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Adilson Vilaça

A possĂ­vel fuga de Ana dos Arcos

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Capa original do livro por Zupo Texto classificado em primeiro lugar no Concurso Literário Permanente do Espírito Santo (Prêmio Geraldo Costa Alves 1983) patrocinado pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida. © Adilson Vilaça. Todos os direitos reservados ao autor.

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Índice URBANOS: A primeira noite - 7 Identidade para os gatos pardos - 14 Boca de forno - 20 Dalva e Rubens Melodia, subproletariamor - 26 Olhos de pai coruja - 33 As sete noites que fecham o ciclo - 38 DESINFANTIS: As tranças de Rapunzel - 44 O maioral - 48 COLAGEM: Vende galinha-se ao fundo de greve - 54 ESQUIZOS: A possível fuga de Ana dos Arcos - 68 O segredo da família Torel - 75 5


MITOLÓGICOS: Mercuriano, o caixeiro-viajante - 87 Veranice que devorava minotauros - 94 TERRA: Contem os nossos mortos enterrados no vale - 100 EXPERIMENTAL: Ofício do contor - 108 ALEGÓRICOS: A cidade fantasma - 115 O cerco da terra - 132 Unidos de Bailalua - 133 A possível fuga de Ana dos Arcos – Deny Gomes - 146

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A primeira noite

De que me vale um conto se não posso cantá-lo a um quarto espantalho? 1 Ademilson Nascimento dos Santos sentiu que os pontapés haviam acenado uma trégua, sentiu que umas mãos de martelo agarravam-no reagrupando o corpo esquartejado, suspendiamno, e nesse momento compreendeu que estava chegando a hora do pau-de-arara. Antes que uma dor lancinante começasse a acariciar a molência dos músculos, estrondou nos miolos a queda de uma tonelada de recordações desabando do teto esburacado de mapas incompreensíveis. E relembrou uma tarde muito distante em que descia a crepuscular ladeira da Rua São João, longuíssimo acesso ao Morro do Quadro, com todos os santos da Santa Igreja Católica, e os estivadores retornavam empoeirados de cansaço. 2 Silêncio de ferrugem e grilos Silêncio manchando de óleo o tempo 7


a folha caindo no catre sapato velho na cela e nem sabia eu dessas armadilhas da solidão que me espreitavam lenta primeira noite no cemitério de sucata. Gibi me disse que tudo ia ser na maior bacanagem, uma transa do outro mundo. Eu estava meio gelado, mas nunca fui cagão. Deslizamos entre a sucata, segurando os apetrechos do fogão de lata ambulante e um pouco de carvão, de quebra. Cri... cri... cri... vi as duas figuras sentadas, uma sobre a carcaça de um wemaguê e outra no capim. Olharam-me com aquela cara de quem quer respeito, um deles tinha cara de kung-fu, amarelo de olhos quase nenhum. O outro era um crioulo com jeito de mestre-sala, um franco sorriso abrealas. Me sentei. O charuto era de metro. Acenderam nas brasas do meu fogão de amendoim. Passei a grana. Um cheiro adocicado rodopiou no ar. Mandei aquela cachimbada. Cri... cri... cri...

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Senti um cardume de olhos nadando na cara, segurei o colírio senão sujava a barra. Gibi ia fundo. E nem sabia eu, da primeira noite. Repete meu nome, disse o crioulo. Silêncio. O China disse, Flávio. Gibi me cutucou, assoviando com os dentes. “Plávio”, disse. Estourou uma rasadaiada. Saiu um papo. Mais tarde, saímos cada um pro seu canto. As minhas pernas pulavam um pouco, os joelhos tinham molas, parece, na primeira noite. 1 A mulher subia a ladeira lenta, corpulenta, levando sobre a cabeça recendendo ao cheiro de mangue da pasta de alisar cabelo, a ferro e fogo, um trambolho que na juventude poderia ter sido um guarda-roupa, e a mulher planava com o peso, os passos buscando um e outro canto da rua, numa dança bêbeda e sofrida. Recolhera o móvel carcomido num monturo qualquer da cidade, envolta de cimento e conforto, de cães de guarda, a mulher balançava os seios vespertinos e a gargalhada de músculos explodiu bem próxima de suas nádegas esplêndidas, um rebuliço de gracejos viajou a vermelhidão desesperada dos 9


últimos raios de sol, os estivadores se achegaram como moscas do verão e esparramaram os deboches sobre a via. Aterrissaram o restolho de madeira prensada, a mulher arquejava alguns balbucios e o vento rosnava sacudindo a biruta do cansaço, e as asas do avião-planador ergueram-se como uma sacola de palha nos braços hercúleos forjados pelos séculos de escravidão. A procissão foi subindo, subindo, subindo num alvoroço de risos negros, planando, arrastando a mulher com rebocadores invisíveis, enquanto uma agonia de pardais anunciava mais uma noite de ventos fortes. 2 Esse canto bem mais que encanto penetra pelas frestas das grades penetra paredes de abissal silêncio e se faz noite e se faz dia e se faz nuvens e nu vem de encontro à agonia. Subi a ladeira lento, os meus pés compassados com os da mulher. Numa curva lá no morro, os estivadores pararam. Dona Noca agradeceu. Pegamos no trambolho. Chegamos ao barraco. 10


A mulher foi ajeitando o cheiro de naftalina dos guardados. E tinha uma pinga e tinha uma noite. De ventos fortes. O Gibi me deu a dica. O Papo-Furado tinha dado no pé. Vendeu o barraco com Dona Noca e tudo. Mas ela botou banca. O otariano dançou no recibo e ela continuou por lá, sozinha. A primeira noite, antes uma garrafa de pinga. Cheirou a naftalina, gemidos fortes e suspiros esplêndidos. 3 Ademilson Nascimento dos Santos, ex-vendedor de amendoim torrado, procedente de Colatina, sem parentesco na Grande Vitória, preto, porém com todos os dentes, vinte anos com cara de 15 (quinze), delito flagrante: arrombamento. Dançou. Arrombou a casa do bacana sem cobertura, lia o China no jornal. Gibi, disse o Flávio, vamos fazer o menino. 4 Esse canto bem mais que quebranto benze a ferida sulfúrica e pânico de palavras que se buscam e se penetram em cópulas su11


aves neste céu estranhamente bloqueado. Saí. A primeira noite na prisão, moído, estropiado. Senti cansaço e solidão. E me afoguei de boas lembranças e cantei. Como me foi possível cantar. Cantei a vida, a minha. Meio alucinado ou grogue, tentei alinhar o ano dos dezesseis anos e contei os fatos para o teto esburacado de mapas incompreensíveis. Não se ouvia um cricrido no cemitério de sucata. Vez ou outra, gritos lancinantes. 5 Deslizamos entre as sombras. Flávio com seus passos de veludo, as longas mãos ocupadas com o pé-de-cabra. China rasgou o vigia da casa, meu coração quis dar um pulo. A meia na cara incomodava. Gibi estava na rua, de berro na precisão. A máquina pesava um pouco. Safado, me cochichou o China, vigiando o que não é dele. Entramos. Gibi já pulou o muro e ficou no quintal, na frente. Logo estavam todos na sala. O homem só pedia para não fazer nada com as crianças. Tapamos a boca dele e de todo mundo. A boca dela, da cadela, mais tarde eu iria abrir para um beijo. Levamos o homem e as duas crianças para um quarto. Trancamos e dispensamos também a babá, era uma criança a mais. Mas quem dizia tudo era o China. Disse, a empregada é sua. Era um par de pernas, bem-apanhada a morena. Mas falei do beijo, numa loira, nunca tinha dado. 12


Era a primeira noite, ele concordou.

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Identidade para os gatos pardos Eu já tinha bebido para o ano inteiro. Seria aquela noite. Um cheiro de ânsia vazava pelos meus poros. Esperar é uma merda. Marreco cutucou no meu braço e ofereceu mais um copo. Bebi. Cuspi. Porra, cachaça ruim. Onde buscaram essa tralha, perguntei. Na prateleira de seu Ninico, respondeu Boca Nua, que era um catorzinho dos bons. Afanava qualquer mercadoria. Tá uma palha esse tempo, disse Paulinho olhando para o céu que queria chover. Seria aquela a noite. A grande noite. A filha do seu Polósio tá meio te querendo ganhar no grito, comentou o catorzinho do Boca Nua com seu sorriso abre-alas. Não é Polósio, seu burro. É Polovsky, corrigiu Marreco. Como pode um garoto dessa idade não ter leitura nenhuma, ô meu, como pode! é uma mãe não saber criar um filho. Não gosto de mulher branca, cortei. Deixa o garoto em paz, Marreco. Daqui a pouco vamos precisar de mais uma garrafa e quero ver se você, com toda sua raiz quadrada, consegue descolar uma no meio da galera toda que está lá no bar do Ninico se empapuçando. Não gosta de branca, continuou Paulinho, tu não gosta é do meu cacete, meu camaradinha. Não gosto de pirão sem sal, gozei. Marreco, rindo, vai que Paulinho tem razão. A garrafa acabou. Vai firme, vampirinho de Caratoíra, disse para o Boca. Seria aquela a grande noite. O que que você vê numa branquela, ô Paulinho, perguntei. 14


Vejo tudo que uma crioula não tem, disse. Elas têm cabelos esvoaçantes, lindos, pernas lindas, sorrisos com todos os dentes, a pele macia, nariz que não é aquela barraca, mãos que são uma graça. E toda crioula é puta. Puta preta. Fedorenta. Então Dona Benedita é puta, Paulinho, perguntei. Num põe a minha mãe no meio. Vamos conversar conversando. Sem ofensa. A gente tá comentando de mulher, não é de mãe. Se eu gostasse de preto comprava um falante da Telest pra minha caxanga. E eu se gostasse de preto andava com urubu debaixo do braço, disse o catorzinho entrando com mais uma garrafa de Beira-Mar. Marreco abriu a garrafa. Sabe o que eu acho? O seguinte, ia dizendo Marrecão, com seu cabelo alisado: Mulher branca é como algodão e preta é como carvão, e estourou numa risada. Mas o assunto aqui é sobre a filha do seu Polovsky, lembrou Paulinho. Não tem transa nenhuma não, dei novo corte. Mas que ela olha pra você e se gruda em você lá nos ensaios do Novo Império isso é verdade, riu Marreco. Ela tá querendo é dá pra ele, disse o catorze do Boca. Todos riram. Bebemos mais um pouco e saímos. Deixei os outros e peguei um ônibus para a grande noite. Toda esta estória começou quando o seu Polovsky resolveu ser presidente da escola de samba. O ônibus rodava. Sempre levava a filha para os ensaios e vez por outra a mulher dele também. Ela gostou mesmo é do meu repinique. Essa estória de presidente de escola de samba dava muitos votos para o seu Polovsky. A filha dele ficava lá pisoteando o samba. O ônibus rodava sempre. No repinique eu era mesmo uma fera. A bateria para e espera o meu chamado. Eu penso em tudo. Na África 15


também, que eu acho um lugar muito longe. E como vieram de lá os nossos mais velhos, quando eram crianças lá e brincavam, eu acho. Eu penso em tudo. Me sinto um mágico, um super-homem. Esqueço das brigas com Marrecão que quer ser branco e estica o cabelo com uma pasta fedorenta e às vezes usa ferro quente no cabelo e sente dor de cabeça. Até hoje somos torturados, deformados. Esqueço quantas vezes quis ser branco, loiro, ter um metro e oitenta e dinheiro. Só a magia arrancada do repinique me dá paz, como é bom. E a bateria espera. Espera. E depois entra com a força de um leão, de um pelotão de choque. Surdo, tarol, chocalho, agogô... gota de suor que pinga do meu corpo no meu corpo é uma sensação legal. O ônibus rodava sempre em direção à grande noite. Ponto. Desço. Espero um pouco. Em frente ao Cine Paz. Não deu um cigarro. Outro ônibus. A passagem anda mais que a velocidade. Roleta. Freada brusca. O motorista querendo arrumar o carro. Não sei pra quê: tá vazio. Sento. Penso. Eu sou um fodido. A filha do seu Polovsky se engraçou. Eu sou um preto bonito, disse ela. Tenho olhos claros, verdes, e nariz afilado que minha avó materna, branca, botava pregador de roupa para não correr o perigo de esborrachar. Minha mãe é meio branca. Meu pai é preto. Retinto. Nariz de barraca. A filha do seu Polovsky acharia meu pai feio. Ele era bonito. Eu sou bonito. Não sou mulato. Mulato é filho de mula. Eu sou preto. Negro. Então quando dava o intervalo do ensaio lá estava ela com uma cerveja geladinha para mim. Um dia eu disse que nem era eleitor. E ela disse que não era candidata. Rimos. Então ela me disse que estava cansada de ser a filha do senhor Polovsky e que o nome dela era Ludmila mas que podia chamá-la de Mila. De noite todos os gatos são pardos, pensei. E ficou assim me ganhando no grito como disse o catorzinho do Boca. E eu sentia o olhar como um 16


punhal das meninas do morro. E eu sentia o ódio delas. Eu sinto. Por que elas não têm os vestidos que as branquelas têm, não têm os cosméticos, os enfeites, nem casa com azulejo, nem esgoto tem, nem chuveiro, nem água, nem luz às vezes. A favela é como uma perna podre da cidade, uma gangrena, um dormitório que é uma doença, um perigo espreitando a cidade pacificada com suas vitrines, seus anúncios, seus edifícios e apês, seu cheiro de limpeza, com sua solidez de cimento, seus soldados violentos que invadem o morro e espancam até tirar sangue e dignidade. Mila é a cidade em sua parte mais rica. Estou indo rumo à grande noite. Quase passo do ponto. Salto. Espero. Cheguei cedo. Sou um filho da puta, um vendido. Gostaria de escrever pra minha mãe. Diria a ela que não sou mais o mesmo. Que sou um preto dentro de outro. Que meu ódio está me devorando como devorou meu pai. Que enlouqueceu e matou meu irmão com uma paulada. E a polícia deu um tiro nele porque ele não obedeceu à voz de prisão. Mas isso a senhora já sabe. Eu quero dizer de mim que estou aqui. Como dizem, exilado. Um dia eu vou voltar pra Bahia e quero sentir todos os seus deuses me abraçando, deuses da África, comer farofa nas encruzilhadas com os exus. Ficar lá pelos becos da minha cidade andando. Andando atrás das garotas. Com os amigos. Eu não roubei não, mãe. Eu sempre lavei os carros com honestidade. Não vi nenhum relógio. Não roubei. E seus doces, iria perguntar. Mas não vou escrever porra nenhuma. Que fique com seus doces, seu tabuleiro, sua vida. Um amigo meu, lá de Flexal, se estourou quando ia atravessar a Avenida Vitória. Foi arrastado uns quinze metros pelo asfalto. Morava com os tios. O dono do carro deu uma grana. Eles nunca tinham visto tanto dinheiro. Trouxeram o corpo pra Emescam. Entrou mais umas quininhas. Dá vontade de invadir e pegar os pedaços do Amilton, era o nome dele. Não gosto de ficar 17


parado na frente desse lugar. Parece um cemitério onde não se enterram os mortos. Mas se não fosse assim como se fabricariam os médicos, eu não sei como seria. Isso tá se tornando uma merda de noite e essa lua grande parece que vai desabar em cima de mim. Buzina. Rasga o silêncio como navalha. Era ela. Mila. Uma deusa do mundo civilizado, acho. Entrei no carro. Ninguém olhava. Fui pra trás e deitei atrás do banco dianteiro. Espremido. O carro ia em direção à grande noite, em direção ao Barro Vermelho. Minha cabeça rodava. Bebi demais. Foi rápido. Ela desceu para abrir o portão da mansão. De noite, somente os gatos pardos se reconhecem. Se eu fosse alto e loiro não estava aqui espremido. Porra, mas eu sou o fera do repinique e quantas garotas já tive nem não sei. Fechou o portão. Entramos. Salte e entre logo, ela disse. Saltei e entrei. Meu tesão, ela disse, meu mulato adorado, ela disse. Ela disse, pega uma ducha. Eu senti a água morna no meu corpo. Ela abriu a porta do banheiro, que era maior do que a caxanga do Paulinho, e ficou me olhando nu dentro da banheira peladão. Ela saiu e voltou com um baseado. Me ofereceu. Dei uma cafungada. Fiquei solto. Sem nenhum paraquedas. Ela saiu. Me enrolei numa toalha. Saí. Ela entrou no banheiro. Passou por mim nua. Dei um beliscão. Ela riu. Se eu podia tudo por que beliscar, pensei. Ela ria da minha mocoronguice. Ah, eu sou de São Salvador, sou o maioral. Ela deve estar na banheira, pensei. 18


Fui até lá espiar. Ela estava cagando. Perguntei pela bagana e saí. Dei mais uma cafungada. Fiquei de bobeira um dois três quatro cinco minutos... dez minutos. A noite era nossa, ela disse no dia que me convidou. A mãe estava numa estação de águas, e não imagino o que se faz num lugar desses. O pai dela numa convenção não sei-de-quê. Ó Mãe África, me ajude. Ela já devia estar na banheira, pensei. Entrei. Ela estava como uma sereia. Dei a volta na banheira e a abracei e com a outra mão fui pegando a navalha e rasguei a sua garganta. Mila era puro sangue. Pensei também numa égua puro sangue. Ela foi morrendo devagar. Nos meus braços. Os olhos dela me olhavam como duas baratas assustadas. O sangue tingiu a água morna. Tinha que me lavar direito, me enxugar, pegar joias, dinheiro e o que tivesse. Mas sem pressa. A noite era nossa. Foi o meu primeiro, único e verdadeiro batismo.

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Boca de forno Um rato risca o jardim veloz clandestino esquivo entre pétalas margaridas dálias begônias qual a diferença entre ratos e homens? 1 ...quem tomou já sabe quem não tomou há de experimentar se algum mal lhe fere o corpo espinhela caída secura no estômago tonteira no bocejo escuridão dos olhos todos esses males o óleo de bicuíba espanta e muito mais que isso aí é que vem a verdade um dia uma senhora me trouxe o filho que tinha uns dez anos e botava verme quase do tamanho da Januária - quieta Januária! essa cobra já me espantou muita freguesia tal esse tamanho que era o tamanho do verme que a inocente criança botava que parecia um cipó de mata virgem que o menino botava então eu disse óleo de bicuíba minha senhora... Ia de ver. Preto não nasce, aparece. Disse o chefe de polícia. Eu vou na forra. Sei lá onde tá meu povo. Tinha cinco anos meu pai um dia me levou no bar. Então tinha lá um polícia e quando meu pai ia saindo, gargalo cheio, aonde você vai perguntou. Não pode dar as costas pra autoridade sem pedir licença. Meu pai disse da minha vida cuido eu. Começou o pega de boca, é-não-é, então o enterro foi no outro dia. Minha mãe foi me deixando, caiu na vida. Depois arrumou um homem, amasiou. E tome porrada. Me escondi num vagão de minério e até hoje não sei o que é Baixo Guandu. 20


1 A vida bruta matéria bruta aço 1020A dor século XX criar da coisa morta um coração que cabe o mundo máquina. Fui despedido: a violência do aviso prévio me jogou no pano. Faca rasgando tripas, fogo queimando a barba, pilão amassando as mãos, correntes abraçando pernas, uma dor fria nos culhões. Sempre assim e agora? Essa vida é tão coitada. O camelô fala fala fala... Se eu fugisse, penso. Cuspo. A cobra se estica. Ao sol preguiçosamente... Todos os dias: a Vila Rubim é uma filial do purgatório ... o senhor o senhor mesmo de camisa roxa com os olhos fundos já parecendo um defunto com três dias de passamento esbranquiçado frio com medo da vida isso é causa dos males que tão roendo seus intestinos entra noite e sai dia olha que a vida é uma só a que Deus lhe deu e um homem de fé... Ia de ver. É preciso ser ligeiro. Não marcar vacilo. Daquela vez minha mão gemeu na palmatória, choque também. Cadê seus documentos, perguntava o home. Cantava o pau, ia lá molhava a palmatória. Meus documentos são minhas pernas. Pararam com o choque porque caiu a força, apagou tudo, meu protetor é forte. No escuro uns telefones sem registro na telefônica. Chega de vacilo.

