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PRÁTICA DA AUTOGESTÃO HABITACIONAL: definição de manuais de auxílio + assistência técnica

Clarissa Lana Franco com orientação de Nanda Eskes


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Departamento de

Rio de Janeiro - RJ Dezembro de 2017 Neste caderno se encontra a parte referente à pesquisa e teoria do Trabalho Final de Graduação: Prática da Autogestão Habitacional: definição de manuais de auxílio + assistência técnica. Aluna: Clarissa Lana Franco Orientadora: Nanda Eskes

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SUMÁRIO

Introdução

6 Ponto de partida Habitação: lei x realidade

Soluções e suas consequências

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Atendendo às demandas Erundina na prefeitura de SP Favela Bairro e Morar Carioca Minha Casa Minha Vida Cenário atual

Assistência Técnica

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A lei da assistência técnica PAP na cidade do Rio Inova Urbis na Rocinha MCMV Entidades Arquitetura na periferia

Questão da habitação Impasses A moradia no território informal Alternativa de atuação

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Objetivo

32 Intenções

Autogestão

34 O morador como agente de mudanças

O projeto

36 O material Os manuais Aplicação

Viabilização

42 No presente Próximos passos Cenário ideal

O futuro e a Assistência Técnica

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Sobre o ensino de arquitetura

Bibliografia

46 Dados, textos e pesquisas

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INTRODUÇÃO

Ponto de partida Este trabalho surgiu a partir da vontade de encontrar um meio de diálogo entre moradores do território informal e o profissional de arquitetura. E nada mais natural do que uma iniciativa dessas partir de uma pessoa como eu: moradora do território informal e quase arquiteta. No início da graduação, muito por culpa da minha desinformação, e pela falta de projetos de cunho social voltados para habitação durante o curso, eu acreditava que boa arquitetura residencial era exclusiva das classes A e B. Junto com um amadurecimento político, pessoal e projetual me veio a consciência de que existe um grande abismo separando quem mais precisa de boas soluções espaciais, econômicas e sustentáveis do responsável por executar projetos que consideram esses e outros aspectos. Por esse motivo, meu trabalho de conclusão de curso como estudante de arquitetura é a experimentação de uma alternativa de atuação focada na relação do morador do território informal e sua casa.

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Foto: charge de Humberto Pessoa

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Habitação: lei x realidade No texto da Constituição de 88(1): A palavra “moradia” aparece 6 vezes; A palavra “casa” no mesmo sentido, aparece 3 vezes; “Habitação” aparece 4 vezes; “Residência”, 5; E “domicílio” aparece 8. Dentre todas as leis que tratam do morar, destacam-se os Artigos 6 e 23, que são respectivamente: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” “É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico.” Ainda em 2017, segundo a Fundação João Pinheiro, o Déficit Habitacional(2) no país é de cerca de 12,1%, ou seja, pelo menos 6,4 milhões de famílias vivem em situação desfavorável ao autodesenvolvimento por estarem à mercê da sua situação econômica. Só nas regiões urbanas do estado do Rio de Janeiro, 89,7% das moradias de famílias de até 3 salários mínimos são consideradas inadequadas.

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Nesse contexto, ao olhar por trás dos números, é importante perceber como a qualidade da habitação afeta a vida das pessoas. Gustavo Givisiez, em sua tese de doutorado “Alguns aspectos sobre demandas sociais”(3), mostra como a disseminação de doenças transmissíveis, os acidentes domésticos e a falta de saneamento básico agravam significativamente a saúde de cada indivíduo. Além disso, falta de privacidade e local adequado para estudar, problemas de aeração, iluminação, possibilidade de enchentes, desmoronamentos e chuva dentro de casa, acarretam na queda da produtividade do estudante e trabalhador, tornando a permanência em empregos, escolas e universidades difícil e, consequentemente, afastando oportunidades de melhoria financeira

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SOLUÇÕES E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Atendendo às demandas De acordo com o texto da Constituição que defende a habitação como um direito de todo o brasileiro, é dever do Estado, em suas diferentes esferas, oferecer soluções para obtenção de moradias, programas de apoio à construção, e a reformas sem custo ou com taxas especiais para quem necessita. Por esse motivo, dentro da história da Habitação de interesse social no Brasil, existiram iniciativas destinadas a atender essas demandas, porém nada que tivesse expressiva eficácia.

