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UM PRESENTE PARA UM SACERDOTE Encontro de D. Bosco com Francisco Piccollo «Ao sair da igreja, davam-nos para o pequeno-almoço um pão sem acompanhamento, e por vezes esse pão estava tão duro que tínhamos que humedece-lo em água, que tirávamos da bomba do poço. Ao meio-dia tínhamos sopa à descrição, em grandes tigelas de estanho; aos Domingos por vezes ofereciam-nos um pouco de carne e fruta; nas festas grandes, um copo de vinho. À noite, sopa e fruta. Não é que se passasse fome, não. Estava D. Bosco e isso bastava. Vivíamos do afecto, respirava-se numa região de ideias esplêndidas que nos enchiam de alegria e não pensávamos noutra coisa» (Giorgio Serié, Profili e racconti). Estamos no Oratório de Valdocco (Turim), por volta de 1873. Mas, quem conta estes pormenores da vida quotidiana? Porque era tão entusiasta de D. Bosco? Agosto de 1872. Entra no Oratório de Valdocco um rapaz chamado Francisco Piccollo. Tem apenas 11 anos e um temperamento vivaço que lhe cria dificuldades para se adaptar à vida de aluno interno. Por esses dias D. Bosco não estava em casa: estava em San Ignacio a fazer exercícios espirituais. Na ausência de D. Bosco, Francisco trava amizade com o padre Pedro Racca, assistente e catequista do Oratório. Regressando D. Bosco, o padre Racca apresentou-o ao novo aluno. Mas Francisco, que era tímido, escondeu-se atrás do padre Racca. Sorrindo e com absoluta calma, disse-lhe D. Bosco: - Meu querido, tens medo de mim? Então continua com o padre Racca, que não me incomoda (MB X, 932). Depois de alguns meses, o padre Racca é transferido para a casa salesiana de Sampierdarena (Génova) para descansar. Francisco Piccollo sofre muito com esta separação, por vezes chega a chorar. D. Bosco dá-se conta e oferece-lhe a possibilidade de ir ter com o padre Racca a Sampierdarena, se o desejar. Francisco pensa na proposta por alguns dias; entretanto, fica mais tranquilo. Por fim decide-se a ficar por Turim com D. Bosco. Fá-lo com gosto, está feliz


com a sua opção, e não se arrependerá. O pagamento da mensalidade Enquanto frequenta a terceira classe, Francisco experimenta a bondade e o afecto de D. Bosco. Conta Francisco: «Um dia veio visitar-me a minha boa mãe. Faloume durante o recreio, depois do almoço. Entre outras coisas confiou-me a sua tristeza: tinha pedido ao padre Bologna, o ecónomo da casa, que tivesse um pouco de paciência relativamente à mensalidade que se devia pagar, prometendo pagá-la depois de vender o vinho; mas o padre Bologna tinha-lhe respondido: «Se não for paga, o seu filho será expulso». Quando acabou de contar o sucedido, a mãe de Francisco começou a chorar. Mas o filho não podia permanecer ao lado da mãe porque tinha soado a campainha que chamava todos os rapazes para a aula. Com esta comoção, Francisco voltou para a aula. Terminadas as aulas, o rapaz ouve o porteiro que o chama: a mãe ainda não se foi embora, e quer voltar a ver o seu filho. «Corri para a portaria e encontrei a minha mãe toda alegre e triunfante, como se tivesse conseguido uma vitória; queria voltar a ver-me, e disse-me: - Olha, Chico, agora já não choro; alegra-te tu também, porque fui falar com D. Bosco, e ele disse-me: - Olhe, boa senhora, não chore; diga ao seu filho que se o padre Bologna lhe fechar a portaria, que entre pela igreja; D. Bosco nunca o expulsará.» (MB X, 932). Pouco tempo depois, o padre Bologna mandou chamar o Francisco. O pobrezito, amedrontado, foi bater à porta de D. Bosco: - Avance! És tu? Muito bem. Quantos meses deve a tua mãe? Francisco recorda: «Com uma delicadeza infinita, D. Bosco passou o recibo do ano todo, colocando por baixo a sua assinatura. Ninguém se apercebeu da sua generosidade, nem sequer o ecónomo. Fiquei tão comovido, tão afeiçoado a D. Bosco, que é impossível descrevê-lo, mais

pelo modo como que ele me tinha ajudado do que pela acção caritativa em si mesma» (Profili e racconti). Dois pãezinhos e um confessionário Este gesto fez crescer em Francisco Piccollo um afecto filial para com D. Bosco, que se expressava também no desejo de não o fazer sofrer, como no episódio que se segue. No Oratório a comida era suficiente, como afirma Francisco no início, mas para alguns rapazes não chegava. Para o lanche havia um pão fresco para cada. Os fornos estavam debaixo da Basílica de Maria Auxiliadora. Durante o recreio, depois do almoço, os rapazes iam para junto dos respiradores para respirar o aroma do pão recém-cozido no forno. Logo depois, alguns ajudantes saíam trazendo grandes cestos de vime cheios de pães, para os distribuir aos rapazes. Conta Francisco: «Uma tarde vi como alguns rapazes se preparavam para roubar às escondidas alguns pães. Também eu me deixei tentar pela gula e, aproveitando uma distracção dos que levavam os cestos, agarrei alguns pães e fugi pelo pórtico ao mesmo tempo que os comia com avidez». Mas depois veio o remorso: «roubaste; amanhã vais comungar. Deves confessar-te!». Mas havia um problema: o confessor do Oratório era D. Bosco. E Francisco sabe o quanto D. Bosco detestava os roubos. Que fazer? «Não tanto pela vergonha, mas para não dar desgosto a D. Bosco, escapei-me pela porta da igreja e fui à Consolata [Santuário de Turim, pouco distante de Valdocco]». Francisco entrou na igreja, que se encontrava na penumbra, escolheu o confessionário mais escondido, com a rede mais densa, para não ser reconhecido por ninguém. Aproximou-se, ajoelhou-se, fez o sinal da cruz e começou a sua confissão: - Vim aqui confessar-me porque estou com vergonha de me ir confessar a D. Bosco. - Fala sem medo; D. Bosco não saberá de nada – responde o sacerdote sentado atrás


