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CIRCUITO

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O que pode o corpo? A pergunta feita por um filósofo francês contemporâneo, Gilles Deleuze, a partir dos escritos de um outro filósofo do século XVII, Spinoza, nos provoca em direção ao que não conhecemos, ou esquecemos, ou ignoramos: a vitalidade do corpo. Mesmo que por um instante, não mais que isso, pede-se licença à razão para o retorno às sensações e às vibrações corpóreas. Sim, o corpo vibra... i-n-i-n-t-e-r-r-u-p-t-a-m-e-n-t-e. Mesmo esgotados pelo exercício diário em assegurar projetos socialmente e economicamente viáveis de vida, o corpo vibra ávido aguardando um canal de experimentação, de conexão com aquilo que cause furor, cuja magnitude pode nos deslocar para territórios de existência inimagináveis. Indaga-se sobre as potências de nossas vidas como ato criativo. Tais potências, avassaladoras, transformadoras, evidenciam os riscos de sua intensidade transgressora das viabilidades racionais, quando, por exemplo, nos confrontamos com as retaliações de pequenos fascismos cotidianos. Ao mesmo tempo em que o mundo experimenta de forma inédita a força do corpo performático, propulsor de rupturas, se confronta com valores agarrados às fronteiras da moralidade. Forças ativas e reativas coexistem no paradoxal instante de cada encontro, permeiam as relações, atravessam a existência. Nos desafia a elaborar estratégias que permitam o encontro com a vida criativa e nos defrontam com as conformidades da inércia. A Revista Circuito faz sua estratégia. Permite-se atravessar. Desenha, a cada edição, este circuito de expressões artísticas, a partir das obras que recebemos, sem prévia delimitação temática. Nesta dança do acaso, na multiplicidade do espontâneo, o corpo agora se coloca em evidência. No sexto número da Revista Circuito, a boca vazante transborda contra os consentimentos. Nosso Dom Juan veste saias, enquanto objetos são subvertidos de sua tradicional utilidade pelos vícios que não se rendem ao ideário do corpo produtivo. A vida brota do corpo desde sua espinha dorsal, rasga a epiderme, recorta-o, realoca com o outro em fragmentos que se movimentam como dança harmônica flertando com o caos. Deixa também seu recado sobre os maus encontros com forças reativas, registrada na fatalidade de um bilhete que denuncia as violências das normatividades. No desvario da arte, o corpo desafia as leis mais inquestionáveis da física como a gravidade. Transmuta suas dores em levezas, cria asas, devêm pássaro e faz emergir os afetos mais surpreendentes. O corpo, no encontro com a arte, expande-se, conecta-se com a rua, com o público, com quem se interessa e também com os desavisados. Carrega consigo um matulão aberto, mais que isto, rasgado, vazando intensidades múltiplas e travessas. Com a alegria dos brincantes, mobiliza, se agita, pulsa, reinventa, cria realidades em fragmentos. Agradecemos aos que, por meio de sua arte, apostaram seus corpos vibrantes nesta edição. Pois a arte, sobre o tenso, vibra!

E D I T O R I A L

Capa

Exposição Bem das Artes

Contra-Capa

Edição #06

Diego Bueno

Dezembro 2017

Conselho Editorial Carlos H. Andreassa do Amaral Eder Capobianco Maria Cristina Bigeli Priscila Sales Ricardo Abussafy

Editores Responsáveis Carlos H. Andreassa do Amaral Priscila Sales Ricardo Abussafy

Projeto Gráfico Carlos H. Andreassa do Amaral

Assessoria Contábil e Fiscal Rosana Ambrosim

Revisor Eder Capobianco

Colaboradores desta Edição ALEX PORTUGHEIS BÁRBARA FRASSON DOS REIS CARLOS H. ANDREASSA DO AMARAL CÉLIA REGINA DE OLIVEIRA DIEGO BUENO EDER CAPOBIANCO EDMARCIA REGINA TINTA EXPOSIÇÃO BEM DAS ARTES FERNANDO LUIZ ZANETTI JOSÉ LUCAS MARTINS DE MORAES LUIZ GUSTAVO ALENCAR PÂMELA MACHADO DE JESUS ROCHA PEDRO HENRIQUE S. D. MARANGONI PRISCILA MIRAZ PRISCILA SALES RICARDO ABUSSAFY ROSANA MARCÍLIO DO N. P. DE FREITA W. VENANCIO DE OLIVEIRA WESLLEY MARQUES DA SILVA

Site da Revista

www.circus.org.br/circuito

Contato revista.circuito@circus.org.br APOIO


DIEGO BUENO 05 CÉLIA REGINA DE OLIVEIRA EDER CAPOBIANCO 06 JOSÉ LUCAS MARTINS DE MORAES 10 EDMARCIA TINTA 11 PÂMELA ROCHA 12 LUIZ GUSTAVO ALENCAR PRISCILA MIRAZ 13 EDER CAPOBIANCO 14 WESLLEY MARQUES DA SILVA 15 PEDRO H. S. D. MARANGONI ROSANA MARCÍLIO DO N. P. DE FREITA 16 BÁRBARA FRASSON DOS REIS 17 FERNANDO ZANETTI 18 W. VENANCIO DE OLIVEIRA 20 RICARDO ABUSSAFY 21 CARLOS H. ANDREASSA DO AMARAL 22 FABRINCANTES E MATULÃO 29 ALEX PORTUGHEIS 30 EXPOSIÇÃO BEM DAS ARTES 04

Choque

A era da reprodutibilidade técnica avançada

Café | Fado

O inverno do pardal

Passarinho morto no meu quarto

Natalis Solis Invicti

Olhos no meio da multidão

Indefinições

Entrevista

El secreto de las rocas americanas


por Diego Bueno

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Felina.

