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Círculo do Graal

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE Romance Volume II

Carmo Vasconcelos

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“Faça-se o que se fizer, reconstrói-se sempre o monumento à nossa maneira. Mas já é muito empregar somente pedras autênticas.”

(Marguerite Yourcenar)

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SEGUNDA PARTE Capítulo I “O Verão de 1962 tinha chegado ao fim, sucedendo-lhe «O Inverno do Meu Descontentamento».” Foi com esta frase que Carmen iniciou para mim o longo relato do seu “futuro”, ao encetarmos uma nova série de encontros periódicos e previamente agendados. A partir daqui, poupá-los-ei aos detalhes dos nossos encontros e reduzirei as minhas dissertações históricas, minimizando, também, as minhas observações, pois não quero aliviar, nem um pouco, o peso que pressinto ter a nova etapa da vida de Carmen. Ouçamo-la, principalmente: – No princípio do ano seguinte, numa manhã de Carnaval – como se de uma brincadeira do Rei Momo se tratasse – Edgar casou com a sua namorada da praia. Até esse momento, a minha vaidade esperara uma insistência de Edgar. Só perante o facto consumado, tive a visão real do resultado da minha decisão irreflectida – do meu orgulho desmedido! Algo dentro de mim se desmoronou. Como se por incúria tivesse perdido uma batalha que, no meu íntimo, sempre considerara ganha. Então, já cansada dos jogos de Cupido, deixei rolar o meu namoro com Jorge. Namoro que se limitava a uma débil conversa de duas horas por noite, sob o olhar atento de minha mãe que, postada num sofá em frente de nós, fingia ler o jornal. Só o sono e o cansaço a obrigavam a cabecear por segundos, retomando de seguida a sua postura vigilante. Mais um detalhe: durante aquele namoro a três, eu ainda tinha de manter as mãos ocupadas fazendo “croché”... As mãos elaborando a renda, a cabeça tecendo sonhos de evasão. Poder-se-ia chamar aquilo de “namoro”? Pondo de parte as divergências inevitáveis que, generalizando, sempre surgem entre dois seres, após a posse concretizada, como seria possível através daquele namoro tão pouco íntimo, conhecerem-se, minimamente, duas pessoas que planeavam viver juntas o resto da vida? Não posso deixar de reconhecer hoje, quão atilados são alguns jovens desta geração, que, protelando o casamento, preferem começar por viver a experiência da vida em comum! Jorge mostrava-se cada vez mais apaixonado, demasiado talvez, pois o ciúme começava a ressaltar do seu amor. Teorias correntes na época eram: “Não há amor sem ciúme” e “Isso passa depois do casamento...” Mas eu não perfilhava essas opiniões. Desagradava-me aquela sua faceta, que me fez passar por cenas bem desagradáveis. Além de ciumento, pareceu-me também desconfiado quando, pela primeira vez em minha casa, lhe servi uma chávena de café que ele se apressou a trocar pela minha... Ainda assim, julguei tratar-se de uma Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal brincadeira. O facto de ele ser pouco falador, atribuí-o a timidez; o esquivar-se a abordar livros e autores, julguei dever-se a estar muito absorvido pelos estudos... Só em carícias era pródigo, e nelas afogava as minhas dúvidas! No entanto, havia nele algo de estranho que a minha ingenuidade não conseguia alcançar, mas, movida já pela minha intuição, tentei romper aquele relacionamento mais do que uma vez, não conseguindo porém, que Jorge desistisse de mim. Então, decidi enfrentar aquela relação até às últimas consequências... o casamento! Seria a minha libertação! – Pensava eu. Por outro lado, talvez na prática se confirmassem as ditas teorias com que os demais tentavam abalar a minha intuição... Pena que, além de orgulhosa, irreflectida e ingénua, eu fosse ainda tão inculta, nomeadamente, quanto às ciências ocultas que tanto nos ensinam sobre a vida humana... A Astrologia, por exemplo, com a importância que lhe queiramos dar e, para já, como ciência mais acessível, era matéria virgem para mim. Só muito mais tarde me debrucei sobre ela para constatar que Jorge era um “taurino” típico, isto é, nascera sob a influência do signo astrológico de Touro. E Touro, sendo um signo fixo e de terra, possui algumas características que eu já descrevi em “Capricórnio” e outras muito próprias. Aliada a uma mente evoluída, a influência de Touro dará um ser calmo, ponderado, de vontade forte, perseverante e reflectido. Dadas por Vénus, o seu planeta regente, possuirá ainda uma doce sensualidade e uma grande capacidade de amar. Características mais discutíveis mas que também lhe são inerentes, são: o horror que sente a quaisquer mudanças, a fixidez das ideias e dos sentimentos, o forte conservadorismo e a timidez que o faz procurar na “posse” de bens materiais – e de pessoas, também – a segurança que lhe falta. Se estes traços astrológicos (que, reitero, por si só, são apenas tendências) recaem sobre uma personalidade primária, dão aspectos muito desfavoráveis; teremos assim: um indivíduo obstinado, rancoroso, desconfiado e colérico, de sensualidade grosseira, obcecado no amor, intolerante, instável, inseguro, e dotado de pouco tacto e agilidade no que se refere à vida profissional e social.” Esta minha dissertação sobre os astros, que, a um primeiro olhar, poderá parecer descabida, em face do que irá seguir-se, dará, no mínimo, que pensar... Meses depois, num radioso dia de Outubro de 1963, tinha eu vinte e cinco anos, casei com Jorge. Não pela Igreja; ele era anti-religioso, senão ateu, e tinha uma profunda aversão pelos padres. Eu fora criada dentro da religião católica: frequentei a catequese em menina, fiz a comunhão solene e não faltava à missa dos domingos – pretexto de todas as raparigas casadoiras para exibirem os vestidos mais bonitos e trocarem conversas com os rapazes que as esperavam à saída. Também cumpria anualmente a praxe das quintas-feiras santas, acompanhando minha mãe nas suas romagens a sete igrejas, beijando o pé do Senhor dos Passos, todo vestido de roxo. Alheia não podia ser, também, à devoção com que se colocavam as melhores colchas em todas as janelas da casa, no dia em que passava na nossa rua a comovente procissão das velas em honra de Nossa Senhora. Minha mãe chorava, e eu chorava de vê-la chorar... Tudo isto, não chegou para fazer de mim uma católica convicta e fanática. O que sempre me moveu foi uma profunda crença numa poderosa e desconhecida Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Força Divina, justa e protectora, independentemente de quaisquer rituais. Por esta razão, não pus qualquer objecção a um casamento civil. Seria até mais prudente... Apesar de menos pomposo, o casamento não deixou de ser uma cerimónia “comme il faut”. Eu, avessa a praxes comuns, teria preferido um evento mais discreto e original: um vestido simples, rosa-chá ou verde-musgo, e um almoço a dois. Mas a minha mãe e o padrinho fizeram questão: vestido de noiva, véu e grinalda, flor de laranjeira e o tradicional “copo-d’água”, eram imprescindíveis. Jorge e os pais foram da mesma opinião. O meu sogro, entendido em automóveis, tratou até de alugar um carro de noiva, cujo modelo eu só me lembrava de ter visto em filmes: tinha o dobro do comprimento dos carros normais e a particularidade de os noivos ficarem separados do motorista por uma divisória de vidro, julgo que à prova de som. Nesse carro me dirigi ao luxuoso restaurante, cercado de belos jardins, onde o meu noivo me esperava vestido a rigor nas suas calças de fantasia e asas de grilo, traje que realçava a sua elegância. Convidados, muitos, de ambas as partes. Aí se tinham deslocado também os oficiantes do registo civil que, numa sala própria, legalizaram a união. Durante a cerimónia, minha mãe chorava, creio que, de felicidade. Casar a filha era para ela o culminar da sua tarefa de mãe! Eu, movida por ocultas emoções, não continha as lágrimas, e o ramo de narcisos brancos que me pendia das mãos, tremia tanto que as pétalas se soltavam, cúmplices das minhas lágrimas... Carmen fez uma pausa para acender um cigarro. Então, ousei perguntar: – Por que chorava, Carmen? Não se sentia feliz? – O que lhe posso responder com sinceridade, minha amiga, é que cheguei ao casamento, não como a uma meta que eu prioritariamente ambicionasse, porém, decidida a ser feliz e a fazer feliz o meu marido. Contudo, algo inexplicável me fazia chorar, algo estranho, como uma premonição indefinível... – Não me diga que a Carmen acredita em premonições, pressentimentos, essas coisas? – Como já lhe disse, minha amiga, nessa altura eu não sabia nada! Agora eu sei que todos nós possuímos, em maior ou menor grau, essas e outras faculdades. Uns desenvolvem-nas, outros não. Simplesmente, e salvo raras excepções, desconhecemos todo o nosso potencial. Hoje, pelo menos, eu teria reconhecido “os avisos”. – Outras faculdades? Como por exemplo, Carmen? – São inúmeras, minha amiga: Pré-cognição, Pós-cognição, Clarividência, Mediunidade, Magnetismo, etc. – Fale-me delas!

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Círculo do Graal – Não hoje, minha amiga. O mundo da Parapsicologia é muito vasto. Mas podemos falar disso, depois do seu romance terminado. Concorda? – Combinado! Voltemos então ao seu casamento! – Atribuí a minha sombra de tristeza à ausência do meu pai e dos meus irmãos, Vítor Manuel e Carlos Alberto. Vítor Manuel, que já tinha regressado da Índia com a família, tinha partido pouco antes do meu casamento, dessa vez para Angola. Instalado em Luanda, tinha chamado o nosso pai, que para lá partira também, com os meus irmãos mais novos. Daí, a impossibilidade de estarem presentes. Mas, Carlos Alberto por que não aparecia? Estava em Lisboa, tinha sido convidado... Recordo-me da alegria com que, finalmente, o vi chegar quase ao fim da tarde, porém, ainda a tempo de me abraçar e de me entregar o seu presente: um bonito saco de viagem para eu levar para a “lua-de-mel”. Àquela hora, já a patente felicidade de meu marido e a alegria de todos os convivas me tinham contagiado. E a ternura com que o meu sogro me beijou, dizendo: “Só tinha um filho, agora tenho também uma filha!”, afastou de mim qualquer laivo de tristeza. Já tinha caído a noite quando eu e Jorge abandonámos a festa para nos dirigirmos a um “aparthotel”, previamente marcado, que nos esperava numa aldeia turística, fora de Lisboa. Cansados, mas felizes, rumámos assim ao “enfim sós!”.

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Capítulo II

Que dizer daquela noite de núpcias?... O pressuposto é que todas as noites de núpcias são idênticas e que não haveria motivo para falar-se dela. Mas Carmen falou: – Durante a viagem conversámos pouco. Concentrado na estrada, o meu marido mal dava resposta ao que eu dizia. Explicou-me em duas palavras que não gostava de conversar enquanto conduzia. Achei compreensível. Mal chegados ao nosso lar temporário, Jorge, impaciente, desfez-se em afagos e ternuras, há muito contidos. Tudo parecia correr maravilhosamente! A perda da virgindade era coisa que não me assustava, tinha-a como uma consequência natural do casamento. Mais… À força de minha mãe tanto me instigar a preservá-la – movida por um tenaz preconceito que fazia repousar a honra das famílias sobre uma frágil e inútil membrana – o que eu desejava era libertar-me dela, não por um prazer calculado (que eu desconhecia) mas, para desembaraçar-me do que, para mim, representava mais uma grilheta... Pensando assim, tudo se consumou sem dramas, e a noite poderia ter decorrido perfeita não fora, a determinado momento, Jorge fitar-me, de olhar turvado, enquanto dizia: – Afinal, não eras virgem! Estarrecida, só consegui perguntar: – Por que dizes isso? – Devia haver mais sangue... – Nem sempre é assim... – respondi a custo, os soluços querendo subir-me à garganta. – Estou cansado, amanhã falamos! – Esquivou-se Jorge! E sem me dar azo a qualquer conversação sobre o assunto, Jorge voltou-se para o outro lado e adormeceu. Foi como se me tivessem dado uma pancada na cabeça! Subitamente, como um relâmpago, tive a visão do sem número de desilusões que me esperavam. O resto da noite, completamente entregue a mim mesma, passei-a em branco, chorando, bebendo champanhe e ruminando: “Quanta injustiça! Quanta ignorância!” E, como um texto corrido, passou pela minha mente tudo o que eu sabia sobre a virgindade. Por exemplo, que o hímen varia muito na sua forma e consistência; pode revestir uma forma semi-lunar, o formato de ferradura ou anel, ou apresentar-se sob um aspecto labial, sendo os bordos separados por uma fenda vertical; pode ser mais consistente ou mais frágil; tão elástico que pode, Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal nalguns casos, esticar, ceder a pressões enérgicas e retomar a seguir o seu estado primitivo; ou tão frágil que qualquer esforço ou exercício mais violento, às vezes exigido somente pela prática de um desporto, pode originar o seu rompimento; e, finalmente, que há mulheres que o conservam depois de vários partos e algumas em que o hímen pode nunca ter existido. Qual seria o meu caso?... Aproveitando o sono do meu marido, dei comigo a examinar, sub-repticiamente, os vestígios deixados no lençol. De facto, as provas eram ténues! Pequenas manchas rosadas, um farrapito vermelho, aqui e além. No meio da minha perturbação, era como se me visse em Israel – uma jovem esposa judaica, supliciada pelo seu povo, acusada de ter cometido uma infâmia, porque as provas da sua virgindade não tinham sido suficientemente evidentes. Ou... Descenderia o meu marido dos árabes, querendo, no dia seguinte ao casamento – como era uso entre esse povo – arvorar orgulhosamente o lençol das núpcias, manchado do sangue da jovem esposa desflorada? Que dizermos então das populações da Nova Caledónia, onde a virgindade era desprezada pelo marido, que pagava a outros homens para desflorarem a mulher? E dos indígenas do Kamtchatka, que consideravam de extremo mau gosto a mulher casar com o hímen intacto, sendo uso a mãe da noiva destruí-lo com os dedos? E de algumas tribos da América Central, que desdenham as mulheres ainda virgens porque consideram que não possuem qualquer encanto e não conseguem inspirar amor aos homens?... Naquela espécie de febre em que me encontrava, veio-me à memória um texto do naturalista Cuvier onde, a dado passo, ele diz: «Será razoável dar uma tal importância a este sinal da virgindade feminina, que uma vez descoberta a sua ausência é capaz de desencadear dramas? Não! A presença de um hímen, por mais intacto que esteja, não tem qualquer valor moral e em nada pode ser considerado um símbolo de pureza. A pureza moral não é física, eis a verdade de que todos os homens se deviam compenetrar». Estes e outros conceitos, desprenderam-se, alucinadamente, do meu cérebro, durante aquela noite interminável! Aproveitando uma brecha na narrativa de Carmen, não me contive: – Como deve ter sofrido, Carmen! – Sofrido?!... Não! A revolta era maior do que o sofrimento. Era a injustiça que me queimava, a desconfiança que me assustava, a ignorância que me surpreendia! Tudo o que eu queria era que amanhecesse depressa, para dialogar com o meu marido, fazer-lhe ver o quanto ele tinha sido ignorante e injusto! – Espero que tenha conseguido!...

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Círculo do Graal – Ah, minha amiga, tentei, bem que tentei! Mas logo constatei que o meu marido não era um homem de diálogo. Para ele tudo se resumia a Sim e Não; na verdade, mais Não que Sim. O talvez não constava do seu dicionário mental e uma vez implantada uma ideia na sua mente, aí permanecia para sempre, inalterável... – Então, deve ter sido difícil para si, fazê-lo compreender... – Difícil?! Após um breve silêncio, Carmen prosseguiu: – Na manhã seguinte, como se nada se tivesse passado, meu marido acordou bem-disposto, mostrando-se apressado em sair para tomarmos o pequenoalmoço. Quase não trocámos palavra. Durante a refeição, principiei: – Jorge, temos de falar! – Sobre quê? – Não sabes?! Sobre a noite passada! – Esquece! Estava cansado e com sono. E, pegando-me na mão, ternamente, mudou rapidamente de assunto. – Vamos passear, almoçar a qualquer outro lado. Tens alguma preferência? – Nenhuma. – Respondi secamente. – Não sejas parva, querida, sabes como te amo! E com estas palavras encerrou a questão, por esse dia e pelos seguintes, pois, incapaz de dialogar e ter de vir a reconhecer o seu erro, Jorge sempre fugia ao assunto, evitando falar sobre o acontecido. As férias continuaram, num clima de normalidade forçada, entre longos e silenciosos passeios de carro e as refeições nos variados restaurantes, durante as quais, apenas se discutia a ementa. Depois, surgiam as noites, quentes de paixão. Para mim, mais quentes, porque me queimavam as palavras não ditas, entaladas na garganta. Até que chegámos ao fim da “lua-de-mel”. A de meu marido, “lua cheia”; a minha, toldada por uma nuvem que nunca mais se desfez...

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Capítulo III

Desta vez, abstenho-me de quaisquer considerações sobre o que acabais de ler. Na verdade, e como mulher, confesso que não encontro palavras para exprimir o que sinto. Prefiro que os leitores se deixem tomar pelas suas próprias emoções. Continuemos, pois, a escutar Carmen: – Toda a família aguardava ansiosamente o nosso regresso. Tínhamos acordado ficar a viver em casa dos meus sogros enquanto não dispuséssemos de meios para montar casa própria. Os pais de Jorge – Simão e Rosalina – eram naturais duma aldeia beirã onde ainda possuíam casa e terras. Tinham emigrado para Lisboa logo após o casamento, e Jorge, filho único, já tinha nascido lisboeta. Curiosamente, o meu sogro não tinha, nem a simplicidade nem a rudeza das gentes beirãs. Somente a linguagem – um ou outro termo vulgar na sua terra – feria, às vezes, os meus ouvidos. Fora isso, era um homem de aspecto citadino e porte elegante, que não descurava a sua aparência. Mandava fazer os fatos por medida ao alfaiate, usava sempre chapéu a condizer, e frequentava assiduamente o barbeiro, onde, além do cabelo, tratava das unhas. Mais tarde, descobri que até pintava os cabelos brancos que surgiam em redor da sua calva. Nascido num tempo e num local onde dificilmente se tinha acesso à cultura, posto a trabalhar no campo ainda menino, singrara na vida à custa do trabalho que viera encontrar na cidade grande. Depois de ter sido alguns anos auxiliar de enfermagem num hospital de Lisboa, tinha-se reformado cedo, após o que, adquiriu dois “Mercedes”, táxis que pôs a circular na praça e que também conduzia. Nessa vida, conhecera de perto muita gente importante. Não se podendo dizer que era culto, era um homem que lia diariamente o jornal e que se mantinha informado, sobretudo acerca da política vigente, da qual era um discordante acérrimo. No trato, era afável e comunicativo, gostando de ver a casa cheia, a mesa farta. Comigo, especialmente, foi sempre muito afectuoso. Lamento que já não exista, pois gostava muito dele! Na minha sogra encontrei uma personalidade muito diferente. Era uma mulher árida, brusca e seca, daquelas que desviam a cara quando se pretende beijá-la. Falava aos repelões, e gestos de ternura não sabia ter, nem aceitar. Nem mesmo o marido e o filho – a quem amava, sem dúvida – eram alvo das suas demonstrações de afecto. No entanto, era uma escrava daqueles dois homens! Vivia para lhes dar as refeições a horas, manter as suas roupas em ordem. Raramente participava das conversas, a não ser para falar de assuntos familiares ou relacionados com as “terras”. Como mulher, que em nova não tinha sido feia, deixara-se engordar e tinha desleixado a aparência. As suas saídas de casa limitavam-se às idas ao mercado, e as mulheres que se alindavam e frequentavam os cafés e os cinemas, eram, na sua boca, todas “putas”. Circulava pela casa de robe e pantufas, e nestes trajes se sentava a coser, à tardinha, enquanto esperava a família para o jantar. Uma vez por ano, o marido levava-a ao Teatro de Revista. Então, punha o casaco de peles que ele lhe tinha comprado para o efeito e, nessa noite, talvez o deixasse “servir-se” dela... Minha sogra era o que se costuma chamar, um “bicho de mato”; não gostava de convívios para Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal além da família mais chegada, e o filho, desde criança, nunca teve autorização para levar lá a casa qualquer amigo... Não me surpreendeu, portanto, quando vim a saber, não por ela nem por meu marido – sempre esconderam de mim esse facto – que o meu sogro tinha, desde há muito, uma amante. Esta era, pois, a minha nova família. Mas não a única com quem eu iria conviver. A casa, enorme, doze divisões nas Avenidas Novas, tinha sido alugada a meias por meu sogro e por um irmão mais velho, enfermeiro, tido quase como médico, que nela habitava com a mulher e um filho jovem, ainda solteiro. Dois filhos mais velhos, casados, habitavam já em casas próprias. Jorge e os primos tinham crescido juntos. Para meu marido, filho único, os primos eram como irmãos. Para eles, que já eram três irmãos entre si, suponho que Jorge era “apenas” o primo. E todos sabemos como algumas crianças podem, às vezes, sem querer, ser cruéis; nas suas brincadeiras, nas suas preferências, no seu desprezo... – Desculpe interrompê-la, Carmen, mas a que propósito diz isso sobre as crianças? – Sobre as crianças? Não propriamente sobre todas! Estou a falar de um contexto familiar sobre o qual fui obrigada a cogitar. – Porquê? Pode dizer-me? – Talvez, porque à força de tentar compreender certas atitudes aberrantes de meu marido, dei comigo a dissecar todas as justificativas ao meu alcance. – Continuo sem compreender... – É que estamos a andar com o carro à frente dos bois. Ainda não lhe disse – pensava fazê-lo mais adiante – que meu marido alargou o seu ciúme doentio aos meus próprios irmãos, a ponto de desconfiar de qualquer gesto fraternal entre nós. – Ciúmes de seus irmãos!? – Ciúmes tais que o levavam a sugerir actos incestuosos... – Mas isso não é normal, Carmen, me perdoe! – Daí, as minhas cogitações. Seria ciúme de mim ou deles?... Dever-se-ia essa atitude ao facto de ele mesmo nunca ter tido irmãos? De nunca se ter sentido tratado como tal? De se ter sentido, de alguma forma, banido daquela irmandade que o rodeava?... – Começo a compreender. No entanto... – No entanto, minha amiga, nunca o saberemos. Restar-nos-á sempre a dúvida... O certo é que eu, com a mania que tenho de tudo justificar, pensava: “Deve haver uma razão, deve haver uma razão...”, e assim, ia desculpando, essa e Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal outras atitudes de Jorge que, por não fazerem sentido para mim, por pouco não me deixaram louca. – Posso imaginar! – Entre o imaginar e o sentir, minha amiga, corre uma estrada imensa... Mas, voltemos ao ponto onde nos perdemos: – Naquela família fui recebida de braços abertos, e eu tomei-a de igual modo. Por parte da minha sogra, eu não sentia calor humano; aparentemente, prestavame apenas servidão e respeito. Mas, a seu modo, creio que se foi afeiçoando a mim. Jorge começou então a dar mostras de me considerar uma propriedade sua, uma propriedade cercada, a que só ele, como rei e senhor, podia ter acesso. O simples facto de eu querer visitar a minha mãe e o meu padrasto – que tinha sido o meu verdadeiro pai – e o meu irmão que eu vira nascer, era já motivo de discórdia. Os seus olhos eram como sentinelas que vigiavam todos os meus passos, os meus mais insignificantes gestos. Bruscamente, largou o emprego, só para ter a possibilidade de me ir esperar ao serviço diariamente. Os estudos que fazia em horário pós-laboral, foram igualmente abandonados. Tanta insegurança e insensatez preocupavam-me. A seus pais também. A eles, que desejavam – e podiam – dar um curso superior ao seu único filho! As discussões começaram a surgir entre nós, em surdina, só ouvidas pelas quatro paredes do nosso quarto. – Agora tudo mudou, és uma mulher casada! A tua família é esta! – Mas, a minha mãe? – Nunca gostei dela, sempre quis mandar, agora mando eu! – O meu padrinho? – Um homem qualquer que não é teu pai! – E o meu irmão Eduardo? – Irmão? Qual irmão? Se não é filho do mesmo pai... – Mas... é a minha família! – Uma família de doidos é o que são todos!... Perante discussões tão insólitas, toda a minha dialéctica caía por terra, por inútil. O espanto calava-me as palavras... Depois, como se nada houvesse a separar-nos, meu marido fazia do leito conjugal um prado verde, onde vestia a pele do mais manso dos cordeiros... Carmo Vasconcelos

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Sem tempo para digerir todas as estranhas atitudes com que me defrontava, passados três meses engravidei.