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2 Aqui me tens, Sr. Empresário, as mãos o coração os pulmões aqui estou que te pertenço só peço trabalho-salário alimento para os calos sanguessugue-me. Quem são esses estranhos que me possuem? Que me lambem, me bebem, me esquiam, me dobram, me tocam, quem são esses olhos que me vigiam? Quem esses que me depositam no banco? As pernas louras de um desodorante... Mas não há desodorante para todos. Feliz é essa cobra que não tem sovaco. Alguns fedem. Outros compram óleo de bicuíba. Esse é um país difícil, o Brasil. Viver é conhecer Vitória... Viver é ter dinheiro! Viver é andar com pé firme. De Goiabeiras ao fim da Serra: precisa de torneiro mecânico? precisa de torneiro? precisa de? precisa? Calo, calos. 1 ... livre-se de qualquer mal angina no peito chiadeira se o homem não nasceu pra chaleira nem panela de pressão há que cuidar do corpo da carne fraca a alma pertence a Deus está em suas divinas mãos e Deus digo sem blasfêmia nem heresia na santa graça se conhecesse o óleo de bicuíba diria a seus filhos... Ia de ver. Um otário de longe é conhecido. Carteirão de mineiro. Vou fundo. A cobertura tá boa. Todo mundo olhando pra cobra. Nem um cabeça-de-cuia por perto. Barra limpa. Não 22


otário, não se balança não. O peru tá recheado. É só parar o balanço tá puxado. Barra limpa. Quero contar barão, hoje ainda afogo o ganso. No Parque Moscoso deve ter umas garotas por lá. Com o carteirão na cinta entro num leva-corno qualquer. Na cinta não, vou enfiar a bitela na sunga. Esfolo o cabrito logo, o otário não deve ter muito documento. Pô, o cara parece que nunca viu uma cobra, não vai parar de se esticar, ô meu? 2 A vida sobe o custo trabalho trabalho trabalho extra extra extra-trabalho escravo mil braços redemoinho rpm = 1800 olhos vermelhos na cabeça um estalo sucata!!! Matei uma peça de bronze. O encarregado esse país está cheio deles. Uma peça cara, precisão H9, tolerância nenhuma. Por que dobrei tantas noites? A ambição me fez perder o emprego, disse o encarregado. Sono tanto tonto sonho de olhos abertos. Nesse país é proibido sonhar. Também depois que a chave de placa entrou no peito daquele baixinho do outro setor... Sucata isso é o que somos. Despedido: no bolso uma carteira com esses documentos todos, uma pilha, eu queria ser metalúrgico no ASC. Feliz é você Januária, uma cobra. Tenho medo de cobra. O camisa roxa esse vai acabar levando uma dentada. Mas pra quem já tá meio morto... 23


3 Uma mão no bolso um braço abraça a mão um pânico um sufoco um grito ladrão caem vidros de óleo de bicuíba, camisa-roxa cai sobre Januária, confusão, mãos de pilão caem sobre o ladrão, porrada porrada porrada: sangue, o camelô acalma a situação. Escarnece: - “Esse nem óleo de biculba levanta mais”. Fundo suspira: arrasaram meu patrimônio... 4 - Boca de forno? - Forno!!! - Tudo que eu mandar fazer vocês fazem? - Fazemos todos !!! - E se não fizerem? - Ganhamos bolo!!! - Então engulam suas reclamações mesquinhas e não se esqueçam que o povo brasileiro é de índole pacífica. O delegado ouviu, anotou, aconselhou. Muitos tinham sido os participantes do linchamento. Três pessoas, no tumulto, foram picadas por Januária, a cobra, que era inofensiva e além disso só tinha uma presa. Queriam incriminar o camelô que queria incriminar os assassinos de Januária morta sob o peso de um porrete. Todos falavam ao mesmo tempo, no início. O delegado controlou a situação, no final. Marcou data para que alguns voltassem a depor: José da Silva Santos, torneiro mecânico desempregado quase vítima do afanador Emanuel do Rosário, 24


cujo corpo foi para a perícia; Pablo Asbual Mijangos, camelô meio cigano sem moradia ou rumo certo; Vitório da Conceição, doqueiro se não fosse ele o afanador teria cometido o delito; e Salvador Cardoso, camisa roxa e olhos fundos que matou a cobra e mostrou o pau. Um diário local registrou a ocorrência num canto de página da violência urbana. 5 Chamar-se José Emanuel Pablo Vitório Salvador é navegar o mesmo barco sem destino é galopar a mesma máquina pingente é palmilhar as mesmas picadas serpenteantes dentro das matas é brotar de um mesmo gesto e morrer de igual morte: tortura picada de cobra em nome da lei encontro de valentes febre do pântano fome na cidade cólera do dia a dia.

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Dalva e Rubens Melodia, subproletariamor Dalva e Rubens se amavam e já que se amavam se casaram. Não pretendiam ser felizes para sempre nem viverem mergulhados na eterna infelicidade. Aliás, não tinham muitos sonhos ou pesadelos. Ou? Viviam e se casaram. Para viver e morrer. 1 Dizendo a verdade, eu não amo assim loucamente. Gosto do Rubens, é verdade. Sempre vivemos juntos... Eu queria me casar com um cara rico, mas isso é difícil. E eu já estou um pouco crescida para vender amendoim torrado. Entre me casar com o Rubens e ser chofer de fogão... 2 Casamento é uma grande merda. Mas nessas alturas é um bom negócio. Sem pai e sem mãe e com um irmão cego... A Dalva fica em casa cuidando... Vou pra batalha. Sei que vou me dar bem como garçom. 1 26


Sei que o Rubens gosta de mim. A gente se entende muito. O Ray Charles se dá comigo, vai dar pra gente viver bem. E vender amendoim... Nunca mais. Uma dessas noites, ali na Praça Oito, um filho da puta beliscou os meus peitos. Veado, xinguei o velho safado. Se pelo menos fosse novo... E não beliscasse com tanta força... Ah, é gostoso o Rubens me bolinar, ele sabe das coisas. 2 Além do mais, fui o primeirão. A Dalva pode até ter transado pela aí... Acho que não. Não vai dar pra fazer serviço com o Porrão. Disse pra ele carregar o Palito, o garoto fica aqui no estaleiro, devorando bola, sinuca e baralho, isso não faz a vida de ninguém não, meu chapa. Preciso me mancar, desentortar essa bananosa senão o jogo endurece e na retranca ninguém faz gol. O Porrão vai ficar fora do campeonato em qualquer vacilo, a galera tem sede nele... Além do mais tem o Charles... O Porrão reclamou que o Palito não é mais pivete e também ainda não é galalau. Disse: o Boca-de-Aranha, ele reclamou que é vacilão... 27


O Porrão quer mesmo é que eu continue na tabela. Não dá, entrei numa de responsa, ô meu. Fiz Senac, aprendi a batalha de garçom, estou em outra. 1 O Porrão me dá um pouco de medo. Sei que ele e o Rubens andam de trama. Andaram puxando uns carros, eu sei. Aprontaram, vivem pra baixo e pra cima, os dois. Um dia, ele inventou de me cantar. Pensei que era disfarce porque já tomei nota de que ele é caso do Rubens. Até que não foi ruim, foi a primeira vez que transei com um gilete. Agora não posso mais dar uma bandeira dessa, sou mulher casada. 2 A Dalva bem que podia ser mulata. Eu sou mulato, bem claro. Se fizesse filho numa loura nasceriam bem castanhos, os bacuris. Ela é da cor do Charles. Feliz é ele, que não enfrenta esses problemas, só vê preto, é triste. o Porrão precisa entender, não vou morar com veado. Não posso ser bandido por causa do Charles. Se ele morrer sim, eu me desprego, me solto de berro na mão. Ficava com o Porrão, ele não dá na pinta, quem diz que um sujeito dessa musculatura gosta de entubar? 28


Essa é a principal diversão do Charles, armar palavras. O Rubens cortou muitos pedaços de madeira no tamanho de mais ou menos pedras de dominó. Com tachinhas ele foi fazendo as letras. Daí foi fácil ensinar o Charles a ler. Ele gosta de montar palavras. Agora ele mesmo faz as letras que está precisando. Lavar roupa, panelas, costurar, cerzir... Quando o Rubens está pra chegar, o assovio anuncia. A música é sempre a mesma: I Got a Woman. É uma música do Ray Charles, o verdadeiro. Não foi à toa que puseram esse apelido nele, o Rubens anda num gingado cheio de melodia, engalanado como artista. É esquisito mas eu sinto que eu e o Rubens fazemos parte de dois mundos diferentes. Estou sempre na sensação estranha de que ocupo o lugar de outra pessoa, de que sou uma sombra. É isso, sou sombra de uma árvore frondosa, um oiti acho, mas não sou a árvore. A árvore cresce e a sombra fica pregada no chão, queria tanto conhecer outras cidades, gente nova, o Melodia é a árvore frondosa ...

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Charles perdia hora para armar uma combinação de palavras que me deixasse feliz. Não conseguia. Passei a acompanhá-lo em sua arte cega. Rubens chegava do serviço e saía com Porrão. No início odiei a solidão. A vida de Rubens era futebol, viagens, praia, botequins... Destorci para todos os times, xinguei as estradas, o mar, as garrafas... Me acostumei. Sabia que mulher ele não tinha, pois o Porrão não largava o pé. Cheguei a pensar que estava cega, como Charles. O meu mundo era o dele, um mundo de armar palavras, uma cegueira. Não sei direito como foi a primeira vez. Eu e o Charles sempre juntos... Os carinhos macios, os arroubos que se prolongavam horas a fio... Charles colocava no toca-fitas a interminável I Got a Woman, os sons se buscavam, batiam cegamente nas paredes, saltitavam sobre a cama... Era a paga pelo preço da solidão e do tédio. E Rubens já não chegava assoviando. Ele não aguentava mais a escuridão, consolavam. 30


Por mais que jurássemos que seria a última vez, o pecado mexia, brincava com nossas forças, nunca ia ter fim. Charles se matou, se cortou de navalha, ficou horrível. Não havia outro jeito de parar com a loucura que começamos. Chorei um pouco. Rubens me culpou, disse que eu não devia deixar a navalha em qualquer lugar, estava sentido, mas a navalha era dele mesmo. Disse que ia se soltar, ia fazer e acontecer, estava como um animal acuado. Ficou num falavrório sem sentido, cheio de mágoa. Ele e Porrão iam armar um golpe. Disse que ia me dar uma grana alta para mim me cuidar na vida. Não ia mais viver a vida de casado. Disse para ele que estava grávida, a menstruação que não vinha. Ele me olhou com uma ternura sem jeito. Saiu assoviando uma música muito triste. Viaja no espaço o aço do bem. Atravessa a noite bandoleira caçando o corpo em fuga atravessando a noite o corpo o aço atravessa o corpo sem fuga. 31


Rubens chegou devagarinho, abriu a porta. Porrão dançou, disse. Assaltamos a rodoviária, limpamos os guichês. Faltou cobertura para fuga. Uma viatura encurralou a gente perto do Mar e Terra. O Porrão pulou de uma altura de mais de quatro metros. Se deu mal. Parece que quebrou as pernas. Um soldado urinou na cara dele. Depois arrastaram o Porrão até a maré. Morreu afogado. Eu tô limpo nega, o Porrão não entregou. Dei a volta pelo cais do avião, grudado na maré, lama até os joelhos. Essa grana é para o bacuri. Vou voltar pra batalha de garçom, dar um tempo, depois a gente bota um barzinho aqui no morro, porra tenho que entrar numa de responsa. Eu te amo Rubens, disse. Ele me beijou e chorou um pouco. Acho que o filho é de Charles.

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Olhos de pai coruja ...o coração não sente; sofrimento seco; pesado, um sapato apertando a cabeça. Cimento, tijolo, areia, barro... tudo é só isso. Vontade de morrer mas ficar vivo. Construção. Só isso... sopapo no pé do ouvido. Músculos estourados. A melhoria de. Sendo exatamente de um tempo de sofrer ou se libertar G.V. foi um operário combativo. Liderou greves, fez piquete com o peito exposto a bala, a cassetete. Das suas mãos nascia o milagre das casas. A transformação do barro pedra areia em cômoda moradia. Nasceu no estuque, criou-se no barraco. Já não se pode dizer G.V. mas sim Gaudêncio Vigaldino, operário de muito tutano e aço. A mulher não recebe. Criou os filhos com espuma de sabão, reclama. Esfregando. Batendo. Torcendo. Passando roupa. A mulher reclama que só tinha o sindicato, o partido, os camaradas, os filhos com o olhar perdido vazio o estômago cadê o pai? A mulher não recebe por que tinha reuniões e se não se consertava o teto vazando a chuva toda que Deus manda, homem de Deus, como consertar esse mundão? Um dia quebrou o pote. G.V. quis colar o pote. Pegou colher: fez massa; colou. A água vazando: os cacos juntos, os cacos não continham a água. E o pote olhava dentro de G. V. E dentro do pote era só silêncio. Os cacos da vida colados: harmonia. Os cacos da vida não continham o caos do coração. O coração era um pote de dor. Os companheiros diziam: - "G.V. é pelego; fez acordo com os militares". Cassaram uns, prenderam outros, mataram alguns. Só G. V. ficou no sindicato. Na diretoria dos militares. Na intervenção. Só, G.V. ficou. 33


Se o silêncio do pote não responde G.V. se embriagou com suas lágrimas. Os cacos explodiram no martelo dos seus punhos. E então bebeu toda a mágoa destilada do balé ardido dos canaviais. G.V. toda dor assim vazando, turbilhão de calos, pensamento em descompasso, mas só assim ia melhorar de... G.V. alma partida, corpo pasto da memória, companheiros da minha vida eu estou muito sozinho, a construção companheiros, a causa, só vejo este bate-estaca batendo meus miolos... já não quero suportar, era desse modo a vida de G.V. Um dia desceu o morro. Ficou na pracinha cheia de soldados mais que flores. Já custo saber o que quero, era assim São Torquato. Não quero mais nada dessa vida, meu pai nosso, coçava a carapinha, que está no céu, como pode como pode como, venha a nós, esse país será a Pátria Maior da justiça e igualdade companheiros, o vosso reino, porra nenhuma. Tirou a roupa, gritaria, polícia, amém. Andou léguas de tempo no camburão. Um mundo escuro, árvores retorcidas, casas ricamente mobiliadas, eletro-conforto, ouro, solidão, tiro no peito, conta de luz, Santana. Companheiros da minha vida sem vida, já não posso. Foi parar no Adauto Botelho. Choque elétrico. Mergulho. Ficou no reino da minha culpa... minha culpa... minha culpa... G.V. onde está, perguntava um relâmpago dentro do passado. Acendia trovões na boca do três-oitão de Eduardo Vigaldino, nas páginas de ocorrências policiais conhecido como Dudu Atropelador, viajante de pau-de-arara. Estouro de banco, posto de gasolina, motéis, cassinos clandestinos: lá estava Dudu Atropelador de muito tutano e aço. O pai, doido de pedra. A mãe na Igreja Deus é Amor. 34


A mulher deixou o catolicismo. Vai purgar nos infernos. Junto com Edu. Que não vira homem, desespero. Já não quero mais. Vou desabafar. Edu caiu. Tava na maconhagem. A polícia veio. Levou a família inteira. Foi mecânico, a mãe Deusé-Amor, biscateiro, puta de soldado, batedora de chapinha, estivador, manicure e pedicure, o menorzinho engraxate e um operário aposentado por que tanta humilhação na velhice? O delegado era uma caninana. Edu estropiado. G.V... o desespero e um pardal pousado na fiação. Quem me dera ser invisível. Quem me dera. Fui ficando com o peito dolorido no coração, apertava, era mal do coração, enfarte, a bomba engasgava o sangue. Fui sofrendo. Edu preso. Os irmãos mecânico, puta de soldado, engraxate o menorzinho, manicure e pedicure barriguda, batedora de chapinha, estivador, biscateiro sumiu no mundo e a mãe foi buscar o amor de Deus. O pai, doído de razão. Mijava nas calças, cuspia pra cima. Sentia, vez por outra, saudade da vida. Saudade de Edu meu filho, de muito tutano e aço. Vontade dele perto. Sempre tão longe. Nasceu assim. Ia ensinar socialismo pra ele. Ensinar revolução. Queria dar até um beijo nele. Nunca dei. A gente ia beber do mesmo copo. E durante os tempos era assim. Edu fugiu. O pai aquela saudade queria Edu aqui perto de mim. A polícia buscava e rebuscava. Dudu Atropelador em vão, rezava o pai. Filho meu vai se sorverter... caboclo tranca-rua vai fechar caminhos dos soldados... criar nós nas encruzilhadas... botar sumiço nos rastros... muita dificuldade vai ter a polícia. G.V. alma perdida, companheiros sintam a minha solidão, invocava santos e demônios, anjos da guarda e exus, quero todos ajudando filho Edu, ordenava bêbado de olhos pasmos. 35


A polícia chegou com o menorzinho, engraxate, algemado. O nariz gripado de sangue. Buliu com todos. Chutou a barriga da manicure e pedicure. Queria saber onde está Dudu Atropelador, inimigo público três-oitão. A manicure abortaria e pedicure. Disse então entreguem o famigerado, o delegado disse, entregue seu Gaudêncio é para o bem de toda a sociedade e de vocês também, a minha paciência é curta e se esgota. Cismava o delegado que G.V. sabia o paradeiro de Dudu Atropelador. Disse entrega ou vai mofar na cadeia. G.V. onde o passado, se a vida era só isso... só... sopapo na boca do estômago. Revolução já não tinha, socialismo já não tinha, sindicato é só consultório e dentista... um pardal... o vosso reino... vou fazer uma mala... na fiação... e foi nas gavetas... medo já não tinha. Numa gaveta um caco do pote, um estilhaço da última revolta, uma colher. Foi enfiando a colher. Assim como quem tira um doce de figo da lata. Um e dois, bois duma canga só, os olhos saltaram. Era só sangue G.V. Ia pingando o sangue uma procissão de pontos vermelhos. G.V. no portal, sofrimento, terror. Parece tinham estourado granadas, dinamites, begônias de pânico no rosto de G.V. G.V. tem força pra mangar daquele delegado de merda, rir da cara da justiça dele, as mãos juntas segurando os doces de figo, no chão gotas calam como trombas dágua sobre o vai-vem intrujão das formigas. Medo não tem... é Dudu Atropelador vestido de sangue, a voz explode relembrando assembleias operárias, companheiros da minha vida, estala no ar bêbado de espanto: - Toma delegado. Toma esses olhos para o senhor descobrir os verdadeiros ladrões. 36


Vida. Que importa G.V. morreu? largou o fardo. Tutano e cansaço, o furacão atropelador girando a roda do carro-de-boi. Viva a História chia, sofrimento, atalho, refluxo, tombo, lágrima; o que os olhos não veem...

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As sete noites que fecham o ciclo I - II Não tenho mais nada pra fazer nessa vida. As mulheres, ah! sou bananeira que já desceu cacho. Funcionário público aposentado, solitário, doente, roendo a magra pensão que recebo como esmola. Mas uma coisa eu juro: vou matar esse moleque, não tem respeito pelos mais velhos, acha que é dono do mundo... - Ataíde, boa mais uma. Chora que o santo também bebe. Daqui a pouco passa o Ismael, bicho nojento. Eu sou homem, ou sou mesmo um rato? Vou matar esse vagabundo é o meu juramento. Ele não entra o ano... - Ataíde, você vai ser testemunha. Esse moleque não entra o ano. Eu vou arrebentar com a saúde dele. - Bebe a sua cachaça, dizia o Ataíde limpando o balcão. Deixa de falar bobagem. II - III Diariamente essa cena se repetia no Bar do Pé Inchado: os aposentados enfileiravam disputas de dominó, enquanto a tarde inútil escorria entre os dedos. A chegada da noite trazia os estivadores, sedentos, musculosos, era a hora de começar a ronda, as cartas eram espalhadas na mesa, os berros das mãos na madeira aguentavam as apostas. 38


Adalbérico Alcântara era o único aposentado que não atendia ao aviso noturno de se recolher. Permanecia no bar. Entrava no jogo dos estivadores, era depenado, o pato. Irritava-se, chutava os tamboretes, amaldiçoava Deus e o mundo. Calibrado, jurava que não ia mais beber, nem jogar, não voltaria mais ao bar. Batia em retirada, os pés enormes, inchados como patas de elefante. - Boa noite, aranha de repartição. Quando é que vai ser o mocotó? Vou convidar a estiva em peso, essas patas bem que merecem, com bastante pimenta, ... da porta berrava Ismael, os músculos a explodir, até que o Alcântara dobrasse a esquina. III - IV Os velhos companheiros do Alcântara notaram o seu comportamento estranho. Meteu um terno na hora da quina, errou de duque e não garantiu a sena. Passou com ás e perdeu alisando bomba. Nesse dia não encontrou mais parceiro. Ataíde botou mais uma e reclamou que santo não bebe, parasse com essa falta de higiene. Ninguém havia notado o punhal na cinta do inquieto exfuncionário público. Ismael não entraria o ano, repetia todas as noites. Estava cansado de bancar o palhaço. IV - V Não, de punhal não. Se o desgraçado me agarra, me quebra em mil pedaços. Já fui forte, moço, mas aquela maldita sanguessuga foi me chupando as forças, puxava o meu sangue direto da aorta. 39


E eu sequer sabia dar o nó direito nos primeiros dias. Mas foram tantos dias, tantos nós ... Bota mais uma, Ataíde. Vou dar um tiro no peito do desgraçado. Vou sair calmo, arrastando o meu inchaço. Quando ele berrar: - "Boa noite, pato do pé inchado, molambo do governo, e o enterro quando vai ser?" Arrá, ligeiro como um kid-colt eu me viro e despejo doze balas no peito dele. Ou seis, acho que vou errar todas com a canhota. Mato esse filho da puta bem matado, vão saber quem é Adalbérico Alcântara. V - VI Ninguém notou quando despejei o pozinho no copo do troglodita. Ele bebeu de uma golada só. Cairia logo, mas eu queria que ele gemesse um pouco, se ajoelhasse estrebuchando. Não sei se cianureto faz isso, mas eu bem que gostaria. O ano está terminando, esses que achavam que o prometido não seria cumprido quero ver a cara deles. Eu vou me entregar, pacificamente. Isto é, se descobrirem o cianureto. Não, acho que devo negar conhecimento, tenho do meu lado o Ataíde: ele vive dizendo que não faço mal a uma mosca... Todos estão enganados comigo, na juventude quase que me dedico ao boxe. No colégio, fui rei da confusão e esse bosta desse mastodonte pensando que ia mangar do velho aqui eternamente, 40


de maneira nenhuma. Estou me sentindo outro, não sentirei remorsos. Hoje foi bicarbonato, apenas ensaio, mas de amanhã esse fedorento não escapa! VI - I 30 de dezembro. A tarde escorre, inútil. Ismael não vai dar as caras, sabe que de hoje ele não passa. Vai morrer, eletrocutado, trouxe os fios no bolso, vou fazer uma extensão da tomada até o tamborete onde o bastardo se sentar. Tem que ser hoje porque amanhã ele não vem mesmo, deve passar a última noite do ano com a família. Ele tem família... Pensei também em oferecer uma ampola de formol ao mongoloide. Ele vive tomando injeções de vitaminas. Quando ele fosse na farmácia aplicar, hum! seria tiro e queda. Não, mas eu quero fazer dessa montanha de carne um churrasquinho... A vantagem do formol é que ele não iria feder, eu estou me tornando um gênio do crime. Entro firme na rodada. Espalho as sete pedras, armo um lance, não adianta: sou um derrotado. Pedras malditas: ás-duque, duque-terno, ternoquadra, quadra-quina, quina-sena, sena-ás... e a outra, o baratão. Pior do que essas, só as dos rins. Pedras do inferno, se fecham como um ciclo, uma prisão de dor. E a outra é morte lenta: bomba sem estopim... Quero ir embora mais cedo, mas para onde? Sozinho nessa noite, acho que morro. E amanhã? Bota mais uma, Ataíde: chora que o 41


diabo também bebe. Arrastar os pés até o portão, abrir o cadeado, fechar o cadeado, sentar segurando os rins, aposentado... - Boa noite, pé inchado, tenha bom ano que amanhã não te vejo! A SÉTIMA NOITE Quisera poder passar a minha vida a limpo. Mas do meio dos arquivos conturbados esquivam-se baratas empoeiradas vagalhões de mistério ou simples-tempo-passado que se passa a inda e sempre. Nuvens resvalam na noite verão a lua lambe o espaço língua de fogo o amor se perdeu a solidão criou raízes no peito a vida parou. Desliza o tempo, impune. E é tão grande a vontade de escrever uma circular-do-desespero um ofício-da-agonia uma carta-suicídio e gritar a minha cólera a minha solidão e é tão grande a vontade que eu absurdo me calo. E a solidão se agarra no tempo que passa 42


eterna-vida (ou momento?). E o momento desågua na turva foz do passado e passo com o silêncio entrelaçado.

