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Um rapaz do MONFERRATO Encontro de D. Bosco com Filipe Rinaldi Era Outono. Pelos caminhos campestres, entre as colinas e vinhedos do Monferrato (província de Alessandria, norte de Itália), grupos de rapazes caminhavam cantando, tocando os tambores, falando alto em grupo e com os parceiros do lado. Os párocos dos arredores e as autoridades civis acorriam à sua passagem. As pessoas abriam as janelas, muitas saíam de casa para ver quem passava, os agricultores deixavam as lides da terra e colocavam-se à beira da estrada para os ver passar, as mães apresentavam os seus filhos ao homem que acompanhava aqueles rapazes e, ajoelhando-se por terra, pediam-lhe a bênção. Quem são estes rapazes? Quem os acompanha? Porque vão tão alegres pelo Monferrato? Estávamos por volta de 1850. Por ocasião da festa da Virgem do Rosário, todos os anos D. Bosco levava os seus rapazes em passeio até aos Becchi (Castelnuovo di Asti). No princípio os rapazes eram só uns 20. Em 1858 são já às centenas. «Nos primeiros dias de Outubro saía do Oratório a multidão de cantores e de músicos com outros alunos. Cada um levava um saco com roupa interior para se mudar durante as férias, algumas sandes, um pouco de queijo e fruta». A recordação é de Lemoyne. Até 1858 a meta do passeio foi os Becchi: saída pela manhã cedo e regresso pela tarde. A partir do ano seguinte, os passeios são autênticos «itinerários» através das colinas do Monferrato. Um menino de cinco anos D. Bosco preparava a viagem avisando com antecedência os párocos e os benfeitores que encontraria ao longo do caminho, recomendando-lhes que preparassem um bom acolhimento para os seus rapazes, pois chegariam cansados e com fome. Estes passeios eram organizados para conseguir divertir os rapazes e colocá-los em contacto com a natureza, para conhecer e dar-se a conhecer pelas pessoas a quem D. Bosco encontraria nas terras por onde passasse, para comunicar a estas pessoas uma boa palavra, a


do Senhor. Em 1861, durante um passeio, D. Bosco e os seus rapazes chegaram a Lu Monferrato. Entre as várias casas onde se detêm para saudar as pessoas, havia uma com o pai, a mãe e nove filhos, todos alinhados uns ao lado dos outros. Era a família Rinaldi. Entre os filhos estava também Filipe, um menino de cinco anos que olhava encantado para aquele padre que dirige a banda de música. Meia hora depois, D. Bosco passou de novo em frente àquela casa e deteve-se a falar com Cristóbal Rinaldi, o pai daquelas nove crianças. O padre de Valdocco necessitava de uma carroça puxada por um cavalo para chegar quanto antes a uma terra perto de Lu. Cristóbal ficou muito contente por puder emprestá-la àquele padre que atraía sobre si a atenção de tanta gente. Naquele padre forasteiro, o senhor Rinaldi notou algo de especial. Passará a saber mais coisas através dos seus conterrâneos. Naquela altura, D. Bosco já era muito conhecido em Turim, inclusivamente no Piemonte, sobretudo na região de Asti e no Monferrato. Em 1859 constituiu a Sociedade de São Francisco de Sales. Agora desejava estendê-la às dioceses piemontesas, e procurava rapazes e jovens que quisessem segui-lo e ajudá-lo na sua missão. Entretanto, os olhares de D. Bosco e do pequeno Filipe entrecruzam-se: é o primeiro encontro de uma longa série. Entretanto D. Bosco regressou a Turim. Filipe cresceu sereno, reflexivo e inteligente. O pai enviou-o para o colégio São Carlos, o Pequeno Seminário, aberto por D. Bosco em 1863 em Mirabello, a poucos quilómetros de Lu Monferrato. Estávamos em Outubro de 1866. Na direcção desse Colégio estava um professor, clérigo, chamado Paulo Albera. Muitos anos depois escreverá Filipe: «Para mim o padre Albera foi um anjo da guarda. Era o encarregado de me acompanhar e fazia-o com tanta caridade que ainda fico admirado cada vez que penso nele. Protegia-me das companhias perigosas, aconselhava-me, consolava-me com a narração de historietas, e fazia passar as horas do recreio num abrir e fechar de olhos. Mas, mais do que palavras, ressoava no meu coração a sua atitude modesta, piedosa, religiosa» (E. Ceria, Vita del Servo di Dio sac. Filippo Rinaldi). Também D. Bosco seguia o andamento do Pequeno Seminário e a trajectória dos seus jovens estudantes: visitava Mirabello com certa frequência. Durante a permanência de Filipe, D. Bosco fez duas visitas e encontrou arranjou tempo para falar também com este rapaz. Já idoso, escreverá Filipe Rinaldi: «recordo como se fosse agora mesmo a primeira vez que tive a sorte de me aproximar de D. Bosco na minha juventude. Tinha pouco mais de 10 anos. O bom padre estava no refeitório depois da refeição, sentado à mesa. Informou-se da minha história, falou-me com grande amabilidade; perguntou-me se queria ser seu amigo. E, como que procurando uma prova de reciprocidade, anuiu para que no dia seguinte me fosse confessar com ele». Mas na trajectória de Filipe há também um assistente com um modo de actuação grosseiro. A sua atitude ofende repetidamente Filipe, que o suporta durante algum tempo, mas um dia, depois de receber a enésima ofensa, apresenta-se ao director do seminário e pede-lhe para voltar para casa. Ninguém o consegue convencer para que fique. As orações de uma mãe Algum tempo depois, D. Bosco visitou o seminário e tomou conhecimento que Filipe regressou a sua casa. Ficou com pena, mas não se resignou em dar Filipe por perdido. Escreveu-lhe várias cartas convidando-o a regressar à casa salesiana. Mas o rapaz, continuando na mesma a ser amigo de D. Bosco, rejeitava porém regressar ao Oratório. Normalmente não respondia às cartas. Só respondeu uma vez, para dizer que o sacerdócio não era para ele. E começou a trabalhar nos campos com o seu pai. Mas D. Bosco não queria perder o contacto com Filipe. Em 1874 foi vê-lo outra vez, em Lu.