Poesia retirada do livro “Pequenas Histórias Grandes Emoções”, publicado em 2010. Autora: Célia Regina de Oliveira - Pseudônimo: Felina

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A era da reprodutibilidade técnica avançada Por Eder Capobianco

Mirela, Mari, Evandro e Neto estavam ensaiando há semanas. O roteiro era da Mari e do Evandro, e nunca estava fechado. Eles não aceitavam começar a gravar enquanto tudo não estivesse completamente finalizado. Equipe de produção, pós-produção, técnica, tudo definido. Não basta só ter uma super-câmera “D qualquer coisa”, para gravar em HD a beleza de uma pomba cagando em cima de um careca engravatado na Berrini. Tem que ter o som das asas da pomba, tem que ter o barulho da bosta se espatifando na careca lustrosa, dividido em quadros sincronizados com um som angustiante e em ângulos jamais imaginados por Hitchcock. Tem que ter brilho, luz, câmera, ação!

- Vamos fazer um piloto. - E quem vai editar? - Eu e a Renatinha. - Onde? No Movie Maker? Não… - Ela tá com um canal no You Tube…tudo bem, é sobre moda…mas os vídeos são legais, e ela tem mais de mil visualizações em um já…. - Para com isso…..ela que seja feliz, mas a gente quer fazer uma coisa diferente……… - Ela disse que topa, é só pôr o nome dela nos créditos…….e ela divulgaria no canal dela também………a gente faz, se não ficar bom a gente não sobe na net…… - Tudo bem, mas ainda temos o problema do microfone…só com o da câmera não dá…… - Para de colocar dificuldade em tudo……é só um curta de menos de cinco minutos!……vocês dois estão achando o que?……que…que…sei lá……aqui não é o NetFlix! - Calma…… - Um monte de gente grava com uma câmera pior que a nossa, sem microfone, edita no Movie Maker, ou nem edita, e faz umas coisas muito legais……faz quase um mês que a gente esta ensaiando, já temos o figurino, a maquiagem, tudo……vamos fazer! - Tudo bem, a gente faz um piloto no próximo ensaio.


Resumo - Dois caras estão numa mesa de bar no meio da noite. O número um é um taxista (Mari) e o número dois (Evandro) é um jornaleiro. Eles estão tomando suco e comendo um pedaço de bolo enquanto conversam. A balconista (Mirela) fica no fundo mascando um chiclete e fumando um cigarro vendo TV.

{Som de copos tilintando, pessoas conversando, barulho de televisão e carros passando de fundo.} [Câmera em plano médio com os dois sentados na mesa em primeiro plano e a garçonete em segundo plano aparecendo no fundo.]

(Taxista) - “Sei que não temos muita intimidade, mas eu precisava conversar com alguém……é que…sei lá……ultimamente eu tenho visto tanta coisa……me faz pensar…que…sei lá………essa cidade…” (Jornaleiro) - “Acho que estou entendendo o que você quer dizer……um tipo de depressão……todo mundo é feliz menos eu…….algo assim………” (Taxista) - “Não sei……acho que as pesso…” (Jornaleiro) - “O que você precisa é se divertir cara………pega umas minas fáceis, toma um porre, faz uma merdas……aqui é a democracia……curte, se diverte……” (Taxista) - “Esta foi uma das maiores merdas que eu já ouvi…”

CORTA! CORTA!

- Está ficando bom………Mirela, eu preciso que você masque esse chiclete como a Sally Sanders na cena do parque de diversões naquele filme com o John Travolta……você esta no fundo, desfocada, tem que ser bem performático para sair bem………Mari, seja mais deprimida e menos malandro……você esta bem Evandro, mas não olha para Mari quando você responde, fala meio de boca cheia, olhando para a direção do barulho da televisão……você não está se importando muito com o que ele está falando……falem mais alto que não temos mic aqui……vamos continuar da onde parou……

Cena 1…...continuação…...ação…….


(Jornaleiro) - “É isso que os homens fazem……” (Taxista) - “Esse é o problema……não aguento mais essa sujeira, essa merda de lugar……essas vagabundas na rua não percebem que são parasitas?……” (Jornaleiro) - “Você vive num país livre cara…se você gosta de homem procure um e seja feliz…… (Taxista) - “Cala essa boca seu animal…não sei porque estou perdendo meu tempo com você……”

Fim da Cena 1

- Talvez tenha ficado legal galera…vamos arrumar tudo para a próxima……

Cena 2

Resumo - O taxista (Mari) está na sala da casa de um vendedor de armas (Mirela). Ele tira uma mala debaixo de uma abertura escondida atrás do sofá e os dois começam a negociar.

[Câmera em plano geral, pegando toda a sala e mostrando toda movimentação dos personagens.] {Sons de crianças brincando no quintal do vizinho e adultos gritando.}

(Vendedor de armas) - “Eu tenho tudo que você precisa…armas, munição, coletes a prova de bala……” (Taxista) - “Eu quero uma Magnum 44 com seis balas……” (Vendedor de armas) - “Aqui está essa belezinha……robusta, pesada……1,3kg de pura destruição……o que ela acertar ela derruba……” (Taxista) - “Quanto é?” (Vendedor de armas) - “Um barão e meio……” (Taxista) - “Com as balas?” (Vendedor de armas) - “A primeira é sempre na faixa……o que você esta pensando em fazer com isso………” (Taxista) - “Nada demais……..aqui está o dinheiro……” (Vendedor de armas) - “O Tito disse que você era taxista……que só queria se proteger……se seus amigos também quiserem posso vender para eles……mas nada de falar por telefone, a gente combina e você traz eles aqui……e se alguém me perguntar você nunca me viu……e é isso que vou falar se alguém perguntar de você……” (Taxista) - “Entendi, eu sei como funciona……”


Fim da cena 2

- Não sei isso se está dando certo. Nessa cena a câmera ficou muito longe de vocês……...acho que não esta legal o som…….. - Roda aí na câmera mesmo pra gente ver como ficou……… [Filme rodando] - O som está horrível……parece que é um banheiro…… - Vamos terminar de gravar……a Renatinha vai melhorar o som no computador e colocar os efeitos……eu estou achando ótimo……vou arrumar tudo para a próxima cena………

Cena 3

Resumo - O taxista (Mari) está sentado numa cadeira na cozinha escrevendo um bilhete. A arma está do lado do papel na mesa.

[Câmera em plano americano mostrando o taxista escrevendo o bilhete e a arma. Ele acaba de escrever, coloca a caneta do lado do papel, pega a arma e da um tiro na própria cabeça. A cabeça cai do lado do papel, sangrando, e a câmera vai fechando até focalizar o papel em detalhe.] {Nenhum som, só o barulho do taxista escrevendo o do tiro.}

(Recado do bilhete) - “Eu não sou viado”

Fim da cena 3

- Adorei! - Acho que ficou uma merda.

