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Recordações do futebol de Vitória

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PEDRO J. NUNES

Ivan Borgo foi diretor e conselheiro do Rio Branco AC. Foi também professor da UFES. É membro da Academia de Letras do Estado e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Publicou textos acadêmicos, livros de crônicas e de contos. Nasceu em Castelo, mas sua família é originária de Araguaia-ES. Morou em Campinho e mora em Vitória desde os anos quarenta.

Capa: Centro de Vitória – maio de 1950 / LUIZ EDMUNDO APPEL

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Puxar pela mem escritas suas recordaçõe de generosidade para c É que assim uns restar estando entre nós, se ve a própria versão dos f que já se foram. (Getúlio M

ISBN 978-85


Recordações do futebol de Vitória


3a edição

Cultural-ES Vitória, ES 2015


© 2015, Ivan Anacleto Lorenzoni Borgo. Todos os direitos são reservados. Proibida qualquer reprodução sem autorização do autor.

edição e arte | Caco Appel revisão | Reinaldo Santos Neves e

Pedro J. Nunes

gráfica | Formar

3a edição | 300 exemplares

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B734r Borgo, Ivan Recordações do futebol de Vitória : visões impressionistas do futebol e suas circunstâncias na Vitória dos anos 50/60 / Ivan Borgo. -- 3. ed. -- [rev. e atual.], Vitória: Cultural-ES: [Tertúlia], 2015. 126 p. ; 21 cm. ISBN: 978-85-99380-27-7 1. Crônicas brasileiras. 2. Futebol – Crônicas – Espírito Santo (Estado). I. Título. CDD B869.852 CDU 869.0(81)-94


Prefácio RECORDAÇÕES DO FUTEBOL DE VITÓRIA

O

futebol capixaba era importante. Conheceu embates memoráveis e atores inesquecíveis. As tardes de futebol na cidade eram imperdíveis, e alguns jovens não perdiam mesmo. Entre eles, o jovem Roberto Mazzini, que depois se tornaria cronista e narrador da imigração italiana no Espírito Santo. E que em conversas com Ivan Borgo, que, como ele, frequentava os matchs, veio recuperando da memória pessoas e acontecimentos que à altura lhe fizeram indelével impressão. Ambos cresceram, Roberto e Ivan, e suas impressões se confundiram por entre esses enovelados obscuros que viram páginas literárias. Já contadas por duas vezes por Roberto Mazzini, nas edições que delas fez publicar o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, da terceira vez que vêm a público foi Ivan Borgo quem assumiu a empreitada de revelar a nós, que não os vivemos, as impressões que lhe ficaram daqueles dias. O futebol, no caso, é pretexto do autor para rememorar. Mas atenção, o fato de as memórias serem


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contadas tendo por base o futebol só atesta a importância que este tinha para os jovens da época, e para o autor em especial, torcedor ilustre do centenário Rio Branco Atlético Clube. De que, aliás, foi diretor nos idos dos anos 50, que é onde inicia o percurso do seu esforço de relembrar. Esmiuçando mais: é que além da paixão que o futebol desperta em nós, brasileiros, eram as partidas “um dos poucos itens de lazer da cidade, naquela época”. Memórias lúdicas, pois calcadas em situações de lazer (é a visão de “um jovem”, adverte o autor), as lembranças fazem parte “daquela cidade” de Vitória. Eis aí o interesse que despertam no público em geral estas recordações de Ivan Borgo. Crônicas daqueles dias, por quem esteve lá. Longe de nos trazer um registro de glórias, ainda que relativas, dentro do campo de futebol, estas linhas dão vida a uma cidade que não existe mais, com a mentalidade da época, os costumes, as personagens. Sobretudo as personagens. E que tipos interessantes de vitorienses (ops, vitoriense aqui é o natural de Vitória, não o torcedor do mais antigo clube de futebol da cidade, mesmo havendo alguns interessantes, vá lá, nas hostes alvianis), em que se misturam nas arquibancadas o homem do povo e os que futuramente­

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despontariam na vida pública, todos irmanados no mesmo amor – no mínimo, o mesmo interesse – pelos encontros em torno do então chamado “esporte bretão”. Memórias podem ter um interesse limitado para o público comum. Não neste caso, em que o autor acrescenta ao estilo refinado suas agudas observações sobre as pessoas, torcedores ou não, e não deixa de fora sequer o bispo! E que perfis interessantíssimos de torcedores, “amigos” e “inimigos”! Como deviam ser animadas as tardes de futebol no Estádio Governador Bley, quase um quintal da casa do autor... Então Vitória cresceu, o Estádio Governador Bley foi tirado do Rio Branco, que acabou exilado em outras plagas, o Santo Antônio foi extinto, dos trilhos da estrada de ferro despontou uma outra agremiação vitoriosa, os jovens torcedores cresceram, a vida seguiu. Puxar pela memória, traçar em linhas escritas suas recordações, não deixa de ser um ato de generosidade para com os contemporâneos. É que assim uns restarão eternizados; outros, estando entre nós, se verão desafiados a contar a própria versão dos fatos, revivendo tempos que já se foram. Ganhamos

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todos, e ganha a historiografia capixaba por contar com esta crônica de costumes que, como as melhores no gênero, nos revela o palpitar da vida da cidade, como era então. Ah, e tem também, de quebra, a narração de memoráveis matchs do futebol capixaba. O futebol capixaba que, para aquele jovem na arquibancada, atento a tudo, era tão importante. Getúlio Marcos Pereira Neves da Academia Espírito-santense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo

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PARTE I

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DE “COMPACTOS”

A saudade sempre nos permite elaborar uma espé-

cie de “compacto”. O jogo da vida pode ter a duração do “tempo regulamentar”, mas esses “compactos”, em geral, não passam de poucos minutos. Há os que se impacientam quando uma pessoa de mais idade começa a falar dos “bons tempos”. Se lhes fosse explicado que se trata de um mero “compacto” em que são eliminadas as bolas fora, os tiros de meta, etc., enfim lances que podem ou devem ser esquecidos, talvez fossem mais indulgentes.

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RIO BRANCO

Feito o necessário nariz de cera, passo ao assun-

to que surgiu numa conversa com o Miguel Depes Tallon: o futebol de Vitória “naquele tempo”. Começo com uma determinada lembrança do meu time, o Rio Branco. Em 1952, vejo-me como membro da diretoria do Rio Branco presidida por Alaor de Queiroz Araújo, mais tarde reitor da Ufes. Mas a memória mais antiga do Rio Branco vem de 1946, talvez porque me tenham perguntado sobre glórias do futebol capixaba e fui tentando encontrar louros de antigas batalhas em imaginários baús quase esquecidos. Seja também explicado antes de tudo que não sou um conhecedor da história do nosso futebol – como um Grijó Neto – e estas notas têm sobretudo um nítido cunho impressionista. Detalhes podem estar desfocados, mas, no conjunto, creio, fica um painel que procura revelar certos episódios, frise-se, na visão de um determinado espectador. Mas por que 1946? Recordemos. Nesse ano o Fluminense do Rio havia conseguido um título inédito no futebol brasileiro, o de supercampeão. Hoje em dia são fabricados supercampeões em série (releve-se o saudosismo). Mas o supercampeão de que

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vos falo possuía craques como Ademir Menezes, o Queixada, o Orlando Pingo de Ouro, Rodrigues, o ponta-esquerda que tinha um canhão nos pés, Pedro Amorim, o médico jogador, e outros astros de semelhante quilate. Num momento de extrema audácia, o nosso Rio Branco resolveu desafiar esse Fluminense, supercampeão de 1946, para uma partida no Estádio Governador Bley, em Jucutuquara. Nessa época eu morava a uns duzentos metros do Estádio. Pode-se calcular a alegria de quem apenas podia imaginar os lances de seu time no Rio através do rádio, em especial pelo Oduvaldo Cozzi – também tricolor – e que de repente via a possibilidade de ver as jogadas desses supercraques, ao vivo e a dois passos de sua casa. Mas nesse momento instalou-se também uma espécie de conflito cultural. Como torcer contra o Fluminense apesar de todo o meu amor pelo Rio Branco? Nesses casos, a província se divertia e, sádica, aguçava o dilema. E agora? Sinceramente? Na hora do jogo torcia para os dois. Como? Torcia para quem estivesse no ataque. Mas quando o Fluminense fez 2 x 0, passei a torcer apenas pelo Rio Branco. A verdade é que toda minha flama provinciana não foi capaz de deter a

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a­ dmiração pelo futebol do Ademir. O Queixada era um bólido que partia de seu campo e parecia deixar um rastro de fumaça em sua vertiginosa escalada em direção ao gol. Na meia-esquerda, o Orlando Pingo de Ouro produzia filigranas, trabalhando jogadas da mais pura ourivesaria do “esporte bretão”, como era denominado o futebol nos discursos de antigas solenidades esportivas. Como ignorar isso em nome da fidelidade ao time da terra? Um doloroso dilema parcialmente resolvido apenas no final do jogo, que terminou mesmo nos 2 x 0 para o clube carioca. A solução veio de riobranquenses como Ruy Benezath, que não eram torcedores do Fluminense. Ou eram? Fica a dúvida. O que importa é que nos descobrimos relativamente satisfeitos porque o Rio Branco havia perdido apenas por 2 x 0. Esperava-se uma goleada e aquele placar reduzido passou a ser uma espécie de vitória moral. Não é preciso acrescentar que, salomonicamente, embora com um leve ­traço de remorso, passei também a comemorar nossa ­modesta derrota.

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O ADOLESCENTE E A VISÃO

Isso

afinal mostra que certas glórias dos bons tempos não foram sempre tão deslumbrantes, pelo menos até onde alcança minha memória. Tínhamos plena consciência de que não podíamos nos alinhar com os deuses olímpicos do futebol carioca. O exemplo mais acabado dessa condição não foi o ocorrido nesse jogo do Fluminense, mas com um time do F ­ lamengo que apareceu por aqui em meados dos anos quarenta. Ao falar desse time não sei se estou falando de um time de futebol ou de uma ficção, de um punhado de heróis gregos que vai à caça do gol como quem vai pegar o velocino de ouro com o descansado gesto de rotina de apanhar a marmita do almoço. Vejam a linha média: Biguá, Bria e Jaime. Bem mais tarde, cerca de uma década depois, o Brasil se sagrou campeão do mundo mas na memória dos que assistiram àquele jogo aqui em ­Vitória, permanecerá sempre a dúvida se aquele time do Flamengo não deixava a anos-luz de distância a própria seleção canarinho de 1958. Falei de linha média, mas isso é de uma indesculpável trivialidade. Tratava-se de um trio de gigantes que não apenas dava condições para tornar inexpugnável a chamada última ­ cidadela,

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como também fazia razias mortíferas no terreno ­adversário. Biguá era um gigante de um metro­­­e sessenta e cinco, se tanto. Um indiozinho atarracado que parecia um desses personagens de história em quadrinhos, o “homem elástico” ou equivalente. Qualquer bola vinda em sua direção era alcançada por sua perna gigantesca. Na lateral esquerda, o Jaime. Pensem num jogador extremamente leal e que diante do adversário parecia pedir-lhe desculpas antes de tomar-lhe a bola. Com um detalhe: tomava todas, aceitasse ou não o adversário seu educado pedido de desculpas. Se não me engano, esse Jaime é o pai de um treinador do mesmo nome que trabalhou aqui em Vitória há algum tempo: Jaime de Almeida. Era a época do centeralfe. No campo de batalha ele era o estrategista que, além de exercer uma função defensiva, comandava o ataque às hostes inimigas. O centeralfe era o indiscutível proprietário do meiode-campo e parecia haver uma espécie de consenso entre os litigantes quanto ao respeito ao território sagrado compreendido em seus domínios. Sabe-se que as táticas atuais profanaram esses domínios e chegaram à extinção do centeralfe, cujo correspondente, no jogo moderno, não consigo identificar­­­. Deve ser um burocrata da bola, um homem de terno cinzento

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que nada tem a ver com aquele nobre personagem protegido pelas normas de um código invisível que lhe concedia­­­o grau de cavalheiro na hierarquia futebolística. Quem não se lembra do Veraldo do Vitória, Rafael do Caxias, João Pedro do Rio Branco? Todos verdadeiros senhores feudais, muito cônscios da responsabilidade que lhes era delegada: administrar seus domínios com sabedoria, em nome da beleza do futebol. A culpa pelos gols perdidos jamais podia ser atribuída aos centeralfes. As falhas ficavam por conta dos beques ou do infeliz goleiro. No centro do campo eles pairavam acima do bem e do mal. Também não eram culpados por não fazer gols, tarefa dos atacantes. Sempre que os perdiam os tais atacantes seriam apenas desastrados emissários que não cumpriam adequadamente as missões propostas pelos inatacáveis centeralfes. Esta longa introdução ao papel do antigo proprietário do meio de campo serve apenas como referência ao maior de todos que já vi jogar em minha vida: Bria, desse mesmo time do Flamengo que veio jogar em Vitória nos anos quarenta. Pode ser que a fantasia de meus olhos adolescentes contribua para exacerbar essa lembrança, mas é difícil alguém me convencer que, naquele jogo, se quisesse, Bria não poderia dar saltos de três metros

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de altura, e até mesmo alcançar a marquise do Estádio. Uma atuação fantástica e que fica como um dos momentos inesquecíveis em minha trajetória de espectador. A linha de ataque desse mitológico time do ­Flamengo? Bem, meus caros, “compacto” à parte, declaro que vi Zizinho jogar. Para Zizinho, o campo era uma folha de papel milimetrado onde ele desenhava dribles invisíveis. Fala-se muito, com inteira justiça, nos fenomenais dribles de Garrincha. Mas havia nos dribles do legendário extrema um toque de comediante com suas infalíveis escapadas pela direita. Com Zizinho o espetáculo ficava por conta de uma inexplicável mágica de esconder a bola durante um drible milimétrico. Mas a razão sempre imperava e, no traçado das coordenadas cartesianas, seu passe era meio caminho andado para o gol. Enfim, Zizinho encarnava um mágico que não usava truques e isso enriquece a condição humana na medida em que um portador dos tradicionais cinco sentidos nos aponta uma insuspeitada possibilidade de superação de triviais limites. E assim foi porque me pareceu.

