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SENTIR-SE AMADO COMO UM FILHO Encontro de D. Bosco com Luís Piscetta 1870. É uma data importante para a Igreja de todo o mundo: é o ano do Concilio Vaticano I. O Papa Pio IX tinha aberto o Concílio no dia 8 de Dezembro do ano anterior com a intenção de expor claramente a doutrina católica e, portanto, de corrigir alguns erros modernos que desviavam os católicos. A este propósito, no dia 24 de Abril o Concílio aprova um documento, Dei Filius, o qual expõe de maneira clara mas profunda a doutrina católica de Deus, a revelação e a fé, e a inexistência de um conflito entre fé e razão. O Concílio define também a infalibilidade do Papa. Participam 100 «padres conciliares», entre bispos e superiores de ordens e congregações religiosas. A 24 de Janeiro de 1870 D. Bosco apanha o comboio com destino a Roma: vai falar com o Papa, e a 8 de Fevereiro consegue ter duas grandes conversas com Pio IX. Nessa ocasião o Papa confia-lhe uma tarefa: difundir um folheto com a história da Igreja que sublinhe a infalibilidade do Papa. Regressado a Turim, D. Bosco prepara uma nova edição do seu livro História Eclesiástica, no final do qual acrescenta algumas páginas sobre a infalibilidade pontifícia, e envia-o a todos os assinantes das Leituras Católicas.

Uma casa por 15 liras Este trabalho de carácter editorial que terminará no final do ano, não distraiu

D. Bosco de um dos seus maiores desejos: estar no meio dos rapazes. Recordando os seus 12 anos de idade, conta Luís Piscetta: «Conheci D. Bosco


em Outubro de 1870 quando fui aceite como aluno no Oratório de Turim. Pode dizer-se que desde esse tempo estive sempre com D. Bosco. Quando entrei para o Oratório vi D. Bosco rodeado de numerosos jovens, sorridente, bondoso, deu-me a impressão de ser um pai bom no meio dos seus filhos (D. Bosco tinha na altura 55 anos). Tive sempre muito afecto por D. Bosco, reconheço que a ele se deve toda a minha instrução e educação e tudo quanto sou. Posso afirmar que fui aceite no Oratório gratuitamente, pois a módica pensão que paguei nos primeiros três anos, de 15 liras, não era certamente suficiente para os gastos diários e instrução recebida». Luís Piscetta nasceu em 1858 em Comugnano (Novara). Como tantos outros jovens, tinha deixado o campo para emigrar para a cidade em busca de trabalho. E no Oratório de Valdocco encontrou uma casa que o recebeu. Era precisamente D. Bosco quem acolhia e aceitava os jovens. Não se considerava a si mesmo como um dono que tinha a autoridade de decidir, o poder de escolher com quem devia ser caritativo. Considerava-se um simples distribuidor dos tesouros que a Providência lhe tinha confiado. No Oratório só aceitava gratuitamente os rapazes verdadeiramente pobres, e, exigia uma pensão a quem podia pagála. «Ele costumava dizer que não era justo tratar como pobre quem não o era. Eu mesmo fui testemunha disso», disse Luís. Luís observava com atenção o comportamento daquele sacerdote e escutava as suas palavras. Deu-se conta que também D. Bosco sabia escutar quem falava com ele. «Fui muitas vezes falar com ele, em jovem, enquanto clérigo e depois como sacerdote, e recordo que nunca fez por acabar a

conversa antes, nunca demonstrou desejo de abreviá-la. Pelo contrário, por vezes, quando eu estava para sair, convidava-me amavelmente a ficar mais um pouco. Saí sempre de perto dele alegre e com a certeza de que D. Bosco me amava como se fosse seu filho». Estava disposto a dialogar com todos, sem medo de perder tempo ou de descuidar qualquer outra tarefa, e deixava esta mesma impressão a todos, rapazes e salesianos: «cada um de nós, sem excepção, estava persuadido de estar entre os seus predilectos», afirma Luís (Don Bosco visto da vicino). Os diálogos entre Luís e D. Bosco referiam-se por vezes ao projecto de vida do rapaz. «Quando me fazia o acompanhamento vocacional e me falava do estado clerical e do sacerdócio que eu iria seguir, o seu discurso versava continuamente sobre a graça de Deus e a salvação das almas a que queria que me consagrasse inteiramente, e via-o alegrar-se visivelmente quando falava do bem que ele esperava que eu fizesse depois». (Don Bosco visto da vicino). Fazer-se amar mais do que temer Os anos setenta foi também o período em que se concretizou o projecto dos cooperadores salesianos, leigos queridos por D. Bosco que partilhavam o seu projecto educativo e cristão, pessoas dispostas a «arregaçar as mangas» para se dedicar ao trabalho concreto. Mas D. Bosco compreendeu que não bastava a disponibilidade. Esses colaboradores, que ele queria que pertencessem para todos os efeitos à «Família Salesiana», necessitavam de ser formados, preparados para uma missão importante, delicada, na qual não se