FOTOS por José Lucas Martins de Moraes


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E D M A R C I A T I N TA


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POR LUIZ GUSTAVO ALENCAR

POR PRISCILA MIRAZ

C a f é levantou os olhos da xícara carijó enganchou de viés uma braveza nem sabida trouxe o revés de direito na boca vazante do pressentido não pede nem deve o consentimento pro uso do possessivo


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F a d o

POR PRISCILA MIRAZ

sem maiores surpresas me vi parada à tua porta Don Juan de saias e rosa branca ouvindo você dizer enquanto abria o portão: eu sabia que você vinha

POR EDER CAPOBIANCO


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No dia 31 de outubro de 2013 Matilde Campilho deixara em descrição: “dia em que há dois anos atrás chegamos a ser sete bilhões aqui no mundo e eu me sentei no boteco, sentindo saudade de uma esquina só.” E os meus pés acabaram de passar por sua rua, Mas o nosso encontro não aconteceu devido todos acontecimentos. Não há nada depois do fim. A ideia de que as aves vão embora para países mais quentes Me transformava em um pardal em seu peito Como a música do Beatles You were only waiting for this moment to arise E a migração fora o único caminho que me deixara vivo. Depois que o inverno sucumbiu todas as artérias do meu coração Que ia de mim ao nó sinusal E passava por mais outras 6 que não lembro o nome, Mas que deixava o ramo marginal agudo totalmente desprotegido Me levando até uma parada cardíaca ao ver seu sorriso. It's all right. Eu sempre achei que você me levaria a morte. Eu não te disse antes, mas encontrei uma teoria filosófica Que consegue justificar não só minha presença nesse imenso universo Que você se fez parte, Mas também a razão de eu estar escrevendo essa poesia E nele está ligado os mil e outros motivos pela qual eu respiro sem ajuda E mesmo assim anseio por mais ar A duração da incubação de um pardal leva de 10 a 14 dias E eles são encontrados no mundo todo Já a metáfora Pardal deixou de existir em determinadas áreas Muitos predadores se tornaram suas próprias metáforas E os levaram ao suicídio após se sentirem livres De qualquer sentimento de compaixão que lhes restavam E agora não existe mais nada depois de você O meu subterfúgio me fez finalmente perdoar Qualquer colisão que tivemos Depois que eu morri por circunstâncias não naturais. O vácuo então se fez presente It hurts to set you free But you'll never follow me

* WESLLEY MARQUES DA SILVA


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** PEDRO H. S. D. MARANGONI

P A S S A R I N H O M O R T O N O M E U Q U A R T O ** passarinho passarinho tua tristeza não se traduz na língua dos homens teu piado de angústia parece um canto meigo de quem se despede da vida sobrevoando a nota dó.

FOTO POR ROSANA MARCÍLIO DO NASCIMENTO PAULO DE FREITAS


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Natalis

Solis Invicti

Fernando Zanetti

Quando jovem alcancei a alegria Entre instantes de um certo sentido teria que singrar Um bruto de favas nos teria entendido Verdade canina entre o mal o melhor Isso de cordeiro e justos imemoriais Seria uma causa fria e insistente Ter em si o festejo e não olhar quelqu'um Sempre que pude ter esses festejos Uma sangrenta vertigem me passaria Por onde seguir por amplexos corrijos Esse que ainda revelas Isso que de nós foi velado Somos sujeitos de uma verdade viscosa Que inda pequenos tomamos a celebrar [alguém que sempre morrerá Um festim inglório Uma verdade indita E que sempre se repete Um sujeito despedaçante e frágil Uma verdade quebrada e impalpável E que nunca se chega Pois sempre se morre Sempre se morrerá O nascimento e a morte O rio que corre não é o mesmo O tempo é glória do mortal Ou seu querido infortúnio.


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Olhos no meio da multidão. Da ponte se pode ver a bandeira do Brasil: ampla e retumbante, maior que todas, grita com o vento. O arranha-céu pega e domina a bandeira, como se dissera: você é minha, parte de mim, sou teu dono, o edifício gigante dos espelhos com as pessoas como ratos trabalhando, chamando e gritando e voltando ao trabalho, com o concreto que enche o verde da bandeira, está ali mais imponente que o pano cheio de símbolo, tem-na para se mostrar bonito, para esconder sua loucura pelo caos, pelo tempo que consome cada centímetro do encanto das pessoas. Amanda olha a bandeira, não vê sentido de pátria ou de nação,

OLHOS NO MEIO DA MULTIDÃO

por W. Venancio de Oliveira G.

somente vê bonita e grande. Mas você não entende que é isso que te querem dar como sentido de pátria? O gigante que se impõe a cada sentimento humano que pode ter? A pátria quer ser Deus e o arranha-céu o portador de sua mensagem. Mas Amanda desvia seu olhar da pátria e vê as pessoas. “Lá, siim, lá! Não, nãoo, lá... que quero ir, onde fica isto? Sempre nos perdemos”, “Sim, sim, você nunca sabe o lugar certo”. “Amor, será que vamos conseguir comprar nossa casa?”, “Calma, estamos poupando”. “Deus, Deus e mais Deus, venham”. “Matemática (...) vem conhecer os segredos da matemática”. “Estamos muito atrasados”. “Eles já nos cobraram o cheque”. “Maldito time que nunca vence”. “Estou apaixonada, penso que vou deixá-lo”, “Pensa nos teus filhos, que seja amante”. As vozes eram como abelhas para Amanda, vinham com seu ruído distorcido, algumas palavras tinham sentido para ela, e ficava pensando na vida deste pedestre. A única relação que os unia a Amanda era o panfleto na mão e depois no lixo. Todos sabem o desprazer de estar com papéis, então dizemos: “Não, obrigado”. Mas era ruim, Amanda não podia desfazer-se dos papéis, tinha um cara que cuidava dela, então sem papéis entregues, menos dinheiro. Amanda estava envolvida nos olhos sombrios que ninguém vê, mas que vêm a todos. Mas não pense neles. Pois aquele a quem você esperava, está cruzando a grande avenida. De longe, você pode olhar seu reflexo frente aos espelhos distorcidos desta cidade de ilusões.


