Subi degrau por degrau. Andar por andar. Passo a passo. Até o momento em que percebi que não estava completamente nu. O relógio em meu pulso esquerdo mostrava a hora, os minutos, os segundos, o dia, o mês, o ano. Era quinta-feira. Chegando no último andar abri a porta que leva à cobertura. Uma brisa gelada com uma maciez violenta tentou me perturbar. Meus cabelos revelaram a velocidade dos 31


fatos enquanto voavam ao vento. Olhei para baixo e vi pessoas gritando e apontando para mim. Subi no parapeito. Vi os prédios vizinhos. Uma agitação marcava o momento. Meu coração acelerou. Olhei. Respirei. Tirei o relógio e o deixei no chão. Dei um passo... um frio na barriga... tudo muito agitado diante de meus olhos reparei que... se pulasse teria de dizer tudo muito rápido. Fui preso. Agora providenciaram uma calça, uma camiseta e um psiquiatra. Amanhã talvez possa voltar para casa. A policial que me acompanhou até aqui pegou minha identidade em casa e a trouxe para o doutor. Amanhã. Talvez amanhã quando ela devolver meu nome eu possa voltar para casa. Normal. Talvez.

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SÃO PAULO São Paulo. Quarta-feira. Um dia a mais, qualquer. Os despertadores já haviam tocado há pelo menos duas horas. Ruas e avenidas estavam cheias. Os motores exigiam combustível enquanto motoristas procuravam por algum espaço. Somos livres por isso acordamos cedo, vamos ao trabalho e você à escola, dizia um pai ao filho, inconformado com aquela lentidão. São Paulo é assim: imensidão de espaço comprimido. Tudo apertado. Tem de dar tempo. N’outro veículo um celular chamava desesperadamente por resposta. Um pedestre atravessava por entre os veículos sem medo. O sinal brincava e coloria a urbanidade. Uma secretária passava batom. Os olhos atentos ao trânsito. Dois minutos, cinco metros. Mais dois minutos mais metros. Aquela morosidade dos veículos era justificada a cem metros dali. Há dez minutos um motoqueiro e sua garupa caíram. Um caminhão qualquer teria sido um possível responsável. Sirenes gritavam por uma brecha. Policiais apitavam com furor. Mas era tudo inútil. O sangue no asfalto começava a coagular. Os olhos parados 33


nada mais viam. As buzinas imploravam por lugares inexistentes. Um a um os carros passavam pelos corpos como num velório. Diferentes reações em cada face, muitas vezes nenhuma. Os apitos frenéticos tentavam apressar as reverências. Um menino via os dois abraçados. Um executivo continuou fazendo a barba para ganhar tempo. Todos queriam sair dali. Os sonhos não podiam se perder naqueles minutos. Não choveu naquele dia.

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Kéli Ci ti l tô i ã di áfi j t

sensibilidade e perspectiva em palavras e situações típicas das grandes cidades, somos atirados diante de um espelho cujo reflexo dependerá exclusivamente de detalhes que devem ser apreendidos durante a leitura. A responsabilidade de cada um e a culpa vêm à tona através de referências bíblicas que adotam pontos de vistas e cenários diferentes da leitura tradicional. E, por fim, a psicologia de cada personagem é construída dentro de uma técnica que utiliza o mínimo de palavras possível, fazendo uso da situação vivenciada, deixando sua construção final para o leitor.

B tt

Misturando o cenário paulistano frenético e anônimo a elementos judaicos bíblicos e modernos, os contos refletem uma urbanidade caótica da vida em sociedade. Personagens sem nomes, profissionais, transeuntes e motoristas tentam vencer o tempo, o vazio e a própria cidade para realizar seus desejos banais ou devaneios mais íntimos. A frieza e a indiferença são marcadas por saídas violentas que levam o leitor a uma reflexão mais profunda do significado da modernidade trazendo para a ficção um cotidiano comum e muito rápido. Transformando a crítica à falta de

A d feldman o varredor de carcaças  
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