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As tranças de Rapunzel A irmã mais velha de Rapunzel deu para andar namorando muitos homens de uma só vez. Era Antônio, Fernando, Luís, Rogério, Ademilson e muitos outros. Ela falava deles enfileirando esses nomes até bem bonitos. Mas eles eram Pitu, Merdaço, Bodão, Pica-Fumo, China e outros apelidos de gente fichada na polícia. De gente registrada no cartório do morro, da mangação e do berro. O pai de Rapunzel andava assim muito triste com a safadeza da mais velha. Chegava tarde do ponto-de-bicho e já encontrava a filha no assanhamento. Rapunzel esperava pelo pão quentinho que o pai trazia. A mãe de Rapunzel estava acabada. Ficara bem pior de saúde depois que um rato carregou as dentaduras dela que estavam num copo perto do urinol. Banguela e nervosa, não podia encostar numa panela que tomava choque. Às vezes batia em Tonico que era o irmão mais novo de Rapunzel. Tonico queria matar o rato que roeu o resto de beleza da mãe. Todas as noites, antes do pai chegar, o rato ia até o quarto de Rapunzel. Entranhava-se em suas tripas e roc roc roc roía a fome de Rapunzel. O pai chegava tarde e Rapunzel esperava pelo pão quentinho. Rapunzel se alimentava de sonambulismo. A lua, às vezes, brincava lá no alto, impossível do tato. O luar entrava pelas frestas, nessas noites imantadas, e ficava se espojando no quarto de Rapunzel e mais da irmã mais velha e de 44


Tonico. Mas eles não viam o luar, porque Tonico só gostava de empinar pipas e a irmã só queria dessa vida se grudar nos homens, era o que dizia o pai. O tio de Rapunzel concordava com o pai e cuspia grosso nas tábuas do assoalho. E ficavam ali conversando de como era bom aqueles tempos que plantavam e colhiam, na terra de morar e trabalhar. A irmã mais velha de Rapunzel se chamava Jurema e pegava caboclo no centro de Mãe Teresona. Bate-Pau falava rouco como um avião e batia na mãe de Rapunzel. Depois se babava e tomava muita cachaça e depois largava a montaria estendida no assoalho de manchas de gordura, parecidas. O pai de Rapunzel andava muito desatinado. Não podia bancar o jogo do Tião Derrubamundo e sabia que bicheiro de ponto não tem lugar reservado no céu. A mãe de Rapunzel prometeu subir de joelhos as escadarias do convento se não desse borboleta na cabeça. Nunca subiu, mas deu urso e o Tião Derrubamundo só passou e tascou um incha-olho no pai de Rapunzel. A outra irmã de Rapunzel morava com o tio e era pentecostalista. Trabalhava à noite numa fábrica de tecelagem e chegava em casa com os olhos costurados de sono. Aos sábados e domingos dava graças à misericórdia do Senhor. Namorava só de mãos-dadas com um rapaz de mesma igreja, feirante. A mãe de Rapunzel acreditava em Deus e na virgindade de Adelaide e sabia que ela iria fazer um bom casamento. Tão diferente de Jurema essa menina, dizia e o tio concordava e cuspia.

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Tonico era só serol, linha, vento e corre-corre. Passava o dia triste quando ficava de boreste, a pipa indo embora pra boca do céu, não gostava de perder o cruzo. Rapunzel tinha uma boneca. Feia e gasta, parecendo uma roupa muito usada todo dia. Tinha também umas revistas velhas que Jurema lhe dera. E folheava, folheava, folheava a sua analfabetia. E uma fome que era o que ela mais tinha, só dela, e o angustioso sonambulismo esperando um pão bem quentinho. Da janela via Jurema colar a boca nas bocas de Pitu, Merdaço, Bodão, PicaFumo, China e muitos outros. E via a irmã levantar as saias numa agonia de dar medo. E via, pelas frestas do barraco vizinho, a tia espiando tudo enquanto dormia o tio. Os olhos da tia apareciam pelas gretas arregalados parece que de susto desse tamanho. A mãe de Rapunzel acordava de noite e fazia trooooor no urinol. Um cheiro amarelo, pesado, ficava viajando pelo barraco. Desaparecia quando o rato voltava, exalando a esgoto, e substituía o cheiro. Depois recomeçava a roer as tripas de Rapunzel, procurando o pão quentinho que o pai trouxera. A irmã de Rapunzel que trabalha na fábrica e mora com o tio e segue o pentecostalismo, perdeu um dedo no serão. Foi "seu vizinho", o de botar a aliança de noiva. Nada se pode fazer com operário desobediente, disse o advogado da fábrica. É proibido usar aliança na hora de serviço, umas horinhas descompromissada, brincara o homem de terno bem cinzabonito. Adelaide ganhou uma aliança nova. Mas o dedo o rato roeu.

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Rapunzel já tinha quinze anos e nem parecia que tinha quinze anos ou qualquer idade. A mãe nem mais se lembrava de como fora difícil aprender a palavra mongoloide. Mas o pai trazia um pedaço de bolo, inteiro só para ela, a cada aniversário. Nesses dias o rato arrotava bolhas de glacê e ficava meio empanzinado. O tio de Rapunzel comprou um fogão novo e vai dar uma feijoada para comemorar. A mãe recomendou que fosse mocotó de boi, é mais barato, mas o tio quer gastar. Afinal, são só ele e a comadre, disse o pai com o pão quentinho debaixo do braço. A tia de Rapunzel garantiu que não vai faltar cerveja preta. Adelaide está de licença e voltou da igreja e colou a boca na boca do Agenor, feirante e noivo. Rapunzel bem que gostaria de jogar as tranças para Antônio, Fernando, Luís, Rogério, Ademilson ou qualquer outro desses muitos príncipes. Mas Rapunzel tem os cabelos crespos e a mãe de Rapunzel só faz tranças bem pegadas.

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O maioral Estava com os olhos acesos. A mutuca brincava entre meus dedos, interminável. Queria saber onde o Jota arruma o bagulho, não sei. A noite lá fora deve estar bonita, a lua. Mais que a lua, as luzes da cidade. Porra, dá uma tristeza. Eu me arrebento... Ninica, onde será que anda? E o Panela? Minha gente, eu estou para ressuscitar, igual a um cristo ou um lázaro. A primeira vez foi ideia do Areia, mais o Pitoca e o Onca. A gente era a mesma cambada, fomos pra escola juntos, era matrícula todo ano. O bucho aperta, o jeito era descolar uma gororoba no Maria Engole Sapo. A gente se divertia com esse nome, dava pra esculhambar a família inteira da tal Maria Ericina Santos, eu nem sei quem foi ou é. O Areia tinha ideias. Era um cara sério, gostava de treinar a ação. Diariamente soletrava as páginas de polícia, era um xepa de jornal. Aprendia tudo e ensinava, era um bamba. Disse, um se encosta e põe olho numa bolsa de muita grana, de mulher madame bem velha que é que esquece das caras. O Pitoca rapinou, deu corda nas pernas, meti o pé na banca de badulaques, corria de peito aberto, o Onca perseguia o Pitoca gritando pega-ladrão, súbito caiu e muitos perseguidores 48


tropeçaram nele, contava depois, enquanto o Pitoca passava a recheada para a sacola de Cobal que o Areia carregava nas costas. Tomamos um porre, comemos do bom e do melhor, um sarro. O Onca jurou que não voltava à escola, nunca mais aquela merda de comida. Tinha raiva da escola, a professora ditou e ele esqueceu do rabo da onça, daí o apelido. A professora era como um retrato de uma tia velha, um retrato antigo, sem cor ou movimento como qualquer retrato antigo. Quatro dias depois caímos. Ficamos no juizado esperando decisão de nosso destino. Fomos mandados para Argolas. Escapamos, uma e muitas vezes. Voltamos a fazer arromba na Vila Rubim, trombadas e rapinagem leve. O Areia estava envelhecendo, queria armar um lance da pesada. Os jornais noticiaram que rapaz morreu afogado na Barra do Jucu. O Areia tava com a boca de areia, disse o Onca tentando fazer graça. Era um cara de futuro. Bom comportamento, amizade com a assistente social, ela tinha umas pernas lindas, eu amava a assistente social. Eu pensava como seria em cima de uma mulher daquela. Os novatos sofriam, a gente aliviava neles, que jeito havia? Porra, eu não sou de ferro. Eu amo a assistente social, por tudo que ela é. Educadíssima, loura, pernas lindas e a voz mais doce e as unhas cintilantes. Os novatos sofrem, pernas lindas tem a assistente social. Encostei o meu pé ao dela, por debaixo da mesa. Ela perguntava, eu tremia, respirava um ar pesado, pastoso, cansado como se depois de uma pernada em dia de fuga. Ela disse, um muro de gelo e pernas lindas, tudo está transado, a sua saída é certa, um cego esperava meus olhos. 49


Eu odeio a assistente social, por tudo que ela é. Fui ser guia de cego. O velho era crente-batista, falava em parábolas e outros ensinamentos de Cristo, um saco. Tinha muitos imóveis, era receber aluguel, pagar impostos, registrar escrituras, transmitir bens, vender, comprar, aquilo foi durando quase um ano. Ou quase um mês ou dois? Rapinei o coroa, fui lá no Morro do Quadro e saí com a Ninica, a gente se queria muito bem. Dei com os burros n’água, pisei na bola em câmera lenta mas o dedo-duro me paga. Ninica avisou, cuidado, transa errada pintando, fiquei numa de que mulher só entende de se abrir na hora certa. Dancei. Assaltamos o cara, relógio japonês, sandálias de couro cru, fedia a merda de cachorro, uma zorba no pelo, pouca grana e talão de cheques em cima. Mandei o pilantra autografar alguns só pra dar trabalho ao boa-vida no dia seguinte, rasguei uns documentos do cara. O Carlito veio com muita marola na hora de dividir o rebanho, dei logo um piau nos cornos do folgado, ainda de fraldas e querendo bancar pra cima de muá? Ele me paga, o dedo-duro. O crente-cegueta apareceu para desfiar sermões, me perdoava na graça divina, uma chateação. O cara da zorba estava uma onça, onde será que anda o Onca? Estava novamente apaixonado pela assistente social, pelas pernas e por tudo que ela é, os novatos sofriam. Poucos dias faltam. Vou ser um maioral, documentado. Porra, vai ser uma barra pesada. O Jota é gente fina, vou adiantar o lado dele. Tô montado numa erva boa, também trabalhar assim é uma 50


beleza. Os homens que estão na jogada abrem a porta do zoológico e lá vou eu, busco o tesouro num pisco. Procuram o larápio lá fora, eu aqui me esbaldando de bronha pras pernas da assistente social. Tô montado numa erva, eles dividem o rebanho no capricho. E fazem tudo, tem um interceptador que cuida do caso, só vejo quando chega a grana viva. Eu vou agir de metralha e já encomendei uma lata-de-goiabada pro Jota, é o sonho dele. O Jota sabe o mapa de toda boca-de-fumo, vamos ter sempre do bom e do melhor. A assistente social, vou assaltar a casa dela e estuprar a dengosa, vai ser um paraíso. Ninica, guardei uma pulseira pra você que é uma coisa linda. Hoje não durmo, a noite lá fora cheia de luzes da cidade. Nunca mais fui ao cinema, nunca gostei de futebol. Vou escrever na parede: adeus babacas. Não volto nessa creche nem pra visita. Não quero ter filho nunca, a Ninica sabe disso, se emprenhar é meter os ferros e arrancar. Nunca quero, nunca. Um dia ficou uma camisinha dentro da Ninica, a Dona Carlota suou pra tirar. O Pitoca, sei dele, tá na estiva. Fez idade e cagou nas calças. Bons tempos aqueles do Maria Engole Sapo, do Areia, a gororoba era melhor do que aqui, isso era, era macarrão quase sempre. Sangue de boi todo dia, eu não aguento. Se não fosse a cobertura dos sócios... Vou escrever de batom vermelho, a assistente social nem notou quando meti a mão e tirei o tubo. Dezoito anos é muita vida. 51


Eu disse a ele que estava tudo bem, já tinha acertado um lugar de aprendiz, ele sempre teve cabeça. Mas ele não quis, Ninica. Estava com uns planos de ser um maioral dos bambas, ia em frente, era o que sabia na vida. Ele estava armando tudo com um tal de Jota, que era gente muito fina, dizia, amigo do peito. Eu disse que arrumava uma vaga pro Jota também, o encarregado da tipografia espalhou que está precisando de muitos braços, Natal vem aí. O Jota se acabou de rir quando ele contou a estória do rabo da onça, é um gozador, mas eu não liguei, se acabaram de rir. Falamos da escola, das trombadas, ele era o mais novo do bando mas era esperto. Nunca deu furo, o Areia botava confiança nele. Disse pra ele que tenho família, tenho que encarar a situação e não posso voltar aos velhos tempos. Ele me queria no bando, ia encomendar uma metralha, maquinaria pesada, estou em outra, disse. Você devia ter ido, Ninica. Era aniversário dele, dezoito anos, um maioral. Chegou uma mulher muito loura, uma árvore de natal, toda de enfeites e desejou feliz aniversário. Ele disse: vamos comemorar daqui uns dias, espere por mim. Ela perguntou onde seria a festa e ele disse que era uma surpresa mas que ela iria estar lá. Ela não entendeu, acenou até logo, eu também não. Levei um bolo pra ele, afinal de contas aniversário sem bolo é como noventa minutos sem gol. Ele comeu pra valer, era de aipim, a minha mulher é doceira. Distribuiu bolo pra pivetada, não deu pra quem quis. Ele sempre teve um coração desse 52


tamanho, eu quase nem acreditei. Foi um golpe pesado, como uma guilhotina cortando um maço de folhas. Os jornais disseram que foi puro caso de afogamento. Eu quase não reconheci o corpo, estava todo comido. Lembrei do Areia, foi lá mesmo na Barra do Jucu. Eu não sei em que ele estava metido, mas isso foi queima de arquivo. Acho que em breve o tal do Jota também dança. Dezoito anos é muito pouca vida. Essa pulseira, ele pediu pra te entregar, é linda não é?

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Vende galinha-se ao fundo de greve MEU -o- NOME o- É -o- PATRICIA Sou uma menina paralítica, tenho apenas 11 anos e ou filha de gente muito pobre. Peço uma ajuda para comprar uma cadeira de rodas. Os meus pais não podem, mal conseguem sustentar-me e aos meus cinco irmãos. NÃO AMASSE, NÃO RASGUE, DEVOLVA... 1 Pobre menina, deve ser muito triste. O compadre Oswaldo também tem uma filha paralítica. É um sofrimento.

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2 Pode ser um truque desses dois moleques para ganhar dinheiro. Uma bolada em cada coletivo... 3 O Governo vem com essa vacinação em massa, mas sempre depois da hora. O Brasil é um país que tem mais gente aleijada do que inteira. Quando não é de criança, acontece que nem o Adamastor que caiu uma carga de navio em cima dele lá na estiva... 4 Alguém devia ser responsável por essas coisas. Esses dois menininhos vão ficar a vida inteira, de ônibus em ônibus, pedindo dinheiro pra comprar a tal cadeira e nunca vai ter o tanto. Acho que devia ter uma cidade só para os aleijados. 5 Até que não está mal redigido. 6 Deve ter algum adulto por trás disso, ficando com o dinheiro. Os garotos devem ganhar comissão. Esse mundo tá uma safadeza.

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7 Dá uma pena... E eu sem dinheiro. Pobres meninos. O mais velho deve ter uns nove anos, o outro uns sete. Será que estudam? 8 Vou dar um trocadinho. Amanhã pode ser que seja eu a pedir, Deus que me livre. 9 Será que a gráfica imprimiu esse cartãozinho de graça? 10 Hoje em dia a gente não está podendo sair na rua: é uma pedição dos diabos. Se eu colocasse na poupança o que tenho dado aos pedintes, já estava milionário. 11 Esses guris estão é fodidos. Uma lambreta de aleijado deve estar custando uma nota firme. Vão ficar velhos pedindo. Se eles tivessem tutano, punha uma máquina na mão deles e dava a dica de onde tem muita grana dando bobeira. 12 Uma barbaridade. Deviam sair pedindo, os pais. Os moleques têm que ter infância, estudos...

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13 Não vou dar não. Com a bênção da coitadinha vou jogar esses dinheiro na loteria esportiva. Se acertar, ela ganha muito mais do que uma cadeira de rodas. 14 Ai, essas coisas me cortam o coração... 15 É conto do vigário e não vou nessa porque não sou otário. 16 Essa loura tem umas pernas e tanto. Se fosse ela a aleijadinha eu comprava sozinho a cadeira de rodas. Só que ela ia ter que me aceitar como almofada. 17 Esse idiota não tira o olho de cima de mim. Parece que perdeu o nariz, o imbecil. Ônibus que dá muito peão é um nojo, vai ver que é tão duro que não tem nem um trocado para dar à pobrezinha. 18 O nome da minha sobrinha. Fico pensando se fosse ela, acho que eu ficava doido, nem digo meu irmão.

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19 Porra, esse sol tá de rachar bambu. Não sei como esses motoristas aguentam sentados aí em cima desse motor. É isso aí: metade da população é aleijada e não pode trabalhar, a metade boa é explorada até se estropiar... 20 Não perco tempo de ler essas coisas. É cartomante, quiromante, diabomante, e capeta-a-quatro. Se todos fizessem como eu, que só acredito no Deus Único, o Salvador, o Pai Todo Poderoso, esse legião de vagabundos seria dizimada para todo o sempre, amém. 21 Quanta humilhação para um chefe de família. Vai ver o coitado dá um duro no biscate, a mulher lava trouxas e trouxas, os filhos largados pela cidade pedindo para a irmãzinha. Na época dei minha aprovação, mas desconfio que se o João Goulart tivesse continuado, esse país não estava assim. 22 Não posso dar muito, a passagem está tão cara... 23 ...

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II Uma freada brusca interrompeu os devaneios dos passageiros. A freada rompeu a vigilância do tacógrafo, chiou no asfalto, mordeu a morosidade coletiva, espalhou no ar mais alguns Celsius de calor. O motorista desligou o carro, arrancou a alavanca de encaixar marchas e saltou. Porta adentro do ônibus que quase bateu na traseira sem aviso parada. Encarou o companheiro, suor gotejando, a camisa encharcada, a maldita gravata sufocando. - Para essa merda, senão eu te meto a mão, te arrebento a cara. Vamos começar uma greve. Ou você concorda comigo e vamos parar os outros carros ou te estranho e não me responsabilizo pelo estrago. III Várias vozes logo se prestaram a denunciar as péssimas condições de trabalho dos motoristas e cobradores da Grande Vitória: "...a exploração de uma jornada de trabalho sem limites fixos, o não pagamento de horas extras... as empresas não contam como hora de trabalho o tempo gasto para percorrer a distância entre o terminal e a garagem... esta distância, percorrida duas vezes por dia, não é contada por não fazer parte dos percursos das linhas... os uniformes são comprados pelos motoristas, quando é obrigação da empresa doá-los... a maldita gravata é vendida por um preço exorbitante, os relógios de pulso que algumas empresas obrigam os motoristas a 59


usar, os crachás, tudo isso é vendido aos motoristas e cobradores a preços superiores aos de mercado... as empresas transferem para os motoristas e cobradores as multas da FUNDEP e DETRAN, usando para isso o ardil de 'vales de adiantamento de pagamento'... os trocadores são obrigados a lavar os ônibus por dentro e por fora... no caso de assalto a quantia será descontada do salário do cobrador assaltado... motoristas e cobradores, às vezes, são forçados a cumprirem escalas de 24/24 horas... essas horas extras nunca são computadas... os mesmos 'vales de adiantamento de pagamento' são usados pelas empresas como forma de transferir parte dos gastos de manutenção dos veículos para os motoristas e cobradores... se não há, por qualquer motivo, ônibus para um motorista cumprir a jornada de trabalho, as empresas cortam o dia do motorista e do trocador que o acompanharia... não se recebem feriados, tampouco descansos remunerados semanais, não há hora de almoço, nem de janta, não há mictórios nos terminais, muito menos privadas, não há bebedouro, não há dinheiro trocado para os trocadores trabalharem e tudo isso no nariz do Sindicato e do Ministério do Trabalho ... " IV O presidente do sindicato bufava. Irado olhava para os motoristas e cobradores que se amontoavam na pequena sede. O pelego nunca espera que o burro seja xucro e que o derrube provocando a fúria do cavaleiro. Esperou chegar o advogado para falar. 60


- Estou aqui desde 1964. Herdei tudo isso do vovô. Não vou admitir essa confusão. Não quero baderneiros no local. Vocês são trabalhadores ou comunistas? Vai falar um de cada vez, senão eu chamo a polícia. Voou um zumzum, a plenária se entreolhando, o homem que representava a classe dizendo que as denúncias eram falsas, coisas de agitadores, estudantes vermelhos que cursaram terrorismo na Rússia, que era um caso de polícia, o sindicato não apoiava, voltassem ao trabalho enquanto era tempo, não aceitava como verdadeiras as entrevistas de jornais comunistas, ai daqueles que abriram a boca, estavam no olho da rua, bando de difamadores, só queria o cabeça para dar um jeito nele... V Bosta. Não pude chegar a tempo no serviço. Essa greve, será até quando vai durar? Perdi o dia, cortaram o meu ponto. Andei a pé, atravessei a ponte no maior sufoco, não sei nem como vou voltar e ainda perco o dia? Estou num araçá... acho que isso é encosto, mandinga, nada dá certo na minha vida. Não devia ter deixado Marlene... Mas ela estava me enchendo de galho, na vista de todo mundo, uma vergonha, quebrei a cara dela bem quebrada. Português filho da puta, esse meu patrão.