Erundida na prefeitura de SP No período de 1989 até 1992, a assistente social Luiza Erundina, priorizou, como prefeita de uma das mais importantes cidades da América Latina, a questão da moradia e implantou políticas de habitação de interesse social através de mutirões autogeridos, onde cada morador tinha voz e participava da concretização de seu direito à moradia digna. Decretou, dentre outros, o “direito à arquitetura” como princípio dos programas. De acordo com o Observatório de direitos do cidadão - Habitação na Cidade de São Paulo(4) - com a atuação de técnicos, professores universitários e militantes comprometidos com as lutas dos movimentos por habitação e reformas urbanas, o município financiou casas para mais de 30 mil famílias em projetos que prezavam pela qualidade das moradias, conjuntos e obras, procurando valorizar o projeto arquitetônico e urbanístico. No entanto, infelizmente nenhum dos programas implantados obteve continuidade pelos governos seguintes.

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Foto: site Usina CTAH

Foto: site Usina CTAH

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Favela Bairro e Morar Carioca Com a intenção urbanizar as favelas e melhor integrá-las à cidade, a Prefeitura do Rio criou, em 1994, o Programa Favela Bairro, que realizou durante 14 anos projetos de urbanização em parceria com escritórios de arquitetura em comunidades do Rio de Janeiro e chegou a tornar a cidade uma importante referência de como lidar com assentamentos informais. Com o passar dos anos e por causa da perda de investidores e de prioridade por parte da prefeitura carioca, em 2008 o programa teve seu fim. Em 2010, a Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro lançou o Morar Carioca, que pretendia ser uma evolução do Favela Bairro, considerando não apenas intervenções em áreas públicas, mas também a melhoria habitacional das unidades privadas. Apesar da meta ambiciosa de urbanizar todas as favelas do rio até 2020, na prática, o programa executou poucos projetos, não chegou a tratar das casas de fato e ainda decretou a remoção de diversas áreas, perdendo espaço para dar prioridade às obras olímpicas.

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Foto: projeto da Mayerhofer e Toledo Arquitetura para Rocinha

Foto: projeto de Gilson Santos, Morar Carioca

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Minha Casa Minha Vida Lançado em 2009 pelo Governo Federal, o MCMV tem como objetivo a construção de moradias para a população de baixa renda. O programa já beneficiou mais de 10 milhões de pessoas que são divididas em faixas de renda pelo valor de subsídio oferecido. Apesar dos valores expressivos, por suas decisões geográficas e espaciais dependerem exclusivamente de grandes construtoras e de proprietários de terrenos, consequentemente apresenta conjuntos habitacionais de baixa qualidade, em locais afastados da moradia original do beneficiário, de difícil acesso e com infraestrutura precária.

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Foto: A. Baeta

Foto: divulgação MCMV

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Cenário atual Apesar de algumas boas intenções, até certo ponto, esses tipos de soluções estarão sempre à margem de interesses políticos e lucro por parte de grandes empresários. Enquanto os governantes como um todo não admitirem políticas públicas sérias, envolvendo profissionais de diversas áreas e com interesse real na satisfação do beneficiário, sem que os programas sofram descontinuidade por mudança de mandatos e sem que dependam do financiamento de grandes empresários do setor imobiliário, a resolução da questão habitacional continuará sendo tratada como uma mera promessa de campanha. A demanda por moradia continua muito maior do que a oferta e, nesse meio tempo, algumas pessoas continuam morando mal ou empregando grande parte da renda familiar em aluguel. Somado a isso, quando podem, utilizamse de seus limitados recursos financeiros para aperfeiçoar ou adequar suas casas da melhor maneira possível. Vale destacar também a falta de programas públicos que se destinam a auxiliar na melhoria das habitações já existentes. Sendo assim, o arquiteto, que é o profissional da área de construção ligado às questões sociais, não deve se isentar desse processo e deve ajudar no cumprimento desses direitos através do incentivo à reforma urbana e agrária. Seja na política, nas urnas, no escritório, na universidade, na cidade ou no meio rural. Uma boa solução para isso é a Assistência Técnica, que se mostra presente em muitos locais e apresenta bons resultados para o morador. 16