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UM GÊNIO DO FUTEBOL

Mas nessas recordações do futebol de Vitória há

também o cruel, o épico e o trágico. Lembro-me de um jogo do Vasco da Gama, “Expresso da Vitória” ou pelo menos com alguns vagões dessa locomotiva que arrasava os demais times cariocas. Havia o zagueiro Rafanelli, uma espécie de paredão, um Evereste em cujo sopé os ataques inimigos se desfaziam como ondas na praia. Ely, o Príncipe Danilo e Jorge na linha de alfes. No ataque, Maneca e Chico, mas, principalmente, Heleno de Freitas, o épico e o trágico. Nos dias anteriores ao jogo havia chovido muito e continuou chovendo no domingo de manhã. Pela tarde o sol apareceu mas o campo estava todo enlameado. Grandes poças d’água nas linhas intermediárias mostravam um precário sistema de drenagem. Entra em campo a equipe cruzmaltina com aquela faixa diagonal na camisa. O time vinha completo. Aos trinta minutos do primeiro tempo o placar já mostrava três a zero para o Vasco. Uma superioridade esmagadora. Os jogadores de ambos os times pareciam egressos de um festival de lama. Difícil até distinguir os respectivos uniformes. Com uma

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e­ xceção: Heleno de Freitas. O uniforme do centro­ avante permanecia imaculado. Havia uma razão para isso: ele estava em campo, mas não participava do jogo. Nos cruzamentos de bola sobre a área, se essa caísse numa das inúmeras poças da intermediária, ele simplesmente parava e deixava que o adversário a tomasse, pulava por cima da poça para não molhar as chuteiras e os pés. Os cabelos glostorados – como se dizia – continuavam também penteados. Enfim, Heleno simplesmente não tomava conhecimento da partida. Como os demais jogadores vascaínos continuavam fazendo jogadas inéditas para nossos olhos provincianos, Heleno passou despercebido. Afinal seus companheiros continuavam a marcar gols na meta do time conterrâneo. Veio o segundo tempo e as coisas permaneceram no mesmo ritmo embora o Vasco não se interessasse mais em fazer gols. Limitava-se a deixar o tempo passar, construindo jogadas com todos os enfeites do repertório de seus craques, mas Heleno continuava o mesmo ausente do jogo e seu uniforme permanecia limpíssimo. Recusava-se a jogar. Era um lorde inglês no meio de enlameados proletários da bola. Conformada com o resultado da partida, a

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torcida se limitava a apreciar a beleza do espetáculo proporcionado pelos craques do Vasco, sem se ­manifestar. Mas em dado momento, alguém começou a se irritar com a displicência de Heleno e começou a surgir, a princípio tímido, um coro que gritava “Gilda...Gilda...”. Os torcedores sabiam que Heleno não gostava nem um pouco desse apelido que punha em dúvida sua masculinidade. “Gilda...Gilda...” e logo o coro se tornou bem forte, concentrando toda a frustração da torcida pelo esmagador placar e pela superioridade técnica que o Vasco impunha ao time da casa. No princípio Heleno pareceu não se incomodar, mas foi por pouco tempo. Quando o coro se tornou ainda mais forte, Heleno levantou o queixo para a arquibancada numa atitude de desafio. O estádio quase veio abaixo com os gritos de “Gilda... Gilda...”. Alguns segundos depois, Heleno pareceu, afinal, tomar conhecimento do jogo e viu o pontadireita esticar uma bola para o centro. Pela primeira vez ele entrou na inevitável poça d’água da linha intermediária. Mas não passou dali. De onde estava, numa posição anterior à meia-lua da área, desferiu potentíssima cabeçada. Um petardo que entrou com extrema violência no canto direito do gol. O goleiro

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ficou absolutamente parado e perplexo com a velocidade do lance. Até prova em contrário, tenho para mim que esse foi o maior gol de cabeça da história do futebol. O que aconteceu depois? A torcida não teve alternativa: para honra e beleza do espetáculo, calou o coro de “Gilda” e aplaudiu bastante o lance extraordinário­­­. Heleno? Simplesmente continuou a pular sobre as poças d’água até o final do jogo, saiu com o uniforme limpo e a única marca de sua participação na partida foi o cabelo levemente despenteado. Aliás, em homenagem a esse gol, é melhor não entrar no trágico do destino desse jogador excepcional, de temperamento muito difícil. Neste momento, permaneça a lembrança desse lance de um gênio do futebol.

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AQUELE JOGO DA SELEÇÃO CAPIXABA

Mas, e as glórias? Será que não existiram? Preci-

so avisar que estas recordações coincidem com uma fase de grande crise no futebol capixaba. Foi a época em que o Rio Branco ficou sem o Estádio Governador Bley e teve até que mudar de nome, passando a chamar-se Riobranquinho, vejam só. Voltou a chamar-se Rio Branco A. C. alguns anos depois, quando também pôde reaver o Estádio, construído com muito sacrifício pelos associados daquele tempo. É verdade que no período em que assistia a futebol em Vitória, entre os anos quarenta e sessenta, falava-se de uma época anterior muito feliz de nosso futebol. Não sei se se trata de referências às invariáveis idades de ouro da história de todos os povos e que correspondem apenas a uma conhecida necessidade psicológica, sem relação com os fatos. Não sei. Falava-se de muitas glórias e de grandes craques. Não duvido. Apenas não sei. Limito-me a escavar as glórias do meu próprio tempo como espectador. Talvez não muito retumbantes. Mas são as que a memória torna disponíveis. Naquele dia aguardávamos ansiosos o trompete do Harry James que anunciava o programa

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“­Focalizando os Desportos” na Rádio Espírito Santo. Um programa apresentado pelo Mickey, dublê do jogador Darly, excelente meia-esquerda do escrete capixaba. Aguardávamos a descrição da façanha de nosso selecionado em terras estranhas onde havíamos derrotado o time dos temíveis papa-goiabas, os fluminenses. Adolescentes ilhados em Vitória, imaginávamos esses papa-goiabas travestidos de ferrabrases então subjugados pela perícia de nossos craques. Ainda mais, esses nossos inimigos, ora derrotados pelo arrasador placar de 2 x 1, moravam em Niterói, uma cidade que, em nossa imaginação, aparecia como uma espécie de Nova Iorque. Claro, esses nossos adversários deviam viver como nababos naqueles arranha-céus que seriam gigantescos. Não trabalhavam. Viviam de jogar futebol, o que na época não era nada recomendável. “Nossos rapazes”, como eram chamados pela imprensa, nossos humildes rapazes, ao contrário, não eram assim. Trabalhavam de sol a sol. Treinavam ao clarear do dia para pegar no batente às oito da manhã. Mesmo assim, nossos heróicos rapazes haviam infligido essa acachapante derrota aos nababos fluminenses, desprezíveis profissionais da bola. Argh. No domingo seguinte, seria a revanche no

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­stádio­­Governador Bley. Para os papadores de E goiaba, bem entendido. E o domingo veio. Estádio repleto. O orgulho da terra pelo seu escrete explodia nos risos de todos, sentíamo-nos mais conterrâneos do que nunca. Entra em campo a representação fluminense. “Papa-goiaba”, “Papa-goiaba”... nós, da camisa 12, procurávamos fazer a nossa parte a fim de minar a autoestima dos inimigos. Afinal, ali estavam os ferrabrases, os argentários, pretendendo vingar a derrota que lhes impusemos em seus próprios domínios. Pois sim. No calor das manifestações das hostilidades – uma hostilidade esportiva, e os aficionados sabem do que estou falando – fazíamos espaço para observações. Para falar a verdade, a maioria daqueles jogadores era de estatura bem menor do que imaginávamos e ao invés de bíceps hercúleos muitos deles traziam a marca de um quase raquitismo. Não importava. Eram nossos inimigos e seriam massacrados (na bola, é claro). Uma figura se destacava entre eles. Era um jogador depois identificado com Cliveraldo, ponta -esquerda do selecionado fluminense. Para espanto de todos, esse jogador tinha entrado em campo simplesmente com a perna esquerda totalmente

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enfaixada­­­ em gaze. O que foi, o que não foi. Ficou-se sabendo que o jogador havia se machucado no jogo anterior com o nosso escrete. Imediatamente formouse um c­ onsenso de que a contusão havia sido acidental ­porque “nossos rapazes” seriam incapazes de machucar alguém de propósito. Isto é, numa fração de minuto, todo o estádio, embora sem informações prévias, concluiu que a contusão se dera num lance da maior casualidade. Ora, se assim era, pensando bem, aquilo até que representava uma vantagem para nós. Não sendo culpados pela contusão, só nos restava aceitar a vantagem inesperada. Ia acontecendo isso no jogo. Até os trinta minutos do segundo tempo, Cliveraldo, o ponta-esquerda de perna enfaixada, cumpria o seu papel de inválido com espaço privilegiado para assistir ao jogo. Arrastava-se pela extrema esquerda do campo como uma tartaruga conformada. Mas por volta dos trinta e cinco minutos do segundo tempo, a tartaruga vestiu uma roupa de lebre e todos nós prendemos a respiração porque ia se materializando uma leve suspeita que, desde o princípio, nos incomodava: aquela faixa na perna não seria mero embuste, um truque, para nos enganar, uma traição ignominiosa?

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­ liveraldo corria pela ponta como se tivesse nos pés C as asas de um lépido Mercúrio. “Infame, traidor”, era um pensamento tão unânime na arquibancada que quase podia ser tocado com as mãos. Nos segundos em que tais coisas aconteciam, Cliveraldo acelerava mais a corrida com a bola dominada até que do bico da área d ­ esfechou um canhonaço histórico. A bola-bala descreve uma curta e descabida parábola e, em cima do gol, caprichosa, despenca como uma folha seca. Goleiro batido, já que havia se jogado para o canto errado, enganado pela trajetória da bola temperada com um veneno mortal (também não sei se o chute saiu assim por acaso), só nos restava erguer lamentos aos céus. Mas não foi nada disso. No último instante, como se também estivesse revoltado contra as transgressões à lei da Física perpetradas pelo chute que muitos diriam desengonçado, mas nós considerávamos traiçoeiro, apareceu, não sei como, o ângulo de junção das traves do canto direito que deu um quique na bola jogando-a pela linha de fundo. Perplexos e felizes vimos a bola morrendo no fundo do campo, talvez aliviada por não participar daquele conluio com o falso inválido. Falso? Talvez não fosse fingimento porque após aquela ­corrida

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que durou alguns segundos, mas para nós teve a duração de um século, o Cliveraldo caiu pela lateral do campo e parecia, como se ouviu, “completamente falecido“. Os dirigentes do selecionado fluminense foram até lá e trouxeram o Cliveraldo nas costas porque naquele tempo ainda não era usada a maca. Nova farsa? Tivemos a certeza que não, porque dali a poucos minutos o jogo acabava com nossa vitória por um a zero. Foi assim que, com duas vitórias consecutivas, eliminamos­­­os terríveis papa-goiabas, aqueles que viviam à tripa forra, ganhando salários astronômicos e morando em arranha-céus de luxo, como era maquinado pela nossa fértil imaginação. A comemoração varou a madrugada e os bares do Guaracy e do Heráclito, em Jucutuquara, venderam cerveja como nunca. No mês seguinte o Vitória contratou o ponta-direita desse mesmo selecionado fluminense, de nome Heitor. A partir daí fomos obrigados a fazer uma revisão histórica, como está em moda hoje em dia. Heitor, ex-atacante do facinoroso escrete fluminense, na verdade, em sua identidade secreta, era uma excelente pessoa que se casou com uma moça de Jucutuquara onde foi morar, na rua Augusto Calmon, e passou a fazer parte de nosso grupo que

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ficava­­­batendo papo na beira da antiga vala até altas horas da noite. Claro que durante algum tempo foi obrigado a aguentar nossas brincadeiras mas a tudo respondia com sorrisos e uma calma de sábio. Não demorou a ser um dos nossos.