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VI Era o meu primeiro filho homem. Surto de meningite, disse o médico. Não há nada para se fazer doutor? Perguntei com muita esperança, a mulher chorando sem parar. Vamos tentar, disse o médico, a roupa branca lembrando um fantasma. Tinha que ajeitar uns papéis. Andar a pé feito doido com essa greve filha da puta. Não, os motoristas estão certos, devia entrar todo mundo junto, botar pra quebrar, greve geral. O meu patrão falou que eu podia faltar até acabar a greve, também com um filho morto não é nenhuma caridade. Mas não quis dar um vale, êta vida! O carro da funerária cobra uma fortuna. Um motorista caridoso falou que nessa emergência pra ele não tinha greve, levava o enterro do inocente, o dono da empresa tinha dado ordens de não rodar ninguém, estavam depredando os ônibus dos fura-greves. O enterro vai ser mesmo a pé ... Tão perto do cemitério de Santo Antônio, cemitério de rico, vamos ter que ir pelo contorno até o cemitério de Maruípe, mais de duas léguas daqui de Inhanguetá. Êta vida desgraçada! VII Maria Ortiz F.C. x Botafogu 62


inho de Colatina DATA: Domingo próximo SAÍDA: 06 horas OBS.: PAGAM ENTO ADIANT ADO - Como é que é, seu Leôncio? Vamos de qualquer jeito ou mandamos ofício desmarcando? - Vou dizer, Nininho: essa greve cagou no saco. O pessoal ia pagar uma ajuda de custo que dava pra gente dar entrada num material novo. E é um lugar sem confusão ... - Além do mais, um amigo meu, que joga no Cascata, disse que o time é uma barbada. Eu ia meter uns quatro ... só no primeiro tempo. - Não é fácil assim não. Mas de qualquer jeito não vai ter jogo mesmo. Vamos lá, precisamos tirar o quadro de avisos e tratar de devolver o dinheiro de quem pagou.

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VIII Não tinha jeito. Ou vendia aqueles alqueires de terra seca ao doutor Aniceto ou não tinha paz. O homem botou gado na minha roça, liquidou a minha mula, tirou o camarada que trabalhava comigo, fez uma desordem. Não sei pra que um homem quer tanta terra, só se o gado dele der cria feito cupim. Mas os sete palmos dele, Deus já reservou e vai mandar o escrituramento em boa hora pra essa alma desalmada. Bestei por aí, caçando um patrão. Não sou afeito pra cidade grande. A mulher é esperta, tem dois anos de primário. Ela falou num negócio de galinhas, deu expediente, comprou uma remessa de galinha branca, escreveu no barraco com letras de mais de um palmo: VENDE GALINHA-SE, não é que deu certo? Venda e revenda, compra e recompra, o pessoal do bairro rindo de um tal "pronome" que estava onde não devia. Tinha uns também que chamavam as galinhas de "penosas" ou "enfermeiras", aí era a vez que eu dobrava de vingar na gargalhada. Chegou um bando de estudante falando de estudos e que eram do fundo de greve dos motoristas, uma comitiva. Como de sempre riram do "pronome" mas acho que não estava tão errado assim, pois um até copiou atencioso, pediram a galinhada toda, eu perguntei pasmado todas as enfermeiras? Desafrouxaram na risada e uma mocinha ficou muito vermelha. Esses motoristas, não entendo, ficam na baixa e ainda comem galinha no almoço domingueiro. Minha mulher fez as contas, 64


despachou a cambada e disse que os motoristas estavam certinhos, que muita onça é obrigada a correr do caititu quando ele se ajunta em manada. IX "Muito além da própria greve dos motoristas e cobradores de ônibus da Grande Vitória devem ser buscadas e entendidas as razões, os significados e a importância de toda essa movimentação. Do espontaneísmo com que ela surgiu e da organização que ela esboçou alcançar durante o período em que durou, à margem e ao arrepio do sindicato, muito se pode aprender. O apoio popular, expresso em todas as camadas da população da Grande Vitória e do interior do Estado, além da ampliação das reivindicações e do movimento até outras cidades, só nos traz evidências do avanço da consciência política de camadas cada vez maiores do povo. Após longos anos, esta é, de fato e concretamente, a primeira manifestação grevista no Espírito Santo. Outras houve, mas nunca passaram do arremedo e sempre atingiram empresas de pequenos portes. Esta abrangeu toda uma categoria e sensibilizou toda uma população." (Jornal Posição, Edição Especial, período de greve) 65


X - Pois é, mãe, dizia Marinalva, enquanto amamentava o filho. Ser mulher de um homem esquentado como o Alcides dá nisso. Lá em casa não tem o que comer, as panelas vazias e a barriga igualmente. - Mas filha, amansava a mãe, o advogado falou que a indenização vai ser boa. Enquanto o Alcides arranja serviço, você fica aqui. Eu tenho gosto, os netinhos aqui em casa. - Mas e quando acabar a indenização? Vamos ficar aqui a vida inteira? Fizeram uma lista negra dos motoristas da cabeça da greve, o Alcides é o principal... - Mas ele se arranja, Marinalva, contemporizava a mãe, ele é um moço de qualquer viração, não tem mania de ficar parado, nunca foi marcha-lenta... - Ele queria é ser herói... Artista de cinema, consertador do mundo. Até que, dizia Marinalva mudando de tom, eu gostei quando foram aqueles repórteres todos lá em casa, saiu fotografia dele no jornal, parecia artista de novela... Marinalva guardou o seio, a criança dormia, o outro brincava no quintal, os olhos da avó deslizavam contentamento. Uma tarde quente, Alcides andava atrás de emprego, o nome dele já tinha sido esquecido pelos jornais, políticos, estudantes. Mas os companheiros davam carona, perguntavam: precisa de algum? e diziam: vai em frente, perdemos uma batalha mas a guerra... Restava essa solidariedade firme na direção. 66


- Mãe, tenho que ir lá em casa buscar uns troços. Manda a Rute comigo para ela trazer umas três galinhas brancas que sobraram da greve.

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A possível fuga de Ana dos Arcos Floremil dos Arcos era descendente direto e sucessor de Balduíno dos Arcos, pioneiro destemido que mordeu a malária e fundou a erma Vila dos Jacus. A Vila se transformou em próspera cidade e a sua linhagem detinha todos os poderes de Vale dos Arcos: cartório, prefeitura, delegacia, igreja, cemitério, ou seja: vida e morte. Desengonçado como uma ave desemplumada, Nicolau passeava a insanidade de cima para baixo. Errava de rua em porta, pendurado de gaiolas e alçapões quebrados. Nicolau era o louco de Vale dos Arcos. O medo de dividir as posses fez com que os Arcos se isolassem dos demais moradores. Desde a tenra idade primas e primos já estavam prometidos em casamento. O isolamento genético da família patriarca enveredou por um caminho tortuoso: cessou o nascimento de varões. Nicolau perambulava com seus pássaros. Alheio, dizia ser um gavião prateado: abria os braços, arfava como se depois de um longo voo, fixava os olhos em algum ponto e perdia a noção das horas.

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Os populares desviavam de Nicolau em suas crises de gavião. Alguns lhe ofereciam pequenos pássaros que ele ruidosamente devorava. Para desespero dos Arcos, nasciam meninas sem ameaça de paradeiro. Elas cresciam e se transformavam em belas moças à espera dos primos que não chegavam. O Frei Agobérico expurgava o satânico costume dos Arcos e deixava escapar nos sermões dominicais: mesmo que venha um herdeiro, irá ele constituir um harém com todas as primas? Nicolau amava as aves. Amava-as com fúria de macho: internavase nas matas armando arapucas e só retomava com duas ou três jacupembas. O fim do ato sexual entristecia Nicolau, pois invariavelmente as jacupembas morriam. Irado, devorava-as. Mercedes dos Arcos, filha de Amaranto e Rosalva dos Arcos, abriu a janela e os carinhos para o rapaz que atendia no quiosque de propriedade do pai. O rapaz foi capturado no ninho do pecado e tremendo dos pés à cabeça engoliu a taça de vinho com formicida-tatu que o pai e os tios da moça lhe ofereceram. O vinho foi tragado junto com ameaças de terríveis torturas até a morte, nas mãos sanguinolentas de Adelanto dos Arcos, delegado local. O episódio do pecado e morte do jovem Norega fez a população lembrar a origem de Nicolau. 69


Uma empregada da casa dos Arcos, não precavida de cuidados, ficou com a pança cheia. Bastou que Amália dos Arcos tirasse as dúvidas da estória para que mandasse prender a concubina. Eronice, oito meses de escondido bojo, foi amarrada numa estaca e um burro xucro lhe desferiu muitos coices no ventre. Como não tinha parentes do conhecimento de alguém, as almas piedosas recolheram o corpo. Salvou-se o menino, porém aparvalhado. Esse zererê afirma que o louco Nicolau é filho natural de Floremil dos Arcos, que não mexeu uma palha para impedir a ciumenta esposa-prima de fazer cumprir o castigo. Os populares afirmam que depois de tais e quais acontecimentos os Arcos não geraram mais varões. É, portanto, Nicolau o último homem da linhagem dos Arcos e assegurado herdeiro. O frei Agobérico estrilou, esperneou e excomungou, mas não pôde vetar a construção da Casa da Montanha. Fora voto vencido na reunião de família. Floremil, idealizador do projeto, ainda lhe acusara com insinuações de que desse tronco é que não sai mesmo o fruto. Era um padre, dizia, e não um jegue reprodutor. A Nicolau pouco somava que os Arcos fizessem ou desfizessem. As jacupembas lhe ofereciam o que tinha a vida de mais delicioso.

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Perambulava parvo, malcheiroso, fazia as necessidades sem tirar as calças. Várias vezes tentou andar nu, mas nessas ocasiões os populares lhe apedrejavam. Todavia, Nicolau só desistiu completamente da crise de andar pelado pela cidade, quando Adelanto dos Arcos levou-o para a delegacia e fincou agulhas sob suas unhas e mandou que em seguida esfregasse as mãos na parede. Nicolau teve a cabeça raspada e perdeu alguns dentes noutras malvadezas. As donzelas da família dos Arcos foram transferidas para a Casa da Montanha. Lá ficariam longe de qualquer desejo de pecado. Empregadas da família levariam comida e o demais necessário para a vivência das donzelas. Todos os membros da família iriam redobrar os esforços para que logo chegasse o varão. De menos Frei Agobério, impedido por razões diversas... Nicolau armava arapucas, lances-de-peneira, passava visgos em galhos de muito pouso, armava esparrelas, laçadas... Para matar a fome precisava de pássaros, para satisfazer os desejos tinha as jacupembas que não se esgotavam. Em suas andanças descobriu a Casa da Montanha. E passou a armar suas armadilhas sempre naquelas paragens. Nasceu... 71


Amália dos Arcos enfim descansava do peso do ventre. Frei Agobérico, o mais estudado dos irmãos, disse que era um caso de dimorfismo sexual. Floremil contemplava o fruto do ventre da esposa e torcia e retorcia os bigodes. Os Arcos teriam que esperar. O sermão dominical foi cheio de explicações, mais parecia um meretrício de tantas falas pecaminosas fizera uso o frei. A criança irá se manifestar, repetiam os Arcos meioenvergonhados a quem pedisse novas. É uma questão de tempo para se saber se é homem ou mulher. Nicolau já não guardava muitos carinhos para as jacupembas. Tomava descaso pelas arapucas, largou as gaiolas e alçapões, arrancou a pena de pinima que trazia atravessada no nariz... Já não malcheirava tanto e pouco ia à cidade. Deu para rondar o casarão dos Arcos e recebia restos de comida. A criatura sem nome que crescia sempre na varanda do casarão, Nicolau chamava de ave-do-paraiso. O tempo quebrou o encanto e pôs fim à espera dos Arcos: crescia mais uma donzela para a família. Caiu um manto de tristeza no casarão dos Arcos. Esperariam mais algum tempo para mandar Ana dos Arcos para a Casa da Montanha. 72


Nicolau era só felicidade com a notícia. O louco divertia a menina, diziam os Arcos. Eles são irmãos, ecoava o zererê dos populares. Crescia a ave-da-paraíso, formava-se com uma rapidez desconcertante e muitos rapazes já despejavam os olhos em seu corpo. Porém, Ana dos Arcos só tinha tempo para o louco. Uma nova reunião de família decidiu que Ana não seria mandada para a Casa da Montanha. E todas as donzelas poderiam voltar e escolher para casamento jovens honrados que as amassem. No dia em que os chefes do clã dos Arcos subiram a montanha, surpreenderam-se ao encontrar crianças de olhos parvos brincando nas proximidades da casa. Viram quando o louco Nicolau pulou por uma das janelas e se internou na mata. Constataram que algumas moças estavam emprenhadas... Nicolau foi caçado sem piedade. A mata foi incendiada e finalmente os Arcos botaram as mãos no alucinado. Amarraram-no nu, de ponta-cabeça, na praça do mercado. Nicolau foi castrado e obrigado a engolir os órgãos sexuais. A corda foi afrouxada de maneira que a cabeça do louco tocasse o chão. Besuntaram-no de mel e deixaram que as formigas e as moscas lhe dessem fim. 73


Todas as moças da família foram chacinadas. O zererê dos populares afirma que somente Ana dos Arcos se salvou. Alçou voo nua e bela, infinitamente ave, eva de um novo tempo: sem paraíso ou manicômio.

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O segredo da família Torel Recebi um recado dizendo que o chefe me esperava no seu escritório. Eu estava me saindo muito bem no meu novo emprego. Fazer corretagem de imóveis não é um trabalho inglório como muitos pensam. Operar um bom negócio traz muita satisfação. E os merecidos porcentos da comissão. Ainda essa semana fechei um negócio fantástico na Ilha do Boi. O cliente me engolia com os olhos, me agradecia, me bajulava, foi uma venda estupenda. O bom mineiro sorria... Ah, eu estou me saindo ótimo na Casa Nova. O chefe vai acabar me indicando para coordenação de um setor de vendas ou treinamento dos novatos. Eu tenho malícia. Fui entrando pelo escritório de cabeça erguida. O sr. Almeida estava assinando uns papéis. A Imobiliária Casa Nova tinha um chefe competente. Aliás, competentíssimo, eu não me cansava de dizer aos colegas, aos clientes, à recepcionista, ao porteiro e, nas raras oportunidades que surgiram, expressei minha admiração na frente do sr. Almeida. A primeira vez, confesso que me senti confuso, um enamorado entregando uma dúzia de rosas refletindo a vermelhidão do rosto. Nas outras três ou quatro vezes, não titubeei e despachei o elogio regado de certa classe. Surtiria efeito. O sr. Almeida acabou de assinar os papéis. Tirou os óculos, limpou-os. Não tinha pressa. 75


Lembrei-me de um professor da infância, enervando a ignorância dos discípulos antes de iniciar a sabatina. Pigarreou. Colocou os óculos. Meu caro, não temos tempo a perder, disse. O dono da ICN era muito objetivo. Em poucos minutos fiquei a par da situação. Saí do escritório com a promessa de ser o encarregado do treinamento dos novatos, salário fixo e uma tarefa, dificílima de cumprir. Condição sine qua non para que seu tino jovial para os negócios galgue uma posição melhor no quadro operacional da ICN, disse o sr. Almeida. Entregou-me uma pasta com todos os dados para que eu pudesse examinar o caso com a devida atenção. Caminhei com a sine-qua-non debaixo do braço até o hotel. Abri a pasta e folheei os arquivos. O pessoal da pesquisa sabia trabalhar. Eram verdadeiros agentes de espionagem. Mantinham sob suborno funcionários de diversos cartórios e de órgãos públicos da municipalidade, passando pelos estaduais até os funcionários da esfera federal. Obter informações a partir daí tornava-se uma mamata. Trabalhando ao lado desses rapazes, desfilo pelas ruas como se fosse um jamesbond levando informações ultra-secretas na minha zero-zero-sete. A família Torel era irredutível, diziam os dados. Tinham rejeitado todas as ofertas de venda do casarão. E a Casa Nova não podia perder muito tempo, pois a planta de um novo edifício residencial 76


para a cidade-alta já estava elaborada. E abrangia o terreno do velho casarão. Moravam no casarão Olegário de Alvar Torel e suas irmãs Rosanir e Rosiana. Olegário caminhava para os quarenta anos e suas irmãs tinham pouco mais de trinta, Rosanir, e menos de trinta, Rosiana. Há muitos anos morrera Marcolino de Alvar Torel, sem cumprir a promessa de voltar para Portugal. Os filhos não se interessavam em regressar, nem tampouco na venda do casarão. Recebiam uma pensão vinda de Portugal, razoável. Saíam pouco e não tinham relações de amizade ou de inimizade com a vizinhança. Eram indiferentes aos demais moradores da rua. Os garotos acreditavam que fossem bruxos. Tinham descendência armênia. Revirei os dados da sine-qua-non diversas vezes. Dormi excitado com a expectativa de realizar a compra da posição de coordenador dos novatos, eles cederiam esses armênios. Ou portugueses. Tive um pouco de febre. II Levei muitos dias para conseguir que os dentes amarelecidos de Olegário me convidassem a entrar. Ainda não conhecia suas irmãs.

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A sala tinha uns móveis velhos ocultando a umidade das paredes e um cheiro de mofo voacejando moscas. Olegário repetia incansáveis não-me-interessa enquanto dezenas de gatos desfilavam asmáticos. Mais um dia perdido. No dia seguinte acariciei um gato antes de me retirar. Nas outras manhãs iniciei o trabalho exaustivo de nomear os bichanos. Olegário sorria amarelecido. Esperava-me na vigia da porta, todas as manhãs, às oito em ponto. De uma certa maneira, eu estava levando alguma coisa de nova para a vida do homem gelado. Ele permanecia sentado numa cadeira centenária repetindo os não-me-interessa ao ritmo do balanço. De vez em quando, espantava as moscas que lhe cobriam o rosto, e sorria encardido numa fracassada tentativa de demonstrar simpatia. Passava pela ICN e confessava meu pouco sucesso. Da última vez, o sr. Almeida relembrou a promessa do cargo. Deu-me um tapinha nas costas e disse que eu era o homem-do-caso. Cuidasse dele. Na manhã seguinte, Olegário estava com aparência nervosa. As olheiras tinham arroxeado desmesuradamente. Espantava as moscas com fúria. Desferia tapas no ar, balançava compulsivo o ritmo dos não-me-interessa. As moscas que irado capturava, Olegário ia comendo sementes de romã menos as asinhas. Conclui que não era um bom dia para se falar de negócios. Encontrei Olegário mais calmo. Ainda não voltou o sorriso, mas ele aparenta estar menos atormentado. Parece que tomou uma 78


decisão que o incomodava. Tomara que seja em relação à venda da casa, pensava enquanto minhas mãos deslizavam carícias nos pelos felinos de adriano, nabucodonosor, felício, garibaldo, césar, anita, cristina, comodoro, isabel, abelardo, francisco, negrita, pratinha, galalau, dom-henrique, estela, júnior, olororéu, pacatau, arcebispo, tenório, miss-gata, raquel, ankia, zé-aldo, caju, amâncio, olhar-celestial, derém, nina... Rosanir. Minhas mãos deslizaram muito prazer como vai? Era essa a decisão tomada por Olegário. A irmã mais velha ronronava trejeitos de um amarelo que se perdia no revoar do moscaréu. Esgueirou-se até a cozinha e me trouxe um chá de vago sabor longínquo, de eucalipto? Naquele dia passei pela ICN e deixei um relatório repleto de bons auspícios, alvissarando melhoras. Ao sair, a recepcionista me confessou que o sr. Almeida estava se mostrando impaciente com a morosidade da operação. Invadia-me uma ducha de tristeza ao constatar que brevemente iria se concretizar a transação e que não haveria uma nova oportunidade para descobrir o segredo da família Torel. Certamente regressariam a Portugal. Eram dois a me esperar, ansiosos pela vigia amarelecidos olhos. Olegário e Rosanir começavam a assumir altíssimos percentuais dos meus sonhos. Duas agulhas, finíssimas, espetadas no meu inconsciente. Perguntava-me como seria a irmã mais nova. Sentia que Olegário e Rosanir me torturavam com a expectativa de conhecer Rosiana. Os dois conspiravam, não sei se envergonhados atropelando as palavras ou se dominavam alguma língua desconhecida.

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Habituei-me com o ronronar de Rosanir junto ao meu ouvido e enquanto acariciava o seu rosto dispensava alguns afagos aos bichanos que trepavam nossos corpos. Estava bem adiantada a minha tática de conquistar Rosanir para que ela me ajudasse a convencer o irmão em ritmo centenário balançando. Olegário aprovava com o olhar a sedução matutina. Comecei a me dar conta de que a família Torel não venderia o imóvel. Já passava o dia inteiro dentro do casarão recebendo os beijos felinos de Rosanir. Imaginava a sombra de Rosiana preguiçosa entre-gatos. Sobrava-me pouco tempo para visitar a ICN. O meu tino comercial me dizia que valeria a pena ludibriar os rapazes do setor de pesquisas. Faria isso. Iria me casar com Rosanir. Faria com que ela fosse muito infeliz. Para fugir de um romance fracassado Rosanir convenceria a família a vender o imóvel e regressariam à terra. Em nome dos legítimos direitos da comunhão de bens, conseguiria uma pequena fortuna. Ah, iniciaria tudo com uma pequena imobiliária. O sr. Almeida subestima a minha capacidade. Senti que alguma coisa de estranho havia acontecido ou estava para acontecer. Rosanir e Olegário discutiam em voz alta. Neste dia descobri que realmente dominavam uma língua estrangeira. Pediram desculpas pelo impasse e se mostravam dispostos a me mostrar alguns cômodos do casarão, pois até então eu só conhecia as moscas, os gatos e os móveis da sala. Ah, e também conheceria Rosiana. Ela estava num quarto sem luz, belíssima. Por um instante parou de alimentar os morcegos e sorriu para mim. Fiquei enfeitiçado. Muito empoeirado o quarto de Olegário. Os ratos de muito haviam desistido de roer os livros amontoados na biblioteca. Em 80


outros cômodos não pude entrar, desculparam-se alegando falta de arrumação, era lá que estavam os guardados do falecido pai, coisa sem importância, diziam. Não os ouvia. A imagem de Rosiana não me saía da cabeça, ela tinha a tez tão encardida como a dos irmãos. Mesmo eles, eu já não os achava acentuadamente amarelos. No dia seguinte cheguei mais cedo. Rosanir e Olegário ficaram muito felizes. No dia anterior tivera a impressão de que ambos não queriam que eu conhecesse Rosiana. Pedi para vê-la. Fui levado a um outro cômodo por Rosanir. Encontrei-a com os mesmos gestos estudados, comedidos, alimentando uma centena de lagartos. Sorriu muito feliz ao me rever. Beijou alguns lagartos e fomos para a sala. Olegário balançava, os gatos miavam, moscas atropelavam o ar. Saí da casa dos Torel e fui à ICN pela última vez. Era um pouco tarde e só encontrei o porteiro. Com ele ficou a minha carta de demissão, irreversível. Apesar da noite que separava nossos olhos, ele me achou um pouco pálido. Nunca me casei com Rosanir. Olegário explicou que os costumes da família eram diferentes, não queriam incômodos, poderia me acasalar com Rosanir sem cisma da moral. Crescia em mim uma selvagem paixão por Rosiana. III Jorge ajudava Rosiana a alimentar os bichos. Sentia um pouco de medo dos escorpiões e nutria um precavido respeito pela imensa jiboia que vivia entupida de sapos. Os outros bichos estavam sempre famintos.