Empresรกrio Carlos Carvalho e Pezรฃo. Foto: Jornal do Brasil

Foto: Tuca Vieira

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ASSISTÊNCIA TÉCNICA

Assistência x Assessoria No contexto arquitetônico, a Assistência Técnica se diferencia da Assessoria Técnica por não se encaixar na categoria de prestação de serviço. Ela funciona como uma parceria entre clientes e arquitetos na qual o profissional atende a grupos ou pessoas, visando auxiliar no desenvolvimento social através da arquitetura. Se enquadra no âmbito da Arquitetura Participativa e além dos resultados na moradia, resulta numa experiência de troca entre os profissionais e os moradores, provendo aprendizado e desenvolvimento para ambas as partes. Mais do que uma ação social de aprimoramento residencial, a Assistência Técnica é uma ação política que tem como meta final auxiliar na redução da desigualdade social.

A lei da assistência técnica Em resposta às demandas existentes, no dia 24 de dezembro de 2008, a lei de n.°11.888, conhecida como Lei da Assistência Técnica, proposta pelo arquiteto e deputado Clóvis Ilgenfritz, foi aprovada e, desde 22 de junho de 2009, assegura às famílias de baixa renda a assistência técnica pública e gratuita para o projeto e construção de habitação de interesse social, mas até hoje o governo não disponibilizou nenhuma verba para viabilizá-las.

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Arquiteto Clรณvis Ilgenfritz. Foto: IAB

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PAP na cidade do Rio Através de uma iniciativa privada em parceria com a prefeitura do Rio, o IAB criou o PAP (Programa de Aprimoramento Profissional), especialização para arquitetos recém-formados onde estes atuavam sob orientação de professores executando projetos e orientando tecnicamente melhorias em residências de comunidades de baixa renda. Entregavam projetos completos que priorizavam medidas de saúde e segurança dos moradores e dividiam as obras em fases para serem executadas de acordo com a disponibilidade financeira, caso ultrapassasse o financiamento disponibilizado (7 mil reais).

Inova Urbis na Rocinha Sem nenhum auxílio público, a Inova Urbis que se localiza na maior favela da cidade do Rio, leva à Rocinha o mesmo tipo de serviço de arquitetura encontrado na cidade formal sem nenhum custo, através de patrocínio. Os arquitetos responsáveis e estudantes de arquitetura fazem os projetos de reformas e ampliações, aliando o desejo do morador às suas possibilidades espaciais e orçamentárias. Além de todo o processo de levantamento, elaboração, representação e apresentação, procuram conscientizar o morador de importantes questões espaciais e construtivas, comprometendo-se com a melhoria da qualidade de vida de seus clientes.

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Foto: divulgação Inova Urbis

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MCMV Entidades Movimentos sociais de luta pela moradia com o auxílio de profissionais e instituições diversas começaram a exigir do governo uma modalidade que considerasse os beneficiários do programa como protagonistas, já que, no MCMV tradicional, a prioridade acaba sendo o lucro de terceiros, que acabam definindo a localização, tipo de construção, projeto, materialidade e etc. A partir daí, um grande passo foi dado para oferta de moradia de qualidade no âmbito nacional: projetos participativos em que as necessidades dos futuros moradores são consideradas e sua atuação em toda a duração do empreendimento é constante, porém a modalidade Entidades soma somente 0,5% do número de MCMV. Além disso, o programa não consegue se sustentar em grande escala por falta de apoio político e ajuda financeira na montagem dos projetos. Durante todo o processo, o trabalho dos profissionais envolvidos não tem remuneração, e, por muitas vezes ter que contar com voluntariado, impossibilita a execução de importantes etapas de obras, mesmo com a previsão do pagamento para o fim das obras.

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Foto: site AutogestĂŁo & Moradia

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Arquitetura na periferia A iniciativa da arquiteta Carina Guedes relatada em sua dissertação de pós-graduação “Arquitetura na periferia”(5) obteve bons resultados, tomou forma e hoje é uma ONG do grupo Arquitetos sem Fronteiras. A equipe oferece Assistência Técnica para grupos de mulheres da periferia visando melhorias nas moradias através da apresentação de práticas e técnicas de projeto e planejamento de obras. Para viabilizá-las, cada mulher recebe um financiamento (3 mil reais) que as possibilita conduzir as reformas de suas casas sem desconto imediato em sua renda. O processo acontece em diversas reuniões e oficinas, onde o convívio social e a troca de experiências é tão importante quanto a execução das atividades. Por fim, alcançam resultados satisfatórios no que se trata das reformas e modificações nas casas e ainda ajuda as participantes a encontrarem motivação para modificar o que estavam insatisfeitas através de decisões tomadas em conjunto.