Seus olhos escuros são da cor do teu coração. Não é um espelhismo. Não é um destes fantasmas que vagam sem nomes e sem sentimentos pelas cinzas ruas. Ele é um Paulista que caminha com seu P maiúsculo de energia e passos firmes em cima de um chão que quer desfazer-se. Lá vem ele com sua seriedade passiva. Que deve pensar? Que busca? Passa e toma o panfleto da morena Amanda. A bela jovem dá uma olhada doce e seus lábios delineiam um “obrigado”. O jovem retribui com um pequeno desenho na boca. Passa correndo com o andar reto em direção aos seus objetivos épicos. Finalidades que são o mistério que pululam no pensamento de Amanda. Sim, Amanda, o moço de olhos de águia traz sonhos na plena rua, onde não se deve sonhar. Não pode fazer isto no mero centro de São Paulo como a duas quadras de seu marco zero, onde os jesuítas com alguns índios iniciaram o experimento de misturar/triturar sangues e destinos e a três blocos de onde faziam espetáculos de castigos públicos de escravos. Tem de entender que esta cidade não quer ver você sonhando. Só que ela não escuta a moral da cidade amargurada com seu passado. Volta à olhar a multidão que se abarrotava para chegar a futuros secos e banhados de ironias como aqueles do qual a cidade falava. O coração de Amanda ainda levava os olhos do moço desconhecido. Sempre passa por ali às 3 da tarde. Você fica louca ao olhar o horizonte em seus olhos, no mar de impossibilidades de futuros no qual vocês poderiam viver juntos. Você entre as pernas de seu amante olhando o final do mundo avermelhado. Numa praia do Japão, país de teus sonhos, olhando o astro-rei que não queria ir-se, “olha amor, o sol, acho que podemos voar com o Sol”. Não, o Sol não nos pode fazer voar, somente a chuva que é concreta, pois nos traz o vento que nos tira da rotina. Teu moço de olhos longínquos sorri e conta sobre seus mistérios. Ele é um grande inventor de viagens interestelares e está no projeto que vai levá-la a Marte e, quem sabe, a verdadeira luz. Pois a nossa estrela-rei não é assim tão quente como vemos, sim é possível ir para lá. No Japão é onde se fazem todos estes projetos. “Sim, me beija e vamos juntos para Marte, me beija e façamos amor”. Os japoneses brincam entre eles e convidam o casal para comer. Começa a chover e seu amado abraça a moça com seus olhos envolventes. Uma gota tira-a do sonho. Ela não se importa, ‘tá nem aí para a cidade. Caminha até um lugar seguro e deixa por uns minutos seu trabalho. Olha a chuva e parece mais bonita. Gosta de sonhar. Volta para o Japão. Amanhã já não verá seu moço. Mas virão muitos outros e seus sonhos se revolverão até querer escorrer de sua cabeça. A bandeira molhada pela chuva fica calada.


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foto por Ricardo Abussafy

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por Carlos Andreassa


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Entrevista com

Circuito: Da onde vem Fabrincantes e Matulão? Sandro: Tudo começa com o Matulão, acredito que em 2000. O mundo não acabou, mas começou para mim uma nova etapa. Em questão, o Teatro de Rua. Um pessoal da UNESP montou um espetáculo chamado Aboios, e apresentaram no ano 2000. Esse espetáculo reunia música, teatro, dança e bonecos. A coordenação era do Elinaldo Meira, e ele distribuiu algumas funções. Dentro do espetáculo ia ter um trechinho do “Alto do Boi”, e o Elinaldo convidou o Fábio Nieto para dirigir esse teatrinho que estava dentro do espetáculo. Eram todos da universidade, com uma exceção. Eles sabiam que eu fazia teatro e me convidaram para participar da parte teatral do espetáculo, aí eu entro. A partir daí conheci melhor o Elinaldo, e a gente começa a trocar umas figurinhas para montar um espetáculo. Montamos, com texto do Elinaldo o “Matutações”. E também a outra parceira do Matulão, que vai existir a partir daí, a Mónica Magalhães, que também tinha feito parte do trechinho do “Alto do Boi”. Então o Matulão surge dessa história toda. Um espetáculo que acontece e dá substância para formar um grupo de teatro. Circuito: Como se fosse a explosão de um momento, onde o Fabrincantes e Matulão é um pouco de cada parte dessa cena. Wender: Essa do Matulão, ainda, envolve outros grupos e uma cena artística mais ampla, de músicos e poetas. Falo da experiência enquanto público. Eu estava fazendo a prova da Tânia de Luca aí o pessoal entrou dançando e cantando dentro da sala de aula, na UNESP, convidando para o espetáculo que foi no Buracanã. Por exemplo, desse do Aboios, e dessa grande explosão que o Sandro comentou sobre a origem do Matulão, eu peguei o final. Quando terminou

por Eder Capobianco Priscila Sales Ricardo Abussafy

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a prova fui lá e vi que era uma grande festa de brincantes. Circuito: Quais eram as influências dessa cena, em 2000, que juntava músicos, poetas e atores? Sandro: A UNESP aqui em Assis, eu sou daqui, teve vários desses buns. Muitas pessoas que passaram por aqui para fazer os cursos já tinham experiência com teatro, música e outras coisas mais. Para mim, a pessoa chave é o Elinaldo, que muito envolvido com as artes chega e quer reunir pessoas de várias linguagens artísticas para fazer um espetáculo de Teatro de Rua. Ele era artista plástico, dramaturgo, músico, compositor e fabricava bonecos. Ele resolveu exercer tudo isso agregando pessoas e delegando funções, também. Em 2000 o Elinaldo é a pessoa chave que instiga tudo isso. Ele tinha muita gente. O Junior na viola, o pessoal que cantava, a Nina, a Cida, a Débora, o André. Ele tinha esses companheiros que falavam “vamos fazer, então vamos fazer”.

e até Era uma época qu iam, nd fu os bancos se s fundir nós decidimos no e tinha qu também. Não juntou dinheiro, a gentes. ia as misér Circuito: Vocês sentem o grupo como uma continuação daquele espaço de tempo? Meire: Na verdade é o Matulão e o Fabrincantes, que é o fabricante de história. Chega o momento em que eles se fundem porque decidem trabalhar juntos. Aí a gente pensou: “vamos criar outro nome?” Essa é uma questão também. Os grupos acabam e se cria novo nome, novo grupo. A decisão foi de manter, ao invés de acabar, fazer essa união de Fabrincantes e Matulão. Bagge: Era uma época que até os bancos se fundiam, nós decidimos nos fundir também. Não que tinha dinheiro, a gente juntou as misérias. Wender: É um outro grupo, são outras pessoas, mas no que diz respeito a estética, linguagem, existe uma linha tênue que vai costurando tudo isso.