da rede. Bastaram estas poucas palavras para sobressaltar Francisco: é a voz de D. Bosco! Como é possível? Não tinha ficado no Oratório? Francisco suava frio…; não conseguia compreender como é que D. Bosco se encontrava precisamente ali; na sua mente agitaram-se muitos pensamentos. Qual seria a explicação? É muito simples: D. Bosco tinha sido convidado para confessar no Santuário da Consolata, como sucedia há já algum tempo, e Francisco encontrou-se precisamente com ele. - Fala, fala, querido filho. Que se passou? – Insiste D. Bosco perante o silêncio repentino do rapaz. Francisco tremia como uma folha. Mas ganhou coragem e começou: - Roubei alguns pães. - E fizeram-te mal? - Não. - Então não chores. Tinhas fome? - Sim. - Fome de pão e sede de água, são boa fome e boa sede! Olha: quando precisares de alguma coisa pede-a a D. Bosco. Dar-teá todo o pão que quiseres, mas recorda bem: D. Bosco prefere que tenhas confiança para seres sincero, do que pensar que és inocente. Tantas atenções dedicadas por D. Bosco a Francisco e aos outros rapazes faziam crescer um desejo naquele rapaz. Gostaria de dar-lhe um presente 1873. Francisco frequenta a segunda classe. Um dia, durante o recreio no pátio,

enquanto os seus companheiros se divertiam, correndo uns atrás dos outros, Francisco permanecia afastado com ar pensativo, parecia inquieto, com se estivesse a pensar em algo muito importante. D. Bosco, que andava por ali, deu-se conta, aproximou-se e perguntou: - É verdade que me querias dizer algo? - Sim, D. Bosco, adivinhou! – Respondeu rapidamente Francisco. - E que querias dizer-me? - Mas… não queria que os outros ouvissem. Dito isto, agarra D. Bosco por um braço e leva-o à parte. Depois, em voz baixa, sussurra-lhe: - Gostaria de dar-lhe um presente que vai gostar. - E que presente me queres dar? – pergunta D. Bosco em tom curioso. - Queria dar-me a mim mesmo, para que de agora em diante faça de mim o que queira e me tenha sempre consigo. - Verdadeiramente não podias dar-me um presente mais agradável – exclama D. Bosco. - Aceito-o, mas não para mim, mas para te oferecer e consagrar ao Senhor (MB X, 100). Em 1883 Francisco Picollo foi ordenado sacerdote. Iniciou a sua missão salesiana, primeiro em Ariccia (Roma) e depois na Sicília, onde permaneceu durante quase 30 anos como professor e director em Catania e em San Gregorio. De 1901 a 1907 foi provincial da Província Sícula. Dedicou-se às vocações. Os últimos anos da sua vida foram marcados por graves problemas de saúde, mas não ofuscaram o seu bom humor nem reduziram o amor pela sua missão.

REFLEXÃO Um afecto paterno que os deixa livres «Olha, querido, tens medo de mim?», pergunta D. Bosco ao jovenzito Francisco Piccollo. Este, ao ver pela primeira vez D. Bosco, tinha-se escondido por detrás do padre Pedro Racca, o salesiano com quem Francisco tinha travado amizade, na ausência de D. Bosco. «Então continua com o padre Racca, disse D. Bosco, que a mim não me incomoda.» E quando o padre


Racca foi transferido para Génova por motivos de saúde, D. Bosco ofereceu a Francisco, entristecido por esta separação, a possibilidade de o seguir até à Ligúria. Também neste como noutros casos é claro e evidente como o afecto paterno de D. Bosco deixava os rapazes livres para decidir sobre o seu futuro. O verdadeiro amor deixa livre a pessoa amada. Para verificar se a nossa acção educativa respeita o jovem, perguntemo-nos como nos sentimos quando os nossos destinatários tomam opções diferentes das que lhes propomos. Sentimo-nos fracassados? A um jovem que deve começar os estudos secundários, limitamo-nos a colocar diante dele as opções possíveis e as profissões correspondentes, ou procuramos orientá-lo para o tipo de estudos que nós mesmos queremos que escolha. Propomos-lhe que vá à missa ao Domingo ou obrigamo-lo a ir à igreja connosco? Estamos convencidos que a educação é sempre uma proposta feita a uma pessoa jovem que permanece livre para a aceitar ou rejeitar? A educação nunca deve ser coercitiva. Aconselhar, indicar, oferecer uma ajuda, sugerir um caminho. Mas cabe ao jovem decidir; ele é o protagonista do seu próprio crescimento.


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