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Foto: divulgação Arquitetura na periferia

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QUESTÃO DA HABITAÇÃO

Impasses Analisando o cenário atual e o campo de atuação das soluções estudadas, é possível perceber: - Famílias residindo em moradias precárias aguardando que alguma ação pública ou privada as alcance; - Famílias empregando grande parte da sua renda em aluguel; - Assistência Técnica tão precária e sem apoio, que, na maioria das vezes, trabalha sem recursos e de maneira voluntária; - Inexistência de programas direcionados a reformas de casas já construídas; - Falta de mobilização para criar uma estrutura de apoio à Assistências Técnicas pelos governos, que acabam sendo substituídos por movimentos sociais e instituições privadas.

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Foto: autoral

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A moradia no território informal Nesse ponto, me pareceram interessantes os conceitos sobre moradia utilizados por Paola Berenstein no livro “Estética da Ginga”(6). Em que relaciona “abrigar” e “habitar” respectivamente com a cidade informal e formal, enfatizando o caráter provisório do abrigo, onde a forma final e definitiva não importa diante da urgência de se morar. Sem pensamento sobre o que se quer não existe forma final idealizada. Fato que ocorre na grande maioria das soluções para habitação popular. Seja nos conjuntos do MCMV quando ao receber o benefício, não se questiona a qualidade da casa; seja na ocasião de participarem de uma Assistência Técnica e de manterem um diálogo raso e difícil entre cliente e arquiteto; ou em pensar modificações na própria casa onde têm que executar frequentes reparos por más decisões e problemas de execução. A realidade é que a maioria das pessoas não tem ideia de como quer morar, nem conhece o que caracteriza uma boa moradia ou a torna segura e saudável, dificultando o acesso à habitação digna. Oferecer à população de baixa renda habitação de qualidade influencia diretamente no desenvolvimento social dessas pessoas.

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X habitar

abrigar

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Alternativa de atuação A minha primeira ideia para o projeto foi atuar oferecendo informação: direções básicas de representação, estrutura, influência do clima local numa residência, articulações espaciais internas e cálculo de materiais. Uma compilação de informações demonstradas num conjunto de manuais que não ensinam a projetar e sim apresentam opções e soluções básicas para algumas situações recorrentes, tendo como objetivo ajudar na democratização do acesso a arquitetura. Ao meu ver, o que separa a população de baixa renda dos serviços de um arquiteto é a oportunidade. Por isso, ter a consciência da importância de um projeto arquitetônico pode fomentar reivindicações por Assistências Técnicas e tirar a Lei da Assistência Técnica do papel.

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OBJETIVO

Intenções - Auxiliar as Assistências Técnicas instrumentando clientes através do conhecimento; - Instruir o morador de casas precárias com relação a questões básicas projetuais; - Proporcionar ao beneficiário de políticas públicas de habitação o conhecimento necessário para questionar se aquele projeto é adequado para atender da melhor forma possível às suas demandas; - Ressignificar frente a famílias de baixa renda o conceito de morar, transformando abrigo em habitação; - Aprender com o processo de Assistência Técnica e entender quais são as reais demandas da população de baixa renda em relação à moradia.

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AUTOGESTÃO

O morador como agente de mudanças Autogestão é a administração de um organismo pelos seus participantes e, no conceito do projeto, se mostra quando o morador se encarrega de cuidar da produção do seu espaço de moradia. Esse processo não necessariamente inclui autoconstrução, mas trata da tomada de decisões a respeito da moradia, sejam elas executadas pelo próprio morador ou por mão-de-obra contratada. Segundo as observações do grupo de pesquisa Morar de Outras Maneiras no texto “Arquitetos nas favelas”(7) e da arquiteta Priscila Nogueira em “Práticas de arquitetura para demandas populares”(8), a maneira que a autogestão vem acontecendo - através do uso de recursos financeiros limitados para melhorar ou adequar suas casas – não inclui planejamento. Tudo é decidido durante o processo, de acordo com erros construtivos, recursos, novas ideias, e na maioria das vezes, não existe uma idealização final. Nesse processo, os espaços permanecem não concluídos e improvisados, necessitando de frequentes reparos e ainda mais gastos. Por isso, o projeto tem como objetivo oferecer um material que auxilie no planejamento de decisões espaciais e construtivas, para que assim possam ampliar seu leque de escolhas e dar andamento à produção de seus espaços de moradia.