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OS MINEIROS

A sequência de jogos nos remete aos adversários

seguintes no Campeonato Brasileiro de Futebol: os mineiros. Passado tanto tempo, o garoto que mora em minha lembrança não me permite brincar muito com a frustração decorrente do jogo contra esse escrete. O som da bola batendo no alambrado do fundo do gol que dá para o morro, depois do pênalti batido pelo Marmorato, persiste até hoje em meus ouvidos. Acontece que o futebol mineiro, com todo o seu poderio, seus Kafunga, Ismael, Zé Carlos, Mário de Souza, não, Mário de Souza entrou em outra ocasião, mas afinal com todo o poderio de estado rico, não estava conseguindo nada com nosso intrépido selecionado até o começo do segundo tempo. Jogávamos no mesmo nível deles até o momento em que o árbitro resolveu mudar as regras estabelecidas pela International Board e alterou o tamanho do campo durante o jogo. Foi o que aconteceu. O atacante mineiro veio vindo e saiu com bola e tudo pela linha de fundo. Então, para surpresa de todos, mais de metro e meio fora do campo, ele cruzou para a área e outro avante mineiro fez o gol de cabeça. Gol nulo? Nada. Sua Senhoria começou a caminhar lentamente para

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o centro do gramado a fim de validar o gol. A ira da massa de patriotas que se comprimia no Governador Bley era imensa. Tentativa de invasão de campo. Adolescentes, olhávamos para aqueles senhores circunspectos que sempre iam aos jogos usando terno, gravata e chapéu. Nunca pudemos compreender bem, mas eles sempre assistiam aos jogos sentados nas cadeiras, observando-os com frieza e aparente isenção. Seriam eles portanto nossa instância superior. Podíamos estar enlouquecidos pela paixão, mas ninguém melhor que eles para avaliar a situação e dar um sinal qualquer, indicar a atitude a tomar. Mas eles não falaram e nem fizeram nada. Permaneceram frios e isentos. Todos nós nos sentimos órfãos e vazados por uma cruel injustiça. Sua Senhoria, inexorável, ordenou nova saída tirando qualquer possibilidade de anulação do gol. O jogo prosseguiu sob a indignação geral. Dispensável detalhar o conceito que a multidão fazia do senhor juiz, aquele... aquele... Fechem janelas e portas, senhoritas. O ribombar dos palavrões fazia corar as cinzentas estruturas do Estádio. Mas, de súbito, Sua Senhoria tem um momento de clarividência. Embora um espião traidor ao meu lado tenha dito que não viu o lance direito,

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é claro que tinha sido pênalti contra os mineiros. Um pênalti claríssimo como soem ser os que beneficiam nossos times. E lá vem o Marmorato do fundo da memória para bater outra vez o pênalti. Era um destróier vingador navegando pelo meio do campo em direção à meta adversária, como já disse o cronista Luís de Almeida. Marmorato, um gigante de quase dois metros, prepara-se para esfarelar com seu chute destruidor o amedrontado goleiro das Gerais. Vai goleiro e bola para dentro do gol. Era o pensamento unânime do Estádio. Tum. O som da bola batendo no alambrado, como disse, rói meus ouvidos até hoje. Empatamos o jogo e saímos do campeonato brasileiro daquele ano, já que havíamos perdido em Belo Horizonte.

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PARTE II

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O OFÍCIO

Ao procurar alguns papéis, dou com uma velha

pasta. Dentro dela, uma folha amarelada com timbre da Federação Desportiva Espírito-santense. Trata-se do ofício nº 15, de 20 de janeiro de 1953. Perguntase no documento se o Rio Branco não tem objeção quanto à transferência do atleta Janduhy Carneiro para o Santo Antônio. O despacho do presidente Alaor, manuscrito, está do lado esquerdo desse ofício e diz: “Comunicar à Federação Desportiva que o Rio Branco nada tem a opor”. Por que isso está sendo registrado? Os velhos riobranquenses sabem muito bem por quê. Simplesmente, poucas semanas depois, o Santo Antônio derrotou o Rio Branco pelo “modesto” placar de oito a um. Sim, oito. Sabem quem fez quatro gols? O desprezado Janduhy. Terríveis gozações. Cogito. Puxa, fui eu mesmo, como secretário, que mandei um ofício à Federação dizendo, conforme despacho do presidente, que “nada havia a opor, etc.” Não tenho ideia de como esse ofício se extraviou e ficou aqui comigo até hoje. E se tivesse se extraviado num momento mais oportuno? Enfim, se o ofício-resposta não tivesse dado entrada na Federação? Teríamos assim mesmo perdido por aquele

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placar? Note-se que, na época, o Santo Antônio, na história pré-Pelé, era um clube ­forte, mas que jogava de igual para igual com o Rio Branco. Ganhar, perder eram resultados normais. Mas um escore daquele tamanho só poderia ser explicado por outras causas. Como, por exemplo, a raiva vingadora do Janduhy. “Nada a opor, hein? Então toma lá um, dois, três e quatro.” Nós, riobranquenses, olhávamos apavorados, não querendo acreditar no que estava acontecendo. Mas aconteceu. E aqui está o ofício fatídico. E se o secretário fosse menos eficiente e não o tivesse respondido. E se, etc. E se... Para nos consolar, olhávamos para a lista de títulos do Rio Branco que vinha impressa em seus ofícios e onde constava um título de hexacampeão. Compreendia-se, assim, a ira dos adversários contra o “mais querido”. Alguns anos depois, a transferência do Rio Branco para Campo Grande. Nada contra aquele bairro simpático do município de Cariacica. Mas ocorre que ele nada tem a ver com o Rio Branco. Tentaram fazer com nosso time uma operação impossível: o transplante de alma. Venderam o Estádio para a Escola Técnica e compraram um terreno nos ermos de Campo Grande. O argumento principal era de que o Governador Bley, que a duras penas

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­ avia voltado para a propriedade do Rio Branco, era h muito pequeno para conter a grande massa de torcedores quando havia jogos com times de fora do estado. Com esse argumento­­­passaram o bisturi na alma do Rio Branco­­­, que sempre habitou o bairro de Jucutuquara, e a levaram para longe. O Rio Branco feneceu como uma flor arrancada. Não conheço esse novo Rio Branco e até hoje não fui a seu novo campo. Não por birra mas por falta de interesse. É até possível que esse neo-Rio Branco* chegue a ser campeão brasileiro, mas trata-se de outro time cujo original vaga em espírito nas tardes quietas, tristes e vazias do Estádio Governador Bley.

(*) Nota do revisor: o autor deixou de aplicar aqui as regras da nova ortografia. O correto seria Neorrio Branco.

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O CONVÍVIO

Já expliquei por que não posso fazer um rol de

glórias do futebol de Vitória. Mas me pergunto até onde isso é tão importante. Quero dizer, a ânsia de somente achar importantes o triunfo, os recordes e coisas do gênero. Quando falo do futebol de Vitória àquela época estou procurando mencionar sobretudo uma entidade mais ampla. Um concerto de amizades, por exemplo. Lembro-me do Americano, um timinho da Vila Rubim. Antes que velhos americanos me trucidem, explico que a palavra “timinho” tem conotação carinhosa e é quase igual à que nós, tricolores, usamos para apelidar o Fluminense. De qualquer modo, sem querer ofender, há uma verdade estatística, isto é, o Americano perdia bem mais do que vencia. Fumaças da memória me indicam uma velha revista com uma fotografia de uma fila indiana de jogadores e a legenda: “Americano, campeão de 193...” Depois disso, talvez embriagado pela conquista daquele campeonato, o Americano nunca mais foi campeão. Mas em todo campeonato, estava lá, quase sempre perdendo. Mas lá. Quem considera tolice o lema olímpico de que o importante é competir, é porque não conheceu o Americano. Em p ­ rimeiro­­

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lugar, era um time onde quase todos eram amigos. Estudantes, bancários, f­ uncionários públicos, faziam parte da equipe que tinha uma característica que talvez explique as derrotas e por que sempre chegavam ao segundo tempo com a língua de fora: não gostavam de treinar. Mas no dia do jogo estavam todos lá. Ou quase todos. Digo isso porque pelo menos num determinado jogo o time teve que entrar em campo com dez porque faltou o meia-direita titular e os reservas não foram. Quem sabe, dormiram tarde no sábado, domingo tinha praia e ajantarado, talvez um vinho, uma soneca antes do jogo e lá se foi a hora. O melhor era que todos se divertiam muito. Depois de cada derrota ou das esporádicas vitórias havia um programa infalível: jogadores e diretoria se reuniam num bar, o bar Estrela de Jucutuquara, sob o comando de Salomão, o simpático presidente. Tomavam uma cervejinha antes de ir para casa. O Americano era o segundo time de todos nós pela simpatia e pela persistência em participar. Talvez essa seja a melhor parte do futebol, isto é, o pretexto para um convívio agradável. Nisso o Americano era um grande campeão.

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PARTE III

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ALGUNS TORCEDORES

Torcedor há de vários tipos. Desde o que festeja a

vitória de seu time com um gol de mão marcado aos quarenta e oito do segundo tempo, até o portador de espírito olímpico que não apenas condena uma vitória obtida dessa forma como chega a aplaudir as boas jogadas do time adversário. Mas há uma categoria especial de torcedores que sofrem uma transformação violenta no estilo médico/monstro. Era o caso do José Caseira. Dito assim, muitos, talvez, não liguem seu nome ao objeto que, no caso, era simplesmente o Bar Santos. O tal lugar onde quase todos os de nossa geração foram abençoados por um pão matinal chamado “canoinha”, veículo de certa manteiga quente cujo sabor somente pode ser avaliado com mais precisão depois de curtido num bom pacote de anos. Além da excelência do pão, era consenso, flutuava no estabelecimento comercial a mais genuína cordialidade lusitana, transformando o Bar Santos numa espécie de tenda hermeticamente fechada, por onde circulava um puro ar de harmonia conduzido por seus amáveis proprietários. Entre eles, o José Caseira. Para mim havia ainda um elemento de acréscimo representado por uma fotografia pendurada

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numa parede desse bar mostrando uma paisagem de Póvoa de Varzim, terra natal desses excelentes gajos. Recém iniciado em Eça de Queiroz, considerava tudo o que viesse do “jardim à beira mar plantado” com muita simpatia e, naturalmente, num grau superlativo, o que viesse das terras privilegiadas que viram nascer o mestre do Primo Basílio. Ora pois, pois. A verdade verdadeira é que toda essa cordialidade do José Caseira ficava fora dos limites do Estádio Governador Bley. Quando o adentrava para torcer pelo Rio Branco, o Caseira adentrava também na pele de outro José. Provavelmente a do José Casco dos Bravaes, personagem da Ilustre Casa de Ramires do patrício Eça, despejando sobre o juiz da partida toda a truculência daquele velho posseiro do timorato Ramires. Com bastante cuidado, cheguei certa vez a entrar na turma do “deixa disso” embora receoso da explosão do Caseira do alto de seus quase dois metros de altura distribuídos em cerca de sete arrobas. Mas justiça lhe seja feita. Ao que me consta, as explosões do Caseira nunca produziram danos de monta e, de fato, faziam parte do quadro geral das domingueiras futebolísticas no Estádio G ­ overnador Bley que o Xerxes Gusmão Neto, com seu olho de poeta, classificou como “tardes amarelas”. É assim

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também que as vejo embrulhadas num papel pejado de saudades. O Sebastião das Canárias, outro torcedor, tinha uma metodologia diferente. Nunca ninguém o viu explodir. O mano Ivantir, cujo único defeito é o de ser torcedor do Vitória, me massageia a memória ao reavivar os passos cadenciados do Sebastião ao longo do alambrado e suas incisivas perorações quando um jogador de seu time, o Santo Antônio, sofria uma falta: “Assassino. Vaca braba. Prendam esse homem” espumava o Sebastião. Quando um jogador do Santo Antônio fazia uma falta, vinha o Sebastião: “Levanta, molenga. Futebol é pra homem”. Um peso e várias medidas. Mas a principal característica do das Canárias era a grande confiança que tinha nas ameaças sugeridas por sua cara feia. Parece que o Sebastião acreditava muito nos efeitos de seus terríveis olhares para a torcida adversária. No Estádio Governador Bley a torcida do Rio Branco ficava no lado direito das arquibancadas. As demais, do lado esquerdo, formando uma eterna coligação contra o “mais querido”. De modo que, se uma circunstância qualquer do jogo contrariasse o Sebastião das Canárias, este vinha se deslocando lentamente, pela pista, do lado esquerdo para o lado direito da arquibancada­­­.

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Ao chegar na pista defronte à torcida do Rio Branco, o Sebastião parava, dava as costas para o campo e, braços cruzados, encarava os riobranquenses numa atitude que provocava o natural troco da torcida alvinegra, cujo ­conselho mais suave era o “volta para sua toca, a­ nimal”. Mas o duelo era relativamente rápido. Resmungando muito o Sebastião atirava olhares chispantes como se quisesse marcar com ferro em brasa cada um dos oponentes que ocupavam o território inimigo. Depois, se retirava muito solene e espigado. Ninguém sabia explicar em que se baseava o Sebastião das Canárias para acreditar tanto nos efeitos de seus olhares seca pimenteira. Alguns diziam que ele trazia uma peixeira debaixo da camisa. Se verdade, nunca a mostrou em suas investidas visuais contra a torcida do Rio Branco. Não há também registro, por exemplo, de um confronto entre o das Canárias e o Caseira. Talvez porque suas especialidades fossem diferentes. O setor do Caseira era mais o juiz, os inomináveis roubos do juiz, e o das Canárias a censura às manifestações de adversários do Santo Antônio, em especial as daquela insuportável gente da nação alvinegra. Cassemiro Fonseca era um alfaiate de Santo Antônio, torcedor do time do mesmo nome, mas

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que, ao contrário do Sebastião das Canárias, fazia de sua torcida um espetáculo divertido. O próprio local onde exercia seu papel de torcedor apaixonado era revelador. Não assistia aos jogos da arquibancada. Preferia a geral, ou seja, um lugar onde todos os da arquibancada podiam acompanhar suas movimentadas ­evoluções durante as partidas. Cassemiro era uma espécie de mestre da mímica, exercitando sua gesticulação de aplauso ou desespero no show que apresentava nas tardes em que jogava o Santo Antônio. Já não era nenhum mocinho e, por isso, não se compreendia como podia ficar correndo daquele jeito durante todo o jogo. Sim, porque o Cassemiro corria sempre em paralelo ao ataque de seu time, por dentro do alambrado, e era impossível saber como aguentava aquele vai e vem. Nas procissões católicas era possível ver também o Cassemiro envergando a opa escarlate de sua irmandade, empunhando um fornido bastão com uma vela acesa no topo. Muito sisudo, rezava em voz alta pedindo as bênçãos dos céus e provavelmente reservando uma parte de seus pedidos ao próprio Santo Antônio que seria também interessado num bom papel para sua representação esportiva. Aquelas antigas procissões que corriam as ruas de Vitória.