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Olegário estava quase sempre na sala, principalmente pelas manhãs. Jorge não costumava frequentar esse cômodo da casa. Tinha por ele verdadeiro pavor. Acostumou-se à carne de gato, ensopada nos primeiros dias, e depois sempre churrasco. Olegário encarregava-se de buscar a pensão e retornava com o saco de carvão mensal. Nas tardes de verão reuniam-se todos na sala e jogavam moscaralvo. Eram colocadas muitas iscas de carne pelo chão, em quantidades iguais para cada concorrente. A estratégia de espalhar os pedaços de carne era cuidadosamente estudada por cada jogador. Vencia aquele que primeiro tivesse todos os chamariscos pousados de moscas. O vencedor uivava de contentamento. Jorge detestava a sala e sempre se retirava derrotado. Gostava das lições de estranha língua que lhe ensinavam, era uma derivação do armênio, diziam. À noite, Rosanir lhe dava na konstilai os prazeres que nunca ousara pedir a uma mulher. Levantava-se da konstilai e ia ajudar Rosiana a alimentar os trogondixas. A dolivasch por Rosiana aumentava a cada manhã. Já não ia à tatna nem para jogar moscaralvo. Imaginava Olegário se balançando na kumpureta e engolindo zonguias: sentia nojo e nojo. Acompanhava Rosiana pelo casarão. Amou-a pela primeira vez entre lagartos. Recuperou um pouco da sanidade nos braços envolventes de Rosiana entre morcegos, sapos, cotias, cágados, borboletas, esperanças... O carinho de Jorge pelos besouros era um mau hábito que os demais moradores suportavam com resignação. Sorrateiro, abria a gaiola dos desajeitados insetos e ficava observando o troncho 82


levantar voo. Contrariando todas as leis da aerodinâmica os besouros voavam. Vez por outra, Jorge deixava entrever uma frincha na janela para que algum mais ousado fugisse do casarão. Chorava muito quando o besouro errava a porta de escape e batia contra a parede. Insistiu muito com Olegário para ir buscar a pensão e o carvão daquele mês. Sentindo a desaprovação geral abriu a porta para cumprir a missão. Ficou tonto com a avalancha de luz que desabou sobre seus olhos. Errou todos os caminhos, tropeçou pessoas que não o reconheceram, alucinou pela cidade. Retornou com o cair da noite, a visão refeita, porém sem pensão ou carvão. Naquele mês comeram carne crua, ronronando. Confessou a Rosanir a curiosidade que tinha em conhecer o porão da casa. Ela se revirou na konstilai sem dar resposta. Tentou com Rosiana, mas esta nem ao menos parou de alimentar os trogondixas para ouvir sua súplica. Olegário engolia zonguias, indiferente. Do porão vinham sons que o atormentavam. Sussurros, gritos, uivos, gemidos... Andava pela casa cegamente. Matava moscas e engolia. Vomitava a carne de amehed. Alimentava-se de borboletas, besouros, esperanças... Sussurros, gritos, uivos, gemidos, chamavam do porão. Levantou vagarosamente e encaminhou-se até as escadas. Suando, perdeu os degraus um a um, lentamente. Colado à porta ouvia corpos farfalhando. Empurrou-a com muito cuidado e assomou a cabeça. Sentiu uma sensação de gelo sendo enfiado pelos túneis 83


dos ouvidos, chumbo quente despejado pela garganta, bolas de sangue gotejando gosmentas do nariz. A réstia de luz desprendida do facho da sanidade foi estrangulada pela escuridão. Rosiana e Olegário arfavam enlaçados. Uivos subiam pelas paredes. A jiboia estava enroscada numa das pernas de Rosiana e tentava abocanhar um sapo de olhos tristes cavalgando o dorso de Olegário. Gansos grasnavam. Alucinadamente trepou pelas escadas. Tropeçou numa corrente de breu e desabou de muitos degraus. Caiu infinitamente alguns metros até se estourar no fundo de um abismo oco. Antes de perder a consciência, localizou a dor aguda no maxilar inferior. Acordou ao lado de Rosanir. Tentou falar mas descobriu que se tornara telepata. Mandava uma mensagem incessante para um remoto conhecido: dor, dor, dor... para Jorge talvez. Ao passar a mão pelo rosto deu falta do queixo. Compreendeu que havia sido operado, sem o maxilar inferior só poderia falar a linguagem dos Torel. Ficava trancado no porão, a cada dia mais prisioneiro da insanidade. Gostava do porão. Uma única vez sentiu uma profunda saudade do sol, uma chuva de luz caía do teto, reuniu forças e com a ajuda de duas antas que lhe eram muito queridas, arrombou a porta. Irrompeu pela tatna aos gritos fazendo Olegário saltar da kumpureta e agarrá-lo. Vieram as irmãs viscosas, felizes pela oportunidade de arrastá-lo para o porão e chicoteá-la. Antes de ser levado da tatna, cuspiu no rosto de um desconhecido que parlamentava com Olegário. Irritou-se com a imbecilidade do estranho, que não fora capaz de captar a mensagem. 84


Ao saber da morte das amigas ficou triste. Recusou-se a comer da carne das antas. Como poderia, se elas morreram em sua defesa? Além do mais, preferia carne de amehed. Arquitetava planos para matar Olegário. Teria que destruir o laboratório da família Torel. Acreditava que essa era a maneira de cessar a metamorfose. Indagava se valia a pena ser Jorge da Silva Matos, corretor de imóveis. Como venderia os imóveis sem maxilar inferior? Desvendariam uma derivação de armênio emitida através da telepatia, os clientes? Antes de demolir o laboratório iria transformar Rosanir e Rosiana em belas escravas. Seriam chicoteadas todos os dias e teriam que satisfazer a fúria sexual dos gansos. Estava apaixonado pela jiboia. Toneladas de depressão estavam penduradas no teto, como morcegos. As amarras resistiam. Passou a se alimentar somente de zonguias. Estava perto do fim. IV Entrei no escritório do chefe exultante. O sr. Almeida me deu os parabéns e o cargo. Confiava no meu êxito, disse. Atravessei a rua com a certeza de que valeu a pena me aproximar dos Torel. Contaram-se muitas histórias do irmão maluco. Arêncio Alva, de Torel tinha a mania de achar que era outra pessoa, um caso muito complicado. Por isso ficava quase sempre trancado no porão. Gostava muito de animais e para satisfazê-lo, Olegário vivia comprando bichos de pelúcia e empalhados. Em 85


suas crises mais profundas falava numa língua que ninguém entendia patavinas ou se metia a telepata. O departamento de pesquisas sofrerá uma reformulação profunda. A ICN não pode perdoar essas falhas. Os Torel não podiam voltar à terra por entrave do infeliz. Se o maluco não toma aquela queda ao me surpreender no porão com a irmã mais nova... Eu acho que ele pirou de vez, já que imaginava que ele era eu. Se o maluco não morre, eu estava fodido.

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Mercuriano, o caixeiro-viajante Quando o Vitória-Minas larga a estação, avança pelos bairrosdormitório de Cariacica. A paisagem rotineira cumpre o rito: uns atiram pedras, outros acenos entediados. O trem estrebucha em lenta agonia ferroviária. Uma centopeia de aço para sobre os trilhos, fareja o itinerário e arrasta os corações de primeira e segunda classe. Os rumos eram vários e quem saberia quantos cumpriam apenas a sanha de fugir de uma sombra angustiante na pouca liberdade propiciada pelos túneis? Mercuriano de muito fugia do ficar-aqui, que cedo não era a hora de buscar distância como tantas e tantas vezes buscara. Sempre que encontro um amigo comum, a pergunta nasce do choque dos olhos: Mercuriano partiu? Na verdade, de muito Mercuriano não sabia se ia ou se vinha de algum destino. Revolteava: seguia a rota do sangue pelo sem fim dos trilhos que irrigam o corpo. O trem rangeu numa parada obrigatória. A estação suspirou. Uma a uma as cabeças passageiras tomaram seus lugares nas janelas. Houve quem cutucasse um ou outro janeleiro pois os viajantes de corredor são criaturas ranzinzas e mesquinhas. Imune ao peso das pálpebras que iam esmagando pedaços de paisagem e de corpos, o calor do meio-dia oferecia ruas espapaçadas como pequenas lagartixas ao sol. 87


- Aonde estamos? - interrogou Mercuriano ao bilheteiro. O homem cuspiu a resposta, assim como se cospe uma aranha. A saliva rodopiou no ar e se enganchou na teia do apito do trem, sufocante. Mercuriano se enfureceu com a sonolência do bilheteiro e sem maior espera empurrou a bagagem para o chão do lugarejo. Atravessou uma rua lenta. Abriu uma pequena valise. Alguns envelopes, brancos, saltaram para as suas mãos. Contou uma trintena. Ou pouco mais ou menos. Entrou na minúscula agência dos correios, cumprimentou um quixotesco funcionário que, solitário, disputava damas. Do rosto sulcado pela idade captou um grunhido de satisfação: o velho tinha fulminado o parceiro invisível com uma jogada infernal. Mercuriano endereçou os envelopes. O suor pingava sobre o tabuleiro no jogo de morosa sozinhez. A cola grudava nos dedos. Relembrou visitações de outras paragens, nenhuma em especial. Cidadezinhas pegajosas, asquerosas como répteis. Porém sempre soubera fugir das amarras viscosas dos afazeres sedentários. Escapara de ser prefeito, delegado, mestre de escola singular, comerciante de tecidos ou varejo. Soubera recusar os convites de venha-abrilhantar-nossa-festa, seja bem-vindo aos tentáculos hospitaleiros do nosso povo, constitua família ou seja fazendeiro ou coletor de impostos... Os dedos de Mercuriano estavam grudados pela maldita cola. O poema-vingança que mandava aos ex-companheiros de andanças recusava-se ao branco agasalho dos envelopes. Este era o rito do andarilho: em cada parada de sua viagem mandava aos excompanheiros o cruciante poema: 88


Os amigos vinham comigo. A estrada era larga era ensolarada a estrada e tinha muitos atalhos. Alguns dos meus amigos se extraviaram, perderam-se, foram tragados pelos leitos finos e sinuosos dos atalhos convidativos. E havia árvores rechonchudas plantadas à beira da estrada árvores férteis de sombras. Alguns dos meus amigos quiseram descansar sob as árvores e foram assassinados, friamente. Outros se enforcaram nos cipós e ficaram pendurados no passado. Com desprezo jogou os envelopes numa caixa sobre o balcão. Colocou-se diante do tabuleiro e atirou a primeira pedra. O velho grunhiu em aprovação e Mercuriano perdeu a guarda do flanco direito. Obteve do funcionário dos correios as informações necessárias para ficar uma temporada no lugarejo. Entretanto, ao mover a primeira pedra, Mercuriano não notou que, ingenuamente, havia caído numa cilada. Sofreu uma derrota humilhante.

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Nascia no caixeiro-viajante uma desconfiança pontiaguda de que há anos aquele velho asqueroso esperava por ele com o tabuleiro armado. Fora uma bela cilada. - Esse estranho não merece o seu amor, Lisaura - dizia a tia velha rebuscando sábios conselhos. A tia era paralítica e estava enxergando muito pouco. Contudo, soube decifrar no rosto alheio do forasteiro a falta de apego à vida do ficar-aqui. - Eu amo esse homem, tia Efigênia. Nem que ele se vá amanhã retrucou Lisaura. - O sofrimento é seu, - suspirou a tia. - Faça dele o que quiser. Lisaura, magoada, ficava assim bem triste. Não gostava da tia quando ela se referia a Mercuriano apontando-o como vagabundo. Era o seu homem e faria tudo por ele. Pela tia, já entregava o corpo ao rápido gozo dos viajantes que estadiavam na pensão; então por que não dar a vida por Mercuriano? Nos primeiros dias, Mercuriano reclamou muito dos percevejos Que não davam uma trégua ao sono. Reclamou das cobertas espanta-hóspedes, ralas como um véu e cheias de furos. Reclamou da comida insossa, era por causa da velha que não podia comer sal. Entre uma reclamação e outra, dirigia-se aos correios e era derrotado pelas ciladas ardilmente tramadas pelo funcionário cervantiano. Entre um lance e outro, nenhuma hélice quebrando a inércia da brisa, é que soube, muito respeitosamente, que Lisaura deitavase com os fregueses da Pensão da Tia Efigênia. Nesse dia 90


retornou à casa da pensão com uma nuvem de fúria antecipando seus passos. Entrou no quarto e se trancou. A noite banhava-lhe o corpo com uma chuva fria de suor estagnado. O ranger da rotação, em lancinantes decibéis, roubava-lhe o sono e triturava seus nervos. Amanheceu em febre de jumento insone. Lisaura veio arrumar o quarto. Fazia isso todas as manhãs. Achou estranho que o rapaz ainda não tivesse levantado. Abriu a porta e deparou com o desejo nu de Mercuriano enlaçando seu corpo. Lisaura se refez da surpresa e se enroscou nos braços em brasa. Sempre que mercuriano perguntava-lhe por que se deitava com outros rotineiramente e não o havia procurado, ela respondia que tivera medo de ser recusada. Descontaram o tempo perdido: amavam-se alucinadamente horas a fio. O velho dos correios voltou a fulminar o invisível parceiro com jogadas infernais. Com a morte da tia Efigênia, Mercuriano ocupou-lhe o lugar. Porém, o fato de ser homem deu-lhe outra posição: tornou-se cafetão de Lisaura. Ao anoitecer, tomava seu posto atrás do balcão: recebia e ordenava a entrada dos homens. O leito e o corpo de Lisaura saciavam a todos. E eram muitos, muitos, muitos, antes que o cafetão entrasse com olhos de madrugada cobrindo-lhe o rosto e se deitasse na carícia do corpo quente. Enquanto ele se contorcia, ela contava a féria do dia: rumorejava pela cidade. Às vezes Lisaura era exigente em seus desejos. Pedia-lhe carícias que nenhum contorcionista poderia proporcionar. A frustração tomava conta dos lábios da alvorada, que-tremulavam. O cheiro do quarto embrulhava o estômago dos visitantes de primeira 91


viagem. Lisaura pouco se levantava da cama nesses tempos, que os viajantes chegavam como hordas de gafanhotos. Diversas vezes, o cafetão teve que despregar o corpo cativante de Lisaura dos lençóis empapados de suor. Ao amanhecer de uma noite em claro, Mercuriano pegou uma valise onde dormiam brancos envelopes e o poema-vingança. Resoluto, encaminhou-se para os correios. Iria enviar uma trintena ou mais ou menos de cartas e tomar o primeiro trem. Entrou na minúscula agência. Silenciosamente moveu a primeira pedra. Deslizou entre inúmeras armadilhas e derrotou o solitário pastor de damas. Cabisbaixo retornou à pensão. Teria que refazer o poema. Os anos correram sobre os trilhos e descobri que a cidade havia me aprisionado com suas garras de tédio. A paixão que nascera entre mim e Lisaura chegou ao fim, soterrada pelos afazeres da pensão e choramingos de crianças. Refiz o poema-vingança e quando o lia sentia um punhal cravando-se nas minhas costas: Os sonhos vinham comigo. A estrada era larga era ensolarada a estrada e tinha muitos atalhos. Alguns dos meus sonhos se extraviaram, perderam-se foram tragados pelos leitos finos e sinuosos dos atalhos convidativos. 92


E havia árvores rechonchudas plantadas à beira da estrada árvores férteis de sombras. Alguns dos meus sonhos quiseram descansar sob as árvores e foram assassinados, friamente. Outros se enforcaram nos cipós e ficaram pendurados no passado. Nas tardes de solidão ardente, ficávamos debruçados na janela vendo passar o Vitória-Minas. Eu atirava pedras. Lisaura, acenos entendiados.

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Veranice que devorava minotauros A O musgo crescia na pele das paredes, silenciosamente esverdeado, atingindo tons de sombra rumo ao teto. Somente os cães percebiam a leveza dos passos que vazavam a trilha erma de passantes diários. Abiiba dormia e roncava e também, a cidade. O grupo de homens sabia como dar cabo do estuprador. Discordavam acerca do uso de métodos cruéis, de matar com estrídulos de agonia, de apresentar ao justiçado a primeira cartilha da existência dos infernos. Porém, os irmãos de Veranice exigiam muitas dores para que a pouca carne entregue ao ofício das trevas, estirada, muito sofresse. Um chute na grade das costelas arrancou Abiiba da prisão dos sonhos. A turba justiceira agarrou o saco de pancadas por todos os membros e iniciou a malhação. Instantes depois, Vicente Fermo dos Santos tirou o judas das mãos enraivecidas. Era chegada a hora de mostrar que não se brinca com a honra de uma família zelosa de brios. Debaixo de pontapés, Abiiba arrastou um peso de dez quilos que lhe fora pendurado nos testículos. Valdivino, irmão de Vicente, não se esquecera do cabo de vassoura: que foi atochado no rabo do sacripanta. Por último, o velho Fermo arrancou de um reflexo de sangrar porco e rasgou o ventre de Abiiba, do sopé do umbigo até quase 94


ao pescoço. As vísceras, tão-quentes, pesavam as mãos suadas de sangue que tentavam contê-las, os intestinos amarfanhavam-se em sanguinolenta serpentina de um carnaval que Veranice não brincou. Após Venâncio Fermo dos Santos, veio a segunda faca e muitas outras, acariciando o desejo de possuir Veranice. Todos fizeram uso da viana, barro e ossos incorporaram-se ao silêncio, não houve culpado. B O carnaval estava próximo. O ensaio do Bloco Alegria convidava ao samba. O ritmo alucinava os corpos, aproximava os corpos, ousava a permissão de contatos suarentos, os pés buscando a mais ligeira fuga do chão empoeirado, e depois os carinhos safados de despedida: observavam pelas frinchas as mães de família que sabiam que esse mundo está perdido, que: tirando as minhas, criadas no cabresto, o resto já foi deflorada. E, sob a copa de um oiti, um cochicho e beijos eram observados: - Não tenha medo, Veranice. Tudo vai dar certo. - Eu tenho medo, você bem sabe que meus irmãos não querem ver a sua cara nem por fotografia. Eu tenho medo e muito! I Dos moradores da Ilha do Príncipe, o ex-seringueiro Pedro Amazonas era o único que dava um pouco de piedade ao alienado. Levava a piedade numa tijela transbordando sobras-de95


ontem. Abiiba comia com as mãos, avidamente, os olhos fixos num cubo de sombras. Pedro Amazonas compreendia o louco, aprendera o respeito pelas criaturas da selva: onde buscara a fortuna, deixou a saúde e trouxe uma febre sem-fim. Comparava o faminto a um abieiro produzindo látex sem-parar. As crianças, outros que iam ao armazém abandonado da Stanley McKinlay/Exportadora de Café. Como quem vai jogar futebol, bola debaixo do braço, driblavam a vigilância das mães e iam espreitar Abiiba. Sentindo curiosos olhos grudados em seus movimentos, Abiiba dava vazão à tara e se masturbava. Uma vibração percorria o murmúrio da garotada quando um jato de látex voava contra o musgo da parede. A chegada inesperada do ex-seringueiro punha sebo nas canelas da molecada. Esse cara-rasgada só serve para atrapalhar, diziam, esse diabo desse treme-treme, iam para o campinho. Pedro ralhava com Abiiba. No início ralhou também com Veranice, quando a surpreendeu pendurada numa janela do armazém. Porém, a moça era de maior... Pedro desfiava um rosário de aventuras, sobras-do-passado. Veranice quase perdia o fôlego, os olhos fixos nas paredes do labirinto. II Dos moradores da Ilha do Príncipe, Veranice era a única que alimentava sonhos de não apodrecer numa vida mesquinha. Buscava horizontes, imaginava viagens, cultivava amores proibidos, desesperava o pai e os irmãos, zelosos. A mãe 96


despejava conselhos por um funil longo-longo, essa menina vai ser muito infeliz. Saíam pelo outro ouvido, Veranice não tinha jeito. Sempre inventando, germinando mistérios e não queria saber de um noivado decente, vai ser muito infeliz... Veranice ora ouvia os berros do pai, ora não deixava que eles penetrassem seus trejeitos, no convívio de imagens espatifárias onde navegava. Gostava de ouvir estórias de Pedro e achava de imensa beleza a cicatriz ancorada na face esquerda do aventureiro, além do mais. Parecida com a de Arlindo que, entretanto, era na face direita. Amava os homens marcados, a ferro e fogo, possuídos pela vida. Os olhos embaciados do pai e dos irmãos rosnavam que nada viam em Arlindo, não passa de um vagabundo, compositor de escola-de-samba, isso lá é profissão? Vociferavam. Veranice era desejada por muitos, para zeloso desespero do pai e dos irmãos. E se o corpo angolano ágil de Arlindo não botasse respeito: bem que Veranice provocava. Pedro já não ralhava com Veranice: convidava-a, era macio o corpo ardente. Mas pressentia que tudo ia dar no que deu, um azarão. B - Vamos fugir então, Veranice. - Fugir? Não, não assim. Eles, esses monstros, são capazes de ir até o fim do mundo. Mas eu sei de um jeito... 97


Veranice não iria brincar esse carnaval. Voltava dos ensaios aprendendo caminhos, encurtava o tempo do Alagoano à Ilha do Príncipe passando em frente à Stanley McKinlay. Veranice gostava de passar por ali. Muitas vezes entrava no armazém para acordar Abiiba. Insetos estridulavam, aranhas teciam um labirinto esverdeado, musgos buscavam o teto: sombras lascivas buscavam-se em seu ofício de trevas. A Não, não é caso de polícia, berrava Venâncio, pai de Veranice. Vamos fazer justiça com as nossas mãos, esse tarado é um perigo para as nossas famílias, vejam só o acontecido com a minha filhinha, estuprada por esse maldito, vamos tomar expediente no caso. Pedro Amazonas era a testemunha, ouvira os gritos da moça, confessava-se arrependido por ter durante tanto tempo alimentado um monstro, trouxe um peso de dez quilos e explicou como deveria ser usado, não pode haver perdão, amanhã é uma outra pobre moça nas garras desse tarado, até os loucos devem ser responsáveis por seus atos... Arlindo, que os olhos do pai e dos irmãos nada viam nele, nessa hora foi bem recebido. Os vizinhos colocaram-se às ordens do açougueiro. Alguns, foram pressionados pelo moralismo das esposas. Veranice detestava-as e gostava de escandalizá-las, as cadeiras balançando saias curtas e olhares compridos, remexendo desejos e ciúmes.