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Foto: Bruno Figueiredo

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O PROJETO

Aplicação A ideia inicial era em entregar para 2 ou 3 famílias um conjunto de manuais, equipamentos de medição, instrumentos para desenhos e representação, entre outros objetos que podem ajudar no projeto e planejamento da obra e, através de entrevistas e análises dos resultados obtidos, entender a eficácia dessa alternativa. Contudo, esse material não é formulado com a intenção de impor o uso de técnicas projetuais ou construtivas, substituir o arquiteto na sua função de pensar a habitação, suprimir boas ações de produção de casas e principalmente isentar o Estado da sua obrigação de prover a moradia, mas com a ideia de que é preciso entender um pouco sobre produção habitacional para requerer moradia de qualidade. Não há tipologia/ estrutura / modo de usar. Levar a pessoa a pensar o seu espaço primordial e se ver como agente de mudança nesse ambiente é o verdadeiro ganho. Depois de muitas considerações, surgiu a ideia de articular o uso dos manuais a oficinas semanais ministradas numa escola, com produção conjunta e foco em melhoria residencial. Esta ação recebeu o nome de

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“Projeto Morar Melhor” e tinha como objetivo elaborar com cada estudante um projeto e um plano de melhorias, com possibilidade de ser dividido em fases para se ajustar a renda da família. A escola escolhida, o Instituto Nossa Senhora de Lourdes (INOSEL), se localiza na Gávea e atende em sua grande maioria estudantes moradores da Vila Parque da Cidade e da Rocinha. Dessa maneira, além de envolver estudantes no processo, foi possível falar sobre importância de se ver como agente de mudanças na sua moradia com uma nova geração. Devido aos recentes confrontos entre grupos de traficantes e a intensa ação da Polícia Militar na favela da Rocinha e na Vila Parque da Cidade, o começo das atividades na escola tiveram um atraso e, logo depois de iniciadas, foram interrompidas devido aos episódios de tiroteios e pelas reposições de aulas dos dias perdidos. Todas essas dificuldades atrapalharam o processo e muitos dos alunos abandonaram os encontros. Com a chegada das férias escolares, infelizmente o Projeto foi interrompido. Apesar disso, esse processo foi de intenso aprendizado. Pude perceber que só a oportunidade de melhoria da casa e a

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disponibilização das informações não bastam para alcançar os objetivos do projeto. Além da conscientização sobre os benefícios de se habitar uma casa planejada que tenha um ambiente seguro e confortável, é necessário ter consciência de seu direito a cidade. Ou seja, entender que todos os cidadãos podem aproveitar de maneira plena os recursos de onde moram e isso inclui a ocupação de seu espaço de moradia da maneira que lhe é de direito. Por esse motivo, acrescentei aos manuais os volumes 0 e 7 com a intenção de complementar as informações já passadas. Sendo assim, acredito que no futuro o material deve inicialmente ser utilizado em locais onde as pessoas já se encontram organizadas buscando desenvolvimento em conjunto, como por exemplo favelas onde a Associação de Moradores tem participação ativa no desenvolvimento social do local. E num segundo momento, através do aprendizado obtido, deve-se agregar informações mais completas sobre associativismo e sobre os benefícios de empenhar-se em conjunto para o desenvolvimento individual de cada um. Conseguindo, dessa maneira, influenciar positivamente na qualidade de vida da população moradora do território informal.