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Ruas acolchoadas com folhas de mangueira para os fiéis pisarem no macio enquanto as sacadas das casas competiam para ver a que apresentava o tapete mais bonito. Cassemiro, olhos fechados, cantando “Queremos Deus, homens ingratos...”

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PARTE IV


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AFICIONADOS

Naquele tempo havia a primeira comunhão. “Você

deixou a hóstia bater no dente?” cobrava a prima mais velha. A negativa vigorosa não excluía uma certa dúvida interna: “Será que bateu?” Como era amplamente sabido, hóstia batendo no dente na hora da comunhão tinha o gosto do enxofre das profundas do inferno. Um dogma sem fissuras, defendido por essa prima que participava, como convidada, da festa comemorativa da primeira comunhão de nossa turma do Ginásio do Espírito Santo. Festa realizada na casa do bispo. O bispo era Dom Luiz Scortegagna, que apareceu gordão e sorridente para nos cumprimentar pelo “grande acontecimento.” “Bom dia, amados filhos.” disse Dom Luiz ao chegar. O curioso é que poucas vezes, depois disso, ouvi um padre dizer “amados filhos” e que na verdade queria dizer exatamente o seguinte: “amados filhos.” O pão com mortadela e café com leite oferecido por Dom Luiz vinha matar um jejum de vinte e quatro horas em que não se podia beber nem água.

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Dom Luiz Scortegagna. Ao que me lembre, é a primeira vez que escrevo uma linha sobre ele. Mais. Acho que agora ninguém ­escreve sobre ele que, em seu tempo, podia ser confundido como uma espécie de camelô da bondade. Bem feito. Dom Luiz não era nenhum intelectual. Estava mais próximo de um Pedro pescador, de um São Cristóvão, do que de um São Tomás. Embora o povo não entendesse seus sermões, sempre confusos, via logo que ali estava o pastor. Por isso, não se importava muito com suas frases desconexas durante os sermões que reboavam pela catedral como sons vindos do outro mundo, um efeito acentuado por reverberação sonora estonteante, marca registrada de nossa matriz naquela época. Um discurso pronunciado num código ininteligível. No entanto, eu sabia que o mundo de Dom Luiz só conseguia aparecer nos colóquios informais, no início de um diálogo fraterno. “Como vai, Dona Lúcia.” dizia ele para minha avó, ao ocupar toda a porta de entrada do Castelinho que ficava ali na confluência das ruas Cel. Monjardim, Gama Rosa e Professor Azambuja. Um lugar não distante da casa episcopal, da Igreja de Santa Luzia, do Convento de São Francisco, ou seja, no

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c­ erne, pesadamente quinhentista, da aldeia de Nossa Senhora da Vitória, banhada pelo espírito antigo de uma igreja recendendo a incenso e latim. O “Como vai, D. Lúcia” era estentório, gordão e generoso como ele próprio e sempre disponível para suas ovelhas necessitadas de um consolo espiritual. Mensagens muito claras e bem diferentes de seus sermões que se perdiam pelos meandros de uma argumentação muito particular. Mas ninguém se preocupava em acompanhar seu raciocínio tortuoso. Quando as coisas se complicavam irremediavelmente, Dom Luiz dizia, definitivo: “Viva Nossa Senhora da Penha”. Dava o sermão por encerrado, persignava os fiéis e, muito digno, continuava a missa. Acabo de descobrir que me desviei completamente do meu assunto. Desculpem-me. Para voltar a ele é preciso também voltar à cena da festa de nossa primeira comunhão na casa do bispo, junto com meus colegas do Ginásio do Espírito Santo e nossas famílias. Participava também da festa o orientador que nos havia preparado para o que ele denominava de “banquete com Cristo.” Esse orientador era o padre Macário que ficava discretamente no fundo da sala, muito humilde, como se estivesse se desculpando de alguma coisa. Não quanto a Dom Luiz, que

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o abraçava­­­com afeto. Mas em relação a certa parte dos fiéis, havia algum desconforto quando se falava no padre Macário, pelo seu gosto em jogar futebol. Embora nos sentíssemos bem à vontade com o padre Macário, ele não era o que atualmente ­surge como o “padre jovem” padronizado pelas artes do marketing. Nada disso. Muito jovem, muito sério, no final de suas preleções vinha o convite quase sussurrado, como se estivesse pedindo desculpas por aquele grave desvio de suas funções sacerdotais: “Vamos jogar no Saldanha?” Jogar futebol com a turma. Uma festa. Padre Macário tentando manter a seriedade, mas, via-se, transbordando de alegria pela oportunidade de exercer sua nem tão secreta paixão pelo futebol. Avançava pela esquerda o padre Macário com sua batina preta (na época, os padres não podiam usar outra roupa). Muito ágil e bom atacante. A única coisa que eu não achava justo é que padre Macário tinha uma vantagem adicional sobre nós todos na hora de matar uma bola. Vinha a bola, padre Macário abria as pernas e matava a bola na batina. E lá ia ele. Benditos sejam os ora lembrados D. Luiz e padre Macário, mensageiros da boa vontade.

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PARTE V


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CERVEJA AMARGA

Foi aí pelo final dos anos quarenta, início dos

cinquenta. Rio Branco e Vitória vão disputar a final do campeonato da cidade. Estádio repleto. O Vitória levava vantagem porque jogava pelo empate. Entre os torcedores do Rio Branco, o médico do bairro, Dr. Marquezi, que morava numa casa defronte ao estádio. Aos 43 minutos do segundo tempo, jogo para terminar, o Rio Branco vencia por um a zero. Certo da vitória, o Dr. Marquezi sai do estádio e vai para casa a fim de soltar uns foguetes que, prudentemente, não trouxera para o campo. Chegando em casa e ouvindo um grande alarido ele imaginou que o jogo havia terminado. Por isso, saiu para o jardim e começou a soltar os foguetes. No meio do foguetório passou a receber as primeiras gozações dos vitorienses que se divertiam com o quiproquó, porque na verdade o Rio Branco não tinha nada para comemorar. No último minuto, o centroavante do Vitória, de nome Manélis, fez um gol de cabeça dando o título de campeão ao alvianil. Os torcedores saíam do estádio rindo com a confusão do Dr. Marquezi, menos

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naturalmente os riobranquenses que mal acreditavam no que acabava de acontecer. O bar do Guaraci, naquela noite de domingo, recebeu sombrios torcedores do Rio Branco, entre os quais eu mesmo, Ruy Benezath, Paulo Coutinho, Álvaro Barboza e o nosso técnico Mossoró, para beber cerveja e nos consolarmos mutuamente. É bom dizer que não chegávamos a fazer como Zemar Moreira Lima que, nas derrotas do Rio Branco, não conseguia comer direito por dias seguidos. Mas sofríamos também os petardos que uma derrota esportiva desfere, que atingem um núcleo lúdico, de raiz infantil, e nos remetem para o árido mundo dos adultos fazendo seus efeitos durante, pelo menos, os primeiros dias da semana seguinte. Por tudo isso, naquela noite, tomávamos nossa cerveja quase em silêncio. Mais tarde, chegou o Heitor que, apesar de ser o ponta-direita do Vitória que havia nos derrotado naquela tarde, era gente fina e sobretudo nosso amigo. A noitada corria em ritmo de velório, exceto para o Heitor que, no entanto, respeitava nossa frustração. No bar do Guaraci, em Jucutuquara, havia uma espécie de reservado, nos fundos, onde se passava essa cena dos torcedores desalentados.

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Na parte da frente do bar, no salão principal, pessoas bebiam e faziam barulho. Fácil saber que eram torcedores do Vitória comemorando a conquista do campeonato. Uma comemoração compreensível. Quando já estávamos nos preparando para ir embora, surge na porta do reservado ninguém menos que o celerado Manélis, aquele que havia nos tirado o pão da boca no último minuto, com seu gol fora de hora. Ora, se o Heitor era aceito por todos e antes de ser um jogador do time adversário era gente nossa, com o Manélis era diferente. Segundo se sabia, o Manélis teria vindo de João Neiva, onde jogava pelo Sul América, e era um morador novato da nação de Jucutuquara que, também, como era amplamente sabido, possuía seus cânones, sua constituição não escrita onde se prescreviam as regras de aceitação ou não de cidadania para adventícios. Manélis ainda não tinha sua situação regularizada quanto a essa parte e, portanto, sua atitude irônica ao entrar no reservado não foi aceita por aquela representação do patriciado do bairro. Por isso, foi convidado a se retirar do recinto. Não queríamos conversa com um adventício, um bárbaro que, além do mais, vinha nos observar sarcasticamente enquanto bebíamos aquela cerveja amarga.

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CERVEJA GELADA

Como dito em outra parte destas recordações, o

Rio Branco perdeu o Estádio Governador Bley, construído com muito esforço pelos torcedores, entre os quais o sempre lembrado Laonte de Lima Soares. A inauguração foi em 1936 e o Fluminense, convidado para o jogo inaugural, bateu no Rio Branco por dois a zero, como de praxe. (Vide referência ao supercampeão de 1946.) Por volta de 1938, em virtude de operações que nunca soube direito como ocorreram, o Rio Branco foi acionado (dizem) por um torcedor adversário e ficou sem o estádio. O máximo que conseguiu foi que o imóvel passasse a ser propriedade do governo estadual e não de particulares (creio que o Estado encampou a dívida). Mas o clube não ficou livre das humilhações. A começar pelo nome, obrigado que foi a renegar o tradicional Rio Branco Futebol Clube passando a chamar-se Riobranquinho. Com esse nome o conheci, ainda que tenha aprendido a chamá -lo pelo nome original que circulava entre os antigos torcedores como senha secreta. Mas, afinal, por que me tornei um torcedor do Rio Branco?

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Torcer para um determinado time quase nunca­­­ tem uma base racional. Torce-se por um clube da mesma forma que se nasce com olhos pretos ou verdes. Uma fatalidade. No meu caso, porém, torcer para o Rio Branco tem explicações claras. Mas isso exige um retrospecto um pouco longo. Sempre fui um emérito perna de pau jogando futebol o que não é nenhum rasgo de modéstia. Creiam. Minha única e escassa glória na prática do esporte bretão deu-se nos anos quarenta num jogo pela equipe do Independientes. Assim mesmo, com grafia castelhana, em homenagem ao time argentino. Admirávamos muito, naquela época, o futebol portenho. Nosso time era formado por alunos da terceira série do Ginásio do Espírito Santo. O jogo foi contra o Fluminensinho, bicho-papão entre os times de várzea. Nosso time tinha alguns craques como Romualdo Gianórdoli, o Careca, que depois foi centroavante do Rio Branco. Mas a maioria era de jogadores do meu tipo, isto é, como diria um daqueles verbosos locutores de antigamente: jejunos de bola. Minha posição era na linha média, alfe esquerdo recuado. Recuado porque o alfe da outra asa exercia um papel de defensor/atacante, tudo dentro do figurino vigente, do posicionamento em ­diagonal­,

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última palavra de tática futebolística, implantada pelo Flávio Costa, mais tarde técnico da seleção brasileira de 50. O alfe direito era o Etny Scarton e o centeralfe o Sylvio Figueiredo Costa, ambos, hoje, conceituados médicos desta cidade. Ignoro o que aconteceu comigo naquele jogo contra o Fluminensinho. A verdade histórica é que, como alfe recuado, consegui anular um ponta-direita de nome Dió. Como, não sei. Mas anulei, conforme o depoimento unânime de meus companheiros. Vencemos o jogo, como aliás está registrado para a posteridade na página de esportes de A Gazeta que, também, para nossa glória, publicou a escalação do time. Tudo estaria bem não fosse o jogo seguinte. Um jogo realizado também no campo do Saldanha. Nesse prélio entre o Independientes e outro time de várzea cujo nome esqueci (Freud explica), nosso time foi goleado. A desculpa para minha atuação desastrosa foi que me deslocaram da linha média para a zaga esquerda, isto é, já me julgava dono de uma posição no futebol. Discuti que aquele não era meu lugar, etc., mas houve um apelo em nome do time e então está bem.