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Outros moradores da Ilha do Príncipe, que não compravam fiado dos Fermo e nem iam com os bofes da família, comentavam: se a assanhada estiver grávida é só esperar para ver de que lado é a cicatriz. Ainda antes do carnaval, Arlindo pediu Veranice. A família admirou a hombridade do rapaz: casaram-se e foram para São Paulo, tentar melhor sorte e esquecer o passado. Pedro piorou da febre, queria bem a Veranice, reconheciam o açougueiro e os filhos, morreu de um ataque de maleita invocando: bem baixinho-veranice, baixinhoranice, beranice... As últimas notícias de Veranice romperam a fio do novelo: odiava o filho apalermado, abandonara Arlindo que morreu de desgosto e se perdeu no labirinto enfumaçado da Grande São Paulo.

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Contem os nossos mortos enterrados no vale Caminhávamos. Há muito caminhávamos. Orlando Barras suava em bicas, a poeira subindo pelos pés descalços, estacando súbita no tornozelo cáqui da bainha. Léguas de poeira, dias e noites de fuga. Perdemos as colheitas e as nossas barbas cresceram muito. Olho para Otaviano Cruz: um palito desinfeliz. - E se não for achado o paradeiro de nossa gente? perguntou Genebaldo Lapas, meio-angustiado. A resposta caía em gotas, pingando das barbas aos pés, desassossegando a poeira, uma corrente solamarrando o avanço. Adiante, diziam as pegadas incansáveis. Chapéu de palha era condenação, acrescido de aceno era pena longa. Chapéu de feltro era morte. Se o Coronel Medeiros comparecesse ao fórum de cabeça descoberta é porque pouco lhe interessava o destino do réu. Não queríamos abandonar os roçados assim-assim. Vieram os homens do Sr. Esmeraldino Medeiros e disseram: saiam, a terra tem dono, não é dos seus pertences. Acusaram-nos de invasores, desrespeitadores da justiça, ladrões de cavalos.

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É certo, não perguntamos a ninguém se a terra tinha escrituramento. A terra estava vazia: ocupamos. E não podíamos sair assim-assim, sem mais sem menos. Íamos ficar, poderiam nos tirar mas somente arrastados, mortos. Então não precisaríamos da terra e nem ela de nós. Antônio Bragança vinha na sua montaria, noite fechada, um ou que outro vagalume e a brasa do fumo forte vazavam a escuridão. A porteira rangia, pachorrenta, a mula cabeceava sonolento trote. O estampido arrebentou os pulmões do Antônio, pegou pelas costas, o buraco no peito dava para pôr as duas mãos. A mulher teria que se incumbir da colheita, os filhos eram três ainda pequenotes. Não faltaram braços para ajudar Daboneta, os camaradas nos reunimos em mutirão, somos muitos de uma só raça. Os homens aprenderam a lição: noite dentro fumar com a brasa embutida na boca, para não guiar tocaieiros. Noite. Noite quente de muitos bichos rumorejando. Joel Santório tinha ajuntado os porcos, que amanhã era dia de chegar os compradores dos açougues. Uma voz berrou, antes que os cachorros se enfezassem. - Ó de casa, me traz uma cuia d'água sou viajante e tenho sede. Quem sabe uma pousada?

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Joel abriu a janela que ficava de frente para o parapeito. Pôs o corpo gordo no batente da janela. O tiro pegou nas fuças, a cara ficou um bagaço, uma sangueira talhada no chão da manhã. A mulher arribou caminhos para os rumos da colônia do cunhado. Que vendessem os porcos e mandassem o lucro. Destempo, sempre que uma janela se abria na noite, assomava um travesseiro de palha, branco-branco, contavam-se uns momentos para o disparo, e se fosse gente de paz só então surgia o atendente. Chegaram sorrateiramente à casa de Pedro Ventura. Era dia, o homem estava no plantio de milho. A mulher se viu surpreendida, os jagunços eram pra mais de cinco. As duas meninas, onze e nove anos, arregalaram os olhos, curiosas como passarinhos. Mataram Sofia, friamente, fizeram e abusaram também das duas crianças. O rosto de Sofia tinha marcas de esporas. Arrancaram as orelhas da mulher e das crianças. O Sr. Esmeraldino estava pagando por cada par, e os jagunços cumpriam os pactos de morte. Na parede de entrada de cada casa passou a haver um tijolo, uma tábua ou um bambu de fácil remoção. Havia que se criar cães, gansos e coelhos, estes sob o assoalho, que são animais que montam sentinela e dão aviso. Se o cão late, há que se espiar pelo buraco e ver quem se aproxima. Os gansos grasnam furiosos e os coelhos batem as patas traseiras no chão. Se na casa de Pedro houvesse animais de aviso... 102


Os cães latiam. Isidoro Borges retirou o tijolo e viu os homens que chegavam, a tarde caía. A mulher e as crianças saíram pelos fundos e se internaram na capoeira. Moeram Isidoro no engenho como se mói uma vara de cana. A carne era um bagaço, uma pasta, o cocho estava transbordando sangue misturado com garapa fermentada. Odete falava dos gritos que ouviu, acha que moeram os braços primeiro, a seguir as pernas e, por último, o tronco. Não podíamos abandonar as terras. Compreendendo que os ataques já não eram dissimulados e que os jagunços brotavam como carrapicho, começamos a nos reunir em ranchos. Cinco ou mais famílias se ajuntavam em ranchos. Uns iam ao roçado e outros ficavam em casa. Houve um tempo sem mortes. Eram mais de vinte homens os que chegaram ao rancho da colônia de Pascoal Outeiro. Estavam muito bem armados. Pouco pôde fazer a cano-duplo de Manuel Gonçalo, na escala da vigia. Manuel foi baleado por muitos tiros. As mulheres foram violentadas e obrigadas a lamber as pisaduras de animais. Apenas surraram as crianças. Não foi de muita duração o suplício, pois os demais camaradas retornaram do batente e dispararam as espingardas velhas afugentando os capangas do Medeiros. Ajuntamos armas e muitos homens no próximo rancho. As mulheres e crianças foram mandadas para mais além. Os 103


bacamartes foram carregados com quase oito dedos de tiro. Como bucha, tínhamos cera de abelha e a carga era de cravos de ferradura, pedaços de ferradura, cacos de panela e estanho que houvesse. Eles chegaram com o sol no alto do céu. Os cães não latiram. Não havia cães. Nem gansos ou coelhos. Havia homens montando vigia nas colinas. Eles estavam em um bando de trintena. Passaram pelo terreiro, muitos apearam, estavam descuidados: o lobo não teme o cordeiro. Um deles avançou até a porta. Empurrou-a com a coronha da carabina. Limpo, o céu trovejou. Descarregamos uma saraivada de revolta no lombo da jagunçada. Uns ficaram estendidos, mortos, e outros fugiram como quem vê o diabo. Um deles, de botas brilhantes e esporas de prata, se enganchou no enganocabrito, estava baleado nas pernas. Tenório Malenário arrancou do punhal, ferrugem e ira, enfiou no peito do homem e lambeu a lâmina áspera, bebeu do sangue do cão sarnento. Nesses acontecimentos iniciou a participação da polícia. O Sr. Medeiros dava grande recompensa a quem levasse as orelhas do assassino do genro. Cavamos trincheiras, o policiamento foi rechaçado nas primeiras tentativas, deixou muitas armas e munições. O vale era nossa vida, plantada, enraizada, não tínhamos papéis é - certo. Mas eram já muitas almas de nossa gente naquele chão. Antes não havia escrituras: só mato e animais selvagens e doenças e fome e sementes. Temos o direito da terra: plantamos. 104


Temos um documento: contem os nossos mortos enterrados no vale. Tenório foi preso. Mais seis camaradas. Ficaram vinte e um dias sem comida, estavam só os ossos, numa cela com dois palmos de água e apanhando de umbigo de boi. Queriam saber o paradeiro do matador do genro do Medeiros. O papa-terra queria vingança. Tenório Malenário confessou, para salvar os camaradas. Houve um julgamento. Houve? O papa-terra estava na primeira fila, chapéu de feltro azul com manchas de esbranquiçado, era o céu arrastando nuvens na tarde. A tarde passava apressada, ilegal, impune. O corpo de jurados contava mourões, a cerca de Esmeraldino Medeiros, que eles chamavam de coronel, ia-ia-ia... por léguas de mando. O corpo de mourões suava comprimido pelas farpas do arame. Soube-se depois que: Tenório, condenado a sessenta anos de prisão, tentou fugir e foi morto na fuga, tiro de fuzil com bala dum-dum. Vieram os funcionários federais e as metralhadoras federais. E veio o acordo federal. Não queríamos acordo, queríamos as nossas terras, o nosso vale onde estão enterrados os nossos mortos. Entretanto, eram muitos os soldados, as armas eram potentes, tinham muitas provisões, reforços que poderiam chegar a 105


qualquer momento, comunicações, papéis, muitos papéis. Eram homens treinados para a luta e para matar. Nós éramos simples camponeses. Mas muitos não queriam a trégua nem o acordo. Devolveriam os presos, teríamos terras, mas não as do coronel. O cartório, acidentalmente, pegou fogo. Portanto, os únicos documentos estavam em posse do papa-terra. Certo, conversaríamos. Que viessem de lá um padre, um juiz, uma criança de dez anos e o comandante da tropa. Poderiam vir homens disfarçados, traiçoeiros, mas uma criança não se disfarça. Talvez quisessem apenas assassinar nossos principais chefes... As lágrimas eram cachoeiras nos nossos olhos, estávamos acuados sem haver escape. Vamos continuar na luta, implorava Pedro Ventura. Mas, até quando? Não viemos para morrer como insetos, gafanhotos para destruir os plantios. Eles eram tantos... Que voltássemos na semana seguinte. O comandante riscaria o mapa de onde poderíamos estacar. Não nas terras do coronel. Seria além, muito além. Onde, se todas as terras são do coronel? Voltamos na semana seguinte. Conforme o combinado estávamos no local. Estavam comigo Otaviano, Genebaldo e Orlando. De lá chegaram os quatro: o padre, o juiz, a criança e o comandante. O comandante examinou as armas que trouxemos nos cargueiros. Contou fuzis, perguntou pois, se não havia mais segundo o relatório do policiamento local, muitos não recolhemos a polícia abandonou e enferrujaram no matagal. Confessou que não compreendia como fazíamos atirar as bocas-de-velha. O 106


comandante nunca defendeu a casa e a vida contra o inimigo poderoso, bem se via... Vendemos os quatro burricos, eles poderiam voltar montados, precisávamos de dinheiro e tínhamos nossos pés. Não havia armas para voltar nos cargueiros, além do mais. E eles reclamavam da distância que cobriam a pé, perto de três léguas, era nossa precaução. A nossa certeza é de que os soldados iriam embora mas os jagunços do Esmeraldino Medeiros são daqui-mesmo. Por isso, os outros seguiram na frente, ao encontro das mulheres e crianças, e levavam burricos arquejantes, tínhamos que lutar por nossas vidas e lavouras. Disse a Genebaldo, eles não estão longe. De que adianta andar, andar, andar, como bacurau viúvo, se todas as terras pertencem aos coronéis?

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Ofício do contor A época é de espanto quebranto desencanto esperanto esperança num santo. 1 Pedra Gamões atravessa o corpo sacolejante em direção ao bar, era semanal o rito. Berrava da entrada: - Desce duas geladas que uma é do santo, eu conheço a gula e a manha de quem me protege. A primeira garrafa, o Pedra Gamões atirava no meio da rua os cacos espalhavam-se cortantes. Gamões bebia pela tarde de sábado até baixar a noite e o caboclo selar a montaria. Não encontrava rival na queda-de-braço. Mas se nasce um santo traz um manto tecido a fogo e acalanto 2 108


Parecia uma viúva negra, aranha. Silenciosa e temida, Zenaide operava curas. Fazia trabalhos de matança, os ogãs repicavam os atabaques, as aves negras saíam do galinheiro rubro-negro e eram amassados à mão-de-pilão. Antes, Zenaide sugava-lhes o pescoço. O sangue escorrendo dos cantos da boca e os paralíticos se levantavam, as feridas cicatrizavam, a gagueira cessava, a hemorragia estancava, os ogãs repicavam os atabaques. Então devemos espantá-lo (a época é de espanto) pisoteá-lo enganá-lo 1 O Gamões andava meio-enrabichado pela garçonete do Zé Paulino. Cumpria o ritual e atiçava a gargalhada dos bebericadores do sábado: - Marlene, hoje eu quero comer coxinhas. Daquelas bem rechonchudas, vai me servir? E tanto fez que acabou andando com a mulata. Dizem que na própria basculante da P.M.V., o Gamões era um motorista dos bons e tinha anos-e-mais-anos de prefeitura. E depois 109


vendê-lo no pão e no circo e no cerco criá-lo após tê-lo morto. 2 Zenaide olhava os agentes do mal por um espelhinho que trazia sempre metido no seio. Protegia os afilhados e despejava encosto nos mal-vistos. Quando fora da função, era mulher de algum encanto. Arrumavase mais alegremente, soltava os cabelos crespos ou fazia trançaspegadas, vestia coloridas capulanas e pendurava colares de frutos do mar. Era mulher de muito amor. Ou muito ódio, a metamorfose era contida em frágil fronteira. Tê-la nas mãos algemado se tanto acorrentado sem espanto filosofal pedra do desencanto. 1

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Gamões e Marlene já davam mais na vista. Todos sabiam da treta e botavam até olhos de respeito, quem havia de mexer no prato do Gamões? O Zé Paulino afirma, e dá fé, que ouviu mesmo umas conversas de casa-e-comida com algum conforto. Naquele dia, não era a primeira vez que o Gamões reclamou da vista turva. Estava amuado e recusou umas três chamadas para a queda-de-braço. Era tudo revanche, afinal. Quando o domingo amanheceu é que todos puderam ver a basculante da coleta de lixo socada lá no pé da pirambeira. Pedro Gamões foi enterrado no cemitério de Itaquari e Marlene os parentes vieram buscar o corpo. A época é de espanco e no manto resplandece uma verdade por isso vamos rasgá-lo. 2 Zenaide disse que não iria ao enterro e nem queria velório do safado em sua sala. Muitos viram quando a mãe-de-santo arrancou do seio o espelho e atirou longe. o velório de Pedro Gamões foi no Bar do Zé Paulino. Lá também ficou o corpo de Marlene até que chegassem os parentes do interior. Diziam os bebericadores que de muito a Zenaide acompanhava o romance pelo espelho. Na certa costurou um 111


retrato do Gamões, o nome cravado nas costas com sangue de bode preto, na boca de um sapo-boi, usando linha vermelha e agulha virgem para o trancamento. Mandinga para o Gamões tinha que ser da forte, senão não atravessava a couraça de sete-chaves. Cada santo possui um manto e no meu conto conturbado todo manto é forjado. 3 Dias depois chegou o Agostinho Gamões, irmão do falecido. Palestrou com a cunhada, disse que já havia se inteirado dos fatos com os bebericadores do Bar do Zé Paulino. Veio da Bahia, lá do Argolo, pedir arrego para a alma do mano, estacionada que estava no purgatório. Muita conversa rolou dia-a-dia até que Zenaide resolveu acompanhar o cunhado à tumba do falecido. Seria de noitão pois tenho os meus brios, combinou Zenaide. Amanheceu estendida sobre a tumba, a garganta rasgada, um estrago de peixeira das boas. Agostinho Gamões não deixou rastro. E todo manto é forjado longe do santo 112


por isso se nasce um santo eu o espanco espanto. A redação do jornal formigava. Danilo Loureiro, editor de polícia, estava puto como um delegado em dia de muita ocorrência. O fechamento da página atrasado, havia um buraco e tanto. - Cadê aquele menino que só faz matéria de buraco? Achem o filho da puta imediatamente, isto aqui não é local de piquenique. Isto é uma redação de jornal, isto é trabalho sério, ou vocês dão conta do recado ou vão pro olho da rua. Cheguei com a matéria. Porra, o trânsito engarrafou ali na frente da Desportiva. Tirei umas fotos boas, fiz o trabalho todo sozinho, levantei os fatos com minúcias, essa eu acho que vai pra primeira página. Dava até um conto... Perguntei ao diagramador qual era o espaço do título. Ele me disse: vinte e quatro batidas de duas linhas. Veio num estalo e tasquei: MÃE-DE-SANTO ASSASSINADA NO CEMITÉRIO DE ITAQUARI Levei a cria para o seu Danilo. Ele estava mais calmo e chegou a examinar a matéria antes de dizer:

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- Não há mais buraco, garoto. Surgiram uns fatos novos sobre o Caso Araceli. Vê se dá um jeito de pegar o bonde a tempo e deixa de fazer literatura. E fica no fio do dúbio ar-ame a quebra do quebranto: 5 Saí com as laudas debaixo do braço. Vontade de dar um chute no cachorro vira-latas ali me olhando sarnento. Caprichei, fotografei, botei título e bateu na trave. A maré está vazante pra free-lancer. Vou revirar isso de cabeça para baixo, espremer o lead e chupar só a medula da estória. Animo o corpo da matéria com transfusão de poesia, bem que poderia combinar ação/narração. Ou então criar uma dança de ocultismo envolvendo os personagens, deixar no bolso o entrelaçar do enredo... Não, devo obedecer a um trabalho metodológico, de sequência fragmentária, porém encorpado e árduo. Sim, eis a chave: usarei com liberdade todos os recursos, começarei lapidando o título, o cinzel teclando vinte e quatro batidas de duas linhas: CADA SANTO TRAZ UM MANTO POIS O MANTO FAZ O SANTO

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A cidade fantasma 1 O grupo de teatro de fantoches de Avaristo Golon corria os vilarejos, alegrando e prestando serviços aos moradores. Compunha-se do próprio Avaristo, sua mulher Expedita Rosal Golon, a irmã de Expedita, Daboneta Rosal Carreira, a bela e misteriosa morena, e do malabarista e cantor Anúncio Golon Neto, filho do casal. O quarteto era muito alegre e além da diversão de suas comédias, servia como cronista da memória coletiva de perdidos povoamentos, e como tribunal de julgamento das mais diversas contendas. Em Itaporanga, onde as leis escritas ainda não tinham chegado, exceção feita aos dez mandamentos, as questões esperavam, por vezes, um ano inteiro até a chegada dos artistas. 2 O espetáculo se iniciava com o corpo sem pernas do fantoche Gordavoz aparecendo no horizonte de lona batida, postado em meio à linha, cumprimentando a plateia e chamando pela Perguntadeira. Atendendo ao chamado momulengo do opulento Golon, assomava a voz esganiçada de Daboneta Rosal, a bela madura e vivaz, que se encarregava de espicaçar a paciência da plateia e dos outros fantoches. Anúncio, um adolescente secular, encarregava-se com a mãe, dos demais papéis. As lamparinas de azeite queimavam as trevas, tremulando espasmos de luz nos pouco mais de duzentos rostos que 115


compunham toda a população da vila. Um cheiro de carbureto escapava da linha do horizonte de lona batida, rescendendo a fogo fátuo. O cemitério de Itaporanga tinha oito cruzes: duas ofensas de cobra, uma criança perdida em parto prematuro e três consumidos pela febre treme-treme. A última morte, provocada pelo friéu intermitente, levara a vida de Gerânio Dantas, um bom homem gigantesco que atingia o peso de um quarto de tonelada. O enorme defunto foi enjaulado num caixão rústico, esteios amarrados com embiras, grossos cipós servindo de alças, e o cortejo seguiu rangindo como o carro de boi dos Golon, chiando ao sol beirando a zênite, um calor que fazia com que alguns cometessem o sacrilégio de afirmar que o garimpeiro seria cozinhado antes da alma abandoná-lo, porque o estômago fervilhante da terra expulsara até mesmo os tatus-galinha, expelindo-os pelas bocarras dos buracos, impedindo-os de arejar o âmago do mundo. Por isso não fora de estranhar que o maçarico do fogo fátuo lambesse durante muitas noites o sono dos itaporanguenses, atiçando o choro das mulheres e o pânico das crianças, e os homens foram obrigados a formar um cordão do cemitério ao Ribeirão do Ouro, passando de mão em mão tachos de água tépida até às mãos grossas e encravelhadas de anéis de Avaristo Golon, que ao chegar comandara os moradores na tentativa de dar fim ao bico de chama do inferno, antes que a fogueira se alastrasse e se cumprisse profecia do apocalipse. O tormentoso episódio se deu quando da quinta apresentação dos fantoches e desde esses tempos um lastro de pirofobia acompanhava cada itaporanguense. O cheiro da combustão do carbureto, proveniente da lâmpada que os Golon penduravam num mastro, recendia ao bolor do fogo fátuo e incomodava, perpetuava a certeza de que o azeite de mamona jamais seria substituído na vila, naqueles tempos. 116