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Por esta altura, adivinhando o cansaço de Carmen, e porque a minha mão também reclamava uma pausa da escrita, sugeri: – E se pedíssemos mais um café? – Boa ideia! – Anuiu ela. Creio que ambas estamos a precisar... Enquanto tomávamos o nosso café, atrevi-me a perguntar: – E quando se viu grávida? Não teve qualquer hesitação em levar por diante essa gravidez? – Boa pergunta, minha amiga! Qualquer mulher nas minhas circunstâncias teria hesitado, sim! Mas eu desejei desde logo aquele filho. No meu íntimo, houve sempre uma grande ternura pelas crianças e uma forte repulsa pelo aborto. Não que critique a mulher que, por qualquer contingência da sua vida, seja levada a fazê-lo! Mas vejo-o como um acto que, pessoalmente, repudio. – Porquê essa repulsa, Carmen, quando assistimos hoje à luta de milhares de mulheres em todo o mundo que pugnam pelo direito ao aborto? Pelo que sei de si, penso que não seja uma questão religiosa... – E pensa bem, minha amiga! Não é uma questão religiosa. Se fosse um sentimento recente, poderia explicá-lo, talvez, à luz do misticismo, do sentido da Vida; do propósito que cada alma traz ao encetar uma nova existência; do ciclo que interrompemos, e da dívida cármica que contraímos ao praticar voluntariamente um aborto. Mas, o meu sentimento é mais antigo, vem de longe... – Como assim, Carmen? – Um dia, durante uma daquelas discussões juvenis com a minha mãe, durante as quais eu sempre me mostrava insubmissa, ela exclamou, fora de si: “Bem que fiz tudo para que não nascesses, mas já aí foste teimosa!...” – Quem sabe, portanto, quando foi insuflada em mim esta repulsa? Talvez no momento em que ouvi aquela confissão… Ou, talvez muito mais cedo, pressentida no ventre materno... – Quem sabe?... – Deixei escapar, vagamente, enquanto recomeçava a escrever, na ânsia de não perder palavra. – Mas, retomemos o fio à meada – disse Carmen. Onde tínhamos ficado?

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Círculo do Graal Como frequentemente acontecia, as palavras tomavam-nos as rédeas e levavamnos para onde queriam, deixando-nos perdidas. Tive de reler as últimas folhas para me situar. – Ficámos na sua gravidez. – Respondi. – Continuemos então! – Verdade seja dita, o meu marido também quis aquele filho, e os meus sogros (mais o meu sogro), mostraram-se contentes com a perspectiva de serem avós, e apoiaram-me no que precisei. Só não podiam ajudar-me naquilo que desconheciam: a estranha angústia que me consumia e que eu não tornava visível aos olhos fosse de quem fosse. Só aquele filho que eu trazia no ventre, e que eu comecei a amar acima de tudo e de todos, era testemunha invisível das minhas mágoas, do meu desencanto. Mais uma das minhas ignorâncias de então, era o quanto a mãe pode intervir na educação de um filho antes do seu nascimento; de como pode estruturar a personalidade e o carácter da criança, ainda em gestação. Da mesma maneira que planeja preparar o lar adequadamente para a chegada do filho; da mesma maneira que o médico prepara o seu corpo para que seja o habitat são da criança que vai nascer, deve a mãe empreender uma purificação geral da mente, ou seja, preparar o mundo mental em que vai viver durante os meses da gravidez. Houve tempos em que a ideia de que a mãe podia ter alguma influência sobre a criança que ia nascer, era ridicularizada e considerada uma superstição. Felizmente, hoje já se fizeram progressos ao tomarmos consciência de que os deveres e as funções da mãe em relação ao futuro filho, são mais do que simplesmente biológicos e fisiológicos. Suas obrigações estendem-se também ao campo espiritual e ao desenvolvimento cultural, como: ouvir boa música, praticar leituras educativas e sadias, evitar toda a espécie de imagens violentas, chocantes ou agressivas, através do cinema, da televisão ou de outros meios de comunicação social; manter um ambiente harmonioso ao seu redor, reforçar-se de atitudes tolerantes e de amor ao próximo e, sobretudo, manter um estado mental de alegria, isento de ódios, invejas e sentimentos de vingança. Ouvindo Carmen com toda a minha atenção, não pude deixar de recalcitrar: – Tudo isso, seria o óptimo! Todavia, é sabido que há muitos factores que influenciam a nossa vida e nos impedem de agir tão adequadamente. – É certo, minha amiga. – Respondeu Carmen. – No entanto, se todas as futuras mães soubessem isso e tentassem fazer, se não tudo, pelo menos o possível, crianças mais saudáveis viriam ao mundo, melhores adultos de amanhã. Se eu própria o soubesse naquele tempo, teria varrido a minha angústia, engolido as minhas lágrimas!... – Por que diz isso, Carmen?

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Círculo do Graal – Porque ainda hoje me interrogo se não teria sido já aí, durante a gestação, que começou a germinar a neurose que ao fim de quinze anos explodiu do meu filho Pedro. – Por Deus, Carmen! Não me diga que sente culpada? – Não! Culpada, não! Naquele tempo eu não sabia, sequer, como evitar o meu próprio sofrimento... Olhei o relógio, não que tivesse pressa, mas porque sentia um tom doloroso nas palavras da minha narradora. – Quer continuar, Carmen? Ou ficamos por aqui? – Só mais um pouco, para encerrarmos este capítulo. – Como queira! – Os meses foram passando. Meu filho fazia-se já sentir dentro de mim, e era como se me segredasse: “Não chores, mamã! Eu estou aqui!” E essa vozinha débil, que só eu ouvia, dava-me alento e minorava a minha dor. Entretanto, Jorge tinha arranjado um novo emprego; eu continuava seguindo o meu percurso de funcionária pública: galgando concursos, mudando de Ministério para Ministério, subindo de categoria e de vencimento. Logo comecei a fazer projectos: – Jorge, temos de arranjar casa. – Para quê? Estamos aqui tão bem. – O nosso filho vai precisar de espaço, de um quarto só para ele. Além disso, será a nossa casa... Porém, meu marido, receoso e inseguro, não dava um passo. Eu, mais audaz e confiante no futuro, tentava sempre ir mais além. Valeu-me a habitual compreensão do meu sogro. Com a sua ajuda arrendámos e mobilámos uma casa acabada de construir, na linha de Sintra. Era uma casa vulgar; três assoalhadas num prédio de apartamentos. Contudo, num sítio muito aprazível, onde ainda existiam árvores ao redor. E, porque seria a primeira casa verdadeiramente nossa, pareceu-me um pequeno palácio. A sua manutenção representava para nós o sacrifício de alguns extras. Mas eu trocava de bom grado umas idas ao cinema e um ou outro jantar fora, por um lar, pela nossa independência e intimidade, pelo conforto do filho que esperávamos. E, tal como desejei, antes de quebrado o ovo, já o ninho estava preparado! ~~~/~~~

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Capítulo IV – Chegado o dia, o nosso filho nasceu. Com que heroicidade suportei as dores do parto! Com que rapidez as esqueci! Não foi um parto fácil e apesar de eu ter estado na iminência de uma cesariana, acabei por dar o meu filho à luz, da forma mais natural e sem qualquer tipo de anestesia. Quis que nada aturdisse os meus sentidos, nada me privasse de presenciar em plena lucidez o momento único do primeiro contacto do meu filho com o mundo! Meu marido a nada assistiu. Foi tranquilamente para casa, deixando a minha sogra no lugar que a ele competia – um frio quarto de clínica, onde durante horas pela noite dentro, eu e meu filho nos debatemos com os dolorosos esforços da maternidade. Como eu gostaria que ele tivesse ficado, que tivesse partilhado comigo aqueles momentos, segurado a minha mão... Meu filho nasceu pela madrugada. – É um rapaz! – Ouvi dizer. Tinha os olhos escuros e o cabelo negro e encaracolado. Para mim, era um bebé lindo. Para os outros, em unanimidade, espantosamente parecido comigo. Apesar das energias despendidas, fiquei tão excitada que assisti de olhos bem abertos ao nascer do Sol. Felicíssima, aguardava ansiosamente pela hora em que meu marido viria visitar-me, conhecer o nosso filho. Ei-lo que, finalmente, chega! Espreitando o berço colocado junto à minha cama, poisa o olhar demoradamente na frágil criaturinha que nele dormia e, voltandose para mim, exclama: – Não é meu filho! Não é parecido comigo!... Esta foi a frase com que meu marido substituiu o beijo que eu desejava, as flores que eu, estupidamente, esperava receber das suas mãos. E, nesse momento, a nuvem cinzenta que nublara a minha lua-de-mel – e que outras nuvens já tinham engrossado – escureceu, adensou-se, formando uma negrura imensa que, acastelada no meu horizonte, prometia chuva, muita chuva... Não tardou que ela começasse a cair, em forma de lágrimas amargas, que brotavam mais do meu coração do que propriamente dos meus olhos. Enquanto cercada de gente, eu engolia-as com a força do meu sorriso, porém a sós, deixava que se soltassem em catadupas. – Como deve ter sido doloroso! – Exclamei. – Não o nego, minha amiga! Tão doloroso, que jamais o esquecerei! – Mas, as ofensas de meu marido não se ficaram por aí... Insensível à fragilidade do meu estado, decidiu limitar-me as visitas dos familiares.. Um dia, chegou mesmo a pôr fora do quarto a minha própria mãe, alegando que eu precisava descansar. Só os “seus” eram sempre bem recebidos... Carmo Vasconcelos

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O absurdo de tais atitudes perturbou-me tanto que uma estranha febre tomou conta de mim e o leite secou-se-me nos seios. O médico que me assistia não encontrava causa física que justificasse os meus sintomas, mas, por precaução, manteve-me retida dez dias sob a sua vigilância. Todas as parturientes regressavam a casa, ao fim de dois ou três dias, menos eu. Esse facto, em vez de preocupar o meu marido, gerou nova desconfiança nele, que, ignorante e cego, me acusava de me ter insinuado ao médico, razão porque o clínico não me dava alta... ~~~/~~~

Carmen falava sem parar, sem dó nem subterfúgios, como se uma força benigna a impelisse a libertar-se desse pesadelo. Apesar da dificuldade com que eu acompanhava a sua narrativa, tentando sufocar a minha própria indignação, consegui perceber, depois, que os dias, indiferentes aos problemas que os preenchem, rolaram na sua marcha contínua, e Carmen, vencendo a febre e o desequilíbrio emocional, pôde finalmente deixar aquele lugar, de má e boa memória. De boa memória, porque apesar de tudo, lá conhecera a suprema alegria de ser mãe, felicidade que se sobrepunha a todas as desilusões. Segundo me tem sido dado constatar, Carmen, desde sempre, deu a dianteira ao “melhor” que recebe da vida, colocando na retaguarda o “pior” – atitude que, indubitavelmente, mantém até hoje. E foi com esse estado de espírito que ela rumou à sua nova casa – de olhos enxutos, filho no colo, riso nos lábios!

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A sua primordial preocupação era fazer crescer o seu menino, saudável e feliz. Com a sua “mania” das leituras, muniu-se de toda a literatura que a pudesse ajudar – o instinto maternal, que sentia fortemente dentro de si, faria o resto. Teimosamente, insistia para que Jorge partilhasse os mesmos conhecimentos, lessem ambos as mesmas coisas. Ela sabia que a figura do pai, como modelo de ordem, educação e companheirismo, era indispensável, e que não basta apenas o acompanhamento de uma mãe para que uma criança se desenvolva plenamente feliz. Mais tarde, ao deparar-se com a doença de Pedro, aparentemente inexplicável, Carmen teve a certeza de como o seu instinto estava certo. Mas, como devem lembrar-se, Jorge não era homem de leituras. Mais! As leituras de sua mulher, das quais ela não abdicava, representavam para ele uma ameaça... Mulher que lia muito era um perigo...

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Círculo do Graal E Carmen tinha um vício antigo: ler antes de dormir. Impossível! Para Jorge, a cama tinha apenas duas funções: “pastar no tal prado verde como um cordeiro manso”, ou mergulhar no sono. Apesar de contrafeita, Carmen respeitava-lhe a vontade. E a instâncias dele, apagava a luz e fechava o livro. Uma noite, sem sono, levantou-se, pé-ante-pé, enfiou o roupão – era uma fria noite de Inverno – aconchegou a roupa no seu bebé que dormia e, tranquilamente, foi prosseguir a leitura interrompida, no sofá da sala. De repente, meia dúzia de páginas galgadas, julgou que as palavras tinham saltado livro fora, enlouquecidas. Absorta na leitura, nem deu pela entrada de seu marido que, colérico, a intimava a apagar a luz e voltar para a cama. Sem compreender o motivo de tal exigência, Carmen recusou-se a obedecer de imediato, dizendo: – Já vou, daqui a pouco... Mas, Jorge não admitia desobediências à sua vontade e, de súbito, desligou o candeeiro da sala e voltou para a cama. Carmen ficou no escuro, reflectindo, tentando recompor-se da surpresa. E no escuro se fez luz na sua mente: afinal, não era a luz que o incomodava quando ela pretendia ler na cama... era o simples facto de ela insistir no “péssimo” hábito de ler. E isso, ela não podia aceitar! Levantou-se do sofá, fechou a porta da sala e voltou a accionar o interruptor que lhe permitiria continuar a leitura. Mais meia dúzia de páginas galgadas, talvez nem tantas, outra tempestade. Novamente as palavras enlouquecidas? Não! Era uma nova investida do macho ameaçado – quiçá, pelo imaginado galã do romance, decerto mais interessante do que ele... E, de novo, a escuridão. Desta vez, Carmen insurgiu-se: – Mas, afinal, o que é que te incomoda? Decerto não é a luz, se até fechei a porta... – São esses romances, são eles que te dão volta à cabeça... Se fosses coser meias... Sem responder à provocação, Carmen levantou-se, calmamente, e voltou a acender a luz. Não podendo conter um riso de escárnio, disse: – Mas... Nem sequer é um romance... Podes levá-lo, lê, não morde! Vou ver televisão. E, entregando-lhe o livro, ligou a TV. Não que naquela altura lhe interessasse qualquer programa, o que queria era somente dar tempo a que o seu equilíbrio se restabelecesse para depois ir dormir em paz. Todavia, paz era o que seu marido não pretendia naquela noite. E se era amor o que desejava, tinha uma estranha forma de o demonstrar...

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Círculo do Graal Tudo teria ficado por isso mesmo, se Jorge, ainda não satisfeito, não tivesse levado mais longe a sua prepotência, pois, sem mais aquelas, atirou o livro pelos ares e desligou a televisão. Foi demais! Toda a calma e equilíbrio de Carmen a abandonaram. Como que possessa, fez voar todos os objectos que apanhou à mão, e só não atingiu Jorge porque este, talvez tomado de espanto, saiu cobardemente da sala. Carmen olhou os pedaços de louça e os vidros espalhados pelo chão, sem pena ou arrependimento. Afinal, seriam menos algumas testemunhas dos dramas vividos naquela casa. E, observando-os mais demoradamente, viu neles a prova de que o seu amor-próprio não estava ainda totalmente aniquilado. Isso reconfortou-a e deu-lhe coragem para um último gesto: voltar a acender a televisão! Mas Jorge não dormia. E, perante a insubordinação, resolveu o conflito à sua maneira: arrancou os fusíveis do quadro geral e mergulhou a casa na escuridão total. O coração de Carmen, também! Quando Carmen terminou este relato insólito, eu estava tão chocada que não encontrei palavras. E a única coisa que me ocorreu, talvez para desanuviar, foi: – E o que estava a ler nessa noite, Carmen? Recorda-se? – Muito bem! Estava a ler os “Pensamentos”, de Pascal. E, logo de seguida, como era meu intento, o pensamento de Carmen voou para longe da triste memória, relembrando Pascal: – Pascal! – Matemático, físico, escritor e filósofo – um dos mais brilhantes espíritos que a humanidade já conheceu! Aos onze anos compõe um tratado dos sons e descobre, sozinho, todos os teoremas da geometria euclidiana; aos dezasseis anos, imagina uma “máquina aritmética” que é considerada, e com razão, a primeira máquina de calcular. – Por sinal, trouxe comigo uma das tais páginas que voaram naquela noite. Veja, minha amiga, a “leitura perigosa e ameaçadora”, na qual eu estava tão embrenhada. Transcrevo: “Nunca nos fixamos no tempo presente. Antecipamos o futuro como demasiado lento a chegar, como para apressar o seu andamento. Ou lembramos o passado, para o determos como demasiado rápido; tão imprudentes que erramos em tempos que não são nossos e não pensamos no único que nos pertence. E tão fúteis que pensamos naqueles que não são nada e fugimos sem reflexão ao único que subsiste. É que o presente, por norma, nos fere. Escondemo-lo aos nossos olhos, porque nos aflige. E, se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Procuramos detê-lo pelo futuro e pensamos em dispor as coisas que não estão no nosso poder, por um tempo a que não temos qualquer certeza de chegar. Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Que cada qual examine os seus pensamentos. Encontrá-los-á todos ocupados pelo passado e pelo futuro. Quase não pensamos no presente. E, se pensamos nele, é apenas com a intenção de aí procurar a luz para dispor o futuro. O presente nunca é o nosso fim: o passado e o presente são os nossos meios. Só o futuro é o nosso fim. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver. E, dispondonos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.” – Grande verdade, Carmen! E eterna, apesar de ter sido escrita em meados de 1600. Saiba que também li e reli Pascal. Sei até de cor alguns pensamentos dele, como este, por exemplo: “A vaidade está tão enraizada no coração do homem, que um soldado, um trolha, um cozinheiro, um carregador, se gabam e querem ter os seus admiradores. E até os filósofos o querem. E aqueles que escrevem contra, querem ter a glória de haverem bem escrito. E os que lêem, querem ter a glória de os haverem lido. E eu, que escrevo isto, tenho talvez esse desejo. E talvez aqueles que o lerem...” E terminámos a sessão, comungando ambas da “vaidade” de termos lido Pascal, e enfiando a carapuça por albergarmos, no final deste romance, “a vaidade” de o havermos escrito e o desejo de que o mesmo sintam aqueles que o lerem...