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Está bem? “No buraco, no buraco...” diziam os atacantes adversários. Com toda razão, passei a desconfiar que o “buraco” era eu mesmo porque, em seguida, lá ­vinha um lourinho todo serelepe, me driblava e gol. O herói do jogo anterior não conseguia segurar o diabo do lourinho que, sim, agora me lembro, se chamava Celeste, ora veja. Depois de um tempo concluí que esse atacante do time inominado era impossível de ser marcado na bola. Lá vinha o Celeste, um porrinha de não mais que metro e meio de altura e eu encarava e tal, ele passava e gol. É preciso então admitir que em minha curtíssima carreira futebolística, em razão de episódio do jogo com o time inominado, derramei uma nódoa em minha ficha funcional. A partir de certo momento, já não aguentando os dribles desconcertantes do Celeste, não tive dúvida e comecei a apelar. Mas o danado do menino era muito esperto e ia se safando de minhas pernadas. Não por todo o jogo. A certa altura do segundo tempo, quando tentou cabecear uma bola para o gol, foi ele subir e o sarrafo certeiro cantar por baixo. Saiu de campo carregado. Alguns xingamentos e calma pessoal e deixa disso, o jogo prosseguiu. Embora ânimos não de todo serenados, o prélio continuou,

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terminando com uma derrota humilhante para o Independientes. Não me lembro do placar porque os números desse jogo estão trancados em algum lugar inacessível da memória, mas o certo é que a imagem do futuroso alfe esquerdo do jogo anterior caminhou célere e irremediavelmente para o charco. Estou me lembrando desses fatos anteriores porque tempos depois, já morando em Jucutuquara, junto com Ruy Benezath passei a frequentar os treinamentos do Rio Branco (Riobranquinho para os inimigos), no Estádio Governador Bley. Mais por brincadeira e, no meu caso, quem sabe, com a tênue esperança de ser redescoberto o velho alfe esquerdo do Independientes. Mas, antes de tudo, a primeira impressão que ficou daqueles treinos foi a posição humilhante reservada ao Rio Branco. O treino tinha que começar na hora tal, com o dia amanhecendo, e terminar na hora qual, impreterivelmente. Se houvesse atraso, mesmo de alguns minutos, aparecia um funcionário do estádio, que, como vimos, já era propriedade do Estado, e ficava lá do portão gesticulando e apitando com desespero, pedindo que o campo fosse desocupado. Então vejam: o Rio Branco, que havia construído o imóvel, construção que, na época, pelo arrojo, foi considerada uma loucura, tendo

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que mendigar um tempinho para treinar o seu time. Tratado como intruso em seus próprios domínios. Em solidariedade, passei a simpatizar com o clube. Mas, seja como for, o clube não se rendeu. Humilhados, respeitando o horário rígido dos treinamentos ali estavam seus jogadores. Ruy e eu, no verdor de nossos quinze anos, de penetras, chutando nossas bolinhas para craques como Rogaciano (centeralfe da seleção capixaba) ou até mesmo chutando para o gol onde estava ninguém menos que Brandolini, lendário goleiro, também da seleção do Espírito Santo. No fim das contas, não sei se faltou olho clínico ao técnico do Rio Branco, na época o Eugenilho Ramos, o fato é que não fui descoberto para o futebol capixaba o que, aliás, para ser justo e em minha insuspeita opinião, não foi nenhuma injustiça. Mas há, no episódio, afinal, um elemento decisivo para que me tornasse um aficionado do clube: jamais me disseram que eu era cabeça de bagre, perna de pau, enfim que não tinha jeito para o futebol. Isso precisei ir descobrindo por mim mesmo e conformar-me que minha primeira atuação de destaque no Independientes foi mesmo um mero acaso. No entanto, avaliava, mesmo jogando mal, havia chutado para o Brandolini e até mesmo feito um gol nele, não sei se

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por displicência do grande goleiro ou porque chutei da metade da distância da marca do pênalti até o gol. Dispensam-se avaliações. Mais tarde, o Ruy Benezath, como preparador físico do Rio Branco, fez dupla com Mossoró e é corresponsável por uma fase vitoriosa do clube presidido pelo excelente Alaor de Queiroz Araújo. Quanto a mim, nos anos 50 e 60, como já foi dito, recolhi-me a um lugar na diretoria do clube e, posteriormente, em seu Conselho Deliberativo. Tenho para mim que Ruy, junto com seu irmão Rubens mas principalmente seu pai, o inesquecível Mário Benezath, foram os maiores torcedores que o Rio Branco já teve. Diga-se ainda que Ruy, como preparador físico, jamais quis receber por seu trabalho. Salute, família Benezath!

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PARTE VI


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PERIGO

União. O time da fábrica, a União Manufatora de

Tecidos, que ficava naquela curva do Cruzamento. Falo no passado porque a fábrica fechou novamente. Um destino ciclotímico. Nos anos quarenta era um casarão fantasma. Falava-se de seus antigos proprietários, farras em Paris e, em seguida, falência. Depois, com Oscar Carvalho, a fábrica renasceu. O barulho contínuo de suas máquinas que se desdobravam em três turnos seguidos, marcados pelo silvo agudo de um apito, inclusive nos finais de semana, fazia uma sinfonia de trabalho exemplar, como nos melhores clichês da Revolução Industrial. Inclusive, o primeiro módulo da fábrica foi feito em grandes pedras, o que lhe dava um ar imponente de candidato a figurante de álbum de fotografia onde se mostrasse a memória da indústria no Espírito Santo. Mas havia uma diferença marcante. Vendo aqueles operários da fábrica pude senti-los não como operários, trabalhadores, na visão clássica de um processo de exploração com componentes de mais-valia. Isso podia estar em outro plano. No plano do Oscar Carvalho, não. Quando passo por aquele casarão do Cruzamento

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e vejo-o novamente fechado me vem uma certa tristeza. Onde está o Oscar Carvalho e sua ­generosidade? Onde está a enorme árvore de Natal que, todo ano, ele mandava erguer na pracinha de Jucutuquara? Por falar nisso, foi naquela pracinha, a Asdrúbal Soares, que morou o José Carlos Oliveira antes de se mudar para o Rio de Janeiro e tornar-se o cronista famoso do Jornal do Brasil, revezando-se com Carlos Drummond de Andrade. Numa entrevista, José Carlos disse que um dos grandes mistérios de sua infância era aquele casarão da fábrica (fase pré-Oscar) onde ele nunca teve coragem de entrar. Acredito que só os jucutuquarenses da gema podem entendê-lo e não ver nisso uma simples frase de efeito. Além do mais havia uma certa aura de mistério nos problemas enfrentados pelo grupo empresarial que a construiu e que incluem curiosidades jamais satisfeitas. Como foi mesmo que a fábrica veio a falir? Farras em Paris? Não seriam invenções? Não, verdade. E aí via a fábrica, ou melhor o dinheiro da fábrica sendo gasto em cabarés parisienses da belle-époque. Alguns me garantiam, sim, mulheres lindas gastando o dinheiro da fábrica de Jucutuquara, os sócios bebendo champanhe Veuve Clicquot pelo gargalo e jogando o resto da garrafa em ­cavalheiros

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encasacados como nas gravuras de quadros de Toulouse-Lautrec que havia descoberto recentemente. Quem havia afinal levado o dinheiro da fábrica através do perdulário­­­ sócio? La Goulue? Não teria sido com uma daquelas senhoritas que aparecem no “Moulin de la Galette” de Renoir? Enfim a fábrica de tecidos envolvida numa trama de impressionistas, aqueles pintores que primeiro mostraram a beleza do mundo com suas luzes e cores depois do “homem médio” jogar para escanteio o milenar fantasma da escassez absoluta. – Nada disso. Não houve farra nenhuma. Tudo invenção do povo – disse-lhe o velho Leôncio que morava próximo do açougue do Sizino. – O problema – prosseguiu – foi a concorrência com os tecidos ingleses. Preços e produtos melhores. A produção da fábrica caindo. No fim produziam só um zuarte riscadinho, uma fazenda muito grosseira vendida para o interior do Estado. Mas depois o pessoal do interior deixou de comprar esse tecido e a fábrica acabou fechando. Esta é a verdade – completou o Leôncio. Podia ser a verdade, mas era um anticlímax, já que a versão do perdulário era menos simplória e dava à nossa fábrica um ar de nobre decadência, misturado com o charme da belle-époque. Enfim, devaneios de

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adolescente ilhado em seu pequeno universo. Mas, festas parisienses à parte, havia um fato concreto, o casarão vazio da fábrica era um capítulo melancólico desses nossos primeiros anos em Jucutuquara. Por tudo isso, a fábrica rediviva pelas mãos do Oscar Carvalho representou uma aposta recebida com entusiasmo, mesmo por aqueles que nada tinham a ver diretamente com ela. Você passava de madrugada pela frente da fábrica, vindo das noitadas do Saldanha, e escutava os teares agora produzindo sacaria de juta para acondicionamento de cereais. Acabara o clima de mina abandonada de hulheira de Aberfoylle, símbolo da decadência como na ilustração daquele livro de Júlio Verne. E então, o time de futebol para completar a atmosfera de otimismo que baixara sobre a fábrica do Cruzamento. Um time que levava uma multidão de colaboradores do Oscar Carvalho para o Estádio Governador Bley. A qualidade do time? Apenas razoável, na avaliação mais camarada. Quanto aos jogadores não me lembro de nenhum destaque com exceção do “Perigo” mas por uma razão que somente me foi

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e­ xplicada depois. Vinha a bola para o lado direito e a torcida feminina – predominante – gritava ensurdecedoramente – “Perigo”, “Perigo”. As jogadas em geral não davam em nada. Mas em todo jogo do União a cena se repetia e as mocinhas gritavam o nome do canhestro extrema direita. Pedi que me explicassem o que se passava. O “Perigo” era pior do que os outros jogadores do União e não se constituía propriamente num perigo para os times adversários. Por que então aquele prestígio todo? “Simples, o ‘Perigo’ é o xodó das meninas da fábrica. Um perigo com as meninas.”

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PARTE VII

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FLAMENGO X VITÓRIA

Técnico

do Flamengo: Tim, o Elba de Pádua Lima, craque que deslumbrou a Europa no campeonato do mundo de 1938. O jogo, como de costume, inteiramente dominado pelo time carioca. Um único foco de resistência no time capixaba, um partisan inconformado localizado na lateral direita e que teimava em não entregar a rapadura. Seu nome: Rodrigues. Mais tarde, com bastante lentidão, fomos compreendendo que aquele jogador, indicado pelo Tim, passou a fazer parte do time titular do Flamengo. O detalhe é que aquele jogo no Governador Bley era a estreia do garoto Rodrigues no time do Vitória. Ou seja, ninguém sabia exatamente de quem se tratava. Muito menos pelo nome que passou a usar no Flamengo e na seleção brasileira: Rodrigues Neto.

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UMA Ideia INFELIZ

Sugeri

a alguns amigos que participassem da campanha do Rio Branco que estava vendendo cadeiras cativas no Estádio Governador Bley. Neste aspecto, época de euforia porque o Estádio voltava à propriedade do Rio Branco, graças a um ato de justiça praticado pelo governador Chiquinho Aguiar. Esses amigos: Aly da Silva, Paulo Vellozo, o mano Ivantir, Manoel Ceciliano Salles de Almeida e João Soares de Mello. Com exceção do mano, todos eles colegas da recém fundada Faculdade de Ciências Econômicas. Compramos toda uma fileira. A infelicidade da ideia tinha uma raiz fatal: todos aqueles bandidos eram torcedores do Vitória. Quando abri o olho, era tarde. Julguei-me no próprio ninho das serpentes. Aos domingos, era sempre o mesmo massacre porque, infelizmente, o Rio Branco, como time, passava por uma fase de vacas magras. Lembrem que desse grupo fazia parte ninguém menos que Paulo Vellozo e não é preciso acrescentar muita coisa para imaginar as maquinações que esses camaradas me aprontavam. Penei muito naquelas cadeiras cativas. As pausas ficavam por conta de conversas paralelas como a que me lembro ter mantido com Manoelito,

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o Manoel Ceciliano, a propósito de ninguém menos que Rousseau, vejam só. Não sei por que começamos a discutir sobre o Contrato Social, etc. Mas isso se explicava também como um indício da carência em que vivíamos, nós, professores, esmagados sob o peso da responsabilidade imensa de formar profissionais de Economia e procurando dar-lhes o melhor dentro das restrições que nos eram impostas de todos os lados. Não havia ainda cursos de pós-graduação no País e só mais tarde Manoelito foi para Houston fazer doutorado em educação e, eu mesmo, uma especialização no Rio. Por isso, não perdíamos oportunidade para trocar impressões sobre leituras que procuravam melhorar nossas aulas. Além disso, essas conversas eram um alívio para as atuações precárias do Rio Branco naquela época. “Não amola. Estamos conversando coisa séria” – era a advertência infalível quando um daqueles vitorienses vinha com suas brincadeiras. Manoel Ceciliano, naquele momento, não era o torcedor mas um professor preocupado com as ideias rousseuanianas de igualdade, o que era um refrigério para o riobranquense acuado. Mas essa era apenas uma pausa porque Paulo Vellozo, como os demais facínoras, não se cansava

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de repetir: “Claro que foi mão, ô seu juiz. Para de roubar”. Qualquer impedimento marcado contra o ­adversário do Rio Branco recebia o comentário infalível: “Perigo de gol, perigo de gol.” Paulo Vellozo acompanhava: “Perigo de gol, perigo de gol.” Daqueles ali, talvez o único que manjasse alguma coisa de regra de fufebol era o próprio Paulo. Por isso, certa vez, ele chegou para mim e disse: “Esse pessoal não entende nada de regra. Mas torcedor é torcedor, por isso, lá vai: perigo de gol, perigo de gol.”