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Circuito: O Teatro de Rua? Wender: É essa prática do Teatro de Rua que a gente vai vinculando na sequência. Seja na produção do Matulão, com Matutações, seja o Fabrincantes, criando triólogos, estreando aqui nessa praça da V.O. (Vila Operária), na Arena em 2004, procurando trabalhar com mitos bíblicos, numa linguagem popular com uma estética, uma textura, muito próxima, por causa do trabalho de figurino da Amélia, que, digamos, costurou todos esses trabalhos que o Sandro citou, a tecelã disso tudo. Então tem uma estética muito similar, essa prática do jogo de comicidade em cima do sagrado, profanando o sagrado. Era o espetáculo baseado na história do


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Adão e Eva, que a gente chamava Éveadão, do Davi e Golias, daí o jogo dessas histórias. Por isso o Fabrincantes, fabrica história e brinca com aquilo que está fabricando. Circuito: Você falou sobre a estreia aqui nessa praça. Wender: Aqui na V.O. A Muri morava aqui perto junto com o Ricardo numa República tão lendária quanto os espetáculos, a 104. Bagge: Muitas ideias brotavam também dessas Repúblicas, é interessante dizer. Se ensaiava dentro das casas. Circuito: Vocês estrearam aqui (Praça da V.O.), numa peça sobre Adão e Eva, chamada Éveadão. Essa “aura” do Teatro de Rua de explorar assuntos como esse de vuma forma mais marginal, com mais liberdade. Qual a importância disso para o grupo? Wender: Essa é uma pergunta difícil, porque vira e mexe há umas boas discussões com a Amélia. Existem duas mesclas aí. Acho que uma de quando a gente está atuando a gente se diverte, e se diverte muito. A gente brinca entre a gente e brinca com o público. Essa ideia de brincar com o sagrado, a mitologia bíblica, os clássicos, com a morte, é algo que para mim é marcante. Acho que gosto de brincar com esses temas. Até hoje não entendo porque o pessoal nunca bateu, xingou ou correu atrás. A gente vive numa região conservadora, e a gente sempre aborda os temas de maneira tão obscena. Bagge: É tão obscena, tão absurdo. Uma freira depois de

Da esquerda para direita:

Wender Urias, Sandro Dutr a, Ricardo Bagge e Meire

Alves - Foto: Priscila Sales

uma apresentação numa escola me chamou e falou: “Olha só, o pecado original não é o sexo, viu?” Sandro: No Cumpadre Morte a discussão era a morte. A gente fez um trabalho intenso: vamos discutir a morte, o tema da morte, na praça. E ver uma coisa tão escrachada, tão cômica, tão divertida, com um tema pesadíssimo. Acho que a forma que a gente sempre abordou os temas não dava tempo da pessoa pensar muito, interrogar e questionar. Circuito: Vocês tem Cumpadre Morte, Éveadão. A religião é um tema importante para vocês. Meire: Acabou acontecendo. Bagge: É até legal citar, já que a gente falou dos grupos e da origem, que eu e o Wender viemos de Cândido Mota e a gente já fazia um trabalho de teatro lá em 1995. O Frei começou a dar oficina para gente, e ele gostava e já tinha atuado no teatro. Então a gente começou a fazer teatro na sala paroquial, no salão da igreja, abordando temas religiosos. A primeira peça que a gente montou era A Louca Casa Santa, que falava de uma instituição de caridade onde ia chegar um novo diretor, e as figuras mais inusitadas e estranhas que apareciam ali. Circuito: Vocês serem de uma cidade pequena, do interior de São Paulo, com uma formação dentro da igreja, como você citou, falar da igreja é uma forma de contestação de toda sociedade que cerca a gente em cidades menores? Wender: Eu sinto que a gente utilizar desse tipo de estética, desse tipo de linguagem, a caipirada, cômica, popular, com esse jogo voltado para curiosidade com o sagrado, ou com temas fortes filosoficamente, como a morte, é uma forma de alfinetar essa rotina. Como o Ricardo (Bagge) bem lembrou, é interessante que a rua surge para gente, o Teatro de Rua em Candido Mota, não como protesto. Ela não surge como um manifesto, com uma intencionalidade política explícita. Ela surge por uma própria necessidade de se fazer teatro numa cidade que não tem um prédio para teatro. A gente usava um salão paroquial, e quando colocaram um cadeado novo lá pra gente não usar mais só sobrou a rua.


Quando rua é o qa gente fala: “a ser um e ue sobrou por Agora n spaço público”. mente, p ão necessarialeva de p orque há uma riv espaço patização do úblico. no espetáculo, é o que separa o teatro amador do profissional? Bagge: Muitas vezes a questão do profissional está ligado ao burocrático, questões de documentos, da profissionalização de cada ator, ou até um grupo ter um CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica). Essa é uma pergunta que sempre está sendo feita, e quando você está fazendo não fica pensando muito nisso, e até não pensa muito: “porque eu faço Teatro de Rua?” Começa por uma necessidade, e depois não se bate muito em cima disso, a não ser quando a gente acaba se envolvendo com movimentos de Teatro de Rua, ou com a rede de Teatro de Rua, aí a gente começa a questionar isso como ação política.