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Capítulo V Agora, de forma breve, como prometi, e apenas como cenário de fundo onde se desenhava a tela surrealista da vida de Carmen, alguns factos marcantes dos anos sessenta: A URSS põe em órbita uma astronauta, Valentina Teresshkova, a fim de estudar os efeitos da imponderabilidade da mulher; investigações espaciais fornecem inúmeros dados sobre os planetas Marte e Vénus. Desencadeia-se a corrida ao Espaço. A nave americana Ranger 7 faz fotografias muito próximas da superfície lunar; os EUA e a URSS lançam naves equipadas para fotografar Marte. O cosmonauta soviético Alexei Leonov deixa a nave Vokshod II e flutua no espaço por vinte minutos; o cosmonauta americano Edward White faz igual proeza, a partir da nave Gemini IV. Na China dá-se início à Revolução Cultural. Surgem as primeiras comunidades “Hippies” na Califórnia. É anunciada a anulação do Índice dos Livros Proibidos, criado pela Igreja Católica em 1515. É convocado pelo Papa João XXIII o Concílio Vaticano II. Dois mil bispos e teólogos de todo o mundo debruçam-se sobre a doutrina da Igreja para a aprofundar, enriquecer e reformular à luz dos novos sinais do tempo. Só a Portugal, politicamente falando, os novos sinais do tempo demoravam a chegar. A mesma repressão, a mesma ditadura. Maior a riqueza de alguns, maior a miséria de outros. A emigração aumentava de dia para dia, atingindo no ano de 1966 – entre emigrantes legais e clandestinos – a cifra recorde de cento e vinte mil indivíduos. Apesar disso, no mesmo ano, é inaugurada em Lisboa a Ponte Salazar, sobre o Tejo, com 2278 metros de comprimento. Mas o Teatro Nacional Dona Maria II, que um fatídico incêndio destruíra em 1964, continuava em ruínas. Em ruínas estavam igualmente os sonhos de Carmen. Contudo, fazendo jus ao “pensamento” de Pascal, ela tentava ignorar o presente – refugiava-se no passado, nas alegrias da juventude, e albergava esperanças num futuro melhor. Os conflitos com seu marido sucediam-se. Até ele também não chegavam os novos sinais do tempo. Era como se Jorge vivesse amarrado a uma época retrógrada, talvez ao século XVIII, quando a par da supremacia dos homens corria o vácuo total dos cérebros femininos; quando as mulheres não pretendiam Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal ser seduzidas mas sim subjugadas; quando o amante se queria célebre e se desejava que fosse um déspota. Jorge ignorava que já em fins do século XIX, a máquina, ao exigir do ser humano menos esforço, levou a Mulher até à fábrica, onde ela começou a tomar parte no movimento social até então reservado aos homens; que a Mulher, até aí entregue apenas aos trabalhos femininos, em 1900 já participava activamente na economia geral, e que dez anos mais tarde, graças à Primeira Guerra Mundial, ocupava nessa mesma economia uma posição importante, porque, uma vez os homens mobilizados, as mulheres começaram a substituí-los em quase todas as profissões, inclusivamente nas mais duras. O problema era que Carmen sabia tudo isso. Carmen lia. Daí, que as frases machistas de seu marido, tais como: “se fosses coser meias”, mais do que irritála, alertavam-na para a distância cultural que os separava. A verdade, é que também cosia meias e outras peças, quando necessário. Aliás, fazia – e bem – toda a lida doméstica. Isso devia-o a sua mãe que, embora contra sua vontade, como sabemos, tão perfeitamente a instruíra. Devia-o, igualmente, à configuração astral presente na hora do seu nascimento, que a dotara com um leque de aptidões muito diversificadas. Não raro, percebia a felicidade, um tanto sádica, estampada no rosto do marido quando a via entregue a trabalhos domésticos, atenuados, no entanto, pela ajuda de Zefa, uma serviçal que trouxera da terra natal dos sogros, depois do nascimento de Pedro. A principal tarefa da sua ajudante era cuidar do menino, ficar com ele enquanto a mãe se ausentava para o emprego, dar-lhe as refeições que Carmen já deixava preparadas, mudar-lhe as fraldas, brincar com ele. Zefa era muito jovem, uma menina sensível, apesar de ter nascido na rudeza das terras beirãs. Oriunda de uma família de muitos filhos, a sua escola tinha sido a dureza dos trabalhos do campo. Vir para a cidade, para casa de “senhores” da terra, quase exclusivamente para tratar de um bebé, era o sonho de muitas camponesas como ela. Era meiga e dedicada. Além de dar-lhe uma pequena mensalidade, Carmen vesti-a e calçava-a, cuidava de que se alimentasse bem, acarinhava-a. Em suma, tratava-a como família, tentando colmatar a falta que ela decerto sentia dos pais e dos irmãos. Contudo, até esse procedimento era motivo de discórdia entre Carmen e Jorge. Para ele, Zefa era apenas uma criada. Não sabia pedir por favor, dizer um obrigado. Ordenava, asperamente, e queria ser obedecido de imediato. E não tolerava a delicadeza com que a mulher tratava a sua preciosa auxiliar. A pequena dedicou-se ao menino e à sua senhora. Quando o patrão estava ausente, era conversadora e alegre. Ria e brincava com Pedro como uma irmã mais velha. Mas logo que o patrão chegava, encerrava-se no seu mutismo, escondia-se pelos cantos, e só aparecia quando a chamavam. Devido às cenas que presenciava, ganhou medo do patrão e, por esse motivo, pouco mais de dois Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal anos ficou na casa. Alegando saudades da família, foi com lágrimas nos olhos que se despediu do seu “Pedrinho” e da sua “querida senhora”, preferindo voltar para o árduo labor da terra. Uma das cenas que mais aterrorizou Zefa, descreve-a Carmen num pequeno texto seu, relativamente recente, intitulado “A outra face dos comboios”, do qual me autorizou a transcrever o seguinte excerto: “Eis-me hoje a descobrir a outra face dos comboios. Os comboios, já os conhecia, mas duma forma bem diferente! Eles foram para mim, durante alguns anos, o veículo que me transportava de casa para o emprego e vice-versa, ou seja, de uma prisão para outra. Viagens curtas, mas tão longas nos meus pensamentos conturbados... Nessas viagens, eu ruminava a minha vida, os meus sonhos frustrados. Como ansiava o seu término, tal era a necessidade de dar vazão às lágrimas, longe dos olhares dos outros passageiros. Reporto-me a 1965, ano em que diariamente fazia o trajecto de parte da linha de Sintra. Casada há dois anos, a minha lua não era de mel. Meu filho Pedro era, porém, o tesouro a que me agarrava com todas as minhas forças. E como sofria naquele comboio, por ter de o deixar um dia inteiro entregue a uma empregada que era quase uma criança. Recordo-me dela, a Zefa, com muita ternura! Tão jovem nos seus quinze anos, mas tão dedicada, tão responsável. Nessa altura, a linha de Sintra era famosa pelos atrasos dos seus comboios. De manhã, filas intermináveis de passageiros, entre os quais eu, aglomeravam-se junto aos escritórios da Estação do Rossio, a fim de obterem um comprovante dos referidos atrasos para apresentarem aos chefes dos respectivos empregos que, sem esse documento, duvidavam da pontualidade dos empregados e descontavam as horas em falta nos seus já parcos salários. À noite, pior ainda, especialmente para as mulheres. Pressionadas entre o ir buscar os filhos à escola, as compras de caminho, o jantar a fazer fora de horas, viam o seu tempo encurtado metidas num comboio imóvel, não raro uma ou duas horas. E quantas delas não teriam passado pelo que eu passei naquele fim de tarde de má memória? Naquela tarde, que se transformou em noite, após longas horas à espera que aquele malfadado comboio se pusesse em marcha! Finalmente, perante o aviso de que ele jamais se moveria, vimo-nos obrigados a fazer o resto do percurso a pé pelas bermas dos carris, bermas de pedras soltas. Talvez 1 km. ou mais, não me recordo. O que nunca esqueci foi o que se passou a seguir. Exausta, ansiando por abraçar o meu filho e dar repouso às minhas forças e aos meus nervos, tudo isso me foi negado. Pior, vi-me impedida de entrar na minha própria casa, cuja porta não me foi aberta, e que servia de anteparo aos gritos alienados de um marido que berrava: “Sua puta, vá para onde andou até agora, que na “minha” casa não entra mais!” Tudo isto de porta fechada, sem eu ter sequer oportunidade de me explicar. Nem o choro do meu bebé, nem as súplicas da minha dedicada Zefa, ambos dentro de casa, foram capazes de alterar tão desumana atitude. Valeu-me a minha prima Lurdes que, felizmente, morava perto e me deu abrigo e consolo...” E o que se passou a seguir?... – Perguntarão os leitores, tal como eu própria perguntei. Carmo Vasconcelos

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Carmen, arrasada, desfeita em lágrimas, ferida profundamente na sua dignidade, jurava a sua prima não mais voltar para casa. Era demais para perdoar! Mas seu filho estava lá, sob o jugo do tirano... – Iria buscá-lo! – Ele não deixará que o faças... – advertia a prima Lurdes. – Melhor será conversarem, chegarem a um entendimento. – Entendimento!? Não sabes como é impossível ter uma conversa civilizada com ele? Lurdes sabia. Era como uma irmã para Carmen, e acompanhava de perto a sua vida. – Bem sabes que podes contar connosco. Podes ficar aqui o tempo que quiseres, mas ele não permitirá. E há o teu filho, como trazê-lo? E as tuas coisas? – Só o meu filho me importa! Ficará comigo! Entre estas e outras conjecturas se desenrolou a noite e o desespero de Carmen. Na manhã seguinte, pasmem! Jorge já não era o tirano, o déspota. Dirigiu-se a casa de Lurdes, onde adivinhou que a mulher estaria, como um pecador arrependido. Acercou-se de Carmen, balbuciando desculpas, lamentando o seu ciúme infundado, atribuindo a sua atitude ao grande amor que lhe tinha, ao medo de a perder. Desfeito, chorou no seu colo, suplicou-lhe que regressasse a casa. Não voltaria a acontecer! – Prometeu. Carmen não queria ceder. No seu íntimo sabia que tudo voltaria ao mesmo. Era mais forte do que ele. Tão complexas as suas atitudes! Era como um cordeiro que não se lembrava de ter vestido a pele do lobo e que sofria por a ter vestido... Esquecida das suas próprias dores, aquela mulher tomava sobre si as dores de seu marido. Chegava a sentir-se culpada de ser a causa de tanta infelicidade... E voltou. Como um condenado que caminha para o cadafalso. Mas quando sentiu de novo o filho nos braços, protegido, a salvo de qualquer perigo, sentiuse compensada, quase feliz. Depois daquela cena terrível, sucederam-se uns dias de tréguas, de atitudes cautelosas, comedidas. Mas em breve, à mais pequena contrariedade, vinham as ameaças: “Desta vez perdoei-te, mas se voltares a sair, não entras mais!” E com este e outros contra-sensos, se iam passando os anos.

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Capítulo VI

Com o tempo, Carmen foi percebendo que a infelicidade de Jorge não passava só por ela, era muito mais profunda. Até que profundezas não sabia... era um ser descontente consigo próprio e com todo o mundo. Não suportava a mediocridade – falando de bens materiais, bem entendido – porque a mediocridade de espírito não o afectava. “É preciso é ter dinheiro no bolso, o resto são fantasias líricas.”, costumava dizer. Sofria por não ter o bastante para se impor a todo o mundo. Sofria por não ter um carro de luxo, por ser um subalterno nos empregos, por não ter acabado o curso de engenheiro, enfim, por não ser um homem de prestígio que pudesse olhar de alto e subjugar com o seu poder os comuns mortais. “Jorge é um bom marido, diziam os que não viviam com ele. Não tem outras mulheres, não sai sozinho, é poupado, não te bate...” E, na verdade, assim era. Um bom marido – para outra mulher, talvez... Quantas vezes Carmen desejou que ele se embeiçasse por outra, que saísse sozinho... Quanto a bater-lhe... ele já tivera ocasião de perceber que naquela mulher, aparentemente submissa, ninguém punha a mão sem levar o troco. Carmen era calma, dócil e suave, detestava discussões, repudiava a violência, mas não era Cristo para dar a outra face... Os outros, aqueles para quem as pancadas eram a maior ofensa, ignoravam decerto que há palavras que ferem mais do que a mais aguçada das armas. Quanto a ser poupado... sua mulher diria: avarento; já que nesse particular também o desentendimento se fazia ouvir. Sob esse aspecto, o que mais a fazia sofrer não era o ele querer gerir sozinho as finanças do casal, obrigando-a a pedir-lhe o mínimo de que necessitava e que ele sempre achava demais. O que mais lhe doía era a brutalidade com que ele corria com os mendigos que lhes batiam à porta, antecipando-se a ela e proibindo-a de dar fosse o que fosse. Carmen, habituada como fora a ver sua mãe encher uma malga de sopa quente acompanhada de um pão e dá-la a quem pedia à porta... E se eram crianças... um pão com doce, uma peça de fruta. E se eram mães com filhos pela mão... também alguma roupa que já não servia aos pequenos. Pior ainda, era quando iam às compras aos supermercados... No parque de estacionamento havia sempre uma ou outra pobre mulher com um filho ao colo, mendigando: “alguma coisinha, por amor de Deus”. Carmen olhava a criança em farrapos, escarranchada na proeminente barriga da mãe, suja, desgrenhada, o ranho lambendo-lhe a boca, estendendo as mãozitas para quem passava, enquanto via o seu filho entrando no carro, comendo um chocolate e abraçando o brinquedo novo. Era demais para Carmen... – Vou dar-lhe qualquer coisa – dizia, ela. – Nem penses! São todas umas impostoras! Pedindo, ganham mais do que eu e tu juntos – contrapunha Jorge. Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Mas, para Carmen, aquela criança e as evidentes condições de vida em que sobrevivia, não eram uma impostura! Certo dia, julgando Jorge distraído, pegou um pacote de bolachas e apressava-se a dá-lo à criança – cujos olhitos augados já sorriam à guloseima – quando Jorge, bruscamente, lho arrancou das mãos, fazendo-a entrar no carro de rompante. Carmen ainda hoje se lembra de como chorou todo o caminho, presa à imagem daqueles olhitos augados. E, de como a indiferença de seu marido, fingindo não entender a razão daquelas lágrimas, mais não fez do que aumentar a sua revolta. Além de tudo isto, Jorge acusava-a frequentemente de todas as suas “desgraças”: – Se não te tivesse conhecido... tu é que me estragaste a vida! Devia ter adivinhado que dessa família de doidos não podia vir boa coisa. Estas, e outras piores, as plataformas de que Jorge se servia para que Carmen se sentisse culpada e, confusa, perdoasse todos os seus desmandos. O ataque como defesa, era a sua estratégia. A maior parte das vezes, ela fingia não perceber. Se seu marido fosse um homem de diálogo, Carmen teria conseguido encurtar a distância que os separava. Mas sempre que encetava uma conversa amena nesse sentido, ele logo cortava: “Deixa-te de filosofias baratas, isso comigo não pega – não sou os teus irmãos!” Jorge também deixara de ser um homem de ternuras. Se a mulher tentava fazerlhe uma carícia, recuava como se tivesse apanhado um choque, e dizia: “Deixate disso, falsidades, falsidades...” E Carmen engolia os beijos, fechava os abraços no vácuo. E o diálogo – qual criança débil – foi morrendo entre eles. E o amor – plantinha frágil – ia sucumbindo aos poucos no coração de Carmen. Subsistia apenas uma união de corpos, enquanto as suas mentes caminhavam em sentidos opostos, distanciando-se cada vez mais e mais. E a união de corpos subsistia porque Carmen participava dela sem recusas. À uma, porque só no leito conjugal sentia da parte de seu marido algum calor humano; à outra, para evitar que ele, obstinado como era, a obrigasse a tal contra sua vontade. Então, participava de pronto, deixando falar o corpo, que, como todos sabemos, tem uma linguagem própria, bem distinta do idioma da alma. E o prazer de que usufruía, mais do que uma atitude masoquista, tinha o sabor de uma vingança – era o pouco e o tudo que conseguia extrair daquela (des) união. De contrário, Carmen sentir-se-ia usada. Impensável! Isso agravaria a sua angústia, faria desmoronar de vez o seu orgulho, seria a degradação maior. Cada vez mais, Carmen entendia o quanto seu marido era um ser infeliz; como por detrás do déspota se escondia uma personalidade fraca, insegura, vulnerável – talvez uma criança que crescera sem amor... A mulher que escolhera teria de ser a mãe, a irmã, a amante, a serva – todas numa, única e exclusivamente sua. Qualquer ser humano a quem Carmen dispensasse uma partícula de atenção Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal representava para Jorge uma ameaça. Até as personagens incorpóreas de qualquer romance... Recordo-me que por esta altura parei de escrever, para perguntar à minha confidente: – Mas, Carmen, não estará a exagerar? É que me parece tudo tão absurdo... – Eu avisei-a, minha amiga, de que se avizinhavam tempos difíceis. E não menosprezando os seus dotes de escritora, creio que só um dramaturgo notável conseguiria dar as cores reais à minha história. – Perdoe-me, Carmen, não me passou pela cabeça duvidar... – Que é isso, minha amiga? Se até eu própria, por vezes, duvido que tenha vivido esses tempos... Retrocedo no tempo e penso se aquela jovem seria eu... E ao fazer-lhe as minhas confidências, tenho de fazer um esforço para usar a linguagem da cabeça e do corpo daquela mulher que, hoje, já não reside em mim. – Todavia, Carmen, julgo que ainda reside em si algo que perdura dessa jovem, algo que nunca foi conseguido... – Não sei de que fala... – Do Amor, Carmen, “desse amor fugidio que não agarro e que mora não sei em que lugar”, conforme diz num dos seus poemas. – Ah, minha amiga! Se eu soubesse onde está esse amor, faria para ele um outro poema:

NÃO RECORDES…

Não recordes quem eu era, que essa outra já se foi… Ama esta que te espera que sendo a mesma afinal, te parece desigual pelo quanto o tempo destrói. Beija os meus olhos pisados, sem brilho de tão lavados pelas lágrimas choradas… Beija os meus lábios vincados, que guardam gritos calados pelas queixas não gritadas.

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Círculo do Graal Abraça o meu corpo lasso, deformado pelo cansaço de tantas lutas travadas… E esquece essa que não volta, que o tempo, cavalo à solta, noutra época a deixou. Olha, amor, dentro de mim, vê como tanta desdita me fez muito mais bonita… Não recordes quem eu era, que o meu amor o que espera é que ames esta que eu sou!

– Carmen!!! Agora… Me perdoe o “lugar-comum”, mas eu direi que um poema vale mais que mil palavras!

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Capítulo VII Sem nos darmos conta, os meses foram passando velozes. Cada tarde que eu e Carmen passamos juntas parece ter a duração de escassos minutos. Só o crescimento do nosso romance nos vai dando a medida do tempo, tal uma criança que ainda ontem gatinhando, nos surpreende agora, caminhando pelo seu próprio pé. O Inverno emigrou já para outras paragens e o regresso do sol e das andorinhas anunciam que uma primavera florida e um verão quente não tardarão aí. Se bem conheço Carmen, sei que não demorará a esquivar-se aos nossos encontros. A sua ânsia de sol e liberdade começam a fazê-la sentir-se inquieta. E, justamente como eu previa, o temido dia chegou. – Minha amiga, vamos ter de parar um pouco – disse-me Carmen – tenho revivido demais o passado. Urge que me retempere com algo de novo, que dê descanso às minhas memórias. – Espero que não sejam umas longas férias... – Não. Apenas uns dias. Uma curta ida ao Porto a convite de uma amiga. – Já me falou dela? – Creio que ainda não, mas poderei falar-lhe. Chama-se Simone. É uma escritora de talento e uma crítica inteligente e perspicaz, capaz de reconhecer de imediato um “valor literário” que mal se desenha, ainda envergonhado. – Uma escritora? Ainda por cima crítica literária? Por favor, não ouse mostrarlhe a minha primeira hipótese de romance. Sentir-me-ia pequenina como um grão de milho. – Que ideia, minha amiga! Diz isso, porque não a conhece. É uma mulher sensível e despretensiosa, e tem uma qualidade que raramente se encontra entre os que se movimentam no mundo das letras. Não só é completamente despida de inveja ou despeito, como é sempre incentivadora e capaz de ajudar e estimular os principiantes mais tímidos. Vou contar-lhe como a conheci: – Alguns meses depois de meu marido ter partido deste mundo, um fenómeno estranho começou a passar-se comigo. Toda a poesia que, inerte e amalgamada, se aquietara dentro de mim, acordou de repente e irrompeu feita lava que me queimava. Eu escrevia como que alucinada, quase como de psicografia se tratasse. Daí a proporcionar-se um convite para integrar um cenáculo literário, depois uma associação de poetas, foi um passo. Como se tudo estivesse cumprindo uma predefinida calendarização cósmica.

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Círculo do Graal Foi num desses cenáculos que conheci a Simone. E de uma forma curiosa! Um dia, depois de eu ter lido alguns poemas meus, e já no final da sessão, ela acercou-se de mim e disse-me: – Sabe que é uma grande poetisa? Fiquei sem palavras, frente a uns olhos azuis que esperavam a minha resposta – uma resposta que eu não sabia dar. Intimidada, apenas consegui articular: – Amabilidade sua... Também escreve poesia? – Não! Sou prosadora. Mas adoro poesia e invejo os poetas. A partir daí, fomos trocando prosas e versos, e conheci a Escritora. Breve nos tornámos amigas. Se ela “invejava” a poesia que morava em mim, eu “invejava” nela os conhecimentos de música e pintura, os livros já publicados, as viagens que fizera, os museus que visitara. E dessa troca de invejas nasceu a nossa amizade, e um grande estímulo para a continuidade da minha poesia. – Agora já conhece a minha amiga! Quando acabar o seu romance, faço questão de lha apresentar. – Quando será isso, Carmen?... – Quer que lhe responda? Então, ouça:

PARA TUDO UM TEMPO CERTO! Para tudo um tempo certo, o momento inadiável… A pétala que cai fatigada, O fruto que tomba maduro, O poema que irrompe definitivo! – Entendi! Vá, Carmen, vá e retempere-se. Eu e o nosso romance esperaremos por si, pacientemente. – Até mais ver, minha amiga! Contar-lhe-ei tudo quando chegar.

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Círculo do Graal A minha amiga não demorou, de facto. Uma semana bastou para que voltasse reanimada e me procurasse de imediato. Carmen é daquelas pessoas que vive intensamente as alegrias singelas, os momentos mais simples. Vai sorvendo a vida a tragos lentos, aspirando o seu odor, apreciando-lhe a cor, sem pressa, como um especialista que bebe, deliciado, um vinho generoso. – Então, Carmen? Como foram esses dias? Pelo seu ar, que eu diria “lavado”, não é difícil adivinhar. – “Lavado”, é isso! Curioso, ainda não tinha achado a palavra certa. Acabou de ma dar, minha amiga. Dias que para muitos seriam insignificantes, foram para mim o levantar da ponta do véu que me ocultou o mundo durante tantos anos, como se eu tivesse vivido exilada noutro planeta. – Mas, Carmen... Sei que viajou, percorreu a Espanha, pisou o solo africano... Porquê uma simples viagem ao Porto...? – O que importa, minha amiga, não são os caminhos que se percorrem. São os olhos com que se vêem, o estado de alma com que se apreciam. Do Porto, e dos vários percursos até lá, apenas conheci a estrada, aprisionada num automóvel que corria veloz, insensível aos meus desejos; conheci a paisagem, que não desvendei, ruminando a minha frustração por não poder parar nos lugares desejados, tocar de perto castelos e mosteiros, conhecer a sua história, os tesouros que escondiam. E conheci também os restaurantes onde saciava o apetite, permanecendo, contudo, mordida pela mesma fome, uma fome antiga de beleza, cultura e liberdade... Sabe que eu não conhecia o Palácio da Bolsa, recheado de pinturas lindíssimas a forrarem-lhe as paredes e os tectos; o seu esplendoroso salão árabe, azul e dourado? Sabe que eu não conhecia sequer o Museu Soares dos Reis, com as suas magníficas esculturas e pinturas? Como me extasiei perante “O Desterrado”, duma leveza de linhas que mais parece ter sido esculpido a fina pena de ave e não a cinzel! Como me esqueci do tempo, frente às pinturas de Henrique Pousão – pintor português que fez escola em Itália! Como não dei pelo cair do sol, olhando, deslumbrada, as maravilhosas porcelanas e faianças e tantos outros encantamentos, alguns com mais de quatro séculos...! Fora isto, eu e a minha preciosa amiga – devo dizer que era ela quem me guiava – deambulámos pelas ruas do Porto, descobrindo uma igreja aqui, um mosteiro acolá, onde entrávamos sempre que podíamos, mirando e remirando um ornato, uma imagem, uma velha fachada de azulejos antigos. A sua paciência não apressava a minha curiosidade. Ultrapassadas as horas das refeições sem darmos por isso, corríamos afogueadas para o primeiro restaurante que nos servisse qualquer coisa de comer – não importava o que fosse, porque a fome maior já estava saciada. De regresso a Lisboa, tal como na ida, uma repousante viagem de comboio, o meu transporte preferido. Não os comboios de outrora, mencionados algures na minha narrativa, que me conduziam de uma prisão para outra, mas os

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Círculo do Graal de agora, comboios libertadores que me levam às fontes onde mitigo a minha sede! – Vejo que lhe fizeram bem estes dias, Carmen! – Sabe como me sinto, minha amiga? Como aquela menina deixada lá muito atrás, que, depois das suas deambulações pela Feira da Ladra, regressava a casa sentindo-se mais rica, carregando consigo todas as preciosidades que a tinham encantado. Recorda-se?... – Como esquecer esses maravilhosos dias da sua juventude, minha amiga? – E mais! Sinto-me de novo capaz de enfrentar as minhas memórias. – Óptimo, Carmen! Vamos a isso! Depois de relermos juntas os últimos capítulos, situámo-nos no tempo e retomámos o caminho interrompido.

