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Dom Luís Lasagna é o que está à esquerda de Dom Bosco.

UM RAPAZ INDOMÁVEL Encontro de D. Bosco com Luís Lasagna Devia ser bonito de ver D. Bosco e os seus rapazes do Oratório de Valdocco desfilar, no Outono, pelos caminhos do Monferrato, a tocar com imenso entusiasmo trompetas e tambores. Devia ser bonito admirar a devoção daqueles jovens que, depois de tocarem os instrumentos entravam nas igrejas das terras para um momento de recolhimento ou para a Santa Missa. Eram os passeios outonais. O toque das trompetas e o ribombar dos tambores Partindo de Turim, todos os anos, Dom Bosco e os seus rapazes dirigiam-se para Castelnuovo di Asti, onde era celebrada com solenidade e devoção a festa do Santíssimo Rosário. Desde Castelnuovo penetravam pelas colinas do Monferrato e paravam nas terras que encontravam no seu caminho, onde eram acolhidos pelos benfeitores com grande simpatia e generosidade. As excursões duravam cerca de 15 dias, tempo dedicado à festa, ao contacto directo com a natureza, com as gentes, com o Senhor. Uma plenitude de energias físicas e espirituais. Em Outubro de 1862, a excursão do Oratório tinha como meta Vignale. Ali esperava-os a generosidade do Conde Callori. Mas durante o caminho, D. Bosco decidiu fazer antes uma paragem em Montemagno, onde foi acolhido pela caridade do marquês Domingo Fassati. Ao soarem, pelos caminhos de Montemagno, os toques das trompetas e o ribombar dos tambores, um rapaz de 12 anos, concentrado

no jogo com alguns companheiros, no fundo do vale, a um quilómetro mais ou menos de distância da povoação, cheio de curiosidade perante aqueles sons, abandonou os jogos para regressar a toda a velocidade ao povo. Descalço, sem casaco e sem chapéu, esquecidos no prado, trepou por um carreiro do vale. Auxiliando-se com algumas cotoveladas, abriu caminho por entre a multidão até chegar à primeira fila para ver aquele sacerdote que estava no meio da praça com os seus rapazes. Dom Bosco descobriu aquele rapaz de olhar vivaço, aproximou-se dele e perguntou-lhe: — Quem és? — Sou Luís Lasagna. — Queres vir comigo para Turim? — Propõelhe de repente Dom Bosco. — E para quê? — Para estudar com todos estes amigos. — E porque não? — Se quiseres vir, diz à tua mãe que venha falar comigo amanhã pela manhã em Vignale, na casa do pároco.


O rapaz ruivo Na manhã seguinte, o pároco de Montemagno, o padre Evasio Beccaris, acompanhou até Vignale a mãe de Luís, o rapaz e outros três rapazes da sua idade. O padre Evasio apresentou os rapazes a Dom Bosco, o qual, depois de os ter observado com atenção, respondeu: — Sobre os outros três não posso dizer nada; mas posso assegurar que o rapaz ruivo fará uma boa carreira (MBe VII, 246). Poucas semanas depois, Luís estava com Dom Bosco em Turim, movido pelo convite que lhe tinha feito aquele sacerdote: «Vem, seremos amigos». Na porta do Oratório de Valdocco, Luís apresentou-se com uma compostura tudo menos tímida; a sua atitude desenvolta fazia crer que já pertencesse àquela instituição. Estava tranquilo. O professor Carlos Berra, que acompanhou Luís a Valdocco, avisou Dom Bosco: — Sei que os jovens professores formados na sua escola são muito competentes; mas peço-lhe que não deixe de os avisar para que não se espantem com a excessiva vivacidade do meu aluno (L. Deambrogio, Le passeggiate autunnali di Don Bosco per i colli monferrini). Luís ambientou-se rapidamente à nova casa. Falava e jogava com os companheiros como se fossem seus amigos desde há muitos anos; perguntava-lhes coisas sobre os superiores, os professores, os assistentes; pedia para visitar a oficina de impressão, a oficina de encadernação e as restantes oficinas de Valdocco. Em poucos dias percorreu toda a casa. O seu interesse levava-o a conhecer não só a situação presente, mas também a história do Oratório, que às vezes ouve contar a Dom Bosco. A sua tremenda energia, de que tinha falado o seu professor, notou-se logo: «De índole vivaça e quase indomável, nos recreios queria ser o rei do campo…; por isso eram raras as acesas discussões para fazer valer as suas razões» (MBe VII, 263). O olhar de Dom Bosco Desde do princípio, Dom Bosco tratava Luís como um amigo, dizendo-lhe que o