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Manuais

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Os manuais Volume 0 – Autogestão de uma casa: qualidade de vida e habitação, direito à moradia digna, projeto de arquitetura, o arquiteto, assistência técnica; Volume 1 – Representação de uma casa: levantamento, desenho arquitetônico, escalas; Volume 2 – Soluções estruturais para casas: estrutura independente, dimensionamento estrutural, fundações, pilares, vigas, lajes; Volume 3 – O clima local e a casa: entradas de luz e ventilação natural; Volume 4 – Espacialidades e circulações: circulações e áreas de estar, escadas e rampas, dimensões de móveis; Volume 5 – Caderno de intenções: espaço destinado à expressão dos desejos e expectativas dos moradores; Volume 6 – Os materiais de uma casa: acabamentos, quantidade de materiais, orçamentos; Volume 7 – Maneiras de custear uma casa: financiamento bancário, Construcard, MCMV, associativismo, entre outros.

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VIABILIZAÇÃO

No presente A ideia nunca foi reter as informações dos Manuais e sim disponibilizá-las para que cada um as utilize da maneira que deseja. Por isso, o material já pode ser acessado através do site:

www.autogestaodamoradia.com.br Acredito que atenderia bem aos objetivos do projeto servindo como: - Complemento para uma Assistência Técnica, onde a iniciativa de utilizar os manuais pode partir dos arquitetos ou dos próprios moradores; - Diretriz projetual, para instruir os moradores do território informal a executarem modificações em suas casas; - Consulta, para que pessoas que pretendem alugar ou adquirir uma casa/apartamento, mesmo que através de políticas públicas de habitação, consigam perceber se determinada unidade atende as demandas da sua família.

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Próximos passos A minha intenção é continuar o projeto na Universidade, durante o mestrado, já iniciando com a Assistência Técnica e, com sorte, conseguindo trabalhar com as 3 situações propostas: - 2 ou 3 famílias individualmente; - Grupos de pessoas vinculadas a uma associação ou a movimentos sociais; - Em escolas. Seria melhor ainda se essa oportunidade surgisse a partir do contato feito por alguém que conheceu o projeto através do site.

Cenário Ideal Para o futuro, gostaria que esse serviço estivesse disponível em algumas escolas públicas através de um programa de desenvolvimento social que conciliasse educação e melhoria habitacional. Dessa maneira, os estudantes de determinada faixa etária e suas famílias participariam das oficinas e desenvolveriam junto com um profissional de arquitetura um projeto para suas casas. Em um segundo momento, receberiam auxílio financeiro do órgão governamental responsável pela escola para executar as melhorias. Os custos da execução do projeto devem ser obtidos através de verba pública dos ministérios responsáveis por educação, habitação ou desenvolvimento social, restituindo aos governos a responsabilidade de prover moradia digna para a população de baixa renda.

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O FUTURO E A ASSISTÊNCIA TÉCNICA

Sobre o ensino de arquitetura Por fim, acho muito importante atrelar à formação de arquitetos nas Universidades uma experiência concreta de Assistência Técnica, através de alguma matéria ou extensão que execute projetos com alguma comunidade ou associação. Acredito que a Assistência Técnica é uma demanda real para o futuro e que o mercado de trabalho atual é completamente despreparado para lidar com a população pobre, portanto, o ambiente universitário se mostra o local ideal para isso ser exercitado.

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BIBLIOGRAFIA

Dados, textos e pesquisas 1) Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constituicao.htm Brasil, 1988; 2) Fundação João Pinheiro - Déficit Habitacional Brasileiro. Belo Horizonte, 2014; 3) Givisiez, Gustavo. Alguns aspectos sobre demandas sociais: educação, habitação e saúde. Belo Horizonte, 2005; 4) Instituti Polis/PUC-SP. Observatório de direitos do cidadão - Habitação na Cidade de São Paulo. São Paulo, 2002; http://www.polis.org.br/uploads/851/851.pdf 5) Guedes, Carina. Arquitetura na periferia: uma experiência de assessoria técnica para grupos de mulheres. Belo Horizonte, 2014; 6) Jacques, Paola Berenstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro, 1968; 7) Morar de Outras Maneiras, Escola de Arquitetura UFMG. Arquitetos nas favelas: três críticas e uma proposta de atuação. Florianópolis, 2012; 8) Nogueira, Priscilla. Práticas de Arquitetura para Demandas Populares: a experiência dos Arquitetos da Família. Belo Horizonte, 2010. 46


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Pratica da autogestao habitacional  

Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo sobre o habitar da população de baixa renda, o posicionamento do Estado diante do atu...

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