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UM AMIGO DE DOMINGO SÁVIO Encontro de Dom Bosco com Francisco Cerruti "Se eu tivesse que dizer quem é o melhor entre Domingos Sávio e Francisco Cerruti, não saberia quem escolher. Eles são dois anjos." É uma frase que Dom Bosco disse várias vezes, como conta o Padre João Baptista Francesia. Mas quem foi Francisco Cerruti? O que viu ele em Dom Bosco, nos 23 anos em que viveu com ele? É dia 11 de Novembro de 1856. Um menino de 11 anos atravessa pela primeira vez o portão da casa de Dom Bosco: é Francisco Cerruti. Entra como estudante no Oratório de Valdocco. Ali encontra outros 169 meninos recolhidos como internos. Há pouco tempo que Francisco veio da pequena aldeia de Saluggia (a 40 Km de Vercelli) para a capital do antigo Reino da Sardenha: Turim, uma cidade com mais de 130.000 habitantes que se está a preparar para se tornar a capital do Reino de Itália. Francisco lembra assim os primeiros momentos: "Dos cuidados de uma mãe muito carinhosa, que conduziu durante 30 anos os meus passos no caminho da vida e que agora me acompanha a partir do Paraíso, a Divina Providência levou-me para os braços de um segundo pai, Dom Bosco. Ao primeiro, o meu papá, perdi-o antes de fazer 3 anos. Uma grande impressão Logo que Dom Bosco acolheu o Francisco, ele sentiu-se um pouco perdido nos primeiros dia no Oratório. Mas logo se aproximou dele um rapaz com desejo de acompanhá-lo e ajudá-lo a superar a timidez e a nostalgia da sua mãe: é Domingos Sávio. Entre os dois nasce uma bela amizade, que infelizmente durará pouco: cinco meses, que é o que resta de vida a Domingos. Francisco continua a sua vida no Oratório. Agora encontra-se bem, mas o pensamento e os sentimentos voam frequentemente para a sua mãe. Sobretudo na parte da tarde, quando o sol

se põe e o céu começa a escurecer: "Às cinco da tarde, quando chegava à sala de estudo com os meus colegas, a primeira coisa que fazia era falar um pouco com a minha mãe, dizendo muitas coisas por escrito, no mesmo livro dos deveres. Depositava nela, como se ela estivesse ali presente, tudo o que me ia no coração. Depois, secadas as lágrimas, punha-me a trabalhar no mesmo caderno, que servia, assim, tanto para aliviar o meu coração como para os deveres. E esta música... ainda durou bastante tempo. Impressionou-me muito ver Dom Bosco. Parecia-me que encontrava nele algo mais do que nos outros sacerdotes. A minha convicção era a de muitos outros colegas meus, ou seja, que Dom Bosco era


uma pessoa extraordinária e santa [...]. Admirava a sua humildade ao escolher como objecto especial dos seus cuidados, entre as crianças do oratório festivo, os mais pobres, ásperos, sem educação familiar, sujos e cheios de insectos." Francisco experimenta a sensação mais forte quando, ao ir confessar-se, vê Dom Bosco rodeado por muitos desses meninos, um dos quais cheirava horrivelmente: "Parecia que ele tinha um gosto especial em estar no meio deles". O «líder dos vadios de Turim» Nos dias festivos (Domingos e dias santos), Dom Bosco reúne em seu redor centenas de jovens turbulentos e indisciplinados. Gradualmente, educa-os para fazer deles "bons cristãos e honestos cidadãos”. Francisco conta que Dom Bosco gostava de ser chamado "o chefe dos vadios de Turim”. Atraía-os ao Oratório, onde quer que os encontrasse, com a sua bondade. E, com as aulas ao final da tarde, as diversões, a música, o teatro, os doces e truques de magia e habilidades que ele mesmo fazia, conduzia-os à amizade com o Senhor, à Confissão e à Comunhão. Para as confissões estava sempre pronto. Nunca parecia cansado ou aborrecido. Dom Bosco educava os seus jovens, especialmente para amar a Deus, mas não só: "A oração estava em primeiro lugar. Mas com a oração, o trabalho. Quem não trabalha não tem direito de comer", lembra Francisco. Para conhecer bem um jovem, Dom Bosco não precisava de o ouvir em confissão. Um dia, no ano escolar de 1856-1857 o pequeno Francisco (tem apenas 13 anos) aproxima-se do seu «segundo pai» com alguns amigos. Cada um daqueles rapazes pergunta a Dom Bosco algo de si mesmos. «E um - conta Francisco – diz-lhe com um tom de desafio: "Dom Bosco, nunca conhecerá o meu interior." Em seguida, Dom Bosco aproxima-se do rapaz e sussurra ao seu ouvido algumas palavras. O jovem levanta a cabeça, fica vermelho de vergonha e para espanto de todos confessa

