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UM CAMPO MAIS AMPLO DO QUE A ALDEIA Encontro de D. Bosco com Miguel Únia 19 de Março de 1877, festa de São José. Um rapaz de 27 anos, de rosto bronzeado, entra no Oratório de São Francisco de Sales, em Valdocco, e pede para falar com D. Bosco. Levam-no à sua presença. Ao aproximar-se da porta de entrada, D. Bosco pergunta-lhe: — Quem és? Sou Miguel Únia, de Rocaforte, uma pequena aldeia da diocese de Mondoví. — Desejas falar com D. Bosco? — Sim, para saber se me aceita entre os seus filhos, para ir às aulas, porque queria…, se o Senhor me conceder essa graça, queria ser um dia sacerdote. — Mas com esta idade? - Pergunta-lhe D. Bosco. — Tenho 27 anos cumpridos e estou quase a completar 28. Sei que é um pouco tarde, mas não pude antes – explica Miguel. — Bom, bom. Se me quiseres acompanhar nessa tarefa, creio que ainda vamos a tempo – anima-o D. Bosco. — Pois diga-me o que tenho que fazer. — Certamente já leste o nosso Boletim; se aceitas as condições, serás admitido imediatamente entre os «filhos de Maria» - propõe-lhe D. Bosco. — Muito bem, não espero outra coisa – responde Miguel. — Voltarás a tua casa, tratarás dos teus assuntos e depois, nos primeiros dias de Agosto, virás para cá e te direi o que deves fazer (Memórias Biográficas do Sac. Miguel Únia). Os salesianos ouviram muitas vezes este relato da boca de Miguel. Um programa no Boletim Salesiano Foi precisamente nesses anos que D.

Bosco tinha conseguido colocar em funcionamento um projecto em favor das vocações tardias, ou seja, para


aqueles jovens que respondiam ao chamamento do Senhor em idade avançada por diversos motivos: ou porque o chamamento tinha chegado mais tarde ou porque não tinham podido começar antes os estudos no seminário por dificuldades económicas. Miguel voltou então a casa para «tratar dos seus assuntos». Comunicou aos pais a sua vocação e a sua intenção de regressar a Turim para a escola de D. Bosco. Mas, quem era Miguel Únia? Porque terá esperado até à idade de 27 anos para se tornar sacerdote? Miguel tinha nascido na província de Cúneo, em Dezembro de 1849. Na escola demonstrava inteligência e boa memória. Terminadas as primeiras classes, pediu aos seus pais para poder continuar os estudos. Perguntou-lhe o pai: — Porque é que queres estudar mais? — Quero ser sacerdote – respondeu rapidamente Miguel. — Mas sabes bem que não podemos. Somos pobres, temos que trabalhar e o pagamento do seminário é impossível para nós. O rapaz baixou a cabeça, chorou e regressou ao trabalho do campo. Assim ficou ofuscado o sonho de Miguel. Mas o rapaz não perdeu totalmente a esperança. Dizia com frequência aos seus: - Apesar de tudo, eu continuo a desejar ser sacerdote. Sinto que o Senhor o quer. Entretanto, rezava, evitava os excessos nas diversões e chamava a atenção dos seus amigos quando pronunciavam palavras inconvenientes. Por vezes entretinha-os repetindo-lhes o sermão que ouvira na missa, levava-os para às celebrações da Igreja; com eles aprendia o catecismo. Miguel era um rapaz alegre, amava a música, gostava

de cantar. Em certo sentido especializava-se em resolver os litígios familiares. Um dia D. Bosco publicou no Boletim Salesiano o programa dos Filhos de Maria, onde dava uma oportunidade aos jovens adultos que, tendo mais de vinte 20 anos, se propusessem responder positivamente à vocação sacerdotal. Não se falava de pagamento mensal. A madrinha de Miguel leu o programa e falou dele ao seu afilhado, cujo desejo de se tornar sacerdote bem conhecia. Com a ajuda dos sobrinhos, recolheu o dinheiro e deu-o a Miguel para que pudesse ir a Turim. Seguiram-se a primeira e segunda viagens a Valdocco, para se colocar nas mãos de D. Bosco. D. Bosco propôs-lhe fazer os exercícios espirituais no Colégio Salesiano de Lanzo, a 15 quilómetros de Turim. — Lá teremos ocasião para te observar, enquanto tu pensas melhor se desejas mesmo ficar com D. Bosco. — Ficar com D. Bosco? Não quero de modo nenhum – responde imediatamente Miguel. A minha intenção é fazer os estudos e depois regressar à diocese e acabar os meus dias na minha terra. Diante desta simpática e sincera franqueza, D. Bosco sorriu. Um sinal demonstrativo Miguel Únia iniciou o caminho com os exercícios espirituais em Lanzo. «Um dia encontrei-me quase só com D. Bosco. Perguntou-me o que tinha intenção de fazer quando terminasse a escola. — Eu sempre tive um só objectivo: chegar a ser sacerdote da minha pequena terra. — E se o Senhor te quisesse para um


