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UM RAPAZ TRAZIDO PELA CHUVA Encontro de D. Bosco com um órfão da Valsesia 1847. É uma noite de Maio. Chove a cântaros sobre Turim. Em Valdocco, D. Bosco e a sua mãe acabaram de cear há pouco tempo. Mãe Margarida limpa e arruma a louça, enquanto D. Bosco pensa na desagradável experiência do mês anterior. Uma casa, um lençol, um cobertor Num bairro da periferia de Turim, na rua de Dora Grossa (agora Rua Garibaldi), perto do Corso Valdocco, D. Bosco encontrara-se com uma vintena de rapazes que caminham ao acaso. Nunca tinham ouvido falar nem deste padre nem do seu Oratório. Ao encontrar D. Bosco começaram a fazer comentários trocistas sobre os padres. Num primeiro momento, D. Bosco fingiu não ouvir nada; depois, quando estava perto do grupo de rapazes, cumprimentou-os: — Boas noites, queridos amigos! Como estão? — Nada bem, senhor teólogo, respondeu um deles. Temos sede e estamos sem dinheiro. Porque não nos paga o senhor uma “pinta” (medida piemontesa que equivale a um pouco mais que um litro). -

D. Bosco aceitou. Entraram numa taberna, um pouco mais à frente, D. Bosco pagou uma rodada para todos. Depois, quando os copos já estavam vazios e os ânimos estavam mais calmos, D. Bosco dirigiu-se a eles, dizendo: — Se querem ser meus amigos, deveis darme o gosto de não falar mal de Deus e de Jesus Cristo, como alguns de vós fizeram esta noite. Os rapazes escutaram-no em silêncio, reconhecendo o seu erro e prometeram morder a língua para não o repetirem daí em diante. D. Bosco acrescentou: — Muito bem, agradeço-vos e vou contente. No Domingo espero-vos no Oratório. Agora vamos embora e, como bons rapazes, ide cada uma para sua casa. — Mas eu não tenho casa — respondeu um deles. — Eu também não – disse outro; e assim


muitos outros. Contaram a D. Bosco que dormiam nos estábulos abandonados, ou no dormitório público, ou em casa de amigos, ou agachados debaixo dos pórticos da Rua Pó. D. Bosco calculou os perigos que corriam esses rapazes, e fez-lhes uma proposta: — Os que têm casa ou parentes, vão para lá; os outros, venham comigo. Os rapazes aceitaram. Seguido por uma dezena deles, D. Bosco dirigiu-se a Valdocco. Chegados ao Oratório, D. Bosco pediu para que os seus hóspedes rezassem um Pai Nosso e uma Avé Maria, que os rapazes recordaram dificilmente. Depois subiram por uma escada portátil, e D. Bosco indicou-lhes o palheiro, ao lado da Casa Pinardi; deu a cada um deles um lençol e um cobertor para se resguardarem do frio da noite. Na manhã seguinte, logo após os primeiros raios de Sol, D. Bosco foi ao palheiro, mas não ouvia ruído nenhum. Pensava que os rapazes estavam ainda a dormir; subiu para os acordar, olhou em redor, mas não encontrou nenhum, nem sequer os lençóis e os cobertores: pobres em todos os sentidos, tinham-nas levado consigo. Alguém chama à porta Aquela noite de Maio, enquanto lá fora chovia, D. Bosco e Mãe Margarida ouvem bater à porta. Diante dos seus olhos apresenta-se um jovem com cerca de 15 anos, com a roupa empapada, a pedir que o deixem passar a noite num ambiente seco. Uma pessoa que conhecia a existência do Oratório tinha-lhe dito para ir ter com D. Bosco. D. Bosco e a sua mãe levam-no até à cozinha, e o rapaz senta-se perto do fogo para secar a roupa. Depois a Mãe Margarida oferece-lhe um prato de sopa e um pouco de pão. Logo que o rapaz se recompõe, D. Bosco pergunta-lhe quem é, de onde veio, porque se encontra ali e não com a sua família. — Sou um pobre órfão, chegado há pouco de Valsesia em procura de trabalho; sou pedreiro. Tinha três libras, mas gastei-as

