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Carnaval da bronca Em sete dias de muita música e farra, Salvador mostrou que ainda tem muita coisa a aprender sobre festa Fotos Equipe Metrópole FORAM literalmente sete dias de “chuva, suor e cerveja”, como já disse Caetano Veloso. Entre os dias 16 e 22/2, parte da capital baiana ficou tomada pelas celebrações da Folia de Momo e também por muitas barbaridades.

Acompanhando a linha do blog A Bronca, no qual o Portal da Metrópole retratou, durante toda a semana, os absurdos do Carnaval de Salvador, resolvemos soltar aqui também o nosso veneno. Teve porcaria dos foliões, sujeira nas ruas, falta de organi-

O povo não perde a alegria, mas o Carnaval de Salvador continua triste

zação e muito mais. E de onde mais se esperava — a Polícia Militar (PM), após tantos dias de greve — foi que não veio mesmo. Os reles cidadãos têm que se conformar, por exemplo, com o fato de a atriz Deborah Secco e seu marido, o jogador de futebol

Roger, chegarem ao Camarote Contigo! acompanhados por batedores da Polícia Civil. Para o folião, sobrou a segurança ostensiva da PM. Como segurança, leia empurrões, ‘fantadas’ e agressões a menores de idade. E viva o Carnaval! SANDRA TRAVASSOS

Salvador, 24 de fevereiro de 2012

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Ambulantes reclamam do esvaziamento da festa MANUELA CAVADAS

MANUELA CAVADAS

Cordas altas Um dos mais populares do Carnaval, o bloco Camaleão, do Chiclete com Banana, seguiu sua tradição. Retratou de forma exemplar a diferença social que toma conta da festa. Na passagem pelo Campo Grande, cordeiros empurravam os foliões pipoca que tentavam assistir ao show

da banda. Ao menos não se pode dizer que Bell Marques mentiu na entrevista ao jornal A Tarde: “Em minha opinião, em vez de ela separar, ela (a corda) acaba unindo. Grande parte do povão acaba vendo de graça algo pago por uma parcela”. Ou seja: dêem-se por satisfeitos. RAUL SPINASSE/AGÊNCIA A TARDE

Quem pulou atrás do trio nem deve ter notado a diferença, mas os vendedores ambulantes que trabalharam no Carnaval reclamaram do esvaziamento da festa. Com ou sem greve, formato de festa es-

gotado e outras hipóteses, o fato é que a ‘piriguete’ – lata de cerveja de 269 ml – começou a festa cotada a três por R$ 5, mas no fim da festa, já dava para comprar quatro com a mesma grana. MARIELE GOES

Apesar dos grandes riscos, fãs da festa ainda levam crianças aos circuitos GERALDO MELO

Tradicional inovador e questionador, Cacique cobrou espaço para os afro 6

Piriguete caiu de preço, para a alegria dos bebedores momescos

Deveria dar cadeia Parece que a chuva de regras da Vara da Infância e da Adolescência para disciplinar a presença de menores de idade no Carnaval não adiantou nada. Além de a maioria absoluta dos ambulantes ter ignorado a existência de hospedagem para as crianças nos dias da festa, levando a meninada para dormir na rua, os foliões também não brincaram em serviço. Não foram poucos os sem-noção que levaram até bebês para a muvuca, expondo os pequenos a barulho, sujeira e violência. Lamentável.

Brown pede afródromo Defensor dos blocos afro, Carlinhos Brown voltou a fazer propostas inovadoras esse ano. Cobrou do governo do Estado, que havia prometido analisar, em 2008, a proposta de instalação do ‘afródromo’ no Comércio. “Os blocos afro desfilam em alas, e o espetáculo é prejudicado pelas ladeiras. Temos condições Na passagem do Camaleão, isolamento claro, com mais cordeiros que o normal de fazer como no Rio”, cobrou. Salvador, 24 de fevereiro de 2012


Acampamento na folia

Gandhaya de Carnaval

MARIELE GOES

No Carnaval deste ano, o Filhos de Gandhy, tradicional afoxé criado em 1949, desfilou sob uma campanha de combate às diversas formas de violência contra a mulher. As palavras de

ordem do desfile eram: “Respeito às mulheres” e “Violência contra a mulher é crime”. No entanto, a prática de troca de colares por beijos foi contraditoriamente corriqueira. Teve asso-

ciado agarrando mulher à força, beijando duas mulheres de uma vez... A belíssima essência do afoxé, criado em homenagem a Mahatma Gandhi, vai ficando cada vez mais no passado. SANDRA REGIS

Perto dos campings improvisados, bancas de ambulantes não foram nada

No dia 24/1, o superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom), Cláudio Silva, anunciou que seria proibido instalar bares e balcões sobre as calçadas das ruas transversais aos circuitos do Carnaval, além do polêmico veto ao ‘acampamento’ dos ambulantes nessas regiões. Mas a regra já começou de mentira, já que o próprio Silva disse que os funcio-

nários do órgão só fiscalizariam a Sabino Silva, o Politeama e o Morro do Cristo. Não deu outra. Na Av. Marques de Leão, os ambulantes montaram verdadeiras cidades. Mas o superintendente, prestimoso que é, garantiu que no próximo Carnaval haverá acampamentos oficiais. Estará ele falando daquele próximo, no qual ele não estará mais na Prefeitura?

A direção do bloco sugeriu que Filhos de Gandhy parem de trocar colares por beijos, mas eles nem ligaram

Baixar as cordas é PPU? A moda de 2012 foi baixar as cordas. Chiclete, Jammil e Cheiro de Amor, além dos já experientes Daniela, Carlinhos Brown e Eva, desfilaram sem bloco. A pipoca se esbaldou nos circuitos da folia — em muitos desses casos,

com grandes patrocínios. Fica a pergunta: quem está de fato trabalhando para trazer o povo de volta para o Carnaval e quem está se rendendo às críticas ao formato excludente da festa, que já dá sinais de cansaço?

Teve até bandeira três Mesmo autorizados a cobrarem a tarifa da Bandeira Dois nos dias de festa, muitos taxistas de Salvador insistiram em tirar mais uma casquinha e alguns cobraram até a “BanSalvador, 24 de fevereiro de 2012

deira Três”, como foi batizada pelos próprios profissionais da área. Em trechos curtos, como da Barra a Ondina, teve taxista cobrando até R$ 50. Isso quando aceitavam a corrida.

DARIO GUIMARÃES

Sujeira nas ruas da cidade ainda é notícia, embora não seja novidade

Efeito contrário O estado dos banheiros no Circuito Dodô era tão assustador que a equipe do Jornal da Metrópole pensou que a ideia era afastar os ‘apertados’. Poças de urina pelo chão, sujeira, fezes expostas, um bodum insuportável. Assim é mole...

Chiqueiro Nessa semana, o que bombou mesmo nos circuitos foi a sujeira. Vitória para garrafas pet, latas e pacotes de bebidas. Pelas ruas, nada de caixas coletoras ou lixeiras. Assim, colocar a culpa na falta de educação do povo fica fácil, fácil.

Folião couro de rato Mesmo com toda a industrialização do Carnaval de Salvador, ainda há quem zele pelas tradições. O tradicional Pierrot de Plataforma, fundado há 60 anos, seguiu desfilando pelo Campo Grande. Na

Barra, um exemplo de resistência é o bloco de amigos As Tabakitas, formado há 18 anos. “Preferimos não sair atrás do trio para não perder a tradição”, explicou um dos integrantes. 7


Carnaval da bronca