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UM CHUTADOR FANTÁSTICO Cena I

Um

longínquo campeonato sul-americano nos anos quarenta. Jogo noturno. Brasil versus Uruguai ouvido num rádio em formato de altar gótico. Local: um boteco na rive-gauche de Jucutuquara que ficava na margem direita da vala. Esse lado não era calçado. Chão de terra batida, por onde passavam carroças e era uma espécie de setor boêmio com seus bêbados juramentados, suas quitandas de banana e bancas de jogo de bicho. No outro lado, o lado nobre, ficavam a Igreja de São Sebastião e os melhores estabelecimentos comerciais do bairro e passavam os bondes e automóveis. Pois bem, era nesse botequim da rive-gauche que eu assistia, muito atento, ao jogo entre brasileiros e uruguaios. Chovia bastante, poças de lama se formavam na rua e, por causa do mau tempo, a estática no rádio mal nos deixava ouvir a narrativa do locutor patrício, o sempre festejado Oduvaldo Cozzi e seus adjetivos retumbantes. Jogo empatado. A certa altura é marcada uma falta nas proximidades da área uruguaia em favor da seleção brasileira. Vai

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bater a penalidade um jogador de nome Jair da Rosa Pinto, o Jajá de Barra Mansa, segundo a descrição exuberante do Cozzi. Acredito que o Jair tenha sido o primeiro no rol dos brasileiros que se celebrizaram na cobrança de faltas e faziam gols de bola parada. É o grande iniciador da dinastia em que se destacam Rivelino, Branco, Lelé do Vasco e alguns outros. Naquele jogo, o Jair, cobrando essa falta, fez o gol e a vitória do selecionado brasileiro. Cena II

Estão jogando Vitória e Vasco da Gama. No time

do Vasco a estrela maior: Jair da Rosa Pinto, muito aplaudido pela torcida local e, em especial, por senhoritas frequentadoras de certas pensões da Volta de Caratoíra. Pelo que diziam, pareciam conhecer o Jair em outras circunstâncias e se referiam muito à noite anterior, etc. Não dava para saber se o Jair ouvia alguma coisa disso ou os comentários surpresos de outros espectadores que falavam da finura de suas canelas e as meias arriadas em cima das chuteiras. Em certo momento, aconteceu o que todos aguardavam: uma falta perto da área do Vitória.

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Como previsto, Jair desfecha canhonaço que saía de suas pernas finas. Gol. Logo depois do jogo encontro o mano Ivantir rindo muito. Estava vindo daquele bar defronte ao Estádio e que, agora, é de propriedade do Cearense. É verdade que o chute do Jair tinha sido muito forte e não havia muitas explicações para aquele gol mais do que previsto. Mas, por um átimo de distração, não consegui perceber exatamente o que tinha se passado na hora do lance. Ainda rindo, Ivantir me perguntou: – Você viu aquele gol? – Sim, o gol do Jair. Me distraí um momento, mas, claro, foi o Jair que bateu. Inapelável. – É, mas além disso, o Miguel, nosso goleiro, o ajudou. Acabo de estar com ele ali no bar. Você deve ter mesmo se distraído porque o Miguel, na hora do chute, simplesmente se abaixou e foi isso que fui perguntar a ele. Sabe o que ele me disse? “Eu hein? Não estou aqui para morrer. Quando vi aquela bola vindo em minha direção com aquela força desgraçada, só tinha mesmo que me abaixar. Nunca vi nada igual em minha vida. Cruzes.”

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PARTE VIII

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O VELHO FUTEBOL DA MONTANHA

A convocação do Carlos Germano Schwambach

para o gol da seleção brasileira fez-me procurar mais informações. Quem é esse Schwambach? Um nome tradicional da montanha do Espírito Santo pegado num jogador de seleção? De Campinho? Sim. Acabo entrando num terreno para-familiar. O Carlos Germano vem a ser primo de uma prima-irmã. Ora bem. A convocação do Carlos Germano e o consequente reconhecimento de suas habilidades como goleiro, refazem uma questão que periodicamente se instala entre os aficionados. Por exemplo, temos orgulho de nosso campeão mundial Fontana que, além do mais, é legítimo produto de Jucutuquara. Fontana era excelente zagueiro, viril e determinado. Mas todos os que acompanharam o futebol de Vitória daquele tempo são unânimes em reconhecer que o Oival (Goli) Fontana, seu irmão, tinha mais talento. Era um craque. Concordo. Goli, do ponto de vista técnico, era melhor jogador que seu irmão, o campeão mundial Fontana. Mas Goli permaneceu ilhado na província. São citados outros casos como Antunes que seria melhor que seu irmão Zico, do que,

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aliás, duvido. Já ouvi até mesmo alguém dizer que o Dondinho, pai do Pelé, seria melhor que ele. Um claríssimo exagero. Mas não admito que seja exagero um outro caso, mutatis mutandis. Carlos Germano comparado com seu avô, o Carlinhos Schwambach, ainda que este jogasse como zagueiro. Carlinhos, para mim, não era apenas um beque de nível nacional. Nível internacional e adjacências. Perdão. Me desculpem. Aqui, a bem da verdade, deve atuar uma enzima que me fazia achar que o Sport Club Campinho era o time mais importante e poderoso do Estado do Espírito Santo. Sempre que, aos domingos, havia um jogo programado com anunciados times de Vitória, logo pela manhã, junto com outras crianças, íamos esperar a delegação estrangeira no bar do Werner, onde invariavelmente os times se preparavam para a partida da tarde contra os craques da montanha. Essa preparação incluía muitas doses de cachaça e partidas de bilhar. Observávamos os craques que vinham da capital e procurávamos avaliar se tinham condições de enfrentar nosso time. O quadro com a fotografia do elenco pendurado na parede do bar era o primeiro cartão de visitas para nossos adversários. Um quadro enorme com fotografia do S.C. Campinho.

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I­dentificado um adversário disposto a conversar, provocávamos: “Quero ver você fazer um gol naquele nosso goleiro ali.” E apontávamos a fotografia onde aparecia o nosso goleiro, o Rubens Secretário, que era coletor federal de impostos e, embora sofresse de uma úlcera braba com violentas crises de sangramento, o que até tinha ocorrido durante uma partida, em nossa imaginação pegava até pensamento. Talvez já bem influenciado pela boa cachacinha do Werner, o desafiado dizia que ia enfiar uns dois ou três naquele frangueiro de uma figa e apontava para o quadro. “Vamos ver” – dizia eu, certo de que o Rubens não ia se deixar vencer por aquele faroleiro, como se dizia antigamente. Bem, mas eu falava do Carlinhos Schwambach, avô do goleiro Carlos Germano. Nas segundas-feiras, de manhã cedo, depois dos jogos, junto com outros meninos, era sagrada uma visita à alfaiataria do Carlinhos para comentar o jogo da véspera e os lances mais importantes. O Carlinhos, sempre caladão e modesto. Mas nós não o deixávamos em paz com nossas perguntas sobre o jogo em que ele sempre tinha, invariavelmente, uma atuação muito boa. Entre monossílabos, o Carlinhos ia satisfazendo nossa curiosidade enquanto cortava

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as fazendas das calças, dos ternos e das camisas do pessoal da vila. Uma das vitórias mais comemoradas daquele tempo, contra um time de Vitória, da Capital, entende, ficou na memória de nossa gente pelo empolgante da disputa com uma atuação esplendorosa de nosso zagueiro Carlinhos. Bem mais tarde, lembrando desse jogo, comecei a avaliar se nossa comemoração não tinha sido excessiva. A razão é simples. Quando vim morar em Vitória e conheci melhor a geografia da região, descobri que o tal time de Vitória que havíamos derrotado na tal ocasião não pertencia a uma região da Capital. Tratava-se de um clube de várzea, com sede na periferia. Seu nome: Tanguá F.C. Mas se de um lado essa constatação arrefeceu um pouco meu entusiasmo por aquela vitória, essa convocação do Carlos Germano, neto do Carlinhos e, assim, portador da aura do futebol da montanha, veio revigorar a crença de que aquele pessoal do S.C.Campinho era mesmo bom de bola.

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PARTE IX


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JOGADORES

Ao

longo destas recordações percebo que faço poucas análises técnicas de jogadores. Mas é uma falha compreensível porque não tenho atributos para isso. Além do que, esses alinhavos têm sobretudo a intenção de marcar o universo periférico do futebol de certa época. Mais ainda, procura conservar uma visão de adolescente diante desse fenômeno social que marcou meus primeiros anos de vida na cidade. Certos flashes de jogadores, porém, ficaram marcados na retentiva e procuro aqui descrevê-los da forma como me pareceram. Não conheci o Dias I e nem o Dias II, mas conheci o Dias III, goleiro do Rio Branco e da seleção capixaba. Yashin? Talvez. Mas o adolescente me dá um safanão. Talvez nada. Dias III era melhor. Centroavante? Maurício e sua boina basca. Morava no fim da Barão de Mauá, em Jucutuquara, e que ninguém se atrevesse em fazer foul violento sobre ele porque senão entrava em campo ninguém menos que sua própria mãe, ameaçando juiz, bandeirinha, o celerado que fizera a falta em seu amado filho, autoridades civis, militares e eclesiásticas. Todas entravam em seus xingamentos bombásticos. Mas o M ­ aurício era

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mesmo bom de bola. Daqueles centroavantes compridos e magrinhos que especialmente nos corners sobem às alturas e cabeceiam para baixo deixando o goleiro completamente órfão pelo pique da bola. Vi vários gols do Maurício feitos dessa forma. Linhas atrás me lembrei do Caseira e sua transformação quando entrava no estádio. Seu correspondente, como jogador, seria o China, goleiro do Rio Branco, Santo Antônio, etc. Quer dizer, o China mudava muito de time. Se você tivesse sapato para consertar não havia melhor lugar do que uma sapataria no início da Duque de Caxias, perto da Praça Costa Pereira. Você encontraria ali, batendo solas, um rapaz calmo e educado. Um desses artesãos que o progresso engoliu. O China, em sua identidade civil. Indo ao estádio e vendo que estava no gol aquele rapaz, você não o reconheceria. A ponto de certos jogos parecerem aqueles filmes de faroeste. “Quero ver, hoje, o duelo entre o China e o jogador tal”. Porque era mesmo um duelo, com murros, coices e o que mais tivesse em matéria de agressividade. De lado a lado. O fenômeno China, aliás, me faz convir que muita coisa do que acontecia em campo, naquela época, tinha pouca coisa a ver com futebol. Hoje, o China e o seu adversário não ficariam em campo por

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muito tempo. Seriam logo expulsos por indisciplina. Meu amigo Zig que me desculpe. Mas o que foi aquela pancada no Luizinho, atacante do Santo Antônio? Que foi aquilo? Nunca lhe fiz a pergunta, mas sempre achei estranho aquele foul do Zig Fontana, beque da seleção capixaba. Se ele me lesse agora talvez também me perguntasse por que dei aquela pernada no Celeste no citado jogo pelo Independientes. Coisas do bicho-homem que não convém remexer. Sei apenas que o Zig, como cidadão, foi um padrão de comportamento. OK. E o que mais? O tanque Itamar. Forte como um touro, pesado como um mastodonte. Pesado? A matreirice do Mossoró sempre quis passar essa impressão aos adversários, conforme me disse. “Fique por ali, nas imediações da meia-lua, finja que não alcança nenhum passe, pode até dar umas furadas, tudo bem.” Uma atitude que despreocupava os adversários na marcação daquele “bonde”. Mas as estatísticas estão por aí. Em todo jogo o Itamar despertava de sua aparente letargia e, desmarcado, fazia os gols do Rio Branco. Depois que passou a ser o artilheiro do time, os adversários começaram a desconfiar da tramoia maquinada pelo Mossoró e passaram a marcar melhor o tanque do Brancão, importado das montanhas de Santa Teresa.

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Mesmo assim, o Itamar continuou sendo o artilheiro do time em várias temporadas. O jogo de futebol tem seus mistérios. Um jogo nunca é igual ao outro apesar de alguns tacharem o futebol de monótono, o que, na minha opinião, é apenas um problema de percepção das nuanças de uma partida. Há, por exemplo, jogos iluminados por uma harmonia que se desenvolve no gramado transformado em palco com marcações precisas por parte dos jogadores. Um jogo assim, por exemplo, foi com o Coritiba, do Paraná. Uma grande dupla de área: Neno e Altevir, arrasadora em suas tabelinhas geniais. Ainda nesse time um grande center-forward de nome Gino. Um time que encantou os capixabas não apenas pelo alto nível de futebol como pela elegância e disciplina de seus craques. Um outro jogo: Rio Branco e Campo Grande do Rio de Janeiro. Foi à noite. Sob a luz de refletores os jogadores parecem mais leves, a bola macia e o gramado parece respirar melhor com os ares noturnos. Esse time, dos arredores do Rio, também entra no rol dos jogos mágicos. Além do mais, o goleiro do Campo Grande parece que ficou tocado pela beleza daquele jogo cujo placar não tenho a menor ideia de quanto foi. Nem sei quem venceu. Mas, como dizia,

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o goleiro do time carioca deve ter sido tocado por aquela noite em que os jogadores/atores encenaram essa bela peça esportiva. Tanto que ele, o goleiro, não demorou muito a se transferir para o futebol de Vitória, mais precisamente para o próprio Rio Branco onde durante anos foi destaque: Jorge Reis que, inclusive, segundo me lembro, é recordista de tempo de goleiro sem tomar gol, algo assim. Vão surgindo outros nomes. Não me lembro se o Cica, irmão do Beto Carvalho, velho amigo, chegou a titular do Rio Branco e também ignoro até que ponto aquela sua estreia no time principal, em substituição a outro jogador, chegou a inibi-lo. Mas a inibição existiu. Sem dúvida. Novamente um time do Rio jogando contra o Rio Branco. Foi nesse jogo que o Cica entrou. Entrou e tremeu. Não foi outro que me disse. Foi ele mesmo. Bola cruzada em cima da área: “Vai, Cica, vai!” O Cica ia? Ia nada. Ameaçava, chegava perto do marcador, mas não dava combate direto. Enfim, Cica não ia mesmo. Cica, uma promessa de meio-campista de talento, nesse jogo parecia pregado no chão. Pelo menos até chegar ao beque adversário. Fim do jogo. “E aí, Cica? O que houve?” Cica, ainda ofegante responde: “O que houve? O que houve? Você já pensou em pegar uma bola e tentar