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Capítulo VIII Corriam os anos de 1965/66. Carmen tentava a todo o custo dar um ar de normalidade à sua vida. Alguns pomos de discórdia com seu marido – os que se relacionavam com a família dela – estavam afastados. Seus irmãos, longe e dispersos. Eduardo, ao serviço da aviação, tinha partido para a Guiné logo após o casamento de Carmen. Carlos Alberto nunca se sabia onde parava. Os outros mais novos, como já sabemos, em terras de África. Por outro lado, morando Carmen fora de Lisboa, até mesmo as visitas de sua mãe e de seu padrasto eram espaçadas. Mesmo assim, estavam sempre sujeitas à má disposição de Jorge e eram motivo de sequentes discussões entre o casal, razão porque se tornavam cada vez mais raras. Carmen ia ficando dia a dia mais isolada dos seus. Restavam-lhe apenas os que moravam a uma rua de distância: a prima Lurdes e a tia Augusta, que, já de idade avançada, vivia agora com a filha. Essa tia que ela adorava! Mas, até dos poucos que restavam perto, Jorge continuava a ter ciúmes. Relatar todas essas explosões seria exaustivo. Surpreende-me até que Carmen não tenha esquecido nenhuma delas. Quanto a mim, não posso deixar de mencionar algumas que me pareceram por demais inverosímeis. Por exemplo: Aquele dia em que Jorge, enfurecido, ordenou à empregada que deitasse fora toda a fruta e doces que a sogra, carinhosamente, e quem sabe se com algum sacrifício, levara na sua visita. Dia em que, nem os protestos de Carmen, nem os olhos esbugalhados da amedrontada serviçal, impediram que os mimos fossem jogados pela janela... Ou aquele domingo em que Jorge teve de se ausentar para acompanhar os pais a terras da Beira, não podendo a mulher acompanhá-lo porque o pequeno Pedro estava com febre. Até aqui, nada de mais. O inacreditável aconteceu quando ele chegou, no dia seguinte, já noite alta. Deparando com os primos (Lurdes e o marido) e a tia Augusta que, preocupados, faziam companhia a Carmen e ao menino, Jorge, sem qualquer respeito, numa atitude perfeitamente alienada, abriu a porta da casa e pô-los na rua, berrando que não admitia visitas na sua ausência... Ou, ainda, num certo aniversário de Carmen, quando Jorge chega a casa com a primeira televisão. Carmen foi esperá-lo à porta, alegremente. Entrados na sala, apressaram-se a retirar o aparelho da caixa que o envolvia, colocando-o no sítio adequado. Embora não se tratasse de um presente apenas para ela, Carmen agradeceu-o como tal, retribuindo a seu marido com um terno beijo. Prometia ser uma noite de alegria... Porém – havia sempre um porém – Jorge, ao deparar com a sogra, que ajudava Carmen a preparar o jantar de “festa”, virou uma fera. E, sem mais aquelas, vai direito à recém-chegada televisão e, vociferando os habituais “mimos”, volta a enclausurá-la na caixa transportadora. Não haveria televisão para ninguém!... E não houve, mesmo! Durante estes e outros relatos, eu ainda me surpreendia:

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Círculo do Graal – Mas, Carmen, é absolutamente inacreditável! Isto é, seria inacreditável se não fosse contado por si! – Mas é verdade, minha amiga! Aquele era o meu marido, o pai do meu filho, o homem com quem eu partilhava parte de mim. E digo parte de mim porque houve uma outra parte que eu aprendi a esconder, como se ela tivesse deixado de me pertencer. E assim, às ocultas, como quem guarda um tesouro, consegui preservá-la, intocável. Essa, é hoje a minha riqueza! – Como a admiro, Carmen! – De nada me vanglorio, minha amiga! O que faço é agradecer constantemente a Deus por Ele me ter privilegiado com uma enorme capacidade de superar desaires e desgostos... Embora sem esquecimento! E a comprovar que não existe nela esquecimento, Carmen continua a relembrar... É essa sua nítida memória, de factos, sentimentos e emoções, que me faz poder dizer-lhes hoje que aquele era o tempo em que Carmen se debatia entre a angústia, a impotência e a incompreensão. Sobretudo a incompreensão, pois tudo lhe parecia demasiado inconcebível. Era também o tempo em que ela se sentia menos do que um trapo, pouco mais do que uma frágil rede, à qual era arrancado cada dia mais um fio. Tempo em que dava por si a caminhar pelas ruas, sem destino, o coração apertado, um nó na garganta, as lágrimas rolando à revelia da sua vontade. Vezes houve em que hesitou entre meter-se debaixo de um qualquer carro ou entrar nele. Mas, seu filho era a ourela que segurava os fios que ainda restavam naquela rede esfarrapada, e era ele, apenas ele, que, na sua fragilidade, detinha a força que a impedia de cometer um acto tresloucado. E tinha, ainda, felizmente, outros suportes. A sua vida profissional, com o respeito e a admiração de colegas e superiores, dava-lhe outro contraponto equilibrador. Por outro lado, Carmen aprendera a munir-se de uma infinidade de cortinas, que corria, sempre que precisava de isolar os seus mundos. No emprego entregava-se responsavelmente às suas tarefas, alheando-se da sua vida pessoal, e ninguém suspeitava do quanto ela era atribulada. Também não levava a profissão para casa. E essa capacidade de separar as águas defendeu-a duma inundação que teria sido perniciosa para o seu cérebro. Carmen correu a cortina da família, a dos amigos, a do amor, a dos sonhos; vezes sem conta, a cortina do orgulho. E, correndo cortinas, se foi mantendo de pé.

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Círculo do Graal Capítulo VIII

Pedro tinha, então, três anos. Era um menino lindo, saudável, inteligente, curioso e irrequieto. O pai gostava dele, é certo, mas nunca sabia o que fazer quando algo corria mal. Era sempre a mãe que o levava a médicos, a vacinas, que o embalava no colo quando tinha dores, que velava por ele quando tinha febre, lhe dava os remédios a meio da noite. Era sempre a mãe que o mimava, lhe ralhava, o ensinava a falar, a fazer jogos, lhe cantava ou contava histórias para dormir. Depois da desistência de Zefa, as empregadas não paravam lá em casa e Carmen já não estava confiante ao deixar o pequeno todo o dia com elas. Seria melhor mudarem-se para Lisboa, onde ambos trabalhavam, vigiariam o filho mais de perto. Mas Jorge não se decidia. Tudo o que fosse mudança de hábitos o assustava. Porém, um dia apanharam um susto. A nova empregada viera para a escada falar com uma serviçal vizinha, deixando fechar a porta da casa com o menino lá dentro. O pequeno, vendo-se sozinho, avançou para uma varanda que estava aberta e, empoleirado nas grades, chorava de aflição, olhando a rua. Era um terceiro andar! Acorreu a porteira, foram buscar a prima Lurdes, e foi esta que, rapidamente, chamou os bombeiros para que abrissem a porta. Tudo isto, obviamente, demorou muito mais tempo do que eu a fazer este relato. Só a Mão Divina evitou que o pior acontecesse. Este perigoso incidente foi, contudo, decisivo para a mudança da família para Lisboa. Solucionada esta questão, outra se impunha a Carmen: estava na hora de Pedro frequentar um Jardim-Escola. Prescindiriam da empregada doméstica. Disso falou a seu marido. – Outra invenção? – Ripostou Jorge. – Sabes bem que quero comprar um carro! O menino pode ficar com a minha mãe. Mas ela não era da mesma opinião. A educação de seu filho era prioritária. Como nunca chegavam a acordo, cada um ia lutando pelo que desejava. Carmen sempre se valia da concordância de seu sogro para a realização dos seus projectos – da sua ajuda também! Então, procurou, informou-se sobre o que havia de melhor e decidiu-se pelo Jardim-Escola João de Deus. Difícil era arranjar vaga, mas Carmen acabou por conseguir. Jorge conseguiu também comprar um carro, embora em segunda mão. Parecia agora menos infeliz. Com algumas dificuldades, iam mantendo casa, carro e colégio. Sem empregada, claro! Época que Carmen retratou, mais tarde, neste poema: MULHER (Sete fôlegos como os gatos) “Sete fôlegos” como os gatos, sete vidas tens de ter numa existência somente... Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Não dá pra uma escolher, todas terás de viver, neste palco, em vários actos, sempre a sorrir e contente, porque nasceste Mulher! És a filha, és a esposa, és a mãe e em ti repousa toda a canseira do lar… És pau pra toda a colher Que não pára de mexer Para a todos agradar. Nem tens tempo de lazer, porque nasceste Mulher! Nessa lida, nesse afã, sais pra rua de manhã, figura quase sem jeito... Pesada ao ombro, a sacola, filho pendurado ao peito, largado à porta da escola. Nem tens tempo de sofrer, porque nasceste Mulher! Já cansada e dolorida, vais pro trabalho a correr, sentindo como chicotes, impropérios e dichotes dos que babam por te ter... Calas a alma ofendida, sem tempo pra responder, porque nasceste Mulher! Voltas a casa à noitinha, lavas roupa, fazes camas, e milagres na cozinha… Cais na cama em gesto louco, sufocando um grito rouco, pois teu homem inda quer que lhe mostres com prazer por que nasceste Mulher! E já é de manhãzinha! foi-se a Lua sem merecer que a olhasses um nadinha... De novo o Sol a nascer, reprise dos mesmos actos... Não te podes esquecer! “Sete fôlegos como os gatos” porque nasceste Mulher! Carmo Vasconcelos

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E porque tinha nascido mulher, Carmen não tinha tempo para alimentar a poesia que, informe dentro de si, pedia vida. Mas, a semente existia e, embora maltratada, sobreviveu e floriu, “no tempo certo”, como a minha amiga costuma dizer. Porém, mentiríamos se disséssemos que tudo era mau. Carmen pegou-se à família do marido. Os primos de Jorge com as respectivas mulheres e filhos eram agora os parentes de que dispunha. Com eles, podia conviver, rir e brincar, sem que seu marido levantasse quaisquer problemas. Somente com eles, Jorge se sentia feliz. Apenas eles, não eram seus “inimigos”. Juntos, davam grandes passeios, faziam campismo pelos parques do país, passavam férias em grupo, correram as praias de Espanha. Carmen descobrira como dar momentos de descanso à sua vida conturbada. Podia ter exercido represálias, pagar na mesma moeda, repelindo a família dele. Mas Carmen tinha o sentido da justiça. Uma atitude dessas não seria justa para eles: tão amigos, tão dedicados, sempre prontos a defendê-la, a chamarem Jorge à razão, frequentemente testemunhas das suas incongruências. Eu escutava, tentando manter-me em silêncio. Tinha prometido fazer o mínimo de interrupções, mas, por vezes, era inevitável: – Perdoe-me, Carmen, mas o seu sentido de justiça não contemplava a si própria! Não sei se eu, nas suas condições, teria sido tão altruísta... – Engana-se, minha amiga. O meu procedimento não era de todo altruísta, não era somente para ver o meu marido feliz... Eu estava também a tentar preservar o meu equilíbrio e, principalmente, o de Pedro. Era a noção de família que eu queria instilar no meu filho, provê-lo desse suporte tão importante que eu via estar a ser-lhe roubado. E era esse suporte, que eu não queria arrancar-lhe, que me mantinha agarrada ao casamento. – Mas, Carmen, existem tantas crianças que crescem felizes não obstante a separação dos pais... A Carmen é disso um exemplo. – Eu sei, minha amiga. Mas também existem muitas crianças, e até adolescentes, que nunca se conformam com isso, que enveredam por caminhos perigosos e nefastos, fazendo dos pais, réus dos seus maus percursos. Não é verdade?... – Também acontece, sim! Não temos “bola de cristal” e qualquer atitude nesse sentido é sempre um risco. Aliás, como em qualquer outro sentido. Mas não é, afinal, essa nossa ignorância do futuro que torna a vida aliciante? – Sem dúvida, minha amiga, sem dúvida! Aliciante para uns, um inferno para outros... – E para si, Carmen? – Nem uma coisa nem outra. Para mim, cada “hoje” é já futuro.

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Círculo do Graal – Pois, para mim, se quer saber, no meu futuro mais próximo, aliciante é a conclusão deste romance; um inferno, a ignorância do quanto falta para o terminar... – Lamento, minha amiga, mas não sei dizer-lhe o quanto o seu inferno ainda vai durar... Sabe porquê? Respondo-lhe com um interessante texto de uma grande amiga, a escritora Madalena Gomes: “A Palavra, que eu amo com tão acrisolado amor, é a aventura por excelência. Nunca sabemos aonde ela nos levará, que outras palavras arrastará na sua esteira, se o silêncio... se um livro inteiro. Qual pequeno seixo, solta-se, ganha vida, só ela conhece o itinerário. Nós, os escritores, sempre irremediavelmente secundários no processo da criação literária.” – Mas é exactamente isso! – Exclamei, emocionada pela beleza e veracidade do texto. – Então, minha amiga? Ficou menos ansiosa? – Claro! A Carmen sempre detém o poder de me acalmar... E, grata por levar comigo o meu inferno menos aceso, despedi-me da minha narradora com dois beijos calorosos e um tranquilo e conformado “Até quando puder, Carmen...” – Tenha a certeza de que voltarei! – Respondeu-me ela, com o seu habitual sorriso.

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Capítulo IX Carmen, apesar dos múltiplos afazeres entre os quais se divide – a família, as traduções e revisões literárias, a poesia, as tertúlias culturais – sempre arranja tempo para os nossos encontros, que mais não são, afinal, do que encontros consigo mesma – desdobramentos da criança, da jovem, da mulher que foi; também da mulher em que se tornou. Factos, sentimentos e emoções, novelo de fios enredados, amarelecidos pelo tempo – uns de textura macia, outros de grande aspereza – que eu e ela, como dois operários laboriosos, destrinçamos e tecemos, ora em páginas de seda ora em páginas de estopa. O pequeno Pedro começava já a dar mostras de uma grande sensibilidade e de um forte apego à mãe. Deixado no Jardim-Escola todas as manhãs, era com grande esforço que a educadora o arrancava dos braços da mãe, lavado em lágrimas. Como custava a ambos aquela separação! Carmen corria para o emprego e, embora repetisse para si mesma que estava fazendo o melhor, os soluços do seu menino travavam-lhe a caminhada. Como o colégio fechava às quatro da tarde, era o avô Simão que, diariamente, ia buscar Pedro, levando-o para sua casa, onde ficava aos cuidados da avó Rosalina até que Carmen e Jorge, findos os horários laborais, o pudessem ir buscar e levar com eles de volta a casa. Durante as férias colegiais, Pedro ficava em casa dos avós o dia inteiro, mas Carmen corria a vê-lo à hora do almoço. O pior era quando saía de novo! O pequeno sempre ficava em lágrimas, e em lágrimas a mãe se despedia dele. Simão adorava o neto. Foi ele que lhe comprou o primeiro cavalo de “pasta”, o primeiro triciclo. Chegou até a comprar um gravador portátil para gravar as ainda mal pronunciadas palavras de Pedro, entoando as canções que aprendia no colégio. Era ele que lhe pegava ao colo, que lhe pedia um beijo. Rosalina, com o seu jeito rude, cuidava do menino da mesma forma que sempre cuidara do filho – mesa farta, escassez de ternuras. Quando chegava Setembro, uns dias de férias na aldeia beirã eram obrigatórios. Era a época das vindimas! Toda a família – a da cidade e a da aldeia – se unia para colher os saborosos bagos de cores violeta e oiro. Partiam em bandos, manhãzinha, nos carros de bois ou a pé, para as vinhas mais próximas. Lenços na cabeça, chapéus de palha, a merenda, bilhas de água, garrafões de vinho da colheita anterior. Enquanto iam cortando os cachos, empunhando grandes tesouras de vindimar, homens e mulheres da aldeia, onde todos são primos e primas, ora cantavam ora trocavam graçolas picantes que os faziam desabar em gargalhadas cristalinas como as fontes que corriam perto. Por perto tinham também de estar: o naco de pão, a sardinha frita, as canecas de barro e os garrafões do precioso néctar que eles não dispensavam. A linguagem, Céus! Era de fazer corar as pedras da rua! Mas tão espontânea e natural, tão característica do seu habitat! E entre risos, cantigas e múltiplas goladas de vinho, se iam curvando os dorsos e enchendo os cestos. À tardinha, “rodilhas” e cabelos ensopados do sumo violáceo, as mulheres carregavam à cabeça os cestos cheios, para os carros de bois que, por sua vez, os acarretavam para as adegas. Para trás ficavam as videiras nuas, decepadas. Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Os sogros de Carmen tinham uma bela casa, em comparação com as velhas e desconfortáveis construções locais, feitas de pedra dura e negra. A casa primitiva, herança de pais para filhos, tinha sido o berço de Rosalina, e lá enviuvara sua mãe Gertrudes, do pai desaparecido em França durante a 1ª Grande Guerra. Mantendo a traça original e a frontaria de pedra, Simão mandara-a remodelar, dando-lhe as comodidades interiores indispensáveis a quem estava habituado às casas da cidade. Era uma construção de dois andares, servida por uma escada exterior, que se sobrepunha às lojas e a adega. No résdo-chão, tinha sido mantida a adega e as duas lojas onde se armazenavam batatas, cebolas e feijão. Aí, agora quase inúteis, as arcas de madeira onde noutro tempo se guardava o pão feito no forno da casa, a farinha de milho para as “papas de hortaliça” e os restantes víveres. No primeiro andar, onde outrora funcionara uma desmesurada cozinha velha, sem água corrente nem luz, estava instalada agora uma sala de refeições com lareira, uma cozinha modernamente equipada e uma casa de banho, ambas servidas por água corrente saída directamente de um depósito instalado sobre o telhado. A água subia do solo, puxada por um motor eléctrico que fazíamos funcionar accionando um interruptor. E isto, porque a pedido de Simão, o vedor lá da terra, tinha localizado o veio de uma bela nascente e aí tinha sido aberto o “furo” onde se ligava o motor. No segundo andar da casa, três quartos de dormir e duas salas de estar. Estas, iluminadas por janelas de guilhotina, de vidrinhos quadriculados, davam-nos a amplidão imensa de vinhedos sem fim, amparados lá muito ao fundo pelas encostas da serra da Estrela. E era na adega, sobre a comprida mesa de madeira, que se servia ao fim do dia, a “ceia” para os trabalhadores – a carne de porco assada, o arroz de frango, o coelho à caçadora. Os jarros enchiam-se à boca dos tonéis que guardavam as reservas dos últimos anos. Quase todos os presentes eram aparentados à família por laços de sangue. A eles se juntavam Jorge e Carmen, Simão e Rosalina, a avó Gertrudes e sua irmã, a tia-avó Ana, que já tinha passado os noventa anos. Carmen apreciava aquelas comidas fortes, aquele vinho quente, a comunicação humana, simples mas calorosa, transparente como o líquido rosado que escorria pelas gargantas. Finda a ceia, cantavam e dançavam à moda da região e ela acompanhava-os, misturava-se com eles, sentia-lhes de perto o cheiro a terra, suor e vinho. Carmen tinha uma saúde e uma alegria de ferro! Amava a Natureza e movia-se sem dificuldade naquele equilíbrio a que a obrigavam o seu pé na terra, o outro nas alturas... E aquele povo adorava-a! E naquele povo, Carmen se detinha a pensar em momentos de reflexão. Pensava naquelas mulheres de trinta anos, de pele precocemente envelhecida pelo queimar de sóis e geadas, aparentando décadas maiores; pés descalços, calejados e gretados; mãos crestadas que arranhavam ao mais leve afago. Pensava em como seriam as suas noites, noites em que geravam filhos depois de irem buscar os seus homens à taberna, a cair de bêbedos, ameaçando-as de pancada, agressivos como cães selvagens. E pensava também nas crianças... Crianças alimentadas a “sopas de cavalo cansado” (sopas de pão em vinho), mal adoçadas com leve poeira de açúcar. Na mente de Carmen persiste ainda uma imagem nunca esquecida. Aquela manhã em que um bebé loiro, cuja sujidade e ranho no nariz não eram suficientes para minorar a sua beleza, quase morreu ao rolar Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal pelas escadas do casebre em que morava, porque a ignorância lhe tinha “matado o bicho” com um copo de aguardente. Ainda não tinha completado três anos de idade!... Na adega, o lagar ia ficando repleto com o produto dos cestos despejados. E era aí que começava uma outra faina: o pisar das uvas, pelos pés dos homens, de calças arregaçadas, e das mulheres, de saias compridas e rodadas encurtadas com nós a meio das coxas. Num movimento contínuo e cadenciado espezinhavam bagos e engaço, rostos e corpos suados, as pernas roxas, o mosto escorrendo pela bica após os cachos esbagoados. Mais tarde... os tonéis cheios. Tudo isto, além de novidade, era alimento precioso para a insaciável curiosidade de Carmen e, também, divertimento. Apesar da sua essência citadina, ela era uma “geminiana” típica e o seu signo astrológico de “ar”, dotara-a de uma tal capacidade de adaptação a lugares e gentes, situações e circunstâncias, que se alinhava sem esforço no ambiente que a rodeava. “Em Roma sê romano!” era (e continua a ser) o seu lema. Corrida a “cortina” da cidade, Carmen vindimava, cantava, dançava e ria com os primos e primas de seu marido, sem que ele levantasse a mínima objecção... Naquela aldeia, a Jorge, “taurino” de espírito fixo e pouco adaptável, não fazia falta a adaptabilidade de que carecia. Ali era o berço dos seus antepassados, dali não podia vir mal ao mundo... Então, sentia-se como peixe na água. Para ele, era o repouso do guerreiro! Para Carmen, tréguas às suas batalhas e angústias. Findos os trabalhos vitícolas, sucediam-se as idas à vila, os passeios pelos arredores – Viseu, São Pedro do Sul, o Caramulo. Carmen enchia-se daquela beleza paisagística, da frescura daqueles verdes, deixando hibernar a sua sede de cultura e arte. “Um dia... talvez um dia...”, pensava ela. E na monotonia das longas tardes em que toda a aldeia dormia parecendo morrer para o mundo, Carmen cavalgava sonhos na montada imóvel do silêncio, estremecido apenas de quando em vez pelo suave murmúrio das fontes. Tecia poemas, galgava mundos, pintava oásis no seu deserto interior. Ferviam vulcões na sua quietude serena. Curiosamente, pouco lia, nada escrevia. Hoje, sabemos que estava erguendo, lenta e silenciosamente, pedra sobre pedra, o palácio das suas memórias. Assim ia decorrendo parte da infância de Pedro que, durante essas férias campesinas, dava largas à sua vivacidade, correndo pelos pinhais, montando os carros de bois, tomando banho no rio, construindo as fisgas com que caçava pássaros com os primos e amiguinhos de Verão. Parecia uma criança feliz... Terminadas as férias, era o regresso à escola, aos empregos, à vida trepidante da cidade, ao quotidiano eivado de dúvidas, desconfianças, intranquilidade.