Começamos a fazer intervenções curtas de dez, quinze minutos, na rua, nas várias pracinhas, na rua mesmo, pátio de escola. Circuito: Como é a relação do teatro amador para o profissional. Bagge: O Sandro pode falar sobre isso porque foi (objeto de) pesquisa dele. Wender: O Sandro é profissional em teatro amador. Sandro: Para não perder esse assunto, o Wender, que é o Fabrincantes, e o Ricardo quer era o Matulão, tiveram essa experiência anterior em Cândido Mota, indo para a rua por falta de espaço. No meu caso, que já fazia teatro muito antes do ano 2000, a experiência de um grupo amador era juntar um grupo em fevereiro, a gente ensaiava oito meses, apresentava uma vez no final do ano no Teatro Municipal, chamava os amigos, acabou, férias e agora só no ano que vem. Aí novo grupo, um fica, outro não fica, e outra peça. Era uma peça por ano. Quando eu tenho contato com essa coisa de rua no ano 2000 eu vi no Teatro de Rua uma chance de apresentar mais, curtir mais. Essa coisa do amador para mim é mais curtir. Do mesmo jeito que num grupo o pessoal forma um time pra jogar no domingo, sem ganhar nada. Aliás, quem toma a frente disso gasta, porque tem transporte, jogo de camisa. No teatro é a mesma coisa. Quem estava à frente do grupo tinha que fazer a correria. Se vai apresentar em algum lugar o cenário tá em outrolugar e tem que levar. O resultado é a curtição, o prazer de fazer alguma coisa acontecer. Circuito: O fator financeiro de apresentar, e também investir,

Circuito: Então você diria que o grupo Fabrincantes e Matulão é um grupo de teatro amador profissional? Wender: Sim, considero a gente como semi-profissional. Porque existe um aspecto de sustentabilidade, que essa prática artística no interior é inconstante. Por isso que todo mundo tem um outro trabalho que gera renda. Querendo ou não, todos nós temos profissões num outro tipo de fazer, e ainda assim dedica um tempo considerável para prática artística cultural. É o fazer teatral com fluxo e refluxo, mas ainda assim atuando com cultura, como produtor ou agente cultural, artista de diversas formas. Circuito: A Meire e o Wender tiveram a experiência de passar um ano vivendo só de arte de rua. Como foi isso? Wender: Em 2007 foi. Meire: Mas acabou não sendo só de Teatro de Rua. É difícil viver de teatro, não sei se só no interior, e em São Paulo eles conseguem viver melhor, ou pior, não sei. A gente acabou na verdade fazendo um trabalho institucional. Foi legal de fazer, mas não era Teatro de Rua, e foi com a FEMA (Fundação Educacional do Município de Assis), e por um período a gente conseguiu se manter com isso. Wender: A gente tinha um espetáculo e rodava ele com o chapéu, e esse chapéu sempre dava para uma pizza e alguma bebida que não era alcoólica. A Taci estava junto também nesse espetáculo, e a gente chega num momento de aceitar diversas propostas de trabalhar com teatro, independente da forma que fosse. Assim a gente consegue pagar o aluguel e as contas, mas é um fluxo muito intermitente para pensar como sustentabilidade.


Circuito: Então foram dois grandes trabalhos em um ano? Meire: A questão é que nunca é algo pago pelo seu próprio trabalho. Tipo, você faz uma peça, como O Cumpadre Morte do Fabrincantes e Matulão, e alguém vai pagar e a peça vai rodando. Não é assim. É, tipo, eles estão fazendo a Semana de Segurança do Trabalho e chamam a gente para apresentar e paga. Acaba sempre sendo entretenimento em algum outro evento. É uma relação interessante, até hoje as pessoas ligam perguntando: “você não tem uma peça para apresentar no evento tal?” É uma relação, como a política de cultura, com o evento. A compreensão é que é só um entretenimento. Isso é uma questão cultural. Wender: Um adorno. Circuito: Como o grupo lida com esse período sem atividade? Sandro: É uma pergunta que até me dá uma coceira. Sou contra essa inatividade, eu piro (risadas). Eu fiz cinco monólogos na minha vida por necessidade, não porque eu tinha a vontade de fazer um monólogo, é que ninguém queria fazer então sobra só o monólogo. Enfim, eu não paro, mas o que nos une enquanto grupo é que estamos sempre juntos, se encontrando nas festas, o grupo surge como assunto. O jornal (Ruarada) não teve interrupção, está sempre ativo. Acho que a nossa convivência próxima, Assis \ Cândido Mota, os contatos por causa do jornal, isso tudo mantém a gente esperançoso de ter um novo projeto. Circuito: Dá para dizer que é um estilo de vida? Bagge: A gente não consegue ficar quieto. Acho que nunca fica inerte. Se não estiver atuando, está produzindo, como o Wender com o Encontro de Palhaços. Eu quando não estou atuando ou dirigindo com o grupo estou trabalhando na FAC como instrutor de teatro, onde estou trazendo essa experiência da rua, do grupo, para um curso de teatro que não é técnico profissionalizante, mas quem participa acaba tendo toda essa experiência. Circuito: Como as novas formas de comunicação afetaram o grupo? O Teatro de Rua foi para o You Tube? Sandro: Essa evolução tecnológica não me afetou tanto. Para mim, fazer Teatro de Rua hoje, como o espetáculo que nós temos correndo, por exemplo, é assim: a apresentação vai ser na Vila Operária. A gente até usa o Facebook e o jornal da cidade, mas mais como um registro de que aconteceu. O que a gente faz mesmo é passar um carro de som na Vila. No dia, um dia antes. Roda o carro de som avisando: “vai ter, vai ter, vai ter”. Usa o horário da saída da missa, e apresenta a peça. Era a mesma coisa que a gente fazia 15 anos atrás. Bater na porta das casas avisando que tem, e se a pessoa esquecer você pega ela no final da missa. Há 15 anos atrás a gente falava que era a televisão que segurava, não sei se é mais a televisão. Me parece que o desinteresse pela cultura esta cada vez maior. A nossa grande questão hoje é como tirar o público de casa, fazer ele atravessar a rua e ver a peça.

