Issuu on Google+


Podia ter-se chamado Arsínoe, Berenice ou Cleópatra; ficou com o terceiro dos nomes dados a todas as mulheres da família. Egípcia de nascimento mas macedónia de linhagem, viveu no pior e no melhor dos momentos. Perdeu o Egipto, e pode ter ficado dilacerada. Mas, diz Stacy Schiff, teve uma vida brilhante. Antes e depois da morte.

André Malraux foi quem melhor apresentou o problema: se Nefertiti é um rosto sem rainha, Cleópatra é uma rainha sem rosto. Há quatro bustos que dizem ser dela, mas os historiadores só acreditam num, desfigurado - imagine-se a ironia, não tem nariz. Nas quatro moedas desenterradas em 2009 é mesmo ela, mas as imagens estão puídas e de perfil. Parece ter uma cara angulosa, um nariz grande curvado para baixo, um queixo proeminente retorcido para cima. Em três das moedas, está de boca aberta, como se ali houvesse um defeito. Definitivamente, não era uma mulher bonita. Plutarco (46-119), que escreveu a história de Júlio César, relata que a beleza da egípcia “não era, em si mesma, tão notável que ninguém pudesse comparar-se com ela ou que ninguém pudesse olh á-la sem ficar impressionado”. Mas eis que, sem nunca ter visto a personagem ou sequer vivido no tempo dela - pior, escreve sobre ela num tempo político em que fazia sentido dizer mal dos egípcios -, lhe reconhece um dos maiores atributos: “o contacto da sua presença, para quem vivia com ela, era irresistível”. “O que mais me impressionou nela foi a capacidade para criar soluções, mesmo no final da vida, quando estava entre a espada e a parede. A sua capacidade de encontrar força é pujante”, diz ao Ípsilon, por “e-mail”, a norte-americana de Stacy Schiff, autora de “Cleópatra” (Civilização), a mais recente biografia da rainha

ESTA RAINHA NÃO PRECISA DE ROSTO

egípcia. “Tinha uma grande adaptabilidade, por isso chegou a dois homens tão diferentes como Marco António e Júlio César”, continua. “A certo momento da pesquisa, voltei atrás. Percebi que as personagens e as perspectivas que as fontes davam eram tão importantes como os próprios sujeitos. Então passei uma boa parte do tempo a ler [os textos da Antiguidade] para entender as diferenças entre cada um deles, a que imperador tinham de agradar. Foi isso que me permitiu limpar a informação”, explica Stacy Schiff. Horácio, Dio, Suetónio (só este viveu com cinco imperadores: Nerva, Trajano, Adriano, Antonino e Marco Aurélio)... Cada um adaptava a História à vontade do seu freguês. Plutarco, frisa Schiff, foi a “maior surpresa”: “A voz [de Cleópatra] que nos faz chegar é fresca, audaciosa, imperial, arrojada”. Os outros mantiveram-se demasiado ligados ao poder, fazendo pela vida e pela glória de Octávio, o sobrinho de Júlio César, que foi o primeiro imperador romano com o nome de Augusto. Era preciso que Marco António fosse um traidor, um vilão. E era preciso que a sua amante fosse isso mesmo, uma amante, e não uma governante culta e inteligente, conceito muito pouco apreciado e entendido em Roma. Schiff costuma dar um exemplo. A imagem que as fontes dão de Cleópatra é idêntica à que os britânicos do século XIX dariam de Napoleão ou que os seguidores de Mao Tsé-Tung dariam da história dos Estados Unidos: desprezo pelo sujeito ou, na melhor das hipóteses, desconhecimento profundo da realidade sobre a qual escreveram.


O EGIPTO DAS MULHERES

Cleópatra - que podia ter sido Arsínoe ou Berenice; as mulheres da sua família tinham sempre um destes três nomes e rainhas Cleópatras houve 13 - subiu ao trono em 51 a.C. e morreu 21 anos depois. Era macedónia - como todos os ptolomeus, a quem Alexandre Magno ofereceu o trono do Egipto em recompensa pelos bons serviços nas campanhas militares. Terá sido - e este dado aparece confirmado por Schiff - a primeira dos ptolomeus a dar-se ao trabalho de aprender a língua dos seus sete milhões de súbditos. Também falava grego e outras oito linguas. Foi treinada para reinar, o que quer dizer que recebeu uma educação completa, o que aliás era comum nas mulheres das classes mais abastadas do Egipto, relata a nova biografia. Aprendeu ciência, astronomia, as artes da oratória e da refutação, música, geografia, aritmética... “Lia em voz alta ou os textos eram-lhe lidos (...). Ler era uma operação a duas mãos: segurava-se no rolo [de papiro] com a mão direita e enrolava-se a parte lida com a esquerda”. “Os romanos admiravam-se por, no Egipto, as crianças do sexo feminino não serem abandonadas à morte; um romano só era obrigado a criar a primeira filha”, conta Schiff. As mulheres egípcias casavam mais tarde do que as dos países vizinhos, emprestavam dinheiro, exploravam barcos no Nilo, possuiam vinhedos, adegas, negócios de perfume. “É possível que um terço do Egipto ptolomaico tenha estado nas mãos das mulheres”, concluo. Schiff cruza o contexto social e cultural da época

com o político. A fórmula resulta quando é preciso varrer da cabeça do leitor as ideias feitas - que chegou a César enrolada num tapete, por exemplo - e explicar o que acontecia no quando Cleópatra conheceu Júlio César. Aos 21 anos, a rainha do Egipto lutava (e perdia) contra o irmão. Não se sabe ao certo como convenceu César, que aportara a Alexandria. Mas a verdade é que o romano ali permaneceu vários meses, enquanto Roma se desmoronava, e, quando finalmente regressou a casa, Cleópatra, que segundo Schiff era virgem até àquele momento, estava grávida. O que se seguiu é História registada. Roma tornou-se império, o Egipto foi subjugado e Cleópatra transformou-se “quase imediatamente” na mulher manipuladora e maliciosa que usava o sexo para perder os homens na luxúria e na política. Mas nem dois mil anos de crítica desfavorável e prosa inflamada conseguiram esconder a rainha “capaz e astuta”, “oportunista e estratega” que foi esta mulher sem rosto.


Esta Rainha Não Precisa De Rosto