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Capítulo X

E eis-nos chegados aos anos setenta. Já o primeiro homem tinha caminhado na Lua. “Um pequeno passo para um homem, um salto de gigante para a Humanidade”, disse o americano Neil Armstrong quando, em 21 de Julho de 1969, pôs o pé no Mar da Tranquilidade, em pleno solo lunar, perante 600 milhões de telespectadores – um quinto da população mundial, na altura. O “pequeno passo” que permanecerá para sempre gravado na consciência colectiva do Universo. E, enquanto milhões de dólares são despendidos nesta invasão do Espaço, o martirizado povo do Biafra morre de fome, sucumbido por uma guerra que desde 1968 já roubara à vida mais de dois milhões de seres humanos. Em Portugal, avizinham-se tempos de viragem política. No povo acende-se uma centelha de esperança. Salazar, o político que mais tempo exerceu o poder em Portugal durante o século XX, morre em 27 de Julho de 1970, em consequência de um acidente que lhe provocou problemas cerebrais irrecuperáveis e que já o mantinha afastado do Governo desde 1968, ano em que lhe sucedeu Marcelo Caetano. Para além de algumas novas medidas “espectaculares”, como a implantação das pensões de reforma e as “conversas em família” através dos ecrãs da televisão, o novo governante pouco mais deu aos portugueses. O mesmo regime de ditadura, a mesma polícia de repressão, os mesmos salários de fome, continuavam. E o povo precisava de mais, muito mais. Carmen também precisava de mais, de muito mais... O ano de 1970 rouba-lhe mais um ente querido. Desta vez, o seu padrasto. Felizmente, uma morte tranquila, sem sofrimento – um coração cansado que, simplesmente, deixa de pulsar. Chamada à pressa por sua mãe, Carmen corre para despedir-se daquele que tinha sido o seu verdadeiro pai e a quem ela amava como tal. Mas, nunca a morte esperou por ninguém, e quando Carmen chega já ele havia partido para sempre. Diolinda, sessenta e sete anos gastos, está como que paralisada ante a perspectiva da sua futura solidão. Não esperava perder de repente o companheiro de tantos anos, vê-lo partir antes dela. Eduardo, já regressado da Guiné, e que entretanto casara e era pai de dois filhos, mora longe, fora de Lisboa. Demora a chegar. E é preciso agir, tratar do lado prático que nem mesmo a morte dispensa. Carmen telefona ao sogro, habituado que fora, quando auxiliar de enfermagem, a lidar com os trâmites que a situação impunha. Ele chega num ápice para ajudar naquela hora aflitiva. – Temos de ser rápidos! O corpo começa a arrefecer. Temos de o vestir sem demora, fechar-lhe os olhos, amarrar-lhe os queixos. Depressa, Carmen! Ela quase impede sua mãe de chorar. Carmo Vasconcelos

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– Vamos, mãe! O fato, a camisa, a gravata... Diolinda, atarantada, faz questão de passar a ferro as últimas peças de roupa que seu marido vestiria. – Para que é isso? – Diz Simão. – Vamos ter de as rasgar para as conseguirmos vestir... Carmen reveste-se de coragem e, lado a lado com o sogro, cerra para sempre os olhos de seu “padrinho”, aqueles olhos azuis que jamais a envolveriam com a sua doçura; passa-lhe um lenço sob os maxilares e aperta-lho com um nó sobre a cabeça. Um pensamento atravessa-lhe a mente: “Como ficam ridículos os mortos, de queixos atados!...” Depois, veste aquele corpo enorme que já começava a ficar hirto; ajeita-lhe a gravata, dobra-lhe os braços, os mesmos braços que tantas vezes a seguraram no colo; e, finalmente, cruza-lhe as mãos sobre o peito. Era a sua última homenagem, a sua última prova de amor, o mínimo que podia fazer por aquele que tanto fizera por ela. Só depois, Carmen chorou. Ao reler este episódio, não posso deixar de constatar uma ideia que há muito perfilho: Carmen é uma mulher de acção. Para ela, a acção, quando imperiosa, vem sempre primeiro, ainda que muito lhe doa. Só depois se deixa tomar pela emoção, se dá o direito de sofrer. E o tempo nos mostrará a veracidade desta afirmação... ~~~/~~~

Pedro anda já pelos seis anos. Frequenta a 1ª. Classe da Instrução Primária. Não na Escola Oficial, mas num estabelecimento de ensino particular. Esta escolha de Carmen não se devia a snobismo. Apenas se lembrava de como tinha aprendido eficientemente as matérias, frequentando a Escola Particular da Dona Ermelinda. Menos alunos, mais atenção, mais disponibilidade para cada um deles. Pedro aprendia com facilidade. Era meticuloso, arrumado, e demonstrava uma particular aptidão para o desenho, tendência herdada de seu pai. Jorge era um técnico nato. Desenhava os móveis que pretendiam adquirir, fazia ligações eléctricas, construía até pequenos acessórios para a casa. E, consertava de imediato tudo o que se avariava. Mas, não tendo terminado o curso, vira-se obrigado a aceitar a primeira oportunidade de emprego que lhe aparecera – comissionista de uma firma de bebidas espirituosas. A sua frustração acentuavase! Começou a beber, por vezes mais do que a conta. E a conta para ele tinha de ser pequena. A sua estrutura orgânica suportava mal o álcool, sobretudo as misturas. Tornava-o, ora agressivo ora deprimido, e mais desconfiado – se é que mais era possível. Frequentemente, chegava a casa ao fim do dia e deitava-se de imediato, às escuras, sem uma palavra. Carmen perguntava:

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Círculo do Graal – Que tens? – Nada. Deixa-me! – Não vens jantar? – Não! Deixa-me em paz! Carmen sentava-se na cama, a seu lado. E insistia: – Passou-se alguma coisa lá no emprego? Conta-me! – São todos uns pulhas! Uns pulhas! Cambada de cabrões! Mas eu dou cabo deles! Dou cabo deles! E a sua ira estendia-se a Carmen, empurrando-a violentamente para que o deixasse sozinho. O cheiro a álcool era denunciador. Ela saía do quarto, fechava a porta. Era inútil tentar acalmá-lo, fazer-lhe um carinho, sequer insistir em saber o que se passara. O pequeno Pedro perguntava: – O papá está doente? – Não, meu filho, está cansado. Dói-lhe a cabeça. Vamos jantar que ainda tens de fazer os trabalhos da escola. – E o papá não janta? – Janta mais tarde, quando se sentir melhor. Carmen disfarçava a sua tristeza e, pondo um ar despreocupado, sentava-se à mesa com o seu único companheiro. Enquanto jantavam, Pedro falava da escola, dos deveres que trazia para fazer, dos que tinha feito durante o dia, das brincadeiras do recreio. Na garganta de Carmen enrolavam-se alimentos e lágrimas recolhidas. Findo o jantar, dizia a Pedro: – Vai agora fazer os teus trabalhos enquanto a mamã arruma a cozinha. – E não me vens ajudar? – Se tiveres alguma dúvida, a mamã depois ajuda-te. Trabalhos feitos, mochila arrumada para o dia seguinte, Carmen metia o filho na cama. Juntos, faziam “o sinal da cruz” que ela lhe havia ensinado e, após o habitual beijo de despedida, Pedro adormecia como um anjo. Depois, Carmen ficava entregue à sua solidão e aos seus pensamentos. Há muito que perdera até a vontade de ler. Só pensava. Pensava no marido, tão infeliz! Pensava nela, tão só, tão entregue a si mesma! Pensava no filho e como ele devia sentir a falta de um pai, isto é, de um pai que conversasse com ele, lhe contasse coisas da sua Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal meninice, que inventasse jogos, risse com ele... Não! Rir já era pedir demais, que rir era coisa que Jorge não sabia fazer. E Carmen pensava: “E se nos separássemos?...” Mas logo desistia. Ela sabia que Jorge jamais iria concordar. Servir-se-ia do filho para a prender. Por outro lado, sem ela tornar-se-ia um ser ainda mais infeliz. Depois, pensava, ainda: “E como reagiria Pedro? Seria mais uma dessas crianças traumatizadas pela separação dos pais?...” Carmen buscava a solução ideal, aquela que não magoasse ninguém... Buscava o impossível! Pensava, pensava, mas os seus pensamentos não faziam mais do que rodopiar em círculos. Círculos que sempre se fechavam, deixando-a aprisionada, sem saída. Um dia... como me pesa relatá-lo! Diolinda, viúva, filhos distantes, era agora uma mulher muito só. Habituada que fora a ver a casa cheia, quase não a suportava de vazia. Não tinha paciência para fazer uma única refeição só para si. Perdera o gosto pelas roupas, pelos adornos; ela sempre tão cuidadosa com o seu aspecto! Iludia a solidão pelos cafés e pastelarias do bairro, falando com outras idosas igualmente solitárias, e alimentava-se de sanduíches, bolos e galões. Vieram-lhe, a diabetes, a tensão alta, as noites de insónia, a gordura excessiva e balofa. Só na última, e a insistências de Carmen, ia a uma consulta médica. A pensão que António lhe deixara não era gorda mas dava para a sua frugal alimentação e para os medicamentos. A renda de casa era barata e em água e luz pouco gastava. O telefone, talvez a despesa maior. Todos os dias telefonava à filha, fazia-lhe as suas queixas. O relacionamento entre elas estreitou-se. Carmen até já tratava a sua austera mãe por “tu”, tratamento que não minorara o respeito, apenas era mais íntimo. Sempre que podia, Carmen aproveitava a hora do almoço para estar com ela, dar-lhe um pouco de conforto. Comiam juntas, conversavam. Mas o tempo era tão pouco, e os dias são tão longos para quem vive só... Contudo, até esses breves encontros Carmen escondia de Jorge, para evitar contendas. Até a mentir se via obrigada, ela que detestava a mentira! A sua vontade era levar a mãe para junto de si e do neto, mas Jorge nunca aceitaria tal coisa. O vê-la por lá de visita, raramente, já dava azo a discussões. E Carmen ocultou-lhe esse desejo, como lhe ocultava tantos outros. Só com ocultações, mentiras e dissimulações, ela conseguia alguma paz. Mas começava a detestar a deterioração da sua personalidade, era como se olhasse no espelho e não se conhecesse. Num daqueles almoços clandestinos entre mãe e filha, Diolinda desabafou: – Aborreço-me sem fazer nada, os dias são tão longos, parece que as horas não passam... Como gostava de poder ajudar-te, tu que trabalhas tanto, ainda com o serviço da casa depois de matares a cabeça no emprego... Fazia-te uma sopa para o jantar, engomava-te alguma roupa e ia-me embora antes que o teu marido chegasse... – Porque não, mãezinha, se isso te dá gosto e a mim até me faz jeito? A porteira tem as chaves, voltas a pô-las lá quando saíres – anuiu Carmen, pensando Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal sobretudo em como ajudaria sua mãe a sentir-se útil, a queimar os tempos mortos. E foi nesse dia – dia em que Jorge nem chegou a ver a sogra – que o pior aconteceu. Chegados a casa, a panela ainda quente sobre o fogão e a pilha de roupa passada a ferro denunciaram a presença de alguém “estranho” à casa. – Quem esteve cá? – Pergunta Jorge, de olho virado. Carmen enfrentou-o: – A minha mãe, porquê? Só veio ajudar. Adiantou o jantar, engomou a roupa. – Como entrou? Quem lhe deu as chaves? – A porteira, quem havia de ser? Jorge corre a tirar satisfações à porteira. Recrimina-a por ter dado as chaves da “sua” casa sem a autorização dele. Carmen tenta chamá-lo à razão. Insurge-se: – Mas quem sou eu aqui? Não me tens o mínimo respeito? E, palavra puxa palavra, rastilho sobre rastilho, se incendeia a discussão. Palavras que Carmen prefere não repetir hoje, nem mesmo para mim. Palavras que, dessa vez, Carmen não pôde evitar que seu filho ouvisse. Jorge, possesso, empunha uma faca de cozinha em direcção a Carmen. Ela recua, encosta-se a uma parede. – Eu furo-te! – Berra Jorge, tomado de fúria demoníaca, encostando-lhe a lâmina ao peito. Por segundos, Carmen viu a morte à sua frente. Tremiam-lhe as pernas, dobravam-se-lhe os joelhos, batia-lhe o coração descompassado, mas, impulsionada por uma força que dir-se-ia sobre-humana, ou apenas por um forte instinto de defesa, olhou seu marido bem nos olhos e, arvorando uma fortaleza que interiormente não sentia, desafiou-o: – Fura se és capaz! Fura! Desarmado, Jorge baixou a faca. E a mulher, aquela “frágil” mulher, arrancoulha das mãos. Carmen não se lembra de ter ouvido nem mais uma palavra. Pedro chorava, assustado. Ela tentou acalmá-lo: Carmo Vasconcelos

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– Não chores, Pedro. Não é nada! Não vês que a mamã está bem!? E, num relâmpago, pega a carteira e o casaco, enfia um sobretudo no pequeno, e abala porta fora – filho ao colo, fortemente estreitado ao peito. Esta era a mulher de acção que se escondia sob a serena e doce Carmen!

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Capítulo XI

Passava das dez da noite. Carmen, como se de repente acordasse de um pesadelo, vê-se na rua quase deserta, filho pela mão, caminhando apressada, prestes a correr, no medo de ser seguida. Olha para trás. Ninguém! Tenta acalmar-se, respira fundo, abotoa o sobretudo do seu menino, levanta-lhe a gola, que a noite esfriava. Uma vergastada de ar frio no rosto ainda quente, trouxe-a de súbito à realidade. Para onde iria?... Agora, a prima Lurdes estava a quilómetros de distância, e sua mãe talvez no primeiro sono, induzido pelo comprimido que tomava mal anoitecia. Não queria perturbá-la, contar-lhe o sucedido, sobrecarregá-la com um sentimento de culpa. Além de que Carmen conhecia de sobejo a sua opinião. Dir-lhe-ia, amedrontada: volta para casa, filha, o teu lugar é ao lado do teu marido... Por outro lado, seria o primeiro lugar onde Jorge a procuraria. Subitamente, um táxi. Manda-o parar e dá-lhe o primeiro endereço que lhe veio à mente: a morada de uma colega de emprego. Não era uma colega qualquer. Era uma mulher especial. Mais velha do que Carmen, era madura, inteligente e avessa a preconceitos. Sob os cabelos pintados de louro, sempre impecavelmente encaracolados, existia um cérebro pensante. Sob o corpo elegante, sempre vestido a primor, batia um coração cheio de humanidade, revoltado contra as injustiças sociais, particularmente as que eram cometidas contra a mulher. Este era o retrato de Lucinda, visto por Carmen. De forma superficial e equívoca, a retratavam os outros. As mulheres, por inveja – da beleza, dos “trapos”, da forma ousada como afrontava o mundo. Os homens, talvez por despeito – por não obterem os seus favores. O maior defeito que lhe apontavam os pudicos era o de ter por amante um homem casado – opinião que ela desprezava totalmente. Lucinda entendia de literatura, de história e de política. Carmen, que não pactuava com as tricas e mexericos, assuntos insípidos e vulgares das sérias e bem-casadas colegas, era com ela que mais conversava. Nela apreciava também, o modo como ajudava a família de menores recursos, como incentivava e abonava os estudos dos sobrinhos pequenos. Lucinda nunca casara, não tinha filhos, vivia sozinha. O amante visitava-a duas ou três noites por semana, excluindo, obviamente, os domingos e feriados. E foi a esta mulher que Carmen recorreu. Ela abriu-lhe a porta de sua casa, instalou-a a ela e ao filho o melhor que pôde, apoiou-a e confortou-a. Aqui, Carmen fez uma pausa, para salientar: – Era uma mulher invulgar. Morreu cedo – quarenta e poucos anos – vítima de um ataque cardíaco fulminante. A sua última vontade, que deixou escrita, foi que a deixassem caminhar para o Além da mesma forma que tinha vindo a este mundo, simplesmente nua. Mas, continuemos! No dia seguinte, depois daquela noite angustiante e mal dormida, Carmen levou Pedro à escola e faltou ao emprego. Com as ideias mais claras, constatou que na sua fuga apressada não tinha levado consigo uma única muda de roupa, nem para si nem para Pedro. Nem sequer a mala da escola do menino. Carmo Vasconcelos

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Pela tarde, aproveitando o horário em que sabia seu marido ausente, Carmen dirige-se a casa, a casa que deixara de considerar sua. Solidária, Lucinda acompanha-a. Aí, tenta meter a chave à porta, mas, surpresa das surpresas, a chave não entra. Julga ter-se enganado no andar, no prédio... mas não, era ali mesmo. Jorge não tinha perdido tempo, tinha mandado mudar a fechadura, talvez com medo que sua mulher o roubasse. Prova de que não conhecia a mulher que tinha... tão desapegada dos bens materiais. Por momentos, ficou sem saber o que fazer. Não queria nada daquela casa, só da roupa necessitava. Não era de um dia para o outro que podia refazer o vestuário essencial, seu e de Pedro. Se bem que alguns adereços de cama e de banho também lhe fariam falta... e esses nem sequer tinham sido adquiridos pelo casal; tinha-os levado ela no seu enxoval de noiva. Lençóis bordados, com rendas (algumas tecidas pelas suas próprias mãos), turcos e atoalhados da melhor qualidade, comprados por ela e por sua mãe com a ajuda dos seus ordenados. Mas Carmen nem pensava nisso, levaria apenas o indispensável. Inspiradamente, teve uma ideia. Telefonou para uma firma especializada, alegando que tinha perdido as chaves da residência. Demoraram a chegar. Depois de muitas perguntas e com o testemunho da porteira que confirmou ser ela a dona da casa, não puseram objecções e desbloquearam a fechadura, facultando-lhe a entrada. Carmen respirou, aliviada. O tempo urgia. Porém, pé no “hall” de entrada, deparou-se com outro problema. Seu marido não se tinha limitado a mudar a fechadura da porta de entrada. Todas as portas estavam fechadas à chave, com excepção da cozinha. Carmen desanimou, quase desistiu, mas custava-lhe dar-se por vencida. Felizmente, as portas interiores eram mistas – metade madeira, metade vidro. Munindo-se de um utensílio doméstico, achado na cozinha, não teve outra alternativa senão partir a metade vidrada do quarto onde guardava a maior parte das roupas e, com a ajuda de um banco da cozinha, saltar através dela. Rapidamente, meteu numa pequena maleta apenas as peças de vestuário mais necessárias. Depois, abandonou a casa, sem culpa nem remorso, que a revolta era maior e abafava todos os outros sentimentos. Abafava até as dores agudas de alguns golpes que sangravam, após aquela aventura rocambolesca por entre vidros estilhaçados. Tudo o que queria, então, era começar uma vida nova com o seu filho, em paz, sem conflitos, sem medos, mentiras e dissimulações. Foi a sua primeira tentativa de libertação...

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Passados dias, conversou com Lucinda. Apesar de toda a boa vontade da amiga, mãe e filho não poderiam continuar por muito tempo dormindo no sofá da sala, imiscuindo-se na privacidade daquela que, de coração aberto, lhes tinha dado Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal guarida. O desejo de Carmen era alugar uma casa, mesmo que pequena, mas feitas as contas, não podia por enquanto aspirar a tanto. Havia ainda a mensalidade do colégio de Pedro... E essa era sagrada. Contentou-se, pois, com um quarto alugado em casa de uma senhora só, que morava na mesma rua de Lucinda, e foi esta que lhe abonou o dinheiro para o primeiro aluguer. Pelo menos, teria a amiga por perto, para o caso de surgir qualquer outra necessidade. Além disso, a morada não distava muito do seu local de trabalho, podia ir a pé. O quarto era amplo, luminoso, com uma janela para a rua, alegremente adornada de cortinados coloridos. Mobilado de forma simples, tinha porém o necessário. A cama, vestida de forma muito limpa e graciosa, era ladeada por duas mesas-de-cabeceira onde poisavam candeeiros de “abat-jour” cor-de-rosa. Carmen poderia até ler antes de dormir. Havia ainda um guardavestidos com porta de espelho e uma cómoda com gavetas à qual se encostava uma cadeira. Pedro poderia fazer os trabalhos da escola sobre a cómoda e ela teria onde arrumar as poucas roupas que levara. Carmen transportou a sua parca bagagem e instalou-se, não lhe passando despercebido o ar atónito com que a dona da casa a mirava a si e ao pequeno. Devia haver algo que a senhoria não compreendia, algo diferente das hóspedes que habitualmente a procuravam. Contudo, não fez perguntas e Carmen nada lhe explicou. Pedro pareceu compreender tudo. Estava sereno e não perguntava pelo pai. Embora a mãe não soubesse o que ia dentro dele (nunca sabemos o que verdadeiramente se passa na mente e no coração das crianças), preferiu pensar que bastaria a seu filho o estar junto dela – não era ela, afinal, a sua companheira de todas as horas?... No dia seguinte, já mais organizada, levantou-se cedo, cuidou do seu menino e levou-o ao colégio, como era hábito. De caminho, comprou-lhe uma mochila nova e alguns cadernos. Depois, retomou o seu emprego, como se nada se houvesse passado. Sentia-se tranquila, aliviada, como se lhe tivessem retirado de sobre os ombros um peso do tamanho do mundo. Ao fim da tarde, foi buscar Pedro que, como sempre, correu para ela, risonho. Compraram um pequeno livro de histórias, comeram qualquer coisa numa pastelaria que ficava perto, e recolheram à exígua morada. Uma súbita angústia oprimiu-lhe o peito quando abriu a porta daquele quarto. Parecia-lhe agora tão frio! Nem um objecto familiar... Um quadro, um “bibelot”, um retrato, uma jarra, pequenos nadas que, parecendo esquecidos, à força de nos rodearem diariamente, nos fazem falta quando os não vemos. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Tinha caído a noite, e a noite é mestra em devolver-nos angústias. Carmen sacudiu a estranha sensação que a tomara, recompôs-se, conversou e brincou com o filho. Ele fez a cópia, as contas, arrumou a mochila para o dia seguinte. Pedro continuava sem fazer perguntas, sem falar nas tristes cenas que presenciara. Ela também não tocava no assunto, receosa de que se lhe avivasse a memória.

