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C AD E RN O DE P R Á TICA S


Este material integra o Trabalho de Conclusão de Curso de Clarissa Tomasi apresentado ao curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais sob orientação de Renata Marquez.


Cidade para pessoas Cidade para Pessoas é o livro do arquiteto urbanista dinamarquês Jan Gehl (2010) que propõe pensarmos as cidades a partir da escala humana. O autor usa noções do urbanismo para explicar como planejar “melhores habitats” para o ser humano considerando elementos como: boa iluminação, espaço seguro para pedestres, fachadas interes-santes, lugares com vida de dia e de noite, espaços para descansar, etc. Sob essa perspectiva, é possível entender que a dinâmica dos espaços urbanos está muito mais próxima da observação de como a vida acontece na cidade, do que das ideias concebidas dentro de um escritório. Nesse sentido, um bom exercício consiste em observar a vida cotidiana, as pessoas que passam, param, conversam, fazem compras, brincam. Perceber os lugares por onde passamos, as pessoas com quem cruzamos, onde gostamos de descansar, também é uma maneira de entender sobre nós e a relação que desenvolvemos com os espaços urbanos. Ou seja, não é preciso ser arquiteto urbanista, planejador ou governante para refletir sobre a cidade, todos nós podemos discutir sobre o lugar em que vivemos e pensar possibilidades para esse espaço tão diverso. 07


Cidade para crianças Ocorre, no entanto, de o planejamento de uma cidade não levar em conta esses aspectos e funcionar mais como espaços pouco convidativos em vez de vivos e agradáveis. Se a inclusão para os adultos pode ser difícil, para as crianças parece ainda pior. Muitas vezes o lugar delas é restrito ao playground de uma praça. Mas, elas continuam ocupando outros lugares e estando presentes nos bairros, calçadas, ônibus, comércios, parques e praças. Em Belo Horizonte, vivemos em uma cidade com regiões muito diferentes, tanto pelo aspecto socioeconômico como pelas paisagens. E em todos esses locais existem crianças, com infâncias diversas e inúmeras formas de vivenciá-las. Algumas soltam pipa e jogam bolinha de gude na rua, mas há aquelas que conhecem mais shoppings do que praças, outras que não gostam de sair de casa, ou que não brincam. Diante de tantas possibilidades, há uma coisa em comum: todas elas podem falar e opinar sobre a cidade em que vivem. E é esta a proposta deste caderno: um convite para pensar outras possibilidades para o lugar em que vivemos e incentivar reflexões sobre o espaço das crianças na cidade.

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foto: Lina Formoso


Um método coletivo Aqui, a discussão parte da criança, do seu ponto de vista e da sua forma de ocupar o espaço e as atividades propostas são direcionadas para alunos entre 8 e 11 anos anos, já que é comum que o estudo sobre o tema “cidade“ ocorra nesta faixa etária. Propomos com estas atividades ampliar a discussão da sala de aula, sugerindo outras abordagens. A partir do conteúdo do livro de Jan Gehl, incentivamos conversas sobre a cidade do ponto de vista das pessoas, da vida cotidiana, da ocupação do espaço público, e, principalmente, da criança. Neste sentido, o brincar aparece como forma fundamental de pensar a ocupação do espaço público, com atividades que permitem a brincadeira acontecer, já que esta é uma forma da criança se apropriar do espaço. Que tal pensarmos e vivermos juntos a cidade? Nas próximas páginas você irá conhecer as sugestões de práticas divididas por categorias.

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foto: Lina Formoso


Vale buscar imagens/ vídeos/sons de espaços públicos convidativos, pessoas ocupando de formas variadas ou ainda cidades imaginárias.

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REF LE TI R É mais fácil introduzir um tema quando partimos de nossas experiências. Para discutir a ocupação do espaço público, a proposta é pensar o que é cidade a partir das pessoas que vivem ali. A ideia é iniciar uma discussão falando um pouco de como cada um de nós vive na cidade seguida de uma reflexão para repensar o conceito de cidade que cada um tem. Imagens, vídeos e sons podem nos ajudar a quebrar conceitos préestabelecidos e pensar outras formas possíveis de ocupar o espaço e experimentá-lo no dia a dia.