3 GORDAVOZ - Os momulengos de Avaristo Golon se preparam. É o nosso sexto ano de apresentação neste povoado que assistimos nascer como tantos outros, após espantar assombrações, alargar os claros de mata e experimentar o gosto amargo da quina. Às margens do Ribeirão do Ouro e ao sopé dessa corcova da natureza, denominada pelos indígenas de pedra-bonita. Muitos vieram iludidos de que esse monumento estivesse entranhado de pedras preciosas, que bastaria ir retirando lascas de seu corpo monilítico, como se descasca uma cebola, para encontrar os portais da fortuna. Outros vieram como Golon e sua família, que não têm paradeiro certo e erram pela face da terra. Com vocês, o MOMULENGOLON!!! fundado por Anúncio Golon, avô, o mágico do sorriso e das lágrimas. (Aplausos. Surge a Perguntadeira.) A PERGUNTADEIRA - E daí, seu papagaio barrigudo? GORDAVOZ - Faremos a crônica do ano corrido de Itaporanga, certos de que muitos detalhes não poderão ser reproduzidos, mas trataremos de tudo... A PERGUNTADEIRA 117


- Quanto discurso... Comece, contudo. GORDAVOZ - A vida forja estranhas situações. Como solucionar o caso de... 4 Almerinda não sabia explicar o nojo repentino que sentia pelo marido. Primeiro atormentara-o pelo desejo de comer carne de macaco, assada. Carlos Antenor passou vários dias na mata até dar caça a dois pequenos saguis. Trouxe-os para Almerinda que ao vê-los, mortos, começou a vomitar. Os vizinhos acudiram e puseram fim às atribulações do jovem casal, explicando que eram bons os sinais e que somente a inexperiência de ambos e a desatenção de Almerinda, cujo ciclo menstrual já havia cessado há mais de dois meses, apurara a vizinhança, é que os impedia de prever o nascimento de mais um membro da quarta dezena de filhos legítimos de Itaporanga. Naqueles tempos ermos, os aglomerados do interior eram tão pouco populosos que cada morador conhecia todos os outros pelo-nome e a notícia de nascimento ou morte viajava de boca em boca, inscrevendo-se na memória coletiva. Explicados os desejos e o nojo de Almerinda, isto não bastou para que os desagradáveis sintomas deixassem de transparecer. O marido era obrigado a colocar tempero de lua nova nos ovos estrelados, colher amoras bem azedinhas em pés de pitanga, pescar cascudos da lapa e cozinhar tachos e tachos de moqueca, que ao final só recebiam um olhar entediado de Almerinda. Carlos Antenor ainda tinha que solucionar alucinantes enigmas propostos por Almerinda, passando três dias inteiros na matutação antes de descobrir que a carne sonolenta 118


que a mulher desejava não passava de carne de jacaré. E o nojo que Almerinda nutria por Antenor era tão intenso, que certa manhã, após o rapaz fazer-lhe um afago, tocando-a no rosto com as pontas dos dedos, obrigou-o a estender as mãos para que pudesse vomitar em cima delas. Essa exigência de Almerinda, quase levou-os à separação. - Não estou gostando de ter um filho - comentou o rapaz com um pouco de tristeza na voz. - Se soubesse que era preciso tanta expiação, tomaria os cuidados para que você não emprenhasse. - Tenha calma, Antenor - retrucou a esposa - e tenha a certeza de que você nem imagina a metade das provações que eu estou passando. - Mas as suas estranhezas estão indo muito longe - disse o rapaz mais para si mesmo do que para Almerinda, meditando que nenhum dos seus compadres e pais recentes jamais haviam mencionado tais infortúnios. - A mal feito, não se dá jeito - finalizou Almerinda, carregando o bojo incipiente do ventre para a cozinha de chão batido, onde sua irmã, Etelvina, carinhosamente conhecida por Etel, escaldava o café com sua costumeira esquivança. Naquele mesmo dia Almerinda e Antenor decidiram que não dormiriam no mesmo leito, o rapaz iria se transferir para o quartinho onde dormia Etel, ao lado, forrando o chão com alguns trapos, até que se confeccionasse um colchão novo. Etel apenas desconfiava que ocorria algo de anormal no relacionamento da irmã e do cunhado. Arrastou a frágil desconfiança pelos dezesseis 119


cantos dos quatro cômodos da casa e ficou feliz quando soube que o cunhado iria dormir perto dela, em seu quarto. Lembravase dos tempos em que o pai, vítima da penosa viagem em direção ao Ribeirão do Ouro, agasalhava-a com carinhos e braços fortes. Se bem que, notou Etel na primeira noite de vigília, o marido de sua irmã não roncava incomodamente como o pai. Passou a noite adivinhando-lhe a presença no cubo de sombras e durante o dia, quando Almerinda perguntou por que cabeceava tanto, respondeu que andava comendo muita erva-do-sono e que o sono vinha em baldes que transbordavam o poço da noite e encharcavam seus olhos o dia inteiro. Almerinda aceitou a resposta da irmã mais nova, pois era testemunha de que Etel se recolhia junto com as galinhas, e recomendou-lhe que não ficasse comendo esses frutos brabos desabrochados de qualquer moita de folhas. Foi um cheiro de folhas verdes o que sentiu Etel quando com meia-dúzia de passos, pé-ante-pé, aproximou-se do colchão de capim, ainda não totalmente seco, que o cunhado havia feito no correr da semana. Ficou sentindo a respiração de Antenor, a quentura do rosto dele, separada apenas por um palmo de distância e um escudo de trevas. Os dias correram. Etel tornando-se mestre na arte de driblar as armadilhas de estrondo do silêncio, imiscuir-se no reino inerme das coisas adormecidas, e ficar contemplando a possível presença de Antenor, os dias correram. Tocou-o pela primeira vez, desacertadamente, as mãos dançando medrosas. Um território de pelos engoliu seus dedos e Etel deixou a mão descansando, ofegante, sobre o peito profundamente adormecido do cunhado. Temendo que o rapaz acordasse voltou para o seu colchão, seca solidão, e quase deixou escapar um grito quando uma sensação de formigamento viajou 120


de seus pés à testa, agitando a circulação e porejando um suor frio, febril, esponjoso. Cabeceou pelos dezesseis cantos da casa, arrastando nuvens sombrias sobre a cabeça, inquieta, roendo o sabugo das unhas, e deixou a panela de arroz queimar virando uma pasta preta e ferruginosa. Fugiu da conversa amigável da irmã, trancou os ouvidos aos seus lamentos de grávida e se recolheu com as galinhas. Atreveu-se a mover os dedos, desorientados no matagal sereno, abrindo e fechando a mão, espreguiçando os dedos tenuamente, pouco a pouco a pouco afrouxando a tensão, libertando o tato cada vez mais atrevida, movimentando o pulso inteiro, que até então permanecia enrijecido como que paralisado. Venceu o medo, regressou ao colchão de trevas, e com os dedos imantados ficou se acariciando até o canto indolente de um galo descerrar a cortina da amanhecência. Viu Antenor se mover e rápida levantou-se para escaldar o café. O rapaz falou da postura das galinhas, dos cuidados da horta, do sapo que havia caído na cacimba, empesteando a água, enquanto Etel se movia como um morto-vivo, segurando as coisas como se temesse sujá-las, tentando acertar os afazeres com a mão esquerda, que voava cega e tropeçava nos mais próximos objetos. A maior preocupação de Etel era o temor de que o cunhado farejasse o cheiro forte que se desprendia de sua mão destra, ainda imunda e acusadora. Esperou que o rapaz saísse e foi à horta, colher cheiro-verde e chorar um pouco. Almerinda, engordada ao nojo do quarto mês, chamou-a entusiasticamente e ordenou à irmã que colocasse a mão sobre sua barriga. "Ele começou a. se mexer", disse escanchando o rosto empapuçado num semi-sorriso. Etel recolheu-se com as galinhas, a mão em fogo, sacrílega, tentandoa. 121


Levantou-se com a serenidade dos sonâmbulos, o mundo inteiro dormia, a claridão possível repousava na água do pote de barro, caminhou furtiva, a mão precipitando-se aos seus passos, pedindo urgência, arremeteu-se no ar como uma rã verde e caiu, mansamente, sobre a relva chamejante. O corpo de Antenor estava ardendo, lançando faíscas elétricas, transmitindo um desatino pelos condutos dos nervos, enlouquecendo o fluir das veias. Etel temeu que o rapaz despertasse, ou achou que devia temer, que era sua obrigação temer, mas não tentou refrear as batidas do coração, que já inquietavam as crias do quintal, mais sensível aos chamados apenas esboçados pela artesanal oficina da acústica. Reativou na lembrança o momento em que pousara a mão sobre o ventre bojudo da irmã. Odiou-se, anuiu que merecia padecer os mais cruéis castigos do inferno, insultou-se em pensamento e, solene, a mão pousada sobre o peito semovente, inflando e refluindo no ato da respiração, transferiu-se para os momentos épicos narrados na bíblia, tantas vezes desfiados pelo pai em longas estórias fantásticas, e jurou que não mais cairia em tentação. Voltou ao firme planalto do leito e tentou não se masturbar. A mão arriada, entrepernas, insolente, rebeldes os dedos, tilintaram, o gesto ofegante, e uma réstia de sono inundou-lhe os olhos antes que o dia despedaçasse as imagens do último pesadelo, jurara. Implorou pelos quatro cômodos da casa que tivesse fim a agonia. Andou pelas cercanias da horta, respondeu a alguns olhares transeuntes, e retornou com uma cabaça transbordante dos frutinhos aperolados de erva-do-sono. O branco calcificado do seus dentes já havia se impregnado de uma coloração azul-arroxeada, quando Almerinda surprendeu-a.

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- Você arrumando modos de dormir... - comentou desolada. - E eu que vivo de olhos pregados... - completou com o mesmo ar de desolação, comum aos seres parasitados. - Acho que é a lua... - disse Etel evasivamente para não ficar sem dizer nada. E continuou em seu azul-arroxeamento. - Você não sabe o que é carregar esse peso. Um bicho que a gente nem sabe o que é. E se no final de tudo não gorar, como aconteceu com a pobre da Raquel? - perguntou Almerinda ao vento do entardecer, deixando transparecer a sua frágil confiança, alimentada por uma indubitável aversão à maternidade. Etel esquivou-se das dúvidas da irmã, proferindo um alentador viressa-boca e caminhou para o pilão, disposta a esmagar os nervos, os sentimentos, a porca da vida, ouvira do pai, desferindo golpes enraivecidos com a maça de descaroçar a força dos braços. Pilou arroz, pilou enquanto a boca da noite não se abriu, pilou, e piasse o primeiro pássaro noturno, pilou. Os olhos semicerrados, ainda sentindo no corpo a força relaxante da água da cacimba, gelada, desejou que a noite não tivesse mais fim ao pressentir que os músculos, moídos pelo cansaço, pelo peso da mão-de-pilão, se entregavam ao sono. Um som rastejante chegava aos seus ouvidos, imaginou ser a voz aperolada fabricando uma canção roxazul, quase negra, a voz, aos poucos ressoando nítida, compassado ritmo de respiração adormecida. Despertou assombrada, a cara engraçada da irmã contemplando-a. "Você precisava muito desse sono", disse Almerinda, ao mesmo tempo em que dava um toque de deboche ao riso gordo e recuava para a saleta. Era quase meio-dia. Durante três noites seguidas 123


naufragou no sono como um machado sem cabo. Na quarta noite, sentiu a mão firme, calosa, de Antenor pousar em seus seios e incendiar as colinas intumescidas do desejo, um fogo subindo, inexorável, duradouro, persistindo em sua fúria horas depois que algumas passadas tentaram cruzar despercebidas o silêncio noturno. Antenor tropeçou na moringa, começou a ensaiar um acesso de tosse, a água caminhando pelo chão batido com seus passos de borracha, e Etel podia sentir o desespero do cunhado que, antes de se deitar, exclamou baixinho: "Merda de moringa!" Na manhã seguinte, fez uma cola de arroz bem-novo e tentou grudar o pescoço da moringa ao resto do corpo arredondado, decapitado pela falta de jeito de Antenor. E na quinta noite atreveu-se a perguntar à mão, antes que ela descobrisse o caminho de retorno da capoeira pubiana: "O que você quer de mim?" E Antenor, com uma calma desconcertante, respondeu: "Devolver os carinhos que você me fez", resoluto enquanto se afastava, conhecedor do caminho já trilhado, sem possíveis obstáculos, desobstruído pela cumplicidade da cunhada. Na sexta noite, tornaram-se amantes. Deitavam-se cedo, tratando anteriormente de dispensar à Almerinda todos os cuidados, e esperavam desabar trovoadas de silêncio para se amarem. Numa das noites, tanta era a ânsia, que abandonaram a casa, nus, envolvidos pelo orvalho, e esmagaram um canteiro de almeirão com seus gemidos e sussurros. No oitavo mês em que Almerinda adernava bojuda, movendo-se com a dificuldade dos palmípedes, ouviu um choro manso, entrecortado de soluços profundos, cruzando a escuridão avançada numa liteira sonolenta e conduzindo todos os seus entorpecidos sentidos a percorrer a trilha desvendada pela frequência lacrimosa gotejando no quarto ao lado. Pôs-se de pé, 124


grávida de preocupação, e arrastou a bainha da camisola ao compasso de suas patas de rinoceronte. Dirigiu-se à cozinha, mantendo-se atenta à frequência dos soluços, muniu-se de uma lamparina e incendiou-a com a incandescência da binga, gordurosa de contato, que pertencera ao pai. Rumou ao quarto da irmã, levando a lamparina um palmo à frente dos olhos. De início pensou que o marido e a irmã estivessem paralisados, num sonho estático e desacertado, desses em que as pessoas tentam gritar e os sons ficam pendurados nas amarras das cordas vocais, que vão crescendo desmesuradamente, com um ímpeto comum aos cipós, e embaraçam nas pernas ou qualquer alento mímico. Em seguida, sentiu que dois vultos alongados, totalmente despidos, se projetavam contra a luz balouçante numa tentativa de ampará-la. Caiu de costas, em meio ao ganir luscofuscado dos pirilampos, derramando trevas enlameadas de pânico, o cheiro do azeite vazando pelas fendas da mornidão inodora, os dedos possuídos pela parca segurança de gavinhas gordas, agarrando-se desesperada nas amparas barrentas do estuque, desabou sacolejando o mar oleoso da placenta. Os vizinhos andavam de lá para cá, cacarejando como galinhas assustadas. Esparramavam entreconversas dissipadas pela borrasca inaudita do amanhecer, uma chuva torrencial de pontiagudas pedras de gelo, violentando o cheiro molenga e pardacento do chão, parindo uma lama negra, desaninhando cobras imensas, coaxos de sapos amargurados, era o dilúvio, diziam alguns, o Senhor o ordenou para aplacar a fúria das carnes, lamber os pecados e pulverizar a algazarra dos viventes. Ignorando as predições dos assombrados, a chuva gotejava vítrea, liquidando pequenos pássaros, penetrando como agulha a pele fina do ribeirão, dilacerando-a em bolhas pipocantes, imprimindo-lhe a virulência 125


da catapora, conduzindo os moradores de Itaporanga aos primórdios dos tempos, quando os deuses e os demônios guerreavam cuspindo furacões e bestas implacáveis. Um dos homens que atendera aos berros de Etel, lancinantes, atribulado no acudimento da parturiente, foi surpreendido pela liquefação do universo ao tentar retomar à sua casa. Todos que estavam na casa de Almerinda, com dezesseis cantos e quatro cômodos, eram onze almas mais as dos moradores, viram quando uma lâmina de gelo atingiu-o nas costas, abrindo uma loca que dava para meter um meião de rapadura, só não sendo triturado pelos coriscos porque Antenor escapou das mãos que tentavam segurá-lo e foi em socorro do agonizante. Retornou com o rosto picado de sangue, o algodão das costas perfurado como uma peneira de malhas grossas, e depositou o ferido, Dagoberto Olembo, em cima da mesa da cozinha, encarando os presentes ao mesmo tempo em que afirmava em tom de desafio: "Não se preocupem, ninguém morrerá por minha culpa". Os outros quatro homens presentes engoliram em seco e foram prestar os primeiros socorros ao ensanguentado. Um deles, Altamírio da Compaixão de Jesus, compadre de Antenor, arrependeu-se do dia em que fez poucos ouvidos à mulher quando esta comentara com algum mistério o estranho desejo manifestado pela filha mais nova do passado e bem lembrado João Cordeiro, que Deus o tenha, como todos os nossos parentes, de querer chupar uma mexerica do tamanho de uma melancia e azeda como o mais tenro limão, quase amargo. A rede da desconfiança das mulheres vizinhas do trio em flor de anos, há muito estava sendo tecida, espicaçada durante as lavagens coletivas das roupas, todas às sextas-feiras, exceção feita à Josefa, mulher de Epaminondas, proibida pelo marido desses conluios e sempre sovada quando surpreendida a tagarelar. Josefa ia ao 126


lavadouro às quintas. E nas outras feiras, inclusos o sábado e o domingo, abria a porta e as pernas morenas a quantos batessem, enquanto o sistemático marido garimpava cascalhos sem valor. E não era segredo o seu caso com o retinto Serapião, que punha o sócio a garimpar porres esplêndidos e se arrojava na lavra das paixões reprimidas de Josefa, perdendo-se em labirintos de obscenidades recônditas em que a porta única de entrada e retorno era a gruta perfumada da mulher do mais ranzinza dentre os moradores da vila. Enquanto corria para atender aos clamorosos gritos que vinham da casa de Almerinda, a estonteante Josefa ainda podia sentir na carne a noite de amor vivida com Serapião, o desfalecimento inevitável que desaguou ao sentir a língua áspera deslizando, dragão de ternura, sobre o grelo esfoqueado, as fortes mãos separando suas coxas, as nádegas crispadas, e as coisas abandonando as formas e se incorporando ao redemoinho no teto. Fora tirada do enlevo, por instantes, ao sentir o impacto poderoso do trovão entre as pernas, uma dor aguda rasgando-a ao meio como se faz na adua, logo substituída por um êxtase em que ficara se contorcendo e dilacerando a paina do travesseiro, trancando os dentes para não explodir em relâmpagos alucinados. Numa das noites, lembravase enquanto corria, fora tão grande o prazer, e se sentira tão gratificada com a enxurrada de ardência que inundara suas entranhas, que dormiu com a cabeça entre as pernas de Serapião, cheirando-lhe os bagos. Corria sozinha, pois Serapião não ousou enfrentar a chuva e a Epaminondas não bastaria um ensaio diluviano para lhe aplacar a ressaca. Chegara um pouco antes do novo vivente. O nascimento prematuro de Carlindo Rebento Bicalho foi anunciado com um choro fraco, abafado pela tempestade, a 127


ponto de não atingir os taciturnos homens comprimidos na saleta. Já havia cessado a metralha das bolotas de gelo, quando uma mulher magra, que tinha pouco mais de um metro e meio de altura e o rosto sulcado documentando as centenas de vidas que, através de suas mãos ossudas, tiveram o primeiro contato com a espécie humana após serem expelidos dos ventres das mães, dirigiu-se ao consternado Carlos Antenor Bicalho e com a irreverência que a idade lhe permitia noticiou a concepção. - Nasceu mais um porco, para fuçar as nossas carnes - disse e deu as costas estreitas aos resmungos dos machos reunidos. - Maldita alcoviteira! - esbravejou Renúncio Estel - O pior é que todos precisamos dessa bruxa para apanhar nossos filhos! - Porra! se fosse um homem... grunhiu o parrancudo Simões Pateleiros, estalando os punhos fechados como se pretendesse esmagar a insolência da sexagenária Amélia Bugnol, que muito se dava com Josefa e, por vezes, ajudava-a a ludibriar o marido, um "bruto", conforme apregoava. Amélia Bugnol era a parteira oficial de Itaporanga desde os idos tempos em que a vila era apenas um ponto a ser atingido, às margens do Ribeirão do Ouro, por um desgarrado grupo de catadores de fortuna que perambulavam feito mariposas ao redor da luz dos lampiões. Simões Pateleiros só não desejava a morte da "bruxa" porque não podia desservir de seus préstimos. Para agradar a esposa, ofendida em seus brios, Antenor conjugou o seu pré-nome com a terminação masculina de Almerinda e nomeou o recém-nascido. Prometeu-o ao apadrinhamento de Altamírio e Renália, retribuindo o gesto do casal quando do 128


nascimento do segundo compaixão-de-jesus. Etelvina permaneceu confinada em seu quartinho, repelindo as investidas de Antenor, até um mês depois do nascimento do sobrinho. Quando chegou o MOMULENGOLON, Avaristo e os seus foram visitá-los e ouvir a versão de cada um. Ao ser informada de que o rebento havia nascido na noite que antecedeu a borrasca, Expedita Rosal não demonstrou a mínima surpresa e disse que vira uma ave-tesoura cruzar a noite, com sua plumagem branca, cortando o tempo e agourando o amanhecer. Foram unânimes em recomendar à Etelvina que saísse do enclausuramento, esticasse as pernas e a angústia, até arrebentá-la, insinuando à jovem chorosa que uma gestação processada num corpo inerme pode dobrar o tempo normal para dezoito meses, fomentando uma barriga maior do que as abóboras-gigantes, com o grave perigo de explodir e infestar o mundo com uma terrível praga de lagartas saprófitas. O mês que transcorreu do nascimento pluvial de Carlindo Rebento Bicalho à chegada da família de fantoches, assistiu às cenas de mudo espanto das irmãs quando se defrontavam em algum cômodo comum da casa. E quando as irmãs se chocavam ondas de vergonha atropelavam o ar rarefeito pelo odior penetrante emanado de Almerinda. O cheiro de ódio promanado de Almerinda, e os fluxos e refluxos da vergonha de Etelvina, conduzia-as a caminhos simetricamente opostos. Renália, que mais tarde se tornaria também comadre de Etelvina, narrou aos atenciosos Golon, esmiuçando detalhes, que a única vez em que as duas tomaram a mesma direção, buscando o fogão de lenha da cozinha, ficaram enganchadas na estreita portinhola sem que uma desse passagem à outra, só saindo do entrevero quando regressou o estarrecido Antenor e alargou o umbral a 129


machadadas que quase levaram a casa ao chão. Para evitar um acontecimento mais sério que as tempestades de rancor cotidiano lampejadas pelos olhos das irmãs, é que muitas mulheres passaram a visitá-las rotineiramente, acalmando-as, cada qual por seu turno, com abençoados desfilamentos de rosários, suarentos e gastos de incontáveis novenas. A chegada dos Golon, bendita em nome dos santos, poderia encontrar um desenlace para a injúria poligâmica cometida por Antenor, quanto desgosto, imaginem se João Cordeiro ainda habitasse essa vida? 5 GORDAVOZ - Cabe lembrar a todos os presentes as seguintes palavras do descomunal Gerânio Dantas: "O que nos aconteceu é que varamos as vísceras da terra, escorregamos por seus túneis, nadando na merda dos intestinos, até atingir esse ponto em que situa o cu do mundo. E breve seremos expelidos no mar de enxofre dos infernos!". Assim será, se o instinto predominar sobre o tino. Não temos leis na manga da camisa que possam arbitrar, mas com a ajuda de todos encontraremos um caminho. Que todos falem!!! 6 Antenor foi condenado por crime de desonra, segundo a vontade e os valores dos demais moradores. Sentenciado a se desfazer de sua moradia, localizada perto do largo da praça, arrebentando-a a machadadas, sem ajuda, e construir duas moradias, sem ajuda, uma em cada extremo da vila, e sem ajuda sustentar as duas 130


mulheres e quantos filhos nascessem de ambas, cabendo a Almerinda o direito de escolher a moradia, por ser a mais velha, se do lado da cabeceira ou em direção ao desaguadouro do ribeirão. Sobre os filhos teriam iguais direitos, não cabendo a nenhuma o direito de espancá-los com varas mais grossas do que uma cana de braço. E assim, para os fundadores de Itaporanga, punha-se termo no caso. 7 Mas afirma Avaristo Golon, neto, que nada do contado pode ser oficialmente provado, pois a vila de Itaporanga pereceu justamente com a febre do ouro, esquecida no mapa da disputa fronteiriça entre os Estados do Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Porém, continua o artista, quem viajar até atingir o âmago do território contestado, encontrará uma vila morta habitada apenas por fantasmas; um restolho de escombros das casas trançadas com bambu e barro, feitas a sopapo, e notará duas ruínas desgarradas das demais, uma em cada extremo, onde moraram as irmãs do entrevero. E conclui: "Essa passagem se deu no tempo em que o MOMULENGOLON participava da história tecida. Hoje, a arte do povo agoniza entrelaçada com a memória coletiva e nos contentamos em ocupar o papel de medíocres fantoches." 8 Um corpo momulengo naufraga na linha do horizonte de lona batida.