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driblar o Domingos da Guia?” Exatamente. Domingos da Guia em final de carreira, no Estádio Governador Bley. Final de carreira mas não final de futebol. Outros que expliquem. De minha parte, não tenho a menor ideia de como a bola era imantada para ser atraída para os pés do grande zagueiro. Cica tinha toda razão. Impossível arquitetar um triângulo amoroso num par que se entendia tão bem: Domingos da Guia e a bola. Triunfos do futebol brasileiro não precisam mais ser exaltados. São evidências mui justamente cantadas em prosa e verso. Afinal, o Brasil é tetracampeão e ponto final. Mas nem sempre foi assim. Ainda nesses anos quarenta estou ouvindo pelo rádio, na casa de meu avô, na Gama Rosa, um Brasil e Argentina pela Copa Roca. A Argentina venceu por quatro a dois. Quando a Argentina vinha jogar no Brasil a imprensa esportiva, em especial O Globo Esportivo, uma espécie de bíblia semanal, de leitura obrigatória, derramava-se em elogios a esses grandes astros do futebol como, por exemplo, a descrição que fazia de um extrema-esquerda histórico de nome Lostau. Conforme dizia, Lostau era um jogador frio e calculista, rápido como um leopardo, que se esgueirava pela ponta e desferia seu chute com precisão cirúrgica. Um g­ rande

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especialista, diziam. Todos imaginávamos esse monstro de eficiência diante de nossa defesa impotente. Mendez, meia-direita, com sua enganosa cara de sono, Boyé, ponta-direita. Sastre e Massantonio, a ala infernal. E ia por aí a fora. Um clima de deuses do estádio. Talvez por isso, ainda hoje, quando a seleção brasileira enfrenta a Argentina persiste um respeito certamente fabricado naqueles tempos. Muito também em razão disso, nossa cidade ficou ansiosa quando veio jogar aqui, mais uma vez, um time do Flamengo contando com algumas estrelas do futebol argentino e, algumas delas, do próprio selecionado platino. Faziam parte do time, entre outros, Coleta, ex-zagueiro do selecionado argentino, Sanz, da linha de ataque, e Deteran, no meio do campo. Não tenho ideia da razão por que o Flamengo importou esses jogadores. Não que tenham se mostrado maus jogadores mas havia por parte deles um nítido desinteresse em participar de um jogo numa longínqua província brasileira. Essa foi a ideia que me passaram esses craques argentinos que, nem de longe, puderam justificar a fama de seus conterrâneos na área do balípodo. Pareciam muito mais senhores aposentados, doidos para que o jogo acabasse a fim de irem disputar uma partida de damas debaixo das castanheiras.

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PARTE X

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SAUDOSISMO

Para sociólogos: havia antigamente um prêmio

chamado “Belfort Duarte”, que era dado a jogadores que não tivessem sido expulsos de campo durante dez anos. Havia.

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PARTE XI

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ESTÁDIOS

Praia, por exemplo. Ao longo de minha vida co-

nheci muitas. Genipabu, a praia do momento? (Um momento certamente fabricado pelo marketing, esse criador de fantasias). Verdade? Não vi nada de especial em Genipabu e mesmo a escalada das dunas naquele veículo cujo nome me escapa tinha o sabor desses programas milimetrados do que chamam de “pacote turístico”, uma bactéria fatal para as viagens em minha mui modesta opinião. Mas a decepção maior fica com a praia do Lido, naquela ilha ao largo de Veneza. Águas tristes rolando melancolias na tarde cinzenta, filtradas de sei lá o quê, talvez de conflitos ou de qualquer outra coisa que represente a insensatez humana. Quem vai ao Lido, acho, fica sufocado e nem a lembrança de Claudia Cardinale, que tomou banho em suas águas, impede o impulso de pegar o barco e voltar correndo para a “Sereníssima”. Enfim, com todo o cuidado para não parecer um monstrinho chauvinista, declaro que praias mesmo são as nossas. Copacabana? No cartão postal para mandar para o amigo no estrangeiro, ótima. Mas nunca procurei maiores intimidades com a “Princesinha do Mar” (que meu carioca irmão ­Boclin não

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me ouça) porque acho a princesinha muito cheia de chicotes, com aquelas ondas enormes que não f­ azem o meu gênero. E aí entra logo no primeiro lugar da fila a praia do Barracão com suas ondinhas domésticas ou a falecida praia do Canto, que hoje vivem humilhadas debaixo daqueles prédios construídos sobre seus aterros, na continuidade da Moacir Avidos. Por falar em praia do Canto, ali defronte do Miramar havia um gramado que faria a inveja a ingleses. Como se sabe, os ingleses respondem, aos que admiram suas gramas e lhes perguntam como conservá-las tão belas, que o segredo deles é uma experiência de “apenas” mil anos tratando de gramados. Pois não precisávamos de mil anos. O gramado da praia do Canto, onde se sentavam Paulinho Coutinho e sua garota, a Maria Eulália (hoje, avó dos netos de Paulo), com um chapelão de palha que parecia uma barraca, mais a nossa turma, era um gramado de fazer frente a Hyde Park. Ah sim, o tal gramado também se encontra indevidamente soterrado sob as monumentais pilastras daqueles edifícios monumentais. OK. OK. É preciso adaptar a cidade aos novos tempos ainda que às vezes os “novos tempos” sejam emparedados em interesses nem sempre muito claros, escondendo-se através de máscaras que

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escamoteiam tempos velhíssimos. Torço para que tudo dê certo e que os “novistas” sejam autênticos e não contrafações. O diabo é que se, como na música, a coisa vai “­entortando, vai entortando”, acaba indo para o cano. Afinal foi isso que aconteceu com minha querida cidade de São Paulo (e aqui peço desculpas ao meu quatrocentão amigo Tolle, que há de concordar comigo), hoje tão enrolada em sua adaptação aos “novos tempos” que sua imagem mais adequada é a descrita num conto de Cortázar chamado “Engarrafamento” ou similar. Em Os Maias há um personagem que está na Ópera de Paris assistindo a um espetáculo e que fica pensando que, na verdade, não gostaria de estar no teatro, mas sim fora, logo ali, na frente do “Café de la Paix”. A cena é do século XIX. Agora, no século XXI, se uma pessoa estiver na Ópera com a mesma insatisfação do personagem de Eça de Queiroz, poderá tranquilamente sair dali e encontrar-se com amigos no mesmíssimo “Café de la Paix” com seus polidos metais amarelos. A diferença é que Paris é Paris há um bocado de tempo e as nossas metrópoles que pretendem se adaptar aos novos tempos se deterioram a olhos vistos e têm fôlego curto. Me desculpem, me desculpem mais uma vez. É da idade. É mais do que tempo para voltar ao

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nosso assunto. Justifico essas lembranças para tomar coragem e dizer de modo imperativo que, para mim, estádio só existiu um: o Governador Bley de Jucutuquara. Não só por saudosismo, mas por motivo também muito racional como pretendo justificar a seguir. A primeira vez que fui ao Maracanã foi em 1950, ano de sua inauguração, para assistir Brasil x Suécia pela Copa do Mundo. Não, não fiquei para a final. Precisei voltar para Vitória. Mesmo porque minha presença seria desnecessária. A Copa era nossa. Mas deixemos essa história de 50 pra lá porque, sem exagero, ainda me deprime a lembrança daquele dia terrível de julho quando perdemos para os uruguaios. Prefiro falar de outras coisas como, por exemplo, a superlotação do estádio. Nunca mais estive em um campo tão cheio. Levantar a mão e depois abaixá-la exigia uma entente cordiale com os vizinhos. Não foi à toa que esse jogo Brasil X Suécia, durante anos, manteve-se como recordista de público no Maracanã. Muito bem, mas e o estádio? Decepcionante, para falar com franqueza. Ok, aquele monstro de cimento armado inflando nossos orgulhos nacionalistas. “Maior estádio do mundo”, por aí. Mas o diabinho da contradição roendo lá dentro e

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perguntando como era possível assistir a um jogo de futebol de uma distância tão grande. Os jogadores como mosquinhas diferenciadas apenas pelas camisas. Enfim, uma decepção. A razão óbvia é que costumava assistir a jogos de futebol num estádio muito melhor, o Governador Bley, de Jucutuquara. Aliás, não sei se ainda existe. Aquele espaço vago e subutilizado pela Escola Técnica não sei se tem ainda esse nome. Enfim, uma prova de como somos desleixados. Como se joga para escanteio, com tanta naturalidade, um espaço de expressivo significado para a cidade. Local que faz parte de nossa memória, daquilo que os historiadores chamam de “imaginário” e que vai adquirindo maior importância na identificação de grupos humanos. Desculpem outra vez, mas não posso evitar esse falar sisudo ao me lembrar do desperdício que representa para a vida da cidade a desativação virtual do velho Governador Bley. Uma injustiça não apenas para os riobranquenses que o construíram, depois o perderam, voltaram a ganhar e depois o venderam precipitadamente para a Escola Técnica. Existirá alguma esperança na aparição de um príncipe que o livre da condição de sapo? Voltando às recordações de futebol. “O Fluminense vem aí” – me diz Paulo V ­ ellozo

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num intervalo das aulas da Faculdade de Ciências Econômicas onde éramos professores. Inimigos quando os jogos eram aqui. Ele Vitória, eu Rio Branco. Mas no âmbito federal éramos aliados. Ambos tricolores, pós de arroz. Fomos lá no domingo. Paulo, tricolor doente e que acompanhava todo o noticiário esportivo, me dizia que o Fluminense estava estreando um novo zagueiro, uma revelação. No dia do jogo, como sempre, com o coração meio dividido embora o jogo fosse contra a Desportiva ou Vale, não me lembro. Mas era o time da Cia. Vale do Rio Doce. Aquela história, time da terra, etc. mas era muito difícil fugir do imperialismo do futebol carioca. Enfim, sem maiores delongas, ambos torcemos para o Fluminense. O tal beque revelação mencionado por Paulo vem aqui para a direita, no lado da arquibancada. Disputa com o ponta-esquerda e estoura uma bola, de canela, com o atacante. Jogada muito bisonha. A bola, saindo pela lateral, quase bate na cadeira onde estávamos sentados. O zagueiro chegou a dar uma olhada meio envergonhada para onde estávamos. E então entra Paulo: “Boa, Carlos, boa.” “Boa?” – encarei Paulo.

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“Calma. É preciso incentivar o menino.” Não sei se o zagueiro Carlos ouviu o incentivo de Paulo apesar da jogada de perna de pau. Talvez tenha ouvido sim. É uma boa hipótese. A distância entre a arquibancada e o campo era de, o quê? Uns dez metros. Se tanto. Posso até imaginar o Carlos olhando agradecido para Paulo. Me pergunto até que ponto o incentivo de Paulo contribuiu para a carreira desse zagueiro que, quando cresceu, passou a ser o Carlos Alberto Torres, campeão mundial de futebol. Enfim, estádio de futebol mesmo era aquele onde havia possibilidade de interação entre os espectadores e os atletas. Abro apenas uma exceção para o campo do Esporte Clube Campinho que não tinha nem cerca. A grande vantagem, para nós, garotos, era que, quando o nosso time estava perdendo, havia um cidadão de nome Joanes, ex-lutador de box, que entrava em campo e exigia que o juiz restabelecesse a justiça. Mas, claro, aqui estou brincando.

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PARTE XII

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ESQUECIMENTO

O amigo Hegner Araújo, que leu estes originais,

me telefona e diz que me esqueci de um personagem importante no capítulo “Torcedores”. Acrescenta que não compreendia como poderia esquecer, como riobranquense, de um torcedor tão marcante como Mané Donêncio. Dou razão a ele e me justifico dizendo que, para escrever essas recordações, não me vali de nenhuma consulta a velhos jornais nem fiz qualquer tipo de pesquisa. Intencionalmente, me vali apenas de minha própria memória e certamente haverá muitas falhas semelhantes. Paciência. Mas no caso do Mané Donêncio, realmente, a omissão foi um lapso indesculpável. Ou seria uma dessas coisas que ficam ruminando no inconsciente e permanecem soterradas até que alguém a expulsa para o dia claro? Essa a hipótese mais aceitável. Mas como? Alguma restrição ao velho Donêncio e sua paixão pelo Rio Branco? Claro que nenhuma restrição. Além do que, nos dias de jogo, ele tinha uma turma que o acompanhava desde Fradinhos, onde morava, até o estádio. Nada de parecido com essas torcidas organizadas de hoje, cheias de ódios e armas. Não. Era uma turma de adeptos do Rio Branco, mas também

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e sobretudo da ideologia donenciana, se posso falar assim. Qual ideologia? A da marcação. Quem não se lembra do Mané Donêncio gritando de tempos em tempos, durante os jogos: “Marcação, Rio Branco”. Certa vez, o próprio Orion, um dos nossos becões símbolo, me disse que o alerta do Donêncio era muito importante para toda a defesa. Sim, mas aí é que estava. Ninguém é tolo de subestimar a boa defesa de um time, mas, por outro lado, defensivismo era algo inaceitável para nós. Afinal não estávamos ainda tão longe da Segunda Guerra e não havia saído de nossa cabeça a linha Maginot. A descrição dessa linha na fronteira da Alemanha com a França, com suas linhas férreas subterrâneas, seus canhões e metralhadoras, creio, dava aos franceses uma sensação de segurança afinal pulverizada na guerra-relâmpago lançada por Hitler, com a invasão da Bélgica e da Holanda. Enfim, os alemães ignoraram a linha Maginot, atacaram pelos flancos, pelo norte e, em poucas semanas, estavam bebendo chope em Paris. Ou seja, a “marcação” dos franceses resultou em derrota fragorosa. Talvez por isso o grito do Donêncio não me entusiasmasse muito. Preferia as escapadas do Michel Minassa pela extrema-direita, pelo flanco, procurando a cabeçada certeira do Maurício ou do

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Itamar, o tanque que Santa Teresa nos mandou. Esta pode ser uma explicação fantasiosa e exagerada para o esquecimento do Donêncio nestas ­memórias. Infelizmente não tenho outra. O fato é que embora por caminhos diversos ambos lutávamos por uma causa comum: o sucesso do alvinegro.