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Círculo do Graal – Pedro, vamos escolher a roupa para amanhã? Podem ser as calças azuis e a camisola de riscas vermelhas. Que achas? – Essa camisola não, mamã! Pica! Quero a do Mickey. – Está bem! – Concordou Carmen. Escolhida a roupa, deitaram-se lado a lado – que a cama era de casal. Pedro ficou contentíssimo. – Agora posso dormir sempre contigo, mamã? – Por agora tem de ser, filho! Não temos outra cama. Mas qualquer dia a mamã arranja uma casa bonita e voltas a ter um quarto só para ti. – Que bom! Vamos ler a história do livro novo? – Só um bocadinho. Lemos um pouco do teu livro, depois a mamã lê o jornal. Entre a leitura e muitas perguntas relacionadas com a história infantil – um valente cavaleiro que salva a princesa das garras do dragão – não tardou que Pedro adormecesse e mergulhasse em sonhos, encarnando talvez o herói do livro que, entretanto, lhe tombara das mãos. Carmen leu o jornal de ponta a ponta. Lamentou não ter levado os seus livros, alguns deixados a meio da leitura; um ou outro “bibelot” de estimação, molduras com fotos... Todavia, depois da chocante experiência que tinha sido a sua ida a casa, nem pensar em lá voltar... O sono, espantado decerto pela estranheza da cama, teimava em não se aproximar. E lá estava ela, de novo, entregue aos seus pensamentos. Como estaria Jorge? E os seus sogros, que já deviam saber do sucedido? E sua mãe, em cuja casa Jorge já a devia ter procurado?... Carmen não podia evitar o estar preocupada com todos eles. Com que surpresa não teria seu marido deparado com os vidros partidos, o roupeiro desfalcado - prova da sua impotência, apesar das medidas drásticas rapidamente tomadas?... Por fim, o cansaço venceu-a. Dormiu inquieta, teve pesadelos, até que a manhã seguinte chegou. Já no emprego, depois de ter deixado Pedro no colégio, telefonou a sua mãe. Se ela nada soubesse, nada lhe contaria ainda, para não a preocupar. Mas, logo percebeu que ela já sabia de tudo, quando Diolinda, aflita, lhe pergunta: – Onde estás? E o menino? Porque não vieste para cá? – Calma, mãezinha! Eu estou bem e o menino também. Depois te conto tudo. Mas como soubeste?... – O teu marido já cá esteve. Julgava encontrar-te aqui. E eu sem saber de nada... Tens de voltar para casa, filha, ele está desolado. Tem aquele feitio mas gosta de ti... Chorou agarrado a mim, pedindo que te fizesse regressar. E eu sem saber onde estavas... A princípio, nem me acreditou, julgava que eu estava a mentir, tive de lhe jurar pela alma do teu padrinho, que Deus o tenha em descanso!

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Círculo do Graal – Não te preocupes, mãe, assim que eu puder vou ter contigo e falamos melhor. Fica descansada. Decerto, Jorge não contara à sogra – quando se agarrou a ela a chorar – que tudo tinha acontecido por causa da sua visita. Jorge era assim mesmo, tal como Carmen diz: “Um cordeiro que não se lembrava (ou fingia?...) de ter vestido a pele do lobo.” – Ou seria um lobo que vestia a pele de cordeiro quando lhe convinha?... – Pergunto eu. Carmen estava firmemente decidida a seguir um novo rumo. Chegado o fim da tarde, dirige-se apressada à escola de Pedro. Fariam como no dia anterior, o tempo iria passando – o tempo que tudo resolve – e, aos poucos, as suas vidas tomariam novas directrizes. Porém, chegada à escola, uma terrível surpresa! O avô tinha ido buscar o menino mais cedo. Cortou-se-lhe a respiração. Não podia sequer insurgir-se contra a vigilante, pois ela conhecia bem Simão, era costume ele ir buscar o neto algumas vezes. Carmen disfarçou o nervosismo, fingiu ter-se esquecido dessa combinação com o sogro, e despediu-se como se tudo estivesse bem. Já na rua, teve de encostar-se a uma parede. As pernas recusavam-se a caminhar. A custo, andou meia dúzia de passos, entrou num café, sentou-se, pediu uma água. Não sabia que fazer. A chantagem estava armada! Eles conheciam o seu ponto fraco! Como numa batalha, captada a fraqueza do inimigo, toma-se a vitória como assegurada. Carmen já adivinhava! Mas não tão rápido! A peleja prometia ser dura, porém, não se entregaria sem luta! Decidiu-se. Iria a casa dos sogros, contaria o que verdadeiramente se passara. Depois de saberem a verdade, não podiam deixar de dar-lhe razão! Ainda tremendo, pôs pés ao caminho. Não consegue recordar-se hoje de quem lhe abriu a porta. O marido, que temia encontrar, não estava lá. O sogro também não. A casa parecia deserta. Não via a sogra, nem o pequeno Pedro. Desvairada, entrou casa adentro, perguntando: – O meu filho? Onde está o meu filho? Depois de correr várias divisões, foi descobrir avó e neto escondidos numa varanda. Rosalina, agarrando e escondendo o menino, como se o defendesse de um malfeitor, berrou: – O menino não sai daqui! Ponha-se na rua! Carmen ficou atónita. Então, ela é que era a malvada?... Fez menção de pegar o menino. Rosalina agarrava-o, apertando-o contra os joelhos, e, colérica, só dizia: – Daqui não o leva, já disse! Rua! Rua! Pedro, aprisionado à avó, não dizia palavra, não chorava, não fazia um gesto. Então, Carmen chamou-o, docemente, estendo-lhe os braços: – Pedrinho, vem cá, vem à mamã... Carmo Vasconcelos

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Mas aí, Carmen ouviu, estarrecida: – Não! Não! – Gritou o menino, agarrando-se mais à avó.