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O cerco da terra 1 Um raio de mel zumbiu a distância entre a colmeia e a flor. Menos bucólico era o trabalho de Guarumá e seus filhos. Suarento, pesado, sujo, incessante, obscuro, camponês. Quando o dia arrebentava no canto do galo, Guarumá e seus filhos já estavam na estrada. O pregão roufenho de Guarumá antecipava seus passos achatados por anos de caminhada e léguas de solidão. Em lenta passeata ganhavam as ruas da cidade: todas as manhãs essa cena atropelava o despertar dos populares. - Quem quer comprar mandioca, alecrim?... - Peneiras?... - Tipitis... jequis... balaios?... Sentavam na praça do mercado e ficavam espantando moscas. Amontoavam os tipitis, peneiras, esteiras, cestos, balaios forrados com farinha transbordando, cargueiros de mandioca alecrim. Guarumá não dava preço. O senhor paga quanto é de seu valor, dizia com os olhos atirados para o chão feito cipós. Os filhos de Guarumá nunca falavam. Eram arredios, amarelos, sebentos. A idade dos filhos de Guarumá era viscosa e indefinida. 132


Nunca se soube quantos eram na verdade. Um bando, diziam os moradores da cidade. Nem todos os seus filhos conheciam a cidade, porém Guarumá tinha a materna preocupação de sempre levar três ou quatro que ainda não haviam abandonado o mato. Os que ficavam continuavam a labuta de plantar, arrancar mandioca, armar jequis nos poços, tecer balaias cestos peneiras esteiras. Na lida escaldante do quitungo torrar farinha. Guarumá e seus filhos não tinham nome. A cidade, preocupada em nomear a existência, deu-lhe esta alcunha pois era de guarumá que ela tecia sua sina artesã. Aos filhos, que eram arrancados do cio da terra, como qualquer de seus frutos, pela própria Guarumá, chamavam de mandioca alecrim. 2 A tarde recolhia o retorno incansável de Guarumá e seus filhos. Voltavam como a água cumprindo o ciclo infinito. A estrada já conhecia os pés de grosso solado, o suor sebento. As pegadas de Guarumá e seus filhos eram como os indispensáveis pedregulhos de qualquer caminho-chão. Retomavam com o peso do que não fora vendido. Não trocavam uma só palavra durante a caminhada. A recepção dispensada pelos outros filhos de Guarumá aos retornantes não ia além de um comprido olhar escorregadio. Continuavam a lida, com seus sonhos de capivaras esparramados no chão que a enxada limpava. Era época do plantio da 133


mandioca, a eterna época de uma plantação sem estação, de cortar um galho e chuchar na terra fofa. 3 Chegou à cidade um carroção. Vendia embuste, estórias com alta porcentagem de ilusão, xaropes contra doenças que matavam sem que se tivesse tempo de piscar. A cidade não conhecia as doenças anunciadas por Augusto Vieira de Romunhol. Mas todos se encantavam com sua mímica ao disparar estórias inesgotáveis. Tirava acontecimentos épicos de sua voz melodiosa, um sorriso de abas largas sempre estampado à sombra do chapéu adornado de prata. Dizia ser o último descendente dos verdadeiros ciganos. Todas as noites os homens achegavam-se ao carroção do forasteiro. A jogatina incipiente surgida da jogada de dados que Augusto de Romunhol atirava para sortear o ganhador de um frasco de óleo-de-enguia havia se transformado em jogo de altas apostas. Havia também uma pequena roleta e cartas que Augusto de Romunhol dominava como um leque nas mãos de uma refinada dama. Contudo, o que cativara os populares foi um jogo inédito trazido pelo ciganeante. O matagalo era um ótimo passatempo para as morosas tardes de sol. Os populares faziam fila e esperavam o porrete e o pano negro que vendava os olhos. Os galos tinham os pescoços despelados, e o arrancar das penas fazia o sangue pânico porejar. Enterravam os galos até o pescoço. Após ser rodopiado, aproximava-se cegamente o gladiador de olhos vendados. Corriam as apostas: 134


quantos golpes irá desferir antes de acertar o galo? Quantos golpes irá desferir antes de matá-lo? Augusto de Romunhol matava-galo com incrível maestria. Superava a todos na presteza dos golpes e nunca perdera uma aposta, tampouco nunca precisou de mais de cinco golpes para acabar com a festa. Sob o chapéu de abas largas permanecia o sorriso de presas de ouro. Recolhia o ganho das apostas e sentava-se com as botas lustrosas galgadas nas mesas do Bar do Quinquino. Sorvia cerveja quente nas tardes selvagens. Vez ou outra, ia se deitar com a mulher de algum matagaleiro. A tarde era quente e as mulheres ardiam ao contato experiente dos sussurros de Augusto de Romunhol. Conheceu numa das tardes o selvagem corpo de Anita de Alvarenga, mulher do muladeiro. Conheceu numa das tardes a fúria de Raimundo de Alvarenga, que o acertou com um porrete do matagalo. Augusto de Romunhol disparou os dois canos de uma quarenta-e-quatro nas costas do muladeiro, que tentara bater em retirada ao ver a arma empunhada. Raimundo de Alvarenga não morreu. Ficou paralítico, de menos os olhos e a boca. Sempre fora um frouxo, a cidade dizia. Há muito sabia da infidelidade da mulher. E foi necessário beber o bailar ardente de todos os canaviais para lavar a honra. Não lavara. Entrementes, foi macho na desonra. O muladeiro recusou-se a ingerir qualquer espécie de comida. Levou vinte e 135


um dias para morrer, só os olhos despejando tênues acusações no corpo leviano da companheira. Anita, o luto fechou-lhe o corpo contra o prazer. Muitos homens desesperaram-se. 4 Após a morte do muladeiro, Augusto de Romunhol não enterrava mais os galos que abatia com golpes selvagens. Caminhava com a pasta ensanguentada debaixo do braço até a praça do mercado e a entregava a Guarumá. Descobrira que não havia diferença entre enterrar a massa ensanguentada ou ofertá-la à mulher enrolada num vestido saco, carne-seca. Guarumá esquartejava a carne triturada e a distribuía entre seus filhos, que comiam avidamente. A fantasia de Augusto de Romunhol fora totalmente rasgada. Suas estórias não mais aglomeravam os populares. Seu riso, com o passar do tempo, perdera a jovialidade das largas abas do sombrero. Era já um chapéu roto, sem nenhum encanto. Por esta época, o forasteiro decidiu comerciar com os camponeses. Nascia nele uma atração irresistível por Guarumá. Desejava possuí-la. Não passa de um louco, comentavam os populares. Saía ao amanhecer. Levava sal, tecidos rústicos, pólvora, espelhos, grampos, pregos... Os xaropes perderam a memória de suas receitas no ir e vir do carroção. 136


O maior desejo de Augusto de Romunhol era impedir que Guarumá viesse à cidade. E odiava seus filhos. 5 Os filhos de Guarumá, no início, pressentiram o perigo. Espichavam os olhos arredios para o biscateiro, enrolavam-se num escudo de silêncio, tímidos como bichos do mato indomáveis. Nasciam como estrelas na noite clara. O mascate ainda não compreendia o mistério que resguardava a reprodução desmedida dos filhos de Guarumá. Procurava, com uma montanha de indagações, o seu possuidor. Os filhos, não sabiam responder às indagações do biscateiro. E morriam como formigas, silvestremente. Muito tempo se passou até que pudesse frequentar as festas que os filhos de Guarumá dançavam noite afora. E só então viu as filhas de Guarumá, meteoritos chamejantes, leves nos braços dos cavalheiros sorridentes. O riso aberto dos filhos de Guarumá transbordava a confiança que aos poucos depositaram no biscateiro. Por esse tempo Guarumá e seus filhos já não iam à cidade. Augusto de Romunhol cuidava de todo o comércio, trazendolevando. Entretanto, apesar da fortuna até então acumulada, o biscateiro ardia de desejo só em pensar na posse de Guarumá. Nos traz-leva do carroção o mascate recordava a fogueira das festas e a ardência dançante dos filhos de Guarumá. Ruminava uma canção que os habitantes da cidade ainda desconheciam: 137


E por ser luar era noite na fogueira estalando faíscas saltitando vaga-lumes homens vagalomens enluarados embriagados de ardência era o silêncio fino dos suspiros lá no mato procurando corpos. Era assim a existência no presente sem passado no futuro que era pasto do tempo onde amavam-se e nasciam corpos amálgama de sêmen e óvulo orvalhado no sangue das horas mortas. 6 O Sr. Vieira cantarolava o ódio que tinha pelos filhos de Guarumá. Tomava-se de fúria ao imaginar que quem a possuía verdadeiramente eram os próprios filhos que ela gerava incontrolavelmente. Na mente do biscateiro surgiam orgias de pecados carnais regados pelo crime do incesto. No traz-leva do carroção, a cidade um dia conheceu a verdade obscura de Guarumá e seus filhos, estória que o honrado comerciante guardou, ruminou e lapidou durante anos, pois era 138


um temente a Deus e perante aos céus indignava-se só de lembrar pecados tantos, desfiava. A cidade foi tomada de santa fúria. A estória contada pelo Sr. Vieira era um vinho de sabor alucinante, durante anos fermentada no traz-leva do coração. Não tardou para que fosse organizada uma expedição punitiva. Guarumá e seus filhos pagariam pelos pecados cometidos. O Sr. Vieira conhecia todas as picadas. Conduzia os populares enfurecidos, que queimavam palhoças e lavouras e matavam os camponeses. Muitos foram castrados. As mulheres eram violentadas e levadas para a cidade onde se expiariam cuidando da lavagem das imensas escadas do templo de Deus. E pilhas de louça... A resistência camponesa durou meses. Guarumá abrigava seus filhos e os alimentava. Contudo, o cerco do ex-ciganeante e seus justiceiros apertava-se. Onze meses a expedição massacrou para cercar Guarumá definitivamente. O Sr. Vieira, enfim, possuía Guarumá. Aplacara parte de seu ódio obcecado assassinando muitos de seus filhos. O justiceiro não mais gastaria o tempo e a sabedoria no leva-traz do carroção. 7 Aprisionada, Guarumá definhou. As cinzas das queimadas fora de tempo esterilizaram a vertência de seus frutos, touceiras de capim brotaram de seu corpo, estorricado, abandonado das 139


carícias suarentas, pesadas, sujas, incessantes, que só seus filhos sabiam fazer. Mudamente, a cidade relembrava a morte do muladeiro Raimundo de Alvarenga, da sequidão de seu cadáver, e comparava-a com o definhamento de Guarumá. A cidade perdia a memória do alegre cigano de abas largas. A mímica seca do riso do Sr. Vieira aterrorizava os populares. Novilhos esparramavam seus sonhos sobre-léguas de latifúndio, em triste aboiooooooo...

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Unidos de bailalua "Ao som alado dos tambores que consubstanciam a sua ondulância explode a fragmentária alegoria sam ba tu que amanheceu das raízes plantadas no território da agonia." (Para ser lido à cadência de um repinique convocando o restante instrumental. Repete-se à introdução de cada fragmento.) 1º..........v...ento I Poucos na cidade notaram que aquele seria um carnaval diferente. Na verdade as coisas pré-carnavalescas ocorriam com a mesma pontualidade dos anos anteriores, incertas. Foliões vazavam a noite tecendo as mais variadas fantasias; o batuque dos coros esquentava, crescia como uma trepadeira e se enroscava nas antenas dos televisores em sufocantes abraços; os enredos eram cuidadosamente discutidos entre uma pinga e outra e alguns xingamentos; nas quadras os pescoções arroxeavam olhos e algemavam os passistas; compositores reviravam inspirações do tema e tomavam chá de cebola os puxadores, que é para a garganta não falhar; tudo ia bem... II 141


O carnaval estourou com a sua naturalidade desconcertante e sacudiu a cidade em terremotos de folia. 2º mo.....mento I Na segunda noite de folia, surgiu um bloco perfeitamente desconhecido. Os sujos estavam encapuçados e não passavam de meia-dúzia. Estavam fantasiados de um tom de sombras e impregnaram a cidade com um forte cheiro de gás metano, característico dos mangues. Havia um repinique que encantava o louco vaivém dos corpos molhados de confetes. A tempestade era ribombeada pelo trovão dos surdos, avulsos, e relâmpagos de serpentinas cruzavam nuvens de sons desafinados. II Pardais sonolentos ouviam frestas de ritmos alucinados invadindo forros de velhos casarões. 3º mo..........to I A algazarra carnavalesca pouco a pouco foi se enfileirando atrás do bloco encapuçado. O repinique encantava. Um dos mascarados conduzia um estandarte em que se lia perfeitamente "UNIDOS DE BAILALUA, Fluxo e Refluxo da Maré". Alguns foliões se perguntavam onde era ou o que seria a enigmática palavra bailalua. Pulavam. 142


II Um cheiro pestilento invadiu a cidade e muitos já tapavam os buracos do nariz com chumaços de algodão. 4º mo....e..... I Na terça-feira gorda a população da cidade se desesperou. Ia bailaluando atrás do bloco fantasma, enquanto o cheiro adocicado do éter viajava sobre as cabeças. Diversas farmácias foram invadidas por populares que buscavam éter para combater o cheiro nauseante. Umas sombras surgiram como que do nada e incorporaram-se ao desespero coletivo. II Todos viram quando um mestre-sala rodopiou e tombou de cara no asfalto, morto como um cardume de olhos. 5º movimento I A quarta-feira de cinzas surpreendeu os populares enfileirados atrás dos bailaluanos. A inteira cidade, tirante os milhares de mortos estendidos nas vias públicas. Os urubus voacejavam embriagados pela fartura. O repinique dos mortos-vivos mantinha a alucinação, mas uma tristeza pesada forçava as pálpebras, amarrava os pulsos, segurava os pés. Porém todos 143


sabiam que a única chance de continuar vivendo era não deixar que a folia cessasse. II Surpreenderam um zumbi encarapitado no monumento a Getúlio Vargas, roendo o bronze do paletó do estadista. 6º.....v..ento I O carnaval continuava, dez dias depois de oficialmente encerrado. Os populares agonizavam alguns trompaços, moviamse cegamente, enfileirados atrás dos bailaluanos. Aos poucos se aperceberam que o cheiro não era proveniente dos mangues. Era sim, característico de carne se decompondo. Enormes ratazanas já haviam devorado o bailaluano que conduzia o estandarte. II As seis primeiras vítimas do surto de meningite haviam sido recolhidas na primeira noite de carnaval, estendidas no asfalto. 7º mo.....mento I O corpo de bombeiros e o policiamento foram mobilizados para pôr fim ao desvario da população. Alguns jatos d'água e disparos dispersaram os populares. Contudo, os cinco bailaluanos 144


restantes resistiam às investidas anti-distúrbio ensinadas nos quartéis. Foram caçados em todos os quadrantes da cidade. Embora sumissem temporariamente, sempre ressurgiam ao som do repinique acompanhando os funerais. II Ante a ineficiência dos heróis locais em aprisionar os cinco elementos alienígenas, foram chamados Batman e Robin para cumprir a espinhosa missão. 8º mo........to I A diligência de Batman e Robin deu cabo de três bailaluanos. Os outros dois foram capturados numa bat-armadilha. Foram entregues aos cuidados do arcebispo. Foram batizados, crismados e consagrados, logo após uma natural sessão de exorcismo. Receberam um par de almas novinhas em folha, imaculadas e puras como a brancura dos lírios. Foram levados a todas as paróquias do arcebispado, lázaros para testemunhar o poder divino. Eram sempre acompanhados pela vigilância de Batman e Robin. A cidade já sabia que a dupla prestava serviços como voluntários-da-pátria. II Dias depois, uma das sombras se dissipou no ar, como que por encanto. A outra fugiu com o Gran-Circo Peruano, batizadacrismada-consagrada e tocando o seu tambor de alma preta. 145


A possível fuga de Ana dos Arcos Deny Gomes Quando Adilson Vilaça de Freitas venceu o II Concurso Universitário de Contos, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo, em 1980, João Antônio, que fazia parte da Comissão Julgadora, destacava, em sua avaliação crítica do texto colocado em primeiro lugar, a “forte vocação de escritor aliada a uma fatura estética já em ótimo estado de realização”. Adilson agora não só confirma como supera a expectativa criada a partir de seu surgimento na vida literária capixaba. Este livro nada tem das criações tateantes de um calouro no campo da ficção. É obra de estreante de muito valor. Os contos aqui reunidos comprovam a falsidade da afirmativa que diz ser necessário o amadurecimento do artista para que sua obra possa representar com força e beleza a realidade que a fundamenta e na qual ela atua. Nada de paternalismo com os contos de Adilson Vilaça. Eles são obra feita, adulta, séria, bonita. Não são bons apenas porque o escritor é jovem, surpreendentemente lúcido e poético; não são bons porque venceram um concurso ou porque sobressaem num quadro literário de escassos verdadeiros valores como ficcionistas e “em terra de cego...” Nada disso. A leitura desses contos revela uma sensibilidade aguçada para o essencialmente humano, uma fantasia posta em justo equilíbrio com a mente ordenadora, a paixão violenta limitando com o humor e a ironia que contêm o melodramático e provocam a reflexão crítica. A denúncia social não é questão de opção: ela se impõe à consciência do Autor e adquire intensidade dramática nos relatos fortes da vida dos miseráveis, dos discriminados, dos loucos, dos doentes, de toda uma marginália urbana sem horizontes, sem saída. O “corte social” incisivo no panorama da cidade revela a miséria que animaliza o homem; o preconceito que não produz só a inferiorização dos discriminados, mas provoca nele a necessidade da revanche feroz e fria; a exploração do homem, que destrói toda a sua capacidade de reagir, 146


tira dele o respeito por si mesmo e a ânsia de liberdade, alienando-o irremediavelmente. Marca profunda nos contos de Adilson Vilaça de Freitas: a individualidade do processo narrativo. Não existe, na quase totalidade dos textos, a fidelidade com os modelos da história curta tradicional. Os conjuntos de contos que formam o livro relacionam-se internamente pela temática (urbanos, desinfantis, mitológicos, terra), pelos recursos técnicos (colagem, experimental, esquizos) ou pelo procedimento retórico (alegóricos). Em todos se identifica o toque peculiar do escritor, as marcas de sua linguagem, os propósitos bem definidos do experimentalismo, a segurança na criação de personagens e situações, os finais adequados a cada tipo de trama. Os contos de Adilson têm um balanço, um vai-e-vem bem jogado da prosa para a poesia, da observação quase naturalista da vida corriqueira para a visão mágica de uma realidade invulgar, do palavrão escrachado para a frase elegante de imagens precisas e inesperadas. Nesse jogo, o absurdo se incorpora ao plausível, o grotesco e o sublime confluem no dramático, a nuance e o traço forte se aproximam, e o texto cresce, mobiliza, ganha o leitor rapidamente. Essa fusão de opostos, expressa em linguagem muito peculiar, coloca a ficção de Adilson Vilaça de Freitas na dimensão pósmodernista e lhe dá níveis de individualidade obtidos por poucos dos poucos bons contistas capixabas. Virando pelo avesso temas infantis, viajando pelo país do absurdo ou do fantástico, picotando a narrativa em mosaicos e permeando tudo com ironia, ternura, emoção e uma sólida certeza de que a palavra cria um mundo indestrutível, o Autor de A possível fuga de Ana dos Arcos, Adilson Vilaça de Freitas, chegou pra ficar. Ótimo.

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A possível fuga de ana dos arcos  

Livro de contos que lançou o escritor Adilson Vilaça, um dos maiores autores do Espírito Santo.

A possível fuga de ana dos arcos  

Livro de contos que lançou o escritor Adilson Vilaça, um dos maiores autores do Espírito Santo.

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