Felipe tinha 18 anos. Enquanto o sacerdote e o rapaz falavam, alguém bateu à porta da casa Rinaldi: era uma mulher doente, que caminhava com a ajuda de muletas. Estava ali porque soube que tinha chegado D. Bosco, e suplicou-lhe que a curasse. D. Bosco deu-lhe a bênção de Maria Auxiliadora. E a mulher, doente até àquele momento, abandonou as muletas e começou a caminhar sem nenhum apoio. Filipe assistiu ao milagre; ficou impressionado. Mas nem sequer isso bastou para convencê-lo a seguir D. Bosco. Pelo contrário, nos meses seguintes abandonou as práticas religiosas, passou a ter amizades perigosas, e até entrou em choque com o pároco. Esta insistência de D. Bosco não correspondia ao modo habitual de se comportar. Mas neste caso o padre de Valdocco conheceu bem o Filipe e comprovou que valia a pena insistir para fazê-lo regressar ao seminário, e inclusivamente para chegar mais longe. Um domingo, enquanto soavam os sinos da igreja convidando os fiéis a reunirem-se para as tarefas sagradas, Filipe, mesmo depois de as ouvir, não se moveu e ficou na rua com alguns amigos. A mãe ao vê-lo, olhou para ele durante algum tempo, como que a recordar-lhe os seus deveres; depois regressou a casa. Filipe seguiu-a; encontrou-a ajoelhada diante de uma imagem de São José: estava a rezar pelo seu Filipe. O rapaz ficou profundamente impressionado. Saiu de casa e foi até à igreja. Dirá mais tarde: «As lágrimas da minha mãe salvaram-me». Dois anos depois D. Bosco procurou novamente o Filipe. Durante uma larga conversa, o rapaz expões ao sacerdote as suas dificuldades. E que faz D. Bosco? Alguns anos mais tarde escreverá Filipe: «Tinha respondido a todas as minhas objecções, e tinha-me ganho pouco a pouco. Superando-me a mim mesmo, já não tinha nenhuma dificuldade que superar. Os meus pais deixaram-me livre, e a minha eleição recaiu sobre D. Bosco». «Tu ficarás aqui» Novembro de 1877. Filipe Rinaldi, que tinha nessa altura 21 anos, deixou Lu e mudou-se para Sampierdarena, onde D. Bosco tinha aberto uma casa salesiana para as vocações adultas. O director da casa era o padre Albera, precisamente aquele salesiano que para Filipe tinha sido «um anjo da guarda» no seminário de Mirabello. Comprovada a maturidade de Filipe, D. Bosco acelera o caminho dos estudos do jovem, que em 1882 é ordenado sacerdote. Em 1889 é enviado para Espanha, como director da casa de Sarria (Barcelona). Três anos depois torna-se no primeiro superior [provincial] de toda a obra de D. Bosco em Espanha e Portugal, nações em que abre 19 casas, ao longo de em nove anos. Durante este período destaca-se pela sua humildade, pela sua profunda humanidade e capacidade organizadora. Chamado a Valdocco como perfeito [ecónomo] geral da Congregação, durante muitos anos ocupa-se também do Oratório festivo de Maria Auxiliadora. Encarrega-se depois simultaneamente do desenvolvimento dos Oratórios festivos dos Salesianos e das Filhas de Maria Auxiliadora. Trabalha também em favor da Federação de Antigos Alunos e Antigas Alunas, da Associação dos Cooperadores Salesianos e das futuras Voluntárias de D. Bosco. Em 1922, depois da morte do padre Álbera, o padre Rinaldi é eleito Reitor Maior da Congregação salesiana. D. Bosco já o tinha predito. Um dia, ao pedido do padre Rinaldi para partir para as missões da América, D. Bosco respondeu-lhe: «Tu ficarás aqui. Para as missões mandarás outros». E, com efeito, durante o seu reitorado enviará os primeiros salesianos para a Checoslováquia, Holanda, Suécia, Guatemala, Austrália e Marrocos. O mesmo é dizer, para todo o mundo, fundando 250 novas casas salesianas. Morreu em Turim em 1931. Em 1990 foi declarado beato. O padre Francesia disse sobre ele: «ao padre Rinaldi, de D. Bosco só lhe falta a voz, de resto tem tudo».


