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especial

otudo design sobre óptico a versão no Brasil 2009 do salão francês de óptica

Quando a

experiência

A indústria mineira Clair Mont investe em design e soma a experiência do sócio e diretor de desenvolvimento de produto, Juber Guimarães, à formação do designer Saulo Policarpo, vencedor das duas últimas edições (2009 e 2010) do Concurso de design de óculos promovido pela Associação brasileira da indústria óptica (Abióptica) em parceria com a VIEW. Texto Sabrina Duran Fotos Becaclick

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Não foi acaso, mas uma providencial e positiva “conspiração”. Assim vê o diretor de desenvolvimento de produto, Juber Guimarães, a contratação do designer Saulo Policarpo, além de entender a história da empresa como uma feliz sucessão de fatos que ocorreram no momento certo e do jeito que deveriam ocorrer. A chegada de Policarpo à empresa foi assim: em 2009, a Clair Mont buscava um designer para dividir com Guimarães a responsabilidade pela criação das coleções. Foi quando Saulo, seguindo a dica de um amigo, apareceu “por acaso” na MinasÓptica, a feira óptica de Belo Horizonte, da qual a companhia estava participando. Saulo ainda estudava design em uma faculdade da capital mineira, mas já tinha sido vencedor da edição daquele ano do Concurso de design de óculos promovido pela Associação brasileira da indústria óptica (Abióptica) em parceria com a VIEW - seria bicampeão um ano depois. O estudante visitou vários stands para apresentar seu trabalho. Com o computador embaixo do braço, mostrava alguns exemplares de desenhos seus e falava do concurso que ganhara. Saulo já havia pesquisado sobre a Clair Mont e se interessado por ela, mas jamais fizera contato com a empresa, nem tampouco sabia que estaria presente naquela feira. Quando se preparava para deixar o www.revistaview.com.br


e a academia

se encontram centro de exposições, olhou para o lado e avistou o stand da companhia mineira. Chegou dizendo que era estudante de design, que ganhara o concurso e que queria mostrar seu trabalho ao dono da empresa - simples e direto assim (o próprio Saulo ri quando se lembra da ousadia). O diretor responsável pelos departamentos comercial e de marketing da Clair Mont, Jean-Luc Lacastagneratte, apresentou-se ao estudante e mostrou-se interessado em seu trabalho, afinal, a empresa já tinha pla-

nos de contratar um designer. Daquele primeiro contato à contratação, um ano se passou. Durante a Expo Abióptica de 2010, Saulo e Clair Mont fecharam contrato, e o já formado designer tornou-se o primeiro “desenhador” de óculos a dividir com Juber Guimarães a delicada tarefa de pesquisar, pensar e desenvolver as novas coleções de todas as marcas da empresa.

A experiência e a academia - A parceria entre os dois não poderia ser mais frutuosa. Guimarães, designer autodidata, aprendeu tudo o que sabe na década de 1980, ao observar outros profissionais trabalhando. “Aprendi muito com um francês que veio transmitir conhecimento na área de modelagem para a Sion, fábrica de óculos em que Juber trabalhava na época. Ele ficou um mês e aprendi alguma coisa, sou muito observador. Eu ficava sempre olhando as pessoas que faziam o desenho. Um dia, cheguei com os meus desenhos e o pessoal ficou admirado. Foi aí que começou toda a história, em 1984 mas eu já trabalhava lá desde 1971. Fiquei desenhando até 1989, mas então eu já fazia parte da Clair Mont”, relembra Juber. Já Saulo, que nasceu em 1978, aprendeu design pelos meios formais, na faculdade.