antes de ganhar outras; agora não tenho absolutamente nada e não conheço ninguém. — Fizeste a Primeira Comunhão? — pergunta D. Bosco. — Não. — Recebeste o Crisma? — Não. — Já te confessaste? — Sim, algumas vezes, quando vivia com a minha mãe. — E onde queres ir agora? — Não sei. Peço por favor que me deixem passar a noite em qualquer canto desta casa. Dito isto, o rapaz começa a chorar. Ao ver as lágrimas que enchem o rosto daquele pobre órfão, Mãe Margarida chora também, pensando em tantos rapazes que existem em Turim nas mesmas condições. Um colchão sobre tijolos e tábuas de madeira Comovido, D. Bosco diz ao órfão: — Se soubesse que não és um ladrão, trataria de te acomodar neste casa, mas outros já levaram consigo uma parte dos cobertores, e temo que tu me leves o resto. — Não, senhor, esteja tranquilo; eu sou pobre, mas nunca roubei nada — responde o rapaz para tranquilizar D. Bosco. Mãe Margarida propõe a seu filho: — Se quiseres, eu acomodo-o por esta noite, e amanhã Deus dirá. — Onde pensa a senhora colocá-lo? — pergunta D. Bosco. — Aqui na cozinha. — E se nos leva os tachos? — Procurarei que isso não suceda. — Faça o que quiser; eu ficarei contentíssimo — conclui D. Bosco. Ajudados pelo rapaz, D. Bosco e a sua mãe recolhem no pátio alguns tijolos e levantam quatro pequenas colunas no meio da cozinha; apoiam nelas algumas tábuas de madeira e colocam por cima um colchão com lençóis e um cobertor. É a primeira cama e o primeiro dormitório da casa de D. Bosco que mais tarde se construirá bem perto dali.


Preparada a cama, Mãe Margarida dirige algumas breves palavras ao rapaz sobre a necessidade do trabalho, da honradez e da fé em Deus. Sem querer, Mãe Margarida começa assim uma prática continuada depois em todas as casas salesianas: as «boas noites», ou seja, o costume do director da casa dirigir algumas palavras cordiais aos jovens e aos salesianos, no final do dia, antes de se deitarem. Ao terminar a conversa, Mãe Margarida convida o rapaz a rezar as orações. — Já não me recordo delas — confessa

envergonhado. — Reza connosco — diz-lhe Mãe Margarida. E rezam de joelhos. Dadas as boas noites, D. Bosco e a sua mãe saem da cozinha e, para assegurar os tachos, Mãe Margarida fecha a porta à chave. No dia seguinte, D. Bosco encontra ali o rapaz, junto ao fogão, e acompanha-o para procurar trabalho. Depois deste rapaz, trazido pela chuva, chegaram centenas.

REFLEXÃO Não vale a pena desanimar «Se soubesse que não és um ladrão, tentaria acomodar-te nesta casa; mas outros já me roubaram uma parte dos cobertores e temo que tu me leves o resto», responde D. Bosco àquele órfão que lhe pede hospitalidade, naquela noite chuvosa. Para D. Bosco e para a sua mãe era difícil esquecer a desilusão vivida no mês anterior, quando aqueles jovens, depois de serem acolhidos, se tinham escapado pela manhã levando os cobertores. Mas depois dessa desagradável experiência, D. Bosco e Mãe Margarida não se rendem, não levantam uma bandeira branca. Existiam outras centenas de jovens à espera que alguém os acolhesse numa casa e os ajudasse a instruir-se, a aprender uma profissão, a encontrar um trabalho e, sobretudo, a salvar a sua alma. Por este motivo, D. Bosco e Mãe Margarida dão hospitalidade àquele órfão. Tomam precauções, fechando à chave a cozinha, mas sem renunciar a fazer o bem. O comportamento de D. Bosco e de Mãe Margarida serve de exemplo para muitos educadores e pais, que com frequência desanimam perante os primeiros fracassos educativos, perante as desilusões, perante os filhos que não respondem no modo e tempo desejados. Cada pessoa e, por isso, também o jovem, tem o seu próprio tempo de maturação, um caminho pessoal de crescimento. Os resultados visíveis exteriormente alcançam-se muitas vezes só depois de muito tempo, quando alguns educadores já perderam a esperança de obter algo de bom, e talvez se tenham já rendido, renunciando em prosseguir na obra da educação. Existem objectivos que se conseguem muito tempo depois. Mas é importante que os educadores recordem que não se perde o que foi ensinado aos jovens, sobretudo com o seu exemplo. No momento oportuno emergirá na memória do educando e poderá orientar as suas opções de vida e de comportamento.


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