Músicos do

espetáculo

“O compadr

e morte”

,e produz mais r o i r e t O in muito, nas mas s, produz s linguagen a do a divers muito, bancpara luta io bolso, duz. própr r o que pro ta fomen Wender: O Teatro de Rua permite se apresentar centenas de vezes, para público que, em alguns casos, chega até 500 pessoas. Nós fizemos uma apresentação do Cumpadre Morte em Cândido Mota que até onde conseguiam nos ouvir tinham pessoas. Onde a voz não chegava não tinha mais. Assim como apresentar para 20, 25 pessoas. É sempre o público que se constitui, e é interessante que todos são extremamente singulares. Lembro que quando teve as ocupações dos alunos [nas escolas públicas],no Hashid, em Cândido Mota, eram 25 estudantes, e num daqueles encontros astrológicos, a gente tava numa sintonia tão boa, tão singular, que foi inacreditável. Mesmo se só tivesse uma pessoa assistindo, a gente tava se divertindo. Circuito: O Teatro de Rua também é uma rede, essa rede não se ampliou

com os novos recursos? Bagge: Todo mundo está se comunicando pelas redes sociais. Se organizando, criando eventos. Wender: Existe muita mobilização quando algum tipo de ataque a liberdade de expressão acontece. Bagge: Como agora, que lacraram o Galpão da Lua lá em Presidente Prudente por questões burocráticas. Lacraram lá, com todos os materiais dos coletivos que usam esse espaço. Um espaço igual ao Galpão Cultural aqui em Assis. Isso já se espalhou para todo mundo. Assim como um pessoal de Santos, com um espetáculo que faz uma crítica a violência policial. Quando eles foram barrados pela polícia e cancelaram o espetáculo, além de prender um dos integrantes do grupo, aquilo voou pela internet e se


numa sala fechadinha e o público no escuro, talvez dormindo, e você lá nos refletores fazendo. Na praça passa um, passa outro, e você tem que dialogar de alguma forma, alguma coisa tem que acontecer. Esse tipo de situação eu gosto bastante. Pensando agora e nas últimas falas de todos sobre o marginal, não acho que nosso Teatro de Rua é marginal porque somos reconhecidos na cidade como um grupo de teatro. O que a gente percebeu dos próprios artistas de rua, de semáforo por exemplo, é que eles são marginais porque não são reconhecidos como artistas. Nós somos reconhecidos e temos uma linguagem popular. Tem essa questão da linguagem também. Ela não é marginal, é popular, qualquer um que está na praça entende. Me identifiquei muito com isso. Para mim o teatro é um hobby, é uma forma de vida, é o que eu quero pensar, o que quero expressar eu coloco no teatro hoje. Essa peça que acabamos de estrear, Rádio BR Oficial, eu fiz o roteiro e o grupo ajudou a fechar o texto. Mas veio de uma inquietação na época do impeachment, falei: “gente, a mídia é muito cruel, espalhou. Wender: Acho que a rede é mais uma questão de movimento social mesmo. Uma forma de articulação de um movimento de luta. É um movimento artístico, mas tem esse aspecto muito forte de movimento social enquanto engajamento de luta, ocupação do espaço público. Circuito: Ainda há uma marginalização do artista de rua no espaço público? Bagge: A gente fala: “a rua é o que sobrou por ser um espaço público”. Agora não necessariamente, porque há uma leva de privatização do espaço público. Às vezes se está num lugar se achando que é um espaço público, mas não é público. É uma empresa que toma conta dali, ou, de repente, a praça é da igreja. Você achava que era pública, mas não é, é o terreno da igreja. E o pároco tem o poder de dizer: “não vai apresentar aqui porque é da igreja”. Então tem que pedir permissão. Algumas coisas medievais ainda acontecem. Wender: Em Assis a gente teve que sair da praça e apresentar na calçada por causa disso. O Pároco não queria esse tipo de “frescura” na praça “dele”, não na praça do público ou do povo. Circuito: Alguma mensagem, alguma coisa que vocês queriam acrescentar à entrevista mas não foi perguntado? Bagge: Se enforcar na corda da liberdade? Não (risadas). Sandro: Queria dizer que o Teatro de Rua foi uma causalidade na minha vida. Eu fazia teatro para se apresentar em salas. Como disse, era um por ano e a gente ficava feliz de fazer assim. De repente você descobre uma forma que dá mais possibilidade de se apresentar. Não faço crítica a quem está nas salas ou faz televisão. Acho que cada um faz o que está ao seu alcance, e escolhe o que quer fazer. Fazer Teatro de Rua não é melhor nem pior do que qualquer outro. É outra linguagem, diferente de estar

Wender Dias


Da esquerda para direita: Ícaro Urias Alves, Wender Urias, Sandro Dutra, Ricardo Bagge, Iori Urias Alves, Meire Alves,

eu quero me expressar”. Se você assistir à peça tem o lado cômico, você vai dar risada, mas no fundo há uma discussão profunda sobre a mídia. Ela é manipuladora? Não é? O que acontece nos bastidores da mídia? Wender: Pessoalmente, acho que a gente precisa criar ambientes como a Circuito criou nesse momento. Mas a gente tentar multiplicar isso, seja por meio de nossas publicações, como o [jornal] Ruarada no nosso caso, ou a Circuito, é pensar políticas públicas voltadas para ação cultural de fomento intensivo do interior. Para que essas intermitências, como foram narradas, não tenham vácuos tão longos, buracos tão grandes. Tem um “Q” aí de paixão, encontro de pessoas com paixões similares que cria o novo, cria possibilidades, cria espetáculo, cria revista, cria jornal. É interessante como o interior tem uma cena tão intensa de produção e seja tão difícil conseguir sustentabilidade. O interior produz, e produz muito, nas mais diversas linguagens, mas luta muito, banca do próprio bolso, para fomentar o que produz. Isso precisa ser problematizado enquanto política pública de Estado e pressionar os municípios para assumir a responsabilidade desse fomento. Bagge: Foi muito importante meu encontro com o Teatro de Rua, como potencialidade e de