aos presentes: "Adivinhou. É algo que eu nunca disse, nem mesmo em confissão!".» De onde procediam estes dons excepcionais? Dom Bosco colocava um empenho especial em manter os seus jovens na virtude da pureza. Recorda Cerruti: "Era muito severo com aqueles que davam escândalo com palavras ou acções. Afastava-os embora com grande prudência e caridade, mas inexoravelmente [...]. Estou profundamente convencido - disse o P. Francisco - de que era este o segredo da sua grandeza: Deus encheu Dom Bosco com dons extraordinários e valia-se dele para trabalhos extraordinários, porque permaneceu sempre puro e casto". Aceitar Dom Bosco quer dizer... Francisco não era um rapaz para ser afastado. Longe disso. Em Dezembro de 1859 está entre os 17 que constituem o primeiro núcleo da Congregação Salesiana. E é um dos quatro primeiros Salesianos enviados por Dom Bosco para a Universidade de Turim. Em 1865, o P. Francisco fica gravemente doente com pneumonia. Mas Dom Bosco tranquiliza-o, garantindo-lhe que ainda não tinha chegado a sua hora. Com efeito, cura-se milagrosamente. E retoma a sua actividade. Dom Bosco pediu ao P. Francisco que elaborasse um dicionário da língua italiana que teve muito sucesso nas escolas. Em 1870, a Congregação abriu um novo colégio em Alassio (província de Savona) e Dom Bosco nomeia Dom Francisco Cerruti como director. Tem apenas 26 anos. Quinze anos depois, em 1885, Dom Bosco nomeou-o Conselheiro Escolar Geral. O P. Cerruti tem 41 anos, e já se destaca pela sua capacidade organizativa. Dom Bosco conta assim com ele para lançar as bases culturais da jovem Congregação. Dele dirá: "Como o P. Cerruti, Deus enviou-nos apenas um, infelizmente. Após a morte de Dom Bosco, Dom Cerruti


continuou a recordar aos salesianos que o seu “segundo pai” temia a educação "pagã" que já se estava a espalhar na escola daqueles tempos. E concluiu

dizendo: "Aceitar Dom Bosco significa compreender os seus desejos e traduzir na prática as suas intenções e as suas ideias."

REFLEXÃO O Sacramento da Reconciliação "Para as confissões estava sempre pronto. Nunca parecia cansado ou aborrecido", recorda Francisco Cerruti. A importância que Dom Bosco dá ao sacramento da Reconciliação é evidente em quase todos os encontros apresentados neste livro. Quando Dom Bosco encontra um jovem e começa a conhecê-lo, uma das primeiras propostas que lhe faz é o de confessarse. A administração do sacramento da reconciliação tem uma clara finalidade pedagógica; é um acontecimento de graça, pois permite realizar a direcção espiritual do jovem, e ajudá-lo a curar-se da corrupção do pecado. Este sacramento permite ao jovem virar uma página na própria vida e a Dom Bosco aprender mais sobre o adolescente que tem na sua frente. Os ensinamentos de Dom Bosco sobre a Reconciliação têm como objectivo suscitar no jovem a repugnância diante do pecado, tornando clara "a fealdade do pecado”, até defini-lo como "o maior inimigo dos jovens" ("Carta aos artesãos do Oratório", 20 de Janeiro de 1874). "Oh, como são desgraçados aqueles que caem no pecado! Mas como são mais infelizes ainda os que vivem em pecado." Em contraste com a fealdade do pecado, Dom Bosco exalta "a beleza da virtude", prega a misericórdia e o perdão de Deus. E insiste para que o jovem escolha um confessor, a quem se dirige normalmente: "Até que tenhais um confessor estável, em quem colocar toda a confiança, faltar-vos-á sempre o amigo da alma" (J. Bosco, Miguel Magone). Mas porquê um confessor estável? Segundo Dom Bosco, favorece a perfeição e a sinceridade da confissão dos pecados, uma contrição adequada, e propósitos claros para não cair nos mesmos pecados. Dirigir-se sempre a um mesmo confessor permite ao jovem ter um sacerdote que tem o quadro completo da sua vida moral e do caminho feito e que, portanto, pode ajudá-lo a desenvolver a própria vocação. E ao confessor dá algumas sugestões para facilitar a confiança com o jovem: recebê-lo com carinho, ajudá-lo a confessar os pecados, corrigi-lo com delicadeza e bondade, ser prudente e reservado no que se refere à castidade.


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