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PARTE XIII

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MISCELÂNEA

Por ora são essas as minhas recordações mais vi-

vas do futebol. É verdade que existe um território cinzento, sem fronteiras e sem lógica, que flutua num universo paralelo. Tentar capturá-lo é um exercício difícil, mas também, acredito, necessário para finalizar este painel de um esporte que hoje não terá tanta importância assim para os jovens mas, em nossa época, era o jardim lúdico onde descansávamos de estreias na vida nem sempre triunfais. Quem vem lá boiando numa lembrança quase apagada? Entrou pelo portão que dá entrada para a pista, para o gramado. Terno branco, linho S-120, lá vem ele. Sapatos também brancos, óculos e um sorriso permanente no rosto. Acena para todos os que estão na arquibancada. Em especial os que estão do lado direito aplaudem vigorosamente aquele senhor que vai se dirigindo para o centro da pista onde se reúnem as pessoas que tomam conta da súmula da partida. O jogo ainda não começou e o presidente Hugo Pereira de Souza vai até à mesinha onde estão as autoridades do jogo para informar qualquer coisa. Certamente será algo em defesa dos interesses do Rio Branco porque a partir de certo momento de sua

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Recordações do futebol de Vitória

vida era a única coisa que interessava a “seu” Hugo. Há algo mais relacionado com “seu” Hugo que vai adquirindo contornos nessas lembranças esgarçadas. É que ele, Hugo Pereira de Souza, um importante exportador de café, em certo momento de sua vida resolveu sair de sua casa na cidade para vir morar em Jucutuquara, perto do estádio, perto do motivo maior de seus últimos anos de vida, o Rio Branco. Páginas atrás me lembrei do Maurício, um centroavante de muito talento. Falei de sua mãe que entrava em campo quando alguém fazia uma falta mais dura em seu filho. Mas agora me lembro também que ela era a matriarca de uma família de pessoas ligadas ao futebol. Claro, era a mãe do Rubinante e do Ranulpho, ambos juízes e moravam no final da rua Barão de Mauá. Não sei contudo se eles chegaram a apitar jogos em que o irmão Maurício jogava. E também não sei como a santa senhora reagiria diante de um impasse entre o jogador e os juízes. Recuso-me ao efeito fácil de uma situação que não ocorreu. Juiz mesmo, juiz símbolo daquele tempo foi o Gabino Rios. Diziam as péssimas línguas que o Gabino levava uma peixeira debaixo da camisa sempre que ia apitar um jogo. Verdade ou não, o fato é que nunca vi um jogador contestar de forma mais dura

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qualquer marcação do Gabino que era um tipo baixinho e franzino. Dilson e Leão, juízes de outro tipo: comandavam o jogo no berro e na marra. Gildo, um goleiro misterioso. Ou melhor, genioso. Nunca vi alguém tão sistemático na defesa de seus pontos de vista. Gildo faz uma defesa espetacular. “Um grande goleiro, tem muito futuro” – vaticinavam. Gildo discute com a defesa, a defesa discute com Gildo e então, Gildo simplesmente não faz mais nenhuma defesa. Recusa-se a jogar embora permaneça debaixo dos paus do gol. Então lá vem gol. Até que o treinador resolve tirá-lo do time, o que também não era fácil porque ele passava a discutir com o treinador e custava muito para sair. Acho que ele nunca vai ser desbancado de ser o técnico mais elegante do futebol capixaba. Chegava ao estádio, o Giudicelli, cabelos colados ao crânio com boas camadas de brilhantina, impecáveis ternos de corte italiano e sapatos idem. Era técnico do Vitória. Observava atentamente o desenrolar da partida e tinha um modo peculiar de se comunicar com os jogadores que naturalmente compreendiam bem suas instruções. Sem dúvida, havia um código secreto indecifrável para nós espectadores já que nos parecia que a mensagem era sempre a mesma.

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Recordações do futebol de Vitória

Quando resolvia passar as instruções, a forma como eram transmitidas eram idênticas: mãos espalmadas para baixo em movimentos rápidos e a mensagem “Amigos, amigos...” Os jogadores deviam entender porque, na época, o Vitória era um time de respeito. Meu amigo Mossoró, técnico do Rio Branco, foi insuperável. Além de ter sido um tipo humano de impressionante dignidade. Pobre e altivo como um aristocrata, Mossoró não bajulava dirigente e que ninguém se atrevesse a sugerir a escalação desse ou daquele jogador. Estimado e respeitado pelos jogadores, deu muitos títulos ao alvinegro. É possível que mais tarde surjam outras recordações mas por enquanto fico por aqui. Muito obrigado aos que me acompanharam até aqui.

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APÊNDICE

Bem antes e muito depois “daquele tempo”


Ivan Borgo

Circa 1939...

O CAMPO

Todo ano, no mês de junho, festa de Santo Anto-

nio no átrio de sua capela no subdistrito do mesmo nome, a três quilômetros de Araguaia. Íamos todos, de charrete ou no trem que passava em Marechal, perto de nossa vila. Na festa, os adultos, depois das rezas, interessados apenas nos leilões ou nas roletas instaladas no meio de pés de palmito fincados na terra e enfeitados com coloridas bandeirinhas de papel de seda. Nós, as crianças, brincando em correrias intermináveis que passavam pela mata espessa, próxima da capela. O raio das correrias incluía o cemitério onde estavam sepultados os primeiros imigrantes italianos que povoaram o lugar. Nossos parentes. Seus túmulos serviam também de esconderijo no picolê e, de certa forma, os tornavam participantes da festa. Entre as crianças, o Jair Ronchi, meu primo-irmão, que mais tarde se tornou grande amigo. Numa pausa das correrias, debruçado numa cerca de arame farpado, o Jair anunciou para os demais garotos e, para minha

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Recordações do futebol de Vitória

surpresa, que eu era o ponta-direita do time infantil do Esporte Clube Campinho. Ouvi e não desmenti meu primo. Numa ínfima fração de tempo adquiri um status inesperado. De fato, tinha dito ao Jair que junto com outros meninos estava treinando no campo do time de Campinho, mas nunca lhe havia dito qualquer coisa como “ponta-direita” ou algo similar. Éramos apenas um bando de garotos correndo atrás da bola de maneira atabalhoada. Pensei em retificar a informação do primo, mas, quem sabe, o Jair teria uma informação exclusiva que eu desconhecia? Estaria embutida em minha carcaça infantil um futuro Hércules jogador de meu time no Rio, o Fluminense? Melhor não pedir maiores explicações ao Jair e faturar a novidade. Como já estávamos cansados, fomos tomar gengibirra nas barracas e comer polenta com queijo, que a fome já cobrava o preço das brincadeiras. A certa altura, o Jair me perguntou se nosso time de garotos não poderia jogar com o de Araguaia. Eu lhe disse que quando voltasse para casa iria conversar com os outros garotos. Mas de repente me lembrei de que, em Araguaia, não havia campo de futebol. – Não tinha, mas agora tem – disse o Jair –, quer ir lá para ver?

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Falei com meu pai e ele nos levou na charrete. Era verdade. No início da vila, num pasto, ali estava o campo. Marcado com cal nas quatro linhas, círculo central, áreas, meias-luas e tal. Traves. Andamos até uma das linhas de fundo e olhamos para o lado oposto. Havia algo estranho. As traves estavam dos dois lados, mas havia um detalhe: quem se postava numa delas só via a metade da outra por causa da topografia do pasto que tinha um grande calombo no meio. Não tive coragem de falar do defeito porque o Jair, empolgado com a inovação urbanística da vila onde seria travada a peleja proposta, não se cansava de falar das virtudes do campo. A peleja? Nunca aconteceu.

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Recordações do futebol de Vitória

2013...

Tardes amarelas

Falávamos daqueles pré-históricos jogos de futebol

no Estádio Governador Bley. Xerxes, um aficionado, como eu, na época. Não perdíamos um jogo, aos domingos. Então Xerxes, falando desse tempo, disse a frase: “Lembra? Eram tardes amarelas”. Exatamente. Dessas frases-síntese que resumem a multidão difusa de personagens e cenários como essa do Marien Calixte, que fala de nossa cidade. “Tardes amarelas” nos remetem a uma dessas idades de ouro que certamente nunca existiram, mas que, no caso, se traduziam em dias de sol fazendo estalar a grama verde do campo de futebol, os morros sempre coloridos que circundam o Estádio onde nossos times eram sempre vencedores, os atletas excepcionalmente bons, os torcedores grupos de pessoas educadíssimas e solidárias, etc., e que, na verdade, no fundo, expressam uma saudade dos verdes anos. Tempos que conseguiam se materializar numa utopia, por assim dizer, na frase feliz do poeta Xerxes Gusmão Neto.

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Essa uma das inumeráveis e gostosas conversas de nossos intermináveis almoços das quartas-feiras, numa fase em que Xerxes voltava para Vitória depois de exercer importantes cargos executivos no Rio de Janeiro em jornais e rede de televisão. Almoços como uma festa. Esses almoços das quartas-feiras, para alguns, faziam parte de uma prévia para as reuniões do Instituto Histórico, onde Miguel Tallon era presidente. Os almoços começavam ao meio-dia e as reuniões do Instituto, às dezesseis horas. Nesse tempo Xerxes passou a ser membro do Instituto, onde publicou o seu livro de poesias “Sangue no Muro”, que fez parte da “Dezembrada de 1997”, nome cunhado por Luiz Guilherme Santos Neves para celebrar o tradicional lançamento de livros que o IHGES faz nos finais de ano. Xerxes se emocionava quando se lembrava da grande festa que marcou o lançamento de uma trintena de autores (inclusive ele) na Cantina do Julinho, na Mata da Praia, sob a batuta do Miguel. Quando fiz uma pequena resenha daquela festa e a publiquei na revista ESSA, vi os olhos do Xerxes brilhando de saudade. Uma saudade que agora todos temos dele. Fica difícil falar disso tudo sem cair nas banalidades do que há de patético na existência humana.

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Talvez, no caso, como o de tantos amigos que ultimamente nos têm antecedido na “grande ­aventura”, dizer que exatamente o registro é feito porque suas vidas não foram banais.

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ÍNDICE Parte I De “compactos” | 13 Rio Branco | 14 O adolescente e a visão | 17 Um gênio do futebol | 21 Aquele jogo da seleção capixaba | 25 Os mineiros | 32 Parte II O ofício | 36 O convívio | 39 Parte III Alguns torcedores | 42 Parte IV Aficionados | 50 Parte V Cerveja amarga | 56 Cerveja gelada | 59 Parte VI Perigo | 68


Parte VII Flamengo x Vitória | 74 Uma ideia infeliz | 75 Um chutador fantástico (Cenas I e II) | 78 Parte VIII O velho futebol da montanha | 82 Parte IX Jogadores | 88 Parte X Saudosis mo | 96 Parte XI Estádios | 98 Parte XII Esquecimento | 106 Parte XIII Miscelânea | 110 Apêndice O campo | 116 Tardes amarelas | 119


Tertúlia Conheça a literatura produzida no Espírito Santo

www.tertuliacapixaba.com.br

Composto em Britannic Bold, Swis721BlkCn e Minion Pro. Impresso em papel Alta Alvura e Duodesign pela Formar em abril de 2015.


Ivan Borgo diz que Recordações do futebol de Vitória é um livro impressionista. Garante que o futebol é apenas um pano de fundo, cenário que serviu para desfiar as recordações de uma Vitória nos anos 50/60, hoje quase mítica. Estou certo de que a maior parte dos leitores desta 3a edição do livro ainda não havia desembarcado nesse “vale de lágrimas” quando Ivan começava a frequentar, lá em Jucutuquara, o estádio Governador Bley em busca das emoções que só aquele futebol, e o amado Rio Branco A.C., poderiam imprimir no coração de um jovem aprendiz de humanidades. Então, leitores, aproveitem, porque parte disso está gravado em preto e branco nas páginas deste livro, mais que impressionista, impressionante! Boa Leitura. (Caco Appel)


Ivan Borgo

(...) Puxar pela memória, traçar em linhas es-

critas suas recordações, não deixa de ser um ato de generosidade para com os contemporâneos. É que assim uns restarão eternizados; outros, estando entre nós, se verão desafiados a contar a própria versão dos fatos, revivendo tempos que já se foram. (Getúlio M. P. Neves)

ISBN 978-85-99380-27-7

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Recordacoes do futebol de vitoria  

Recordações do futebol de Vitória, de Ivan Borgo, é um pretexto para rememorar histórias e pessoas dos anos 1950 em torno do esporte bretão....

Recordacoes do futebol de vitoria  

Recordações do futebol de Vitória, de Ivan Borgo, é um pretexto para rememorar histórias e pessoas dos anos 1950 em torno do esporte bretão....

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