procurasse sempre que alguém ou alguma coisa o preocupasse; pedia-lhe também que obedecesse aos superiores. E assim o rapaz aprendeu a confiar em Dom Bosco. No seu livro “Mons. Luigi Lasagna”, publicado em San Benigno Canavese, em 1900, escreveu o padre Paulo Álbera: «Mais tarde, confessou Luís que desde os primeiros dias passados no colégio, o tinha fascinado o olhar de Dom Bosco, todo cheio de bondade». Mas, quando já não faltava nada por descobrir no Oratório, quando a curiosidade de Luís já tinha explorado cada recanto de Valdocco, quando diminuiu o entusiasmo inicial, o rapaz sentiu saudades da sua terra. A mente regressava a Montemagno, às recordações de infância, aos caminhos e prados. De nada serviram as palavras dos superiores para o trazer à razão. Depois de passar alguns dias num choro contínuo, Luís pediu para regressar à sua terra. E, como o Oratório funciona como uma grande família, pôde regressar sem nenhuma oposição. Logo que chegou a Montemagno, a família reenviou-o para Valdocco. E o que fez Dom Bosco? «Dom Bosco acolheu-o sem o criticar por aquela decisão; tratou-o com tanta amabilidade, com palavras de ânimo e com conselhos tão paternais, que o conquistou para Deus e para a salvação dos seus irmãos» (MBe VII, 263). Dom Bosco tinha vislumbrado em Luís um rapaz sincero, ingénuo, generoso, dotado de uma força de vontade extraordinária, sensível, de boa memória e inteligência. Falando de Luís, Dom Bosco repetiu várias vezes: «Nele há um bom tecido; ides ver». Interpretar São Luís Gonzaga Quando já tinha passado três meses no Oratório, Dom Bosco enviou Luís ao pequeno Seminário de Mirabello para frequentar a quinta classe elementar. Ali conheceu o padre Miguel Rua. Nos finais de Junho, Dom Bosco estava em Mirabello para celebrar a festa de São Luís. Uma tarde os salesianos e os jovens representaram uma obra teatral intitulada “As férias de São Luís Gonzaga”, uma comédia centrada na luta de Luís Gonzaga para conseguir tornar-se religioso. Luís


Lasagna, que interpretava o protagonista da acção, ficou fascinado de tal maneira pela vocação deste santo, que no final da representação apresentou-se ao seu professor, apertou-lhe com força a mão e confiou-lhe com voz comovida: — Agora compreendo porque me deu este papel: Deus venceu. Eu também serei filho de Dom Bosco, também serei sacerdote. Em Junho de 1873 foi ordenado sacerdote e enviado para a casa salesiana de Alassio como professor. Três anos depois, Dom Bosco escolheu-o para um destino muito mais longínquo: enviou-o como missionário para o Uruguai, primeiro como director de um colégio e depois como provincial. Aí o

padre Luís promoveu a educação, a cultura e a acção social, a agricultura nas obras das missões, a impressa católica e a difusão das Leituras Católicas; fundou uma tipografia, um observatório meteorológico e comprometeuse na construção de novas igrejas. Transferido depois para o Brasil, o Papa Leão XIII nomeou-o bispo e encarregou-o de evangelizar aquelas terras. Preparou então as bases para a criação da missão salesiana de Matto Grosso. Em 1865, quando tinha apenas 45 anos, um acidente ferroviário tirou-lhe a vida. Mas o seu testemunho e as suas obras continuam vivos.

REFLEXÃO Há que saber fazer propostas «Quem és tu?», pergunta Dom Bosco a Luís Lasagna. E pouco depois propõe-lhe: «Queres vir comigo para Turim e estudar com todos estes companheiros?». É um dos muitos episódios em que Dom Bosco assume uma atitude de quem faz propostas. «Se te desse hoje mesmo a catequese, virias para escutar?», pergunta Dom Bosco a Bartolomeu Garelli. «Queres vir comigo? Seremos sempre bons amigos até que possamos ir para o céu. Estás contente?», pergunta Dom Bosco a Pedro Enría. «Meu querido Magone, gostarias de abandonar esta vida de saltimbanco, aprender um ofício e continuar os estudos?», pergunta ao jovem Miguel, que encontra na estação ferroviária de Carmagnola. Existem dezenas e dezenas de episódios nos quais Dom Bosco propõe uma mudança de vida aos rapazes com quem se encontra. Quando conhecia um rapaz sem família, ou pobre, sem instrução, um rapaz abandonado a si mesmo, ou de qualquer maneira necessitado de ajuda, era natural para Dom Bosco fazer-lhe uma proposta. Segundo os casos, Dom Bosco oferecia um tecto para se abrigar, a possibilidade se aprender uma profissão, de estudar, de receber uma formação cristã. D. Bosco não perdia tempo. Inclusivamente diante de rapazes mais difíceis, sem desanimar conquistava-os com uma proposta. Por fim, as necessidades dos jovens de hoje não mudaram demasiado: acima de tudo têm necessidade de um ambiente educativo válido, de actividades extra curriculares humanamente formativas, de uma educação cristã, de espaços e ocasiões de reflexão sobre temas importantes, de diversões salutares. Os pais e educadores têm muitas ocasiões para propor aos seus jovens experiências que ajudem ao crescimento humano, físico e espiritual. Não basta somente lamentar-se de certos lugares contra-educativos, de amizades perigosas, de programas televisivos aborrecidos. Já tentamos propor aos jovens alternativas válidas?


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