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COM O CATECISMO DEBAIXO DO COLCHÃO Encontro de João Bosco com Santiago Levi Sexta (ou preparatória), quinta, quarta, Gramática (ou terceira), Humanidades (ou segunda), Retórica (ou primeira): são os seis cursos de latinidade que constituem as escolas secundárias na primeira metade do século XIX, no Estado do Piemonte, com capital em Turim. Precisamente por estes anos, precisamente desde 1831 a 1841, João Bosco está em Chieri como estudante. No ano escolar de 1831-1832 frequenta a sexta classe; depois de dois meses, a quinta; e no mesmo ano passa para a quarta. Nos três anos escolares seguintes frequenta Gramática (1832-1833), Humanidade (1833-1834) e Retórica (1834-1835). Mais tarde estuda durante seis anos no Seminário (1835-1841). Em Chieri viviam bastantes judeus. As leis do Rei Carlos Félix estabeleciam que deviam habitar num bairro separado dos cristãos. De certa maneira, são «tolerados», como se fossem cidadãos de segunda categoria. Na escola, os rapazes judeus vivem um forte dilema ao sábado: nesse dia a sua religião proíbe qualquer trabalho mas eles têm deveres da escola para fazer. Ficam divididos entre duas más soluções: fazer os deveres e, desse modo, ir contra a sua consciência, ou não fazer os trabalhos da escola e, logo, tirar más notas. Para ajudar os rapazes judeus, João Bosco faz os trabalhos de sábado na sua vez. «Naquele tempo os judeus eram apenas tolerados na sociedade civil. Com tanta generosidade, João Bosco ganhou a sua simpatia de tal modo que teve inclusivamente a grande alegria de conseguir para um deles a graça da conversão e do santo baptismo» (MBe I, 257). Se fosses cristão... Durante o ano de Humanidades (18331834), João Bosco, de 18 anos, conheceu um jovem judeu de nome Jonas (nome

fictício que D. Bosco dá para esconder o verdadeiro nome: Jacob Leví). Jonas, de 18 anos, dotado de uma estupenda voz, passava com gosto o seu tempo livre com João cantando, tocando piano, lendo e


escutando o que lhe contava o jovem Bosco. Conta D. Bosco nas Memórias do Oratório: «Numa ocasião tomou parte numa rixa, que podia trazer-lhe consequências lamentáveis. Procurou-me para me pedir conselho. — Querido Jonas, se fosses cristão, levarte-ia imediatamente para te confessares, mas isso não é possível. — Nós, se quisermos, também nos confessamos - responde Jonas. — Claro que te vais confessar; mas o vosso confessor não está obrigado ao segredo, não tem poder para perdoar os pecados, não pode administrar nenhum sacramento – diz João. — Se me quiseres levar, irei confessar-me a um sacerdote — propõe ingenuamente Jonas. — Quero levar-te, mas precisas de muita preparação… Deves saber que a confissão perdoa os pecados cometidos depois do baptismo; por isso, se queres receber qualquer sacramento, é necessário que antes de mais nada recebas o baptismo. — Que devo fazer para receber o baptismo? — Instruíres-te na religião cristã, crer em Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem… O baptismo apaga o pecado original e também os pecados actuais, abre-te o caminho para receber todos os outros sacramentos, faz-te filho de Deus e herdeiro do céu. — Nós judeus não nos podemos salvar? — Não, meu querido Jonas; depois da vinda de Jesus Cristo os judeus não se podem salvar sem crer n’Ele. — Pobre de mim, se a minha mãe sabe que me quero tornar cristão! — Não temas. Deus é dono dos corações e, se te chama a ser cristão, fará com que a tua mãe fique contente, ou cuidará de alguma maneira da tua alma. — Tu que gostas tanto de mim, se estivesses no meu lugar, que farias? — Começaria a instruir-me na religião cristã; entretanto, Deus abrira o caminho ao que deve ser feito no futuro. Para esse