campo maior? – Replicou D. Bosco. — Se o demonstrar, nunca me oporia a fazer a sua vontade. — Queres um sinal? – Perguntou D. Bosco. – E qual seria? – Retorqui eu. — Se Deus me revelasse o teu pensamento e eu to dissesse aqui e agora, reconhecerias nisso um sinal de que Ele te quer comigo? Olhei fixamente os olhos de D. Bosco, tentando deduzir se aquele padre falava a sério ou a brincar. Depois de alguns instantes, aceitei a proposta de D. Bosco e pedi-lhe que me dissesse o que via na minha consciência. — Deves fazer a confissão, não é? Pois bem, vou fazê-la eu toda, inteira, sem que tenhas que dizer-me uma palavra. D. Bosco começou a dizer-me todo o meu passado, com total precisão e exactidão. Dizia-me o número, a espécie e a malícia de cada pecado. Fiquei pasmado, sem reacção.». Miguel fica maravilhado com o modo como o Senhor iluminou aquele sacerdote. «Desde esse momento eu pertencia moralmente à Congregação de D. Bosco. Ele queria-me e já não me podia opor a cumprir a vontade de Deus, que se me tinha manifestado com tanta clareza (MBe XV, 490-491). Terminados os exercícios espirituais, D. Bosco enviou Miguel para Sampierdarena (Génova), onde estudavam os «Filhos de Maria». Ali Miguel encontrou-se com muitos outros jovens que, como ele, responderam já em idade avançada ao chamamento do Senhor. Miguel começou a estudar, mas estava sempre disposto a deitar mão aos trabalhos manuais que a casa requeria. Por vezes ficava com os alunos mais jovens para os animar no seu caminho. No princípio, a escola revelava-se difícil para Miguel. Depois de ter passado

vários anos sem estudar, dedicado apenas aos trabalhos do campo, perdeu o hábito do estudo. Apesar de tudo, com a entrega e com a oração, o jovem terminou os três anos de estudos. Em 1881 passou para o noviciado de San Benigno. Durante os estudos, ao aproximar-se a ordenação, os seus superiores julgaram-no apto. Miguel, pelo contrário, tinha as suas dúvidas: — Talvez não tenha estudado o suficiente… Talvez não seja digno. Tenho uma mentalidade demasiado profana. D. Bosco rebateu essas afirmações: — Estudarás, não te faltará tempo. Porque dizes que és demasiado profano? Não te preocupes. Deixa esse pensamento com o teu confessor? Que diz o teu confessor? Miguel olhou para D. Bosco sorrindo e depois respondeu: — Confessor! Confessor! Como quer que pergunte ao meu confessor se é você? — Pois bem, faz o que te diz o teu confessor e estarás bem. — Que posso fazer para refutar? Direi somente uma palavra: obedeço – respondeu Miguel. — Pois essa palavra basta-me. Olha em frente e não te inquietes – concluiu D. Bosco. Em 1882, Miguel recebe a ordenação sacerdotal. É logo enviado para diversas casas como administrador. Para l á do Oceano Em 1889, o Papa Leão XIII confiou aos salesianos uma missão na Colômbia. Entre os muitos voluntários que pediram para ir para a América, estava também Miguel Únia. Deixou a casa de San Benigno e embarcou com destino à Colômbia. Era o dia 1 de Dezembro de


1889. Em Bogotá fundou as primeiras escolas profissionais. Foi nomeado director da missão. Depois de um ano e meio, foi chamado para assistir, material e espiritualmente, os muitos leprosos que vivem na Colômbia. O padre Miguel Rua autorizou-o. Com a ajuda de algumas religiosas, o padre Miguel Únia começou então o trabalho imediatamente e construiu também um lar para crianças, recolheu os fundos para construir um novo hospital, mandou construir um aqueduto para a água potável. Nas

cerimónias religiosas introduziu o canto e a música com instrumentos, elementos que ajudavam os leprosos a recuperar um pouco a confiança e a esperança. Em 1893 ficou doente. Dois anos depois viu-se obrigado a regressar a Itália definitivamente. Morreu a 9 de Novembro de 1895. Em todo o mundo, o padre Miguel Únia é considerado o segundo grande apóstolo dos leprosos, depois do belga Damián de Veuster.

REFLEXÃO Vastos horizontes Quando D. Bosco propôs a Miguel Únia que estudasse e se formasse em Valdocco, o jovem ficou surpreendido: «Ficar com D. Bosco? Não quero. A minha intenção é fazer os estudos primários e depois regressar à minha diocese e acabar os meus dias na minha pequena terra. Tive sempre um só objectivo: ser o pároco da minha aldeia». Mas D. Bosco rebateu-o, habituado aos grandes projectos: «E se o Senhor quiser para ti um campo mais vasto?». Coisa bem distinta da tua aldeia… O padre Miguel irá em missão para a Colômbia, onde fundará várias escolas e um hospital para os leprosos, abandonados por todos, e para eles construirá até um aqueduto. Os jovens são capazes de grandes coisas. Mas por vezes são travados um pouco pela família, por experiências negativas, pela presença de pessoas que «voam baixo», por falta de modelos. Cabe aos educadores a tarefa de apresentar aos jovens horizontes mais amplos do que os que limitam o seu mundo quotidiano, ajudá-los a olhar mais além da soleira da sua casa. Há que oferecer-lhes modelos válidos, em vez daqueles que lhes são apresentados por alguns programas de televisão. Os educadores devem atrever-se a dizer-lhes com toda a clareza que os futebolistas e as bailarinas de certos espectáculos não são o máximo realizável para um ser humano, que existem muitas profissões com menos notoriedade, com menos dinheiro, mas que realizam o homem e a mulher como filhos de Deus e colaboradores da sua criação.


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