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A este passo da narrativa, eu que escrevia sem parar, não querendo fazer uma única pergunta das mil que me queimavam a língua, para não perturbar o livre jorrar das memórias – tristes memórias! – Vi-me compelida a exclamar: – Que coisa horrível, Carmen! E ao mesmo tempo tão estranha! Que teria passado pela cabeça dessa criança, naquele momento?... Ou que blasfémias lhe teriam dito da mãe?... – Naquela hora, minha amiga, não pensei nisso. Aquela inesperada reacção do meu filho – tão meigo, tão apegado a mim – o facto de ele não me querer, deitou-me por terra, deixou-me sem acção. – E não fez mais nada? A Carmen, sempre tão decidida... – Há horas, minha amiga, em que a emoção se sobrepõe à acção. E, felizmente, naquela hora foi assim. Porque se a acção se tivesse sobreposto... teria sido, terrível. Eu teria derrubado e desfeito aquela mulher, como uma leoa que defende a cria. Mas, um polícia oculto, alertou-me para a minha condição humana e travou a acção antes que ela eclodisse... E eu… Fugi! Fugi porta fora, galgando a quatro e quatro as escadas daquele quarto andar que já tantas vezes antes fora albergue das minhas lágrimas. Naquele lugar, não mais as derramaria! – E depois, Carmen? Continue, por favor.

~~~/~~~ – Depois?... Vi-me na rua, completamente perdida. As lágrimas, até aí corajosamente contidas, rolavam agora sem destino, como eu. Tinha-me preparado para enfrentar uma batalha – não para deixar um refém, um refém pelo qual eu daria a própria vida. E aquelas lágrimas antigas, saltando uma barreira de quase trinta anos, marejaram os olhos da minha narradora, e tombaram, de novo, sobre a mesa. – Perdoe-me, Carmen, se a minha interrupção foi a causa... Carmen não me deixou acabar.

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Círculo do Graal – A causa...? Não, minha amiga! Essa foi há muito tempo atrás. De vez em quando até me faz bem chorar. De contrário, julgaria ter moído para sempre essa válvula de escape, à força de tanto a ter usado. Tenho até um poema que, a dado passo, fala do benefício dos nossos prantos. É um poema longo, recordarei apenas esta estrofe: ………. Desnuda-te de medos e de raivas e banha-te na chuva expurgadora das tuas lágrimas! Dissiparás as névoas e lavar-te-ás do pó da tua angústia! ……….. Mais do que o cansaço, a emoção tinha tomado conta de nós, pelo que decidimos ambas parar por aqui. E para não partirmos carregando connosco o peso de tão acres recordações, ficámos ainda um pouco mais, falando de coisas mais alegres. Enquanto bebíamos um café e fumávamos um cigarro, Carmen mostrou-me as últimas fotos do neto Diogo, e o seu semblante desanuviou-se ao falar-me da alegria que lhe dá vê-lo crescer, ouvir as suas primeiras palavras, desfrutar das suas graças diariamente renovadas. Combinámos continuar no dia seguinte. À despedida, afaguei-lhe as mãos e abracei ternamente aquela mulher – uma fortaleza que esconde uma terra ardente, um rio de sensibilidade, um jardim de poesia.

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Capítulo XII Depois de ter deixado seu filho como refém, vítima inocente de uma guerra entre inimigos do próprio sangue, Carmen sentiu que sem ele a sua liberdade seria como a pior das prisões. Vencida, regressou ao seu quarto alugado, única e muda testemunha da sua gelada solidão. Era uma sexta-feira, recorda-se bem. Não podia contar sequer com o ombro da sua amiga Lucinda; ela tinha ido passar o fim-de-semana com a família, para fugir, também ela, à sua solidão. A Carmen não apetecia ver ninguém. Queria isolar-se na sua mágoa, buscar no silêncio a solução para recuperar o seu filho. Foi, talvez, o pior fim-de-semana da sua vida. Para explicar o que sentiu naqueles dois dias, que lhe pareceram anos, não consegue encontrar agora as palavras certas, cabendo-nos a nós imaginá-las! Chegou a segunda-feira, derrubada, sem qualquer solução imediata. Seu sogro, apesar de tudo, o mais afável dos inimigos, procura-a no local de trabalho. Conversam. O seu discurso era semelhante ao de Diolinda: “Deves voltar, é a tua casa, o teu marido, blá, blá, blá...”. Ante a peremptória recusa de Carmen, Simão pretende que ela lhe diga pelo menos onde está a morar. Ela nega-se a dizer-lho. Simão oferece-lhe ajuda monetária, que ela recusa definitivamente, afirmandolhe que irá contactar um advogado para resolver pela justiça a posse de Pedro, ideia que já começara a germinar na sua cabeça. Simão não tem outra alternativa senão ir-se embora, sem poder levar a Jorge a resposta que ele desejava, e não tivera coragem de colher pessoalmente. Um advogado era agora a ideia fixa de Carmen. Mas como conseguir o dinheiro para lhe pagar os honorários, as despesas para pôr um processo de divórcio em marcha? Um processo que teria de ser litigioso, pois com Jorge o comum acordo era impensável. Teria de esperar muitos meses até poder juntar a quantia necessária, e talvez anos para que tudo ficasse resolvido... Passados dois dias, a ânsia de rever o seu menino leva-a ao colégio de Pedro. De lá regressou decepcionada. O menino não mais voltara à escola. Amargurada, telefona ao sogro: – Por que não vai Pedro para o colégio? – Só irá quando voltares para casa! – Foi a resposta. Mais uma preocupação para Carmen, mais uma nuvem a toldar o já tão carregado céu dos seus dias. Como poderia ela suportar meses ou anos – nem imaginava quantos – até que a situação se resolvesse legalmente? Carmen começava a fraquejar. Não era mulher de sustentar raivas nem revoltas, e a falta que sentia do filho contribuía para as minorar. Mais dois ou três dias se passaram. Um fim de tarde, tinha ela acabado de regressar ao seu refúgio, quando é surpreendida pela voz da dona da casa que, batendo à porta do quarto, lhe diz: Carmo Vasconcelos

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– Menina, está ali um sujeito que pretende falar-lhe. – A mim?... Quem seria?... Sobressaltou-se. Ninguém sabia onde ela morava... Era Simão, que lhe tinha seguido os passos e vinha de novo convencê-la a voltar. Desta vez, trazia argumentos de peso: – Tens de voltar, Carmen. O menino não está bem. Não quer comer, não dorme, está até com um pouco de febre... Anda, pega as tuas coisas, tenho o carro lá em baixo. A fortaleza de Carmen, já minada, enfraquecida, desmoronou de vez. Como um adversário vencido pela fome, entregou-se; pela fome que sentia do filho e atormentada pela ideia de que também ele podia estar faminto dela. Nem discutiu. Em minutos arrumou as poucas coisas. Simão foi descendo com a maleta enquanto ela dava uma explicação à dona da casa. – Era o meu sogro. Uma boa pessoa! – Eu já tinha percebido que o lugar da menina não era aqui. Faz bem em voltar para casa, para o seu marido. Têm um menino tão lindo... Zangas todos os casais têm, depois passa, é assim mesmo... Enquanto descia a escada, Carmen pensava: “Por que não sinto eu como toda esta gente que acha tudo isto natural? Serei eu que estou errada?...” Errada ou não, o certo é que voltou. Era a segunda vez que, como um condenado, caminhava para o cadafalso. Mas, o poder abraçar seu filho, devolvê-lo à escola, ao conforto do seu quarto e dos seus brinquedos, ver o brilho feliz dos seus olhos, compensou-a da sua fraqueza. Por outro lado, Jorge, como já era hábito depois de uma fuga de Carmen, parecia um outro homem. Cobriu-a de beijos e abraços e chorou a seus pés suplicando-lhe que lhe perdoasse. Carmen, ao invés de lhe agradarem essas manifestações, detestava ver-se como objecto da sua humilhação, e já não conseguia definir os seus próprios sentimentos. Eles giravam num indecifrável remoinho, girândola de impotência e raiva, desprezo e pena. Durante uns tempos, Carmen foi menos infeliz, dona daquela felicidade ilusória que nos é dada pela bonança que se segue a uma tempestade. Jorge esforçava-se por contrariar a sua natureza, mas ao mais leve descuido lá subia ela à cena. Era como um aspirante a actor que nunca consegue desempenhar em pleno as personagens que se propõe encarnar, e falha em todos os papéis.

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Círculo do Graal Nele alternavam agora os momentos de depressão e de euforia. A seu pedido, Carmen volta a reunir algumas amizades antigas. Mas Jorge bebia demais e, pretendendo à viva força impor a sua razão a todas as outras, as conversas sociais sobre política, religião, ou meramente sociais, sempre originavam discussões empolgadas que a deixavam nervosa e, por vezes, envergonhada, pela tibieza dos argumentos de seu marido. Além de que, o seu olhar, ostensivamente vigilante e desconfiado sobre ela, dissecando as suas palavras, perscrutando-lhe os menores gestos, também lhe criava um insuportável mal-estar em público. Jorge não se encaixava nas regras de convívio em sociedade. Se as reuniões eram em sua casa, as visitas cedo se despediam e raramente voltavam; se eram eles que se deslocavam, acedendo a convites, Jorge, desajustado a tudo e a todos, logo pressionava Carmen a retirarem-se mal tinham chegado. De regresso a casa, a discussão era inevitável. Ela, porque se revoltava contra as suas atitudes, no mínimo, deselegantes. Ele, tentando justificar-se pela forma intencional como ela olhara ou sorrira para este ou aquele, a maneira atrevida como cruzara as pernas, ou a provocante roupa que vestira, imagens que só existiam na sua imaginação doentia. Daí aos vocábulos grosseiros e ofensivos era um passo. Carmen cortou com as amizades! Era menos um motivo de discórdia. De resto, ela já receava mover-se, dizer uma palavra em falso, fazer o mais simples gesto; em suma, já tinha medo de ser ela própria. Sozinhos andavam melhor. Saíam com Pedro aos sábados e domingos pela manhã, levavam-no a andar de bicicleta ou a qualquer parque infantil, tomavam um café numa esplanada. Carmen descobriu que pela manhã Jorge era mais tratável, menos conflituoso. Pouco ou nada conversavam, mas quanto menos falassem, melhor. Pelo menos, não discordavam. Após o almoço, depois de beber mais do que comia, Jorge já não era o mesmo. No pico da euforia provocada pela bebida, queria sair, visitar parentes e amigos, mas ela já sabia o que a esperava quando a curva da euforia tomasse o caminho descendente. E recusava-se a sair. Então, Jorge dormia horas sem fim. Carmen tratava do arranjo da casa, fazia bolos, inventava receitas culinárias. Tricotava camisolas para o marido, para o filho, para ela. Pelo menos, entregue a essas artes, dava lastro à sua criatividade. Aquele não era ainda o tempo da poesia. Pequenos versos vinham-lhe à mente, mas ela não os segurava. Partiam sem que ela os acolhesse. Para que tomá-los em seu regaço, se naquele lar seriam como filhos enjeitados?... E assim iam rodando mais anos, num calendário que há muito tinha perdido a cor. ~~~/~~~

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Capítulo XIII

Recebo um telefonema de Carmen. A sua voz não me soa clara como de costume. Parece longínqua. – Viva, minha amiga! – Mas que bela surpresa, Carmen! Vamos encontrar-nos? – Estou um pouco longe, só se quiser vir ter comigo... – Bem me parecia. E onde está, posso saber? – Acabo de chegar a Viana do Castelo. – Mas que inveja! Desta vez nem me avisou... Pensa demorar-se? – Apenas três ou quatro dias, não mais. Serão os suficientes para afogar más lembranças nas belezas que me esperam. Mas agora tenho de desligar, chegou o meu táxi. Contactá-la-ei logo que chegue a Lisboa. Não conte comigo antes da semana que vem! Quando eu ia para dizer: “divirta-se!”, já a ligação tinha caído. Cerca de uma semana depois, já Carmen estava de volta e sentada à minha frente numa esplanada de Lisboa. O dia estava excessivamente quente. Notei as suas faces rosadas e um brilho acrescido nos seus olhos. – Vejo que está feliz, Carmen! – É verdade, minha amiga. Sabe que ainda me espanta a capacidade de renovação que a mãe natureza nos dá? Acho até que já descrevi em versos essa minha admiração. ………. Como me espanta ainda este meu espanto Pla vida que tanto me deslumbra, Esta visão perene e sem quebranto, Minha visão de estrelas na penumbra… ……….. – E o que é que lhe falta dizer ainda em poesia, Carmen?... – Boa pergunta! A mesma que faço a mim própria. O que me faltará dizer ainda? – Vamos então ao trabalho? – Lanço ansiosa – Nem pensar, minha amiga! Hoje não me apetece desenterrar memórias. Prefiro falar-lhe das belezas de que ainda me sinto cheia. Carmo Vasconcelos

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– Boa ideia! Fale-me então da sua viagem, estou curiosa! Animada, Carmen começa a falar, daquele modo consecutivo e envolvente que a caracteriza e que eu tão bem conheço. Ao mesmo tempo, vai-me mostrando fotos e postais – outra das suas paixões. E, enquanto a minha mão corre laboriosa sobre o papel, deixo que a minha mente viaje pelos lugares recentemente percorridos pela minha narradora. Viana do Castelo! Com ela, elevo-me sobre paisagens de sonho, onde a terra e a água se beijam e o rio se abraça ao mar, rodeado de uma flora densa e multicor. Subo no velho funicular, que guincha de dor ao rodar nos carris cansados, para nos conduzir pela montanha íngreme até ao pico do Monte de Santa Luzia. Aí, um deslumbrante miradouro presenteia-nos com uma paisagem arrebatadora que, seja pela altitude, pela beleza, ou por ambas, nos deixa sufocadas. Junto dele, não podemos deixar de visitar o magnífico templo, monumento de inspiração românica e bizantina, onde, majestosa, reina Santa Luzia, padroeira dos olhos. Depois, descidas das alturas, entramos em palácios e igrejas, recheados de imagens raras e vitrais preciosos, e ficamos extasiadas perante as talhas requebradas dos altares da Igreja de São Domingos, e frente ao magnífico retábulo da setecentista Capela da Senhora do Rosário. Muito atenta à contagiante narrativa de Carmen, continuo a imaginar-me, tal como ela, a passear pela Praça da República – um redondel de Arte – onde, muito juntos, convivem há séculos, os Paços do Concelho, de traça medieval, e a Casa da Misericórdia, monumento renascentista. E quase posso sentir nas mãos a frescura do não menos altaneiro chafariz, orgulhosamente postado no centro da praça. De seguida, acompanho-a num verdadeiro roteiro histórico-cultural até Ponte de Lima que, no reinado de D. Fernando, era ponto seguro da defesa do norte do país. A unir as margens da Ribeira Lima, a ponte de traça romana mostra-nos os seus vinte e sete arcos, enquanto o nosso olhar se estende pelas douradas areias laterais que servem hoje de praia a turistas e veraneantes. Mas não nos perdemos pela praia. Perdemo-nos, sim, pela Igreja Matriz, que remonta a 1359; pela Igreja da Misericórdia, do século XVIII; pela Capela da Senhora das Penhas de França, mandada edificar em 1613 para que os presos pudessem assistir à missa. E, para que não se diluíssem da nossa memória, fotografámos imagens sagradas, policromos vitrais, retábulos de rua protegidos por pequenas portas gradeadas. Desta curta viagem, ficou a Carmen muito para ver e um já saudoso desejo de voltar. E a mim, uma saudável inveja de não tê-la acompanhado de verdade. Cogitando nisso, não posso deixar de perguntar-me como é possível certas pessoas cruzarem os céus e transporem oceanos em busca de belezas longínquas, sem nunca chegarem a conhecer as preciosidades que encerra o nosso Portugal. Talvez porque é mais “chique” dizerem que foram a Paris, a Londres, ao Japão... Carmo Vasconcelos

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Carmen estava certa. Aquele dia brilhante não era dia para desenterrar memórias... Depois desta digressão pela actualidade de Carmen, merecidamente muito mais feliz, a continuação do nosso romance ficou adiada para dias mais cinzentos. ~~~/~~~

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Capítulo XIV Estamos agora numa tarde melancólica de início de Outono, daquelas em que as folhas secas jazem pelo chão e as árvores se dobram, envergonhadas da sua nudez. Carmen está comigo, desta vez para nos transportar ao ano de 1972, que o mesmo é dizer, aos seus trinta e quatro anos. Ainda mantinha, à data, rosto e figura de adolescente. Pouparam-lhe as agruras da vida, marcas exteriores. Nem uma ruga de preocupação na testa, nem um vinco de rancor ou ódio na sua boca. Os mesmos olhos negros, talvez mais profundos, o cabelo escuro e farto, agora mais curto e encaracolado, a pele ainda macia e rosada, a mesma silhueta bem torneada – uma figurinha de Tanagra, como dizia um seu amigo, estudante de História de Arte. De Luanda chegam notícias do pai e dos irmãos. Carlos, homem de cultura multifacetada, estava bem estabelecido com um escritório de consultadoria financeira; Vítor Manuel, um autodidacta, chegara já a Comissário da P.S.P., estudos feitos a pulso, concursos ganhos com tenacidade e sabedoria. Tem mais duas filhas, ao todo três filhas e um filho. Alargando o núcleo familiar em terras africanas, a eles se juntara, ultimamente, Eduardo com a mulher e os dois filhos. Este, colocado numa empresa de aviação. Todos sabemos como era tão mais fácil, naquele tempo, viver nessas paragens: abundância de empregos e de habitação; carne, peixe e fruta a dez reis de mel coado; marisco ao preço da chuva. Praias de sonho, clima quente que os frios agrestes não alcançavam. Dessas farturas e maravilhas, falavam as cartas de seus irmãos, ao mesmo tempo que incitavam: “Por que não vêm para cá? Viveriam muito melhor!” Carmen falava disso a seu marido, ele tão frustrado no emprego que tinha... Mas, como já é sabido, Jorge tinha profunda aversão a mudanças, e mal ela encetava o assunto, logo ele partia para a agressão verbal: – Lá estão eles a meter-te ideias na cabeça! Se estão bem que fiquem por lá. Deixar a minha terra para ir viver com pretos? Nunca! Vai tu, se é isso que queres... Obviamente, não era isso que Carmen queria. Queria uma vida melhor para os três, um emprego onde Jorge ganhasse mais e se sentisse mais realizado, um futuro mais risonho para Pedro, menos preocupações e trabalho para si mesma, que, além do emprego, se via ainda sobrecarregada com as mil tarefas domésticas, por não terem condições para pagar a uma empregada. E o querer estar perto da família era um desejo lícito, um chamamento do sangue. Mas, seu marido nunca a compreenderia, pelo que Carmen deixou de abordar essa hipotética mudança. Um dia, chega uma carta de Vítor Manuel: “Vou a Lisboa, a uma Junta Médica, tratar da minha reforma por doença.”

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Círculo do Graal Carmen não ficou preocupada. Sabia que o irmão, embora com algumas queixas provenientes dos anos de Índia e de África, não estava tão doente assim. O que na verdade se passava era que ele não suportava mais a violência da profissão na Polícia. Vítor Manuel chega a Lisboa. Traz presentes para a família – esculturas e quadros de arte indígena, marfins, objectos característicos da terra. Da família que restava por cá, Carmen era quem tinha uma casa com melhores condições para o hospedar, até porque morava no centro da cidade, o que lhe facilitaria as muitas voltas que ele teria de dar. Carmen falou a Jorge. Seriam poucos dias, não se justificava deixar o irmão ir para um hotel. Com alguma estranheza sua, Jorge concordou. Decerto, pela supremacia que julgava obter, hospedando o cunhado – pensou ela, que se habituara a estudar todas as reacções do marido. E como ela o conhecia bem... Durante uns dias, poucos, as coisas correram menos-mal. Juntavam-se apenas ao almoço. Depois, Vítor saía para tratar dos seus assuntos e recolhia tarde. Jorge dera-lhe até a chave de casa. Um dia, à mesa do almoço, Vítor Manuel, acostumado à calma e dengosa vida africana e pasmado de como Carmen, com apenas duas horas para almoço, vinha a casa, fazia compras de caminho, pegava Pedro na escola, confeccionava a refeição, punha-a na mesa, voltava a levar o filho à escola, e seguia de novo para a Repartição... comentou: – Mas a vida aqui é uma escravidão! Jorge não gostou do comentário e logo recalcitrou qualquer coisa pouco agradável. Vítor Manuel, continuou: – Não o disse por mal, Jorge, mas em Luanda vocês viveriam muito melhor, sem esta canseira, este estresse. Por que não pensam nisso? Ajudarei no que for preciso. Com o cargo que tenho, gozo de influências, facilmente ambos arranjarão emprego e, entretanto, poderão contar com a minha casa. Vítor tentava ser cordial e amigo, contudo, as suas palavras soavam a Jorge como a pior das ofensas. Irritado, mudava imediatamente de assunto e, à noite, a sós com Carmen, enchia-lhe os ouvidos com as habituais discordâncias e inconveniências. Uma noite, Vítor voltou mais cedo. Jorge e Pedro já dormiam, mas Carmen ainda estava de pé, à volta com os habituais afazeres domésticos. Puseram-se à conversa. Conversas de família, algumas intimidades da vida privada de Vítor – divergências com a mulher, em parte originadas pela sua decisão de sair da Polícia, em parte, pela sua recente separação e escolha de nova companheira com quem já vivia, etc. – Desabafos entre irmãos. Entretanto, Vítor pediu a Carmen se lhe passava a ferro as calças do fato que pretendia vestir no dia seguinte. Ela anuiu prontamente: Carmo Vasconcelos

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– Não me custa nada! Sabes como a nossa mãe me ensinou cedo a passar as vossas calças – com um pano bem molhado, mantendo o vinco certinho... Rindo ambos daquela e de outras recordações, Carmen abriu a tábua de engomar, ligou o ferro, e começou a passar, maquinalmente, as ditas calças, enquanto continuavam a cavaquear, felizes por estarem de novo juntos. De súbito, foram interrompidos pela voz azeda de Jorge: – Que barulho é este? Não se pode dormir? E, voltando-se para Carmen: – Hoje não tens sono? – Vou já! Estava só a acabar de passar estas calças ao meu irmão – respondeu ela, quase a medo, pressentindo o que iria seguir-se. – E eu vou dormir, que amanhã tenho de levantar-me cedo. Boa noite! – Disse Vítor, retirando-se à pressa. Sem lhe responder, Jorge já tinha voltado costas e regressado à cama. Daí a pouco, Carmen deitou-se também. Porém, seu marido não dormia nem a deixava dormir. Discutiu com ela horas sem fim. O problema de Jorge eram as calças... Carmen nunca conseguiu perceber bem o porquê. Seria que aquela vulgar peça de roupa, que ela tratava por tu desde menina, representava para ele um símbolo sexual?... Pelas frases incoerentes que foi obrigada a ouvir, foi o que lhe pareceu! O certo é que já não houve “amanhã” para a cavaqueira dos dois irmãos. Cedo, pela manhã, e sem o conhecimento de Carmen, Jorge deixa um bilhete no quarto do cunhado e sai de seguida sem qualquer conversa. O que dizia o bilhete, ela já não recorda totalmente, mas era qualquer coisa do género: “Arranje outro lugar para ficar e não volte mais!” Carmen só veio a saber desse recado, quando Vítor Manuel lhe telefonou para a Repartição a contar o sucedido e dizendo-lhe que aproveitaria a tarde para ir buscar a mala da roupa, pois não queria voltar a encontrar-se com Jorge. Depois entregaria as chaves a Carmen. A Junta Médica tinha corrido bem, já estava aposentado. Nos dias que faltavam para o regresso, acomodar-se-ia em casa da mãe. Carmen ficou para morrer. Era demais! Jorge deixara de novo cair a máscara! E deixá-la-ia cair tantas vezes quantas tentasse usá-la, disso ela tinha a certeza! Dessa vez, nem discutiu com o marido. Chegada a noite, como ela nada dissesse, Jorge pergunta, num tom mesquinho, execrável: – O teu irmãozinho já deve ter ido fazer-te queixinhas... Já deves saber que o pus na rua... Carmo Vasconcelos

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– Fizeste bem! – Respondeu Carmen, impassível, a raiva roendo-lhe as entranhas. – Então, é porque te sentes culpada! Sabes que tive razão!... – Claro! Tens sempre razão! – Continuou Carmen, no mesmo tom. – É para aprenderem a não fazer de mim palhaço! Ela não deu resposta e a conversa morreu por ali. Todavia, todos sabemos como as raivas caladas, sustidas, crescem, tomam vulto dentro de nós, podendo levarnos às maiores loucuras... ~~~/~~~

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Capítulo XV

No dia seguinte, Carmen pediu umas horas de dispensa no Serviço e encontrou-se com Vítor Manuel. Ele, ausente há tantos anos, nada sabia da sua vida, a não a ser o trivial que ela lhe podia contar nas cartas. Ele lembrava-se, vagamente, dum jantar de Natal na casa materna, quando Jorge, ainda namorado de Carmen, tomado de ciúmes, se tinha levantado da mesa e saído porta fora sem qualquer justificação. Recordava-se um pouco melhor de, alguns anos atrás, durante uma das suas licenças graciosas no Continente – já Carmen casada e Pedro nascido – terem dado um passeio na companhia das respectivas famílias. Almoçaram fora de Lisboa e, durante o almoço, sem que alguma vez viessem a saber a razão, Jorge tinha abandonado a mesa familiar e feito a sua refeição sozinho, numa mesa separada. De nada mais se recordava e nada mais sabia. Era muito pouco! Carmen pô-lo ao corrente dos factos mais marcantes, inclusive da sua recente tentativa frustrada de libertação. – Mas isso é doença, mana! Devias convencê-lo a ir a um médico! Jorge devia tratar-se! – Exclamou Vítor. Carmen esboçou um sorriso desalentado, para dizer: – E julgas que já não tentei? A propósito das neuras, das alterações bruscas de humor, do sono e do mutismo em que se refugia... Sabes o que sempre me responde? … “Tu é que precisas tratar-te, não regulas bem!...” – Mas não podes continuar a viver assim! Posso ajudar-te a ir para Luanda com o Pedro. Aí não te seguirão, não farão chantagem com o teu filho, terás uma família para te apoiar e proteger. – Sei lá?... Deixa, pode ser que as coisas melhorem – respondia Carmen, mais para sossegar o irmão do que convencida das suas próprias palavras. Passados dias, Vítor Manuel partiu. Porém, na mente de Carmen ficara uma ideia que não parava de a perseguir: “E se eu fosse?... Mas como faria? África é tão longe... Como arranjaria eu o dinheiro para as passagens?... Não, é melhor não pensar nisso! ” Daí em diante, as coisas pioraram entre o casal – talvez porque Jorge sentiu que dessa vez tinha exagerado, tinha ultrapassado os limites, ou porque teve a noção de que tinha feito um inimigo, um inimigo que estava, evidentemente, do lado da sua mulher. Ficou mais desconfiado do que nunca. As cartas do cunhado eram sempre motivo de discussão. Apossara-se dele um medo secreto, como que uma inexplicável premonição. Ele já sabia do que Carmen era capaz em situações extremas... Por certo, não esquecera as portas violadas, os vidros partidos, o roupeiro meio despido... Mas, ao invés de rever o seu comportamento, melhorá-lo, tornava-se cada vez mais incoerente, desmiolado e agressivo. Senão, vejam: Carmo Vasconcelos

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A determinada altura, Carmen teve de ficar uns dias de cama, devido a hemorragias abundantes provenientes de um ciclo menstrual desregulado. O que não era de admirar, na tensão nervosa em que andava... Mas Jorge duvidou de que fosse apenas isso, dando a entender, por meias palavras, que ela tinha era feito um aborto - decerto, fruto de uma ligação ilícita?... Mas essas desconfianças já não a espantavam, eram o “pão nosso de cada dia”. E, mesmo de cama, foi ela própria quem teve de telefonar para um Centro de Enfermagem para que lhe fossem dar a injecção urgente que a médica prescrevera. Quando tocaram à porta, Jorge foi abrir. Carmen apercebeu-se de que algo não estava a correr bem. Apurando o ouvido, escuta a voz do marido: – Não, não, não é aqui! Chamámos uma enfermeira, não um enfermeiro! Uma voz de homem tentava explicar que era ele quem estava de turno, não tinham uma enfermeira disponível, só no outro dia de manhã. Jorge foi irredutível: – Pois esperaremos! E Carmen, não obstante o mal-estar que pedia cuidados imediatos, teve de esperar até ao outro dia de manhã, para que uma enfermeira, arvorando um sorriso irónico, lhe fosse dar a injecção. Esta, uma das muitas cenas que faziam Carmen duvidar da sua lógica e que, simultaneamente, iam delapidando a sua paciência. Já não se calava, revidava as ofensas no mesmo tom e na mesma linguagem, os actos com violência semelhante. Foi o que aconteceu uma noite, quando Jorge, a meio de mais uma habitual discussão, resolve alvejá-la com uma lindíssima peça de arte indígena, frágil, porque feita de um tipo de massa semelhante ao barro. Tinha sido oferecida por Vitor e Carmen gostava imenso dela. Era um crucifixo, onde, esculpido, pendia curvado o Cristo agonizante. Carmen desviou-se, e a peça espalhou-se pelo chão, feita em pedaços. Cega, pela brutalidade do marido, o desrespeito por seu irmão e por ela própria, o sacrilégio e a heresia contra a imagem sagrada… ela perdeu as estribeiras. E, enquanto houve fragmentos palpáveis daquilo que tinha sido o símbolo do sacrifício de Cristo, a sua mão, como que movida pela mão Divina ultrajada, fez deles projécteis e, com uma fúria que desconhecia possuir, uma fúria feita de muitas fúrias contidas, foi arremessando a esmo, contra a cabeça, o corpo, as pernas, daquele homem que a apunhalava nos sentimentos mais profundos – como se Carmen pretendesse assim destruir de vez o seu carácter aberrante! E só parou quando naquele chão não havia senão migalhas de barro e pó. Com elas se misturava, volátil, invisível, uma outra poeira de argila esboroada – massa de mulher doce, pacífica e paciente, a desfazer-se aos poucos, para dar lugar a uma mulher agressiva, descontrolada e vingativa.

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Círculo do Graal Mas Carmen ouviu a voz dessas poeiras invisíveis. Elas falaram-lhe: – Cuidado, mulher! Teu homem não há-de melhorar nunca, tu é que sem dares conta te vais degradando, te igualando a ele. Os indícios eram claros! Carmen retomou a consciência e jurou a si própria não mais se deixar arrastar, cegar ao ponto de vir a dar por si moldada de barro sujo e lamacento! Curiosamente, passadas semanas, aquando de limpezas maiores, Carmen descobriu num canto, atrás de um móvel, qual relicário oculto, a cabeça intacta do seu Cristo, que parecia dizer-lhe: “Como vês, continuo aqui!...”

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Capítulo XVI

E aqui continuamos nós também, eu e Carmen, para prosseguirmos a sua história. Não vale a pena fazermos estas perguntas que nos queimam a língua: “Como aguentou, Carmen? Porquê? Por que se submeteu tanto tempo a uma tal violência?” E não vale a pena, porque todos nós sabemos que a violência doméstica, calada pelas mulheres há trinta anos atrás, quando não havia ainda quaisquer instituições de apoio à mulher, se mantém ainda hoje, e, lamentavelmente, mostra indícios de aumentar. Segundo as estatísticas mundiais, não depende do extracto social, das condições financeiras, do grau de instrução, nem do maior ou menor desenvolvimento do país em que ocorre. E a maioria das mulheres, seja por medo, vergonha, ou por outras razões pessoais, ainda prefere calá-la, apesar das portas que já (ou só agora...) começam a abrir-se para as apoiar. Portanto, o melhor é continuarmos, sem perguntas.

Pedro ronda agora os oito anos. Anda na terceira classe. Já sabe ler. A mãe compra-lhe livros, o mais educativos possível; sobre a vida dos animais, das plantas, a vida de pequenos garotos que se tornaram homens célebres, tais como: Pedro Mascagni, de Livorno, filho e neto de padeiro, completamente inábil para a arte dos seus antecessores. A sua paixão era a música. Contra a vontade do pai, conseguiu frequentar o Conservatório, onde estudou ao lado de Puccini. Juntos passaram fome, mas juntos sobreviveram e tornaram-se homens célebres. E Pedro Mascagni compõe, além de outras belas obras, a famosa ópera “Cavalaria Rusticana”, considerada a sua obra-prima; Ou João Segantini, órfão, paupérrimo, com fome de pão e de afecto. Para ganhar umas moedas, apascentava ovelhas e suínos, saciando os olhos e o coração nos cumes majestosos dos seus Alpes, na claridade azul do lago de Garda, nos verdes que cobriam os vales na Primavera. O desenho era a paixão de João. Para escapar à pancada que levava da única irmã que tinha, fugiu para Milão. Aí pediu esmola, vagabundeou, até que um monge lhe deu ajuda. De dia ganhava o pão como servente de pedreiro, à noite frequentava a Academia de Belas Artes. Apesar dos grandes sofrimentos, João Segantini tornou-se um pintor famoso, conhecido como “O pintor da montanha”; Ou, ainda, Tiago Gusmão, siciliano, filho das melhores famílias da cidade. À saída do colégio, ainda rapazinho, perdia-se pelos bairros pobres, tentando compreender e consolar os mais desfavorecidos. Dava a camisa e os sapatos aos mendigos. Aos dezasseis anos, comunica ao pai a sua vontade de se tornar jesuíta. Perante a oposição inexorável do Sr. Gusmão, Tiago espera pacientemente. Faz-se médico, mas em vez da brilhante carreira que o esperava, exerce a profissão, gratuitamente, entre os pobres e camponeses. Mais tarde, contra todas as vontades, recebe as ordens sagradas de “Capuchinho”, leigo e mendicante. E é ele Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal que pede de porta em porta, especialmente durante a gravíssima crise de cólera de 1866, recolhendo tudo o que pode para distribuir por becos e ruelas. Carmen não pretendia fazer de seu filho um menino-prodígio; desejava apenas incutir nele qualidades de vontade, perseverança, amor ao estudo, sentimentos nobres e altruístas. Jorge tinha outros gostos: comboios eléctricos, aviões telecomandados, pistas de automóveis – brinquedos caríssimos que, no fundo, eram mais para si próprio – brinquedos que desejara na infância e não tivera... Carmen não o reprovava; achava até que eles podiam funcionar como um outro pólo no desenvolvimento de Pedro. Só desaprovava, por vezes, porque receava que tais brinquedos pudessem acarretar, pela sua grandeza, maiores exigências futuras por parte da criança. Mas, para Jorge tudo tinha de ser em grande. Ridículos se lhe afiguravam os presentes singelos, os gestos delicados, as atitudes subtis, as ofertas simbólicas. Palavras de ternura num cartão especial, uma flor, um livro, eram, para ele, insignificâncias. Outros valores havia que Carmen se esforçava por manter vivos: o Natal, os aniversários, o dia da mãe, o dia do pai. Jorge não ligava a mínima a essas tradições. – Para que é isso? Fantochadas que só servem para encher o cu aos comerciantes – costumava dizer. Porém, Carmen ia teimando, teimando sempre, para que Pedro não se tornasse um ser egoísta, despido dessa capacidade de amor que é a dádiva ao “outro”, desses pequenos gestos que fazem a felicidade alheia e moldam a generosidade dos seres que os praticam. E não deixava nunca de explicar a Pedro o significado de cada dia especial, induzindo-o a participar dele. Juntos, compravam a lembrança para o dia do pai e para o dia do seu aniversário. Carmen fazia um jantar e uma sobremesa especiais. Para o dia da mãe e do seu próprio aniversário, procedia de igual modo, fazendo ver a Pedro que uma simples flor, um cartão rabiscado de palavras de carinho, bastavam para a deixar feliz. E se Carmen, não obstante todos os seus esforços, não conseguiu fazer de seu filho um ser plenamente realizado, em termos de diplomas e êxitos profissionais devido à doença que o vitimou na adolescência – conseguiu, talvez, o mais importante: Hoje, Pedro, homem feito, mostra um carácter generoso e sensível, avesso a qualquer tipo de vícios ou violência, preocupado com as injustiças sociais e profundamente crente em Deus e nas “verdades” místicas que sua mãe lhe veio incutindo. Sempre usa de gestos simples e carinhosos para com os entes queridos, de uma convivência amistosa com quem se cruza, e, nutrindo uma ternura constante, uma dedicação muito especial por sua mãe. Alguma coisa valeu a pena! ~~~/~~~ Carmo Vasconcelos

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Capítulo XVII

As cartas de Vítor tornam-se mais frequentes. Para evitar os já demasiados conflitos conjugais, os dois irmãos combinam que a correspondência passe a ser remetida para o emprego de Carmen. Vítor manifesta agora claramente a sua preocupação face aos factos de que tomara conhecimento. Quer saber como andam as coisas e reforça a sua oferta de ajuda. Ao mesmo tempo vai contando as grandes alterações que imprimira à sua vida. Dera-lhe uma volta de 180º, não só no aspecto profissional como na vida particular. Aposentado do posto de Comissário de Polícia, é agora gerente de uma firma que comercializa barcos de recreio e, após um casamento de quinze anos, separa-se definitivamente da mulher e assume uma nova relação. Rondando a casa dos quarenta, ainda não totalmente despido do seu idealismo, Vítor dá um passo decisivo, julgando ter chegado ao fim da sua “Busca do Amor Impossível” (tema de um livro de poemas da sua autoria). O tempo viria a mostrar que a sua busca não terminara aí. Mas isso é complicado demais para desenvolver aqui e agora. Seria a maldição que pesava sobre a família desde o tempo de seus avós, ou viria ela de eras mais remotas, de essas que não alcançamos?... Carmen, apesar de gostar muito da cunhada, nunca criticou o irmão. Afinal, ele era apenas um entre milhões de seres que têm a coragem de provar que um casamento não é uma cruz que tenhamos de arrostar por toda a vida, de como nenhuma árvore é tão sólida que se não possa abater, independentemente do número de rebentos, e com muito mais propriedade, quando essa árvore está doente, as raízes contaminadas de moléstias incuráveis... Toda a família de além-mar estava agora a par das provações que Carmen atravessava. Além de Vítor, até o pai, avesso a correspondência frequente, lhe mandara uma bonita carta, oferecendo-lhe o seu apoio. Carlos, que não usava darse ares de paternalista, falava-lhe do seu jeito, meio filosófico, meio humorístico, dos quais não abdicava mesmo em face de grandes tragédias: “Coragem, Carmen! Deixa essa terra onde cada vez é mais difícil viver. A nossa terra é qualquer parte do mundo onde possamos sentir-nos livres e felizes! Vem! Ficamos à tua espera!” Um sonho começou a germinar lentamente no íntimo daquela mulher sofrida. Desta vez, tinha uma enorme família a apoiá-la. Era como voltar aos seus tempos de menina – amada e protegida! E como ela se sentia carente da seiva das suas raízes... Por que não matar nelas a sua sede de afecto?... Todavia, Carmen debatia-se entre o sonho e o pesadelo. As suas noites eram povoadas de anjos e demónios, pastos verdes e pântanos viscosos, ilhas floridas e cárceres nauseabundos. Anjos levavam-na nas asas por sobre mares azuis e céus inundados de estrelas, mas logo, demónios rubros de raiva cruzavam os ares, brandindo tridentes que a espetavam, dilacerando-lhe a carne, furando-lhe os olhos, cuspindo línguas de fogo que a sugavam, disputando-a aos anjos puros e diáfanos. Vítima de uma luta angelical e demoníaca, via-se como um refém esgarçado; cérebro, coração e vísceras divididos; uma parte de si antegozando as delícias do paraíso, a outra prestes a arder nas fogueiras do inferno. Carmo Vasconcelos

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As cartas de Vítor são agora insistentes. Já instalado com a nova companheira, era esse lar que oferecia a Carmen e a Pedro. Segundo ele, a casa, uma vivenda, tinha até um jardim. Uma criada e um cozinheiro negros encarregavam-se das lides domésticas. E, dizia, também: “Já falei de ti a um casal amigo. Ele é engenheiro, director de uma fábrica, e está a precisar urgentemente de uma secretária competente. A esposa, professora, é dona de um colégio onde Pedro poderá retomar os estudos logo que chegue. Portanto, emprego para ti, escola para Pedro e casa para ambos, já não constituem problema. As passagens de avião, enviartas-ei logo que te decidas...” Tudo caminhava depressa demais! Carmen não era de decisões rápidas, irreflectidas, a não ser em situações drásticas, a quente, como sabemos. Mas a frio, pesava e media demais. E de tanto pesar e medir, actos, consequências e efeitos, adiava, protelava ao máximo a difícil decisão. Por outro lado, era torturada por uma auto análise constante, uma voz interior que lhe segredava: “Não passas de uma pensadora, uma teórica, mesmo sabendo que te assiste a razão, não avançarás nunca, deixar-te-ás morrer tentando decifrar os teus enigmas, desenredar os teus novelos, estática perante o próprio sofrimento; perseguindo a utopia de achares soluções que não magoem ninguém. Uma fraca, é o que tu és!!! Escudas-te com as perseguições de teu marido, as chantagens sobre o teu filho, defendes-te com sentimentos de pena, comiserações vãs – pérolas a porcos! – só porque te recusas a admitir que talvez ames o homem que te humilha, possível verdade que te rebaixa aos teus próprios olhos, ou então, porque te tomas por um génio capaz de modificar naturezas humanas menos perfeitas, seres primários no início do caminho, acreditando que água mole em pedra dura...; ou ainda (o mais provável), porque és cobarde, medrosa, preferes o mal conhecido, a paz podre, a correres riscos... Não te iludas! És tu, tu que tens de modificar-te, ou nunca romperás o círculo de sombras que te aprisiona, jamais conseguirás ver claro!” Carmen reage. Cerra os ouvidos, tranca a ferros a sua voz interior – vozinha incómoda a dar-se ares de omnisciente. Corre a cortina dos pesadelos e deixa levedar o sonho. Veste a couraça de gelo que lhe petrifica os sentimentos e deixase arrefecer até ao âmago da consciência. Agora, sim! Está apta a raciocinar, fria e calculadamente! Irá! Está decidido! Escreve ao irmão, comunicando-lhe o seu propósito firme. Ele adverte: “Vê lá, Carmen, pensa bem! Está em jogo o empenhamento da minha palavra com o meu amigo que te guardará o emprego, a vaga reservada no colégio para o Pedro, o custo elevado das passagens… Não podes desistir à última hora! Terás de tratar das vossas vacinas – as vulgares mais as da cólera e febre amarela. Terás de deslocar-te ao único sítio onde estas últimas são feitas: o Hospital do Ultramar, em Belém. E sem que Jorge suspeite, ou deitarás tudo por terra. Só depois de teres feito tudo isso, poderei marcar as viagens.” Cartas iam e vinham diariamente. De cá partiam mil perguntas e dúvidas, de lá chegavam respostas, indicações precisas, palavras de força e ânimo. O processo tinha iniciado a sua marcha – às tantas, irreversível. Carmo Vasconcelos

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Mas Carmen, uma vez decidida, não era de voltar com a palavra atrás, e começa então a maquinar na sombra, às ocultas do marido. Às vezes, a couraça de gelo de que se revestira abria fendas e ela sentia-se como um criminoso sem escrúpulos que arquitectava, fria e premeditadamente, o plano do seu crime. Esses degelos ocasionais penetravam-na, provocavam-lhe arrepios gélidos por todo o corpo, e um medo terrível se apossava dela, um medo de que os olhos a traíssem, uma palavra solta a atraiçoasse. Não podia partilhar com ninguém os seus projectos nem os seus receios, todo o cuidado era pouco... Nem com a própria mãe, aliás, muito menos com ela! E isso era o que mais lhe doía; teria de abandoná-la, sem um beijo, uma despedida. Como ela iria sofrer... A pouco e pouco, corajosamente, foi dando os passos necessários. E que passos... Dispensas pedidas no Serviço sob vários pretextos, corridas ao colégio para buscar Pedro, táxis tomados à pressa, horas intermináveis nas filas para as vacinas. Depois, o regresso a casa, o jantar cozinhado e posto na mesa à hora habitual, o semblante sem a mínima alteração... Carmen sentia-se sufocada. Pesava-lhe tanta dissimulação. Abriu-se com a prima Lurdes. Ela não merecia ficar na ignorância de passo tão importante na vida daquela menina que ela vira crescer, tornar-se mulher, e que tantas vezes confortara. Lurdes deu-lhe coragem e, abraçadas, verteram as lágrimas de uma saudade antecipada. Viagem marcada, de Luanda chega a última carta de Vítor. As mesmas palavras de apoio e incentivo, repetidas até à exaustão, e as instruções para Carmen levantar, nesse mesmo dia, os bilhetes na TAP, em Lisboa. O voo seria no dia seguinte, às cinco da tarde.