Criatividade: traços da criação de Saulo www.revistaview.com.br

Saulo Policarpo e Juber Guimarães: quando a academia e a experiência se encontram

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o design óptico no Brasil

Realização: os visitantes da Expo Abióptica 2011 tiveram a oportunidade de conhecer as primeiras peças desenhadas por Saulo Policarpo, que integram a coleção da Deville

Saulo Policarpo: vencedor das edições 2009 e 2010 do Concurso de design de óculos promovido pela Abióptica em parceria com a VIEW

Juber Guimarães: entrou no mercado em 1971 e é autodidata no design óptico desde 1984

Centro de estilo - Apesar da diferença da formação (que, aliás, ambos fazem questão de compartilhar), Juber e Saulo têm em comum o gosto por “colocar a mão na massa” na hora de trabalhar. Esse último sempre gostou de desmontar brinquedos e circuitos, de remontá-los e construir seus próprios passatempos. Para Juber, desenhar, modelar, construir e testar “na mão” são processos naturais que o acompanham desde que iniciou a carreira. Esse gosto foi outra “providencial coincidência” relacionada ao futuro da Clair Mont. Já está em estudo a construção de um centro de estilo dentro da empresa, em que cada processo da produção de um par de óculos será completamente interno, desde o primeiro esboço no papel até a criação completa da peça a ser produzida em série na fábrica. “Além da profissionalização, um dos objetivos da criação do centro de estilo é tirar um pouco da responsabilidade de eu ter que desenhar todas as coleções. Ao desenhar muitos modelos, é difícil ter direcionamento. Foi muito importante o Saulo ter aparecido. Além dele, virão outros designers para compor a equipe e a ideia é que cada um cuide de uma marca”. Para os dois designers que fazem questão de participar de todo o processo de gestação de cada no22

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va peça, o centro de estilo será o suprassumo da prática da criação, além de uma evolução na qualidade dos produtos. “Será montada uma minifábrica no setor de criação para que, quando o produto saia dali, já esteja testado antes de passar para a produção e toda deficiência técnica que houver seja corrigida também antes da fabricação”, informa Juber. O projeto ainda está sendo apreciado pela direção da empresa, a fim de viabilizar a construção do centro de estilo. O layout da Clair Mont também está passando por uma modernização para comportar as transformações físicas e os novos equipamentos da mini-fábrica quando sair do papel. “O centro de estilo é interessante porque tudo que a gente faz é usável e usado. Da forma com que o Juber trabalhava, já dava para ver o que funcionava. Com a ampliação do setor de injetado, a coisa é muito virtual, e precisa ser tocada, como www.revistaview.com.br


o Juber já faz tradicionalmente com o acetato. Juntar as duas coisas em um único lugar vai fazer o injetado ganhar a mesma forma de construção que o acetato; o injetado vai ficar mais anatomicamente correto. Tudo vai ser feito dentro da fábrica, desde o primeiro rabisco ao produto final. Isso dá mais tempo de projeto e esse tempo maior traz mais qualidade”, explica Saulo.

Inovação versus comercial - Saulo, o “designer providencial” da Clairmont, também está tendo de se transformar e modificar seu processo criativo desde a sua entrada na empresa. Até então habituado ao ambiente acadêmico, em que a experimentação e o risco são estimulados e os erros não significam perda massiva de dinheiro, o designer precisou aprender a criar sob a perspectiva do mercado, afinal, é ele, o mercado, quem absorverá - ou não - suas invenções. A edição 2011 da Expo Abióptica já foi brindada com as primeiras criações do jovem, que aplicou seu talento às armações de receituário da Deville, que ganharam um ar jovem e conectado com a modernidade. “Quando o objetivo não é comercial, a criatividade voa alto. O mercado puxa a rédea para voltar. Não se pode gastar uma fortuna para fazer um produto que não vende. É preciso ter um equilíbrio entre a inovação e o comercial. Eu aprendo demais com o Juber, que não tolhe ideias; pelo contrário, incentiva. Mesmo que a coisa não ocorra do jeito exato que pensei, eu fui lá, fiz, e em nenhum momento ele me cortou. Assim, aprendo mais ainda”, afirma.


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