Eder Capobianco, Priscila Sales e José Antônio Barbosa

poder exercer essa arte de estar atuando. Tinha muita potência nessa época em que a gente vinha de Cândido Mota, teve a experiência do teatro daqui quando a gente encontrou com o Feijoada Onírica. Tivemos a experiência de rua também com cenas curtas. Mas quando encontro o Sandro, o Matulão, e ele me convida para participar dessa continuidade do texto do Elinaldo, foi muito importante porque foi a primeira vez que pude apresentar muitas vezes e sentir mesmo como é apresentar 20 vezes num ano. Foi potencializador isso, e um divisor também. Me senti fazendo teatro na rua, com muita intensidade. Então a rua foi muito importante. As redes, os encontros, o pensar, levei isso para quando fiz minha especialização em Comunicação Popular e Comunitária, essa experiência com o Cumpadre Morte se tornou uma monografia, como uma experiência de expressão de comunicação popular e comunitária. Fechei a ideia de como era a forma dessas redes, dessa organização, de movimento, como pressão política ao poder. Pressionar o poder público para pensar as políticas públicas. Nós como agentes culturais. Não só pessoas que fazem teatro, artistas, mas agentes culturais que discutem, dão ideias, e pressionem o poder também. Aí chega na questão do profissional. Muitas vezes o Teatro de Rua não é interessante para o mercado. Ele é público, por isso não dá para ficar dentro desse mercado. Ele pode acontecer sem financiamento público, mas ele tem que ser fomentado. Meire: Assim como o Sandro, fica o desejo que o Teatro de Rua apareça mais. É uma linda arte que democratiza o teatro. O teatro fechado também é legal, mas o teatro na rua pode ir até cidades que não tem esse prédio, esse espaço. Uma linguagem que ajuda a expandir uma arte.


29

El secreto de las rocas americanas Alex Portugheis

En una secuencia vital, los alientos furiosos de los relámpagos y los truenos, nos ayudan a descubrir nuestras ansias y latires como vibraciones efímeras… Cuando volvemos a encapsularnos en las gigantescas babilonias succionadoras de las sojas de nuestras pampas…podemos volver a ver cada muro y ladrillo como tierra transformada. Aunque lo disimulen los empedrados y pavimentos, no han perdido el hechizo que guarda cada antigua roca desde tiempos inimaginables. Son pedazos de materia reconfiguradas para satisfacer pretensiones magnánimas. Todo fue elaborado para continuar la devastación americana. Hechizarnos por las rítmicas chispas de embebidos fogones, que inmortalizan versos eléctricos, rebeldes, alcohólicos y humeantes que emergen como guitarreadas para componer folklores futuros. Es perderse por los montes encantados, revitalizándose con las misteriosas magias de los movimientos corpóreos, que en cada roce se bendicen con el disfrute y el húmedo deleite. Es escuchar el mensaje de las rocas, que han observado la destreza de las curanderas sabias, empujando y abrazando, para que nuevas cabecitas se asomen de los vientres florecidos, entre los murmullos de los pajaros y de las serpientes. Es sumergirse en las arterias que fluyen como la sangre del continente, perderse en el manto de sus aguas, mientras que del firmamento los condores nos espían. Recorren la velocidad de la sangrienta historia humana. Ojala que desde nuestras naturalezas de fuego, sigan estallando clamores libertadores. Sigamos cobijándonos de los futuros vendavales en ranchos amplios y fuertes, que sean capaces de nutrirse de nuestros guisos y de nuestros goces. La materia de estas silabas, la materia de cada cinta, que retrata reflejos y vibraciones, de cada acorde resonante…pueden convertirse en aliento vital, son capaces de ser arrastrados por los vientos eternos desde los laberinticos enigmas de nuestra existencia hasta aquellos primigenios secretos que siguen permaneciendo tras las rocas. San Marcos Sierra, Cordoba, Argentina - Enero 2015


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* Ana Clara Spera Gisele Gonçalves Melles de Oliveira Priscila Sales Renata Santos Souza

Do pássaro grafitado submerge a memória de um filme visto em sala de aula!

I

Cores, traços, gestos poéticos e bons encontros compõem a multiplicidade da Exposição Bem das Artes. Apesar da sua materialidade, esta exposição configura-se como uma exposição-processo, veículo de migração de fronteiras, aberta, atravessada e composta por inúmeros fios. Surge da proposta do sensível artista assisense Anderson Ferreira Lemes, o Alemão. Trata-se do compartilhamento de territórios existenciais que se relacionam e codeterminam. Dezessete artistas locais foram convidados a produzir uma obra de arte para dezessete territórios de atendimento de saúde pública. Cada artista, cuja residência é próxima à unidade de saúde, após visitar o local, propôs sua criação. Obras singulares, que ocuparão os locais de atendimento público na saúde local, possibilitando o encontro dos corpos que ocupam aqueles territórios com a experiência estética da fruição de uma obra de arte.


II

E ao findar do dia podemos concordar com Benedetto Croce: a arte é o que todos sabem o que é!

A mediação trouxe na sua proposição instigar os visitantes a se relacionarem com as telas, a partir do start das frases, onde todos puderam compartilhar suas vivências. Nos caminhos que cada grupo percorrem, vamos sentindo as particularidades e, como se o momento fosse muitas vezes de desabafo, como desde eu sou invisível na sociedade, o corpo sente prazer, em cada lugar podemos ter uma sensação ao olhar uma obra. Ainda, outros se relacionaram com as telas a partir das expressões artísticas, como filme, música, poesia. Ao final das mediação, fomos nós que vivenciamos as múltiplas sensações compartilhadas pelos grupos.

III

A multiplicidade de público que circula pelo espaço físico da exposição percorre um caminho, muitas vezes, invisível dentro e fora de nós que ali estamos postos e preparados (?) para realizar a mediação. Mas, nesse vasto universo um grupo especial se faz presente: os estudantes das mais diversas idades. E é aqui, neste momento, que o ponto de interrogação se intensifica. As palavras fogem ao lidar com os sentimentos que atravessam as vivências nesse momento de troca. A natureza e a arte que parecem, num movimento da sociedade contemporânea debilitada em suas experiência intelectual e afetiva, se afastarem, acabam por realizar um aceno de volta, tocando-se antes mesmo que possamos nos dar conta desse reencontro. Uma partilha do sensível entre arte, política, filosofia e o cotidiano como lugar de certa memória afetiva se espalham no espaço/tempo materializado em 120 metros quadrados. * Problematizações inspiradas no material educativo da 29º Bienal de Arte


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Revista circuito n6  

Revista de conteúdo literário, fotografia, desenho e afins.

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