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atividades

eu e a cidade Se pretendemos discutir sobre uma cidade mais humana e afetiva é importante começarmos por nós mesmos. O que você gosta de fazer na cidade? Do que gosta de brincar? Vamos fazer uma roda para ouvir o que cada um tem para dizer?

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foto: Colégio São José


nós na cidade Com uso da fita crepe podemos simular duas ruas no chão que separam as possibilidades de resposta: participantes que habitam casas ficam na rua A, aqueles que vivem em prédios se concentram na rua B; ou, ainda, quem prefere brincar na rua vai para a rua A, mas os que gostam de brincar em casa ficam na rua B. São infinitas possibilidades de perguntas, e a cada resposta o grupo vai se conhecendo melhor.

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foto: Lina Formoso


o que é cidade? Chame os alunos para formarem uma roda. Nesta atividade, a proposta é desconstruir a imagem já formada sobre o que é uma cidade e dar espaço para que eles exponham suas ideias, expectativas, desejos e necessidades sobre o espaço urbano que habitam. Para iniciar a conversa, há algumas sugestões de perguntas: o que é uma cidade? O que é indispensável em uma cidade para pessoas?

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foto: Lina Formoso


“O balé das calçadas” é um conceito que a jornalista Jane Jacobs escreveu em 1961 para chamar atenção para a vida acontecendo nas calçadas. Uma pessoa passa, outra para, uma criança passa correndo... 20


C R IA R Nesta segunda parte o objetivo é discutir a cidade real e a inventada. As atividades pretendem expressar tanto experiências e visões quanto desejos para uma mesma cidade. A representação pelo desenho ajuda a revelar vários olhares sobre um mesmo lugar e, assim, partindo de visões individuais, podemos criar uma cidade diversa que acolhe os desejos de todas as crianças, sejam eles possíveis ou não, os lugares em que vivem e gostariam de viver, pessoas que conhecem ou não, etc. Coletivamente, podemos então criar narrativas para este lugar que construimos. Quais histórias as calçadas desta cidade inventada nos contam?

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atividades

cidade que conheço Quem são as pessoas que vejo na rua? Como é a rua em que eu moro? A partir da representação do desenho podemos visualizar melhor este lugar em que nós e tantas outras pessoas vivem. Vamos representar estas pessoas e ruas que vemos e conhecemos?

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cidade que desejo O que poderia ser diferente na cidade? Como é a rua que eu queria morar? O desenho nos permite criar outras possibilidades da realidade. Além de representar a cidade que desejamos, podemos pensar também o que nós desejamos fazer seja na cidade conhecida ou inventada. Afinal, de que adianta uma cidade se não estamos nela? Vamos ocupar essa cidade de crianças brincando! “De que eu nunca brinquei na rua?”

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criar histórias Se juntarmos os desenhos de cada criança feitos nas atividades anteriores teremos um universo de pessoas que vemos, lugares que conhecemos e criamos, e, principalmente, de crianças brincando. Podemos então dispor os desenhos no chão e contar uma história a partir deles. Uma criança começa, outra continua a contar, e assim sucessivamente. A medida que a narrativa avança os desenhos vão virando personagens e cenários e a cidade vai ganhando vida. Quais histórias essa cidade nos conta?

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narrativas gravadas As narrativas da atividade anterior ou a própria descrição dos desenhos podem ser gravadas e virar outra atividade. Enquanto as crianças veem todos os desenhos, reproduzimos o som gravado com as descrições. Vamos tentar adivinhar qual o desenho descrito? Quem mora nessa rua? Além de várias perguntas, o gravador e os desenhos juntos podem ser uma forma de expor esta cidade construída coletivamente.