pode improvisar. Testemunhará Luís: «Uma máxima praticada por D. Bosco e inculcada nos seus cooperadores era fazer-se amar mais que temer, e acompanhar sempre qualquer ordem, aviso ou correcção seus com a caridade e a paciência; com esta atitude, em toda a sua maneira de actuar parecia evidente que só procurava o bem dos jovens. Outra máxima sua era que se evitasse tanto quanto possível qualquer castigo, e que se fizesse passar por castigo a não aplicação aos culpados de algum sinal de benevolência praticado com os bons. Estavam absolutamente proibidos os castigos humilhantes e irritantes e as alcunhas injuriosas» (Don Bosco visto da vicino). Sobre a necessidade de formar os formadores, declarou também Luís: «Nos anos que passei no Oratório, eu mesmo o vi falar com frequência com os professores, com os chefes de oficina e com os assistentes para os informar sobre as necessidades de conduta e de aproveitamento nos estudos e no trabalho dos seus alunos correspondentes, para lhes dar normas oportunas de conduta, entre as quais as mais repetidas eram vigiar as conversas más e leituras perigosas e evitar a parcialidade e as amizades particulares. Outra prova de zelo e prudência era entreter-se com os jovens tanto quanto podia e inclusivamente jogar, a fim de os conhecer melhor» (Proceso Ordinario, 2.382 D 11). Disponível, atento às necessidades dos rapazes, amável com eles, mas também firmemente exigente. Luís testemunhará no processo de canonização: «D. Bosco queria que os seus jovens desprezassem as conversas más, como São Luís, o qual repreendeu com valentia um homem já idoso que se atreveu a falar pouco honestamente

na presença de jovens. D. Bosco tolerava muitos outros defeitos nos seus jovens, mas não tolerava um corruptor ou quem pregasse partidas contra a castidade. Recomendava o mesmo aos directores das várias casas. Por amor a esta virtude queria remover da vista dos jovens as imagens e as palavras indecentes» (Proceso Ordinario, 2.384 C 8).

“ Peixes ” e pescadores Entre mil outros compromissos, por vezes a caridade de D. Bosco manifestava-se também no pensar dos mais pequenos detalhes. Recorda Luís: «Estava em casa de férias, e escrevi-lhe dando-lhe notícias da minha vida. Mesmo não havendo necessidade disso, D. Bosco ao responder-me recomendou-me que prolongasse o descanso e as férias. Mais tarde, quando era clérigo, enquanto partia para uma visita à família, perguntoume se precisava de alguma coisa; respondi-lhe que não e pediu-me que lhe escrevesse se me surgisse alguma necessidade» (Don Bosco visto da vicino). D. Bosco introduziu uma prática, que se converteu num bom costume. Quando um salesiano ia à sua terra natal para visitar os pais, D. Bosco perguntava se a família tinha tudo o que era necessário; se sabia que a família tinha alguma necessidade, entregava ao salesiano uma boa soma de dinheiro e recomendava-lhe para que lhe escrevesse todas as vezes que precisasse de alguma coisa. Recorda Luís Piscetta: «Uma vez encontrava-me, não doente, mas indisposto e, apesar disso, obrigado a trabalhar. D. Bosco chamou-me e recomendou-me repetidamente que pedisse tudo o que julgasse oportuno» (id.).


A amabilidade com os rapazes pode manifestar-se de diversos modos, até na preocupação em encontrar o método de ensino mais adequado para que os estudantes compreendam com mais facilidade e memorizem melhor. D. Bosco sabia-o. Por isso, quando instruía os jovens nas matérias religiosas, comunicava as verdades religiosas através de relatos da história sagrada e eclesiástica, e com este método os seus ensinamentos tornamse claros e agradáveis. Assinala Luís: «há que notar que no final da sua conversa, para conservar mais viva a atenção e exercitar a astúcia dos jovens, convidava-os a propor as reflexões que se podiam deduzir dos textos narrados» (Proceso Ordinario, 2.382 D 8). Com este método prosseguiam os estudos de Luís. Era o próprio D. Bosco que o orientava. Numa carta de 22 de Fevereiro de 1874, D. Bosco previu o futuro de Luís, estudante de 16 anos,

hospedado em Valdocco: «Meu filho, continua na vocação a que Deus te chamou para coisas mais importantes. Agora és pequeno, dá passos pequenos, pois existem muitos perto de nós. Quando fores maior, o Senhor far-te-á pescador de homens» (MBe X, 707). D. Bosco não se enganou. Ordenado sacerdote, o padre Luís Piscetta faz o seu doutoramento em Teologia e em 1885, com apenas 27 anos foi agregado à Faculdade de Teologia Pontifícia de Turim. Foi professor de História da Igreja, Direito Canónico e Teologia Moral durante 40 anos. Publicará uma importante obra com três volumes, reeditada muitas vezes e adoptada em numerosos seminários: Theologiae Moralis Elementa. Em 1907 o padre Rua chamou-o para tomar parte no Conselho Superior da Congregação Salesiana. Morreu em Turim no ano de 1925.

REFLEXÃO A escuta «Quando ia falar com ele, recordo que nunca se adiantou para dar por finalizada a conversa; jamais demonstrou vontade de a terminar», testemunhou Luís Piscetta no processo de beatificação de D. Bosco. A escuta é o primeiro passo para educar. Para um educador como D. Bosco, está claro que a escuta é fundamental. Antes de propor a um rapaz um projecto para o seu futuro (continuar os estudos, aprender uma profissão, tornar-se salesiano), D. Bosco quer saber o caminho percorrido até aquele momento pelo rapaz, as suas intenções, as suas capacidades. É importante escutar o rapaz. O rapaz comprova que o adulto renuncia a um pouco de tempo livre para escutar os seus projectos, as suas preocupações, os seus sentimentos, e tudo de maneira desinteressada. E isto produz um efeito positivo na sua auto-estima. Sente-se amado, comprova que alguém cuida dele. Numa sociedade com a nossa, onde todos andam depressa e não têm tempo nunca para os outros, a escuta adquire um valor particular. Alguns pais crêem que podem suprir a sua ausência dando dinheiros aos seus filhos. O dinheiro tem muito poder, mas quem o recebe não se sente amado.


18_Sentir-se_amado_como_um_filho  

Encontro de D. Bosco com Luís Piscetta D. Bosco de um dos seus maiores desejos: estar no meio dos rapazes. Recordando os seus 12 anos de ida...

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