REFLEXÃO A perseverança Quando D. Bosco se apercebeu que Filipe Rinaldi deixou o seminário e que regressou a Lu, à casa dos seus pais, iniciou uma constante e paciente obra de recuperação. Escreveu-lhe várias vezes em vão, e não desanimou diante da resposta do rapaz: «o sacerdócio não é para mim». D. Bosco foi procurá-lo várias vezes a casa, mesmo tendo outros compromissos; retomou com ele um diálogo profundo, e, depois de sete anos, Filipe rendeu-se. «D. Bosco tinha respondido a todas as minhas objecções, e tinha-me ganho pouco a pouco. Superando-me a mim mesmo, já não tinha nenhuma dificuldade que superar. Os meus pais deixaram-me livre, e a minha eleição recaiu sobre D. Bosco». Aos olhos de D. Bosco, qualquer rapaz era uma alma que necessitava de ser acompanhada e ajudada a salvar-se. Não se pode dar nenhum jovem por perdido. E Filipe, regressado a casa devido a uma desilusão, corria o risco de se perder porque tinha começado a frequentar amizades perigosas. Tinha-se inclusivamente oposto ao pároco. São muitos os exemplos que demonstram, concretamente, a perseverança de D. Bosco. Basta pensar no seu longo peregrinar antes de encontrar um ambiente, um terreno, onde os rapazes poderiam jogar, até chegar à zona de Valdocco. D. Bosco não desanimou nunca, embora tivesse motivos humanamente justificáveis: sabia que o Senhor não o abandonaria. O encontro entre D. Bosco e Filipe Rinaldi pode ser um estímulo para que padres, educadores e professores reflictam sobre a capacidade de levar por diante no tempo um projecto educativo. Quanta perseverança há na nossa vontade de educar? Por vezes alguém desiste do compromisso educativo quando se dá conta que os jovens que tem diante dele não mudam como desejaria e nos prazos previstos. Desanimamos se na turma um jovem continua a receber más notas apesar do nosso esforço para explicar as matérias que tem de estudar? Rendemo-nos se a sua linguagem é por vezes vulgar, mesmo que tenhamos tentado fazê-lo perder esse mau costume? Tentamos uma mudança de método; por exemplo, vivendo nós mesmos em primeira pessoa o que queremos ver mudado no comportamento dos nossos jovens? Damo-nos conta que «hastear a bandeira branca» na educação significa abandonar o rapaz à sua sorte, com todas as suas consequências lógicas?

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Encontro de D. Bosco com Filipe Rinaldi Um menino de cinco anos As orações de uma mãe «Tu ficarás aqui» A perseverança

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