efeito fica com este pequeno Catecismo e começa a estudá-lo. Pede a Deus que te ilumine e que te faça conhecer a verdade». Tu arruinaste o meu Jonas Desde aquele dia o jovem Jonas iniciou o seu caminho de conversão. Entretinha-se com frequência com João Bosco conversando sobre o catecismo, aprendendo a fazer o sinal da cruz, a rezar o Pai-nosso e a Avé Maria, a recitar o Credo, a conhecer algumas das verdades da fé. Estava contente com o caminho percorrido. Mas nesse caminho deparavase um grande obstáculo. Jonas tinha perdido o seu pai muito pequeno. E a mãe não sabia ainda nada sobre o seu caminho de conversão ao cristianismo. Até que um dia, fazendo a cama do filho, a mãe encontrou um catecismo debaixo do colchão. Ficou surpreendida. Depois começou a entender tudo e ficou alarmada, saiu de casa, foi logo falar com o rabino para que ele lhe dê alguma explicação sobre esse livro. Uma vez recebida a confirmação do que já suspeitava, foi ter com João Bosco. Tinha ouvido tantas vezes o seu filho falar-lhe daquele companheiro de escola chamado Bosco, mas agora queria conhecê-lo pessoalmente, mas não precisamente para lhe agradecer. Encontrou-o e confrontou-o com estas palavras: — Tu arruinaste o meu Jonas; desonraste-o diante de toda a gente; eu não sei o que vai ser dele. Temo que acabe por tornando-se cristão, e tu és o culpado. João ficou confundido, quase não compreendia; depois percebeu quem era a senhora e de quem estava a falar. Com muita calma explicou que devia ficar contente e agradecer à pessoa que estava a fazer bem ao seu filho, e acrescentou: — Acalme-se, boa senhora, e escute. Eu não procurei o seu Jonas, mas encontramonos no armazém do livreiro Elias. Fizemonos amigos sem saber a razão… Como verdadeiro amigo, desejo que ele salve a sua alma e que possa conhecer a religião


fora da qual ninguém pode salvar-se. Dei ao seu filho um livro, dizendo-lhe somente que se instruísse na religião e que, se se tornasse cristão, não abandonaria a religião hebraica, mas que a aperfeiçoaria… A mãe desesperada, repetiu: — Mas, que será do meu pobre Jonas? Entretanto, Jonas aprofundava o seu conhecimento da religião cristã, apesar de sofrer a reprovação da sua mãe. Quando a relação com a sua família se tornou insustentável, Jonas deixou a sua casa. Muitas pessoas vieram em sua ajuda, entre elas João Bosco, que lhe recomendou um sacerdote muito experiente para o

acompanhar. Quando ficou bem preparado na religião, recebeu o baptismo e assumiu o nome de Luís. Tudo isto está confirmado nos registos paroquiais da catedral de Chieri, onde está escrito em latim: «Eu, Sebastián Schioppo, teólogo e cónego, baptizo um jovem judeu, de 18 anos, de nome Jacob Leví». A conversão ao cristianismo de Jacob Leví foi um bom exemplo para os habitantes de Chieri e para muitos judeus, alguns dos quais seguiram o caminho de Leví. Luís manterá sempre a amizade com D. Bosco, e visitá-lo-á no Oratório de Valdocco até 1880, mais ou menos.

REFLEXÃO A instrução religiosa «Tu que gostas tanto de mim, se estivesses no meu lugar, que farias? Pergunta Jacob Leví ao jovem João Bosco diante do dilema de permanecer judeu ou de se converter ao cristianismo. João Bosco propõe-lhe: «Começaria a instruir-me na religião cristã». A instrução cristã é a proposta que os educadores devem apresentar aos seus rapazes. A fé cristã não é feita só de sugestões, intuições, sentimentos. A fé deve apoiar-se num sólido conhecimento da religião: a Palavra de Deus, o Credo, os sacramentos, a história da Igreja. Quanta ignorância relativamente ao Credo existe em alguns cristãos, e por vezes nos jovens! Correm o risco de serem manipulados e arrastados para qualquer outra religião ou seita. Os jovens necessitam de dar um fundamento racional à sua fé para serem capazes de realizar opções adequadas. E nós, educadores, pais, mestres, religiosos, já sugerimos alguma vez aos nossos rapazes que peguem no Evangelho, no catecismo, num livro de espiritualidade, na biografia de um santo, para meditar e instruir-se? Aconselhámo-los algum curso de aprofundamento da Palavra de Deus? Ajudámos essas vidas juvenis a compreender em Quem crêem?


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