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“O brincar vem de brinco, vinco, vínculo. E o jeito que você se vincula mais rápido ao território é brincando nele. Quando a criança chega e senta, é dela o lugar. [...] Como é que a gente pode criar esses “dispositivos territorializantes” ?” - Diálogos do Brincar Beatriz Goulart (2018) 30


CONH E C ER As atividades aqui são propostas para serem realizadas em espaços públicos. Sair do ambiente escolar é, para as crianças, no mínimo divertido. Para aquelas que não frequentam estes espaços é ainda mais significativo. Ocupar a praça, o parque ou a rua, é tão relevante quanto discutir sobre estes lugares. Afinal, como vamos discutir sobre um lugar que não conhecemos? Propomos então conhecermos a cidade pela experiência, por atividades prazerosas que instiguem o olhar e promovam uma relação convidativa com a cidade. Todo espaço para fora da escola merece atenção. Assim, o percurso é tão importante quanto o ponto de chegada. A calçada também é espaço para brincar, descobrir e construir vínculos.

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atividades

rastros Um giz de quadro negro e um trajeto na rua. O giz permite contornar objetos, corpos, deixamos anotações e rastros. O que chama a sua atenção nas calçadas, nas paredes, nos postes? O que você quer deixar temporariamente registrado?

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piquenique-mapa Depois de andar pelas ruas, que tal um piquenique? Se for de baixo de uma sombra ou na grama melhor ainda. A lona branca serve de toalha e, no fim do piquenique, vira a base para o mapa. Assim, podemos registrar por onde passamos, o que vimos, onde chegamos e, no meio disso, fica a lembranรงa de um piquenique.

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o que tem ao meu redor Quem já brincou de estátua vai saber jogar esse jogo. As crianças caminham pelo espaço e, em um determinado momento, quem estiver guiando bate uma palma. No sinal da palma todos param e fecham os olhos. Quem estiver guiando pede que todos, de olhos fechados, apontem para alguns elementos como: uma árvore frutífera, uma flor vermelha, uma pessoa de blusa verde, etc. Todos abrem os olhos e conferem. A cada rodada mudam os elementos. É preciso estar atento para acertar!

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Produzir o mapa coletivamente é também uma forma de discutir, tomar decisões, negociar e se expressar

A utilização da escala, por exemplo, em vez de ser um limitador, pode ser uma forma de expressar nossas relações com o lugar que representamos e demonstrar o grau de importância que lhe damos.

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MAP E A R

Neste último momento, propomos a construção de um mapa coletivo para reunir todas as informações, discussões e criações das etapas anteriores. Esta é uma forma de materializar as cidades reais e ficcionais, as experiências vividas na rua e todas as discussões sobre o tema. Esta é também uma forma de trabalhar a noção espacial e uma oportunidade de desenvolver noções de cartografia.

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atividades

mapa-base Em uma folha de papel bem grande, propomos a construção de um mapa. Pode ser o mapa da cidade, do bairro ou qualquer outro lugar familiar. Partimos de um ponto de referência conhecido por todos. Cada criança pode se responsabilizar por representar uma parte desde que seja de comum acordo. Nesta primeira parte vamos representar os lugares que coletivamente julgarmos mais importantes, que mais frequentamos, que gostamos. Cada criança poderá tembém desenhar a sua casa e incluí-la no mapa.

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foto: Lina Formoso


individual e coletivo A partir do mapa-base feito na atividade anterior, incluimos desejos e visões individuais da cidade. Fichas de perguntas-desafio podem ajudar. Cabe aqui tanto desenhar a sua rua preferida ou o trajeto que faz para a escola, como onde você construiria um parque. Depois de todas as crianças incluírem os desenhos podemos voltar para o coletivo. Assim, o mapa se constrói a partir de desejos e visões individuais e coletivas. Ao final podemos fazer uma roda de discussão: que lugar é esse que desenhamos?

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Edição das fotos: Raíssa Viza


Trabalho de Conclusão de Curso Brincar na cidade: crianças e espaço público

Clarissa Tomasi


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Caderno de Práticas  

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