~~~/~~~

Carmo Vasconcelos

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Capítulo XVIII

Depois de uma noite de insónia e sobressaltos, Carmen levantou-se mais cedo do que o costume. Olhou a manhã carregada de nuvens. Era uma sexta-feira de um daqueles dias de Novembro, tristes e cinzentos, o último que passaria em Lisboa. Por momentos, deixou-se invadir pela atmosfera melancólica. Jorge e Pedro dormiam ainda. Aproveita para certificar-se de que os bilhetes de avião e os boletins de vacinas estão no lugar onde os escondera. Recapitula de memória os passos estudados. Marca com os olhos um ou outro “bibelot” de estimação que há-de incluir na bagagem apenas no último momento. E dá início à rotina de todos os dias: o café da manhã, o preparar de Pedro, o alinhavar do almoço. Depois, a saída apressada para o emprego, acompanhada de Jorge e do pequeno, que sempre levavam à escola, de caminho. Nove horas: Carmen assina o Ponto e entra ao Serviço. Meio-dia: Sai da Repartição, apanha o Metro, vai buscar o filho à escola, prepara a refeição; Jorge chega, almoçam. Treze horas e trinta minutos: Saem de casa, deixam Pedro no colégio, apanham o Metro. Como sempre, Carmen sai na paragem da Avenida, Jorge segue para o Rossio. – Até logo! – Dizem ambos, maquinalmente, como era hábito. Catorze horas: Carmen não chega a entrar no Serviço. Muda de gare e volta a apanhar o Metro. Chega a casa, abre uma mala de viagem e enche-a com algumas peças de vestuário, já prévia e mentalmente escolhidas – apenas roupas leves, de Verão, porque em fins de Novembro queima o calor em Luanda; três ou quatro molduras com fotos queridas; meia dúzia de livros; minúsculos objectos de valor sentimental. Depois, muda de roupa, ajeita o cabelo, mete na carteira os bilhetes e os outros documentos necessários, pega na mala de viagem e, sem uma lágrima, deixa para trás o passado de má memória. Na caixa do correio, coloca uma breve carta para Jorge: “Desta vez é inútil seguires-me, pois, quando leres esta carta já estarei muito longe, onde não poderás alcançar-me. Verás que é melhor assim, jamais seríamos felizes juntos!” Quinze horas: Carmen toma um táxi e diz ao motorista: – Para o Aeroporto, por favor! Mas primeiro, temos de fazer uma pequena paragem nessa rua à esquerda, para eu apanhar o meu filho no colégio. – Com certeza, minha senhora! – Vieste tão cedo, mamã!? Onde vamos? – Pergunta Pedro, surpreendido ao ser encaminhado para o táxi. Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal – Vamos dar um passeio, filho, vou levar-te a ver os aviões! – Que bom, mamã! E posso andar neles? – Não sei ainda, vamos ver... Carmen trabalhara, até poucas horas atrás, numa Direcção Geral ligada à Aviação Civil. Conhecia vários pilotos. E Pedro sabia isso. Muitas vezes tinha pedido à mãe para o levar a andar de avião, mas nunca se proporcionara, apesar de ela ter sido diversas vezes convidada a fazê-lo. Na verdade, sempre sentira um certo medo... Mas, naquele momento, não podia pensar nisso. Dezasseis horas: Chegam ao Aeroporto. Pedro, ao ver a mala de viagem, pergunta: – Para que é essa mala, mamã? – Pelo sim, pelo não, a mamã trouxe alguma roupa, porque se for possível darmos a tal volta de avião, aproveitamos para fazer uma visita aos tios e ao avô que estão em Luanda. Podemos até ficar lá de férias algum tempo... – Mas eles estão muito longe!... – E tu não sabes como os aviões voam rápido? Carmen estudava as respostas a dar ao filho. Não queria enganá-lo nem dizer-lhe a verdade exacta. Precisava de o ir preparando lentamente, para que ele fosse absorvendo a realidade aos poucos. E debatia-se entre essa preocupação e o seu próprio medo. Um medo feito de muitos medos... Temia estar a ser seguida, receava que à última hora algum documento faltasse ou estivesse incorrecto; que não deixassem embarcar Pedro sem uma autorização do pai; que lhe dissessem: “Onde pensa que vai? Já fomos avisados. Volte mas é para casa, que o seu lugar é ao lado do seu marido. Onde já se viu roubar um filho ao pai?...” Trémula, julgava ver em todos os olhares uma acusação, ou um brilho de escárnio, pela mulher que ousava ser livre... Amedrontada, olhava furtivamente em todas as direcções, sentindo-se como uma ladra que tenta romper as malhas da justiça. De súbito, um aceno. Porém, um aceno tranquilizador. Era a prima Lurdes que, de longe, lhe enviava beijos e um gesto de coragem, como que a dizer-lhe: “Vai! Vai! Segue em frente!” Carmen ganhou alento, aos poucos foi dominando os seus terrores e, menos insegura, cumpriu todos os trâmites pedidos rotineiramente a quem embarca. Pedro não parava de fazer perguntas: “Para que é isto? Para que é aquilo? Então, sempre podemos ir, mamã?” E exultava com a ideia de ir ver um avião de perto e por dentro.

Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Finalmente, a apresentação dos documentos. – Pode seguir, minha senhora! Está tudo em ordem. Boa viagem! Carmen respirou fundo! Esqueceu até o velho medo de voar! Dezasseis horas e quarenta minutos: Carmen ajuda o seu menino a tomar lugar no carro de pista que os levará até ao Boeing 747. Pedro, extasiado, parecia um boneco articulado, cabeça para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Enquanto o veículo fazia o trajecto pela longa pista, viam-se aviões que levantavam voo, outros que aterravam, outros ainda, parados em serviço de manutenção. E todos eles pareciam a Pedro, monstros enormes, comparados com os seus aviõezinhos de brinquedo, ou mesmo com aqueles que estava habituado a ver rasgarem o céu. Dezassete horas: Ei-los a bordo. Carmen, nervos esfarrapados, está à beira das lágrimas. Um nó na garganta embarga-lhe a voz quando vê fechar-se, atrás de si, a porta do pássaro de aço que a levará, irremediavelmente, para o desconhecido. – Senhores passageiros, queiram apertar os cintos, por favor, vamos descolar dentro de minutos! Convosco o Comandante N... que deseja a todos uma óptima viagem! Daí a pouco, o monstro a jacto elevava-se no ar. Para os nossos dois protagonistas, uma iniciação! Porém, cedo se deram conta de que viajarem num Boeing 747 era como estarem calmamente sentados no salão de um grande hotel. Apenas uma breve sensação de vácuo no estômago faz Carmen lembrar que aquele “hotel” se encontra suspenso no espaço. Acomodando Pedro, respondendo às suas mil e uma perguntas, mirando ela própria tudo o que a rodeava, rapidamente perdeu a noção de que estava no ar. Hospedeiras e comissários de bordo movimentavam-se numa azáfama, dando explicações: os assentos que podiam reclinar-se para dormir, as máscaras de oxigénio para despoletar em caso de necessidade, os botões para ouvir música através de auscultadores, a pequena lâmpada individual para leitura. Ao fundo do salão, um ecrã gigante. Nele seriam projectados filmes, a seguir ao jantar. Pedro estava encantado. Logo quis accionar botões, colocar os auscultadores – o que o aquietou por um tempo e o fez deixar Carmen em sossego para se entregar aos pensamentos que a assaltavam em turbilhão: “Jorge já teria chegado a casa? Costumava ver sempre o correio antes de subir, já teria lido a carta?” Uma estranha sensação se apoderou dela, um aperto que lhe doía no peito. E continuava a interrogar-se: “Que fizera? Que seria dele agora, tão vulnerável, tão inseguro?” Pegou num livro. Inútil! Não conseguia concentrar-se. Puxou conversa com Pedro:

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Círculo do Graal – Estás a gostar da música? Não preferes ler um dos teus livros? Às sete vão servir o jantar, depois vai haver cinema! Mas Pedro, já meio ensonado, preferiu continuar com a novidade dos auscultadores. Carmen atordoava-se, tentando apagar da memória tudo o que ficara para trás, como se não soubesse que traumas, estigmas e recordações, viajam connosco nem que seja até ao fim do mundo, colam-se a nós como uma segunda pele, até ao fim da vida! Como escreveu Horácio: “As penas montam à garupa e galopam connosco”. O mesmo quis dizer Pérsio, quando escreveu: “Por acaso o cão que, após longos esforços, logra por fim escapar, não leva quase sempre consigo um pedaço da sua corrente?” Dezanove horas: O jantar começa a ser servido. Pedro, a instâncias da mãe, comeu apenas duas ou três colheres de sopa e uma fruta, e ela, porque tinha de dar o exemplo, fez o mesmo. Já lá iam duas horas de viagem. Carmen levantou-se, foi ao quarto de banho, espreitou através do vidro duma janela. Um arrepio gélido percorreu-a até à alma. Lá fora, um vácuo de vida, uma vastidão de nada. Nem mar nem céu. Apenas um absoluto irreal de brancuras impalpáveis. Como a existência se lhe afigurou efémera! Como lhe pareceu pesada, suja e torpe, a cruz terrena! Por segundos, desejou fazer parte daquele mundo puro e diáfano – ser irmã da nuvem que deslizava ao sabor da aragem adivinhada... De súbito, a voz de Pedro chamou-a à realidade. Uma hospedeira trouxera-o até ela. – Mamã, quero fazer chichi! Posso espreitar à janela? Por que é que as janelas não se abrem? Carmen esqueceu nuvens e devaneios. Seu filho era, indubitavelmente, o cordão invisível que a prendia à Terra! Voltaram aos seus lugares que, situados na ala central do avião, ficavam, felizmente, longe das pequenas janelas denunciadoras da fragilidade humana perante a imensidão do Universo. Pedro ainda perguntou: – Mamã, falta muito para chegarmos? – Não, querido, já falta pouco. Não tardou que Pedro cedesse ao cansaço de tanta novidade e emoção. Adormeceu de mão dada com a mãe e aconchegado ao seu peito. Também aconchegados a Carmen, porém bem despertos, os mesmos pensamentos torturantes: “Jorge já deve ter lido a carta... Decerto correu a contar aos pais... Nem deve ter jantado... A minha mãe também já deve saber...!” E como lhe pesava dar-lhe mais esse desgosto!

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Círculo do Graal Vinte e uma horas: O filme, entretanto posto a correr, tomou a dianteira na sua mente. Carmen enredou-se na trama do argumento, refugiou-se na pele da protagonista, riu e chorou com ela, lutou com a rival, beijou e fez amor com o galã apaixonado, até que, exausta, adormeceu. Uma e quinze da madrugada: Carmen acordou sobressaltada com a potente voz do comandante, que se fazia ouvir através dos altifalantes: – Senhores passageiros, dentro de quinze minutos aterraremos no aeroporto de Luanda! Ainda terão tempo para contemplar a maravilhosa panorâmica nocturna sobre a baía. De seguida, regressem aos seus lugares e apertem os cintos, por favor! Foi um prazer viajar convosco! O comandante N... despede-se, desejando a todos uma boa-noite! Passageiros de pé formavam fila junto às janelas laterais. Carmen pegou Pedro ao colo. – Acorda, Pedro, estamos a chegar! Vem ver! A visão nocturna da baía de Luanda encheu-lhe os olhos de uma beleza indescritível. Era então aquela, a nova terra-mãe que calorosamente lhe abria os braços?... Era uma e quarenta e cinco da madrugada, hora de Lisboa, quando Carmen pisou, pela primeira vez, o solo africano. A noite, fechada e quente, envolveu-a no seu amplexo cálido e aqueceu-lhe o sangue. E as suaves vozes de um silêncio misterioso e murmurante, entoaram promessas de degelo à sua alma amargurada. Vítor Manuel e a companheira já os aguardavam. E quente como a noite, foi o seu abraço apertado e fraterno.

~~~/~~~ – Bravo, Carmen! Finalmente conseguiu! – Exclamei, batendo palmas e dando largas à emoção que dificilmente contivera até aí. Carmen olhou-me com ar melancólico e enigmático. – Palmas, minha amiga?... Só se forem para si! Pela paciência que teve em me escutar e pela habilidade com que soube pôr ordem nas minhas palavras revoltas e dispersas, nos meus sentimentos conturbados. Quanto a eu ter conseguido?... Bem, digamos que venci uma batalha, o que, como sabemos, não equivale a ganhar a guerra... E com estas palavras, Carmen deu por finda a sua longa narrativa.

Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal E eu, sua fiel ouvinte, só posso despedir-me de vós, leitores, com um poema dela própria, dessa mulher-mãe, mulher-coragem, mulher-poeta, a quem chamámos “Carmen”.

A UMA ACTRIZ ENTRE UM MILHÃO

Eu te saúdo, mulher de coragem, que ousaste encetar nova viagem, malas vazias, mãos cheias de nada, deixando para trás a paz apodrecida, a farsa de bairro mal representada, a que só os cobardes chamam vida! Eu te saúdo, actriz, palhaço meu irmão, que ousaste soprar luas em bolas de sabão, abandonando um palco que contigo não diz, que te deste o direito de sonhar e ser criança, de aspirar outro ar, renovar a tua esperança, acreditando que podias ser feliz!. Eu te saúdo, actriz entre um milhão, que ousaste recusar-te à exibição da peça desgastada e sem interesse… Que te entregaste de alma e coração a um novo papel que não esse... Actriz, sim! Mas nessa peça, não!” ~~~/~~~

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Círculo do Graal

EPÍLOGO

E Carmen não ganhou a guerra! Luanda não era longe o bastante... Viveu, ainda, mais vinte e três anos com o seu marido – ao todo, trinta e dois Invernos. Com ele teve o seu outro filho, Telmo, e somente a “morte”, com o seu poder, único e indestrutível, conseguiu separar Jorge de Carmen. Após a época a que se reporta o final deste romance (1972), Carmen travou muitas mais batalhas, dignas de preencherem as páginas de um novo livro. Saboreou algumas vitórias, é certo, embora, sempre a par de desgostos, desilusões e revezes. Enfrentou doenças e provações dos entes mais queridos, a maior, a mais dolorosa, a doença de seu filho Pedro (já abordada resumidamente nas páginas findas) e, por pouco, a “morte” não lhe roubou também o irmão Eduardo. Porém, inexoravelmente, levou-lhe a mãe, o pai, as velhas e queridas tias. Mais recentemente, em 1995, seu marido, e, por último, a sogra Rosalina, deixaram também este mundo. Ambos exalando o último suspiro nos braços de Carmen. Hoje, os dois filhos, o pequeno Diogo, os cinco irmãos vivos e a prima Lurdes, além de dezanove sobrinhos, não permitem que Carmen seja uma mulher triste e solitária. E a escrita, que finalmente perfilhou, é para ela mais uma fonte de alegria. Como alegria imensa são os amigos que granjeou através dela. A “nossa” Carmen é hoje uma mulher serena e tranquila. Aprendeu que a “morte” (palavra que ela faz questão de escrever entre aspas) não existe, não obstante o desaparecimento do corpo físico, pois não é mais do que a transição da alma para um plano de consciência diferente, do qual haveremos de retornar, inúmeras vezes, para prosseguirmos a Lei Cósmica da Evolução. Acredita também que cada Vida é aprendizado e experiência, e apenas uma etapa da pirâmide que escalamos, enfrentando obstáculos e dificuldades, dos quais descansamos de quando em vez, em patamares de alegrias breves. E não perfilha a concepção de “destino ou fatalismo”, antes está ciente de que atravessamos cada vivência, senhores e donos do livre arbítrio de que dispomos, sujeitos, porém, à justa e harmónica Lei da Compensação (ou Karma) que, simplesmente, nos faz colher o que semeamos. E é assim que Carmen e Eu – Verso e Reverso da mesma Medalha – continuamos a subida, apaixonadas pela Dádiva Divina que representa cada Vida Sucessiva, até que a última etapa nos mostre “O Vértice Luminoso da Pirâmide”. _______________________ Lisboa, em 2002 Carmo Vasconcelos

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O Vértice Luminoso da Pirâmide - Vol II  

Romance sobre o quotidiano

O Vértice Luminoso da Pirâmide - Vol II  

Romance sobre o quotidiano

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